Adelson Elias Vasconcellos
Pois é, enquanto o MEC se preocupou de forma absolutamente paranoica em relação à segurança e, de forma absurda e inexplicável, ter proibido que os alunos pudessem utilizar lápis e borrachas, vocês viram nas notícias abaixo sobre o ENEM, versão 2010, que se esqueceram do essencial: erros no gabarito, na numeração das páginas, cartões com problema, etc, etc, tendo um dos alunos apontado, apenas no dia de hoje, em torno de 42 irregularidades. E isto porque o MEC disse que este ano tudo ia ser diferente, que a segurança iria ser rigorosa, a tal ponto das borrachas e lápis terem pagado o pato (muito embora não houvesse nenhuma relação de causa e efeito), e, nem por isso, o exame deste ano teve menos problemas do que já tivera em 2009.
Ora, se com todo o rigor com que em 2010 o MEC se cercou para não haver “furo”, tivemos os problemas muitos até primários e grosseiros, o que se pode deduzir sobre a eficiência do próprio MEC? Que ele, de novo, foi reprovado em termos de organização.
Há poucos dias comentei aqui que um exame da magnitude com que se tentava emprestar ao ENEM, mudando toda uma política de avaliação para uma de seleção, no volume e extensão do que se propunha, não podia ser feita ao atropelo de certas regras básicas. Uma delas é a tentativa de se tentar ser mais realista do que a própria realidade. Pressa, neste caso, era uma péssima conselheira. O ministro, na ânsia de querer capturar vantagens políticas sobre o ENEM, acabou colocando seu interesse pessoal acima do interesse coletivo. Mudanças tão drásticas e profundas exigem uma certa cautela e, principalmente, um cronograma de mudanças que precisam ser feitas passo a passo até ver sua implantação total vingada.
Ainda sou contra que se utilize o ENEM como exame de seleção para ingresso à universidade. Entendo que ele deveria manter seu propósito básico inicial, a de servir de instrumento de avaliação. Ao tentar colocar todos os ovos num único balaio, acabam nivelando o ensino por baixo, não levando em conta características específicas de cada região, tampouco as exigências particulares de cada tipo de instituição. Está se tornando em um imenso vestibular em nível nacional, sem colaborar em nada para melhorar o ensino médio, tampouco para atrair aquela imensa parcela de jovens que se afastaram das escolas. Ou seja, trocamos 6 por 3 e meio, já que, por suas características, não tem o rigor de seleção que ao menos tinham os vestibulares.
Além disto, o problema da educação brasileira não se centra em facilitar ou dificultar o ingresso na universidade. Especificamente, o buraco se encontra mais embaixo, isto é, na falta de qualidade ao menos razoável dos ensinos fundamental e médio. É nestes dois níveis que os esforços devem concentrar-se, e o ENEM era um excelente instrumento de aferição para diagnosticar problemas e buscarem-se soluções adequadas.
Dada à seriedade com que as universidades devem encarar seu importante papel para formação de profissionais de alto nível, não se pode vulgarizar nem a porta de entrada, tampouco a de saída. Os profissionais que dali saem formados, serão a essência da elite acadêmica do país. Não estou dizendo que os pobres não possam formar-se numa universidade, nem que devem ter seu acesso restringido. Porta de entrada é pela formação, pelo mérito, pela competência intelectual. Pode-se até facilitar que os pobres tenham bolsas integrais para formarem-se. Assim, quando falo em elite não me refiro a social e econômica. Refiro-me especificamente a elite intelectual, com suficiente capacidade para receber a formação acadêmica que deve ser rigorosa, para que não tenhamos jogados no mercado maus profissionais.
Portanto, a tentativa do MEC de “facilitar” caminhos, a meu ver, errou a mão. Fez um diagnóstico equivocado e o que é pior: tenta aplicar o remédio errado para o mal da educação de péssima qualidade que é oferecida aos jovens estudantes brasileiros.
Para 2011, seria bom o MEC, talvez sob nova direção, rever alguns conceitos e tentar ser menos apressadinho em seu balão de ensaio. Está se oferecendo uma esperança de salvação mínima, para um sistema em estado terminal. Ou seja, facilita-se o ingresso à universidade pela pior maneira, isto é, nivelando por baixo, para aparentar melhora do sistema de uma ponta à outra.
Talvez no próximo ano o exame se transcorra sem problema de nenhuma espécie. Isto não indicará que o ENEM seja um sucesso. Apenas se trata do remédio errado aplicado num paciente com má formação congênita. Ou seja, o problema não está em ingressar na universidade por caminhos mais fáceis. Isto é sintoma de que o sistema está tão mal, tão debilitado, que é preciso criar uma facilidade de ingresso já que, por caminhos normais quanto ao nível de exigência, e dado a péssima qualificação dos alunos que se formam no ensino médio, não haveria meios da maioria ingressar no ensino superior. E isto não é um método de melhoria, mas de trapaça: a de fazer com que todos pensem estarem aptos para uma corrida de 10 mil metros, com fôlego para mal suportarem os primeiros 500 metros.
Como entendo que o “pensamento” vigorante no MEC não vai se alterar profundamente, mesmo que se substitua o ministro, este assassinato em massa na formação de estudantes qualificados tende a se prolongar por muito tempo ainda, e isto é ruim para o futuro do país. O problema central, portanto, não está na ponta final, e sim na inicial onde os esforços devem ter maior peso e prioridade.
É inadmissível que o país continue formando maus alunos em conhecimentos básicos como atualmente ocorre com os formando do ensino médio. Como também é vergonhoso que mais de 40% dos jovens entre 15 e 17 anos estejam fora da escola. O problema está justamente nestes dois pontos, e não em facilitar o acesso ao ensino superior.
Depois de oito anos de governo, não pode mais o atual presidente valer-se da tática de transferir responsabilidades, principalmente no campo da educação. O atual apagão de mão de obra qualificada é fruto da falta de prioridade no campo da educação, nos níveis fundamental e médio. Para um país cuja população se aproxima dos 200 milhões, esta pouca qualificação é vergonhoso para qualquer governante de qualquer época. Se FHC universalizou a matrícula das crianças em idade escolar, e criou os exames de avaliação em todos os níveis, deveria o atual ter partido deste ponto em busca de melhorar a qualidade. Não o fez. E a prioridade dada ao ENEM, já se vê, se constitui na escolha do pior caminho.
A propósito de programa de educação, encerro com esta notícia de O Globo. Dela se extrai o seguinte: nem Lula levou a educação a sério, tampouco Dilma parece minimamente preocupada. Claro, tem os discursos, o papo furado da campanha, etc. Pura enganação. Como sempre digo, prefiro avaliar os governos pelos resultados e no quesito educação, a coisa tende a ficar cada vez pior.
O texto do jornal O Globo é de Alessandra Duarte.
Educação ainda sem plano para o primeiro ano do governo Dilma
RIO - O Brasil corre o risco de começar o primeiro ano do governo Dilma sem um Plano Nacional de Educação. O atual plano, lançado em 2000 com vigência de dez anos, ainda não foi atualizado. O governo federal ainda não enviou ao Congresso o texto do novo plano - que, para valer, precisa ser votado na Câmara e no Senado, o que dificilmente ocorrerá até o final de 2010.
Enquanto o novo texto não vem, ficam lacunas nas duas pontas do sistema, a educação infantil e o ensino médio - que não foram incluídos no Fundef, criado em 1998, só tendo passado a receber recursos de um fundo nacional a partir de 2007, com o Fundeb. Segundo o Conselho de Acompanhamento e Controle Social do Fundeb, com dados do Censo Escolar, se na faixa etária de 6 a 14 anos, que compreende os alunos do ensino fundamental, há 762 mil crianças e adolescentes fora da escola, na faixa de 4 a 5 anos, a da educação infantil, o total fora de sala de aula chega a 1,568 milhão. O problema é pior no ensino médio, em que o número de jovens excluídos da educação, na faixa de 15 a 17 anos, sobe para 1,634 milhão.
Há fragilidades ainda na qualidade do ensino nessas duas pontas. De acordo com a ONG Todos pela Educação (com base em dados da Prova Brasil de 2008), daqueles alunos que chegam à 4ª série do ensino fundamental, só 25% aprenderam matemática nos níveis mínimos esperados (padrão elaborado com base no desempenho, nesta disciplina, de alunos da Comunidade Europeia). Dos que chegam à 8ª série, 14% apenas. Mas o percentual piora à medida que se avança na escolaridade: dos que chegam ao 3º ano do ensino médio, apenas 10% aprenderam matemática nos níveis mínimos.
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ENCERRO:
Pelo que se vê, o melhor é esquecer os discursos e promessas de campanha, além, é claro, de toda a propaganda cretinamente mentirosa sobre os feitos do governo Lula. A prova está aí em cima. Para estes canalhas o que interessa é faturar votos para se manterem no poder. O país? Ora, depois dos votos, que importa o país...Dane-se!









