quinta-feira, julho 11, 2013

Estado emergencial: até quando?

Adelson Elias Vasconcellos

 Em seu discurso a milhares de prefeitos, a presidente repetidas vezes pediu união em torno das ações emergenciais. O ministro da Saúde, Alexandre Padilha, em conversa com a imprensa, várias vezes justificou o pacote totalitário do “Mais médicos” como sendo emergencial.

Numa emergência o objetivo inicial é manter o paciente vivo, mesmo que sua qualidade de vida vá ficar comprometida. Mesmo que não seja o ideal, é preferível ter um do que dois pés, mas manter a vida, do que, querendo preservar sua integridade física,   acabar morto.

O governo petista está aí há mais de dez anos. Saúde educação, em qualquer país do mundo, são serviços de primeira necessidade. E exigem dos governantes ações planejadas. E aí, a única coisa que pode levar ao fracasso qualquer iniciativa do Poder  Público  é a improvisação. 

Pois bem, entra ano e sai ano, na educação parece termos um conjunto de atores falando idiomas diferentes. Vão se entregando pacotes mudancistas a torto e direito, e não há jeito da qualidade de ensino sair da rabeira em que se encontra.  As provas de avaliação dos diferentes níveis de ensino se repetem na exibição destes maus resultados.  Sabemos que os alunos do ensino médio, além da enorme evasão – problema gravíssimo, e até sem respostas - estão cerca de 5 anos em atraso ao conhecimento que deveriam ter para a nível educacional  em que se encontram. Ou seja, o ensino consegue ser tão ruim, que os alunos do ensino médio acabam é desaprendendo, regredindo. Não é à toa que chegamos ao vergonhoso índice de 38% dos universitários  em condições de semianalfabetos funcionais. 

E o que o governo faz? Continua priorizando seus investimentos no ensino superior, quando deveria fazê-lo no ensino fundamental e médio. Esta receita nem é novidade: é a que se pratica em países em que se realizou profunda revolução na educação e a mesma dos países que, nas provas internacionais, atingem as pontuações mais altas.

No campo da saúde, pouco a pouco,  o discurso mentiroso da “saúde quase perfeita” como chegou a proclamar Lula em discurso na ONU, foi cedendo lugar à triste realidade dos verdadeiros pardieiros em que   se encontra grande parte da rede pública. A tal ponto chegou o descaso, que o próprio Judiciário mal consegue dar conta dos inúmeros pedidos de mandados de segurança em favor das internações. E, mesmo com ordem judicial na mão, muitas vezes, a população não consegue atendimento.

As manifestações de junho ofereceram ao governo federal a grande oportunidade dele fazer aquilo que negligenciou nestes anos todos: o desenho de um bom e adequado  plano de ação que atacasse os principais gargalos da saúde pública brasileira. E, mais uma vez, como se conclui das falas da presidente e de seu ministro da saúde, colocou-se o bom e velho plano de gestão no lixo, para buscarmos “soluções emergenciais” que, não raro, quando feitas no improviso e de afogadilho, resultam em tornar os problemas longe de soluções.

O governo insiste em apontar a carência de médicos como o nó central das dificuldades. Até pode ser, mas a mera importação de profissionais, e feitas sem critério algum, sem avaliação do conhecimento, formação e competência, não resolverá o problema da má qualidade. E não se resolverá pela simples razão de que o problema central é de natureza estrutural,  e não de falta de profissionais. 

Nesta edição trazemos um texto da Exame.com em que uma unidade hospitalar está sendo intimada a dar respostas não à carência de médicos, mas à falta de estrutura.

Mas esta unidade hospitalar é apenas um exemplo de que o governo está prescrevendo um tratamento partindo de um diagnóstico equivocado sobre os males que afligem a rede  pública brasileira. 

Há falta de mais unidades hospitalares. Dentre as existentes, a grande maioria carece de espaço físico, de medicamentos essenciais, de equipamentos modernos e em funcionamento. Atacasse aí em primeiro lugar. Dotar a rede pública de mais unidades de atendimento e em condições de oferecer melhores condições de trabalho aos profissionais da área, e se teria melhor dimensão da existência ou não de carência de profissionais.

Além disto, o plano também prevê a abertura de nova faculdades de medicina que se localizarão em áreas mais distantes dos grandes centros. Ok, mas pergunto: haverá número suficiente de docentes capacitados para ocuparem as  disciplinas necessárias para um curso de formação qualificado? Veja-se o caso dos hospitais universitários que, em tese, não deveriam sofrer nenhum tipo de problema  estrutural, e no entanto, não são poucos, para não se dizer a totalidade, que passam por enormes dificuldades de se manterem.

Nenhum bom profissional vai se oferecer para trabalhar em condições degradantes. Nenhum deles vai se submeter em trabalhar em unidades onde falta o básico para prestar um bom serviço. 

Anunciar os bilhões em investimentos como fez dona Dilma, prometendo tantas unidades disto e daquilo, não é plano algum, é um chute no traseiro do contribuinte cansado de ouvir as mesmas promessas. Diria que são as mesmas promessas feitas por Lula e mais tarde pela própria Dilma, quando estiveram enfiados em palanques eleitorais. No caso de Dilma, chega a ser descomunal a diferença entre o pacote de promessas feitas na campanha de  2010 e o que efetivamente foi realizado em dois anos e meio de mandato. 

Um plano com um mínimo de seriedade e comprometimento deveria ser apresentado dizendo que unidades serão construídas, aonde se localizarão, qual o total de investimentos serão realizados,  quais os serviços serão oferecidos, qual o corpo técnico será necessário, salários  e um bom plano de carreira para estes mesmos profissionais . Voltem ao plano do Mais Médicos: onde se lê um mísero parágrafo com tais especificações?

Tudo está sendo jogado para frente, para ainda ser discutido e determinado, como se a vida das pessoas pudesse esperar que o governo cumpra com sua obrigação.

Não há nada ali que se possa concluir como um plano de ação. São apenas promessas. Verdadeira carta de boas intenções. Mas como intenção não trata ninguém...

No plano da formação, o governo justifica os dois anos obrigatórios de “serviço social” como algo que já é feito na Suécia, Inglaterra, Bélgica. Pois bem: por que este mesmo governo tão apressado em copiar modelos lá de fora, não se deu ao trabalho de percorrer as unidades de saúde destes países para avaliar e até comparar com as nossas? Ou até para se informar em que condições estes dois anos a mais são cumpridos? Mais: sequer o governo tem fixado o valor da bolsa que será oferecida ao longo destes dois anos. Fala-se em algo em torno de R$ 10 mil. Na Suécia, além das estruturas serem de primeiro mundo, o valor da bolsa supera a casa dos R$ 80 mil. 

Também no quesito de “mais faculdades de medicina” o plano não passa de mera promessa vazia, como são todos os pacotes do governo petista. Onde serão construídas, qual valor a ser gasto, que tipo de estrutura oferecerão,  qual o corpo docente será necessário, nada disto ali está previsto. Percorram o país e vejam em que condições as "inúmeras" faculdades inauguradas por Lula. E, depois, tentem acreditar que as faculdades prometidas por Dilma serão, ao menos, titadas do papel.

Ora, e querem enfiar goela um plano que nem plano é, e sim mera cartinha eleitoreira de promessas vazias?  Vão se danar!

Uma coisa é abrir o debate e buscar  soluções de consenso para questões que se sabe, de antemão, somente produzirão seus resultados  no futuro. Outra, é querer atropelar o bom senso e o necessário diálogo através de uma medida provisória, onde as regras já se acham estabelecidas, gostemos ou não.  

Dizer que se está desenhando um modelo para futuro é pura balela. Fosse assim, nem a Presidente tampouco o Ministro da Saúde insistiriam no discurso de “soluções emergenciais”. Fossem emergenciais, tratariam de resolver questões de curto prazo, e não impondo mudanças que passarão a valer para daqui a dois anos, e cujos resultados serão sentidos daqui outros nove anos.

Este é um governo que não planeja, que não vai além de prometer. Recomendo a leitura de texto postado nesta edição, do site Contas Abertas. Apesar de já entrarmos no segundo semestre de 2013, este mesmo governo das soluções mágicas e dos discursos fáceis, não conseguiu investir nem 23% do previsto para o ano. Isto é prova de que a lenga-lenga de que se fará isto, se construirá aquilo, de que realizaremos tais e tais monumentos, é pura empulhação.

Sei que, na campanha eleitoral do ano que vem, Dilma vai discorrer longos discursos sobre suas grandezas, sobre novas promessas, sobre conquistas do passado. Contudo, que os brasileiros tenham em mente a realidade que  nos atinge hoje: como se pode confiar num governo que, estando no poder há mais de dez anos, não foi capaz de fazer o que era preciso? Vamos lhes dar novos votos de confiança baseados apenas em promessas? E as promessas do passado, onde ficaram? Em que fundo do baú ficaram esquecidas as cartinhas de boas intenções? 

Chega. Basta. Os governos petistas já tiveram seu tempo para realizar o que se propunham. Além da visível degradação dos serviços públicos, da má qualidade de ensino que só faz retroceder, temos que conviver com uma economia que não avança, com contas públicas maquiadas para esconderem a sua má condução, com infraestrutura degradada e obsoleta,  com marcos regulatórios que mais afastam investidores do que atraem, com uma máquina estatal  inchada, gorda, ineficiente, e cada vez mais pesada para a sociedade que a sustenta, com uma dívida pública em linha ascendente estrangulando cada vez mais a capacidade de investimento do Estado em decadência, com a criação contínua de estatais inúteis que servem apenas para abrigar interesses políticos em detrimento do interesse do país. 

É preciso mudar os rumos que estão sendo dados ao país. Este não é o Brasil que queremos tampouco o país que poderia ser caso os governantes da hora fossem capazes e responsáveis.

Chega de pacotinhos, chega de improvisações, chega de discursos, chega de mau governo. O Brasil precisa dar um basta ao estado emergencial que o PT nos oferece.  Está na hora de sairmos da UTI, até porque os respiradores dali nem funcionam mais. Esquecerem da manutenção porque a verba foi contingenciada.

Gestão pública: a palavrinha mágica chama-se “planejamento”.

Adelson Elias Vasconcellos

No auge das manifestações de junho, quando a gritaria pelo passe livre ou transporte grátis para todos percorreu o país, havendo até quem pedisse a estatização do serviço, alertamos para o fato de que esta conta teria de ser paga. Ora, nem ônibus muito menos motoristas saem de graça. Ônibus não apenas precisa ser comprado, mas têm impostos, combustível, lubrificantes, pneus, reposição de peças e acessórios de desgaste rápido. E os motoristas, cobradores e fiscais tem salários, encargos trabalhistas e benefícios sociais variados. 

Claro que para a garotada que foi às ruas, estes são detalhes que lhes escapam ao conhecimento e domínio. Deste modo, várias foram as vezes em que sugerimos que os prefeitos e governadores deveriam abrir as planilhas de custos e dialogar com a sociedade, demonstrando assim que as tarifas tem que cobrir estes custos. E que, mesmo que fossem reduzidas agora, teriam que ser majoradas mais adiante.

Também se exige que as concessionárias tenham e mantenham um plano de investimentos, necessário e indispensável para a renovação, e se possível, até da ampliação da frota, visando assim a qualificação dos serviços. 

E acusei, como o faço novamente, que prefeitos e governadores jamais deram muito bola para este ponto dos contratos. Jamais fiscalizaram como deveriam o cumprimento de horários, a quantidade e a qualidade dos veículos em circulação e nunca cobraram o cumprimento de metas que todo o bom contrato de concessão deve prever.

Portanto, trata-se de uma inviabilidade a grita por passe livre.  Até porque este é aquele tipo de serviço que seus usuários devem bancar.  A outra opção, é transferir o custo Poder Público, ou para todos os cidadãos, sejam ou não usuários do transporte público. Qual o critério mais justo? 

Reduzir tarifas ou até transferir este custo para o poder público é impor um corte compensatório em outras áreas onde os diferentes governos devem atuar.  Como no Brasil chega a ser impensável imaginar prefeitos, vereadores, deputados estaduais e governadores podarem seus próprios salários, ou o corte se fará nas administrações, menos secretarias, menos assessores e atendentes ou, regra geral, se cortarão investimentos em áreas essenciais como saúde e educação,   por exemplo, o que também é impensável e injusto com os contribuintes.

E já se ouve o alarido de prefeitos se queixando que muitos concessionários estão abandonando o serviço em razão de que, redução e mesmo congelamento de tarifas, sem que os custos congelem na mesma proporção, torna suas atividades inviáveis e insustentáveis.  E para substituir os desistentes,  não se está encontrando interessados. Deste modo, e este foi precisamente o alerta feito aqui, a tendência será a piora na qualidade dos serviços.

Por que chegamos a este ponto? Muitos querem jogar a culpa nos empresários privados que exploram o serviço de transporte.  Errado. Houve, neste caso, uma dupla falha: a primeira, e mais grave, a falta de comunicação e diálogo dos entes públicos  com a sociedade antes de estabelecerem o valor e o percentual de reajuste das tarifas, abrindo as planilhas de custos e exibindo-as para as pessoas conhecerem o que de fato pagam.  Tais planilhas se converteram em verdadeiras caixas pretas.

E a segunda falha está na falta de fiscalização do poder público em fazer com que as concessionárias cumprissem o que estivesse acordado nos contratos. Seja no plano da qualificação dos serviços,  seja na sua ampliação. 

Portanto,  se o empresário deixou de cumprir as metas estipuladas, não se deve apenas acusá-los pela precariedade do que se oferece aos usuários. Mas devemos voltar nossas críticas aos prefeitos e governadores que negligenciaram uma de suas principais tarefas: a fiscalização. 

E agora, como se sai desta enrascada?  Com trabalho sério e diálogo. Os executivos, sejam municipais ou estaduais, devem chamar as entidades representativas da sociedade para, juntos, encontrarem soluções, abrindo-se as planilhas de custos para apurar-se o valor justo das tarifas que possam não apenas manter os serviços atuais, mas, principalmente, aprimorá-los, ampliando a frota e tornando as viagens mais constantes e confortáveis.

Mas não se deixe de lado o governo federal. O governo Lula, como o governo Dilma, concederam bilhões de reais em incentivos para produção e comercialização de veículos. Priorizaram o transporte individual ao coletivo. E aí cometeram um grave erro de planejamento: não se apresentou nos últimos dez anos, um único e  miserável plano de mobilidade urbana que pudesse absorver a tremenda quantidade de veículos novos que chegavam às ruas.  Transportes públicos de massa, como trens, metrôs, VLTs e BRTs, só se tornaram viáveis a partir da escolha do Brasil para sediar Copa das Confederações e a do Mundo.  E, assim mesmo, o que não faltou neste quesito foi contingenciamento de recursos.

E mais: este plano prevê investimentos em mobilidade urbana apenas, e tão somente, nas 12 cidades sedes que abrigarão os jogos em 2014. E o resto dos mais de 5.500 municípios, faz o quê, senta e chora?

Além disto,  todos os incentivos que o governo concede sobre redução de IPI acaba estourando não no seu orçamento, mas justamente na redução do Fundo de Participação dos Municípios, que vê assim seu bolo reduzir-se e, em consequência, também acaba reduzindo a cota que cada município irá receber. E são os municípios que acabam sofrendo com o estrangulamento no trânsito que irá afetar ainda mais a já precária qualidade do transporte coletivo.

Portanto, fica claro que ainda precisaremos remar muito até que o Poder Público brasileiro aprenda a executar com eficiência um princípio elementar em gestão: PLANEJAMENTO.  Enquanto as ações forem devotadas a garantir apenas os votos na próxima eleição, e o político estiver  dedicado apenas em se servir para benefício próprio nos cargos que desempenha, não haverá jeito de sairmos do atoleiro. 

Por esta razão é indispensável que a sociedade permaneça vigilante e cobre, dos políticos que ela própria escolhe, o cumprimento do dever de servir à população. E, mesmo que dentre as manifestações e protestos surjam demandas inviáveis como a do transporte gratuito, não basta dizer “não é possível”. Tem que provar porque não é possível e, neste sentido, o diálogo permanente é ainda a melhor receita.  

E reparem: até agora o que se viu foram prefeituras e governos estaduais reduzindo tarifas sem nenhum critério.  Buscam apenas atenuar  o grito das ruas. Quantos de fato chamaram a sociedade para o diálogo sobre as planilhas de custo? 

Greve chapa branca

Adelson Elias Vasconcellos

Greve a favor, convenhamos, é bem uma jabuticaba verde amarela!!!

Num acordo de “cavaleiros”, a Força Sindical promete não exibir faixas  com os dizeres “FORA DILMA”. Ok, a gente sabe que, o “fora fulano”, sendo fulano eleito pelo povo,  não é lá uma atitude das mais democráticas. As centrais sindicais que são sócias do condomínio governista que o PT comanda,  quer poupar Dilma e o PT.

Mas no dia em que as centrais prometem “paralisar o país” a pergunta que cabe: em nome do que a greve ou as paralisações?

Aí a gente pega a lista das “reivindicações” e ficamos  meio sem entender aonde esta turma pretende chega. Vejam lá a pauta:

Redução da Jornada de Trabalho para 40h semanais, sem redução de salários: depende do governo e do Congresso, sendo este majoritariamente comandado pela aliança PT/PMDB;

Contra o PL 4330, sobre Terceirização. Idem, idem;

Fim do fator previdenciário, depende exclusivamente do governo ... petista;

10% do PIB para a Educação; depende do Congresso, muito embora o país já invista a mesma média da praticada nos países com qualidade superior a nossa na educação, muito embora invista errado por destinar mais recursos ao ensino superior. Portanto, depende do governo;

10% do Orçamento da União para a Saúde, depende apenas do governo;

Transporte público e de qualidade, depende de todos os governos, em todos os seus níveis;

Valorização das Aposentadorias, depende exclusivamente do governo Dilma.

Reforma Agrária, depende exclusivamente do governo Dilma que, conformamos noticiamos aqui, foi aquele que menos assentamentos realizou desde Coolor;

Suspensão dos Leilões de Petróleo, depende exclusivamente do governo Dilma. Aliás, o modelo  que está sendo adotado foi obra do governo Lula e que Dilma apenas vai cumprir.  

Não vou analisar aqui cada um dos itens acima,  se são viáveis ou não passam de pura tolice. Quero apenas demonstrar que, 90% do que se está pedindo, depende apenas do governo Dilma, a quem as centrais pretendem “poupar”. Portanto, mesmo sendo poupada pelos sócios de seu condomínio, dada as reivindicações, fica claro que há, sim, mesmo que não intencional, uma severa crítica ao mau governo comandado por Dilma Rousseff, como, aliás, é consenso nacional.  

Portanto, estamos diante de um verdadeiro tiro no pé desferido pelas centrais. Atinge o governo, prejudica a população, não teve a adesão que esperavam, prejudica a economia com um dia sem produção, e deixam feridas anti-petistas que só cicatrizarão em 2014,  nas urnas. 

Adoraria saber qual foi o “jenio” que imaginou a realização do movimento. 

Centrais sindicais testam Dilma com paralisação nacional

Luís Guilherme Barrucho
BBC Brasil 

Trabalhadores vão cruzar os braços nas principais capitais e cidades brasileiras nesta quinta-feira


A paralisação nacional dos trabalhadores marcada para esta quinta-feira deve funcionar como um "termômetro" para avaliar até que ponto o governo estaria disposto a negociar com os sindicatos.

Com um estilo de gestão diferente do de Lula, seu antecessor, a presidente vem sendo alvo frequente de reclamações de lideranças sindicais por não dar ouvidos às reivindicações da classe.

Os trabalhadores vão cruzar os braços munidos de uma pauta comum. Os temas variam desde a reforma agrária ao fim do fator previdenciário, passando pela redução da jornada de trabalho para 40 horas semanais.

O ato, convocado pelas centrais sindicais e batizado de "Dia Nacional de Lutas", ocorre na esteira dos protestos que varreram o país no mês passado e levaram à construção de uma "agenda positiva" por parte do governo, preocupado com a reação vinda das ruas.

Ambiente favorável
Embora tenham negado agir por "oportunismo", lideranças sindicais ouvidas pela BBC Brasil reconheceram que as manifestações criaram um ambiente favorável para a luta por seus pleitos.

Para Vagner Freitas, presidente nacional da Central Única dos Trabalhadores (CUT), a maior entidade sindical do Brasil, o protesto, que promete paralisar mais de 50 cidades brasileiras, foi organizado porque o governo "não atende ao pleito da classe trabalhadora".

"O trabalhador brasileiro melhorou de vida, mas da porta de sua casa para dentro. Da porta da casa dele para fora, continua pagando um preço proibitivo para o transporte coletivo, que é precário, e trabalhando longas jornadas. Queremos que o governo sente conosco e negocie", afirma.

"De nada adianta ter ganhos salariais acima da inflação, como obtivemos nos últimos anos, se esse dinheiro é sugado pelo aumento do plano de saúde privado que o trabalhador precisa contratar porque não pode contar com a saúde pública", acrescenta.

Ele, entretanto, evitou fazer críticas diretas à presidente Dilma Rousseff.

"A manifestação não é partidária. Não queremos derrubar a presidente, apenas queremos que esse governo realize as transformações sociais para as quais foi eleito".

Ricardo Patah, presidente da União Geral dos Trabalhadores (UGT), concorda. Segundo ele, o protesto não é "contra Dilma", mas contra a "forma como o governo vem administrando as reivindicações da classe".
"O problema é que fazemos reuniões com o governo e nenhuma solução sai desses encontros. Estamos insatisfeitos", diz.

Patah reconhece que os protestos do mês passado deram força ao movimento.

"Em uma oportunidade importante, o governo cedeu. Por essa razão, não há melhor momento do que esse para reivindicarmos nossa pauta", diz.

Divergências internas
Embora tenham definido uma pauta única, as centrais sindicais divergem quanto à defesa de outros pontos, como o plebiscito e a reforma política, que terminaram não incluídos na agenda comum.

Freitas, da CUT, que é a favor da reforma política, encampada pelo PT e pelo governo, diz que levará a proposta isoladamente à manifestação.

"A discussão sobre a reforma política é fundamental para garantir eleições mais limpas", afirma.

Ele critica o presidente da Força Sindical e deputado federal Paulo Pereira, mais conhecido como "Paulinho da Força", que "defende o Congresso conservador".

"O Paulinho não tem interesse na reforma política porque teme não conseguir fundar seu partido", diz.

O secretário-geral da Força Sindical, João Carlos Gonçalves, rebate a acusação. Segundo ele, a central foi contra "a apropriação do movimento pelo PT".

"Somos contra um partido querer se aproveitar de uma manifestação legítima dos trabalhadores", defende.

Cisão?
Na avaliação de cientistas políticos ouvidos pela BBC Brasil, o protesto, por outro lado, não significará um rompimento dos sindicatos com o governo que, segundo eles, fez concessões amplas aos trabalhadores na última década.

Nesse período, de acordo com dados do Dieese (Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos), o poder de barganha de entidades sindicais aumentou consideravelmente. Somente a proporção de acordos salariais acima da inflação quintuplicou de 2003 — ano em que o ex-presidente Lula foi eleito até 2012.

O cientista política Milton Lahuerta, da Universidade Estadual Paulista (Unesp) considera remota a possibilidade de ruptura dos sindicatos com o governo pelo que chamou de "sindicalismo de resultados".

"Atualmente, os sindicatos usam ao máximo sua capacidade de barganha e atuam no limite da chantagem para viabilizar seus interesses. Não há nenhuma perspectiva ideológica ou política para a construção de uma agenda propositiva", diz.

"Além disso, os sindicatos só abandonariam a base aliada em dois casos: ou se fossem acolhidos pela oposição, o que é improvável, ou se a situação econômica do país se degradasse a tal ponto que as lideranças tivessem de se opor ao governo para manter sua legitimidade."

Já o cientista político Ricardo Caldas, da Universidade de Brasília (UnB), acredita que a manifestação foi motivada pelo "oportunismo" da CUT, uma das principais lideranças sindicais por trás do movimento.

"A CUT é visivelmente controlada pelo PT, que perdeu credibilidade junto à sociedade. O protesto nada mais é do que uma reafirmação de importância do sindicato, que teme pela sua própria sobrevivência."

O que os trabalhadores defendem

• Redução da Jornada de Trabalho para 40h semanais, sem redução de salários

• Contra o PL 4330, sobre Terceirização

• Fim do fator previdenciário

• 10% do PIB para a Educação

• 10% do Orçamento da União para a Saúde

• Transporte público e de qualidade

• Valorização das Aposentadorias

• Reforma Agrária

• Suspensão dos Leilões de Petróleo

Dilma anuncia R$ 3 bilhões para prefeitos e ouve vaias

Gabriel Castro
Veja online

Presidente discursou para plateia de 4.000 representantes de municípios na Marcha dos Prefeitos e anunciou a liberação de 3 bilhões de reais

 (Roberto Stuckert Filho/PR) 
Presidente Dilma Rousseff durante a XVI Marcha a Brasília em Defesa dos Municípios, em Brasília

A presidente Dilma Rousseff não conseguiu se livrar das vaias em seu discurso na Marcha dos Prefeitos, nesta quarta-feira, em Brasília. Dilma falou por 20 minutos e anunciou a liberação de 3 bilhões de reais aos municípios – metade será paga em agosto, e a outra metade em abril de 2014 -, mas não tocou na principal reivindicação dos prefeitos, a elevação de pelo menos 1% no valor repassado por meio do FPM, o Fundo de Participação aos Municípios.

Dilma também prometeu elevar o valor repassado pelo governo federal às prefeituras para a manutenção dos serviços de saúde. O acréscimo deverá ser de 600 milhões de reais ao ano.

“O Brasil só pode ir para frente, avançar mais, se estivermos juntos. Para nós estarmos juntos eu acho que é preciso uma federação forte”, disse a presidente, numa tentativa de aproximação com os prefeitos. Ela também defendeu a contratação emergencial de 10.000 médicos brasileiros e estrangeiros e disse que é impossível resolver os problemas de forma imediata: "Vocês sabem que não tem milagre na gestão pública”.

Dilma mencionou investimentos de 5 bilhões de reais no Sistema Único de Saúde (SUS) e a garantia de que todos os municípios com menos de 50.000 habitantes terão acesso ao programa Minha Casa, Minha Vida.

Ao longo da fala, conforme foi ficando claro que Dilma não iria abordar os temas mais sensíveis aos prefeitos, como uma elevação do FPM e uma compensação para os municípios que perdem receita com as desonerações anunciadas pelo governo federal, a plateia perdeu a paciência. No fim do discurso, a voz de Dilma foi abafada pelos gritos de “FPM”. Ela encerrou o pronunciamento e deixou o palanque sob vaias e gritos de insatisfação.

Salário - 
O presidente da Confederação Nacional de Municípios (CNM), Paulo Ziulkoski, também foi vaiado ao tentar discursar para os prefeitos após a fala de Dilma. “Parece que nós estamos numa manada irracional, ninguém é capaz de raciocinar”, disse ele, que prosseguiu criticando as vaias a Dilma. “Para que vaiar? O que tu arrumas com isso?”.

Dilma também ouviu cobranças de Ziulkoski. Ele se queixou das desonerações tributárias feitas pelo governo federal que afetam os municípios, e também pediu que o Congresso congele os salários dos parlamentares até 2015, para evitar o efeito cascata nas Câmaras Municipais.

***** COMENTANDO A NOTÍCIA:
Que governo bonzinho este de dona Dilma! A gente até fica sem palavras para expressar tanta bondade...

Todas as mais de 5.500  prefeituras estão no fundo do poço.A receita mal cobre a despesa. Em algumas, o pouco que sobrava servirá para cobrir o subsídio ao transporte público que precisou frear seus reajustes apesar do aumento de custos  das concessionárias. 

Aí, os prefeituras pedem que o governo eleve em 1% pelo menos o Fundo de Participação dos Municípios, o que desafogaria o caixa de grande parte. 

Como Dilma Rousseff sabe ouvir – pelo menos é o que ela diz – resolveu abrir seu coração e prometeu liberar 3 bilhões de reais para os mais de 5.500  municípios.o que representa pouco mais de R$ 500 mil por município. 

Porém, e sempre há um “porém” em se tratando de governo petista, a liberação será feita em duas parcelas. Uma agora, em agosto próximo. A outra, bem a outra parcela em abril de 2014. 

Qual será o critério para liberação? Dilma não disse. Mas seguramente a segunda parcela condicionará aos prefeitos comporem uma aliança com a futura candidata à reeleição. Bonito isto, não é?

Em razão de grande número de prefeitos considerarem a bondade federal cretina demais, a nossa malvada favorita recebeu em troca uma estrondosa vaia, mais uma para coleção.

Um dia difícil

O Estado de S.Paulo

Na esteira da vaga de protestos que começaram tendo como objetivo a redução da tarifa e a melhoria do transporte público e sacudiram o País, as centrais sindicais e alguns movimentos sociais promovem hoje uma série de manifestações que têm tudo para causar sérios transtornos nas grandes cidades, a começar por São Paulo, e nas principais rodovias. O Dia Nacional de Lutas aproveita-se espertamente da simpatia que aqueles protestos suscitaram na população, mas nada tem a ver com eles, porque lhe falta espontaneidade e sobra politização.

Os paulistanos que se preparem, pois, se tudo correr como previsto pelos organizadores das manifestações - em especial a Força Sindical, a Central Única dos Trabalhadores (CUT) e movimentos sociais como o MST, dos ditos sem-terra -, vão viver um dia difícil. Passeatas - das quais participarão várias categorias profissionais que estarão em greve - devem paralisar, sabe-se lá por quanto tempo, vias importantes como as Marginais do Tietê e do Pinheiros e as Avenidas Paulista e Radial Leste. Como se isso não bastasse, serão também bloqueadas rodovias como Anchieta, Castelo Branco, Raposo Tavares, Fernão Dias, Dutra e Mogi-Bertioga.

Não se trata, portanto, como nas greves gerais ao estilo tradicional, de os trabalhadores cruzarem os braços e se manifestarem em locais bem determinados para defender suas reivindicações.

O que se pretende vai muito além disso, pois salta aos olhos que, com tudo que está planejado, a vida de toda a população da Grande São Paulo e de importantes regiões do interior será afetada. E o mesmo pode se repetir no Rio de Janeiro, em Belo Horizonte, Curitiba, Porto Alegre, Fortaleza, Recife e outras grandes cidades.

É o que indicam a banalização das manifestações e o comportamento da polícia, que em geral tem agido com excessiva cautela. Hoje, bastam algumas dezenas de pessoas, defendendo interesses muito específicos e limitados, para interromper a circulação numa via importante. Um dos exemplos desses casos, que se vão multiplicando rapidamente, é o que aconteceu na Fernão Dias, na volta do feriado do 9 de Julho. Um grupo de cerca de 50 pessoas fechou a rodovia, na altura do quilômetro 7, no município de Vargem, em São Paulo, entre 15h40 e 17 horas, o que bastou para provocar um congestionamento de 10 km. Tudo isso para pedir a isenção do pedágio de R$ 1,40 para quem mora na cidade.

Na maior parte dos casos, a polícia, em São Paulo e em outros Estados, tem apenas assistido às manifestações, com exceção das promovidas recentemente pelos caminhoneiros, quando os governos federal e estaduais decidiram agir com rigor para a situação não escapar inteiramente ao controle. Depois de alguns excessos cometidos no início dos protestos dos jovens contra o aumento da tarifa de transporte público, a polícia partiu para o extremo oposto, em especial quando as manifestações ocorrem nas cidades.
Já está na hora de as autoridades voltarem a seguir o bom e velho princípio de equilíbrio - "nem tanto ao mar nem tanto à terra". O que se espera da polícia não é reprimir com violência as manifestações - um direito democrático -, mas agir com todo o rigor necessário para evitar, tanto os excessos e os atos de vandalismo que têm marcado muitas delas como a paralisação de vias urbanas importantes e rodovias.

Um rigor tanto mais necessário quanto não se está, no caso do Dia Nacional de Lutas, diante de jovens inexperientes, mas de experimentados líderes sindicais, que por isso mesmo deveriam evitar decisões irresponsáveis que têm tudo para tumultuar a vida nas grandes cidades e a circulação em algumas das mais importantes rodovias do País.

A população não pode ser usada por eles como refém para obter reivindicações que vão da redução da jornada de trabalho e o fim do fator previdenciários à reforma agrária, sejam elas justas ou não.

Ela também não deve sofrer as consequências das divergências entre a CUT e o PT, que a inspira, que querem usar as manifestações para defender o plebiscito; e a Força Sindical, que, em resposta, ameaça propor um "Fora Dilma".











Vai piorar

Carlos Alberto Sardenberg
O Globo

Ninguém é obrigado a saber a planilha de custos de um serviço público, mas qualquer pessoa sabe se o serviço é bom ou ruim

Deu na coluna de ontem do Ilimar Franco (Panorama Político): prefeitos relataram que estão com dificuldade de contratar empresas de ônibus; as concessionárias não têm se habilitado às licitações. Alegam que vão perder dinheiro, pois se tornou inviável aumentar o preço das tarifas.

Ou seja: o transporte urbano vai piorar nessas cidades, mesmo que as prefeituras assumam o serviço. Nesse negócio, o setor público gasta mais e entrega menos.

Deu no “Valor” de terça: o Ministério dos Transportes vai dispensar as concessionárias de rodovias federais de novos investimentos. É uma forma de compensar a suspensão do reajuste de pedágios, única fonte de receita das empresas.

Ou seja, uma violação de contrato (a suspensão dos reajustes) compensada por outra (investimentos cancelados). As estradas vão piorar e os programas de privatização de infraestrutura estarão prejudicados por mais uma insegurança jurídica.

Imagino que terá gente dizendo: estão vendo? Os manifestantes fazem aquela baderna e dá nisso, tudo piora.

É um erro de julgamento, claro. Muita coisa, de fato, pode piorar, mas a culpa não será dos manifestantes. Será dos políticos que estão no poder — federal, estaduais e municipais — que não sabem como responder à demanda das pessoas. Esses manifestantes, na verdade, serão vítimas duas vezes: na primeira, pelo uso dos serviços ruins; na segunda, pela piora dos serviços em consequência da inépcia dos governantes.

Nenhuma pessoa normal é obrigada a saber a planilha de custos de um serviço público, seja de uma viagem de ônibus ou de um atendimento no posto de saúde. Mas qualquer pessoa sabe se o serviço é bom ou ruim. Os manifestantes reclamaram do que percebem como ruim. Também reclamaram do preço que pagam, quer diretamente, via tarifas, quer indiretamente, via impostos.

(Aqui, aliás, tem um fato curioso: nos últimos anos, aumentou o número de trabalhadores com carteira assinada, ou seja, o número de pessoas que podem ver no contracheque o quanto pagam para os governos).

Cabe aos políticos/governantes saber exatamente quanto custa o serviço e, mais importante, quem vai pagar a conta.

Parece óbvio, mas tem muito governante que não sabe. Muitos prefeitos, governadores e ministros que cancelaram reajustes disseram que iam passar um pente fino nas tarifas para procurar (e cortar) gorduras ou, tese preferida, excesso de lucros dos concessionários. Mas só desconfiaram disso agora? Esta não é uma questão política, mas técnica.

Política é a decisão sobre o que fazer depois que se sabe o custo: para quem mandar a conta? Só há duas possibilidades: paga o usuário direto do serviço (pelo bilhete do ônibus, pela consulta ou pela mensalidade) ou paga o contribuinte que recolhe impostos, seja ou não usuário.

Numa estrada com pedágio, quem paga é o motorista que trafega por lá. Se não há pedágio, se a estrada é mantida pelo poder público, então um cidadão que compra uma garrafa de cerveja e morre com ICMS, IPI e tudo o mais, está ajudando a financiar a rodovia, mesmo que nunca passe por ela.

Em tese, parece mais justo, sempre, que o usuário pague. E pensando longe, se todos os serviços públicos fossem remunerados pela pessoa que o utiliza, a carga tributária geral poderia ser reduzida expressivamente.
Mas não é simples assim. No caso dos pedágios, a situação, de fato, é mais fácil de elaborar. Por que uma pessoa pobre financiaria, com os impostos que paga sobre alimentos e roupas, por exemplo, a estrada pela qual os mais ricos viajam para o fim de semana?

Já não é tão simples dizer que o paciente do SUS deveria pagar pelas consultas e tratamentos. Aqui entra outra tese: os ricos devem recolher mais impostos para financiar os serviços essenciais para os pobres. Mas para que isso funcione, é preciso que o sistema tributário seja progressivo, cobrando efetivamente mais de quem pode mais.

Para isso, o grosso dos impostos deveria incidir diretamente sobre renda e patrimônio das pessoas e não indiretamente sobre o consumo, como é o caso do Brasil. Pobres e ricos pagam o mesmo imposto num livro escolar ou numa conta de celular, por exemplo. O sistema é regressivo.

Resumindo: se quisermos aliviar a conta para os usuários dos diversos serviços, será preciso aumentar os impostos, decidindo-se, então, quem vai recolher mais.

Eu perdi alguma coisa ou não há mesmo nem sombra desse debate?

Resumindo, se a resposta é só cancelar reajustes, vai piorar.

Braço a torcer

Dora Kramer  
O Estado de S.Paulo

É forte a demanda por mudanças no ministério da presidente Dilma Rousseff. A questão, no entanto, é mais ou menos parecida com a da reforma política: se não se souber o que, como fazer, para que e de que maneira vai funcionar, não há razão para reformar. Muda-se para ficar tudo como está. Ou pior.

Mas, ao que consta, a presidente resiste a ouvir os apelos para fazer alterações na equipe. Não está claro se porque não quer decidir debaixo de pressão, se por mero exercício de teimosia ou se acha que vai tudo muito bem, obrigada.

Sobre o aspecto da eficiência, o presidente da Câmara de Políticas de Gestão da Presidência da República, Jorge Gerdau, já havia dado notícia em duas entrevistas (ao Valor e à Folha de S.Paulo) meses atrás em pesadas críticas ao gigantismo do ministério. Segundo ele, 39 pastas são um entrave ao conceito de boa gestão. Avaliava que com "meia dúzia" o Brasil estaria bem atendido.

Disse que falara com a presidente a respeito e que ela estava plenamente "consciente" disso. Como que antecipando o que viria em junho, acrescentou: "Quando a burrice, a loucura ou a irresponsabilidade vai muito longe, de repente sai um saneamento. Nós provavelmente estamos no limite desse período".

Pois se chegou ao extremo, mas a presidente parece disposta a prosseguir além do limite. Ou então, mais adiante fará as mudanças que achar convenientes. Alterações que serão inócuas se Dilma não der rumo e autonomia de voo para a equipe.

Trocar esse ou aquele nome sem alterar o método não vai adiantar nada. Na economia o que aflige é a condução, executada por ela e seguida à risca por Guido Mantega. Se um eventual substituto for submetido à mesma sistemática de trabalho será a conhecida troca de seis por meia dúzia. Isso sem contar com a dificuldade de encontrar quem aceite essa regra do jogo.

Na política, os partidos reclamam dos atributos das ministras Ideli Salvatti e Gleisi Hoffmann, mas se queixam também da falta de representatividade dos indicados em relação às bancadas no Congresso.

Repudiam os modos rudes da presidente, se insurgem contra o apetite voraz do PT na busca pela ocupação de todos os espaços (administrativos e eleitorais) e estão fartos de serem tratados como meros serventes de um projeto que atende primordialmente aos interesses petistas.

É uma situação complexa que, assim como a reforma política, não aceita soluções simples.

Indigente. 
Pela forma como foi proposto, o plebiscito da reforma política teve o enterro merecido. A presidente quis transformar a Congresso no único culpado pelo esgotamento geral e acabou vendo que nem sempre o que ela quer é o que a Casa faz.

O Legislativo resolveu fazer algumas mudanças para a eleição de 2014 e se comprometeu a completar a reforma mais adiante. Aí mora um perigo: os parlamentares deixarem o assunto para lá e não mudarem mais nada.

Nesse caso, a bola estará com a sociedade. Se ninguém reclamar é sinal de que a reforma política não era assim tão importante para a população.

Mas, se não mudarem as leis, de uma coisa os políticos não vão poder escapar: mudar o comportamento, a causa da revolta.

Mal comparando. 
Há 24 anos o especulador Naji Nahas deu um tombo memorável no mercado financeiro. Houve processo criminal, condenações, prisão e falências.

A cifra? US$ 13 milhões. Um troco perto do prejuízo de bilhões de dólares provocado pelo derretimento das ações dos castelos de areia de Eike Batista construídos sobre os alicerces do ufanismo presidencial de Luiz Inácio da Silva, em parceria cujos termos ainda estão para ser esclarecidos.

Em defesa do governo

Celso Ming  
O Estado de S.Paulo

A ideia do PT para as manifestações de hoje, no "Dia Nacional de Lutas" convocado pelas centrais sindicais, seria aproveitar a oportunidade para fazer a defesa do governo. Seria dar uma resposta aos protestos populares de rua que tomaram o País desde o início de junho. Mas, afinal, quais seriam as bandeiras que poderiam ser defendidas hoje, como quer o PT?

A primeira reação da presidente Dilma às manifestações, que ficou sem defesa, foi o lançamento de um conjunto de cinco pactos nacionais, que ninguém mais lembra quais são, até porque o governo não os vem retomando. Ah, sim, o primeiro da lista é o Pacto Fiscal. Mas, como brandir palavra de ordem pelo pacto fiscal, se esta é uma das políticas mais questionadas do governo, especialmente a partir de dezembro, quando inventou e aplicou sobre as contas públicas a tal contabilidade criativa?

A segunda resposta da presidente Dilma à crise nasceu morta. Foi a ideia da criação de uma Constituinte com plenos poderes para definir uma reforma política. Não haverá nenhum cartaz com essa proposta.

A que veio quase junto com essa foi a convocação de um plebiscito, com o objetivo de colocar em vigor uma reforma política ainda antes das eleições do ano que vem. Embora viesse sendo sustentada como "ponto de honra do PT", a ideia foi enterrada pelo Congresso.

Vai ser difícil também incluir na agenda das lutas sindicais a contratação de milhares de médicos estrangeiros e a imposição de trabalhos forçados por dois anos aos formandos em Medicina, como acaba de anunciar o governo.

Bandeira popular poderosa é o "diga não à inflação". A escalada dos preços foi um dos principais fatores que mobilizaram tanta gente. A reivindicação pelo fim do reajuste dos transportes coletivos está intimamente relacionada aos estragos no poder aquisitivo provocado pela forte alta de preços. No entanto, como dizer não à inflação sem exigir enormes mudanças na política econômica? Ninguém mais é capaz de sustentar que a inflação brasileira seja causada por fontes externas. A crise global colocou a inflação no chão. A inflação brasileira é coisa nossa e tem a ver com mazelas nossas, especialmente com a política fiscal expansionista do governo, como vem repetindo o Banco Central do Brasil.

E aí chegamos à última hipótese: a de que o Dia Nacional de Lutas saia em defesa da atual política econômica, ou seja, da "Nova Matriz de Política Econômica" colocada em prática pelo governo Dilma. Ocorre que, pela qualidade dos seus frutos, já sabemos que esta é uma árvore má, difícil de defender. Produziu a conhecida sucessão de pibinhos, atirou a inflação no teto da meta, provocou rombos enormes nas contas externas e deixou a indústria de cócoras. Estragos demais para contrapor aos propalados gols a favor: consumo robusto, pleno emprego e desempenho estupendo do agronegócio, que os companheiros do PT não apreciam.

Quer dizer, ou o Dia Nacional de Lutas retomará temas sindicais, como a redução da jornada de trabalho e o fim do fator previdenciário, ou repetirá as bandeiras das manifestações populares e, então, a política econômica será criticada. Ficará complicado apoiar a agenda da presidente Dilma.

A falta que o plebiscito faz

Editorial
O Globo

Sem o factoide da consulta popular, o governo precisa trabalhar sobre a verdadeira agenda das ruas: corrupção, baixos investimentos em transportes, educação, etc.

A nota da presidente do Tribunal Superior Eleitoral, ministra Cármen Lúcia, em resposta à consulta do governo com relação ao plebiscito sobre uma reforma política já para vigorar nas urnas de outubro do ano que vem, antecipava o naufrágio da proposta pirotécnica — de grande efeito visual, mas passageiro.

A barreira dos prazos, a que se referiu a ministra, era mesmo intransponível. Como é preceito constitucional a impossibilidade de vigorar em qualquer eleição mudanças legais aprovadas a menos de um ano do pleito, e a Justiça Eleitoral precisaria de 70 dias para preparar toda a enorme infraestrutura da consulta popular, ficou evidente que o factoide do plebiscito para 2014 se dissolvera no ar.

Há, ainda, diante de qualquer sondagem aos eleitores, a necessidade, também estabelecida na Carta, de a população estar bem informada sobre o que irá responder. Esta exigência ameaça a realização de qualquer plebiscito sobre um tema de extrema complexidade como as regras eleitorais hoje ou amanhã.

Reunidos na terça-feira, o presidente da Câmara, Henrique Alves (PMDB-RN), e líderes dos partidos engavetaram de vez o projeto. Mas foi criado um grupo de trabalho para alinhavar uma proposta de reforma política a ser votada no Congresso e, depois, apresentada em referendo à sociedade, para vigorar nas eleições municipais de 2016. É a melhor alternativa. Esvaziou-se, dessa forma, o golpe de esperteza de alas do PT que aproveitaram a crise criada no governo pela erupção de manifestações conduzidas à margem do partido, sindicatos e organizações ditas sociais aliadas, para desengavetar antigo plano de instalar uma “constituinte exclusiva” de pedigree chavista. Por ser a proposta inconstitucional, alertaram juristas e até ministros do Supremo, a constituinte virou um plebiscito para 2014, agora soterrado por imperativos da realidade.

Se a vontade política de fazer ajustes na legislação eleitoral persistir, alguns poucos ajustes serão capazes de produzir grandes resultados. O fim da coligação em eleições proporcionais e o estabelecimento de alguma cláusula de barreira que passe pelo crivo do Supremo — onde parece continuar a existir forte oposição a mudanças que supostamente esbarrem no direito de minorias serem representadas — seriam um substancial avanço na degradada vida pública brasileira.

Já o Executivo, desmontado o truque do plebiscito para jogar a crise nos ombros do Congresso e tentar tirar o Planalto do caminho das manifestações, terá de trabalhar para valer na verdadeira agenda que as ruas impõem a Brasília. Tudo aquilo que a imprensa profissional aponta há anos: avanço da corrupção devido à impunidade, falta de investimentos na infraestrutura de transportes, na educação, saúde, e por aí vamos. Independentemente de uma reforma política, muito pode ser feito pelo governo para resolver os problemas denunciados nas ruas.

Doutora Juliana

J.R. Guzzo
Revista VEJA

Dezenas de milhares de médicos em todo o Brasil estão fartos de aguentar calados a prodigiosa incompetência dos responsáveis pela saúde pública brasileira

Há médicos e médicos. Uns trabalham todos os dias para salvar a vida de outras pessoas. Sabem que, ao final, vão perder, mas voltam ao combate após, cada derrota. Convivem diariamente com a morte e, em muitos casos, derramam lágrimas amargas, em algum lugar onde não possam ser vistos, quando um cliente se vai. Essa é a cruz que carregam em sua vida. É, também, a sua honra. Outros têm o mesmo diploma, mas não são a mesma coisa. Suas relações com os pacientes mantêm-se impessoais e, como acontece em tantas outras profissões, seu objetivo prioritário é ganhar dinheiro. Praticam atos duvidosos de autopromoção e dedicam boa pane de seus esforços a atividades de relações públicas. Para alguns, o grande sonho profissional é aparecer na Ilha de Caras e ter atrizes da Globo ou “celebridades na lista de clientes.

Não há nada de útil que valha a pena dizer a respeito desses últimos. Mas há muito que pensar sobre os primeiros, os médicos de verdade, quando o povo vai para a rua gritar que não suporta mais, entre tantas outras barbaridades, os crimes diários que são cometidos pelo governo nos serviços públicos de saúde. Os marqueteiros do Palácio do Planalto não fizeram nenhuma pesquisa para saber quantos deles, nestes dias de revolta, estão fervendo com a mesma indignação que foi para a praça pública; acham que é uma “catarse emocional”. Mas o fato é que dezenas de milhares de médicos em todo o Brasil estão fartos de aguentar calados a prodigiosa incompetência, a mentira em massa e a vadiagem dos responsáveis pela saúde pública brasileira — além de uma ladroagem sem fim na qual se roubam verbas, ambulâncias, sangue e tudo o mais que pode ser rapado pelos amigos do PT e da “base aliada”". O leitor é convidado, aqui, a ouvir uma dessas vozes. É puro TNT. Vamos ver, então, o que a presidente Dilma acha dessa “”catarse”, ou se quer propor um “plebiscito” à doutora Juliana Mynssen da Fonseca Cardoso, cirurgiã-geral no Hospital Estadual Azevedo Lima, no Rio de Janeiro. E ela a autora do relato abaixo, publicado na internet com o seguinte título: “O dia em que a “presidenta” Dilma em 10 minutos cuspiu no rosto de 370 000 médicos brasileiros”.

 “Há alguns meses eu fiz um plantão em que chorei. (…) Eu, que carrego no carro o manual da equipe militar que atendia “na guerra do” Afeganistão, chorei. (…) Na frente da sala de sutura tinha um paciente idoso internado. Numa cadeira. Com o soro pendurado num prego similar aos que pregamos samambaias. Ao seu lado, seu filho. (.-*) Seu pai estava há mais de um dia na cadeira. Ia desmaiar. Tudo o que o rapaz queria era uma maca. Não um quarto, nem um leito; só uma maca. Teve um momento em que ele desmoronou. Se ajoelhou no chão, começou a chorar, olhou para mim e disse: “Não é para mim. É para o meu pai”. Saí, chorei, briguei e o coloquei numa maca na ala feminina. (…) Nestes últimos dias de protestos nas ruas e nas mídias, brigamos por um país melhor. (…) Não tenho palavras para descrever o que penso da “presidenta” Dilma. (Uma figura que se proclama “presidenta” já não merece a minha atenção.) Mas hoje, por mim, por você, pelo meu paciente da cadeira, eu a ouvi. (Ela) disse que importará médicos para melhorar a saúde do Brasil… Melhorar a qualidade? Sra. “presidenta”, eu sou uma médica de qualidade. (…) O médico brasileiro é de qualidade. Os seus hospitais é que não são. O seu SUS é que não tem qualidade. O seu governo é que não tem qualidade. O dia em que a sra. “presidenta* abrir uma ficha numa UPA, for internada num hospital estadual, pegar um remédio numa fila do SUS e falar que isso é de qualidade, aí conversaremos. Não cuspa na minha cara. Não pise no — meu diploma. Não me culpe da sua incompetência.”

E aí, presidente Dilma — gostou? E aí, ex-presidente Lula (que diz ter criado no Brasil “um dos melhores serviços de saúde do mundo”, mas se trata no Sírio-Libanês de São Paulo), gostou? Se não gostaram, deveriam ter a coragem de ir para a televisão e debater esses fatos com a doutora Juliana, na frente de todo mundo. Se não toparem, passam um atestado público de covardia. Podemos esperar sentados. Dilma teve medo até de ir ao Maracanã, numa final disputada pela equipe do país que preside. Lula fugiu para a Etiópia. Nem sequer vão ler a história acima, pois não vão gostar, e tudo aquilo de que não gostam está automaticamente errado. Acham que se trata de sentimentalismo barato, ou choro de classe média alta, ou algo assim. E o leitor, em quem acredita? Em Dilma, em Lula ou na doutora Juliana?

Os médicos e os brasileiros – O viés autoritário e a mão de obra escrava dos cubanos

Reinaldo Azevedo

O governo Dilma leva a sério essa conversa de convicções. Tanto é assim que tem um monte delas. Até ontem, considerava vital contratar médicos cubanos; agora, felizmente, mudou de ideia. Ainda bem, não é? Estava prestes a importar um tipo de trabalho que a Organização Internacional do Trabalho considera mão de obra escrava. Já volto ao tema. Continua o esforço para trazer ao país médicos da Espanha e de Portugal, que não terão de revalidar seu diploma por aqui. Profissionais de qualquer país poderão ocupar vagas no SUS que não forem ocupadas por brasileiros. Há algumas precondições: domínio da língua portuguesa, ter feito um curso com carga horária equivalente à que aqui se pratica e serem oriundos de países com uma taxa de médicos por 1000 habitantes superior à nossa. Também volto a esse particular. Quero me ater primeiro ao programa que obriga todo estudante de medicina a prestar dois anos de serviço para o SUS.

Os autoritários, que sempre pretextam um amor imenso pela humanidade (não era diferente com Stálin, Mao Tsé-tung, Pol Pot…), vão achar tudo muito lindo! Afinal, a moçada do jaleco tem de fazer o juramento de Hipócrates, não é? Se é assim, todo médico tem de ir aonde o doente está, certo? Sim e não! Ou todo engenheiro tem de ir aonde a ponte não está; ou todo professor, aonde o conhecimento não está; ou todo dentista, aonde as cáries ou os banguelas estão… Vamos com calma aí! Esse troço tem o viés autoritário típico de Aloizio Mercadante. Ele já decidiu também estatizar os estudantes de direito. O primeiro ministro do coração de Dilma Rousseff quer obrigá-los a todos a fazer estágio em órgão público.

Vamos ver: eu defendo que formandos de universidade pública, do ProUni e do crédito estudantil subsidiado prestem serviço civil obrigatório, sim, senhores! Se o estado — na verdade, o conjunto dos brasileiros — financiou o curso, nada mais justo do que haver uma compensação. Seria preciso estudar a forma de fazê-lo. Por que só para os médicos? Os pobres precisam de dentistas, de engenheiros, de enfermeiros, de nutricionistas, de professores… Nada mais justo do que buscar essa mão de obra entre aqueles que foram especialmente beneficiados pelo estado — com a gratuidade total ou parcial (na forma de subsídio) de seus respectivos cursos. Aliás, o tempo de serviço civil obrigatório deveria variar de acordo com a modalidade de financiamento.

Mas é um abuso óbvio “estatizar” a mão de obra de quem estudou por sua conta, sem recorrer a nenhuma forma de auxílio do estado. Por que um estudante de uma escola privada, que resolveu financiar seu próprio curso, teria de submeter às mesmas condições? Em nome de quê? Ora, institua-se no país a possibilidade do serviço civil obrigatório para formandos de terceiro grau da escola pública (ProUni e crédito estudantil). Eles saberão, desde sempre, que estarão sujeitos à convocação —, e isso certamente pesará na sua decisão ao escolher uma universidade.

Notem que não acho a obrigatoriedade ruim em si, não! Só que ela poderia ser feita atendendo-se ao fundamento democrático. Mas aí não combina com o bigode de Mercadante. Se não houver o traço autoritário, não fica bem.

Médicos estrangeiros
Sim, sim, pode-se dizer que é melhor ter um médico engrolando português do que ter médico nenhum; pode-se dizer que o atendimento básico é importante e que males futuros podem ser evitados nessa fase e coisa e tal. Tudo bem! Ainda assim, continua um absurdo que médicos estrangeiros possam atuar no Brasil sem revalidar aqui seus respectivos diplomas, e isso demanda uma prova que avalie a proficiência do profissional. “Ah, mas eles não poderão executar todos os procedimentos…” Pois é: por definição, teremos médicos pela metade.

Se esse negócio prosperar, começaremos a entrar em contato com os “causos”, e aí, então, veremos. Um médico espanhol ou português poderão fazer, por exemplo, uma traqueostomia de emergência para evitar que um paciente morra de edema de glote? “Ah, quantos casos desses acontecem?” Não sei. Poderão fazer incisões no caso de picada de cobra? Há situações em que cirurgias de emergência, mesmo sem as condições adequadas, fazem a diferença entre a vida e a morte.

Que segurança terá o governo — e, pois, os pacientes — na contratação desses profissionais? Por que pessoas qualificadas em seus países de origem procurariam trabalhar em situação adversa no Brasil? Sim, há os abnegados, os que gostam de atuar em regiões inóspitas, mas isso traduz um perfil muito específico do profissional. Não raro, quem escolhe esse caminho opta por atuar em organizações humanitárias.

Se o país está em busca de profissionais competentes, ainda que para o primeiro atendimento, por que dispensá-los do exame? Se competentes, serão aprovados; se não forem, qual é o sentido de contratá-los a não ser certa má consciência original: “Ah, para pobre, está bom; melhor isso do que nada…”?

Médicos cubanos
Agora que o governo desistiu de trazer os seis mil médicos cubanos, entendemos a enormidade que estava em curso. Tratava-se de um acordo com a ditadura. Os médicos que viriam ao Brasil não seriam donos de seu próprio destino, como não são os que atuam na Venezuela. Parte dos seus vencimentos seria confiscada em favor da ilha dos irmãos Castro. Estariam, no Brasil, submetidos às regras cubanas, não às brasileiras.

Os que foram enviados à Venezuela deixaram suas respectivas famílias na ilha. Assim, terão de voltar, queiram ou não. Ainda é melhor do que viver naquele inferno, ganhando não mais do que uma espécie de ração. Mas parece evidente que a relação se enquadra na Convenção 29, da Organização Internacional do Trabalho, que caracteriza trabalho escravo ou forçado. E o Brasil é signatário de um tratado para pôr fim ao trabalho escravo, não é mesmo?

Eu sei que prometi descansar um pouquinho. Mas sabem como é… Havendo um tempinho, a gente manda brasa. Eu sei que parece esquisito, mas descansar dá muito trabalho. Trabalhar é bem mais fácil…

Pagando favores

Carlos Brickmann 
Observatório da Imprensa

Não faz muito tempo, descobriu-se que o deputado federal Henrique Eduardo Alves, presidente da Câmara, usava parte da verba de seu mandato para comprar reportagens pagas num jornal de seu Estado, o Rio Grande do Norte. Escândalo? Imagine! O escândalo é bem pior: o jornal que publica as reportagens pagas pelo deputado, elogiando o deputado, é de propriedade dele mesmo, o deputado.

O senador Jader Barbalho é dono de um forte grupo de comunicações, mas gasta bom dinheiro da verba de seu mandato em divulgação - como se os veículos que a ele pertencem, o jornal Diário do Pará, o Grupo RBA de Comunicação e a TV Tapajós, filiada à Rede Globo, não o promovessem o suficiente. 

O ministro da Integração, Fernando Bezerra, levou a Brasília, por conta do Tesouro, nove blogueiros de Estados nordestinos - tudo pago, passagens, hospedagens, refeições, passeios pela cidade. Aceitará em troca notícias que não sejam favoráveis? Ou que, no futuro, critiquem obras do Ministério no Nordeste?

Mas estas são iniciativas individuais. Há também projetos específicos de injeção de publicidade estatal em veículos que, talvez por coincidência, se coloquem com ênfase a favor do Governo. Para este colunista, o fenômeno provavelmente é inevitável: se o Governo puder gastar em publicidade não-institucional, é muito difícil que encaminhe o maior volume de seu dinheiro para veículos que não o apoiem, mesmo que tecnicamente a mereçam. O erro está na existência de publicidade pública maciça (os anúncios oficiais deveriam limitar-se à promoção de informações essenciais, como campanhas de vacinação, etc.) Não há justificativa para pagar por publicidade de empresas estatais não-competitivas, como a Sabesp em São Paulo (única fornecedora de água, única coletora de esgotos), ou do BNDES nacional.

De qualquer forma, é interessante verificar como é distribuída a verba estatal de publicidade (as informações disponíveis são apenas federais; mas o dinheiro estadual é investido em propaganda da mesma maneira distorcida). As informações sobre verbas federais foram fornecidas pela ministra Helena Chagas.

1 - O site Carta Maior, com 9,7 milhões de visitas em 2012, recebeu R$ 830 mil de publicidade federal no período. Mais que a versão eletrônica da Folha ,com 311 milhões de visitas, que recebeu R$ 780 mil; e que a Abril.com, que recebeu três bilhões de visitas e verba de R$ 586 mil.

2 - O portal Terra é o sétimo em audiência e o primeiro em anúncios federais. 

3 - O Facebook tem 48 vezes a audiência do R7, ligado à Rede Record, mas recebe menos publicidade do Governo Federal.

Clicando aqui, um balanço da distribuição das verbas publicitárias federais, mostrando que o pessoal a favor recebe mais, independentemente da audiência.

Paulo Henrique x Heraldo
Por falar no assunto, Paulo Henrique Amorim, que assina um dos endereços virtuais mais favoráveis ao Governo Federal, Conversa Afiada, acaba de ser condenado a 20 meses de prisão (que serão transformados em pena a ser cumprida em liberdade) por ofensa ao apresentador Heraldo Pereira, da Rede Globo. Os comentários de Paulo Henrique foram considerados "injúria preconceituosa", atingindo a cor da pele de Heraldo Pereira. A pena originalmente seria de 23 meses de reclusão, mas foi reduzida a 20 meses por "atenuante de senilidade", nome técnico para garantir punição mais branda a quem tenha mais de 70 anos.

A advogada de Paulo Henrique Amorim, Maria Elizabeth Queijo, alega que seu cliente exerceu apenas o direito de crítica, que tem uma história de vida de defesa dos negros. E vai recorrer da sentença.

Pannunzio de volta
O repórter (e blogueiro) Fábio Pannunzio está livre da censura: ganhou o processo que lhe era movido pelo secretário da Segurança de São Paulo (que logo se transformaria em ex-secretário), Antônio Ferreira Pinto, por ter publicado reportagens contando a verdade sobre a situação da Polícia paulista. 

O processo de Ferreira Pinto contra Pannunzio foi considerado improcedente; de acordo com a Justiça, as reportagens foram bem apuradas, com críticas duras mas sem intenção de atacar a honra do secretário. A censura ao blog foi suspensa. Ferreira Pinto não só deixa de obter a indenização que pedia, de R$ 80 mil, como terá de pagar as custas do processo, e mais R$ 5 mil.

Diz a sentença: "Os fatos não foram descritos de forma isolada, sem qualquer embasamento factual. Segundo a documentação acostada com a contestação, o requerido vinha acompanhando os desdobramentos de tais acontecimentos, por meio de fontes, documentos e outros noticiários".

Pannunzio não marcou data, mas promete trazer logo o blog de volta, "pronto para a guerra contra a censura, os detratores da imprensa livre e os lambe-botas dos poderosos". 

A guerra das ruas
Cada pessoa tem o direito de pensar o que quiser da Rede Globo, inclusive as piores coisas. Daí a defender a invasão do prédio da emissora, como vimos nas redes sociais durante a manifestação em frente ao prédio da Globo paulista, vai uma enorme distância. Pior é ver jornalistas favoráveis ao uso de violência contra quem se opõe a suas ideias. Pior ainda é ver jornalistas escondendo que sejam jornalistas e se manifestando contra a emissora como se jornalistas não fossem. 

E não deixa de ser curioso observar quanta gente, depois de ter saído de uma empresa onde trabalhou por muito tempo, passa a acusá-la das coisas mais horrendas. Deve ser a vantagem de ver as coisas com distanciamento, com maior amplitude; coisas que, de dentro, certamente seriam muito mais difíceis de observar.

A guerra à reportagem
Foi uma cena espantosa: o secretário de Esportes, Lazer e Recreação de Osasco, SP, Severino Ferreira dos Santos, vulgo Tinha de Ferreira, agrediu o repórter cinematográfico Alexandre Borba, da Rede Record durante cobertura de apreensão de produtos roubados, escondidos no estádio municipal da cidade. O secretário gritou para a reportagem que não estava autorizada a entrar e empurrou o repórter cinematográfico, jogando-o ao chão. 

Pergunta do repórter da emissora, Bernardo Armani, ao secretário: "Se a Prefeitura não está envolvida, por que o agrediu?" O secretário não respondeu. Os policiais que apreenderam o material roubado no estádio da Prefeitura o prenderam em flagrante e o levaram à delegacia, onde assinou termo circunstanciado por agressão e foi liberado. Mas deve responder a processo.

O secretário continua no cargo, depois de sua explosão de fúria? Depende: a decisão é do prefeito Jorge Lapas, do PT. 

carlos@brickmann.com.br

Hasta la vista, plebiscito

Fernando Gabeira

A ideia do plebiscito válido para as eleições de 2014 morreu, oficialmente, ontem. Ela jaz ao lado da Assembleia Constituinte uma outra proposta com aparência democrática.

As duas saídas de Dilma fracassaram. O Congresso percebeu que ela jogou a responsabilidade para ele.

A recusa dessas duas propostas não significa que Constituinte e Plebiscito não sejam importantes instrumentos da democracia direta.

Na Islândia uma Constituinte, não parcial como a de Dilma, acabou sendo a saída para crise do país.

Mas aqui o apelo é claro por melhores serviços públicos, gastos racionais do governo, recusa da corrupção e das mordomias dos políticos.

O fracasso dessas ideias, usadas como cortina de fumaça, não impede ao governo atual e ao próximo reconhecer a realidade da revolução digital. E encontrar caminhos de integração da inteligência coletiva na definição dos rumos do país. Conectar-se não é uma solução mágica. É preciso corrigir os erros que estão atrasando o Brasil.

Um deles é fixar-se no Mercosul, abandonando as inúmeras outras oportunidades.

Historicamente, os povos latinos sempre estiveram de costas para os vizinhos, pois isto foi uma obra do próprio colonialismo.

Reaproximá-los é bom. Limitar-se a isso é que o problema. O Mercosul, por exemplo, tem um pais suspenso, o Paraguai, e um novo presidente, a Venezuela, que anda mal das pernas com o declínio do chavismo.

Acabaram-se os truques dos marqueteiros, vamos ver se agora é possível Dilma cair na real.

Juízo é bom

Merval Pereira, 
O Globo

O plebiscito morreu, viva a reforma política. Se tiverem juízo, os políticos não darão por encerrado o assunto e tratarão de alcançar um consenso, inatingível nos anos anteriores, para reformar os sistemas eleitoral e partidário hoje vigentes, que favorecem o distanciamento entre eleitor e eleito, dando a sensação ao cidadão de que não está representado pelo Congresso e pelos partidos que nele atuam.

É verdade que essa não é a principal reivindicação das ruas, apenas pareceu à presidente Dilma a mais simples resposta para acalmar os insatisfeitos, transferindo para nosso sistema representativo as culpas que deveria pelo menos dividir.

Independem do Congresso a melhoria da gestão do dinheiro público e a eficiência do infindável Ministério, embora a distorção do sistema de presidencialismo de coalizão esteja na raiz de nossos problemas.

O Congresso, tão alvejado justamente por críticas quanto ao seu comportamento, não tem mais tempo para adiar reformas de hábitos e costumes no fundo antidemocráticos, e, embora tenha razão em recusar a realização de um plebiscito sobre a reforma política, tem a obrigação de promovê-la, sob pena de se autonomear o responsável pelo emperramento das mudanças exigidas pela cidadania nas ruas do país.

Um exemplo claro é o fim de eleições secretas. Existem ocasiões em que é importante que haja votação secreta, para apreciação de temas em que o político pode ficar exposto a pressões externas e do próprio Executivo.

Mas eleição para as presidências das duas Casas, e das respectivas comissões, deveria ser aberta, e, para tanto, basta mudar os regimentos internos.]

Há ainda o perigo de o PT tentar jogar as ruas contra os políticos, para recuperar sua hegemonia popular, mas aí estará cometendo um suicídio político que dificultará ainda mais as alianças que terá de montar para a eleição de 2014, tanto a nível nacional quanto para as eleições estaduais.

A queda de popularidade da presidente Dilma produziu um efeito imediato: o rancor que os políticos da base governista nutriam pela “soberana” encontrou liberdade para se revelar, sem receio de retaliação.

Há também nessa miscelânea partidária, que nunca respeitou programas partidários, mas se nutre com os regalos do poder, os baderneiros que, a exemplo dos das manifestações com televisões e computadores, se aproveitam do momento para saques aos cofres da União, aumentando o preço de seu apoio político.

O governo está neste momento à deriva e exposto à fome insaciável de nacos do poder de uma parte ponderável de sua base aliada, que, ao mesmo tempo em que raspa o tacho, se oferece para os adversários, na percepção de que a sucessão presidencial está zerada.

Se o governo cair na esparrela de querer disputar nas ruas a hegemonia dos movimentos sociais, pode dar com os burros n’água, como já aconteceu nas primeiras manifestações. Mas pode também criar uma crise institucional.

A situação da presidente Dilma é bastante delicada neste momento, pois as medidas que deveria tomar para tentar readquirir o controle da situação exigem sacrifícios que ela não está disposta a assumir, especialmente porque os eleitores estão prestes a ganhar o poder do voto nas urnas.

A antecipação da corrida presidencial, se durante um período foi importantes para fixá-la como a candidata oficial do PT à reeleição, paralisou seu governo e aumentou o período de campanha, antecipando as reivindicações dos políticos aliados para a formação de coligações que definem o tempo de televisão para a propaganda eleitoral.

Quando tudo parecia congelado eternamente, com Dilma franca favorita, essa pressão ainda era controlável, pois ela estava dando as cartas.

Agora, a rejeição ao estilo autoritário da presidente encontra terreno fértil para vingar, e as negociações de bastidores correm soltas.

O PMDB, parceiro oficial na coligação, perdeu o controle de suas próprias bases, especialmente devido à atuação de seu líder Eduardo Cunha, a quem o vice Michel Temer prometeu controlar. Dilma já sabe que ele é incontrolável, assim como o PMDB em tempos de crise.

Já parece impossível manter a unidade do PMDB no apoio à reeleição de Dilma, tendo o partido voltado ao seu estado anterior: cada seção regional decide o melhor caminho.

Fracassos em série

Fernando Rodrigues
Folha de São Paulo

BRASÍLIA - Os deuses da política sorriram para Dilma Rousseff. O escândalo internacional do monitoramento de telefones e internet dividiu o noticiário. De repente, governo e oposição ficaram juntos malhando os EUA pela espionagem sem limites aqui, no Brasil.

Há uma semana, o assunto em Brasília era o desgaste na popularidade presidencial. Agora, os telejornais estão cheios de imagens com mapas do mundo indicando o Brasil como alvo da bisbilhotice norte-americana. De vez em quando aparece um ministro ou a presidente dizendo que as ações dos EUA são inaceitáveis e que a ONU será acionada.

Melhor, impossível. É um clima similar ao da época em que tudo no Brasil era culpa do FMI. Como era bom ter um inimigo externo e terceirizar os problemas. No caso do monitoramento, pouco se fala sobre a fragilidade do sistema brasileiro de defesa cibernética. Ou menos ainda da impossibilidade prática de haver privacidade absoluta nesta era digital.

O fato é que até essa ajuda midiática inesperada está sendo insuficiente para oxigenar o governo Dilma Rousseff. A presidente continua coletando fracassos em série.

Dilma sugeriu uma constituinte exclusiva. A ideia foi demolida em menos de 24 horas. Ontem, o Congresso enterrou o plebiscito para fazer uma reforma política.

A nova polêmica é a importação de médicos e as mudanças nos cursos de medicina. Pelo menos parte desse plano poderia ter sido apresentado por meio de projeto de lei, mas o Planalto preferiu incluir tudo numa medida provisória. Sofrerá nas mãos de deputados e de senadores.

Dilma decidiu que precisaria agir e comprar algumas brigas. Primeiro, escolheu como alvo o Congresso. Agora, a corporação dos médicos. Antes, já enfrentava a má vontade de empresários e dos indignados nas ruas. Só não está claro até o momento quem serão os aliados da presidente em tantas batalhas.

Obrigar alunos de medicina a trabalhar no SUS é inconstitucional, dizem especialistas

Veja online

Único trabalho compulsório previsto na Constituição é o serviço militar. "Visivelmente, a medida não é para complementar a formação do médico", diz o jurista Miguel Reale Júnior

(Thinkstock) 
Medicina: Advogados e juristas acreditam que medida que obriga estudantes
 a trabalhar no SUS é inconstitucional e fere direitos trabalhistas 

A medida provisória anunciada nesta segunda-feira pelo governo, que amplia a grade curricular dos cursos de medicina, obrigando os alunos a trabalhar para o Sistema Único de Saúde (SUS) é inconstitucional. Segundo especialistas ouvidos pelo site de VEJA, o único serviço público obrigatório previsto na Constituição é o militar. Fora ele, nenhuma função deve ser exercida compulsoriamente — inclusive a atividade médica, independentemente se praticada por um profissional ou por um estudante. Há ainda outro porém: o aluno que trabalhar no Sistema Único de Saúde (SUS) terá de cumprir deveres de um profissional, mas receberá apenas uma bolsa por isso. Assim, ele não terá garantido nenhum outro direito trabalhista, como férias, décimo terceiro salário ou licença maternidade.

 “Ninguém é obrigado a exercer uma função por força de lei, a única exceção é o serviço militar obrigatório, previsto na nossa Constituição”, diz Miguel Reale Júnior, jurista e ex-ministro da Justiça do governo Fernando Henrique Cardoso. “A medida fere a Constituição na medida em que estabelece um constrangimento ilegal, de serviço obrigatório.”

Segundo o advogado Eduardo Kroeff Machado Carrion, professor titular de direito constitucional da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e da Fundação Escola Superior do Ministério Público (FMP), é possível interpretar que a medida viole o inciso XIII do artigo 5º da Constituição, que diz ser "livre o exercício de qualquer trabalho, ofício ou profissão, atendidas as qualificações profissionais que a lei estabelecer”. “No entanto, a proposta do governo impõe uma condição para a obtenção do diploma, e não exatamente para o exercício profissional, já que estamos falando de estudantes. Existe uma controvérsia na hora de definir até que ponto a proposta pode ser entendida como uma restrição ao exercício profissional”, diz.

Para Reale Júnior, no entanto, a medida fere, sim, a Constituição brasileira, mesmo de tratando de algo específico da grade curricular do curso de medicina — e não de um serviço profissional. "A medida seria inconstitucional mesmo se os médicos fossem obrigados a trabalhar no SUS depois de formados." A questão não difere para alunos que cursam faculdades públicas ou privadas: nos dois casos, a obrigatoriedade do serviço é inconstitucional.

Ensino — 
Para o jurista Reale Júnior, a medida do governo usa como desculpa a complementação da grade curricular dos cursos de medicina para obrigar mais pessoas a prestar serviços para o SUS. “Visivelmente, a medida não é para complementar a formação do médico.” O advogado Carlos Ari Sunfeld, professor da Escola de Direito da Faculdade Getúlio Vargas (FGV), em São Paulo, também entende a MP como inconstitucional. “É uma requisição de serviços, não uma atividade acadêmica”, diz. “Uma coisa é alterar a grade curricular do curso de medicina com o objetivo de melhorar o ensino médico. Mas essa medida estabelece a mudança para suprir uma deficiência do sistema de saúde, e não para complementar o ensino dos alunos. Os alunos serão obrigados a trabalhar para obter o diploma. É uma espécie de chantagem.”

Supervisão — 
Um dos pontos questionáveis da medida, acredita Sundfeld, é como a supervisão do aluno será feita. “Como alguém que estuda em uma universidade de São Paulo será supervisionado por sua instituição trabalhando em um hospital do Amazonas? O que é supervisão para o governo? Assinar um papel? Isso é fraude.” Para o especialista, um estágio obrigatório remunerado fere ainda os direitos trabalhistas previstos na Constituição brasileira. “O sujeito será obrigado a trabalhar no SUS sem direito a férias remuneradas, 13º ou licença maternidade, pois ele não será um profissional, mas sim estudante. O governo quer arrumar profissionais no SUS pagando uma bolsa, mas sem direitos trabalhistas. São, portanto, profissionais mais baratos.”

A alteração na grade curricular ter sido feita por meio de uma medida provisória também é alvo de críticas. "É inconstitucional que uma medida provisória seja feita para algo que só será colocado em prática em 2015", diz Reale Júnior. De acordo com o jurista, uma MP deve ser usada somente em casos de medidas urgentes, para situações que precisam de uma solução rápida. "Como algo urgente entra em vigor só em 2015?"

Para Sundfeld, os erros constitucionais do governo são motivos suficientes para que a medida não seja colocada em prática. “O governo supõe que todas as universidades participarão da fraude que ele montou, ou seja, que essas instituições vão monitorar alunos sobre os quais não têm controle. Não acredito que as escolas de medicina participarão dessa fantasia.”

Os problemas na nova grade curricular de medicina:

1. • O único trabalho compulsório previsto na Constituição é o serviço militar
2. • O estudante estará exercendo um trabalho profissional, sem receber todos os benefícios trabalhistas previstos em lei
3. • A capacidade de supervisão pela instituição de ensino dos alunos alocados em outras regiões é questionável
4. • O uso de uma medida provisória deve ser específico para casos urgentes — a alteração nos cursos valerá apenas