sexta-feira, março 27, 2020

As respostas da política econômica global à pandemia do coronavírus

Exame.com
Com informações Agência Reuters

Veja um resumo dos principais passos das políticas até o momento

(Mike Blake/Reuters)
Estátua de surfista decorada com máscara e luvas em meio ao surto da
 doença do coranvírus (Covid-19), em Encinitas, Califórnia, EUA  

Governos e bancos centrais de todo o mundo têm liberado volumes sem precedentes de estímulos fiscais e monetários, além de outros medidas de apoio ao longo deste mês para as economias nacionais que sofrem com a pandemia de coronavírus.

Veja um resumo dos principais passos das políticas até o momento.


Brasil

Estímulo monetário: O Banco Central do Brasil reduziu as taxas de juros em 50 pontos-base para 3,75% e diminuiu os requisitos de capital para instituições financeiras.

Operações de financiamento e liquidez: Um programa do banco central, de 1,2 trilhão de reais (233,8 bilhões de dólares), para injetar liquidez por meio da compra de pacotes de carteiras de empréstimos bancários; novas regras que permitem aos bancos oferecerem a empresas e famílias empréstimos maiores e melhores condições; intervenção do banco central nos mercados de câmbio e recompras de títulos soberanos em dólar.

Estímulo fiscal (federal): Programa de 150 bilhões de reais para auxiliar a população mais vulnerável e proteger empregos; aprovação, pelo Congresso, de decreto presidencial que declara emergência nacional em torno do coronavírus, permitindo ao governo renunciar às metas fiscais e liberar recursos orçamentários.


Estados Unidos

Estímulo monetário: O Federal Reserve (Fed, banco central dos EUA) reduziu as taxas de juros em um total de 150 pontos-base em duas reuniões de emergência nos dias 3 de março (50 pontos-base) e 15 de março (100 pontos-base), levando as taxas de fundos federais ao intervalo entre 0-0,25%, juntamente com 700 bilhões de dólares em compras de ativos, ou flexibilização quantitativa (QE, na sigla em inglês).

O Fed também reduziu a janela de desconto, instrumento de política monetária, em 150 pontos-base. Em 23 de março, o Fed seguiu com a flexibilização quantitativa ilimitada e aberta e compras planejadas de títulos corporativos do governo municipal.

Operações de financiamento e liquidez: Trilhões de dólares em acordos de recompra inundaram os mercados com dinheiro; linhas de swaps com outros grandes bancos centrais para fornecer financiamento em dólares; programa de apoio a fundos do mercado monetário; várias flexibilizações de amortecedores de capital bancário; financiamento de suportes para empresas fornecerem empréstimos que se entendem até quatro anos; financiamento para auxiliar no fluxo de crédito nos mercados de títulos lastreados em ativos; também se planeja estender crédito para pequenas e médias empresas.

Estímulo fiscal (federal):  O Congresso deve aprovar um pacote de estímulo de 2 trilhões de dólares nesta quarta-feira, incluindo um fundo de 500 bilhões de dólares para ajudar indústrias afetadas com empréstimos e uma quantia comparável para pagamentos diretos de até 3 mil dólares a milhões de famílias norte-americanas.

Zona do Euro

Estímulo monetário: Em 12 de março, o Banco Central Europeu (BCE) acrescentou 120 bilhões de euros a seu atual programa de compra de ativos de 20 bilhões de euros mensais, além de flexibilização quantitativa. Em 19 de março, o BCE adicionou outros 750 bilhões de euros em flexibilização quantitativa, elevando o total para cerca de 1,1 trilhão de euros neste ano e incluiu a Grécia na carteira de títulos que compraria.

Operações de financiamento e liquidez: O BCE cortou a taxa de juros em suas Operações de Refinanciamento de Longo Prazo (TLTROs, na sigla em inglês), empréstimos baratos para bancos, em 25 pontos-base, para -0,75% em 12 de março. Forneceu Operações de Refinanciamento adicionais para reduzir o financiamento bancário até junho e afrouxou as regras de capital.

Fiscal / outros: Suspensão dos limites dos empréstimos do governo da União Europeia (UE), considerando permitir uma linha de crédito de precaução no valor de 2% do Produto Interno Bruto (PIB) nacional do fundo de resgate do Mecanismo Europeu de Estabilidade (ESM, na sigla em inglês).

Alemanha

Estímulo fiscal: Em 23 de março, acertou um pacote de até 750 bilhões de euros; 100 bilhões de euros para um fundo de estabilidade econômica que pode assumir participações diretas em empresas; 100 bilhões de euros em crédito ao banco público de desenvolvimento para empréstimos a empresas em dificuldades; o fundo de estabilidade oferecerá 400 bilhões de euros em garantias de empréstimos para garantir dívidas corporativas sob o risco de inadimplência.

França

Estímulo fiscal: Anunciou 45 bilhões de dólares em euros em medidas de crise para auxiliar empresas e trabalhadores em 17 de março; garantia de até 300 bilhões de euros em empréstimos corporativos de bancos comerciais em 16 de março.

Itália

Estímulo fiscal: Em 16 de março, decreto de emergência no valor de 25 bilhões de euros que suspende o pagamento de empréstimos e hipotecas para empresas e famílias e amplia os fundos para auxiliar empresas a pagarem trabalhadores demitidos temporariamente.


Espanha

Estímulo fiscal: Em 17 de março, um pacote de 200 bilhões de euros foi anunciado; metade das medidas de assistência econômica são garantias de crédito para empresas e o restante inclui empréstimos e auxílios a pessoas vulneráveis.


Reino Unido

Estímulo monetário: O Banco da Inglaterra (BoE, na sigla em inglês) reduziu as taxas de juros em um total de 65 pontos-base em duas reuniões de emergência, nos dias 11 de março (50 pontos-base) e 19 de março (15 pontos-base), levando os juros bancários a um nível recorde de 0,10%; anúncio de compras de títulos de 200 bilhões de libras.

Operações de financiamento e liquidez: O BoE também introduziu um novo programa de crédito barato e reduziu um amortecedor de capital para ajudar os bancos a emprestarem. Um mecanismo de financiamento corporativo do BoE comprará papéis comerciais com prazo de vencimento em até 12 meses de empresas com classificação de risco em grau de investimento ou semelhante no período pré-crise.

Estímulo fiscal: Em 11 de março, um plano de estímulo de 30 bilhões de libras; 330 bilhões de libras em garantias de empréstimos para empresas; ofereceu pagar até 80% das despesas com salários se os funcionários forem colocados em licença, até um máximo de 2.500 libras (2.930 dólares) cada por mês –se as empresas os mantiverem. As empresas também têm permissão para reter temporariamente 30 bilhões de libras (35 bilhões de dólares) de imposto sobre valor agregado (IVA).

Canadá

Estímulo monetário: O Banco do Canadá cortou as taxas em 100 pontos-base em duas reuniões de emergência, nos dias 4 de março (50 pontos-base) e 13 de março (50 pontos base), levando a taxa de juros overnight ao patamar de 0,75%.

Operações de financiamento e liquidez:- expansão das garantias elegíveis para operações compromissadas a prazo; programa de compra de hipotecas seguradas em 50 bilhões de dólares canadenses (34,6 bilhões de dólares norte-americanos); programa de suporte a crédito de 10 bilhões de dólares canadenses para empresas.

Estímulo fiscal: 55 bilhões de dólares canadenses em diferimentos de impostos para empresas e famílias; Pacote de ajuda de 27 bilhões de dólares canadenses para trabalhadores e famílias de baixa renda.


Japão

Política monetária: O Banco do Japão afrouxou a política monetária, aumentando as compras de fundos negociados em bolsa (ETFs, na sigla em inglês) e outros ativos de risco, incluindo títulos corporativos. O banco central também decidiu criar um novo programa para conceder empréstimos a taxa zero por um ano a instituições financeiras.

Política fiscal: O governo anunciou gastos extras de 430,8 bilhões de ienes (4,1 bilhões de dólares), destinados principalmente a auxiliar as pequenas e médias empresas afetadas. O governo também financiará melhorias em instalações médicas e subsidiará os pais que são forçados a sair de licença por causa das escolas fechadas.

Nenhum plano de estímulo fiscal foi anunciado, mas é esperado algo para o mês de abril, o que pode incluir pagamentos em dinheiro. As medidas poderiam contabilizar mais de 30 trilhões de ienes (270 bilhões de dólares).

Austrália

Estímulo monetário: O Banco Central da Austrália reduziu as taxas em 50 pontos-base em duas decisões (25 pontos-base na reunião de 3 de março e outros 25 pontos-base na reunião de emergência de 19 de março), levando o nível dos juros para 0,25%; introduziu o primeiro uso da flexibilização quantitativa, estabelecendo uma meta de cerca de 0,25% para o rendimento dos títulos.

Operações de financiamento e liquidez: Um mecanismo de financiamento de 90 bilhões de dólares australianos (53,3 bilhões de dólares norte-americanos) para bancos a uma taxa fixa de 0,25%; um programa de compra de 15 bilhões de dólares australianos em títulos garantidos por hipotecas residenciais e outros garantidos por ativos; um programa de suporte, de 715 milhões dólares australianos, para companhias aéreas.

Política fiscal: 66,1 bilhões de dólares australianos em assistência a empresas e pagamentos adicionais de assistência social; um pacote de 17,6 bilhões de dólares australianos em subsídios para aprendizes, pequenas empresas, pensionistas e outros.


Coreia do Sul

Estímulo monetário: O Banco da Coreia reduziu as taxas de juros em 50 pontos-base, para 0,75%, em 16 de março.

Estímulo fiscal: Orçamento suplementar de 11,7 trilhões de won; 50 trilhões de won em financiamento de emergência para pequenas empresas; maior afrouxamento às principais regras de fluxo de capital temporariamente para incentivar as instituições financeiras locais a fornecerem mais dólares.

China

Estímulo monetário: O Banco Popular da China reduziu sua taxa de empréstimo de um ano, introduzida pela primeira vez em agosto, em 10 pontos-base, para 4,05% em 20 de fevereiro, após várias injeções de liquidez e outras flexibilidades políticas. Em 13 de março, o banco cortou o caixa que os bancos devem manter como reservas pela segunda vez este ano, liberando 550 bilhões de iuanes (79 bilhões de dólares).

Financiamento e liquidez: A China ofereceu financiamento mais fácil para empresas de pequeno e médio porte, aumentando em 500 bilhões de iuanes as cotas de reempréstimos e redesconto de iuan em 25 de fevereiro. Também aumentou a cota de empréstimos dos bancos políticos em 350 bilhões de iuanes para fazerem empréstimos direcionados a esses negócios.

Estímulo fiscal: A China deve liberar trilhões de iuanes em estímulo fiscal. Os gastos ampliados terão como objetivo estimular o investimento em infraestrutura, apoiado em 2,8 trilhões de iuanes (394 bilhões de dólares) em títulos especiais do governo local, segundo fontes, em 19 de março. O déficit orçamentário nacional pode subir para níveis recordes, acrescentaram fontes.

Várias pequenas medidas e despesas fiscais, como incentivos fiscais, tarifas reduzidas de energia e redução de taxas.


FMI vê recessão 'tão ruim ou pior' quanto a da crise mundial de 2008

Beatriz Bulla, correspondente, 
O Estado de S. Paulo

A diretora-geral da instituição, Kristalina Georgieva, divulgou um comunicado nesta segunda-feira, 23, no qual informa que 80 países estão pedindo a ajuda do fundo

  Foto: Brendan Smialowski/AFP
O fundo disse que está pronto para usar toda a capacidade 
de empréstimo de US$ 1 trilhão, se necessário. 

WASHINGTON - O Fundo Monetário Internacional (FMI) disse esperar para este ano uma recessão "tão ruim ou pior" do que a crise financeira de 2008, com recuperação em 2021. A diretora-geral do FMI, Kristalina Georgieva, divulgou um comunicado nesta segunda-feira, 23, depois de participar de ligação emergencial com os ministros e presidentes de Banco Centrais dos países do G-20, no qual disse que 80 países estão pedindo a ajuda do fundo.

"O impacto econômico é e será severo, mas quanto antes o vírus parar, o mais rápido e com mais força a recuperação virá", afirmou a diretora-geral do fundo, que disse que é preciso priorizar as medidas de contenção do vírus e fortalecimento dos sistemas de saúde dos países.

Segundo ela, o FMI apoia ações fiscais extraordinárias que os países têm tomado para ampliar e melhorar seus sistemas de saúde e proteger empresas e trabalhadores e também as recentes ações de bancos centrais que fizeram diminuições nos juros. "Esses esforços serão do interesse não só de cada um dos países, mas da economia global como um todo. Ainda mais será necessário, especialmente na frente fiscal", afirmou.

A situação dos países emergentes e dos de baixa renda, no entanto, é mais preocupante. A diretora-geral do FMI afirmou que investidores já tiraram US$ 83 bilhões dos mercados emergentes desde o começo da crise, a maior fuga de capital já registrada, segundo ela. 

O fundo disse que trabalha com outras instituições financeiras para organizar uma resposta coordenada e está pronto para usar toda a capacidade de empréstimo de US$ 1 trilhão.

Coronavírus: Economia global vai sofrer anos até se recuperar do impacto da pandemia, afirma OCDE

Szu Ping Chan
BBC News 


 Direito de imagemGETTY IMAGES


O mundo vai levar anos para se recuperar do impacto da pandemia do novo coronavírus, avaliou a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE, ou clube dos países ricos).

Angel Gurría, secretário-geral da entidade, afirmou em entrevista à BBC que o choque econômico já é maior do que a crise financeira de 2008 ou a de 2001, após os ataques de 11 de Setembro daquele ano. Um crescimento global previsto para este ano de 1,5%, disse, já soa otimista demais.

Para ele, é quase uma confusão de desejo com realidade acreditar que os países vão se recuperar rapidamente, mesmo que não se saiba estimar direito qual será o tamanho do desemprego e das falências empresariais.

Gurría prevê que quase todas as grandes economias do mundo entrarão, nos próximos meses, em recessão, ou seja, sofrerão declínio econômico por ao menos dois trimestres consecutivos.

A entidade tem pregado aos países-membros que, como estratégia contra a pandemia, priorizem e ampliem maciçamente os gastos em diagnóstico e tratamento de pessoas infectadas.


Choque imenso

Gurría afirmou que a incerteza instalada pela pandemia é a maior em décadas. "A razão é que não sabemos o quanto demandará a recuperação dos empregos porque não sabemos quantas ficarão desempregadas ao fim disso tudo. Também não sabemos o que precisaremos para resgatar as milhares de pequenas e médias empresas que já estão sofrendo."

 Direito de imagem REMO CASILLI/REUTERS Image caption
Em Roma, alguns bares e cafés seguem funcionando, mas apenas fazendo entregas

Governos ao redor do mundo têm tomado medidas sem precedentes para apoiar trabalhadores e empresários durante a pandemia, que mais infectou mais de 300 mil pessoas.

O Reino Unido, por exemplo, anunciou que pagará parte dos salários dos trabalhadores impossibilitados de atuar em razão da doença.

Gurría defendeu que os governos ignorem os preceitos dominantes sobre endividamento público e utilizem "tudo o que for possível" para lidar com a crise.

Ele alertou, por outro lado, que esses déficits públicos e montanhas de endividados pesarão muito para os países nos próximos anos.

Sem recuperação rápida

Segundo Gurría, autoridades do G20 (outro clube de países ricos) acreditavam semanas atrás que a recuperação econômica seria como a letra "V", ou seja, queda brusca da atividade econômica seguida de recuperação acentuada.

"Ali isso já era uma confusão de desejo e realidade", afirmou.

"Eu discordo da ideia de um fenômeno em 'V'. No melhor dos cenários, será como um 'U', com uma longa linha na base até atingirmos um período de recuperação. Nós podemos evitar que ele se pareça com um 'L', se tomarmos hoje as decisões certas."

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O governo do presidente Xi Jinping afirma que o país vai superar as consequências
 da pandemia de coronavírus; economia chinesa recuou mais do que se esperava

A OCDE, entidade a qual o Brasil tenta ingressar com apoio dos Estados Unidos, defende que o mundo adote um plano com quatro pilares para enfrentar a pandemia atual. Ele inclui exames gratuitos para diagnosticar a doença, melhores equipamentos para profissionais de saúde, transferências de recursos para trabalhadores, incluindo os autônomos, e adiamento da tributação para empresas.

Gurría compara o nível de ambição ao Plano Marshall, que ajudou a bancar a reconstrução da Europa depois da Segunda Guerra Mundial (1939-45).

Impacto econômico no Brasil

Desde janeiro, as análises sobre o impacto do surto na economia do Brasil apontam um cenário cada vez mais negativo. Mas isso tem mudado com rapidez.

Inicialmente, em fevereiro, o governo Jair Bolsonaro falava em impacto de menos de 1 ponto percentual no crescimento previsto em torno de 2% do PIB. Na sexta-feira (20), o governo cortou sua projeção oficial de 2,1% para 0,02%.

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Vários economistas acreditam que mundo está perto de uma recessão global

Analistas e pesquisadores apontam que o Brasil pode enfrentar um recuo da economia, em patamar que lembra a crise financeira de 2008 e a greve dos caminhoneiros em 2018.

Segundo estudo da Fundação Getulio Vargas, o PIB brasileiro pode recuar 4,4% em 2020. Para o banco Itaú, se a economia brasileira sofrer uma paralisação tal qual ocorreu na China durante as quarentenas impostas, o PIB pode cair 0,7% neste ano.

As expectativas econômicas têm desabado ao redor do mundo.

No início deste mês, a Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento (UNCTAD) previu que a pandemia poderia custar à economia global até US$ 2 trilhões neste ano (cerca de R$ 10 trilhões).

Países que dependem da venda de matérias-primas, como o Brasil, estão em uma situação delicada, alertou a UNCTAD.




Mesmo após a crise, coronavírus vai mudar dinâmicas de trabalho

Murilo Bomfim
Exame,.com

Pandemia força empresas a adotar novos hábitos e revela que modelos de negócios e de gestão devem ser repensados

 Germano Lüders/EXAME)
Avenida JK, em São Paulo: medidas para conter
 a Covid-19 esvaziam centro empresarial

Se mesmo com todas as ações do mundo do trabalho que visam conter a propagação do novo coronavírus — como home office, reuniões por conferência ou uso de férias e banco de horas — você se sente perdido, eis uma boa notícia: você não está só. A crise de proporção global surpreendeu empresas dos mais diversos tamanhos e setores, incluindo executivos experientes e consultores. “Se me pedissem hoje para fazer um plano estratégico, estruturar uma empresa na área de inovação, eu não saberia nem me comportar”, diz Fabian Salum, professor de estratégia, modelo de negócios e inovação da Fundação Dom Cabral. “Mesmo com anos de experiência como executivo e mais de uma década me dedicando à academia, me sinto esvaziado.” Ele conta que os empresários com quem tem contato partilham do sentimento: todos estão repensando tudo, de modelo de negócios à relação com a tecnologia.

Em meio a um mar de incertezas, há uma percepção que parece unânime: a crise do coronavírus terá efeitos perenes sobre a forma de trabalhar. A leitura de especialistas ouvidos pela EXAME é a de que o isolamento vai provocar a criação de novos hábitos e comportamentos no universo corporativo, com revisão das reais necessidades de se manter processos e estruturas.

 “Algo que pode ter um efeito marcante é a preocupação com as pessoas”, diz Joana Story, professora de gestão na Fundação Getúlio Vargas. “Estamos lidando com uma questão global que tem impacto nas pessoas, e é preciso entender que os modelos de gestão serão diferentes. Não se pode priorizar o lucro neste momento: o gestor deve pensar de forma mais ampla sobre as consequências e impactos sociais para resolver a crise.”

O isolamento social vai provocar a criação de novos hábitos e comportamentos no universo corporativo, com revisão das reais necessidades de se manter processos e estruturas

  Neste contexto, ela destaca o posicionamento de Arne Sorenson, presidente da rede de hotéis Marriott, que anunciou a suspensão de seu salário até o fim do ano, e o corte de 50% no salário de executivos sêniores para enfrentar a crise que pegou em cheio a indústria hoteleira. “É um posicionamento claro e transparente sobre como está o negócio. Poucos líderes são capazes de fazer isso”, diz Story, ponderando que apenas empresas com liquidez suficiente poderiam seguir o exemplo.

A transparência — não apenas nos momentos de crise — pode ser uma nova tônica da gestão de empresas pós-coronavírus, impulsionada pelo trabalho remoto. Em uma dinâmica de condução de processos a distância, é mais difícil controlar as ações de funcionários, o que exige um alinhamento maior entre as equipes e a própria empresa. A ideia é que cada um entenda as ambições da companhia e seja capaz de tomar atitudes para caminhar em direção a um norte comum.

“O mundo vai ser diferente depois do coronavírus, e algumas coisas estão claras: lidar com a imprevisibilidade exige a queda do sistema de comando e controle”, diz Pedro Englert, presidente da escola de negócios StartSe. Ele se refere ao modelo de gestão vigente em grande parte das empresas tradicionais, no qual as decisões são concentradas na alta liderança, que define as estratégias e controla os funcionários. Para Englert, o sistema funciona quando há previsibilidade no mercado, mas perde o sentido em um contexto instável, e com clientes e consumidores cada vez mais poderosos. “Um time que veja tudo o que está acontecendo e que entenda os desafios e objetivos da empresa tem mais capacidade de reagir às dificuldades que se apresentam.”

(Morsa Images/Getty Images)
Ambiente de startup: diversidade e colaboração são a tônica da nova economia 

Esta mudança não se restringe apenas ao aumento da transparência na comunicação da alta liderança com os funcionários, mas abarca uma transformação mais radical das dinâmicas da empresa. Para que isso funcione, Englert aposta em no modelo de sociedade, em que os trabalhadores tenham participação significativa nos lucros e resultados e entendam que as movimentações têm impacto direto em sua remuneração e, consequentemente, na vida pessoal. “Ninguém quer se matar pelo executivo principal, mas por si próprio, trilhando a própria carreira”, diz. “É preciso que as pessoas queiram empreender junto e que tenham informação suficiente para saber tomar riscos.”

As lições das startups

Muitas das alterações previstas para o momento pós-coronavírus já fazem parte da cultura das startups. Diretor de operações da fintech Neon, Jean Sigrist comemora a rápida reação da empresa à pandemia: em três dias, 100% da operação passou a ser executada em home office (que, antes, era permitido apenas algumas vezes por semana). Por lá, a ação de emergência se dividiu em três pilares: proteção às equipes, avaliação de impactos junto a parceiros de negócios e acompanhamento de performance, desempenho e níveis de satisfação. “Uma pesquisa de clima mostrou que o processo foi bem avaliado, o desafio, agora, é fazer a gestão sem contato pessoal”, diz Sigrist.

Por enquanto, o resultado tem sido positivo. A startup já registra aumento de 13% na produtividade da área de suporte ao cliente, além de declarações de funcionários que alegam ter benefícios com a flexibilidade no trabalho. Para o diretor de operações, um dos legados da crise será uma nova visão sobre o home office, que deixará de ser uma possibilidade e se tornará realidade.

Podemos inverter o jogo: a norma passa a ser trabalhar em casa, e o escritório vira uma alternativa, onde as equipes se encontram algumas vezes por semana
  
“Os megaescritórios que temos hoje já fazem menos sentido do que fizeram no passado”, diz. “As estruturas, no entanto, não devem desaparecer. Como o contato humano é fundamental para construir relações de confiança, podemos inverter o jogo: a norma passa a ser trabalhar em casa, e o escritório vira uma alternativa, onde as equipes se encontram algumas vezes por semana.”

Ex-sócio da corretora Guide Investimentos e ex-diretor do Itaú, Sigrist entende que é normal que existam diferenças nos tempos de resposta e adaptação entre startups e empresas tradicionais, já que as novas organizações já nascem no mundo digital. Existem, no entanto, mudanças no modelo de pensamento que independem da familiaridade com a digitalização. Salum, da Fundação Dom Cabral, lançou, no último mês de novembro, uma pesquisa sobre tecnologia e impactos sociais e ambientais das startups. “É comum, mesmo entre gestores mais velhos, a mudança mental, muito induzida pelo ambiente”, diz. Segundo ele, o trabalho em ambientes compartilhados e em hubs influenciam em tudo: desde a maneira de se vestir até o entendimento de que a flexibilidade permite ao funcionário a entrega de melhores resultados por promover uma integração mais facilitada entre vida pessoal e profissional.

Salum enxerga características comuns no novo modelo de pensamento, que notou em suas experiências no Vale do Silício. Duas são essenciais: confiança e colaboração. Sobre confiança, ele cita que a aposta no outro é uma das bases da cultura das startups. “É um modelo de autogestão, de liderança autônoma”, diz. “O chefe não supervisiona se o funcionário trabalha de manhã, à tarde ou à noite, ele apenas quer a entrega.” Quanto à colaboração, o professor destaca que as novas empresas focam na ajuda mútua para desenvolver soluções, dando menos espaço à competição. Para ele, este pensamento colaborativo é uma das chaves para resolver a crise. “Não se trata de uma visão de direita ou esquerda, mas de considerar que vivemos em uma humanidade frágil, que sofre um impacto em função de uma variável. É preciso reaprender e replanejar e, para isso, devemos ser, sobretudo, humildes.”




Golpe a nacionalismo e impulso a cooperação: como crise do coronavírus pode afetar futuro global

João FelletDa 
BBC News Brasil em São Paulo

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Pensadores debatem sobre o modo com que a crise atual impactará 
as relações entre os países e as formas de governo mundo afora

A pandemia do novo coronavírus parece ainda estar no início em boa parte do mundo, mas já causou milhares de mortes, impactou a economia global e restringiu a circulação de milhões de pessoas.

Enquanto médicos correm para tentar produzir uma vacina que combata o vírus Sars-Cov-2, pensadores debatem como a crise atual impactará as relações entre os países e as formas de governo mundo afora.

O novo coronavírus forçará governos nacionalistas - como o chefiado por Donald Trump nos EUA - a rever atitudes e buscar uma resposta coordenada com outras nações, uma vez que a pandemia tem ignorado fronteiras?

O aparente sucesso das rígidas medidas impostas pela China no combate à covid-19, em contraste com a hesitação de democracias ocidentais como EUA, Itália e Espanha, expõe que regimes autoritários estão mais preparados para lidar com desafios do mundo moderno?

Essas foram algumas das questões levantadas a partir de um artigo escrito no fim de fevereiro pelo filófoso italiano Giorgio Agamben.

Nas últimas décadas, Agamben se notabilizou por obras em que analisou medidas de "estado de exceção" adotadas por governos ocidentais sob a justificativa de combater o terrorismo.

Segundo o filósofo, essas medidas - como a difusão de dispositivos de controle de mídias digitais e o escaneamento em aeroportos - acabaram se aplicando a todos os cidadãos, fazendo com que o estado de exceção se tornasse a norma e abarcasse toda a sociedade.

Estado de exceção como normal

Em texto publicado em 25 de fevereiro no jornal italiano Il Manifesto, Agamben avaliou que a pandemia do novo coronavírus estava reforçando a tendência "de se utilizar o estado de exceção como paradigma normal de governo".

Ele criticou um decreto-lei publicado pelo governo italiano com uma série de medidas para tentar conter a doença, como o fechamento de escolas, a proibição de eventos e o bloqueio a áreas afetadas.

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Pandemia do novo coronavírus afetou todo o mundo
 e fez com que sociedade repensasse relações

Segundo Agamben, as medidas haviam promovido uma "verdadeira militarização" do país, embora, segundo ele, a covid-19 fosse equivalente a uma "gripe normal".

Para o filósofo, autoridades e meios de comunicação italianos estavam espalhando "um clima de pânico" sobre a pandemia para justificar a adoção de medidas restritivas.

"Parece que, por ter se esgotado o terrorismo como causa de medidas emergenciais, a invenção de uma epidemia poderia oferecer o pretexto ideal para estendê-las para além de todos os limites", escreveu o filósofo.

Solidariedade global

O texto foi rebatido por vários acadêmicos, que discordaram da análise de Agamben sobre a baixa periculosidade da pandemia.

Em artigo no site The Philosophical Salon, mantido pela revista literária Los Angeles Review of Books, o filósofo esloveno Slavoj Žižek disse que a criação de um pânico artificial em torno da pandemia não seria do interesse de governos, pois perturbaria a economia e ampliaria o desgaste das autoridades perante a população.

"São claros os sinais de que, não apenas as pessoas comuns, mas também os poderes estatais estão em pânico, plenamente conscientes de não serem capazes de controlar a situação", afirmou o esloveno.

Žižek reconhece que as quarentenas impostas pelos governos limitaram a liberdade, mas aponta para um possível desdobramento positivo da crise atual.

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Para filósofos, pandemia põe em xeque governos que tratam a soberania
 nacionale dão pouca atenção ao que ocorre fora de suas fronteiras

Segundo ele, "a ameaça de infecção viral também deu um tremendo impulso a novas formas de solidariedade local e global, além de deixar clara a necessidade de controle sobre o próprio poder".

O filósofo cita, como prova da necessidade de controle do poder, a atitude de autoridades de Wuhan - cidade chinesa onde a doença surgiu - que omitiram informações iniciais sobre o surto, atrasando a adoção de medidas de contenção.

Resposta global

Žižek diz que a pandemia também pôs em xeque governos que tratam a soberania nacional como valor supremo e dão pouca atenção ao que ocorre fora de suas fronteiras.

Afinal, diz ele, a Organização Mundial de Saúde (OMS) tem dito que somente uma resposta articulada globalmente permitirá um combate eficiente contra a pandemia.

"Esta epidemia pode ser evitada, mas apenas com uma abordagem coletiva, coordenada e abrangente que envolva todo o mecanismo do governo ", disse, em 5 de março, o diretor-geral da OMS, Tedros Adhanom Ghebreyesus.

Segundo Žižek, um dos governos mais pressionados pela pandemia é o de Donald Trump, que se elegeu com o slogan "América primeiro" e vinha dando pouca atenção a organismos internacionais, mas agora é cobrado a participar dos esforços globais para conter a pandemia.

Žižek diz que "a presente crise demonstra claramente como a solidariedade e a cooperação globais são do interesse da sobrevivência de cada um de nós, que é a única coisa racionalmente egoísta a se fazer."

Fim da globalização?

Em 8 de março o economista Will Huton, diretor do Hertford College, da Universidade de Oxford, publicou no jornal britânico The Guardian um artigo intitulado "O coronavírus não acabará com a globalização, mas a mudará para muito melhor".

Nele, ele diz que, com a pandemia, "uma forma de globalização não regulamentada e de livre mercado, com sua propensão a crises e pandemias, certamente está morrendo".

"Mas outra forma que reconhece a interdependência e a primazia da ação coletiva baseada em evidências está nascendo", afirmou.

Para Huton, haverá mais pandemias no futuro, e elas forçarão os governos a investir na saúde pública e a respeitar a ciência - assim como adotar providências semelhantes quanto às mudanças climáticas, ao cuidado dos oceanos, às finanças e à cybersegurança.

Compartilhamento de informações

Autor dos bestsellers Sapiens e Homo Deus, o historiador e filósofo israelense Yurval Harari publicou um artigo com conclusões semelhantes na revista Time , em 15 de março.

Nele, Harari afirma que muitas pessoas têm culpado a globalização pela pandemia do coronavírus e defendido "desglobalizar" o mundo - construindo muros, restringindo viagens e limitando o comércio - para prevenir novas ocorrências desse tipo.

 Direito de imagem GETTY IMAGESI mage caption
"Isolacionismo no longo prazo só levará ao colapso econômico, 
sem oferecer nenhuma proteção real contra doenças infecciosas", 
diz historiador e filósofo israelense Yurval Harari

Porém, diz ele, embora restrições de curto prazo sejam essenciais para limitar a propagação do vírus, "o isolacionismo no longo prazo só levará ao colapso econômico, sem oferecer nenhuma proteção real contra doenças infecciosas".

"O real antídoto contra a epidemia não é segregação, mas cooperação", defende.

Segundo Harari, a história mostra que o compartilhamento de informações científicas e a solidariedade global são as principais armas para combater crises como esta.

Para o israelense, "a coisa mais importante que as pessoas precisam entender sobre essas epidemias é que a propagação da epidemia em qualquer país ameaça a espécie humana inteira".

Ele afirma que, se pandemia ampliar as divisões e desconfianças entre os humanos, "será a maior vitória do vírus".

Já se ela provocar uma maior cooperação global, "será uma vitória não só contra o coronavírus, mas contra todos patógenos futuros".


EUA X China

As formas como a China e os EUA têm reagido à pandemia também têm sido analisadas por pensadores, que tentam prever como a crise atual impactará a disputa entre as duas nações mais poderosas do mundo.

Gideon Rachman, principal colunista de política externa do jornal britânico Financial Times, publicou em 16 de março um artigo no qual diz que a China tem conseguido mudar as percepções sobre sua reação à pandemia.

Inicialmente criticada por ter censurado e punido médicos que alertaram sobre a gravidade da covid-19, a China tem conseguido conter novas infecções após medidas drásticas adotadas pelo governo.

Por outro lado, a doença vem avançando rapidamente na Europa e nos EUA, gerando dúvidas sobre a capacidade de reação dos governos ocidentais.

O número de mortos pela covid-19 na Itália, país europeu mais afetado pela pandemia, já ultrapassou o total de mortos na China, embora o país asiático tenha 23 vezes mais habitantes que o europeu e esteja exposto ao vírus há mais tempo.

Rachman afirma que, em parte, a relutância de europeus em adotar medidas duras contra a epidemia, permitindo que os casos se multiplicassem rapidamente, reflete "as dificuldades que democracias terão em manter restrições de estilo chinês por longos períodos".

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Formas como a China e os EUA têm reagido à pandemia têm sido analisadas 
por pensadores, que tentam prever como a crise atual impactará 
a disputa entre as duas nações mais poderosas do mundo

"Com a Espanha, a Itália e a França impondo duros controles sobre o movimento das pessoas, as capacidades administrativas e sociais da democracia europeia estão enfrentando um teste de estresse extraordinário", diz.

Para Rachman, os resultados distintos de chineses e países ocidentais no enfrentamento da epidemia farão com que "a crença de que a China está em ascenção e de que o Ocidente está em inexorável declínio ganhe novos adeptos".

O cenário também encorajará argumentos pró- autoritarismo e anti-democracia tanto na China quanto no Ocidente, diz ele.

"A última crise global - o colapso financeiro de 2008 - desencadeou uma perda da autoconfiança ocidental e uma mudança do poder político e econômico para a China. A crise do coronavírus em 2020 poderá forçar uma mudança muito maior na mesma direção", diz o analista.

Democracias bem-sucedidas na resposta

Racham ressalva, no entanto, que países democráticos na Ásia - como a Coreia do Sul, Singapura e Taiwan - também têm tido sucesso na cotenção do vírus sem recorrer à paralisação total.

Esses países, diz o analista, aplicaram exames de detecção em larga escala e foram rápidos em adotar o distanciamento social - medidas que, segundo ele, os EUA e a União Europeia provavelmente levaram muito tempo para encampar.

Outra ressalva feita por Rachman é que, apesar do aparente sucesso chinês em conter o vírus, o país ainda terá de responder "como deixaram o vírus fugir do controle em primeiro lugar, e o que vai acontecer quando as restrições de movimento forem aliviadas".

Resposta dos EUA

Outro elemento a se considerar nos desdobramentos da crise é como os EUA reagirão, escrevem Kurt Campbell e Rush Doshi em artigo para a revista Foreign Affairs, em 18 de março.

Eles argumentam que o status dos EUA como um líder global nas últimas sete décadas foi construído não só em cima de riqueza e poder, mas também na sua capacidade e disposição de coordenar respostas a crises globais, na legitimidade de sua governança doméstica e na sua oferta de bens para outras nações.

"A pandemia do coronavírus está testando todos os três elementos da liderança dos EUA. Até agora, Washington está sendo reprovado no teste", afirmam.

Eles dizem que os EUA têm evitado assumir um papel de liderança global no enfrentamento da pandemia - postura distinta da adotada no governo Barack Obama durante a crise do ebola, na África, em 2014.

Afirmam ainda que os EUA hoje dependem de importações para suprir suas necessidades de equipamentos e medicamentos contra a covid-19 e têm falhado em examinar casos suspeitos.

"A China, em contraste, tem promovido uma campanha diplomática intensa para reunir dúzias de países e centenas de autoridades, geralmente por videoconferência, para compartilhar informações sobre a pandemia e lições da experiência da própria China no combate à doença", argumentam.

O país asiático é ainda o maior produtor de máscaras e outros equipamentos usados contra a pandemia.

"Quando nenhum país europeu respondeu ao pedido urgente da Itália por equipamentos médicos e de proteção, a China publicamente se comprometeu a enviar mil ventiladores, dois milhões de máscaras, 100 mil respiradores, 20 mil aventais de proteção, e 50 mil kits de exame", dizem.

A China também enviou equipes médicas e 250 mil máscaras ao Irã, além de enviar equipamentos para a Sérvia. O fundador da Alibaba, gigante chinesa de comércio eletrônico, se comprometeu a enviar kits de exame e máscaras para os EUA, além de 20 mil kits de exame e 100 mil máscaras para cada um dos 54 países africanos.

Os autores defendem que, em vez de se contrapor aos chineses na resposta à pandemia, os EUA deveriam coordenar seus esforços com Pequim para desenvolver uma vacina contra a covid-19, socorrer a economia global, compartilhar informações, mobilizar indústrias para produzir equipamentos médicos e oferecer ajuda a outros países.

"No fim das contas, o coronavírus pode até servir como um alerta, promovendo o progressso em outros desafios globais que requerem a cooperação EUA-China, como as mudanças climáticas", diz o artigo.

"Esse passo não deve ser visto - e não seria visto pelo resto do mundo - como uma concessão ao poder chinês. Em vez disso, ele ajudaria a restaurar a fé no futuro da liderança americana."




Pandemia pode provocar prejuízo de R$ 320 bi a empresas e corte de 6,5 mi de empregos, aponta estudo

Eduardo Rodrigues, 
O Estado de S.Paulo

O estudo, obtido com exclusividade pelo Estadão/Broadcast, também aponta que o comércio perderá quase R$ 80 bilhões

 Foto: Daniel Teixeira/Estadão
As perspectivas são de 2 milhões de vagas fechadas no comércio 

BRASÍLIA - Os efeitos da pandemia do novo coronavírus e de restrições ao funcionamento de diversas atividades econômicas podem levar a um prejuízo de mais de R$ 320 bilhões à economia brasileira e fazer com que 6,5 milhões de trabalhadores percam seus empregos, de acordo com estudo encomendado pela Confederação Nacional de Serviços (CNS). 

De acordo com o vice-presidente da CNS, Luigi Nese, os números expressivos não devem ser usados para fazer alarde ou para serem contrapostos a estratégias recomendadas por autoridades sanitárias para conter o avanço da doença. 

O presidente Jair Bolsonaro entrou em rota de colisão com governadores e especialistas da área de Saúde ao defender que os trabalhadores voltem às ruas para que a economia não sofra um impacto tão grande com a pandemia. A Organização Mundial da Saúde (OMS), porém, defende o isolamento para todos como a única forma de evitar a disseminação da doença em estado de transmissão sustentada, ou seja, quando não se sabe a origem da contaminação

“O intuito do estudo é mostrar o que uma paralisação de 60 a 90 dias pode causar na economia. Encomendamos os dados para prepararmos empregadores, trabalhadores, governo e justiça para um debate que nos leve a uma solução pós-crise. Independente de um prazo mais curto ou mais longo no enfrentamento da covid-19, é preciso unir esforços para que a economia se recupere após esse processo”, afirma.

O setor de serviços deve ser justamente o mais penalizado, com a perda de cerca de R$ 117 bilhões em faturamento, caso os impactos da covid-19 sobre a economia se arrastem por um período de 60 a 90 dias. O estudo, obtido com exclusividade pelo Estadão/Broadcast, também aponta que o comércio perderá quase R$ 80 bilhões e a indústria de transformação deixará de faturar em torno de R$ 66 bilhões. A pandemia do novo coronavírus ainda traria perdas à construção civil (cerca de R$ 20 bilhões) e à agropecuária (quase R$ 12 bilhões).

Com isso, as perspectivas são de 2,2 milhões de demissões no setor de serviços, 2 milhões de vagas fechadas no comércio, 1 milhão de empregos perdidos na indústria, e 637 mil postos de trabalho a menos na construção civil. O estudo mostra ainda que, com menos produção e emprego, a covid-19 pode reduzir a arrecadação federal em quase R$ 125 bilhões neste ano.

Diante do um prejuízo bilionário estimado no estudo, Nese avalia que as medidas já anunciadas pelo governo serão insuficientes para impedir o fechamento de pequenas e médias empresas e a extinção de postos de trabalho.

“O governo anunciou medidas para injetar mais recursos no mercado, mas provavelmente a dose de auxílio terá que ser aumentada”, projetou. “A primeira coisa para garantir o emprego durante e após a crise é desonerar a folha de pagamento – imediatamente, sem discussões. Temos essa oportunidade para implementar isso, mesmo por uma proposta sobre tributação sobre transações eletrônicas”, acrescenta, voltando a defender a recriação de um imposto nos moldes da antiga CPMF.

O executivo criticou ainda a forma atabalhoada como a Medida Provisória 927, que suspendia contratos e salários por até quatro meses, foi divulgada no começo desta semana. Bolsonaro precisou recuar desse ponto da MP horas depois da sua publicação.

“Essa MP foi uma trapalhada. O que tem que ser fortalecido é o contrato de trabalho, dando ênfase de que o acordado vale mais que o legislado. Alterações de férias e jornadas já são feitas em convenções coletivas normalmente há muitos anos. Já a suspensão de salários foi péssima ideia, que derrubaria ainda mais a demanda no período de crise”, completa.

Imunes

Se o cenário é tenebroso para quase todos os setores da economia, o estudo mostra que os segmentos de tecnologia da informação, de saúde pública e privada e os serviços públicos, ao contrário, devem ter manutenção ou aumento de renda e de postos de trabalho. Somente as empresa do ramo de saúde e assistência social devem ter um incremento de quase R$ 7 bilhões no faturamento em 2020.

“Alguns setores vão crescer em detrimento de outros. Por serem serviços estratégicos nesse momento de crise, os profissionais dessa área serão, em média, demandados de forma mais intensa com aumento de carga de trabalho. Mas eles também sofrerão impacto se a crise for muito duradoura”, afirma Nese. “A tecnologia da informação vai aprimorar processos, facilitar vendas e atividades remotas, mas se o empregado dessas áreas não conseguir chegar ao trabalho, esse ramo também vai parar”, conclui.

A brutalização da verdade

Notas & Informações, 
O Estado de S.Paulo

A ameaça representada pelos arroubos de Bolsonaro vai muito além da saúde pública. Ele parece desejar o confronto de modo a criar clima para soluções autoritárias

O presidente da República, Jair Bolsonaro, fez um pronunciamento absolutamente irresponsável na noite de terça-feira, em cadeia nacional de rádio e TV. Em vez de usar esse recurso poderoso para anunciar alguma medida importante para conter a epidemia de covid-19, ou mesmo para confortar os brasileiros confinados há dias em suas casas, Bolsonaro, sob o argumento de que é preciso reativar a economia, incitou os cidadãos a romper a quarentena e voltar à “normalidade” – contrariando as recomendações de especialistas de todo o mundo e do próprio Ministério da Saúde. Ao fazê-lo, o presidente passou a ser, ele mesmo, uma ameaça à saúde pública. Por incrível que pareça, os brasileiros, para o bem do País, devem desconsiderar totalmente o que disse o chefe de Estado. A que ponto chegamos.

Mas a ameaça representada pelos arroubos de Bolsonaro vai muito além da questão da saúde pública. O presidente parece desejar ardentemente o confronto – com governadores de Estado, com o Congresso, com a imprensa e até com integrantes de seu próprio governo –, de modo a criar um clima favorável a soluções autoritárias. À sua maneira trôpega, Bolsonaro, ao reiterar ontem as alucinadas declarações que dera na noite anterior, disse: “Todos nós pagaremos um preço que levará anos para ser pago, se é que o Brasil não possa ainda sair da normalidade democrática que vocês tanto defendem. Ninguém sabe o que pode acontecer no Brasil. Sai (da normalidade democrática) porque o caos faz com que a esquerda se aproveite do momento para chegar ao poder. Não é da minha parte, não, fique tranquilo”.

Assim, Bolsonaro usa a epidemia de covid-19, cujas dimensões e letalidade ainda são desconhecidas e que tanta aflição tem causado ao País e ao mundo, para alimentar seu inconfessável projeto de poder – cuja natureza cesarista já deveria ter ficado clara para todos desde o momento em que o admirador confesso de notórios torturadores do regime militar se tornou presidente da República.

Esse projeto se assenta na brutalização da verdade. Para o bolsonarismo, os fatos reais não existem, salvo quando enunciados por Bolsonaro. Assim, se o presidente diz, sem nenhum respaldo na realidade, que a covid-19 é uma “gripezinha” causada por um vírus “que brevemente passará” e que a culpa pelo “pavor” da sociedade é da imprensa, que semeou uma “verdadeira histeria”, então esses passam a ser os “fatos” – em detrimento das inúmeras evidências em contrário. No mesmo dia em que Bolsonaro qualificava a covid-19 de “resfriadinho”, os organizadores da Olimpíada de Tóquio anunciaram o adiamento do evento para o ano que vem – apenas a mais recente das muitas medidas drásticas tomadas mundo afora por dirigentes conscientes de seu papel nessa crise planetária. “É sério. Leve a sério você também”, disse a chanceler alemã, Angela Merkel, em dramático pronunciamento na TV a respeito da necessidade de isolamento social.

O contraste com Bolsonaro é gritante: para o presidente brasileiro, basta manter apenas o “grupo de risco” (pessoas acima de 60 anos) em isolamento, e então será possível reabrir escolas e o comércio. Mas o próprio ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, é contra esse isolamento parcial, segundo apurou o site BR Político.

Por sorte, os governadores de Estado – acusados por Bolsonaro de praticar política de “terra arrasada” – informaram que vão manter as restrições de movimento para enfrentar a epidemia. Em reunião virtual dos governadores do Sudeste com Bolsonaro, João Doria, de São Paulo, disse lamentar o pronunciamento do presidente, queixou-se da descoordenação do governo federal e declarou que “a prioridade é salvar vidas” – ao que Bolsonaro, que jamais desceu do palanque, respondeu: “Saia do palanque”.

“As decisões do presidente da República em relação ao coronavírus não alcançarão o Estado de Goiás”, informou o governador goiano, Ronaldo Caiado, no que certamente será seguido por seus pares. Ou seja, o presidente Bolsonaro será olimpicamente ignorado pelos governadores. O resto dos brasileiros deveria fazer o mesmo.



Meirelles vê PIB cair 10% no 2º tri e diz que Bolsonaro está em negação

Ligia Tuon
Exame.com

"O momento pelo qual passamos é, de fato, dramático e envolve ações urgentes e eficazes", disse o secretário na estreia da série exame.talks


(Ueslei Marcelino/Reuters/Reuters)
Henrique Meirelles


Em meio aos impactos trazidos pela pandemia de coronavírus, a economia brasileira deverá contrair 10% no segundo trimestre de 2020 e 3% no acumulado do ano, prevê Henrique Meirelles, secretário da Fazenda e Planejamento do estado de São Paulo. “O momento pelo qual passamos é, de fato, dramático e envolve ações urgentes e eficazes”, disse nesta quarta-feira, 25, na estreia da série exame.talks.

Para a sua previsão, o ex-ministro da Fazenda no governo Michel Temer usa a estimativa oficial de infectologistas sobre a duração da crise, com o pico do número de casos em abril, seguido de um processo de recuperação que poderá ser visto na atividade ao redor de julho.  “Essa hipótese básica de trabalho já tem uma piora bastante grande ante as que prevaleciam uma semana atrás”, diz.

Meirelles conta também que recebeu o discurso que o presidente Jair Bolsonaro fez ontem, em rede nacional, muito mal: “Ele optou por entrar na chamada crise de negação, onde o doente recusa-se a ver o que está acontecendo, se nega a enxergar a realidade por uma conveniência de curto prazo. Todos estão errados, menos ele”.

O importante, diz, é manter o direcionamento dos líderes do judiciário, da imprensa, seguindo a orientação de especialistas do Brasil e do mundo, que hoje dão uma direção clara para a população sobre a necessidade de confinamento. “Não adianta manter a atividade e as pessoas se adoecerem. Temos uma pandemia ameaçando grande parte da população. Temos que preservar a vida e depois tentar recuperar a economia”.

Meirelles explica que, como boa parte da população deve seguir as orientações de isolamento social, os cofres públicos devem sentir uma queda acentuada de receita. Em abril, pior mês da crise, o recuo pode chegar a 30%: “O impacto em março será sentido na arrecadação de abril, que é quando as empresas pagam os impostos estaduais. Mas depois vai voltando a se recuperar durante o ano”.

O bate papo sobre o que esperar da covid-19, nome oficial da doença causada pelo novo coronavírus, foi conduzido por Renato Mimica, head de investimentos da EXAME e Lucas Amorim, diretor de redação (veja vídeo completo no pé da matéria).

Desta vez, a crise é diferente

A última vez que o mundo viu uma crise global foi há pouco mais de 10 anos, durante o colapso do sistema financeiro mundial. Nessa época, Henrique Meirelles era presidente do Banco Central brasileiro e, portanto, estava na linha de frente do combate aos impactos na economia brasileira. O cenário, porém, era outro, segundo ele, pois naquela crise era possível atacar a causa, que era financeira, e se materializava no Brasil primeiro pelo colapso das linhas de crédito internacionais.

“Agora é diferente. Não temos causas econômicas ou financeiras, temos a causa que é uma pandemia. Essa pandemia não gera só o aumento da doença. Precisamos identificar o canal de transmissão na economia”, diz.

Para fazer um paralelo, Meirelles conta que, com o colapso dos bancos europeus e americanos, verificou uma queda de 20% no volume total de crédito no Brasil. Desta forma, a estratégia do governo pôde ser mais direcionada na manutenção das necessidades do mercado porque, segundo Meirelles, já que o começo e o fim da crise eram mais fáceis de serem vistos:

“As informações preliminares dizem que o pico deve se dar dentro de 60 dias aproximadamente.. Estamos falando aí de um período de três ou quatro meses. Mas a pandemia está crescendo, e ainda iniciando no Brasil, onde os dados ainda são vagos. Felizmente o ministro da Saúde está tendo um comportamento responsável e, com o tempo, poderemos ter a duração certa dessa crise”, diz.

Meirelles defende ainda que o governo invista o que for necessário para conter os efeitos da pandemia: “Não podemos tratar uma situação de crise como uma de normalidade. A saúde é fundamental. Depois de preservada, voltamos à normalidade, mas sem aumentar o tamanho da máquina”, diz.

Sobre o mercado de câmbio, ele diz que o BC tem grande quantidade de reservas e pode assegurar liquidez no mercado. “Teremos um problema quando houver gente querendo comprar e ninguém querendo vender, mas o BC tem reservas para manter um mercado flutuante livre (cerca de US$ 300 bi). Isso não deve ser uma preocupação”.

Micro, pequenas e médias empresas

Durante a live, o secretário anunciou que o banco de desenvolvimento do estado de São Paulo prepara uma linha de crédito de R$ 2,5 bilhões a micro, pequenas e médias empresas, “com juro substanciamento mais baixo que o mercado e condições maiores de carência para que possam passar pela crise”.

As ações que estão sendo desenvolvidas terão aporte do próprio governo, com participação de recursos que estão sendo negociados com o Banco Mundial e outros órgãos bilaterais, segundo o secretário.

Manter o mercado de crédito funcionando também é responsabilidade do setor privado, segundo ele. “Temos que ter o sistema financeiro mantendo suas linhas de crédito, abrindo linhas especiais, estendendo pagamentos que estão vencendo agora”, diz.

O governo de São Paulo prepara uma reunião com os bancos, conta ele, para dar recomendações nesse sentido: “Os bancos têm que manter pleno funcionamento neste momento. Não só eles: cadeias de suprimento têm que funcionar, grandes empresas de transportes, o comércio fundamental. O setor privado é fundamental, toda sociedade tem que estar engajada nisso. Se deixar na mão do governo, vai dar problema”, diz.

Assista à entrevista completa:



Como atacar a covid-19

Raul Velloso, 
O Estado de S. Paulo

Será que o governo fará a parte que lhe toca nisso tudo? Queira Deus que sim. Se não, estaremos perdidos

Como o vírus existe e tende a se espalhar rapidamente, o segredo anticaos é um só: evitar o contato das pessoas contaminadas com as que não estão. Mesmo sabendo que o organismo de uma pessoa precisa de apenas 14 dias para eliminar o vírus e adquirir imunidade natural, e seus efeitos se confundam com os de uma gripe branda, quanto mais vulnerável for a pessoa atingida (por doenças, idade, etc.) e sem as providências corretas, a demanda por atendimento hospitalar especializado para os casos de alta gravidade pode superar largamente a oferta desses serviços. Neste caso, as autoridades acabarão tendo de escolher quem vai receber um melhor atendimento ou, no limite, deixar de ser atendida e falecer (vejam a experiência chocante da Itália).

O primeiro item da lista de tarefas é ter material específico de teste em grande quantidade e de fácil acesso à população (idealmente gratuitos), para poder aferir a situação de qualquer membro, a qualquer momento. Refiro-me a pôr à disposição os kits diagnósticos pesquisa por rt-pcr para coronavírus covid-19. Tudo isso deveria ser pago pela área federal, não importando quanto custe, pois certamente os benefícios superam os custos.

Assim, em teoria, numa família que tenha avós, pais e crianças (imagino-me numa praia deserta do Piauí com a minha), se o teste der ausência de vírus para todos, pode-se pensar numa segregação extrema por um período limitado (já que, em média, o organismo anula o vírus em 14 dias), em que a comunicação seja só a interna à família e, pois, o risco de contaminação seja muito baixo. A partir desse ponto extremo, pode-se imaginar algum relaxamento para algum risco de contaminação, como quando a família recebe a visita de um parente em situação desconhecida ou há uma empregada que vem e volta para sua própria casa todos os dias, algo que pode deslanchar um processo de rápida contaminação. No limite, se todos se comunicarem com as demais pessoas dessa mesma coletividade o tempo todo, o risco de contaminação e de escolhas tipo “de Sofia” tende, infelizmente, a se tornar muito alto.

Uma forma de atenuar esse risco é a garantia governamental, por vários meios, do uso de equipamentos de segurança individual (máscaras de todos os modelos do mercado, óculos, produtos químicos para desinfecção, capotes descartáveis) para os contatos extrafamília.

Finalmente, vindo pelo outro lado, na direção da solução extrema acima indicada de milhares de famílias à Robinson Crusoé, poderíamos pensar em algo próximo de um isolamento social drástico e compulsório, com uma operação torniquete em que a cada dia vai parando uma atividade. Escolas primeiro. Depois, todo o funcionalismo público. A seguir, bancos (ficando abertos só os caixas eletrônicos), depois o comércio. Até que fiquem só farmácias e supermercados. Em todos os casos, o processo de recentralização em milhares de células familiares começaria pelos home offices que fossem viáveis, trazendo pais, mães e/ou filhos mais velhos de volta à casa.

Nessas condições, teríamos pessoas que, antes contaminadas e que estivessem fora do grupo vulnerável, se livrariam dessa condição em 14 dias ou algo próximo, a contar preferencialmente da data de positividade do teste. À medida que o isolamento progressivo produzisse os efeitos de redução da velocidade de contágio do vírus, a quantidade de pessoas infectadas tenderia a se manter baixa e constante. Mas não é possível estimar o período que isso levaria. O mesmo vale para se fazerem hipóteses sobre a taxa mensal de contaminação durante o curso da pandemia.

Uma questão, contudo, ainda gera dúvidas na comunidade científica: depois que uma pessoa se cura, há risco de ser novamente contaminada? Como é um novo coronavírus, só o tempo e a ciência poderão responder.

Para encerrar, será que o governo fará a parte que lhe toca nisso tudo? Queira Deus que sim. Se não, estaremos perdidos.

* Consultor Econômico

Bolsonaro confirma aumento de benefício para informais para R$ 600

Victor Irajá 
Veja online

O valor do auxílio pago virou alvo de uma série de discussões no Ministério da Economia e no Congresso Nacional

  Sergio Lima/AFP
No Congresso, já há projetos em discussão para garantir 
o pagamento, mesmo sem nenhum texto vindo do Governo Federal – 

O presidente Jair Bolsonaro confirmou, na noite desta quinta-feira, 26, que os valores do auxílio pago a trabalhadores informais cuja renda foi afetada pela pandemia do novo coronavírus será de 600 reais mensais, e não de 200 reais, como aventado anteriormente. “Conversei com o Paulo Guedes e o Paulo Guedes resolveu triplicar esse valor”, anunciou em transmissão ao vivo pelas redes sociais depois de assumir que o valor anterior “era muito baixo”. O valor do auxílio pago virou alvo de uma série de discussões no Ministério da Economia e no Congresso Nacional.

Ainda não há um balanço de quanto o novo valor irá custar às contas públicas. O impacto previsto pelo pagamento do benefício de 200 reais era estimado em 15 bilhões de reais pelo Ministério da Economia. Como VEJA antecipou, o ministro da Economia, Paulo Guedes, cogita reduzir o salário dos servidores públicos que ganham mais de 10 mil reais por mês, temporariamente, para cobrir os gastos com o auxílio, apelidado de ‘coronavoucher’. No Congresso, já há projetos em discussão para garantir o pagamento, mesmo sem nenhum texto vindo do Governo Federal.

Líder do governo na Câmara, o deputado Major Vítor Hugo (PSL-GO) vem liderando as negociações para emplacar a medida, vista com bons olhos pelo presidente da Casa, Rodrigo Maia. Há diversas possibilidades em estudo pelos deputados e membros da equipe econômica, como manter o benefício entre 300 e 500 reais e liberá-lo a mais de um membro por família e antecipar o pagamento do Benefício de Prestação Continuada aos aposentados.

O ministro da Economia está em isolamento no seu apartamento no Rio de Janeiro e vem despachando com Bolsonaro por meio de videoconferências. No grupo de risco de complicações caso contraia o novo coronavírus, ele estava em quarentena. O Ministério da Economia informou que, em um novo teste realizado nesta quinta, Guedes testou negativo para a Covid-19.

Devolvam o FGTS!

Pedro Fernando Nery*, 
O Estado de S. Paulo

Dinheiro foi acumulado por anos sem que reservas de lucro fossem distribuídas

Os trabalhadores chegam à crise com uma poupança. Nas próximas semanas, a economia entrará em quarentena e dois desafios se colocam: evitar que as empresas sem demanda mandem embora seus funcionários, e evitar que quebrem, destruindo para sempre empregos formais. Os trabalhadores têm uma reserva suficiente para manter parcialmente seus salários nos próximos meses: o Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS).

Os recursos acumulados no Fundo após décadas de resultados não distribuídos, que compõem seu Patrimônio Líquido, podem ser a solução para pagar os salários – mantendo empregos e empresas e permitindo uma recuperação mais rápida no pós-pandemia.

O FGTS tem cerca de R$ 100 bilhões líquidos em caixa, que lastreiam um patrimônio líquido de montante equivalente – informa Igor Vilas Boas, consultor do Senado que é ex-presidente do Conselho Curador do FGTS. São recursos que, individualmente, não pertencem a nenhum trabalhador.

E existem associados ao Fundo 37 milhões de contas ativas, dos atuais vínculos dos trabalhadores em atividade. Desconte-se os empregados de estatais, que não sofrem risco de demissão, bem como empregados de maior renda, que podem possuir alguma poupança própria. Restam cerca de 30 milhões de contas de trabalhadores que ganham até dois salários mínimos. 

Se R$ 100 bilhões do FGTS fossem distribuídos entre esses 30 milhões de trabalhadores, teríamos algo como R$ 3 mil. É possível então pagar um salário mínimo para cada um deles por três meses, ou R$ 1.500 por dois meses – por exemplo. Pelas regras atuais, esse dinheiro não pertence aos trabalhadores, financiando empreendimentos de empreiteiras. Para ser liberado, é preciso lei.

Havendo lei, a Caixa poderia depositar mensalmente os recursos para ajudar os empregadores a pagarem os salários. Não deve haver grande dificuldade logística, afinal o Fundo recebe depósitos dos próprios empregadores. É só fazer o caminho reverso. Vilas Boas explica ainda que essa operação se beneficiaria da expertise do Saque Imediato, feito em 2019.

A ajuda do FAT (que paga o seguro-desemprego) pode cobrir eventuais diferenças ou os meses seguintes, ou auxiliar o governo a desonerar encargos como INSS. O uso do FGTS pode também permitir que o Tesouro concentre seus limitados recursos em ações de saúde ou na assistência, que há de acolher aqueles que nem emprego formal tem para perder. Vilas Boas lembra que a própria manutenção dos salários ajuda o governo a não sofrer tanto com a queda de arrecadação.

A medida não há de ser polêmica. É intuitivo que haja alguma reação das empreiteiras, que terão menos crédito para seus projetos. Mas no estágio atual da crise, os canteiros estão fechados ou prestes a fechar, e diante da incerteza ninguém deve estar contratando novos projetos. O consultor ressalta que o FGTS se beneficiará nos meses subsequentes, com mais depósitos e menos saques.

A manutenção dos postos de trabalho e das empresas é um imperativo para todos os países. Quando a pandemia passar, a economia vai se recuperar mais rápido se as empresas tiverem de pé e se não tiverem de contratar novos trabalhadores – o que demanda tempo e recursos com processos seletivos e, mais importante, treinamento. É uma grande vantagem o Brasil ter uma poupança de R$ 100 bilhões para garantir esses postos – ainda que não se use toda.

A crise da covid-19 escancara distorções de nossa Constituição e da legislação que a regulamenta. A ausência de proteção aos informais apesar de uma Seguridade trilionária. A blindagem dos servidores públicos diante de qualquer desastre. A subtributação dos mais ricos. Mas também o paradoxo de haver um fundo de garantia que pouco garante aos trabalhadores. 

Esse dinheiro do FGTS não caiu do céu: ele é resultado direto do suor e talento de gerações de trabalhadores, que depositaram mesmo sem saber parte do seu salário nessa poupança forçada todo o mês. Ele foi acumulado durante anos em que reservas de lucro não foram distribuídas. É hora de devolver. Se não agora, quando?

*Doutor em Economia