domingo, outubro 20, 2013

U zianque, a zelite, o vendaval.

Carlos Brickmann
Brickmann & Associados Comunicação

Faz 50 anos. Diante da movimentação das Ligas Camponesas, do desafio à hierarquia militar, de anúncios de gente ligada ao Governo sobre reformas "na lei ou na marra", o governador paulista Adhemar de Barros advertiu: "Vai chover". Choveu. A chuva inundou o Brasil por 21 anos, e tem consequências até hoje.

Dilma Rousseff teve de chamar o Exército para garantir o leilão do campo petrolífero de Libra, no pré-sal, marcado para esta segunda. Os petroleiros decidiram entrar em greve contra o leilão, acusando as elites brasileiras de vender o país aos estrangeiros - de novo, a ligação entre o que chamam de A Zelite e U Zianque. Este leilão é defendido por um especialista no ramo, Haroldo Lima, líder histórico do Partido Comunista do Brasil, que pode ser tudo menos amigo du Zianque. Aliás, muitas das grandes empresas petrolíferas ocidentais preferiram ficar fora; mas as grandes estatais petrolíferas chinesas estão na disputa. Sejam suas alegações falsas ou não, a greve dos petroleiros é explosiva: pode parar o país - como, em 1973, a greve dos caminhoneiros parou o Chile. E deu no que deu.

Um Governo que, para cumprir sua decisão, precisa chamar o Exército, mostra que não se sente forte. Instituições que não conseguem impedir o MST e o MTST, as Ligas Camponesas de hoje, de invadir prédios do Governo e ocupar áreas privadas, nem se sentem em condições de enfrentar mascarados que usam porretes, marretas, estilingues e pedras, mostram fragilidade. Exército e Polícias estão descontentes com verbas e salários. 

O clima é instável, sujeito a chuvas.

Pequim é aqui
O Windsor Barra Hotel, um dos mais luxuosos do Rio, com 338 apartamentos de frente para o mar, está inteiramente tomado por chineses. Por coincidência, este é o hotel em que será realizado o leilão do campo petrolífero de Libra.

A escolha do nome
Citando Shakespeare, se uma rosa tivesse outro nome teria o mesmo perfume. Mas nome é tão importante que um papa, ao ser eleito, escolhe como será chamado. O novo nome costuma indicar a linha pastoral que pretende seguir.

Um grupo de empresários privados quer construir um novo aeroporto em São Paulo, destinado a aviões executivos - aeroporto, aliás, contestado por ambientalistas. Nome do empreendimento, a ser erguido na região de Parelheiros: Aeródromo Harpia. Que significa Harpia? De acordo com o dicionário Aulete, Harpia pode ser: a) monstro da mitologia grega com cabeça de mulher e corpo de abutre; b) pessoa ávida, avarenta e de má índole, capaz de extorquir as outras pessoas; c) gavião real. Ao escolher o nome, certamente os empreendedores pensaram no gavião real - uma bela e imensa ave de rapina, com envergadura que atinge dois metros. De acordo com o mesmo dicionário, o gavião-real (Harpia Harpyja) possui fortes garras afiadas, capazes de capturar grandes mamíferos. 

Pois é.

Brasil... 
O caro leitor se manifestou nas ruas contra o desperdício de dinheiro público? Pois a Escola de Samba Grande Rio vai desfilar, no próximo Carnaval, em homenagem à cidade de Maricá. Para garantir o bom andamento do desfile, o prefeito petista de Maricá, RJ, Washington Quaquá, já havia destinado R$ 3 milhões do Tesouro municipal para a escola. 

Parece que não foi o bastante: Quaquá estuda aumentar o patrocínio da escola de samba em mais um milhão de reais.

...meu Brasil brasileiro... 
Andressa Mendonça, esposa do bicheiro Carlinhos Cachoeira, filiou-se ao PSL de Goiás e deve se candidatar a deputada federal. Segundo o presidente regional do PSL goiano, Dário Paiva, a Sra. Cachoeira é "o símbolo da força da mulher". Andressa Mendonça está solta sob fiança. Há pouco mais de um ano, foi presa ao dizer que tinha um dossiê sobre o juiz Alderico Souza Santos.

...meu mulato inzoneiro... 
José Roberto Arruda, ex-governador de Brasília, preso no exercício do mandato, entrou no PR. Entraram também no partido, pensando nas eleições do ano que vem, Brizola Neto, ex-PDT, e o usineiro Maurílio Biaggi Jr. O PR é comandado por Waldemar Costa Neto, condenado no processo do Mensalão. 

...vou cantar-te nos meus versos
Uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa. E ambas não se misturam. Chico Buarque de Holanda falou mais de uma besteira na polêmica sobre biografias -inclusive negando ter dado uma entrevista que foi gravada e filmada. Mas não é por isso que deve ser desqualificado. É um dos maiores letristas brasileiros. 

A música de suas canções não é tão boa quanto a letra, mas assim mesmo é de ótima qualidade. Como cantor, é aceitável. Como escritor, é chato. E, quando fala de política, é velho. Mas querer que o compositor de A Banda e de Atrás da Porta atinja nível igual quando fala de política, é pedir demais. 

É o mesmo que achar que Pelé, só por ser Pelé, tem de ser um grande compositor. Pelé até acha "o Édson" um bom compositor, como Chico Buarque se acha um bom jogador de futebol (tanto que é titular no time de que é dono, o Polytheama). Pelé, calado, disse Romário, é um poeta; Chico, dando entrevista, poeta é que não é. 

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A moral do Brasil

Olavo De Carvalho
Mídia Sem Máscara (*)

Se você quer entender e não tem medo de perceber em que tipo de ambiente mental está metido nesse nosso Brasil, nada melhor do que estudar um pouco a Teoria do Desenvolvimento Moral de Lawrence Kohlberg. Enunciada pela primeira vez em 1958 e depois muito aperfeiçoada, ela mede o grau de consciência moral dos indivíduos conforme os valores que motivam as suas ações, numa escala que vai do simples reflexo de autopreservação natural até o sacrifício do ego ao primado dos valores universais.

Kohlberg, que foi professor de psicologia na Faculdade de Educação em Harvard, desenvolveu alguns testes para avaliar o desenvolvimento moral, mas os críticos responderam que isso só media a interpretação que os indivíduos testados faziam de si mesmos, não a sua motivação efetiva nas situações reais. Essa dificuldade pode ser neutralizada se em vez de testes tomarmos como ponto de partida as condutas reais, discernindo, por exclusão, as motivações que as determinaram.

Os graus admitidos por Kohlberg são seis. No mais baixo e primitivo, em que a conduta humana faz fronteira com a dos animais, a motivação principal das ações é o medo do castigo. É o estágio da “Obediência e Punição”. No segundo (“Individualismo e Intercâmbio”), o indivíduo busca conscientemente a via mais eficaz para satisfazer a seus próprios interesses e entende que às vezes a reciprocidade e a troca são vantajosas. No terceiro (“Relações Interpessoais”), os interesses imediatos cedem lugar ao desejo de captar simpatia, de ser aceito num grupo, de sentir que tem “amigos” e distinguir-se dos estranhos, dos concorrentes e inimigos. No quarto (“Manutenção da Ordem”), o indivíduo percebe que há uma ordem social acima dos grupos e empenha-se em obedecer as leis, em cumprir suas obrigações. No quinto (“Contrato Social e Direitos Individuais”), ele se torna sensível à diversidade de opiniões e entende a ordem social já não como um imperativo mecânico, mas como um acordo complexo necessário à convivência pacífica entre os divergentes, No sexto e último (“Princípios Universais”), ele busca orientar sua conduta por valores universais, mesmo quando estes entram em conflito com os seus interesses pessoais, com a vontade dos vários grupos ou com a ordem social presente.

Essas seis motivações refletem três níveis de moralidade: os dois primeiros expressam a “moralidade pré-convencional”; os dois intermediários a “moralidade convencional”, os dois últimos a “moralidade pós-convencional”.

Se não atentamos para os discursos, mas para as escolhas reais que as pessoas fazem na vida, não é preciso observar muito para notar que os indivíduos que nos governam, bem como os seus porta-vozes na mídia e nas universidades, não passam do terceiro estágio, o mais baixo da moralidade convencional, em que a identidade, a coesão e a solidariedade interna do grupo prevalecem sobre a ordem social, as leis, os direitos dos adversários e quaisquer valores universais que se possa conceber (e que desde esse nível de consciência são mesmo inconcebíveis, embora nada impeça que sua linguagem seja macaqueada como camuflagem dos desejos do grupo).

Duas condutas típicas atestam-no acima de qualquer dúvida possível. De um lado, a mobilização instantânea e geral em favor dos condenados do Mensalão. O instinto de autodefesa grupal predominou aí de maneira tão ostensiva e tão pública sobre as exigências da lei e da ordem, que até pessoas identificadas ideologicamente ao partido governante se sentiram escandalizadas diante dessa conduta.

De outro lado, não havendo nenhum movimento político “de direita” que se oponha ao grupo dominante, este dirige seus ataques contra meros indivíduos e movimentos de opinião sem a menor expressão política, fingindo e depois até sentindo ver neles uma ameaça eleitoral ou o perigo de um golpe de Estado. Aí o instinto de autodefesa grupal assume as dimensões de uma fantasia persecutória que se traduz na necessidade de calar por todos os meios qualquer voz divergente, por mais débil e apolítica que seja.

Também não é preciso nenhum estudo especial para mostrar que essa conduta, normal na adolescência, quando a solidariedade do grupo é uma etapa indispensável na consolidação da identidade pessoal, não é de maneira alguma aceitável em cidadãos adultos investidos de prestígio, autoridade e poder de mando. Aí ela passa a caracterizar precisamente a associação mafiosa, a solidariedade no crime.

É evidente que, numa sociedade onde essa é a mentalidade do grupo dominante, os níveis superiores de consciência moral (pós-convencionais) se tornam cada vez mais abstratos e inapreensíveis, de modo que o máximo de moralidade que se concebe é o quarto grau, o apego à lei e à ordem. Os indivíduos cuja conduta evidencia essa motivação tornam-se então emblemas do que de mais alto e sublime uma sociedade moralmente degradada pode imaginar, e são quase beatificados. O ministro Joaquim Barbosa é o exemplo mais típico.

Os dois graus superiores da escala são exemplificados por um número tão reduzido de pessoas, que já não têm nenhuma presença ou ação na sociedade e passam a existir apenas em versão caricatural, como fornecedores de chavões para legitimar e embelezar as condutas mais baixas. A autopreservação paranóica do grupo dominante envolve-se com freqüência na linguagem dos “direitos humanos” (quinto grau), e qualquer imbecil que tenha lido a Bíblia já sai usando a Palavra de Deus (sexto grau) como porrete para atemorizar os estranhos e impor a hegemonia do grupo “fiel” sobre os “infiéis” e “hereges”.

Isso, e nada mais que isso, é a moralidade nacional.

(*) Publicado no Diário do Comércio.

Obedecer a Deus, sim. Mas ao Diabo?

Percival Puggina

O Brasil já vinha entregue aos bandidos com ou sem toucas ninja. A eles têm sido concedidas todas as garantias. A nós, sequer a de legítima defesa. Convivemos com a dura realidade de estarmos trancafiados, impedidos de usar com liberdade e segurança os espaços públicos, e despendendo valores crescente em apólices de seguro e segurança privada. Em contrapartida, assistimos os criminosos entrarem nas delegacias por uma porta e saírem pela outra. Manietados, algemados, estão os policiais, retidos por normas de conduta incompatíveis com os riscos inerentes à função que exercem. Para os bandidos, o colo macio dos direitos. Para os policiais as agruras dos deveres e restrições incompatíveis com os meios disponibilizados. 

O Brasil já estava entregue, também, aos bandidos de colarinho branco, para cujas lavanderias de dinheiro flui parte significativa dos impostos que pagamos com o fruto do nosso trabalho. Estes bandidos, ainda mais do que os outros, sabemos todos, estão acolhidos por garantias de livre atuação. Tais garantias são proporcionadas pela mansuetude, pela fleuma, pela pachorra em que foi amarrado o nosso sistema judiciário. E onde, não raro, o sistema se amarra um pouco mais, por conta própria. Certo, Celso de Mello? 

Tudo isso era coisa irremediavelmente sabida e conhecida. O que ainda não tínhamos era a convivência com o vandalismo de motivação política. Esse é um novo flagelo que ingressa no cotidiano nacional pela mesmíssima porta dos demais. Nos últimos meses, hordas de safados dão-se o direito de sair quebrando o que encontram pela frente, do condomínio de luxo à carrocinha de cachorro-quente, incendiando o que lhes dá na veneta, destruindo e invadindo patrimônio público e privado. São brutamontes incivilizados, a serviço de canalhas da política e de pervertidos do mundo intelectual. Agem, aqui no Rio Grande do Sul, diante de policiais impedidos de intervir, barrados no cumprimento de seu dever. Desde então, só os vândalos troteiam pela capital gaúcha! São os novos donos da rua, atacando objetivos políticos e ideológicos. Entre eles, o edifício onde mora o prefeito. E a Brigada Militar, inerte, sob determinação de não intervir. As perguntas que se impõem são estas: 1ª) a quem tais ações beneficiam? e 2ª) quem convive bem com a ideologia da violência? Na resposta que der, o leitor vai encontrar duas coisas: uma ideologia para rejeitar vigorosamente e um grupo de partidos políticos aos quais não deve, em circunstância alguma, conferir voto e poder. 

No Brasil de hoje, estamos sujeitos às leis do bem e às do mal. Obedecemos a Deus e ao diabo! A Deus pelas boas leis feitas para o bem. Ao diabo pelas leis más e pelas que o próprio mal estabelece. As leis más, entre outras coisas, protegem os bandidos de suas vítimas e da polícia. As leis do mal nos são impostas pela inevitável exposição à criminalidade em suas múltiplas e renovadas formas. 

Pior que os números só o otimismo de dona Dilma

Rolf Kuntz
O Estado de São Paulo

Há uma notícia pior que a mistura de inflação em alta, economia quase parada, contas públicas piorando e balanço externo em deterioração. O fato mais assustador, mas nada surpreendente, é a tranquilidade, quase alegria, exibida pela presidente Dilma Rousseff e por sua solerte equipe econômica diante desse quadro. Este ano foi difícil para todos, disse o ministro da Fazenda, Guido Mantega, na apresentação do oitavo balanço do PAC 2, o atual Programa de Aceleração do Crescimento. Foi realmente um ano difícil, mas ele parece haver esquecido alguns detalhes. A economia americana continuou em recuperação, com mais investimentos e mais exportações, a União Europeia começou a sair da recessão, o Japão continuou avançando e a maior parte dos emergentes, embora perdendo impulso, continuou crescendo mais que o Brasil. A economia brasileira, disse nesta semana o secretário de Política Econômica do Ministério da Fazenda, Márcio Holland, será uma das poucas, neste ano, com crescimento superior ao de 2012. Ora, alvíssaras! E quantas terão crescido 0,9% no ano passado, depois de alcançar o ritmo quase alucinante de 2,7% em 2011?

Se a presidente e seus ministros levam a sério o próprio discurso, ninguém deve esperar medidas mais produtivas nos próximos meses, até porque a campanha para a reeleição é o primeiro item da agenda presidencial. A inflação e as contas públicas estão absolutamente sob controle, disse a presidente em Salvador, na terça-feira.Pelos dados oficiais, essa inflação "controlada" continua em alta. O IPCA-15, prévia do Índice de Preços ao Consumidor Ampliado, subiu 0,27% em setembro e 0,48% em outubro, continuando a ascensão iniciada em agosto. Em julho havia ficado em 0,07%, mas no mês seguinte já avançou 0,16%.

Acabado o efeito dos truques com tarifas de ônibus e de eletricidade, o conjunto dos preços voltou ao curso normal numa economia com muita gastança pública, muita demanda privada de consumo e capacidade produtiva defasada. Além disso, a difusão dos aumentos de preços passou de 59,5% em setembro para 65,8% em outubro, no IPCA-15, segundo cálculo da Votorantim Corretora.

O indicador de difusão - porcentagem de itens com majoração de preços - é rotineiramente calculado pelas instituições do mercado financeiro. É um importante sintoma da vulnerabilidade dos vários segmentos do mercado às pressões inflacionárias. Quando a alta se espalha por quase dois terços dos preços e a alta geral acumulada em 12 meses, 5,75%, continua longe da meta, discutir se a inflação está controlada ou descontrolada é um exercício de escassa utilidade. Além disso, o resultado em 12 meses deve continuar acima da meta de 4,5% nos próximos dois anos, até o terceiro trimestre de 2015, segundo projeção do Banco Central (BC) repetida na ata da última reunião do Comitê de Política Monetária.

Além dessa ata, o BC divulgou também, nesta semana, seu índice de atividade econômica, o IBC-Br, uma espécie de prévia do produto interno bruto (PIB). Esse indicador subiu apenas 0,08% em agosto, depois de ter caído 0,33% em julho. Mesmo com um resultado melhor em setembro, a comparação do terceiro com o segundo trimestre deverá apresentar uma variação muito próxima de zero, talvez negativa, segundo a maior parte das projeções do mercado.

Esse e outros números parecem apontar, passados três quartos do ano, um crescimento pífio em 2013, embora maior que o do ano passado. O ministro da Fazenda já declarou aceitar a projeção de 2,5%, formulada pelo BC e pelo Fundo Monetário Internacional (FMI).

Mas o FMI, ao contrário do governo brasileiro, projeta a mesma taxa também para 2014 e uma expansão anual média, nos próximos cinco anos, de 3,5%, se os investimentos em infraestrutura começarem a deslanchar. As previsões são melhores para a maior parte dos emergentes da Ásia, da Europa ex-socialista e da América Latina. Quase todos, além disso, continuarão com inflação menor que a do Brasil.

O crescimento brasileiro, garante o ministro da Fazenda, será puxado, a partir deste ano, principalmente pelos investimentos. Mas, como ele mesmo reconhece, o valor investido em equipamentos produtivos, em instalações e em infraestrutura tem continuado próximo de 18% do PIB, poderá subir um pouco este ano e caminhar - esta é a meta oficial - para 24% dentro de alguns anos. Ninguém sabe quando essa proporção será alcançada, Quando isso ocorrer, o Brasil ainda investirá menos, proporcionalmente, do que investem hoje as economias mais dinâmicas da América do Sul.

Se esse avanço depender do governo, o caminho será muito longo, Até setembro o Tesouro investiu 35,7% dos R$ 91,2 bilhões previstos no Orçamento federal, valor menor que o do ano passado, descontada a inflação. A infraestrutura continua muito deficiente e o setor privado, por muitas razões, também tem investido menos que o necessário.

A piora da balança comercial é uma das consequências. O saldo oficial de 2013 até a segunda semana de outubro foi um superávit de US$ 964 milhões. Na semana anterior, a exportação fictícia de uma plataforma de petróleo havia adicionado US$ 1,9 bilhão à receita. Essa e outras plataformas contabilizadas neste ano jamais foram embarcadas. A operação tem finalidade tributária, mas é contada como receita.

A presidente e seus auxiliares costumam insistir, também, no discurso da boa gestão fiscal. Podem convencer quem ignora a contabilidade criativa e as ligações perigosas do Tesouro com os bancos federais - dados conhecidos internacionalmente e objetos de gozação dentro e fora do País. Pelo menos isto se pode dizer a favor da retórica e dos truques oficiais: são divertidos.

NÃO TEM PRÁ NINGUÉM: Políticos do Brasil pesam 6 vezes mais no bolso que dos EUA 60

Marco Prates
Exame.com

A estrutura montada para manter deputados e senadores custa seis vezes mais para os brasileiros que o Congresso dos EUA para os norte-americanos

Dado Galdieri/Bloomberg 
Congresso Nacional, em Brasília: norte-americanos e ingleses gastam 
muitas vezes menos de suas próprias riquezas para manter o poder Legislativo

São Paulo – O Brasil gasta seis vezes mais de sua própria riqueza para manter o poder Legislativo funcionando que os Estados Unidos, nove vezes mais que o Reino Unido e 11 vezes mais que a Espanha. A conclusão é da ONG Transparência Brasil, em estudo que compara o custos de casas legislativas em 12 países desenvolvidos e emergentes.

A pesquisa mostra que 0,19% do PIB nacional é usado para manter o Congresso. Ou seja, de cada 100 reais produzidos aqui, 19 centavos vão para o Legislativo federal.

Capitólio, sede do Congresso dos EUA:
os parlamentares de lá não foram exemplo para ninguém nos últimos dias,
 mas em compensação custam bem menos para os norte-americanos

O número pode parecer pequeno, mas colegas americanos e ingleses gastam bem menos: 0,03% e 0,02%, respectivamente (veja tabela completa abaixo).

Além disso, a cada minuto que passa, são gastos 16,1 mil reais com toda a estrutura existente para manter o trabalho de deputados e senadores. Dos 12 países analisados, o valor só não é maior que dos Estados Unidos.

O problema nisso é a desproporção. Os norte-americanos até gastam 10% a mais por minuto – 17,8 mil reais - mas têm uma economia quase seis vezes mais rica.

A conta utiliza o critério de paridade do poder de compra, que procura neutralizar os efeitos do câmbio na conta.

Confira os dados completos na tabela abaixo:

País
Custo do respectivo Congresso em relação ao PIB (%)
Congresso brasileiro custa quantas vezes mais?
Custo por minuto do Congresso em 2013
Custo por parlamentar em 2013
Brasil
0,19

R$ 16,1 mil
R$ 14,3 milhões
Argentina
0,14
1,3x mais
R$ 2,5 mil
R$ 4 milhões
Itália
0,09
1,9x mais
R$ 7 mil
R$ 3,93 milhões
Portugal
0,08
2,3x mais
R$ 800
R$ 1,8 milhões
Chile
0,06
2,8x mais
R$ 942
R$ 3,1 milhões
México
0,06
2,9x mais
R$ 4,7 mil
R$ 3,97 milhões
França
0,04
4,7x mais
R$ 3,4 mil
R$ 1,96 milhão
EUA
0,03
6x mais
R$ 17,8 mil
R$ 17,5 milhões
Canadá
0,02
6,7x mais
R$ 1,5 mil
R$ 1,9 milhão
Alemanha
0,02
6,8x mais
R$ 3,3 mil
R$ 2,5 milhões
Reino Unido
0,02
8,9x mais
R$ 1,7 mil
R$ 635 mil
Espanha
0,1
10,9x mais
R$ 958
R$ 820 mil


Dilma e seu tripé de fantasia

O Estado de S.Paulo

Contra todos os fatos e evidências bem conhecidos no Brasil e no exterior, a presidente Dilma Rousseff negou haver abandonado o tripé da estabilidade econômica - as metas de inflação, a busca do equilíbrio das contas públicas e o regime de câmbio flutuante. Talvez a declaração, embora obviamente falsa, tenha sido feita de boa-fé, por desconhecimento do sentido próprio das palavras e dos fatos.

Segundo a presidente, a inflação tem ficado na meta e está sob controle, assim como as contas públicas. Só pessoas extremamente desinformadas poderiam levar a sério esse discurso.

A presidente abusa das palavras - talvez por inocência, convém admitir - ao falar sobre a inflação sob controle e "dentro da meta". A meta é obviamente 4,5% e é esse o conceito usado pelo Banco Central (BC). A margem de dois pontos para mais ou para menos é apenas um espaço de tolerância, para ser usado em circunstâncias excepcionais. A inflação nunca esteve na meta, na gestão da presidente Dilma Rousseff, e ficará longe desse ponto ainda por uns dois anos, segundo projeções das autoridades monetárias.

Classificar como "sob controle" uma inflação anual na faixa de 5,8% a 6% ou é um sinal de absoluta desinformação ou configura uma tentativa bisonha de enfeitar um cenário muito feio. Não é fácil de escolher uma das duas possíveis explicações.

A defesa da política fiscal é igualmente inepta e chega a ser quase cômica. Os resultados fiscais, muito magros e cada vez piores, só têm sido alcançados com a participação crescente de dividendos pagos por estatais e com o recurso a truques contábeis conhecidos no Brasil e no exterior. Neste ano, prêmios pagos por empresas interessadas na exploração do pré-sal devem fortalecer o caixa do governo. Há meses a equipe econômica vem listando essa receita em suas projeções, numa demonstração de quase desespero diante da piora constante das contas públicas.

Além disso, mesmo os pífios resultados fiscais só têm sido apresentados, nos relatórios do governo, graças à famigerada contabilidade criativa, conhecida e tratada como tema de piada dentro e fora do País. Talvez a presidente seja pouco informada sobre esses detalhes. Ou talvez considere os comentários sobre o assunto meras demonstrações de má vontade e de pessimismo "adversativo". Expressões como essa indicam formas peculiares de perceber e de avaliar o mundo.

A dívida bruta do setor público é também um claro indicador de uma política fiscal perigosa. Pelos cálculos do Fundo Monetário Internacional, a dívida pública brasileira está na faixa de 68% do Produto Interno Bruto (PIB), quase o dobro da média dos emergentes, em torno de 35%. Pelas contas oficiais brasileiras, a proporção é da ordem de 58% do PIB. Por qualquer critério, a situação é menos segura que a dos países da mesma categoria econômica.

Somados os principais componentes do quadro, o Brasil apresenta inflação mais alta, endividamento público maior e crescimento econômico menor que aqueles apresentados por muitos países emergentes e em desenvolvimento.

Mas o Brasil será em 2013 um dos poucos países com crescimento maior que o do ano anterior, disse ontem o secretário de Política Econômica do Ministério da Fazenda, Márcio Holland. Com essa contribuição, o discurso oficial fica ainda mais engraçado. O secretário parece haver esquecido de um detalhe: no ano passado o PIB brasileiro cresceu 0,9%, depois de ter aumentado apenas 2,7% em 2011.

A presidente mencionou também as reservas internacionais, superiores a US$ 270 bilhões. Esqueceu de citar a deterioração das contas externas, com o saldo comercial próximo de zero e o déficit em conta corrente a caminho de US$ 75 bilhões - efeitos de um acúmulo de erros econômicos e diplomáticos.

Na terça-feira, a presidente declarou-se pouco interessada em eleições e dedicada só a governar. Mas suas atividades na terça e na quarta-feira, incluída a entrega de casas populares sem luz e sem água, são explicáveis só como esforços eleitoreiros. Em campanha constante, ela converteu o marketing político em plano de governo.

Maior desânimo

Carlos Alberto Sardenberg
O Globo

A queixa se iguala: ‘Estamos trabalhando para os caras’. Mesmo quando não é corrupta, a burocracia tende a se tornar um fim em si mesma

Começou com um ouvinte do programa CBN Brasil, que se apresentou como pequeno empresário da indústria e fez uma espécie de consulta: que tal se ele vendesse a fábrica, o que lhe daria uns R$ 3 milhões, e passasse a viver de aplicações financeiras, hoje em fundos imobiliários?

Por que faria isso se, como ele mesmo disse, a fábrica ia bem e dava dinheiro?

Por cansaço e desânimo, respondeu. Contou então que, como pequeno empresário, precisa estar em cima de tudo, da produção à contabilidade, das vendas aos fornecedores. E que ele não aguentava mais a trabalheira, não na produção de suas peças, mas na burocracia em volta, na dificuldade da gestão.

Colocamos a história no ar, na última terça-feira, Mara Luquet comentou, e imediatamente começamos a receber e-mails com casos parecidos. Alguns deles reclamavam da queda de atividade em seus setores — como um rapaz produtor de parafusos e outras peças para portas de vidro, com vendas em queda por causa do declínio da construção civil.

Mas mesmo esse dizia que ainda estava no lucro. Na verdade, como os demais, também estava mais cansado da trabalheira, digamos, institucional: lidar com as leis e regulamentos, suas autoridades, os tribunais, os fiscais, o pessoal do Fisco. É o maior desânimo, explicava um fabricante de roupas, também jovem, empreendedor: "Parece que a gente não trabalha no negócio, trabalha para os outros que ficam ali... atrapalhando".

Parecia a esses empreendedores, da economia real, que a vida de investidor financeiro, rentista, era mais fácil e mais segura.

Estava com isso na pauta quando escuto, pela tevê, o comentário de um dos chefes do crime em São Paulo, grampeado numa conversa com um colega: "Tô no maior desânimo, irmão, só trabalho para os caras; neste ano, já paguei uns 700 contos pra eles".

Sim, são situações bem diferentes. Não estamos nem de longe comparando empreendedores honestos com empresários do crime. Mas reparem: nos dois casos tem uma falha do Estado e das instituições. No primeiro, a burocracia (no sentido amplo) atrapalha uma atividade legal e produtiva, que deveria ser facilitada; no segundo, atrapalha uma atividade ilegal que deveria ser coibida, mas é preservada exatamente para dar lucro a agentes do Estado.

A queixa se iguala: "Estamos trabalhando para os caras". Mesmo quando não é corrupta, a burocracia tende a se tornar um fim em si mesma. Quando se chega a esse ponto, ela não existe mais para regular e controlar a atividade legal ou coibir a ilegal, mas a atividade privada, qualquer que seja, só existe para dar sentido (e vantagens) à burocracia e seus agentes.

A que ponto chegamos: o fabricante de parafusos e o distribuidor de cocaína no maior desânimo...

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O pré-sal e os índios
Era um debate com investidores financeiros e empresários, inclusive do agronegócio. Lá pelas tantas, Marina Silva disse: "Meu orgulho não é o pré-sal, mas as 38 comunidades (indígenas) que até hoje não têm contato (com os brancos)".

Qual o sentido disso?

Ela já havia dito que considerava o petróleo uma vantagem importante — a ser explorada com responsabilidade ambiental e uso consciente dos lucros para financiar o futuro, a educação por exemplo. Mas seu entusiasmo apareceu mesmo quando falou da energia solar e da eólica, cujo desenvolvimento considera crucial para que o país não seja dependente de uma só fonte, mesmo que seja a hidrelétrica.

O objetivo, afirmou, tem de ser a economia de baixo carbono.

Bom, petróleo é carbono puro. Hidrelétrica não é, mas aqui entram os índios e a floresta. Entram também no agronegócio, que era o tema de Marina quando falou, entusiasmada, das 38 comunidades indígenas ainda preservadas do contato com a assim chamada civilização ocidental. Na opinião da Marina, essas comunidades têm que ser preservadas como estão, na pura vida original, sendo o papel do Estado fazer essa proteção.

Eis como a frase lá de cima começa a ganhar sentido. Há uma agenda desenvolvimentista no Brasil, que inclui o pré-sal, a construção de uma pesada infraestrutura e um agronegócio que é um campeão mundial. Tudo com riscos ambientais. E um outro risco, daí derivado, o de bloqueio ao desenvolvimento por excesso de zelo ambiental.

Eduardo Campos é desenvolvimentista. Pernambuco é um canteiro de obras, inclusive de alto carbono. Marina vem pelo outro lado. Nada pode prejudicar a vida das 38 comunidades, nem que seja obra crucial para o desenvolvimento. Vai ser aí uma difícil combinação programática e pragmática.

Justiça do Rio decreta prisão de 31 vândalos. Então ainda há juízes na Berlim de frente pro mar?

Reinaldo Azevedo

Ainda há juízes na Berlim com vista para o mar? Ainda há juízes na Berlim da tardinha que cai e do barquinho que vai? Ainda há juízes na Berlim tropical? Que bom! A Justiça decretou a prisão preventiva de 31 dos 64 vândalos detidos nos tumultos de terça-feira. Já não era sem tempo!

Atenção, imprensa brasileira!

Atenção, coleguinhas jornalistas de direita (uns três), de centro (uns cinco…) e de esquerda (quase todo o resto): existe LIBERDADE DE MANIFESTAÇÃO NO BRASIL, garantida pela Constituição. Nestepaiz, como diz aquele, ninguém é preso POR SE MANIFESTAR. O que não há no Brasil nem em nenhuma democracia do mundo é liberdade de quebrar, invadir, depredar. Os que foram presos em flagrante não são, pois, MANIFESTANTES. São vândalos, são membros de quadrilha, são membros de bando, escolham aí. Chamá-los de manifestantes corresponde a endossar a violência.

Atenção, coleguinhas jornalistas que, à moda Kassab, “não são nem de direita, nem de esquerda nem de centro”: manifestantes não andam com estilingues, coquetéis molotov, porretes. Atenção, coleguinhas jornalistas que, à moda Marina, não “são nem de oposição nem se situação, mas de posição”: manifestantes não cobrem a cara. Manifestantes mostram a cara.

Assim, chega de chamar bandido de manifestante. Adiante.

Surto populista
A Justiça vive um surto populista, como apontei aqui. Decisões absurdas, com justificativas ainda mais exóticas, vão se acumulando. O próprio Supremo Tribunal Federal precisa passar por uma desinfecção. Sugiro que o remédio sejam a Constituição, as leis e a lógica. O ministro Luiz Fux afirmou que descontar dias parados de grevistas agride o direito de greve. Errado! O direito de greve existe — sim, sou contra greve de servidores porque o povo paga o pato, mas deixo isso pra lá agora — com ou sem o pagamento. Quem decide paralisar o serviço está disposto a uma cota de sacrifício pessoal em nome do bem coletivo. Assim se deram historicamente as lutas sociais. O estado e as empresas não são cartório de despacho de reivindicações. Juízes têm a obrigação da razoabilidade. Recebe quem trabalha; quem não, então não.

No caso da invasão da Reitoria da USP, um juiz decidiu, na prática, que a ação não só é aceitável como é justa — a direção da universidade é que levou um pito por conta de sua suposta intransigência. Até parece que não existem disposições regimentais vigentes a respeito da eleição de reitor. Existem. Não são cláusulas pétreas por certo. Podem ser mudadas. Mas é com marreta na porta que se argumenta? É com pé-de-cabra, meritíssimo?

Os exemplos de populismo judicial são muitos, vão se acumulando.

Espero que a decisão tomada agora pela Justiça do Rio represente um sopro de bom senso. Mas é preciso esperar para ver. Assim como setores da imprensa estão com medo de black blocs e assemelhados, também há setores do Judiciário que estão querendo fazer embaixadinhas para a torcida. Por medo ou por ideologia.

A coisa começa a tomar dimensões preocupantes porque se eleva a escalada da violência, como sempre ocorre quando há impunidade. No Rio, por exemplo, os black blocs já formam uma ala do sindicato dos professores, comandado pelo PSOL e pelo PSTU. A esquerda submarxista — quem é do ramo sabe que marxistas instruídos, eles existem, jamais se ligariam a bandoleiros dessa espécie (não é prurido moral, é questão política) — se juntou à violência doidivanas, sob o silencio cúmplice de idiotas que se negam a ver o óbvio.

Alguns tolos acham que isso é ruim para Sérgio Cabral e se calam. Outros tolos acham que isso é ruim para Sérgio Cabral e para Dilma e também se calam. Quem tem algo entre as orelhas além de um enorme vácuo de ideias e princípios morais sabe que, caso prospere a desordem para valer, a desordem é sempre favorável ao statu quo, que, então, se rearranja e passa a fazer o óbvio: fala em nome da ordem.

A Justiça em ação.

Carlos Brickmann
Brickmann & Associados Comunicação

A história é a de sempre: um político importante transferiu dinheiro público para seu patrimônio particular e montou um eficiente sistema de Caixa Dois para campanhas eleitorais. Um parceiro importante de seu esquema de corrupção era um empreiteiro amigo, que não só executava obras de porte (pagando as respectivas comissões, é claro) como era figura obrigatória em consórcios liderados por empresas concorrentes. Sem se associar a ele, conforme informaram vários empreiteiros, não havia jeito de ganhar bons contratos (e cabia ao amigo do político, sempre, a administração das comissões embutidas no custo das obras).

O referido político teve, durante seu mandato, despesas pessoais de quase um milhão de dólares acima dos salários que recebeu. Seus defensores alegaram na Justiça que o dinheiro tinha sido doado por simpatizantes, mas não conseguiram convencer o tribunal. Em menos de quatro anos após o final de seu mandato, o político foi indiciado, processado e condenado a 28 anos de prisão, em última instância. "Esta pena demonstra que a corrupção não será tolerada", disse a juíza Nancy Edmunds, que o condenou por formação de quadrilha, fraude, chantagem, caixa dois e evasão fiscal. A juíza tem nome estrangeiro, porque o caso, evidentemente, não ocorreu no Brasil (aqui as coisas jamais andariam tão depressa).

O político em questão é Kwame Kilpatrick, que foi prefeito de Detroit, nos EUA, de 2002 a 2008. O empreiteiro que dividia os lucros com ele chama-se Bob Ferguson. Kilpatrick já está cumprindo a pena a que foi condenado,veja só.

Dança brasileira
Dilma é candidata, mas quem tem os votos é Lula. Eduardo Campos tem um partido, mas tem poucas intenções de voto; Marina tem muitas intenções de voto, mas não tem partido. Aécio tem o partido nas mãos, mas não consegue decolar. Serra também não consegue, não tem o partido, mas tem mais intenções de voto do que Aécio - e tem más intenções quanto à candidatura de Aécio, se não puder afastá-la do caminho. 

A mesa está posta, mas pode mudar muito em um ano.

O Espírito que Anda
Sabem os leitores do Fantasma que o líder dos povos da floresta às vezes passeia pelas cidades, disfarçado, em companhia de Capeto, seu lobo de estimação. Ninguém deve imaginar que o Espírito que Anda seja apenas um ser da floresta: ele a conhece, mas sabe perfeitamente como agir fora dela. 

Que ninguém imagine Marina Silva como uma espécie de Madre Teresa de Calcutá das árvores, flores, rios e animais: Marina conhece a floresta, defende os princípios verdes, é ecologista, lutou ao lado de Chico Mendes, mas é acima de tudo uma política experiente, que passou por dois partidos, foi ministra de Lula, governante que tem a política no sangue, foi senadora pelo Acre, em tabelinha com dois políticos poderosos que controlam o Estado, os irmãos Tião e Jorge Vianna. E, quando circula pela cidade, conduz fortes grupos empresariais em sua companhia. Caipira ela é quando quer, mas cosmopolita, estudiosa e profissional ela é o tempo todo.

Ô, gente chata! 
O primeiro foi o prefeito paulistano Fernando Haddad, do PT: depois de ser apresentado a um ônibus, prometeu que vez por outra, sem exageros, irá usá-lo para ir à Prefeitura. Está sendo seguido pelo governador paulista Geraldo Alckmin, do PSDB, que se declarou disposto a usar transporte público algum dia desses. Um palpite deste colunista a quem usa os ônibus como meio de transporte: decore as linhas que os engravatados, seus assessores e suas multidões de seguranças poderão utilizar, e evite-as. 

Não é apenas por ser chato servir de massa de manobra para a demagogia, mas também porque essa turma vai ocupar os ônibus inteiros e deixá-lo de pé, sem a menor chance de encontrar um banco vago.

Quem ganha? 
Leitor desta coluna, Moris Litvak, pergunta quem financia os black blocs. "Veja as roupas, óculos especiais, máscara antigases, estilingue de competição, etc. Por que a Polícia não prende? Por que, quando prende, a Justiça solta?"

São perguntas excelentes: em geral, a Justiça manda soltar porque a Polícia não conduz as detenções de acordo com as normas legais. O problema, com certeza, não é este: é ver quem ganhou com o barbarismo dos black blocs. 

Antes deles, houve multidões nas ruas, com reivindicações diversas, difusas, mas tendo como ponto comum a vontade de mudar "tudo isso que está aí". Surgiram então os vândalos e o pessoal que protestava sem aderir a partidos acabou ficando em casa. Os índices de aprovação do Governo Federal, que tinham caído, voltaram a crescer, embora longe do nível anterior. Quem gasta dinheiro com a baderna é quem ganha com ela. 

Quem lucrou com a baderna que tirou o povo da rua?

Brincando com nomes
O deputado federal Ricardo Berzoini, do PT paulista, apresentou projeto para mudar o nome de Viracopos para "Aeroporto Internacional de Viracopos - Luiz Gushiken" (projeto de lei 6.519/2013). Luiz Gushiken foi um dos fundadores do PT e como sindicalista sempre atuou na área bancária. Jamais teve qualquer relação com aviação, aeronáutica ou aeroportos. 

E, se é para homenagear algum petista dando seu nome a Viracopos, no caso há outros mais merecedores. 

carlos@brickmann.com.br 
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Dilma manda concorrentes “estudar”. Com que autoridade? Com que grande currículo? E o que ela diria para Lula?

Ricardo Setti
Veja online

(Foto: Folhapress) 
Dilma dando lição aos concorrentes rivais às eleições de 2014: com que base? 

Como se estivesse com o mundo na barriga, sabendo sobre tudo, a presidente Dilma Rousseff recomendou a seus adversários na campanha presidencial que “estudassem” para poder governar o Brasil.

Fez essa recomendação a Aécio Neves (economista, ex-deputado federal, ex-presidente da Câmara dos Deputados, duas vezes ex-governador de Minas Gerais e atualmente senador da República pelo PSDB), Eduardo Campos (economista, ex-deputado estadual, ex-deputado federal, ex-ministro de Ciência e Tecnologia, atual governador de Pernambuco pelo segundo mandato consecutivo, pelo PSB) e a Marina Silva (bacharel em história, pós-graduada em psicopedagogia, ex-vereadora, ex-deputada estadual, ex-senadora da República — pelo PT — e ex-candidata à Presidência pelo PV, em 2010, com 20 milhões de votos).

Curiosa essa arrogância da presidente.

Ela se formou, tardiamente, em economia, por seu envolvimento com a luta armada e os anos que passou na clandestinidade e no cárcere. Depois, tentou e não terminou uma pós-graduação e um doutorado na mesma área.

Antes de ser presidente, jamais exercera cargo eletivo algum. Foi uma ministra de Minas e Energia de Lula que não deixou grandes lembranças e uma chefe da Casa Civil também do ex-presidente que se viu transformada em “mãe” de um Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) que já tem quase dez anos e não atingiu nem um terço de seus objetivos.

Com que moral a presidente passa lição de casa e pito em seus adversários, dois deles administradores experientes e a terceira com formação acadêmica melhor que a sua e várias vitórias eleitorais no currículo, além de cinco anos como ministra de Estado?

Ela recomenda aos adversários “estudar”?

O que recomendaria a seu guru, Lula, que nunca quis se aproximar de qualquer curso depois que passou a ter possibilidades, e que apregoa com orgulho sua falta de instrução?

Sinto muito, mas este não é um país sério

Ricardo Noblat

Se tratássemos a política com seriedade não haveria espaço para que partidos empenhados em eleger o mesmo candidato a presidente da República pudessem ser adversários na hora de eleger governadores, deputados federais e estaduais.

O presidente interino do PMDB, senador Valdir Raupp (RO), informou à direção nacional do PT que seu partido apoiará Eduardo Campos contra Dilma em Pernambuco e no Piauí. E que em nove estados o PMDB será adversário do PT nas eleições para os governos estaduais.

Dos nove, três fazem parte da lista dos maiores colégios eleitores do país - São Paulo, Rio de Janeiro e Bahia. O provável candidato do PMDB ao governo baiano é Geddel Vieira Lima, atual diretor da Caixa Econômica Federal, nomeado por Dilma.

Tudo muito coerente - não lhe parece?

A história das eleições entre nós é a história das mudanças nas regras eleitores. Rara a vez que houve eleição sem que antes se mudasse as regras - ou alguma regra. Beneficia-se o partido ou coligação de partidos com mais força na ocasião.

Jamais esteve entre os costumes nacionais, por exemplo, a reeleição de presidente, governador e prefeito. Em época alguma da História. E se desconhece qualquer corrente de opinião que tenha batalhado pela reeleição.

Uma vez no poder, o presidente Fernando Henrique Cardoso (PSDB) quis ficar mais quatro anos. Como os partidos que o sustentavam tinham maioria no Congresso, sua vontade foi feita.

O que está na raiz das alianças partidárias nada tem a ver com ideologia, princípios, valores, o bem estar da população - nada. Monta-se alianças pensando acima de tudo no tempo de propaganda eleitoral no rádio e na televisão.

Partidos com gordas bancadas na Câmara dos Deputados e no Senado dispõem de tempo de propaganda maior. São os mais ambicionados parceiros.

Mas deu-se também um jeito na lei para que eles possam negociar seu tempo de propaganda na eleição presidencial sem comprometer seu tempo de propaganda na eleição estadual.

Assim, parlamentares de diversos partidos confraternizam no palanque presidencial, fazem juras de amor eterno, prometem o impossível ao distinto público. Para no dia seguinte se exibirem em palanques diferentes, com candidatos  diferentes aos governos, dizendo o diabo dos aliados da véspera.

Governo repete modelo de Geisel, diz Arminio

Fernando Dantas
O Estado de S.Paulo

Para ex-presidente do BC, uma economia fechada e com foco nas estatais não é a fórmula para o sucesso a longo prazo

Arminio Fraga, sócio fundador da Gávea Investimentos e ex-presidente do Banco Central, vê uma "certa tensão no ar" causada pelo modelo de flexibilização da política econômica que vem sendo seguido desde o segundo mandato do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Para Arminio, o governo deu recentemente sinais tímidos de reversão parcial desse modelo, especialmente na política do Banco Central, mas que ainda estão longe de apontar para um caminho mais seguro para a economia brasileira.

Em entrevista ao Broadcast, serviço em tempo real da Agência Estado, ele lembra que ajustes geralmente não ocorrem em anos de eleição, mas o próprio temor do custo eleitoral da inflação, por parte do governo, "alinha os incentivos políticos e econômicos".

Em contato constante com o presidenciável tucano Aécio Neves, Arminio não descarta participar do governo, embora ressalve que esse é um assunto a ser tratado com o candidato, e não com ele. O ex-presidente do BC também manifestou simpatia pelas ideias da dupla Eduardo Campos e Marina Silva.

Arminio acha que o adiamento do "tapering" (a redução gradual do programa de compra de títulos de longo prazo pelo Federal Reserve, o BC americano) foi uma "postergação do encontro com a realidade", e alerta que a expectativa sobre a normalização da política monetária é de que "não ocorra de forma totalmente suave". Ele lembra que o Brasil, com déficit em conta corrente, alta inflação e questionamentos sobre a condução fiscal, está particularmente vulnerável.

A situação brasileira ficou mais tranquila com a decisão do Fed de não começar o "tapering" em setembro?
Isso só vai adiar o momento em que a política monetária americana e em vários outros países vai voltar à normalidade. São anos de juro zero, com os bancos centrais comprando títulos e, de certa maneira, avançando num território muito desconhecido, de políticas não convencionais. Esse ambiente de alta liquidez, os bancos centrais com essa posição muito assimétrica, sempre com viés de injetar liquidez, o quanto for necessário - tudo isso vai ficar para trás. A expectativa é de que isso não ocorra de forma totalmente suave, e essa expectativa continua. Houve uma postergação desse encontro com a realidade.

Por que o Fed adiou o "tapering"?
Foi motivado pelos próprios dados, a inflação americana continua muito baixa. Nos últimos três anos, o Fed projetou um crescimento do PIB mais alto do que acabou acontecendo. Eles estão de fato querendo sair dessa política de juro zero com muito cuidado. Mas não significa que não vão, em algum momento, mudar.

Mas a conjuntura brasileira parece melhor do que em meados do ano?
Aqui no Brasil, a sensação de frustração com crescimento baixo e inflação alta é grande, e também não desapareceu. Há alguns sinais aqui e ali, mas nada que represente uma mudança mais radical na direção de um crescimento mais alto e de uma inflação mais baixa.

Como o sr. avalia a atuação recente do Banco Central?
O Banco Central vem cumprindo o seu papel de apertar a política monetária, após um período longo de inflação acima da meta. Não só acima da meta, como também uma inflação que vem se "beneficiando" de controles de preços, como os combustíveis e as tarifas de transporte urbano - e também de subsídios. A inflação subjacente deve ter andado por um tempo acima de 7%. É bom que o Banco Central tenha voltado para as suas raízes, depois de um período difícil para a instituição.

O sr. acha que esse retorno do BC a uma posição mais ortodoxa indica uma mudança mais geral da orientação da política econômica?
Ao longo desses meses, até antes das manifestações, o governo anunciou que voltaria a leiloar aeroportos e áreas de petróleo. E reconheceu também que precisava revisar os termos das concessões rodoviárias e ferroviárias, contribuiu para a aprovação de uma nova Lei dos Portos, e assim por diante. Então o governo sinalizou mudança de posição nessas áreas. Mas são sinais ainda preliminares, e há muitos desafios, tanto de formulação quanto de execução. Eu não diria que foram sinais fortes. E vem misturado com muito do modelo que já vem desde o segundo mandato do presidente Lula. Já são vários anos desse modelo.

Quais os problemas desse modelo?
O governo continua, até prova do contrário, com uma postura geral muito fechada, antiquada. Repetindo muita coisa que a gente já viveu, principalmente nos anos 70, no governo Geisel. Um modelo com foco nas estatais, e com a economia bastante fechada. Não levo fé nesse governo como fórmula para o nosso sucesso a longo prazo. Ao contrário, acho que, se não for modificado, vai nos dar dor de cabeça.

O sr. poderia dar exemplos concretos de como esse modelo se aplica hoje no Brasil?
Há uma ênfase muito grande no papel dos bancos públicos. E também muita ênfase na Petrobrás - curiosamente, no mesmo momento em que a Petrobrás tem de assumir uma responsabilidade muito grande no setor, asfixiou o seu caixa. O crescimento do crédito, tanto público quanto privado, traz problemas, aqui, na China, nos Estados Unidos. Pode dar alguma ressaca mais na frente. Eu não discrimino entre público e privado, o setor privado também fez as maiores loucuras e bobagens em termos de crédito nos últimos anos. Qualquer movimento de crescimento de crédito muito acelerado tem de ser encarado com bastante receio. É o caso aqui.

Como o sr. vê a posição externa do Brasil?
Caminhamos para um déficit em conta corrente de quase 4% do PIB num momento em que o financiamento pode ficar mais escasso. É um quadro ainda bastante delicado. O Bernanke (Ben Bernanke, presidente do Fed) tirou o time do campo em setembro, mas os fatos mais adiante vão exigir a normalização da política monetária americana. Nesse momento, os países que dependem mais de financiamento, que têm déficit em conta corrente e inflação alta, vão sentir. A gente está exatamente nessa situação, e, inclusive, com nossa situação fiscal sendo questionada.

Qual a sua opinião sobre a política fiscal hoje?
Acredito que a meta de superávit primário deveria ser superior a 2% do PIB. O Brasil tem uma dívida bruta de 60% do PIB, até mais, dependendo do critério que se usa. Nossa dívida é alta, nosso juro real é alto, nossa dívida de longo prazo paga um juro real de 5,8%, as NTN-B de prazo mais longo. É muito alto. 

Temos de ter um modelo macro que crie condições para que essa taxa de juros possa cair, de forma sustentável. Não é um ato de voluntarismo que vai gerar isso. É uma sequência de resultados, reforçados por defesas institucionais, que vai nos levar a um juro real normal, de 2%, 3% ao ano de longo prazo.

Recentemente, Nelson Barbosa, ex-secretário executivo da Fazenda, sugeriu um intervalo de meta de superávit primário. O que o sr. acha da proposta?
Há muitos anos defendo que se mantenha um superávit primário relativamente elevado para padrões globais, talvez algo em torno de 3% do PIB, mas que haja algum espaço para acomodar o ciclo, não tanto do lado da despesa - embora isso também possa. e até deva, ser usado em momentos mais extremos -, mas sim pelo lado da receita, os chamados estabilizadores automáticos. Então, você fez uma projeção bem feita para ter um primário de 3% do PIB com a economia crescendo 3%. Se ela crescer 5%, seu primário vai ser maior, e você não gasta de maneira pró-cíclica. E o mesmo, claro, ocorre na outra direção. Mas acho que o governo deveria ter uma meta, um número fixo, com flexibilidade para ficar acima ou abaixo de acordo com a realidade do ciclo econômico.

E a proposta de reduzir o custo da dívida dos Estados?
É bastante controversa num momento como este. Na minha leitura, pode ser uma chance perdida de se reformar para valer o ICMS. Isso seria uma ficha de barganha muito boa, que dá uma certa margem para acomodar perdas e pressões e viabilizar a reforma. Temos de deixar de ter uma enciclopédia de ICMS por Estado para ter um livrinho para o País todo.

O sr. acha que o Brasil pode enfrentar turbulências à frente? 2014 é um ano eleitoral...
Há uma certa tensão no ar. O spread da dívida aumentou. Há um receio de que esse processo continue se não houver uma reversão nessa trajetória de flexibilização da política macro. Isso, historicamente, não só no Brasil, mas em toda a parte, não tende a ocorrer em ano de eleição. A reversão dessa flexibilização pode ficar prejudicada por um ano de eleição. Por outro lado, é claro que o governo entende que, se for chegando perto da data das eleições, e a inflação estiver incomodando, ele vai pagar um preço. Nesse sentido, os incentivos políticos estão alinhados com os econômicos. Quer dizer, não é um terreno muito fácil para populismo. Outro aspecto é que, curiosamente, e ao contrário de 2002, há uma expectativa de que, se a oposição ganhar, a política econômica melhore.

Por falar nisso, o sr. tem estreitos contatos com o candidato tucano, Aécio Neves.
Tenho conversado bastante com o Aécio. Não vejo o meu papel como de campanha, mas se puder ajudar, eu pretendo fazê-lo.

As ideias dele convergem com as que o sr. expôs nesta entrevista?
Acho que sim, mas não tenho procuração para falar pelo Aécio. Mais do que essas ideias, ele tem experiência de governo extraordinária em Minas, de acreditar em boa gestão, em meritocracia, na eficiência do Estado. Isso é fundamental, porque mostra que não só faz parte da maneira como ele pensa, mas é a maneira como agiu.

O sr. cogitaria uma participação no governo caso Aécio ganhasse?
Não está na hora de se ter esse tipo de discussão. Eu já participei duas vezes de governo, não posso descartar, de jeito nenhum. Mas é um tema que tem de ser discutido com o Aécio, não comigo.

O que o sr. acha da união da candidatura de Eduardo Campos e Marina Silva?
Estou começando a acompanhar mais de perto as declarações do governador Eduardo Campos. Ele tem o crédito de ter feito um bom governo em Pernambuco, embora eu não conheça os detalhes. O caso da Marina é interessante. Está se assessorando com economistas como Eduardo Gianetti e André Lara Resende, o que, a meu ver, dá um sinal muito positivo.