Adelson Elias Vasconcellos
Na semana passada, nossa soberana, do alto de sua total alienação, declarou que a crise está apenas no noticiário. Esta afirmação, que considero leviana e perigosa, foi dada na solenidade de lançamento do oitavo anticrise pelo governo federal.
A presidente achava que bastaria baixar os juros que, pronto, como num passe de mágica, os problemas de crescimento do País estariam resolvidos. Tanto é assim, que após a sua “guerra santa” contra os juros, e calcada num ampla campanha publicitária de estatais, sua popularidade teria aumentado. Nem tanto, mas vá lá, variou dentro da margem de erro das pesquisas.
Como nos pacotinhos anteriores, já se havia reduzido o IPI apenas para os privilegiados doadores ao caixa do partido, (o resto do país continuou órfão), se reduziu o IOF sobre as linhas de crédito de exportação (que aqui afirmamos ter sido um tiro contra o próprio país), e até se implementara a tal da desoneração da folha de pagamento (também para os privilegiados doadores do partido), se achava que tudo estava encaminhado. Não estava, foi o que se viu. E, contrariando os prognósticos oficiais, tanto do Ministério da Fazendo quanto do próprio Banco Central, o PIB para 2012, já no dia seguinte sofria a sétima redução (isto em apenas módicos seis meses!).
Agora, nem bem começou esta semana, e lá nova redução do PIB para o ano, tornando-se o oitavo redutor num período de tempo tão curto que, nesta altura, já é possível concluir que a previsão inicial não passou de mero chute, muito mais esperança de ser do que realismo do que seria possível alcançar.
Enquanto isto, a balança comercial vê despencar seu superávit semana após semana, tendo no semestre que passou o seu pior resultado nos últimos dez anos. Será que diante de todos estes fatos e números, a presidente não estaria disposta a rever sua visão sobre a crise?
É preciso ser muito alienado para achar que a crise econômica mundial não atingiria, mesmo que de leve, o nosso país. Ora, se foi seu excepcional crescimento, entre 2001 a 2007, que nos conduziu a condição de economia emergente, como não poderia sua retração não nos atingir?
A base em que se fundamentou este crescimento brasileiro esteve sempre na agropecuária, não na industria, que vem perdendo peso desde 2006, pelo menos. E por quê? Por sendo o Brasil um excelente e grande produtor de commodities, agrícolas e minerais, e tendo no mundo todo aumentado seu consumo e também seus preços, o Brasil se beneficiou enormemente deste crescimento de consumo. Assim, a partir da queda no consumo, dada a retração da economia mundial e, em consequência de menores preços, seria consequente o impacto negativo sobre a economia brasileira. Basta ver os números do PIB trimestral e lá encontraremos a agropecuária com a maior queda.
P fato é que a economia brasileira, calcada no consumo e crédito barato, não poderá esperar crescimentos além dos índices pífios que tem experimentado. A fórmula já se esgotou. Como também, dada a pouca poupança nacional, não se pode alavancar este crescimento a partir de investimentos das estatais, que também estão comprimidas em sua capacidade, também por conta do pouco crédito existente no mercado.
Haveria, portanto, dois caminhos: aumentar o volume de investimentos privados em áreas das quais o governo não quer abrir mão, mas que são fundamentais para o país, e o governo aumentar seu volume de investimentos. O primeiro demandaria reformas estruturais que, como sabemos, este governo que aí está, não demonstrou até agora o menor apetite em levá-las adiante. E, para elevar os investimentos públicos, precisaria o governo Dilma mudar suas prioridades, reduzindo gastos correntes, para que houvesse espaço para mais investimentos. E qual é o cenário? Por um lado e por outro, e tomando-se por base os pacotinhos editados semanalmente, não há no horizonte chance alguma do governo mudar a rota. Insiste em uma fórmula que produziu o resultado que produziu, dada a conjugação de diversos fatores que estiveram presentes entre nós num determinado momento. Hoje, aquele quadro não mais se repetirá, e deveriam, deste modo, as autoridades econômicas terem sensibilidade para melhor avaliar tal condição.
Claro que ano eleitoral, e dado o enfoque estratégico com que o PT enxerga as eleições municipais de 2012 em seu projeto de poder, acaba criando um obstáculo quase instransponível para que o país pudesse perseguir estes dois caminhos. Eles deveriam ter sido tomados ainda em 2011, quando nem a crise se aprofundara tanto quanto agora, e a presidente tinha excepcional capital político para encaminhar as tais reformas estruturais. Perdeu-se o momento certo de fazê-lo, e o que é pior: a soberana não demonstra nem dá sinal de ter feito a leitura correta do diagnóstico. Continua receitando remedinhos paliativos, apenas para amenizar a dor, e não para combater a doença que provoca a dor. E neste arrastão, ao que tudo indica, pretende levar com a barriga até que a situação se torne de tal forma crítica, colocando em risco o próprio projeto de poder do partido, que a obrigue a tomar a agir como estadista, e não como mera intermediária e gestora de assuntos partidários.
O Brasil continua, portanto, perdendo tempo e oportunidades que, repito, talvez não se ofereçam tão ricas e oportunas muito cedo.
Para encerrar, um último comentário sobre a entrevista concedida por Monica Baumgarten de Bolle, Sócia-Diretora MBB Consultoria Galanto Consultoria,que, conforme a define o Merval Pereira, “...é uma economista que não receia estar contra a corrente...”.
O fato dela achar que há espaço para aumento de consumo, não ouvi de ninguém, que tal espaço não existisse. Espaço, há sim, contudo, ele não terá mais a força de impulsionar o PIB brasileiro como ocorreu em 2010. As circunstâncias ali convergiram, como afirmo acima, para que o resultado fosse aquele. Esta convergência, porém, não irá se repetir, por mais que o governo edite pacotinhos neste sentido.
Ela cumprimenta o governo pelo fato de ter se dado conta da necessidade de aumentar o investimento público. Ocorre que, entre anunciar um pacote de intenções e o fato realizado, há uma enorme diferença. Basta o que vem acontecendo com o PAC, desde sua primeira edição no governo Lula. Afirmar que pretende milhares de máquinas e equipamentos não representa nada se não houver como empregar e distribuir esta programação. Como o pacote prevê que as compras serão direcionadas para prefeituras e governos estaduais, isto requer negociação, assinatura de convênios e um prazo, por ser ano eleitoral, para tudo isto se concretize.
O nó do crescimento não está em o governo comprar mais, porque isto permanece sendo despesas. Os investimentos que se pedem são educação, transporte coletivo, infraestrutura, segurança, saúde. Neste último, é visível que a rede hospitalar precisa ser ampliada com urgência, na segurança a questão dos presídios continua sendo doloroso, na educação não basta ter quantidade, é preciso haver qualidade, se não o gasto não chegará a se transformar em investimento, apenas mais um gasto.
Sendo o Estado o indutor do crescimento, também se faz necessário uma reforma tributária que não apenas reduza a pesada carga tributária, mas permita que as empresas tenham racionalização efetiva para apuração e recolhimento dos impostos, reduzindo dramaticamente os custos que as empresas precisam manter neste campo, talvez um dos mais caros do mundo.
Ou seja, o país precisa de um projeto coerente, que uma as várias pontas de sua estrutura produtiva, permitindo a massa salarial da iniciativa privada tenha maior crescimento real, até com queda de juros e carga de tributos, as empresas teriam capital de giro bancado com recursos próprios para investirem em aumento de produtividade, tecnologia, e melhores salários. Porque não basta apenas ter muita gente trabalhando, é preciso que a renda individualmente se eleve e, aí sim, sem que o governo precise editar medidas para incentivo ao consumo, ele crescerá automaticamente.
E a pergunta que fica é, tem o governo Dilma um projeto de país atendendo de forma coerente e integrada todas estas questões, ou está reagindo apenas a questões pontuais, sem saber ao certo qual direção tomar e quais objetivos alcançar?

