segunda-feira, junho 24, 2013

Por que o Brasil chegou a este ponto?

Adelson Elias Vasconcellos

Nada no campo social e político nasce ao acaso. Sempre se encontrará um momento em que os eventos do presente tiveram um primeiro passo, uma primeira causa, um espécie de big-bang. 

A mobilização brasileira, que deixa atônitos políticos e estudiosos, não é um fenômeno parido apenas a partir da reclamação, até simplória, dos vinte centavos a mais no transporte coletivo. E nem isso denotou tanta agitação. Pode até ter sido usado como estopim, mas não se pode reconhecer como o explosivo que estourou e colocou milhões nas ruas.

É preciso um pouco de memória para localizarmos as células iniciais destas manifestações. Voltemos no tempo, e olhemos os resultados das eleições  de 2002 para cá. 

Quando Lula foi eleito, este já foi um acontecimento que prenunciava que havia algo de diferente na sociedade.   Lula representava esta busca de algo novo, capaz de mudar o cenário político que vinha se desmanchando moralmente. 

Porém, na medida que o tempo passava, o que se observou foi que Lula não veio para mudar coisa alguma. O apelo eleitoral  não passava de um apelo eleitoral. Logo, sob a desculpa de se garantir a governabilidade, Lula aliou-se com o diabo (como aliás ele próprio reconheceu várias vezes), não com o propósito de promover mudanças no cenário que encontrou, e sim para reduzir a resistência ao seu nome e se conservar soberano no poder. 

Em seu primeiro mandato, ainda quando a economia esteve sob o comando de Palocci, Lula ainda tentou ser um pouco mais conservador, nem tanto à esquerda, como queria seu partido, nem tanto à direita como as forças retrógradas e apodrecidas desejariam. Esta postura central, tinha por objetivo ganhar terreno, permitir que as reformas herdadas de seu antecessor e bafejado pelos bons ventos da economia mundial,   continuassem produzindo frutos que, espertamente, ele foi colhendo e declarando-se pai da semeadura. 

Deu certo. No plano parlamentar, Lula sabendo do apetite dos políticos, criou o mensalão com um propósito: primeiro fragmentar ao máximo que pudesse a oposição e, segundo, captar apoio para formar alianças e impor uma agenda de mudanças, agora mirando a agenda das esquerdas. Tal estratégia tinha um ponto a ser alcançado: a hegemonia do PT no poder central.

A conquista do segundo mandato já foi um pré aviso: lembram dos aloprados, bando de petistas da cozinha presidencial que tentaram comprar e montar um dossiê falso contra Serra e Alckmin? Pois bem, este escândalo foi uma das causas que provocou o segundo turno. Muito embora tenha vencido, o governo Lula 2 iniciava seu tempo com duas graves máculas: o mensalão, escândalo eclodido em 2005, e os aloprados que provocou o segundo turno em 2006. 

Os dois episódios combinados tinha munição suficiente para que a oposição à Lula se fortalecesse e pudesse representar a ala do eleitorado insatisfeito com os caminhos da era Lula, que se desviava, dia a dia, de seu mote de campanha, um Brasil de mudanças. Porém, na medida que a oposição se acovardou e se apequenou, esta parte da população passou a ver que não tinha, no plano político, um canal representativo para encaminhar suas demandas.

Porém, isto ficava cada vez mais transparente a cada nova eleição, fossem elas de cunho federal ou municipal. Voltem nas estatísticas e reparem que a soma de votos brancos, nulos e abstenções sempre foi crescente, chegando ao ponto de, em 2012, elas terem superado em todo o país, mais de um terço do eleitorado.

Ora, o simples olhar para estes números já indicaria que a mobilização de insatisfação se movia no seio do povo brasileiro com bastante força. E para que ele explodisse como agora,  não se precisaria de um motivo inteiro, bastava meio motivo.

Olhando-se a cara da manifestação presente,  é visível ser majoritariamente de classe média. Já falei aqui da estranheza de um movimento popular desta envergadura, não tenha posto nas ruas o povo mais pobre do país. Estariam eles mais satisfeitos? Claro que não, seguramente a população pobre seja a parcela da sociedade que é mais violentada institucionalmente. É quem mais padece pela precariedade dos serviços públicos. Quando não pela ausência completa de estado.

Porém, as políticas públicas do petismo privilegiaram, essencialmente, os pobres de um lado, com as políticas de distribuição de renda, iniciadas com Fernando Henrique e aprofundadas por Lula, e  a elite empresarial, com concessões creditícias para uns e as políticas de juros altos, que muito agradaram os banqueiros.

Assim, tendo ampliado sua base de apoio legislativo, com distribuição farta de cargos e verbas, com a elite empresarial agraciada com facilidades via BNDES, e os pobres beneficiados pelas infindáveis bolsa qualquer coisa que lhes transmitia uma falsa sensação de bem estar, entendia-se que não haveria risco à hegemonia política pretendida. 

Ora, todo este investimento foi pago por quem? Quem teve que suportar o peso de tantos benefícios, privilégios e concessões? A classe média, mas a classe média real, não a inventada por Dilma.

Esta parcela da sociedade, de repente, viu que apenas trabalhar e estudar não capaz de lhe garantir um futuro seguro. O custo dos planos médicos disparou. A educação definhou e, onde havia qualidade, esta classe média precisou dividir o espaço com aos beneficiários das políticas de cotas. O valor das mensalidades foi muito além da inflação. A segurança foi para o vinagre.  Afora o trânsito, matam-se 50 mil pessoas por ano no Brasil.

Ou seja, o mundinho da classe média, erguido com trabalho, esforço, estudo e sacrifícios, de repente foi ruindo em troca de coisa alguma. Apenas para que se tenha uma ideia das muitas maldades contra ela cometidas, a isenção do imposto de renda na fonte sobre o trabalho assalariado caiu de 5 salários mínimos em 2002, para cerca de 2,5 salários mínimos em 2013. As tarifas de energia elétrica que, em 2002 tinham  21,6 % de carga tributária, saltaram para 48,0% em 2012. No consumo, a classe média real precisa ir ao exterior para comprar aquilo que no Brasil se tornou caro demais, em razão da carga de impostos diretos e indiretos.   

Estes dados preliminares indicam que, desde 2003, a classe média vem sendo estrangulada e exprimida   para beneficiar, de um lado, os pobres e miseráveis, e de outro lado, a elite econômica que dá sustentação financeira ao fortalecimento do PT. Observa-se uma inversão na lógica de se tirar um pouco de quem tem muito para distribuir com quem nada tem. Aqui, a fórmula foi tirar de quem tinha um pouco, para distribuir para nada tem e, incrível!, também para os que tem muito. Apesar dos discursos, a carga tributária brasileira em relação ao PIB nunca foi tão elevada como agora, e ela pesa muito mais para a classe média real, aquela que, de fato,  sustenta comércio, indústria e serviços.

E é neste ponto que entra a inflação. Os preços que mais se elevam são os serviços, justamente aqueles que esta classe média mais se vale. Basta que olhemos o quanto subiram as mensalidades escolares e as mensalidades dos planos de saúde. 

Colocado tudo num mesmo caldeirão, é lógico que o ponto de ebulição acabaria eclodindo a qualquer momento. Valeram-se da convocação para protestar contra a tarifa de transporte público, para ali darem-se conta que poderiam ir às ruas utilizando-se das redes sociais para demonstrar toda a sua gama de razões para estarem insatisfeitos. E um detalhe: quem mais utiliza o transporte público nem é a classe média real. 

Eis aí um histórico de fatos  que foram contribuindo, um a um,  para a explosão de indignação que se verifica nas ruas. Em artigo anterior, expliquei os motivos dos pobres estarem distantes destes movimentos. Até porque, grande parcela não pode se dar ao luxo de se ausentar do trabalho por dois, três, quatro dias ou mais para ir às ruas. 

Entendidas estas duas questões, é hora de perguntarmos: para onde vamos? No que resultará este movimento de insatisfação que, apesar de ter as cores e a cara da classe média, não é menos popular do que se fossem os pobres a maioria dos que protestam? 

Qual o efeito que as manifestações provocarão na vida política nacional? Bem, este será o tema do próximo artigo. Advirto, porém, que não há um projeção de cenário único. Podemos, muito bem, seguir avançando, e forçando os agentes políticos a mudaram suas atitudes em favor de todos e não apenas de alguns, ou podemos  optar pelos salvadores da pátria, aproveitadores e oportunistas – sejam de direita ou esquerda – que sempre nestas horas de crise e convulsão se apresentam com suas fórmulas mágicas mas com o propósitos  demagógicos e falsos. Os tais lobos em pele de cordeiro.

Daí porque é importante que os formadores de opinião, com competência e isenção, sejam aríetes e guias da racionalidade,  esclarecendo e orientando os manifestantes sobre os caminhos possíveis para alcançar aquilo que almejam e que os levaram às ruas para reivindicar.  Saber identificá-los, num país em que o pensamento político  se tornou tão obscurantista, em que divergir do pensamento político dominante é tão maltratado e malvisto, não será uma tarefa fácil. É preciso colher o máximo de informações, conhecer a fundo o perfil e a formação de cada destes ideólogos. Mas creio já estar entrando no tema que pretendo tratar em outro momento. 

Por que não acredito nas intenções de Dilma Rousseff.

Adelson Elias Vasconcellos.

O Estadão informa que a presidente receberá em audiência, nesta segunda, a turma do MPL-Movimento do Passe Livre.  Em seu pronunciamento na sexta, em rede nacional de rádio e televisão, a soberana havia prometido que receberia para um papinho no Planalto os lideres das manifestações. 

Tratamos desta promessa presidencial no domingo. Só um movimento identificado nestas manifestações, justamente o movimento do Passe Livre. Porém, os milhões que foram às ruas foram convocados via Facebook, sem lideranças, sem organização, e com único propósito: mostrar aos país, partidos e políticos em particulares, sua indignação com o Brasil do presente.

Já comentamos também quem compõe o bloco do Passe Livre. Como ainda mostramos de onde vem a bufunfa que os alimenta, das estatais. 

O que talvez o leitor não saiba é qual a ideologia povoa a mente desta turma. E, como imagem fala mais alto do que palavras, vejam o vídeo abaixo sobre a participação desta moçada nas passeatas em São Paulo. 




É possível notar, apesar da barulheira que, dentre gritos e faniquitos , berram a seguinte palavra de ordem, enquanto a turma vai a um delírio histérico  enquanto uma bandeira brasileira arde em chamas,  e outra é preparada para ir à fogueira.

“Bandeira da Nação; homenagem à escravidão!”.

As demais expressões, mostram quem chefiou as quadrilhas de vândalos e criminosos, alimentando um cenário de terror em todo o país. 

Primeiro, queimar um símbolo nacional, em público, já seria, por si só, um crime hediondo.  Mas entoar aquele cântico tétrico, é o supra sumo da ignorância, combinada com uma agressividade que nos leva às origens dos atos de violência e vandalismo que horrorizaram o país. Segundo, suas atitudes e palavras falam por si: esta gente não quer democracia, não ordem, sonham é com a anarquia, com o quanto pior melhor (para eles).  

E é esta gente estúpida que Dilma vai tratar da indignação da nação? É com estes imbecis que a presidente de todos os brasileiros pretende discutir as demandas de milhões? 

Conforme adverti, não confio nas tais intenções de entendimento da senhora Dilma Rousseff.   Esta turma que incinerou a bandeira brasileira numa via pública, símbolo máximo de todo o povo brasileiro não poderia ser recebida em palácios do poder. Deveriam ir presos para aprenderem que a verdadeira cidadania não ultrapassa os limites da civilidade e não admite agressões aos símbolos de uma nação livre.  

Ao recebê-los, Dilma Rousseff esbofeteia as pessoas honestas e pacíficas que foram às ruas, e demonstra um total desprezo à decência que o cargo lhe impõe.  Patético e vergonhoso. Dilma não faz por merecer presidir um povo como o brasileiro. 

De bom tamanho

Dora Kramer  
O Estado de S.Paulo

Falácia a alegação de governantes, partidos e políticos em geral de que não estão entendendo direito a razão das manifestações. Sabem muito bem do que se trata. Só estão - como de resto todo mundo - intrigados com o fato de a coisa ter surgido assim, supostamente "do nada", com adesão impressionante.

Na realidade surgiu e se alastrou em decorrência "do tudo". Mal explicada mesmo estava a discrepância entre o registro de satisfação nas pesquisas e a insatisfação dos que, no cotidiano, se perguntavam por que não havia reação aos desmandos em série. O que, afinal de contas, estava assim tão bom se o custo de vida sobe e o Estado não faz a sua parte?

O recado está dado, a mensagem perfeitamente captada principalmente quando as manifestações mais contundentes ocorrem depois de prefeitos e governadores anularem aumentos em tarifas de transportes coletivos. Atordoados pelo barulho improvisaram um lenitivo que, como se viu, não satisfez.

Agora, completadas duas semanas desde o início dos protestos, seria hora de começar a pensar em deixar de lado entusiasmos e aturdimentos para abrir espaço à objetividade.

Olhar, primeiramente, com frieza para a violência que emerge em todos os atos, salvo raríssimas exceções. Se o Estado não pode ficar inerte diante de depredações - até porque hoje se agride o patrimônio amanhã podem ser agredidas pessoas -, cabe à polícia distinguir a quem dirige a força e modular sua aplicação.

Não se pode também desconhecer que, ao contrário de movimentos com direção nítida que têm seus próprios métodos de proteção, esse nascido da espontaneidade não dispõe de instrumentos para se defender de provocadores. Tal defesa é importante para que a violência não passe a ser a questão central, deixando as demandas em papel secundário.

Outro dado é a administração da hora de parar. Conveniente seria fazê-lo no auge, a fim de que não se perca a eficácia da mensagem. Considerando a impossibilidade de as ruas ficarem ocupadas indefinidamente, mais cedo ou mais tarde os protestos vão arrefecer. A natural retirada, porém, precisa ser feita de modo que não seja confundida com desmobilização dos propósitos que motivaram o despertar da apatia.

Essa pasta de dente não volta ao tubo. A relação entre Estado e sociedade não será mais a mesma.

O PT pensará duas vezes antes de trocar afagos com um ex-presidente posto para fora por vontade manifesta nas ruas que agora se fazem de novo ouvir; o Senado pensará duas vezes antes de eleger um presidente obrigado a renunciar dois anos antes acusado de pagar despesas particulares com dinheiro de empreiteira; a Câmara pensará duas vezes antes de brigar pela preservação de mandatos de condenados por corrupção e assim por diante.

Quais os termos da renovação do contrato entre representantes e representados ainda é impossível vislumbrar, mas é inevitável que a diferença se expresse com nitidez na campanha eleitoral de 2014.

O rumo depende de como reagirão os alvos do grito de chega. O principal deles, não há como negar, os governos, primordialmente o federal. É ele o dono da pauta nacional cuja amplitude não lhe apaga a nitidez. As cobranças estão ditas. Algumas são objetivas, outras implicam mudança de procedimentos. Em todos os Poderes.

Não dará uma boa resposta a Presidência da República se tergiversar, procurando socializar o prejuízo. A desmoralização é geral, de fato. Mas o problema real não se enfrenta transferindo obrigações, mas assumindo-as.

A revolta é dirigida a "tudo isso que está aí". Ao governo, contudo, cumpre apresentar as soluções, dar a direção. À sociedade cabe não se deixar enganar. Perceber que culpar a todos equivale a cobrar responsabilidade de ninguém.

Os ultraesquerdistas do Movimento Passe Livre, do MTST e do Periferia Ativa tentam retomar o protagonismo e agora vão levar agitação para as áreas mais pobres de SP

Reinaldo Azevedo

Inconformados com o suposto desvio conservador das manifestações, os coxinhas radicais do Movimento Passe Livre e seus aliados de esquerda do MTST (Movimento dos Trabalhadores Sem Teto) e do Periferia Ativa decidiram, há dois dias, não convocar mais manifestações em São Paulo. Como os protestos continuaram a acontecer mesmo sem eles, então recuaram do recuo e agora estão de volta. Por enquanto ao menos, parece que vão deixar a Paulista “para a direita”. Os almofadinhas, agora, querem cair nos braços da periferia.

Com o auxílio da imprensa, transformada em sua porta-voz, a turma decidiu marcar um protesto que tem duas áreas iniciais de concentração: o Largo do Campo Limpo e a estadão do metrô Capão Redondo. Atenção para isto: os protestos vão começar às 7h, segundo informam os portais noticiosos. Se for assim, parece que a ideia é forçar uma espécie de greve junto com a manifestação. A depender das adesões e do que faça o grupo, cria-se um colapso nos transportes, e ninguém consegue se mexer.

Mas, diz o Datafolha, 66% dos paulistanos apoiam os protestos. Eu também apoio, já disse, mas não assim. Nenhuma democracia do mundo permite que a vida das pessoas — ainda que seja da minoria de 34% — seja decidida pela vontade militante de alguns grupos, ainda que suas causas sejam justas e razoáveis. A do MPL é?

Eles avisam em sua convocação que o protesto de agora é pelo “passe livre” mesmo. E escrevem: “Se, antes, diziam que baixar a passagem era impossível, a luta do povo provou que não é. Já derrubamos os 20 centavos. Podemos conquistar muito mais. O transporte só vai ser público de verdade quando não tivermos que pagar nenhuma tarifa para usá-lo”. Eu não vou dar piscadelas para essa sandice. Pouco me importa que o peso recaia sobre Fernando Haddad, que já apelidei aqui de o Supercopxinha de esquerda. A Prefeitura não é dele. Quando ele se for, o problema continua.

Ah, sim: a pauta de demonização da polícia continua. O MPL também vai pedir a sua “desmilitarização” e mais verbas para saúde e educação. Contra a corrupção e o vandalismo, até agora, o grupo não falou. Deve achar que é coisa “de direita”.

Os portais estão noticiando o serviço, ensinado a seus leitores como chegar ao local da passeata. É mais ou menos como se fosse uma excursão ao mundo dos pobres, entenderam? Uma espécie de mistura de espírito militante com espírito turístico. A depender da bagunça que essa gente faça lá no metrô do Capão Redondo, há o risco de pôr em colapso todo o sistema.

Mas nós todos já aprendemos. Se houver alguma confusão, a culpa ou é da polícia ou é de uma “minoria infiltrada”, como a Globo passou a chamar os vândalos. Jamais será de quem marcou um protesto em áreas vitais da cidade, às sete da manhã.

Faustão
Um amigo me liga e diz que Fausto Silva fez há pouco um verdadeiro manifesto em defesa das mobilizações — contra, claro!, o vandalismo. Só faltava ser a favor. Teria feito considerações em tom meio jacobino sobre a passividade do povo, a necessidade de ir às ruas e coisa e tal. Se o bicho por aqui pegar, se o pau comer pra valer, sabem como é, ele sempre poderá se solidarizar conosco lá de Miami, onde não há a hipótese de violação de direitos fundamentais com o apoio de programas de entretenimento. Há, evidentemente, uma óbvia diferença entre a defesa da civilidade nos protestos e a incitação.

Faustão teria perguntado no ar, com a plateia sempre respondendo “Nãããooo”:

- A saúde e boa?
- A educação é boa?
- A segurança é boa?
- O transporte é bom?

O discurso demagógico e populista raramente é definido pelo conteúdo, mas pelo tom. Nessas circunstâncias, a resposta seria “nãããõoo” na maioria das grandes cidades do mundo. A questão é saber se cabe a animador de auditório esse tipo de discurso e se aquele é o lugar adequado para esse tipo de debate. Não! Não estou defendendo censura, não! Só bom senso. Ele fale o que bem entender. Eu falo também.

Vinte e três de junho de dois mil e treze. Não se esqueçam de que eu disse aqui que essa aparente explosão de cidadania vai tornar o Brasil ainda mais refém do que já é hoje em dia de minorias radicais, que impõem a sua pauta mesmo sem ter representação para isso. Este será um dos temas principais do segundo capítulo da série “Por que eu digo não”.

A primeira vítima

Olavo De Carvalho 
Mídia Sem Máscara (*)

A vaia despejada sobre a presidenta Dilma Rousseff no Estádio Nacional de Brasília, autêntica manifestação popular espontânea, já não se distingue da agitação planejada e subsidiada que acabou por utilizá-la, retroativamente, em proveito próprio.

Quaisquer que venham a ser os desenvolvimentos da onda de protestos no Brasil, sua primeira vítima está ali, caída no chão para não se levantar nunca mais, e ninguém sequer se deu conta da sua presença imóvel e fria: é a “direita” brasileira.

Durante décadas, desde os tempos do governo militar, os partidos e movimentos de esquerda vieram construindo sistemática e obstinadamente o seu monopólio das mobilizações de massa, enquanto o que restava da “direita”, atropelado e intimidado por acontecimentos que escapavam à sua compreensão, ia se contentando cada vez mais com uma concorrência puramente eleitoral, tentando ciscar nas urnas umas migalhas do que ia perdendo nas ruas.

Não sei quantas vezes tentei explicar a esses imbecis que o eleitor se pronuncia anonimamente de quatro em quatro anos, ao passo que a militância organizada se faz ouvir quantas vezes bem deseje, todos os dias se o quiser, dando o tom da política nacional e impondo sua vontade até mesmo contra um eleitorado numericamente superior.
      
Mas a idéia de formar uma militância liberal e conservadora para disputar o espaço na praça pública lhes inspirava horror. Como iriam bater de frente na hegemonia do discurso “politicamente correto”, se este, àquela altura, já se havia impregnado tão fundo nos seus próprios cérebros que já não viam perspectiva senão imitá-lo e parasitá-lo, na ânsia de ludibriar o eleitor e conservar assim os seus cargos, ainda que ao preço de esvaziá-los de qualquer mensagem ideológica diferenciada e própria?

Era inútil tentar fazê-los ver que, com isso, se enredavam cada vez mais, voluntariamente, na “espiral do silêncio” (v. Elisabeth Noelle-Neumann, The Spiral of Silence, The University of Chicago Press, 1993), técnica de controle hegemônico em que uma das facções é levada sutilmente a abdicar da própria voz, deixando à inimiga o privilégio de nomeá-la, defini-la e descrevê-la como bem entenda. Alguns eram até idiotas o bastante para se gabar de que faziam isso por esperteza, citando o preceito de Maquiavel: aderir ao adversário mais forte quando não se pode vencê-lo. Belo mestre escolheram. O autor do Príncipe foi um bocó em matéria de política prática, um fracassado que esteve sempre do lado perdedor.

Assim, foram se encolhendo, se atrofiando, se adaptando servilmente ao estado de coisas, até o ponto em que já não tinham outra esperança de sobrevivência política senão abrigar-se sob o guarda-chuva do próprio governo que nominalmente diziam combater.

Ao longo de todo esse tempo, ia crescendo a insatisfação popular com um partido que fomentava abertamente o banditismo assassino, cultivava a intimidade obscena com terroristas e narcotraficantes, tomava terras de produtores honestos para dá-las à militância apadrinhada e estéril, estrangulava a indústria mediante impostos, demolia a educação nacional ao ponto de fazer dela uma piada sinistra e, last not least, expandia a corrupção até consagrá-la como método usual de governo. Milhões de brasileiros frustrados, humilhados, viam claramente o abismo em que o país ia mergulhando. Essa massa de insatisfeitos, como o demostravam as pesquisas, era acentuadamente cristã e conservadora. Em 2006 escrevi: “Com ou sem nome, a direita é 70 por cento dos brasileiros. Um programa político ostensivamente conservador teria portanto sucesso eleitoral garantido.” Mas, com obstinação suicida, a “direita” se recusava a assumir sua missão de porta-voz da maioria. Apostava tudo nas virtudes alquímicas da autocastração ideológica. “Um pouco mais adiante  -- escrevi na mesma ocasião -- , ela agravou mais ainda a sua situação, quando, após a revelação dos crimes do PT, perdeu a oportunidade de denunciar toda a trama comunista do Foro de São Paulo e, por covardia e comodismo, se limitou a críticas moralistas genéricas e sem conteúdo ideológico.”

E tanto tempo se passou, tão grande foi o vazio que de recuo em recuo essa direita foi abrindo, que a própria esquerda acabou notando a necessidade de preenchê-lo, mesmo ao preço de sacrificar uma parte de si própria e, como sempre acontece nas revoluções, cortar as cabeças da primeira leva de revolucionários para encerrar a fase de “transição” e  saltar para as rupturas decisivas, as decisões sem retorno. Há mais de um ano o Foro de São Paulo vinha planejando esse salto, contando, para isso, com os recursos do próprio governo somados aos da elite globalista fomentadora de “primaveras”.

Como não poderia deixar de ser em tais circunstâncias, o clamor da massa conservadora acaba se mesclando e se confundindo com os gritos histéricos do esquerdismo mais radical e insano, tudo agora instrumentalizado e canalizado pela única liderança ativa presente no cenário. Condensando simbolicamente essa absorção, a vaia despejada sobre a presidenta Dilma Rousseff no Estádio Nacional de Brasília, autêntica manifestação popular espontânea, já não se distingue da agitação planejada e subdidiada que acabou por utilizá-la, retroativamente, em proveito próprio.

Não se pode dizer que a esquerda tenha “roubado a voz” da direita, pois a recebeu de presente. A opção pelo silêncio, o hábito reiterado da autocastração, expulsou a direita nacional de um campo que lhe pertencia de direito e de fato, e terminou por matá-la. Ela não se levantará nunca mais. A insatisfação conservadora transmutou-se em baderna revolucionária e já não tem nem mesmo como reconhecer de volta o seu próprio rosto. Talvez algumas cabeças esquerdistas venham a rolar no curso do processo, mas as da direita já rolaram todas.

(*) Publicado no jornal Diário do Comércio.

O PT afônico

Mary Zaidan
Blog do Noblat

O PT nunca amargou desilusão tão profunda: as ruas se abarrotaram de gente sem que o partido as mobilizasse. Gente que, em sua maioria, prefere que a “onda vermelha” convocada, oportunista e extemporaneamente, pelo presidente da sigla Rui Falcão, fique longe.

Golpe duro para quem sempre se vangloriou da sintonia com as massas, de ser o senhor das vozes das ruas. Que se arvorava a ser quase, senão o único, na interlocução com os jovens. Que paga centenas de blogueiros, sabem-se lá quantos tuiteiros e facebuqueiros para falar bem do governo e rechaçar opiniões contrárias. Mas que não foi capaz de nem mesmo sentir o cheiro da mobilização, via redes sociais, que nas duas últimas semanas sacudiu o país de ponta a ponta.

É fato que nenhum partido, pouquíssimos políticos e só alguns analistas conseguiram traduzir, pelo menos parcialmente, o que está se passando. Mas, para o PT, estar divorciado disso, não ser o dono da voz, é quase mortal.

Tanto que se expõe ao rechaço enfiando-se em manifestações que, pelo menos por enquanto, agremiação ou político algum é bem-vindo. Até porque os partidos políticos - mais preocupados com os seus umbigos e com a eleição seguinte - são alvos da grita.

Estar apartado disso é tão letal para o PT que fez seus dirigentes esquecerem os disfarces habituais. No olho do furação, enquanto o prédio da Prefeitura de São Paulo era vandalizada e o prefeito Fernando Haddad deixado nu, lançado à sua própria sorte, a presidente Dilma Rousseff reunia-se com o seu inventor Lula, o marqueteiro João Santana, o ministro Aloizio Mercadante e Rui Falcão.

Na pauta, o PT e a manutenção do poder depois do estouro da boiada – da qual eles se imaginavam donos - falavam mais alto do que o País.

O petista Haddad abrigou-se ao lado do tucano Geraldo Alckmin e, juntos, anunciaram a suspensão do reajuste das tarifas de ônibus, metrô e trens. No dia seguinte, quinta-feira, ambos colheram uma manifestação em paz, que ocupou toda a Avenida Paulista.

Dilma só falou ao País na sexta-feira, um dia depois de a “pequena minoria” - esse pleonasmo que deixou rastros de destruição em dezenas de centros urbanos - fazer estragos diante de seus olhos, importunando-a no Palácio do Planalto, ameaçando o Congresso Nacional, ateando fogo e quebrando os vidros do Palácio do Itamaraty.

Seu pronunciamento foi correto no tom, medido, bem escrito. João Santana teria acertado em tudo, não fosse o deslize costumeiro de, mais uma vez, colocar o PT antes do País; de anunciar um pacto nacional com a pauta da campanha eleitoral já desenhada para 2014. De amenizar, mas não eliminar a soberba.

E agora, galera?

Gaudêncio Torquato
O Estado de SPaulo

Ante a baixa da tarifa de ônibus nas capitais que sediaram as maiores manifestações populares dos últimos tempos, a indagação aguça a curiosidade de todos: qual será o próximo foco? O primeiro round da guerra que tem, de um lado, exércitos compostos por variados conjuntos da sociedade e, de outro, guerreiros defensores do establishment deve terminar com evidente vitória dos primeiros. O atendimento da demanda por Executivos estaduais e municipais (até o alcaide paulistano cedeu) será o jorro d'água para apagar faíscas que ameaçam multiplicar fogueiras acesas nas principais regiões do território. Urge atentar para o sinal amarelo aceso no farol dos governantes e suas múltiplas significações: o som barulhento das ruas não carece mais de maestros de grandes orquestras, sejam políticos ou lideranças sindicais; não é preciso muito tempo para as massas afluírem às ruas; e a tuba de ressonância destes tempos efervescentes é o conjunto das redes eletrônicas da internet.

Se a reivindicação concreta das turbas for acolhida, como governantes de algumas capitais e Estados já o fizeram (gerando o efeito dominó), permanecerá a dúvida sobre os próximos passos da ampla movimentação social, eis que as palavras de ordem tentam expressar a amálgama de carências que compõem o Produto Nacional Bruto da Insatisfação, agrupando, entre outras, os estrangulamentos do sistema de transportes, a precária estrutura de saúde, as deficiências nas frentes educacionais e a crescente insegurança pública ante a avalanche de atos de extrema violência nas grandes cidades. E agora, galera, as batalhas continuarão? Haverá questões específicas a serem proclamadas? Os administradores públicos, por sua vez, ficarão entre a cruz e a caldeirinha: atenderão às demandas ou farão ouvidos de mercador.

A questão abre um leque de abordagens. A primeira diz respeito à natureza das reivindicações. O pleito da redução da tarifa de ônibus posicionou na linha de vanguarda a esfera estudantil. Os jovens encontraram na vertente dos transportes uma causa próxima aos seus interesses, sem deixar de avocar outras demandas. Vale registrar a energia de um universo de quem se reclamava inércia, desinteresse, apatia. Desde os "caras-pintadas" da era Collor não se via tanta disposição, a demonstrar que os exércitos estudantis são os primeiros a usar a musculatura e a entrar no palco de guerra, caso tenham motivo para tanto.

A mobilização estudantil ganha expressão diante de uma paisagem urbana tradicionalmente ocupada por soldados comandados por centrais sindicais. Nas últimas décadas, vale lembrar, infiltraram-se elas nas entranhas do Estado, em conluio que deixa transparecer preocupação com os cofres. (Basta anotar as grandes concentrações de massas a cargo das centrais nas festas do 1.º de Maio, animadas por sorteios de casas e carros.) É saudável, portanto, enxergar grupamentos jovens voltando às passeatas, empunhando bandeiras e fazendo ecoar demandas e palavras de ordem. Ocorre que, para ser eficaz, a locução cívica dos estudantes carecerá, doravante, de clarificação de metas, sob pena de suas vozes se perderem na polifonia de uma Torre de Babel.

Não se quer dizer que tenham de esquecer o discurso que clama por mudanças em muitas frentes, como este que costurou o pano de fundo da reivindicação da tarifa zero para as passagens de ônibus. Governantes e atores políticos de todas as instâncias precisam ser monitorados, avaliados, cobrados e, assim, perceber que há vigilantes cívicos fazendo ronda no entorno de palácios, sedes de governo, cúpulas congressuais, assembleias e câmaras. Mas, para efeito de resultados imediatos, as manifestações de caráter massivo necessitam abrigar metas, de acordo com parâmetros de bom senso e capazes de abrir diálogo entre as partes. Nessa trilha e por conexão com a redução de tarifas, seria razoável que, neste momento, os entes municipais e estaduais se debruçassem sobre os meios de mobilidade urbana, refazendo programas, reordenando cronogramas, com vistas à expansão dos sistemas e melhoria de qualidade dos serviços. Dessa forma, a movimentação adensará seu escopo e poderá obter mais vitórias.

O recado das ruas serve ainda de alerta para que gestores públicos passem a lupa sobre serviços precários em todos os setores da vida cotidiana. Afinal, aguda dissonância fere a sensibilidade tanto de plateias das cadeiras numeradas quanto de galeras das gerais: de um lado, a estética exuberante dos estádios de futebol, emoldurada por formas e traços futuristas, a denotar a absorção de avançados parâmetros tecnológicos; de outro, a acanhada e esburacada estrutura de serviços, cuja estética é pontilhada por corredores de hospitais locupletados de macas, filas quilométricas em postos de atendimento, superpopulação nos meios de transporte, vielas e becos apinhados de jovens drogados, chacinas seriadas nas periferias. Para completar o cenário de contrastes, a falta de ônibus para acesso rápido aos majestosos estádios e a indignação por se cobrar de torcedores R$ 8 por um cachorro-quente. A imagem que se tem é a do reizinho que tenta esconder doenças nas habitações de seu reino com paredes folheadas a ouro.

Chama a atenção o fato de que as manifestações se desenvolvem sob o empuxo de integrantes de grupamentos centrais: estudantes de curso superior (e seus pais), simpatizantes de partidos de esquerda, punks, ativistas em defesa de igualdade de gêneros e minorias, funcionários públicos, profissionais liberais, etc. Os exércitos periféricos não formam os maiores volumes dos contingentes. Sabendo que as correntes centrais influenciam as margens (a pedra jogada no centro faz marolas que chegam à beira do lago), pode-se imaginar desdobramento perigoso caso bolsões miseráveis sejam afetados em sua parte mais sensível, o bolso. Nesse caso (Deus nos livre dessa ameaça), a fome se juntaria com a vontade de comer.

A esquizofrenia do PT

Nivaldo Cordeiro
Mídia Sem Máscara

No Brasil, a mão que comanda o Estado é a mesma que comanda a subversão em praça pública. O grande paradoxo é que o PT é, a um só tempo, a força da ordem e o seu contrário. Como isso é possível? Vou tentar analisar o fenômeno.

O PT chegou ao poder liderando uma frente de esquerda que, a grosso modo, o tornou o sucessor legítimo do Partidão. Seus líderes, sensatos, reconheceram que precisavam abandonar velhas palavras de ordem sobre a dívida externa, a dívida pública e a administração do Estado, de sorte que assinaram a famosa Carta ao Povo Brasileiro, compromisso pelo qual legitimou-se para assumir o poder.

Durante os dois mandatos de Lula foi assim. A gestão do Estado foi feita de forma profissional. Os radicais, todavia, estavam sempre à espreita, usando como meio de ação as chamadas conferências nacionais, entre elas a Confecom, que tinha o firme propósito de controlar a produção de conteúdo da mídia e a internet. Essa meta totalitária continua de pé. São esses radicais, braços operacionais da cúpula petista, que estão atiçando as massas para a rua.

Qual é a lógica do processo que convocou o povo às ruas? Em primeiro lugar, a ânsia dos radicais de fazerem valer alguma forma de democracia direta. Movimentos na ruas é seu anseio mais romântico. Mas o objetivo principal do Movimento Passe Livre é desgastar e desestabilizar o governo de Geraldo Alckmin. Sua derivação nos demais estados se deu por pura imitação, o instinto humano mais primário.

O PT conseguiu de fato desgastar a imagem do governador de São Paulo, em virtude dos seus vacilos e incoerências. O problema é que agora o movimento saiu do controle e logrou alcançar escala nacional. O que fazer com ele? Como governantes, só resta ao PT baixar a repressão e restabelecer a ordem. Mas, é importante esse ‘mas’, o plano para desestabilizar Geraldo Alckmin exige a mobilização e o atrevimento das massas nas ruas. A ideia é manter a pressão até as eleições. Como administrar o processo sem perder o controle?

É evidente que o interesse imediato de Dilma Rousseff e de Fernando Haddad é governar “tecnicamente”. Por isso Haddad não queria reduzir tarifas e Dilma Rousseff recusou-se a mais um casuísmo tributário. Certíssimos. Mas o ato de governo é operacional, tático, enquanto o movimento é estratégico, é a via dourada para o PT alcançar o poder total, dominando o Estado de São Paulo.

Todas as incoerências ficam explicadas se o analista levar isso em conta. O agravante é a deterioração da situação econômica, em face das políticas populistas levadas a cabo pelo governo da Dilma Rousseff. De longe, o problema  mais grave é a depreciação do real, que só pode ser superada mediante uma forte mudança na política econômica.

O teatro político brasileiro está bem interessante, prenhe de todos os perigos. Os dirigentes do PT têm demonstrado realismo e sangue frio desde que chegaram ao poder. Estarão agora eventualmente diante de seu teste mais decisivo. Vamos ver o que farão. Uma medida sinalizadora para estabilizar o processo é substituir Guido Mantega por um nome confiável para conduzir a política econômica. Esse será o momento da escolha de Sofia.

O PT precisará abraçar novamente a bandeira da estabilização, sob pena de perder o controle. E quer porque quer ganhar o governo de São Paulo e a reeleição. Podem ser objetivos incompatíveis, mas fato é que, sem a estabilidade, a condição de governança de Dilma Rousseff desaparecerá.

Quem viver verá!

A classe média

Merval Pereira
O Globo

 A decisão do Movimento Passe Livre de não convocar novas manifestações por que “grupos conservadores” infiltraram-se nos últimos atos serve para retirar a máscara desse movimento, que começou o protesto contra o aumento do preço das passagens de ônibus como se fosse apartidário, com foco específico na melhoria dos transportes públicos – com a utopia de alcançar o transporte gratuito como política de governo – e acabou se revelando o que sempre foi: uma organização política ligada a movimentos de esquerda radical, que tem uma pauta muito além da melhoria dos transportes públicos.

Acontece que essa pauta esquerdista, que abrange desde a reforma agrária à reforma do “latifúndio urbano” e o controle social da mídia, nada tem a ver com a da grande maioria das centenas de milhares de pessoas que saíram às ruas nas principais cidades e capitais brasileiras. O que o movimento chama de agenda “conservadora” nada mais é do que a reivindicação de melhorias no dia a dia da população, que seriam alcançadas com o combate à corrupção em seus vários níveis.Variações sobre o mesmo tema, como a rejeição aos partidos políticos tradicionais e o protesto contra a PEC 37 que limita a ação investigativa do Ministério Público, acabaram prevalecendo nas manifestações, que pareciam espontâneas, e na verdade estavam sendo manipuladas por movimentos de cunho esquerdista como o Passe Livre

Com o que eles não contavam é que o protesto contra o aumento dos ônibus serviria para detonar uma manifestação mais ampla correspondente ao estado de indignação da população, mais especialmente da nova classe média das periferias das grandes cidades.

Entre os diversos temas que saíram para as ruas depois de aberta a Caixa de Pandora está justamente a insegurança pública, e a questão da redução da maioridade penal surgiu espontaneamente como uma das reivindicações. O que o Movimento do Passe Livre vê como uma agenda “retrógrada”, boa parte da sociedade vê como medidas a serem tomadas para que a vida das pessoas melhore.

Na nota oficial do MPL, está revelado claramente o DNA de sua atuação: “Essa é uma defesa histórica das organizações de esquerda, e é dessa história que o MPL faz parte e é fruto”. Não se ouviu até hoje uma crítica dos integrantes desse e de outros movimentos envolvidos nas manifestações contra os baderneiros que aproveitaram as manifestações para atos de vandalismo.

Mas o MPL repudiou em sua “nota oficial” “os atos de violência” contra os partidos de esquerda que tentaram participar das manifestações, e também “a violência policial”. A rejeição aos partidos políticos e ao vandalismo foi, portanto, uma ação espontânea de participantes das manifestações e revela um traço característico da classe média, a busca de um ambiente de ordem.

O que o Movimento pelo Passe Livre disse de maneira indireta, a filósofa Marilena Chauí, uma das intelectuais orgânicas do petismo, disse com todas as letras na seguinte análise sobre a classe média, na presença do ex-presidente Lula, em evento comemorativo dos 10 anos do PT no poder: “A classe média é o atraso de vida, (...) é estupidez. É o que tem de reacionário, conservador, ignorante, petulante, arrogante, terrorista”.

No desdobramento de sua palestra, Marilena Chauí foi adiante: “A classe média é uma abominação política, porque ela é fascista, uma abominação ética, porque ela é violenta, e uma abominação cognitiva, porque é ignorante”.

Essa leitura radicalizada dos movimentos sociais não tem guarida, pelo menos até o momento, na visão do Palácio do Planalto que, ao contrário, mostra-se sensível aos anseios da classe média e reage com os mesmo sentimentos de desejo de ordem nas manifestações. A presidente Dilma, no seu pronunciamento de sexta-feira, assumiu essa crítica aos arruaceiros, colocando-se ao lado da maioria da população, que quer mudanças em paz e ordem.

Crianças fazem protesto em frente ao Congresso

O Estado de SPaulo 
Com informações da Agência Brasil

Acompanhadas dos pais, elas levaram cartazes com dizeres contra a corrupção e por educação e saúde melhores

BRASÍLIA - Mais de 200 crianças de várias idades se manifestaram na manhã deste domingo, 23, em frente ao Congresso Nacional. Acompanhadas dos pais, muitas levaram cartazes confeccionados na véspera por elas mesmas com dizeres contra a corrupção e por educação e saúde de qualidade. Usando as mãos como pincéis e vários potes de tinta verde, amarela e azul, as crianças pintaram uma grande bandeira nacional em papeis colocados no chão do gramado em frente ao Congresso, enquanto cantavam o Hino Nacional e outras músicas cívicas.

Daniel Ribeiro, de 11 anos, fez um cartaz dizendo "Meu primeiro protesto - Brasil sem corrupção", e falou dos manifestação. "Eu acho que a gente está lutando para acabar com a corrupção, porque tem tanta corrupção que falta educação, transporte e saúde e não dão a importância que deveriam para isso. Não é pelos R$ 0,20 [da tarifa de ônibus] que nós estamos lutando, e sim pela mudança do País".

Muitos pais aproveitaram o evento para ensinar aos filhos, na prática, o que são as mobilizações e para que servem. O bancário Rodrigo Pena de Andrade foi acordado esta manhã pela filha Maria Clara, de 6 anos, para ir ao ato. Por ser um movimento de crianças que acontece durante o dia, ele disse que foi a melhor oportunidade para que as filhas participassem do ato e pudessem assim formar uma consciência política do que acontece pelo País.

"Vendo o jornal todo dia, ela perguntava porque tanta gente estava na rua. Aí a gente parou para explicar um pouco a questão do público e do privado, que o pessoal está lutando para que aquilo que é público tenha o mesmo nível daquilo que é privado. Que ela estuda numa escola boa, mas que se só ela estudar numa escola boa, não vai mudar o país", explicou Andrade, reforçando a importância da participação das famílias no processo político do país.

Os novos "brasileirinhos", como estavam sendo chamados pelos pais, mostraram uma característica da nova geração e muitos responderam que souberam da manifestação pelas redes sociais e avisaram seus pais. A ideia surgiu com Raquel Fusaro, que criou uma página para o evento em uma rede social há quatro dias.

"A ideia foi criar um espaço para que as famílias pudessem mostrar a sua voz junto com suas crianças. É tanto um gesto das famílias estarem presentes, como ensinar para os nossos pequenos um ato cívico, que é uma manifestação pacífica. Mostrar a eles uma lição de que as ruas nos pertencem e temos que usá-las para fazer ouvir a nossa voz, nos fazer representar", disse Raquel.

A manifestação começou por volta das 10h e durou até as 12h. Às 11h, a Polícia Militar estimou que 400 pessoas estavam no gramado do Congresso, entre adultos e crianças, mas algumas que chegaram mais cedo já tinham ido embora e outras ainda chegavam. O céu de Brasília estava ensolarado e com poucas nuvens. 

O castigo veio a cavalo e surpreendeu a presidente arrogante e pernóstica

Antonio Vieira (*)


Dias atrás, dona Dilma se propôs o desafio de censurar os críticos que verberam seu desgoverno. Sacou do fundo do baú a imagem do velho do Restelo, personagem dos Lusíadas que representa, no poema, o chamado, à razão e à cautela, próprio de quem tem responsabilidade sobre suas decisões, ponderando seus impactos para os potenciais atingidos. Não é este o caso de dona Dilma, evidentemente, pelo que se depreende de seu comportamento errático e leviano, quer no plano interno quer no plano internacional. Os alertas contra os riscos e custos da aventura portuguesa na conquista das Índias foram comparados, por ela, aos justos questionamentos que vêm se acumulando contra a maneira brasileira de fazer política na última década ─ vale dizer, o famigerado modelo lulopetista ─ que incorporou ao seu núcleo dirigente todos os patifes vivos da república.

Arrogante e pernóstica, a presidente quis associar a epopeia daqueles navegadores audazes com a medíocre obra de seu desgoverno, como se os seus críticos não passassem de uma paródia grosseira de ressentidos imitadores do velho do Restelo. O castigo, no entanto, veio a cavalo. Na primeira semana da Copa das Federações, a voz rouca das ruas fez dona Dilma engolir suas palavras. Frente às vaias e protestos populares, a madame revelou na inteireza sua real estatura, muito distante da aparência construída pelas falsidades e engôdos vendidos pela propaganda oficial. Retirados as sedas e os arminhos virtuais de super-executiva que lhe enfeitavam o corpanzil, restou a indumentária que, de fato, constitui sua personalidade: a de gerente que não conseguiu administrar uma lojinha de bugigangas de R$1,99 ─ levada à falência pouco tempo após a inauguração em Porto Alegre ─ mas que tem a pretensão de governar um país.

Pois bem. Não dispondo de capacidade própria nem de interlocutores que a ajudassem a enfrentar a crise posta no seu colo (sua equipe de palacianos se presta apenas à mera bajulação), restou-lhe fugir do seu palácio, às pressas e quase anônima, para dar um pulo a São Paulo e receber as devidas ordens do verdadeiro criador do quadro que se instituiu no país: o co-presidente Lula da Silva. O triste papel de dona Dilma, no entanto, merece ─ conceda-se, em vista do precedente ─ ser lido sob a ótica camoniana. No famoso episódio Inês de Castro consta o verso imortal ─ “o fraco rei faz fraca a forte gente” ─ antecipação profética em alguns séculos da presente situação nacional. Ao sair sorrateira de Brasília, para encontro com o co-presidente numa saleta escondida nos fundos do aeroporto de Congonhas, a presidente Dilma mostrou aos brasileiros que lhe faltam as condições de liderança para arrostar as adversidades.

A paralisia e incompetência do governo da república, de fato, são perfeitamente visíveis. Qual uma biruta de aeroporto, não sabe ela nem o que fazer nem para onde ir. Fecha-se em copas, a rainha das copas, reduzindo o ato de governar à distribuição de adjutórios (estatizando a esmola, como queria o Conde de Abranhos) e, até mesmo, presenteando com gordas gratificações aos amigos afortunados, tudo bancado pelos impostos dos que efetivamente trabalham e produzem: bolsa vovô, bolsa vovó, bolsa bebê, bolsa sofá, bolsa ditadura, bolsa ditadores, bolsa sobas africanos, bolsa terrorista e outras bolsas mais de nomes impublicáveis e inimagináveis.

O governo Dilma não governa, vive de declarações de intenções: vai construir isso e aquilo; vai providenciar tais e quais medidas; vai melhorar esse ou aquele serviço público etc. Sua forma de atuar é a de sempre prometer algo, numa antecipação imaginária do futuro, vivenciado no presente como se já estivesse concretizado: pura paranoia. O governo só pensa naquilo: as próximas eleições! Ministros e outros subalternos estão mais preocupados com conchavos visando 2014 do que em resolver os problemas sob suas responsabilidades.

No bojo da presente crise que assola as grandes cidades chega ao auge do ridículo, para não dizer da loucura, os ministros pretendentes se digladiando sobre quem vai ser candidato ao governo de São Paulo, de Minas Gerais, do Rio de Janeiro e demais estados, certamente pela absoluta falta do que fazer de mais útil em suas respectivas pastas. Nisso, ao menos, guardam coerência e fidelidade às posturas da presidente que, também, só age movida pelo mais reles espírito eleitoreiro.

A verdade pura e simples é que grande parte da população se encheu de, entre inúmeras causas, ver tantas obras inúteis e faraônicas (em vez daquelas necessárias à sociedade, que nunca se concretizam), fontes previsíveis de futuras contribuições de empreiteiros para o custeio de campanhas governamentais. Desmandos, preguiça, burrice e corrupção em todos os setores configuram o ambiente social e político que manifestantes estão a questionar com razões mais que suficientes, numa mescla de motivações e métodos nem sempre os mais desejáveis e democráticos. Parece uma rebelião tribal gerando um efeito de massa, um fenômeno da pós-modernidade.

Vistosas e caríssimas propagandas marteladas, maciça e diuturnamente, pelos meios de comunicação não conseguiram, contudo, abafar nem a verdade nem a realidade que assola o povo brasileiro. Dona Dilma vai insistir, até o fim, nas promessas demagógicas de casa, mobília, comida, roupa lavada, passada e engomada aos desvalidos; não tem como fugir do figurino. O Brasil, entretanto, está à espera de quem tenha a coragem de, à semelhança de Churchill, estabelecer uma relação de confiança com os cidadãos, mesmo que seja prometendo sangue, suor e lágrimas para sair do buraco em que o lulopetismo nos jogou.

(*) Transcrito do Blog do Ricardo Setti / Veja online

Dilma passando pelo décimo andar: “Até aqui, tudo bem”

Carlos Chagas
Tribuna da Imprensa

Está o governo Dilma, melhor dizendo, além do Executivo, estão também o Legislativo e o Judiciário  na situação daquele personagem que caiu do vigésimo andar de um edifício e, ao passar pelo décimo andar, comentou: “até aqui, tudo bem”.  Tudo bem coisa nenhuma. Adianta muito pouco exaltar as excelências da democracia e afirmar que os protestos de rua exprimem o direito de o povo manifestar-se. Porque as manifestações se fazem contra as autoridades públicas. Contra o governo, contra Dilma, contra o Congresso e contra o Judiciário. Sem esquecer, também contra  a ordem política, a ordem econômica  e  a ordem social.

O risco do colapso de nossas instituições parece à vista. Só que o país já sabe porque os jovens protestam, mas os jovens não sabem como dar seqüência aos protestos. Querem  acabar com a corrupção, mas como? Melhores condições de ensino e saúde pública, fazendo o quê? Falta-lhes um programa, um  roteiro.
Demos notícia, ontem, de uma idéia que se não fosse doida seria genial: adaptar parte dos elefantes brancos construídos por bilhões de reais para  funcionarem, também, como escolas, universidades, centros de saúde e hospitais. Algo capaz de sensibilizar e empolgar  todo mundo. Mas terá o governo coragem para tanto? Recursos? Ora, os lucros dos bancos, as remessas de milhões  de dólares para o exterior, a parceria de grandes hospitais como o Sírio-Libanês e o Albert Einstein.

Uma conclusão surge inevitável: ou o governo sai na frente, combatendo o vandalismo e interrompendo a sanha dos baderneiros, ou o movimento pacífico logo amargará a rejeição do cidadão comum. Mesmo assim, faltará um plano de mudanças fundamentais, muito acima e além do PAC. Que tal começar pela ampla reforma do ministério, com a diminuição do número de pastas e sua entrega a técnicos de renomada competência, mandando passear os representantes de partidos desmoralizados?

A FALÊNCIA DO ESTADO
É constrangedor verificar o fracasso do Estado no cumprimento de suas obrigações para com a sociedade. Senão vejamos:

Diante da revolta dos jovens que ocuparam as ruas do país inteiro,  assistimos primeiro uma ação desmedida e truculenta das polícias militares para depois sobrevir a omissão das corporações.  Nada fez a autoridade policial diante do vandalismo praticado em São Paulo,  no Rio, Belo Horizonte e outras capitais para impedir a depredação de próprios públicos, lojas e similares. Os animais ficaram e continuam à solta, registrando-se pequeno número de prisões quando as imagens transmitidas pela mídia mostram a maior parte deles de corpo inteiro, apesar do rosto encoberto.

Governadores e prefeitos determinaram o aumento nas tarifas dos transportes públicos sem promover estudos de situação nem prever as consequências. Em poucos dias, voltaram atrás premidos pelo império das circunstâncias, deixando sem resposta a indagação maior: se os reajustes eram necessários, foi sinal de fraqueza revogá-los. Se não eram, não deveriam ter sido adotados.

O combate à corrupção permanece oculto, com Legislativo e Judiciário tergiversando e não dando seqüência às apurações, punições e aprovação de novas medidas imprescindíveis a deixar os corruptos na defensiva. A construção dos estádios de futebol dá a medida  de como se rouba patrimônio publico. As empreiteiras responsáveis pela implantação ou reforma de arenas  orçadas em milhões passaram a sugar bilhões sem que ninguém reagisse, no poder público.

DIFERENÇAS
Em  Paris, 1968, os estudantes ocuparam as ruas, estendendo seu protesto à França inteira e, depois, a muitas capitais da Europa. Insurgiam-se contra o imobilismo das instituições que discriminavam os jovens e engessavam a sociedade através de métodos arcaicos de domínio dos mais velhos. Foi o diabo, pois  o movimento pegou feito sarampo e serviu para oxigenar a civilização. Quem ficou sem saída foi o presidente Charles De Gaulle, que depois de alguns dias de silêncio foi procurar nos militares com os quais estava rompido a ajuda necessária para o restabelecimento da ordem. Quanto tudo serenou, apareceu o reverso da medalha: uma passeata de quase um milhão de franceses desfilou pelos Campos Elísios  em apoio ao presidente.

Alguém imagina que uma vez assentada a poeira da rebelião pacífica, mas nem tanto, dos jovens brasileiros, haverá ânimo para uma passeata em apoio de Dilma ou do Lula? São diferentes as situações.

Em 'inferno astral', Dilma testará novo estilo de governo para salvar reeleição

Vera Rosa 
O Estado de S.Paulo

Protestos nas ruas, dólar em alta, popularidade em baixa e aliados em guerra levam presidente, gestora chamuscada, a mudar estratégias

Na pior semana de seu governo, com uma onda de protestos violentos sacudindo o País, inflação em alta e popularidade em queda, a presidente Dilma Rousseff criou uma espécie de gabinete de crise e rompeu o isolamento do Palácio do Planalto. Avessa a negociações e alvo de críticas no Congresso, ela foi obrigada a montar uma agenda de emergência para ouvir as vozes das ruas, conter as insatisfações e abafar o coro do "Volta Lula", que já começa a ser entoado na seara doméstica para pedir o retorno do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, na eleição de 2014. Desde o escândalo do mensalão, em 2005, o PT não enfrenta desgaste tão grande.

Dida Sampaio/Estadão
Hábito de centralizar decisões apresenta desgaste dentro e fora do governo Dilma

Com muitos nós para desatar, Dilma pretende agora testar um novo estilo de governo para tentar virar o jogo e traçar a rota do projeto de reeleição. Ajustes na política econômica para reagir à esperada redução de dólares no Brasil, com o fim do programa de estímulos nos Estados Unidos, e mudanças no núcleo político do Palácio do Planalto são aguardados para o segundo semestre.

Habituada a centralizar decisões e a formular sozinha as principais diretrizes políticas e econômicas, a presidente encerrou a semana com a imagem de gerente desgastada, em meio a uma sucessão de más notícias que deixaram o Planalto atônito. É nesse tumultuado cenário que a presidente terá que negociar com aliados as composições para 2014.

O PMDB convocou reunião de sua Executiva para terça-feira, a fim de discutir a crise e os obstáculos à formação dos palanques com o PT nos Estados, como no Rio de Janeiro. "A coordenação política do governo está sem força e ninguém mais aceita essa história de dois palanques para Dilma", resumiu o líder do PMDB no Senado, Eunício Oliveira (CE).

'Bicho esquisito'. 
"Tem um bicho esquisito aí", admitiu o ministro do Desenvolvimento, Fernando Pimentel. "Quem está na chuva é para se queimar e esses protestos também atingiram o PSDB e o governador Geraldo Alckmin", completou o ministro das Comunicações, Paulo Bernardo, fazendo um trocadilho. "Com certeza, alguma lição vamos tirar dessa catarse", previu o ministro.

Dos problemas com a demarcação de terras indígenas, passando por boatos sobre o fim do programa Bolsa Família, vaias na abertura da Copa das Confederações, escalada da inflação, "Pibinho", atritos com o PT e o PMDB e, agora, a fúria nas ruas, tudo pareceu conspirar para o inferno astral do governo, nos últimos dias.

Para recuperar o apoio perdido, Dilma acertou com Lula que mudará a estratégia política, chamando, por exemplo, representantes de movimentos sociais para conversas periódicas. Até agora, ela manteve distância regulamentar de todos.

Concertação.
 A presidente também fez um apelo pela "concertação" com o Legislativo e o Judiciário. Sob intenso fogo cruzado, anunciou que vai se reunir com governadores e prefeitos e propôs um pacto nacional, expressão abominada pela esquerda, em torno da mobilidade urbana.

No Congresso, aliados preparam outra estratégia para aprovar projeto de interesse do Planalto que inibe novos partidos, aproveitando a fragilidade de Dilma para cobrar faturas antigas de cargos e emendas.

No diagnóstico do governo, as manifestações que tiveram como origem o aumento das tarifas de transporte coletivo e desandaram para protestos contra tudo o que está aí assumiram contornos perigosos.

A preocupação é com o clima de instabilidade e confronto, num momento de dificuldades na economia, justamente quando as atenções internacionais estão voltadas para o Brasil, que sedia a Copa das Confederações e está prestes a receber a visita do papa Francisco na Jornada Mundial da Juventude, marcada para julho, no Rio.

Para Bernardo, as manifestações mostraram que o povo não se sente representado pela forma tradicional de fazer política. Atropelada por jovens sem partidos, a cúpula do PT tentou pegar carona no movimento e convocou seus militantes para uma passeata em São Paulo, na quinta-feira, com o objetivo de defender "o legado de Lula e Dilma", após o recuo no aumento das passagens. O gesto foi visto pelo Planalto como "um tiro no pé" porque pôs o PT, Dilma e o prefeito Fernando Haddad, já derrotado politicamente, na mira de novos protestos.

"As reivindicações sobre transportes são legítimas, porque o serviço de ônibus nas grandes cidades é muito ruim", afirmou Paulo Bernardo. "Protestar contra a corrupção também é legítimo, mas, levantar bandeira contra a PEC 37 é conversa fiada. A imensa maioria nem sabe o que é isso", constatou o ministro, numa alusão à proposta de emenda constitucional (PEC) que limita o poder de investigação criminal do Ministério Público.

Coro do Volta Lula.
 Embora petistas, aliados e até empresários descontentes com o governo ensaiem novamente o "Volta Lula", o ex-presidente garante que não será candidato, em 2014. Lula antecipou o lançamento de Dilma, em fevereiro, para segurar especulações sobre o seu retorno, mas, nos bastidores do PT, a estratégia foi considerada desastrosa.

Apoio de brasileiros aos protestos é de 75%, diz Ibope

Exame.com
Com Agência EFE

Entre os entrevistados, 6% foram às manifestações. Entre todos, 71% se dissseram satisfeitos com sua vida atual

Kai Pfaffenbach/Reuters

Rio de Janeiro - Setenta e cinco por cento dos brasileiros apoiam as manifestações por melhores serviços públicos que há duas semanas sacodem o país, segundo uma pesquisa do Ibope cujos resultados foram divulgados na última edição da revista Época, que começou a circular este sábado.

Apesar do elevado apoio, apenas 6% disseram ter ido às manifestações e apenas 35% dos que não foram tiveram a intenção de fazê-lo.

Apenas a metade dos brasileiros que apoia os protestos considera que os mesmos provocarão mudanças, segundo a pesquisa que entrevistou 1.008 pessoas em 79 municípios entre 16 e 20 de junho.

Os protestos se multiplicaram apesar de, segundo a pesquisa, 71% dos brasileiros dizer estarem satisfeitos com sua vida atual e 43% terem expectativas positivas sobre o futuro do país.

Entre as pessoas que apoiam os protestos, 69% estão satisfeitas com sua vida e 39% acreditam em um futuro melhor para o país.

Em relação ao motivo dos protestos, 77% citaram o transporte público deficiente, 47% a insatisfação com os políticos, 32% a corrupção, 31% deficiências na educação e na saúde, e 18% a inflação.

Interrogados sobre os principais problemas do país, 78% citaram a saúde, 55% a segurança pública, 52% a educação, 26% as drogas, 17% a corrupção e 11% a miséria.

As manifestações prosseguiram este sábado, embora com menos intensidade, apesar da proposta de diálogo que a presidente Dilma Rousseff estendeu na véspera aos manifestantes.

Os protestos começaram na semana passada em São Paulo, exclusivamente contra a alta das tarifas de transporte público, mas ganharam outras reivindicações, como maiores investimentos na saúde e na educação pública, e críticas contra a corrupção e as despesas do Governo para organizar eventos como a Copa do Mundo de 2014.

Nem o pronunciamento da presidente no qual propôs um pacto nacional para melhorar os serviços públicos nem a redução das tarifas de transporte público nas maiores cidades, que era a reivindicação inicial dos manifestantes, convenceram os brasileiros de parar com suas manifestações.

Apesar de perderam intensidade desde quinta-feira, quando cerca de 1,2 milhão de brasileiros saíram às ruas em uma centena de cidades, os protestos prosseguiram hoje em cerca de 20 municípios. 

Protesto em SP contra a PEC 37 reúne cerca de 30 mil pessoas

O Globo 

Projeto retira dos Ministérios Públicos o poder de investigação
Manifestantes ocuparam pacificamente a Avenida Paulista

Michel Filho / Agência O Globo 
Manifestantes usam cartazes contra a proposta
 que limita o poder de investigação do Ministério Público 

SÃO PAULO. De forma pacífica, cerca de trinta mil pessoas ocuparam neste sábado a Avenida Paulista, em frente ao Masp, e algumas das principais ruas do Centro de São Paulo em protesto contra o projeto de emenda constitucional (PEC-37), que retira dos Ministérios Públicos (MPs) o poder de investigação. Muitas famílias e jovens seguraram cartazes pedindo para que Congresso não aprove o projeto.

— Queremos que os lí¬deres de bancadas de partido venham a público para dizer que posição têm em relação à PEC 37. Que parem de fazer esse jogo turvo, joguem claro - disse o empresário Renan dos Santos, um dos líderes à frente da manifestação. 

O ato seguiu até a sede do Ministério Público Estadual, onde o presidente da Associação Paulista do Ministério Público (APMP) Felipe Locke, discursou contra a aprovação do texto. 

— Hoje a juventude deu uma aula de cidadania. Chega de corrupção, chega de PEC 37 - disse o dirigente.
Manifestantes carregavam cartazes contra desvios de recursos em obras da Copa do Mundo e pedindo mudanças no Código Penal. Depois da passagem pelo Ministério Público, a manifestação se dispersou, mas pequenos grupos seguiram protestando por ruas de São Paulo.

Em Belo Horizonte, milhares de pessoas seguiram em passeata da Praça Sete, no Centro da cidade, Estádio do Mineirão, que recebeu o jogo entre Japão e México pela Copa das Confederações. Os manifestantes protestaram contra os gastos públicos para a competição e melhorias na saúde e na educação.No Rio de Janeiro, manifestantes mantêm o acampamento na Avenida Delfim Moreira,no Leblon, próximo à casa do governador Sérgio Cabral.

Anarquistas: os organizadores do caos nas passeatas

Leonardo Coutinho
Veja online

Entre os vândalos que macularam os protestos há desde militantes de esquerda até pitboys sem causa, mas são os anarquistas que incitam o quebra-quebra

 (Daniel Marenco/Folhapress) 
DESORDEM INSTALADA - 
Um blindado da polícia militar é atacado no Rio, na quinta-feira

"Todos na bandeira! Vamos sair daqui”, gritou uma jovem de longos cabelos loiros. Ao seu comando, seis homens e mulheres com roupas pretas, botas de 300 reais e o rosto coberto por balaclava reuniram-se sob o estandarte vermelho e negro do anarquismo, empunhado por um deles. 

A ordem para debandar foi dada logo que um dos anarquistas, do alto de uma van em chamas da Rede Record, arremessou uma câmera de TV no chão, para delírio de cerca de 100 manifestantes exaltados que permaneceram na frente da prefeitura de São Paulo após a passagem da passeata que seguira pacificamente em direção à Avenida Paulista, na última terça-feira. 

“Hoje é o dia mais feliz da minha vida. Conseguimos implantar o caos”, comemorou uma das anarquistas. Em seguida, o bando desapareceu, deixando para trás uma horda de imitadores que, nas duas horas seguintes, destruiu cinco agências bancárias, saqueou 27 lojas e pichou muros antes de ser dispersada pela tropa de choque.

Poderes e corrupção

Roberto Romano 
O Estado de SPaulo

As fraturas no Estado brasileiro fortalecem a corrupção que entre nós está sedimentada. Naquele artefato político anacrônico o Poder Executivo é essencial, os demais setores são adjetivos. Ele não se modificou em profundidade desde 1824 e o poder de quem o controla foi hipertrofiado após as ditaduras do século 20. A Presidência, para se manter, deve pedágios aos oligarcas do Congresso e garante a escolha de seus candidatos aos tribunais superiores. Da crise entre o Judiciário e parlamentares pode vir um fortalecimento desastroso do Executivo. A Constituição de 1988 em farrapos não encontra quem a interprete de maneira inconteste. O mito da harmonia entre poderes é desmentido a cada minuto. Para entender o desarrazoado que nos rege, podem ajudar algumas achegas ao pensamento jurídico conservador e liberal.

O Congresso abriga líderes sem compromisso com os programas oferecidos nas urnas. Eles fazem política sem doutrinas, domesticados por verbas ou cargos num farsesco realismo miúdo. Em vez de atenuar os delitos políticos, tal atitude reforça na população a esperança em algum salvador que, da Presidência e de modo autoritário, limparia os costumes. O golpe de 1964, recordemos, foi justificado pelo combate à corrupção. Figuras como Jânio Quadros, Collor de Mello e outras usaram a indignação das massas para chegar à Presidência, lá ficando por breve tempo, sem apoio político.

Na história recente as teses da direita elogiam o Executivo em detrimento dos outros poderes. É o caso de Carl Schmitt, o autor de A ditadura. Emulado por juristas como Francisco Campos, Schmitt cunhou a fórmula segundo a qual "soberano é quem decide sobre o estado de exceção". Ele foi crítico (e, não raro, com acerto) do Parlamento. Para levar a sério a democracia, afirmava, só o povo pode decidir o seu destino e jamais os deputados. Em O Protetor da Constituição, ele apela ao presidente da República, o único vigia seguro da Carta, e menciona o Poder Moderador brasileiro posto acima das pretensões parlamentares. Nega também que o Judiciário possa guardar a Constituição porque age atrasado para sanar desvios institucionais. "A independência é a necessidade primeira para um protetor da Constituição", juízes e deputados não podem cumprir o mister, pois não são independentes o bastante para garantir o Estado. Só o presidente suspende o direito "em virtude de um direito de autoconservação". É o golpe e a ditadura. Schmitt retoma o slogan contra o regime democrático: nele se discute, pouco se decide. Mas a democracia é um processo no qual não existem garantias de vitórias sem amarguras. Cada costume melhorado incentiva o bem público. Hoje, infelizmente, boa parte de nossos parlamentares age como lobistas. Quando se ouve falar em "bancadas" no Congresso, o que temos são grupos que atuam em prol de interesses particularíssimos.

Carl Schmitt não cita por acaso a Carta brasileira de 1824. O Poder Moderador, nela, foi um golpe contra a soberania popular e o Parlamento. Os idealizadores de nosso Estado seguiram a contrarrevolução europeia. O movimento de 1789, no seu entendimento, resultou em anarquia. Para barrar tal ameaça, fomos submetidos ao monarca "pela graça de Deus". Segundo o conservador Guizot, "o mais simples bom senso reconhece a necessidade da limitação de todos os poderes, quaisquer que sejam seus nomes e formas. Abri o livro em que o sr. Benjamin Constant tão engenhosamente representou a realeza como poder neutro, moderador, elevado acima dos acidentes, das lutas sociais, e que só intervém nas grandes crises. É preciso que haja nesta ideia algo muito próprio a mover os espíritos, pois ela passou com uma rapidez singular dos livros para os fatos. Um soberano dela fez, na Constituição do Brasil, a base de seu trono; a realeza é representada como Poder Moderador elevado acima dos poderes ativos, com espectador e juiz".

Segundo Constant, o Poder Moderador é neutro e apanágio da realeza, os ministros respondem pelo governo e os legisladores nada recebem. O julgamento pelo júri é a norma e impera a livre imprensa. No elogio do Poder Moderador feito por Guizot há um desvio do conceito. Constant define aquele poder como neutro para coordenar os demais. Pôr os quatro poderes numa hierarquia vertical foi o golpe em 1824. A tendência centralizadora definiu o Estado com privilégio do chefe, amesquinhando o Parlamento e o Judiciário.

As prerrogativas do Poder Moderador, inconfessadas, persistem hoje na Presidência da República, o que leva às fraturas no Estado, pois o Executivo negocia apoio parlamentar (com várias técnicas), nomeia os juízes do Supremo, controla o Senado, mas é praticamente destituído de responsabilidade. Vivemos como se ainda vigorasse o Título 5, Capítulo primeiro, artigo 99 da Constituição de 1824. Sagrada, a pessoa presidencial não está sujeita a sérios questionamentos. Ela domestica, pela propaganda e controle dos recursos públicos, a soberania popular, distorce a representação do Parlamento. As duas ditaduras que marcaram o século anterior levaram ao paroxismo a distorção da máquina estatal. A Presidência brasileira é absolutista e propensa à ditadura. A lei da reeleição, as medidas provisórias que se eternizam, a prerrogativa de foro para agentes dos poderes definem alguns dos principais óbices para a democracia. E temos a sucessão de crise após crise, porque não existe limite efetivo para o Executivo. Se este último ignora barreiras, o mesmo tentam fazer os demais. Reaparece, surgida da indecisão jurídica nacional, outra fórmula cunhada por Carl Schmitt: política é o campo onde os inimigos são definidos. Inimigo harmônico é quimera, algo tão fantasioso quanto as leis no Estado brasileiro.

Ministros e especialistas creem em mensaleiros presos este ano

Carolina Brígido
O Globo

Corte tem meios de evitar tentativas da defesa de retardar o processo

O Globo / André Coelho 
O ministro Joaquim Barbosa, 
presidente do STF e relator do processo do mensalão 

BRASÍLIA - Ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) e especialistas em Direito Penal têm esperança de ver concluído ainda neste ano o julgamento dos recursos apresentados pelos 25 réus condenados no processo do mensalão — e, com isso, que as penas comecem a ser cumpridas logo. Até lá, os advogados devem apresentar todos os recursos judiciais possíveis. Mas a aposta é que a Corte lance mão de instrumentos que impedem o atraso no cumprimento das sentenças. Mesmo com o clima de otimismo, os parâmetros da Corte não são animadores: condenado em outubro de 2010 a pena de prisão em regime inicialmente fechado, o deputado Natan Donadon (PMDB-RO) continua em liberdade, exercendo o mandato.

— O sistema processual permite a propositura de embargos reiterados. É claro que, num julgamento dessa magnitude, vão propor todos os recursos, mas o tribunal pode se recusar a julgar. O STF, quando há recursos protelatórios, pode aplicar penalidades (contra quem os propõe) — analisa o ex-procurador-geral da República Antonio Fernando de Souza, o autor da denúncia que deu origem ao processo do mensalão.

Sessões extras
O ex-procurador não arrisca uma data para o fim do julgamento dos recursos, mas seu otimismo encontra eco no tribunal. Um integrante do tribunal afirmou ao GLOBO que “a Corte vai barrar recursos de caráter meramente protelatórios”, para evitar o atraso na execução das penas.

— Eu não acredito que seja tão longo assim (o julgamento dos recursos). Mesmo porque o STF tem meios para evitar tentativas de procrastinação, se porventura ocorrerem. Acredito que até o final deste ano há possibilidade de terminar — aposta Carlos Velloso, ex-ministro do STF.

Para dar mais celeridade à análise dos embargos declaratórios apresentados pelos réus do mensalão, alguns ministros querem que o esquema de trabalho concentrado feito no julgamento do processo, ao longo do segundo semestre de 2012, seja repetido. Se a ideia vingar, haverá sessões extras no semestre que vem. O presidente do STF e relator do mensalão, ministro Joaquim Barbosa, ainda não estabeleceu cronograma para o julgamento. Ele deve pautar os recursos para os primeiros dias de agosto, logo depois do recesso forense. Os ministros já anunciaram que vão passar as férias de julho estudando o processo.

Um ex-integrante do tribunal aposta que, “com o esforço concentrado e sessões diárias”, o julgamento pode terminar este ano. Entre os ministros do STF, é difícil ouvir um prognóstico preciso. O que arriscou mais foi Dias Toffoli — que, em entrevista à imprensa, disse que a conclusão do processo deve levar “entre um e dois anos”. Apesar de otimista, o ministro Gilmar Mendes não quer arriscar um palpite.

— Não gosto de fazer profecias. Prognóstico, só depois do jogo. Vamos aguardar. É bom que termine (neste ano) — disse Gilmar.

O Grande Evento

Dorrit  Harazim
O Globo

De arena em arena, e com transparência zero nas contas, a coisa andou. Mudaram os protagonistas, mas os investimentos canalizados para este Brasil emergente nunca faltaram

Terça-feira, 30 de outubro de 2007. Na sede da Fifa em Zurique, o Brasil fazia a última de suas cinco apresentações para sediar a Copa do Mundo de 2014. Nem era preciso tanto esforço. Diante da desistência da Colômbia, cinco meses antes, e da dissolução da candidatura conjunta Argentina-Chile, sobrava o Brasil como candidato único no sistema de rodízio por continentes, hoje sepultado.

Ainda assim, a delegação que fora apoiar a nossa candidatura era de peso. Tinha à frente o presidente da República Luiz Inácio Lula da Silva, além do presidente da CBF Ricardo Teixeira, 12 governadores estaduais, o ministro do Esporte Orlando Silva, o senador Marconi Perillo, representando o Congresso Nacional, e Dunga, o técnico da seleção canarinho. Cada qual com sua respectiva comitiva, é claro. Além de dois “embaixadores” pinçados a dedo pelo entusiasmo à causa: o escritor Paulo Coelho e o atacante Romário.

A apresentação de Paulo Coelho, que saudara o presidente da Fifa Joseph Blatter com um cher ami, foi a mais aplaudida por fazer uma irreverente comparação entre a paixão brasileira por futebol e por sexo.

Ao final, por voto unânime dos 20 membros do Comitê Executivo, o Brasil foi confirmado. “O mundo terá a oportunidade de ver o que o povo brasileiro é capaz de fazer”, festejou Lula para uma nação inebriada.

(Seis anos depois o povo mostraria a Lula e ao mundo o que é capaz de fazer.)

Na ocasião, Blatter assegurara que o Brasil era um candidato de qualificação garantida e, mesmo não havendo outros países no páreo, teria sido vetado se não tivesse se comprometido a cumprir as exigências estipuladas pela Fifa. Em tese, até meados de 2012 ainda poderia ter sido trocado por algum país-sede alternativo, caso o andamento das medidas acordadas não seguisse o curso necessário.

Mas, de arena em arena e com transparência zero nas contas, a coisa andou. Mudaram os protagonistas, mas os investimentos canalizados para este Brasil emergente nunca faltaram. Ainda duas semanas atrás, faltando 48 horas para a abertura da Copa das Confederações em Brasília, a presidente Dilma Rousseff inaugurou um moderníssimo centro de comando e monitoramento nacional de segurança.

O equipamento tem nome comprido, Sistema Integrado de Comando e Controle para Segurança de Grandes Eventos, e custo alto — R$ 1,1 bilhão. Apresentado como capaz de integrar todas as forças de segurança nas seis cidades-sede da Copa das Confederações, foi ativado simultaneamente em Belo Horizonte e no Rio de Janeiro. “Agora podemos dizer que a segurança durante a Copa das Confederações está garantida”, afirmou a presidente durante a cerimônia. “Teremos condições tecnológicas para, no espaço de quilômetros, saber a pessoa que está cometendo delitos, e ter tudo filmado”, complementou o ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, elencando a versatilidade do novo sistema.

No Rio de Janeiro, o telegênico Centro Integrado de Comando e Controle (CICC) fora estreado semanas antes pelo governador Sérgio Cabral, a um custo de R$ 104,5 milhões. Tecnologia, ali, também não falta, a começar pelo já famoso telão de cinco metros de altura, 17 de comprimento e seus 98 monitores de LED. “Esse centro é um exemplo para o mundo, e a segurança pública ganha em qualidade. Terá papel central na articulação das seis cidades-sede na Copa das Confederações”, assegurou o ministro Cardozo.

Só que parafernália tecnológica, sozinha, não articula, e se houve algo que as cidades brasileiras não ganharam ao longo da última semana foi segurança pública. Ademais, nem o mais moderno dos sistemas é programável para também alertar governantes a prestar atenção a movimentos como o Passe Livre. Nem a emitir boletins sobre o estado de calamidade dos serviços públicos da nação. Por terem falhado numa obrigação que é deles, os governantes agora estão perplexos.

Quanto aos milhões de brasileiros que permaneceram calados enquanto se construiu uma Copa sem prestação de contas transparentes, sem audiências públicas com apresentação de projetos, discussão de impasses ou debates de soluções, a hora de opinar começou. Na rua. Sem data para aquietar-se.

Até porque o próprio calendário dos Grandes Eventos lhes servirá de pauta — no mínimo até os Jogos Olímpicos do verão de 2016, no Rio.

Por ora, o movimento já conseguiu enxotar Joseph Blatter pelo menos por alguns dias. O presidente da Fifa, que estava no Brasil para a Copa das Confederações e só se desloca num séquito de automóveis de proporções pouco republicanas, viajou na noite de quarta-feira para participar da abertura do Mundial Sub-20 na Turquia. Paradoxalmente, porém, a hipótese, mesmo remotíssima, de a Fifa ter de suspender a continuação do evento no Brasil por “força maior” (leia-se, falta de segurança) deixaria uma marca de choque múltiplo no país.

Com tudo isso em mente, cabe aqui uma homenagem a Belisario Betancur, 53º presidente da Colômbia. Em 1972 o país fora escolhido sede da Copa do Mundo de 1986. Com doze anos de antecedência, portanto. Em 1982, ao ser empossado, Betancur não precisou de mais de dois meses no poder para concluir o óbvio: a Colômbia não tinha condições de sediar uma Copa. Comunicou sua decisão em pronunciamento brevíssimo à nação: “Como preservamos o bem público, como sabemos que o desperdício é imperdoável, anuncio a meus compatriotas que o Mundial de Futebol não se realizará na Colômbia, após consulta democrática sobre quais são as necessidades reais do país: não se cumpriu a regra de ouro segundo a qual a Copa deveria servir à Colômbia e não a Colômbia à multinacional da Copa. Aqui temos outras coisas para fazer e não teríamos sequer tempo para atender às extravagâncias da Fifa e de seus sócios. García Márquez nos compensa totalmente pelo que perderemos como vitrine sem o mundial de futebol.”

Quatro dias antes, Gabriel García Márquez havia sido anunciado vencedor do Nobel de Literatura. O presidente da Fifa à época era o brasileiro João Havelange. A Copa de 1986 acabou sendo realizada no México.