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por Rodrigo Constantino
“Muitos valores vieram a parecer antiquados: falar a verdade, manter a palavra. Os bons parecem pertencer aos velhos bons tempos, embora sejam sempre queridos. Se é que ainda há alguns, são raros, e nunca são imitados. Que triste época esta, quando a virtude é rara e a maldade está no cotidiano.”
Tal comentário poderia tranqüilamente ter sido obra de qualquer brasileiro mais atento dos nossos dias. Afinal, a ética foi jogada no lixo, a impunidade anda solta e mentir virou mania nacional. Vivendo nos tempos do “mensalão”, das sanguessugas, do presidente que repete que não sabia de nada enquanto seus principais aliados envolvem-se em escândalos onde ele próprio é o grande beneficiado, não dá para deixar de compartilhar do sentimento do autor que lamenta a triste época, quando a virtude é rara – mais rara que diamante.
Mas o autor do comentário não vive em nossos dias, tampouco no Brasil. Trata-se de Baltasar Gracián, jesuíta espanhol que escreveu A Arte da Prudência em 1647. Neste mesmo livro, Gracián cunhou uma célebre frase que parece ter sido criada ad hoc para os eleitores de Lula: “A esperança é uma grande falsária da verdade”. Quem lembra da propaganda eleitoral de Lula nas eleições passadas, administrada por Duda Mendonça, sabe muito bem disso. “A esperança venceu o medo”, repetia a propaganda enganosa. Nisso que dá abolir o medo, fundamental na vida, para que busquemos mais informações na hora das decisões importantes. Sem medo, podemos pular pela janela e se espatifar no chão. Ou votar no Lula – o que dá praticamente no mesmo.
Mas vamos deixar o pessimismo de lado e focar no aspecto bom da coisa: se em 1647 já era normal este tipo de lamentação, é sinal que sobrevivemos, mesmo com os Lulas da vida. A virtude pode ser rara, ainda mais quando alguém como Lula, mesmo depois de todos os escândalos, lidera as pesquisas e apresenta boas chances de ser reeleito ainda no primeiro turno. Mas ela não é nula! E isso faz toda a diferença do mundo.
Os virtuosos conseguem sobreviver mesmo no meio dos pérfidos, e no final do dia, carregam o mundo nas costas. Parasitas e sanguessugas pegam carona e regozijam-se, como sempre. São maléficos para a saúde da sociedade como um todo, mas não são letais. Os hospedeiros, aqueles que criam a riqueza que será explorada por tais parasitas e sanguessugas, suportam o fardo. O mundo poderia ser infinitamente melhor sem tais exploradores, com certeza. Mas ele não vai acabar por conta dessa gente, por mais que se esforcem para tanto. A vida continua, com ou sem Lula no governo. Muito melhor sem, claro. Mas não vamos esquecer que a época é triste para os virtuosos...
A CULPA É DE TORDESILHAS
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Sebastião Nery (Publicado no site Tribuna da Imprensa)
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SALVADOR - Em 1965, foi criado o município de Anastácio, desmembrado de Aquidauana, em Mato Grosso do Sul, entre Campo Grande e Corumbá. O governador Pedro Pedrossian, adversário do primeiro prefeito de Anastácio, Vicente Medeiros, fez uma estrada ligando Aquidauana a Jardim, mas, por birra, o DER tirou Anastácio do caminho e fez a placa assim: "Rodovia MT-65, Aquidauana/Jardim".
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Anastácio ficou indignada. Houve um congresso de municípios em Cuiabá. Na sessão de encerramento, o prefeito de Anastácio pediu a palavra:
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- Gostaria que mandassem providenciar a escritura do município de Anastácio, já que não é reconhecido nem pelo senhor governador.
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E mostrou uma foto da placa. O deputado René Burbour, aliado do governador, que presidia a solenidade, respondeu:
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- O senhor prefeito tem toda a razão. Eu, inclusive, já escrevi a Portugal, pedindo a escritura do Brasil. Assim que chegar, faremos um desmembramento e mandaremos a sua escritura. A culpa é do Cabral, que nos descobriu, não fez o desmembramento e esqueceu de mandar fazer a escritura.
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Eike e Dirceu
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O playboy Eike Batista e seu lobista José Dirceu estão com ódio dos reis Dom João II de Portugal e Fernando e Isabel de Castela e Aragão, e do papa Eugenio IV, que, no Tratado de Tordesilhas, de 1494, deixaram a Bolívia para os espanhóis. Pensavam que era mais fácil fazer corrupção lá nas bandas do Evo Morales e agora viram que nos governos de Lula e PT é muito mais.
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O Eike havia corrompido um punhado de autoridades bolivianas anteriores e estava construindo uma imensa carvoaria, que ele chamava de Siderúrgica EBX, em Puerto Suarez, do lado de lá do rio Paraguai, em frente a Corumbá, para fazer ferro-gusa queimando a madeira do Pantanal boliviano.
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As leis bolivianas de meio ambiente proíbem qualquer tirada de madeira às margens dos rios. Eike comprou as leis, como compra escolas de samba no Brasil. Mas veio o Evo Morales e pôs o Eike para correr. Ele pôs seu guarda-costa-mor José Dirceu em um jatinho e mandou ir lá negociar. Não adiantou.
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Marina Silva
Na época, os jornais contaram que Eike estava querendo fazer do lado brasileiro o que não conseguiu do lado boliviano: trazer os fornos de sua carvoaria para a outra margem do rio Paraguai, em Corumbá, Mato Grosso do Sul, e queimar o que resta de madeira virgem no Pantanal mato-grossense.
O Eike e o Zé Dirceu estão acostumados a queimar propinas e mensalões pagando corrupção. E a moral do governo Lula e do PT hoje é a dos espertos faturantes públicos Paulo Betti ("não há governo sem as mãos sujas, não dá para governar sem botar a mão na merda") e Wagner Tiso ("não estou preocupado com a ética do PT nem com qualquer tipo de ética"). Mas ninguém acreditava que eles conseguiriam dobrar a ministra Marina Silva, do Meio Ambiente, com todo seu passado e seu penache.
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"Veja"
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Pois esta semana, no "Radar" da "Veja", o Lauro Jardim contou:
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"O ferro de Eike - Sabe aquele projeto de uma usina de ferro-gusa, empreendimento de Eike Batista que deu uma tremenda confusão na Bolivia? A alegação inicial, da turma de Evo Morales, era que havia problemas ambientais no projeto. Mas, na semana passada, foi dada (sic) uma licença ambiental para o mesmíssimo projeto (ou seja, dois fornos de ferro-gusa para 400 mil toneladas por ano) num local distante 8 quilômetros daquele. Mas foi em Corumbá, Mato Grosso do Sul, Brasil"...
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Zeca do PT
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Agora, recebi, de Corumbá, a denúncia com a história toda, gravíssima, mandada pelo jornalista Leonardo Campos, em nome da Associação de Moradores de Maria Coelho, distrito a 40 quilômetros de Corumbá (MS):
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1 - "Mato Grosso do Sul aguarda apreensivo pela decisão da Justiça no caso da doação de um terreno à EBX Siderurgia, do empresário Eike Batista. A EBX recebeu um terreno de 250 hectares do governador do Mato Grosso do Sul, José Orcirio Miranda dos Santos, o Zeca do PT (que está muito guloso e vai deixar o governo levando uma surra de dar bicho), pertencente à EGRHP (Empresa de Gestão de Recursos Humanos e Patrimônio do Estado)".
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Pantanal
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3 - "As questões sociais e administrativas são dois problemas que se somam ao risco ambiental. É uma área com nascentes de água mineral e cujos córregos podem secar, após a implantação da exploração da siderúrgica. Os empresários locais temem que o lobby de Eike Batista (e de seu agora sócio José Dirceu) se sobreponha à lei e aos direitos dos moradores da região". Com a palavra, a ecológica (ainda?) ministra Marina Silva.
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sebastiaonery@ig.com.br,
O BRASIL EM PONTO MORTO
por Guilherme Fiúza, do site NoMínimo
As matérias sobre o programa de governo de Lula para o segundo mandato, apresentado ao país nesta terça-feira, estão partindo todas de uma abordagem equivocada. Começam sempre dizendo o que o presidente pretende fazer nos próximos quatro anos. A regra básica do jornalismo determina que uma matéria deve começar pela informação mais importante (o famoso lead). Portanto, o correto no caso é iniciar a notícia pelo que Lula não pretende fazer.
No novo programa de governo do PT, o mais importante é, disparado, o que não está escrito nele.
Não vai haver, por exemplo, reforma da Previdência. O rombo anual de 40 bilhões de reais que representa hoje o maior problema das finanças públicas vai ficar lá mesmo (crescendo, evidentemente). O governo acredita que não há necessidade de mexer nesse sistema falido.
Não vai haver reforma tributária. A carga de impostos que acaba de chegar à mordida recorde de 37,3% de tudo o que o Brasil produz (cálculo conservador) vai ficar onde está, na melhor das hipóteses. Este cipoal de taxas e contribuições, que explodiu no governo Fernando Henrique e foi incrementado no atual, essa forma desvairada de ajuste fiscal que esculhamba a economia nacional, ficará intacta.
Não vai haver contenção de gastos públicos. As despesas do governo, que vêm se espalhando com a inflação de ministérios e novos cargos de confiança, e que fechou este semestre 14,8% acima do período anterior, continuarão subindo alegremente. O governo diz que a oposição quer cortar gastos públicos para reduzir os programas sociais, e a ministra Dilma já declarou que “gasto corrente é vida”. Ou seja, a máquina vai continuar devorando a mesma fatia do seu dinheiro.
Não vai haver projeto de infra-estrutura. As agências reguladoras, órgãos de Estado criados para despolitizar as regras dos serviços públicos, aparentemente continuarão esvaziadas, como apêndices dos ministérios, usadas como cabides partidários. Como o único dinheiro que pode alavancar a infra-estrutura é o dinheiro privado, pode-se imaginar que o setor continuará à míngua.O programa de governo de Lula tem uma idéia: manter a política econômica de Fernando Henrique, com superávit primário de 4,25% do PIB e metas de inflação. Em time que está ganhando não se mexe. Não obstante, o documento dedica um bom espaço para algo estranho a programas de governo: fazer acusações ao governo anterior. Acusações a que? À política econômica de Fernando Henrique. Eis um documento verdadeiramente irreverente.
O programa de Lula informa que o governo vai priorizar o crescimento econômico. Ótima idéia. Como se faz isso? Eles devem ter a fórmula, mas não revelam. Vai ver, não querem dar munição ao inimigo. Faz sentido.
Outra decisão corajosa: reduzir os juros. Finalmente um governante com peito para realizar essa tarefa. Não está escrito como isso vai ser feito, deve ser para não estragar a surpresa. A única dúvida que fica é que, como até Cristovam Buarque já avisou, juros só caem com o equilíbrio das contas públicas – estas que o programa Lula II resolveu deixar bem à vontade. Talvez o PT vá pedir emprestada a varinha de condão de Heloísa Helena.
Mas nem tudo são palavras bonitas. Há um número no programa: aumento da taxa de investimento de 20% para 25% do PIB. Como se sabe, taxa de investimento é conseqüência direta daquilo que o país consegue poupar. Ou seja: Lula, o homem e o mito, será também o santo padroeiro dos endividados. Vai sobrar mais dinheiro no Brasil. Deus seja louvado.
E é claro que numa peça tão objetiva e contundente não poderia faltar ela, a inimiga de todos os males, a redenção nacional recitada por dez entre dez sociólogos de plantão, a panacéia preferida do público esclarecido: a reforma política. Entre outras medidas salvadoras da moral pátria, como a votação em lista fechada e o voto distrital (esse já quase um mantra), aparece o milagroso “financiamento público de campanhas” – aquela saída genial que distribui dinheiro do contribuinte entre os políticos e desloca o caixa um para a coluna do caixa dois.
Um crítico mal-humorado, com inveja do triunfo iminente de Lula, poderia perguntar por que um programa de governo, isto é, uma plataforma do Poder Executivo, num país com tudo por fazer, está prometendo prioridade para uma reforma que é essencialmente do Poder Legislativo. Evidentemente, uma pergunta dessas, a esta altura, seria inaudível em meio ao estouro do champanhe.O programa de Lula traz ainda, é bom assinalar, duas metas de alta precisão: combate à exclusão e educação de qualidade.
Com um plano de vôo tão minucioso quanto este, talvez o presidente possa até deixar o país no piloto automático e curtir melhor as delícias do paraíso. Não há dúvidas: o ex-operário chegou lá.
Texto Completo
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A FILOSOFIA DAS MÃOS SUJASEditorial do Estado de S. Paulo
30.08.2006



