quinta-feira, outubro 14, 2010

Correios: exemplo de ineficiência de um governo à deriva...

Adelson Elias Vasconcellos


Se você repararem bem, o Brasil, em 2010, simplesmente não anda. Está parado esperando o término das eleições. Tudo que precisa ou pede decisão está, inapelavelmente, transferido para depois das eleições. Judiciário precisa julgar se a Lei Ficha Limpa vale para este pleito? Só vai definir depois das eleições. O Congresso, lotado até a borda de questões urgentes para tratar? Vai se reunir – se ainda o fizer – depois das eleições. Na administração tudo que depender de decisão do senhor Luiz Inácio, simplesmente esqueçam: só depois das eleições. Como antes das eleições, havia a pré-campanha – excrescência verde amarela exclusiva – depois, veio a campanha do primeiro turno, a campanha do segundo turno, e aí o que temos? O país está simplesmente parado. Nada é feito, nada se decide.

Exemplos? Ah, têm muitos. Vejam duas questões que dependerão da decisão de Lula: o caso do extradita / não extradita de Cesare Battisti, e a compra dos caças para Aeronáutica, apesar de que já terem montado “um relatório” para apontar os pontos positivos e negativos, e apesar de já sabermos de antemão qual será o escolhido, mas, e a decisão? Só depois da eleição. Para antes só se decidiu aquilo tudo que podia ter peso retumbante nas eleições, aquilo que se podia vender para o público alvo, no caso, o trouxa do eleitor-contribuinte, de preferência beneficiário do bolsa família. O que poderia provocar ruído, bem, empurra-se com a barriga para depois que a eleição passar, de preferência, com a eleição de Dilma. Nunca na história do país, se viu tanto uso descarado, abusivo e ilegal da máquina pública em favor de uma candidatura como está se convertendo esta eleição. E o que é pior: nunca se presenciou tanta omissão e negligência de parte dos órgãos que deveriam resguardar o cumprimento da lei, no caso TSE e Ministério Público, como agora o país todo vê, quase incrédulo e totalmente sem ação.

Nos últimos dias, o país foi sacudido por mais escândalos ocorridos na central de escândalos do governo Lula, chamado Correios. Ali, a qualidade dos serviços cai na proporção inversa em que se avolumam os gastos em publicidade, e na divulgação de falcatruas. E, o que é mais impressionante: até agora, dentre tanta podridão que já se divulgou, não se tem conhecimento de um único envolvido que esteja sendo processado, condenado ou preso.Todos soltos, todos impunes.

E eis que chegam duas informações surpreendentes: de um lado, conforme informa Lauro Jardim em sua coluna Radar online, Revista Veja, “(...) os Correios não param de aumentar o número dos seus comerciais de TV desde 2007. Segundo o site Controle da Concorrência, há três anos a estatal tinha apenas cinco anúncios publicitários veiculados em Globo, Record, Rede TV!, Band e SBT. O número pulou para 56, em 2008; 955, em 2009; e, este ano, de 1º de janeiro a 8 de outubro, chegou-se a 1 104 comerciais nas principais emissoras do país (...)”.

Ou seja, ao invés de gastar o dinheiro do contribuinte para melhorar a eficiência dos serviços, a opção federal é gastar em publicidade para fazer de conta que é eficiente um serviço em franca degradação. E como desgraça pouca é bobagem, o governo Lula ainda faz questão de deteriorar ainda mais a qualidade dos serviços da EBCT naquilo que estiver ao seu alcance fazê-lo. Neste sentido, a estatal teve seu orçamento de investimentos (execução de obras e compra de equipamentos) reduzido em 2011, em relação à 2010. De acordo com a proposta orçamentária da União encaminhada ao Congresso Nacional, a estatal responsável pela administração dos correios em todo o país terá R$ 500 milhões no ano que vem. O valor é 22% inferior ao previsto inicialmente para 2010, R$ 640 milhões. Os investimentos foram reduzidos em áreas consideradas fundamentais para o desempenho da empresa, como obras de adequação de infraestrutura de produção e distribuição e manutenção e aquisição de itens de informática, teleprocessamento, veículos, máquinas e equipamentos. Desde 2003, ou seja, desde que Lula chegou ao poder, no entanto, a ECT anda a passos lentos. Neste período, a estatal desembolsou R$ 1,9 bilhão de um montante previsto de R$ 4,3 bilhões, ou seja, 45% do total. Em 2000, 2001, e 2002, ou seja, governo Fernando Henrique, os investimentos da estatal foram acelerados. Do R$ 1,5 bilhão previsto nos três anos, em valores correntes, R$ 1,4 bilhão foi aplicado, 93% do total.

Para o secretário-geral da Federação Nacional dos Trabalhadores em Empresas de Correios e Telégrafos e Similares (FENTECT), José Rivaldo, a ECT está sofrendo um “desmonte” elevado de funcionários que prejudica os serviços prestados à população. Segundo ele, o governo mudou a diretoria da empresa, mas a política administrativa continua semelhante, sem novos investimentos. “Até agora, a empresa não contratou os 6,5 mil funcionários prometidos via concurso. Há muito tempo não se investe em novas tecnologias e não são oferecidos treinamentos aos servidores”, critica.

A segunda noticia surpreendente, e ruim também, é sobre a mudança de cadeiras na estatal. Lula cogita demitir David José de Matos, nomeado para os Correios em agosto. Foi à presidência da estatal por indicação da ex-ministra Erenice Guerra, recém defenestrada da Casa Civil. Junto com David, analisa-se a hipótese de mandar ao olho da rua o diretor comercial da empresa, Roberto Takahashi, também ligado a Erenice.

Então, sabendo da necessidade, por que diabos o governo ainda não fez a assepsia? É que Lula receia que a dança de cadeiras prejudique a candidatura de Dilma Rousseff. Ou dito de outro modo: para fazer a sucessora, Lula é capaz de quase tudo, menos de acomodar o interesse do contribuinte acima da conveniência eleitoral.

Assim, fica difícil entender que a campanha de Dilma tenha enveredado pelo caminho da comparação entre os governos FHC e Lula. O caso dos Correios, além da safra generosa de escândalos que ocorrem desde a chegada de Lula ao poder, o modo incompetente e irresponsável como as diferentes administrações que por ali passaram levaram a estatal à atual situação, bem que poderiam ser melhor exploradas pela oposição.

Se é para comparar, que se compare tudo logo de vez. Assim como se compare o Brasil que FHC recebeu em 1995, com o que ele entregou a Lula em 2003.

Como parece que a oposição ainda não despertou para tanto, a gente bem que poderia mandar uma carta aos eleitores relatando toda esta porcaria que está sendo cometida na EBCT. Mas, peraí: a ideia até que é boa, mas do jeito que o Correio anda, periga o eleitor receber a certa só depois do Natal, e aí já terá acontecido a eleição...

Portanto, se alguém tem esperanças de que o Correio volte à antiga forma,melhor sentar e esperar: assim como tantas outras questões, só depois das eleições. Que se dane o Brasil, para Lula o país é que menos importa. O importante é o poder!

Uma carta cínica, sem valor, sem compromisso e sem legitimidade

Adelson Elias Vasconcellos

Num país em que um palhaço recebe mais de 1,3 milhões de votos, é intrigante ver pessoas se indignando por conta do aborto ter se tornado um tema recorrente na campanha deste turno.

Como, também, chega a ser cômico ver gente vociferando “fundamentalismo” para algo que, conforme as pesquisas mesmo indicam, é reprovado por mais de 70% da população. Como, ainda, chega a ser canalhice alguns jornalistas, que defendem o governo, o Petê e Lula, apelarem para uma história de crimes da Igreja Católica, para tentarem abortar o tema do debate, como fez o senhor Alberto Dimes, jornalista empregado da TV Brasil, estatal portanto, e que parece não gostar que a sociedade debata um assunto de seu interesse, talvez porque este interesse se choque com o interesse da candidata e de seu partido. .

Para começo de conversa, é preciso deixar bem claro que, quem de fato trouxe o assunto para o centro do debate, foi o próprio PT e o Governo, como ainda a própria candidata quando, há cerca de três anos atrás, indagada sobre o tema, ter dado uma declaração favorável que agora, sob os holofotes da campanha, tentou negar, valendo-se do expediente cínico de que se tratava de intriga da oposição. Ora, Dilma esquece que não foi a oposição quem a indagou se ela era favorável ou não ao aborto, foi a imprensa. E se o fez é porque se sabe que este tema é sagrado para um país de maioria cristã, congregando-se aqui todas as religiões que se derivaram de uma mesma crença.

O tema é relevante? Mas claro que é, e deve ser debatido e discutido pela sociedade sim. E pela simples razão, não da campanha eleitoral, mas pelas tentativas do governo Lula de descriminalizar a prática. A Constituição brasileira já prevê dois casos específicos, aliás, a constituição atual, de 1988, apenas referendou uma lei que existe desde 1940. Serra, ao regulamentar os procedimentos destes dois casos na rede pública de saúde, quando Ministro da Saúde, nada mais fez do que cumprir a lei que existia antes mesmo dele nascer, garantindo assistência às mulheres mais pobres, principalmente, um atendimento legalmente previsto.

No caso de Dilma, governo Lula e Petê, a descriminalização é bandeira, é crença, é valor. Está inscrito no programa do partido, e o governo Lula, de forma furtiva, tentou incluí-lo no tal Programa de Direitos Humanos. Precisou recuar neste e em outros pontos polêmicos dada a reação negativa da sociedade., mas o mantém em seu programa, numa clara demonstração de que sua opinião conflita com a do povo brasileiro.

Assim, o debate se torna oportuno sim, para que fique claro ao sucessor ou sucessora de Lula que o país não aceitará mudar algo contra a qual a maioria se indispõem. Mas o grave não é isto, inadmissível é o oportunismo eleitoral de Dilma Rousseff de tentar iludir a opinião pública sobre sua real posição, que se moldou apenas por conta da campanha eleitoral.

Da mesma forma, sua conversão à fé católica. Para quem se conflitava sobre se Deus existia ou não - e isto está gravado -, o cheiro da demagogia fica escancaradamente exposta.

Claro que há mais temas igualmente importantes que estão sendo deixado de lado, além de outros que são sendo trazidos de forma vigarista e desinformada. O caso das privatizações então, é escandalosamente tendencioso, porque não se informa ao eleitor as vantagens que o programa deu para o país. Pode-se incluir na vigarice coisas do tipo “eles não tinham Bolsa Família”. De fato, o “bolsa família” que está aí, não, mas tinham uma rede de proteção social no qual se incluíam 12 programas bem fundamentados e dos quais o governo atual sequestrou quatro para reuni-los sob a bandeira do Bolsa Família. Dizer que FHC não fez programa social? É apelar para a vigarice e má fé.

Em seu programa eleitoral, Dilma insiste na tese do plebiscito entre Lula e FHC, quando nem um nem outro são candidatos. Bate na tecla errada, como errada é sua avaliação porque, honesto mesmo, seria se comparasse a situação do país que cada um encontrou. Como esconde que o país ainda está sob a clivagem do FMI, que não pagou dívida coisíssima nenhuma, que trocou de forma vigarista uma dívida barata por outra muito mais cara.

Há temas que precisam ser tratados com seriedade e estão sendo postos de lado? Sim, mas como se pode levar para um debate honesto temas importantes quando um dos lados, de forma canalha e vigarista, corrompe a própria história para reescrevê-la de forma tão cretina? Entre ser desonesto também e deixar o assunto para melhor oportunidade, escolhe-se o segundo caminho. Está errado, por certo, mas pelo menos é a maneira mais decente de poder competir contra quem não tem o menor escrúpulo. Para a turma do Pete, Dilma e Lula, desonra é perder eleição. E para evitar a derrota, para eles o “vale-tudo” vale tudo mesmo, ou seja, mentir, iludir, enganar, trapacear e, se possível, até mudar o povo.

Assim, dona Dilma pode assinar a carta aberta sobre o aborto que quiser, que isto não será impedimento para o governo, através da sua base, fazer o projeto avançar. Porque sendo de iniciativa legislativa, mesmo que Dilma o vete, o projeto transformado em lei, mesmo vetado, poderá ser aprovado independente da vontade do presidente. E, neste caso, a boa desculpa já estará desenhada. Como esta gente não é de confiança, e parte dos evangélicos “guiados” por Edir Macedo acompanharão o voto do pastor que já se disse favorável à descriminação, Dilma poderá assinar o que quiser, que seu “compromisso” jamais será verdadeiro, justamente porque não só ela já se disse favorável ao aborto, como ainda o projeto faz parte do programa do PT. Ou por que vocês acham que ela até agora não divulgou seu programa de governo, aquele em que assina e não apenas rubrica, ou aquele que só assina depois de ler?

Porque sempre é bom lembrar: o dossiê contra dona Ruth Cardoso, que era dossiê sim, a Casa Civil de Dilma disse tratar-se de “banco de dados”. O tal Programa de Direitos Humanos, o PNDH versão 3.0, apesar de haver participado da construção de seu texto, ela disse que “assinou sem ler”. O programa de governo que ela protocolou no TSE, onde rubricara todas as páginas, ela disse que a “rubrica não é assinatura” e que o fez sem ler. Ou seja, Dilma, Lula & Cia sempre sacam a versão de que, o que é, não é o que parece ser... Entenderam?

Haja tapete para tanta sujeira...

Adelson Elias Vasconcellos

O governo Lula, antes de encerrar este ano da graça de 2010, precisará fazer uma licitação para a compra urgente e inadiável de um tapete maior no gabinete presidencial, com o propósito de abrigar mais algumas “lambanças” cometidas sob sua administração. Sei não, mas periga faltar tapete suficiente para abrigar tanta porcaria e sujeira.

Ontem publicamos aqui a notícia de que a estatal venezuelana de petróleo, a PDVSA, apesar de todas as declarações, festas, solenidades e foguetes e rojões soltos por Hugo Chavez e Lula, não colocou um centavo sequer na parceira feita com a Petrobrás, para a construção da refinaria no Pernambuco.

Vimos, na semana passada, uma extensa reportagem da Revista Exame, sobre as razões para quatro bancos e agências internacionais, terem publicados relatórios negativos sobre a estatal Petrobrás, razão porque rebaixavam suas recomendações para investimento. Interessante é que os mesmos bancos participaram da mega operação de capitalização da Petrobrás e, somente após o fechamento das operações, é que divulgaram seus relatórios negativos. Não sei se a CVM – Comissão de Valores Mobiliários adotará alguma medida, mas fica claro que, a divulgação dos relatórios negativos sofreram alguma forma de pressão do governo federal para serem divulgados apenas a operação de capitalização ter se encerrado. O que vale dizer: os investidores foram enganados. Legal ou não, vale a discussão, mas eticamente trata-se de um deslize imperdoável.

Hoje, sustentado pela afirmação grotesca de Dilma no debate da Band, domingo passado, o presidente da estatal, vem a público dar uma declaração estúpida e que o faz merecer, inclusive, uma ação judicial. Disse José Gabrielli que (...) "Para o governo FHC, a Petrobras morreria por inanição. Os planos do governo do então presidente Fernando Henrique Cardoso eram para desmontar a Petrobras e vendê-la"(...).

Baseado em quê relatório ou documento Gabrielli tirou esta conclusão estúpida, o presidente da Petrobrás não demonstrou, não mostrou, não provou. Apenas fez uma afirmação leviana e deixou a bola pingando na risca do gol, para que a imprensa amestrada vá encher a paciência de José Serra, o candidato da oposição.

De um lado, a estupidez de Gabrielli tira de cima da companhia quatro notícias ruins, a dos relatórios negativos de rebaixamento terem sido divulgados, espertamente, apenas depois das operações de capitalização – o que é uma fraude grotesca, como se vê - , a do rebaixamento propriamente dito, o que é danoso para o conceito da empresa no mercado, a queda acentuada que se verifica nos últimos meses - perdas de 30% - nas ações da estatal e o calote do aprendiz de tirano, Hugo Chavez, comprometendo o cronograma de implantação da refinaria no Pernambuco, uma das promessas de campanha do Lula, ainda em 2006. Aliás um parênteses: na sua propaganda de campanha para reeleição, na tevê, Lula apresentava a refinaria como “obra pronta”. Foi Alckmin quem o desmascarou : apresentou o terreno vazio com uma placa onde se lia “futuras instalações”...

Assim, fica claro que, sempre que o governo Lula se ver confrontado com a incompetência de sua gestão, haverá um cretino de plantão pronto a espalhar a mentira para mudar o foco de atenção, ou se utilizará a máquina pública para conter qualquer investigação a respeito.

Exemplo disto é o caso Erenice com seu “bolsa família” muito particular, e o tráfico de influência praticado dentro da Casa Civil, ao tempo em que Dilma Rousseff era a ministra chefe. Quando a imprensa trouxe a público toda a lambança, o governo Lula se indignou. De um lado, Lula saiu a campo berrando contra a imprensa – como se a imprensa fosse a culpada dos crimes cometidos na antessala da presidência -, e a candidata Dilma saiu chutando as canelas de todo mundo dizendo que todo o noticiário não passava de um “factoide”. Do evento resultaram 6 demissões dentro do gabinete, inclusive a ministra. Dado que os fatos eram tão claros, o governo montou o circo: determinou a “apuração urgente” de investigações a cargo da Polícia Federal. E num cinismo esplendoroso, Lula e Dilma saíram dizendo com cara de pessoas sérias – e tem quem acredite, lógico -, que eles tinham o máximo de interesse e pressa das investigações e que elas deveriam acontecer antes das eleições do primeiro turno.

Depois, o que se viu foi a repetição exata do roteiro do evento de 2006 conhecido nacionalmente por “Aloprados”. Primeiro, a Polícia Federal não “encontrava” os filhos de Erenice para prestar depoimento. Foram marcados para depois de 03 de outubro. Depois, o empresário denunciante só foi ouvido, também depois das eleições. Anunciou-se perícia nos computadores da Erenice, mas até aqui eles permanecem lá no mesmo lugar em que se encontravam, não foram recolhidos. Nenhum documento foi apreendido para investigação. Mas faltava o toque final da embromação: como nesta semana se soube que o caso Erenice foi determinante para impor um segundo turno, imediatamente a Polícia Federal foi “usada” em favor de Dilma Rousseff, a candidata do Lula: disse, sem nenhum pejo, o delegado federal Roberval Vicalvi, responsável pela embromação (ops!), digo, pela investigação, que será preciso prorrogar o prazo, já que, pelos testemunhos colhidos, não foi possível chegar a nenhuma conclusão. Interessante é que o delegado só chamou os filhos da Erenice e o empresário denunciante. A Erenice até aqui sequer foi “convidada” a prestar esclarecimentos, como também, ainda não se viu no noticiário, cenas espetaculares de agentes vasculhando armários e gavetas de casas e repartições públicas, tão comuns em casos semelhantes, porém distantes dos gabinetes do Planalto. Tampouco há notícia de pedidos de busca e apreensão de documentos e computadores. Em suas últimas declarações, Dilma Rousseff informou que, eleita, cuidará para que o ‘Erenicegate’ seja levado às últimas consequências.

Pelo andar da carruagem, as “últimas consequências” parecem ser a do “...arquivamento do caso por falta de evidências que comprovem o cometimento de crimes..”, exatamente como ocorreu em 2006, com os Aloprados, apesar de se ter o tal dossiê fajuto, a mala com a “irrisória” quantia de 1,7 milhão de reais, apesar dela ter apreendida em poder de um petista, apesar das gravações da própria PF que levaram ao flagrante no interior de um hotel, etc., etc.,etc...

E se resultar o pleito resultar com a eleição de Dilma, fiquem certos de que o final já estava escrito na estrela.. do PT, o partido do governo organizado para o crime, ou milhões de crimes. Como queiram... O caso termina com o crime engavetado e sem criminosos punidos.

Assim, de embromação em embromação, o governo Lula vai empurrando mais dois casos imundos, dentre dezenas de outros tantos, para debaixo do tapete. Isto, em parte, explica o desespero de Lula em querer ganhar esta eleição nem que seja na marra. Teme que, ao sair, sendo seu sucessor sendo alguém da oposição, antes de assumir, resolva fazer uma limpeza para desinfetar a sala presidencial. Porque se o fizer, vai entupir o sistema de esgoto do Planalto para retirar tanta lama e tanta podridão lá armazenada desde 2003...

No governo Lula, quem sofre é sempre o pobre!

Adelson Elias Vasconcellos

Tem coisas neste Brasil que são de estarrecer, além de indignar a qualquer um. Vejam a notícia a seguir da Agência Estado. Comento em seguida:

Região sob seca no Piauí pode perder Bolsa-Família
Pelo menos 170 municípios do Piauí estão sofrendo os efeitos da estiagem, parte deles com perdas agrícolas superiores a 80% da safra e sem água para o abastecimento. O problema afeta mais de 135 mil famílias - muitas delas, ainda correm o risco de perder o Bolsa-Família, uma das poucas fontes de renda locais. O Ministério do Desenvolvimento Social deu prazo até 31 de outubro para que os beneficiados façam o recadastramento no Bolsa-Família, que atende 410 mil famílias no Estado. Dessas, 170.951 mil, que ainda não se recadastraram, podem ter o benefício bloqueado.

O secretário de Política Agrícola da Federação dos Trabalhadores em Agricultura do Piauí (Fetag), Paulo Carvalho, afirma que o semiárido passa por uma situação crítica de falta de água e comida. Na região de Picos, a safra teve queda de 60%. Municípios de Pio IX, Caridade do Piauí, Fronteira e São Raimundo Nonato enfrentam a falta de água. A principal fonte de renda local é o Bolsa-Família ou aposentadorias individuais.

A Fetag iniciou um cadastro para pedir cestas de alimentos para quem sofre com a seca. "Elas (as famílias) não têm perspectiva de receber nada. Somos contra a cesta básica, é um paliativo que não resolve o problema. Mas a situação é difícil", disse Carvalho. "Ainda temos outubro, novembro e dezembro para que a chuva possa vir." Segundo a Fetag, apenas 68 mil famílias - metade das afetadas pela seca - poderão receber o seguro-safra, cuja primeira parcela será paga a partir do dia 18. Pelo menos 30 municípios não vão receber a primeira parte do seguro-safra: boa parte dos prefeitos não pagou a contrapartida para o seguro, de R$ 6,50 por família.

***** COMENTANDO A NOTÍCIA:

Inúmeras foram as vezes em que me manifestei em tom de revolta e protesto por outra situação semelhante, só que em relação à verba destinada à merenda escolar. Vejam o absurdo da coisa: as prefeituras, responsáveis pelo cadastro, deixam de fazê-lo. Mas, contrariando o bom senso e a justiça, ao invés de se punir o irresponsável, punem-se os alunos. O governo federal corta a verba da merenda escolar até que a prefeitura regularize a prestação de contas. Agora, no caso presente, famílias já em situação miserável por conta da estiagem, estão ameaçadas de perderem seus benefícios por conta da falta de um cadastro que é da responsabilidade dos municípios. Ora, se a situação que as famílias é tão miserável, não faria nada mal que os prefeitos, ao invés de esperarem que as famílias fizessem o recadastramento, tomassem eles próprios a iniciativa de irem ao encontro das pessoas para atualizar os registros. De outro lado, a questão do seguro safra é ainda mais revoltante: Pelo menos 30 municípios não vão receber a primeira parte do seguro-safra: boa parte dos prefeitos não pagou a contrapartida para o seguro, de R$ 6,50 por família.

Por que não se pune os prefeitos, por exemplo, suspendendo o repasse dos recursos do Fundo de Participação? Por que seu salário não é bloqueado até que ele atenda e cumpra com sua obrigação? Por que, sempre que um político erra no cumprimento de seu dever, é o povo quem deva sofrer as consequências? E quem sofre são, inevitavelmente, os que mais precisam da assistência do Estado!!! Enquanto estas situações se repetirem, o Brasil tem que ficar proibido de falar em justiça social. Não é de hoje que se critica aqui no blog este comportamento imbecil e desumano de parte dos governantes.

O déficit externo força operações que o ampliam

O Estado de São Paulo

Na reunião do Fundo Monetário Internacional o ministro Guido Mantega, que minimizava o problema do déficit das transações correntes do balanço de pagamentos, não escondeu suas preocupações diante das perspectivas do seu aumento nos próximos anos. E diversos fatores contribuem para esse déficit: a queda das exportações brasileiras para os países industrializados e o aumento das importações de países com moeda desvalorizada; a taxa cambial do Brasil, fruto de um excesso de liquidez nos países industrializados, que dela se aproveitam; e uma taxa de juros muito alta no País, que estimula operações de arbitragem.

Nesse quadro, as empresas brasileiras e o Tesouro conseguem captar recursos no exterior com grande facilidade, aproveitando-se de que, com taxas de juros locais muito próximas de zero, os investidores estrangeiros estão aptos a oferecer créditos a uma taxa que seja razoável em relação às nossa taxas internas. Assim, entramos na situação paradoxal de um déficit em transações correntes - que está aumentando - e de um crescimento da dívida externa bruta na mesma proporção, já superando as nossas reservas internacionais, constituídas a um preço muito elevado, que o Banco Central (BC) procurou consolidar para enfrentar eventuais dificuldades na conta externa. Essa política, no entanto, aumenta o déficit público, o que nos obriga a captar recursos tanto no mercado interno quanto no externo, favorecendo um aumento das taxas de juros.

Na visão do BC, os países industrializados estarão em situação econômica difícil por um longo período, o que tão cedo não nos permitirá aumentar nossas exportações para eles. Ao contrário, verifica-se naqueles países um retorno ao protecionismo no setor agroindustrial. A China não mostra nenhuma vontade de favorecer uma valorização da sua moeda e outros países estão entrando nesta guerra cambial, como o Japão. Isso significa que as importações continuarão crescendo, causando um processo de desindustrialização em nosso país.

O governo tomou medida para conter os fluxos de capitais estrangeiros aumentando o IOF, por enquanto com pouco efeito. O resultado benéfico mais amplo seria a redução da nossa taxa de juros. Dificilmente escaparemos da necessidade de medidas protecionistas para conter a invasão de produtos chineses. E será necessário reduzir a contratação de dívidas no mercado externo para evitar um crescimento excessivo dos juros a pagar, diante da perspectiva de não mais conseguirmos esses empréstimos, por causa do nosso déficit externo.

A Mãe de todas as mentiras

Sebastião Nery

PARIS – Em dezembro de 1964, nove meses depois do golpe militar, o general De Gaulle, presidente da França, foi ao Brasil, cumprindo a visita programada desde o governo de João Goulart. O presidente já era o general golpista nomeado, Castelo Branco. Recepcionado no Congresso, De Gaulle quis conhecer o então líder do PTB na Câmara, deputado Doutel de Andrade :

- Deputado, na realidade aqui me encontro a convite do presidente João Goulart, chefe de seu partido. (E pediu a Doutel informações sobre a saúde de Jango e as condições de seu exílio no Uruguai).

De Gaulle
De Gaulle deixou o governo em abril de 1969. Morreu logo depois, em novembro de 1970, com 80 anos. Tinha nascido em novembro de 1890. Mesmo depois de 14 anos de François Mitterrand presidente, até hoje a França vive sobretudo entre as idéias e legados políticos dos dois.

Quando Mitterrand, do Partido Socialista, ganhou a presidência em 1981, derrotando Giscard d`Estaing, que tinha sido ministro das Finanças de De Gaulle, dizia-se que a “Era De Gaulle” tinha definitivamente passado.

Engano. Em 1985, seus discípulos da UPF (União Pela França) fizeram maioria na Assembléia Nacional e assumiram o governo com Jacques Chirac de primeiro ministro. Mitterrand reelegeu-se presidente em 88 e em 89 os socialistas ganharam a Assembléia Nacional e portanto também o governo.

Saiu Mitterrand depois do segundo mandato,quem ganhou a presidência foi Chirac e quem ganhou o governo também foram os herdeiros de De Gaulle

Liberalismo E Comunismo
De Gaulle deixou uma pequena Bíblia politica (“Doctrine Politique”, Ed. Du Rocheur, 1948). Já fora do primeiro governo (1944 a 46), ele dizia:

1. “O que se fez economicamente no mundo foi um sistema que se

chamava liberalismo e grandes coisas foram feitas, é evidente. Mas também é evidente que o liberalismo, tal como era visto ontem, tornou-se uma coisa inconcebível, insuportável para o mundo e especialmente para a França hoje. O velho liberalismo não é o caminho economico e social para a França”.

2. – “Nem o velho liberalismo nem o comunismo esmagador. Deve ser outra coisa. Há uma terceira solução : a participação, que muda a condição do homem. A questão social tem que ser colocada em primeiro lugar”.

Esquerda e Direita
3. – “A esquerda me abandonou no dia seguinte da libertação, depois da derrota nazista, porque ela é contra o Estado. A direita me abandonou logo depois porque ela é contra o povo. Na direita, diz-se que faço uma política de esquerda. Na esquerda, diz-se que estou aqui para a direita, para os monopólios. O fato de uns e outros dizerem que pertenço ao outro lado prova precisamente que não sou de um lado nem do outro. Sou pela França” (1953).

4. – “Um dia, a Europa toda inteira se reencontrará na liberdade. Nós nos reencontraremos com os paises do Leste à medida que eles saiam de suas esmagadoras dominações. Veremos a esperança renascer do Atlântico aos Urais” (1950). Os povos têm direito de disporem inteiramente de si. Não para enriquecer oligarquias internas e externas, mas para libertar o homem” (1964)

40 anos depois, em 1990, consumou-se a profecia de De Gaulle.

Lula
As nações são construídas pelos grandes homens que sabem lidera-las. E isso só se consegue pela verdade. A mentira não faz a Historia. O PT e o governo Lula despejaram sobre a Europa, nas ultimas semanas, um tsunami de mentiras, através de revistas e cadernos especiais de jornais, para dizer que “Lula tem o apoio de mais de 80% do povo brasileiro”.

O “Le Monde”, o mais importante e respeitado jornal da França, chegou a publicar uma matéria “especial” afirmando que “apenas 4% não apóiam o governo Lula”. “Le Fígaro”, o maior jornal do pais, um Globão, escreveu coisas parecidas. Explica-se. O “Fígaro”, dono também da revista “Express”, pertence a Jorge Dassault, um dos três maiores empresários franceses, que fabrica os aviões Air-Bus e os Raffale, que a França quer vender ao Brasil.

Fraude
Políticos e jornalistas leram. Para eles, Dilma já estava eleita. E veio a grande surpresa : Dilma só tinha 46,9%. Logo, Lula, seu governo e sua candidata tinham menos da metade do apoio da população. Não podiam ter de 78% a 96% de apoio. Era tudo uma grande fraude.A mãe de todas as mentiras.

Na “Folha” (“Erros Sobre Erros”), o Mauro Paulino, diretor do “Data-folha”,a mais respeitada das pesquisas, rebola para tentar denunciar as fraudes:

- “Aos erros de resultados das pesquisas, somaram-se outros... Especialistas se embananaram...E isso amplificou o clima de erro generalizado das pesquisas... Um instituto (o Vox Populi) transformou seus números e analises em ferramentas de campanha... Outros (Ibope) escamoteiam erros com contas enganosas...O prestigio das pesquisas saiu arranhado”.

Faltou dizer quantos milhões os “fraudulentos” receberem pelas fraudes.

A PDVSA e a fantasia petista

O Estado de São Paulo

Nem sequer um centavo foi investido até agora pela estatal venezuelana PDVSA na construção da Refinaria Abreu e Lima, em Pernambuco. A obra é tocada só com recursos da Petrobrás, embora tenha sido planejada e anunciada como empreendimento conjunto. A pedra fundamental foi lançada em dezembro de 2005 pelos presidentes Luiz Inácio Lula da Silva e Hugo Chávez. Esse projeto seria a primeira grande realização da Aliança Estratégica formalizada em fevereiro daquele ano, em Caracas, com a presença da ministra de Minas e Energia do Brasil, Dilma Rousseff. Passados cinco anos, o balanço de realizações conjuntas é irrisório. A PDVSA deveria custear 40% da refinaria. Sem cumprir sua parte, pode ser forçada a renunciar ao projeto. Outras tentativas de cooperação também fracassaram. Uma delas, já abandonada, foi o plano de atuação da Petrobrás na área petrolífera do Orinoco.

A Aliança Estratégica formalizada pelos presidentes Chávez e Lula foi uma tentativa de combinar duas bandeiras do atraso - o bolivarianismo do caudilho venezuelano e o terceiro-mundismo requentado da diplomacia petista. Nada útil poderia resultar desse acasalamento.

Atribuir a expansão do comércio bilateral a essa iniciativa é um disparate evidente. O intercâmbio do Brasil com toda a América do Sul cresceu nos últimos dez anos, como consequência da prosperidade regional e de um esforço de integração intensificado a partir dos anos 90. Empresas brasileiras já tinham interesses na Venezuela bem antes da aproximação Chávez-Lula.

A "aliança" formalizada em 2005 e reafirmada em 2009 apenas acrescentou ingredientes ideológicos à cooperação bilateral. Foi mais uma aposta errada do presidente Lula - uma entre várias escolhas estratégicas baseadas na fantasia e não no cálculo de interesses concretos.

A ampliação do comércio bilateral foi muito mais acidentada do que teria sido, certamente, se a Venezuela estivesse sob um governo democrático, sem delírios expansionistas e livre da retórica anticapitalista. Atrasos de pagamentos foram um problema frequente para exportadores brasileiros, assim como a discriminação cambial a favor de produtores de outros países.

O governo petista não só aceitou essas distorções, como ainda se esforçou para incluir no Mercosul a Venezuela do presidente Chávez. A inclusão ainda não se consumou porque não foi aprovada pelo Congresso paraguaio. Se for consumada, o bloco regional, já emperrado e com enormes dificuldades para negociar com grandes parceiros como União Europeia e Estados Unidos, ainda passará a depender dos humores e das ambições de um caudilho fanfarrão.

Esse caudilho, é bom não esquecer, não tem prazo para deixar o governo de seu país nem está sujeito a limitações de tipo democrático. A diplomacia petista notabilizou-se pela frequência de suas apostas erradas. Ao enterrar a Alca, deixou espaço para uma série de acordos bilaterais dos Estados Unidos com outros países latino-americanos. Além disso, jogou fora a chance de negociar condições preferenciais de acesso a vários mercados antes da grande invasão chinesa.

Produtores brasileiros têm perdido competitividade tanto nos Estados Unidos como na América Latina. Se o Mercosul quiser iniciar um novo entendimento com Washington, terá de negociar levando em conta regras de investimento e de propriedade intelectual já acertadas naqueles acordos.

A diplomacia petista errou também - por esquecer os interesses nacionais - ao eleger a maioria dos "parceiros estratégicos". Estados Unidos e Europa continuam sendo muito mais importantes que o Brasil para russos e chineses. Nenhum desses parceiros se afastou de seus interesses para favorecer o comércio com o Brasil. Ao contrário: as conveniências brasileiras foram preteridas, quase sempre (como, por exemplo, na atribuição, pelo governo russo, de cotas para exportadores de carne). Os africanos nunca deixaram de se aliar aos europeus nas questões comerciais. Se a coerência no erro é uma virtude, então a diplomacia petista tem pelo menos essa qualidade. A aliança com Hugo Chávez comprova esse fato.

Entre uns e outros

Roberto da Matta - O Estado de São Paulo

Se um processo eleitoral democrático não conduzir a alguma crise, é sinal de que essa tão execrada democracia liberal - baseada na disputa, legitimada por normas, arbitrada pelos tribunais, e conduzida pelo bom senso dos eleitores -, vai mal. Só não há crise quando o poder político é indisputável (como quer Lula e asseclas) e quando o futuro das eleições é não apenas previsto, mas (como ocorreu com no primeiro turno) tem um caráter plebiscitário (que os radicais tanto amam) e são favas contadas! Para muitos, hoje caindo de maduros de obsolescência mental e ideológica, o ideal seria haver eleições para porteiro de prédio, fiscal de bairro, bordel e biblioteca escolar, jamais para cargos da alta administração pública, vocacionada para ser o corretor moral do mundo. Se o processo espelhar o final da tal "luta de classes", que foi teorizada antes da internet e da globalização e de uma China comunista-capitalista jamais prevista pela teoria do despotismo oriental, tanto melhor. Nesse caso, calaríamos a mídia e, esquecidos de burgueses reacionários como Thomas Jefferson, que preferia jornais sem governo a um governo sem jornais, realizaríamos o sonho arcaico de chegar a uma sociedade "resolvida". Ou seja: a um corpo social cadavérico e pútrido: sem problemas ou movimento. Morto e enterrado como o Brás Cubas que eu, jovem, aprendi com os meus professores de esquerda, ser um personagem de um autor reacionário que seguia algum, vejam o erro crasso, modelito europeu. Como se a nossa esquerda tivesse sido capaz de inventar alguma teoria que fosse além da inacreditável dialética entre infra e superestrutura. Ai, que preguiça...

* * *

Eleição é dúvida, aposta, crise. Dá pena ver o comissariado petista convocando aliados que se odeiam para agradar ao dono da bola porque ele meteu na cabeça que não pode perder. Do mesmo modo, dá pena ver a inflação do PV por meio da performance de Marina Silva que, sozinha, fez mais em alguns meses do que o partido em décadas. Tudo para esconder um Lula feito de guerra e ódio e uma dimensão que, na minha humilde cabeça, também explica os votos dados a Marina: o protesto do eleitor que não queria votar em Dilma e não podia votar em Serra porque ele se afogava no seu próprio racionalismo e falava melhor e mais de Lula do que de FHC, cujo governo promoveu a entrada no Brasil neste mundo indigno de competição, mercado, telefonia para todos, internet, venda de bancos estatais podres, crédito farto porque a moeda é - depois de décadas - estável e forte, disciplina fiscal, reformulação da Previdência, bolsas para os carentes e, acima de tudo, um governo no qual o presidente tinha noção de limites. Sabia o significado profundo do cargo que ocupava e o honrava com todas as letras. Procurava, mesmo na esfera escorregadia da política, manter distância, embora fosse alvo de agressões incivilizadas da oposição petista. Um presidente que, mesmo diante de um movimento como o "fora FHC", e a dessacralização de um de seus lares, invadido pelo MST, jamais desejou o fim dos seus oponentes ou externou (como o democrático Brizola) o desejo de fuzilar algum adversário. Tal como os jornais com os quais colaboro, jamais deram qualquer palpite sobre o que escrevo. Esse é o legado de liberdade e equanimidade de FHC que não tem nenhum exemplo no autoritarismo petista e que deve ser revelado por Serra com todas as letras. A estigmatizada e hoje oportunisticamente esquecida "herança maldita" que, como disse Alberto Goldman na base do doa a quem doer, permeia todo o governo Lula, um governo que ficou tanto melhor quanto mais aprofundou essa maldição liberal.

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Todo mundo sabe que inteligência, burrice, ignorância, desonestidade ou intolerância não são suficientes. O mundo é mundo justamente porque os mais talentosos (que tem mais competência e história política) podem ser vencidos pelos Tommys: os bonecos do grande Gabo. Aquele ventríloquo genial (mas um tanto louco) da história de Ben Hetch. É preciso transformar qualidades (ou defeitos) em narrativas: em dramas que liguem o candidato ao papel que ele desempenha em cada fase do momento eleitoral. Eleger alguém é entrar de cabeça no fetichismo. É preciso passar de pessoa a ídolo. Agora, ninguém pode ser o ídolo da chuva num país que acabou de viver um dilúvio; nem ídolo da castidade no país do carnaval; nem ídolo do estatismo num país obviamente cansado de tanta promessa estatizante, e de tanto órgão oficial que tudo faz pelos seus filhos e partidários e nada realiza para cidadãos.

Se você, entretanto, inventa um ídolo que fale de eficiência administrativa, que denuncie o ??familismo deslavado de um governo que se diz ideológico e que assim é na sua visão estratégica da vida e do mundo, um governo compadre de déspotas e caudilhos, então você pode conseguir uma multidão de velas, e votos.

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Uma ponderação final. Se dona Marina e a cúpula do PV (ou seria um novo comissariado?) pensa que deve tirar o corpo fora, sugiro que ela leia o que o Lula disse sobre o bagre (isso mesmo, o peixe!) como um obstáculo para um gigantesco projeto de construção de hidroelétricas caríssimas e destrutivas da natureza no Brasil, nos mais belos moldes stalinistas. Entrementes, Mario Vargas Llosa recebe - e já era tempo - um Nobel que muito me deixa feliz, enquanto nós ficamos discutindo se é bom ou ruim ter uma, duas ou quatro caras para ganhar votos.

Os falsários

Demétrio Magnoli (*)- O Estado de São Paulo

Carlos Augusto Montenegro, o presidente do Ibope, profetizou há muitos meses uma vitória folgada de José Serra no primeiro turno. A campanha não havia começado e o Ibope não tinha pesquisas relevantes. O Oráculo falou para bajular aquele que, presumia sua sabedoria política, seria o próximo presidente. Mais tarde, durante a campanha, de posse de inúmeras pesquisas, o Oráculo asseverou com a mesma convicção que Dilma Rousseff venceria no primeiro turno. A bajulação aos poderosos de turno obedece a uma lógica inflexível. Na mesma entrevista, ele sugeriu que a oposição atentava contra a democracia ao repercutir os escândalos no governo. Cada um fala o que quer, nos limites da lei, mas o Oráculo de araque não se limita a isso: ele vende um produto falsificado.

Pesquisas de opinião declaram uma margem de erro e um intervalo de confiança. A margem de erro expressa a variação admissível em relação aos resultados divulgados. O intervalo de confiança expressa a confiabilidade da pesquisa - ou seja, a probabilidade de que ela fique dentro da margem de erro. Na noite de 3 de outubro, o Ibope divulgou as pesquisas de boca de urna para a eleição nacional e para 16 Estados, registradas com margem de erro de 2% e intervalo de confiança de 99%. Das 17 pesquisas, 12 ficaram fora da margem de erro. O intervalo de confiança real é inferior a 30%. Um cenário similar, catastrófico, emerge das pesquisas para o Senado. Há tanta diferença assim entre isso e vender automóveis com defeitos nos freios?

O Ibope não está só. Datafolha, Sensus e Vox Populi não fizeram pesquisas de boca de urna, mas suas pesquisas imediatamente anteriores também não resistem ao cotejo com as apurações. Todos os grandes institutos brasileiros cometem um mesmo erro metodológico, bem conhecido pelos especialistas. Eles usam o sistema de amostragem por cotas, que tenta produzir uma miniatura do universo pesquisado. A amostra é montada com base em variáveis como sexo, idade, escolaridade e renda. Isso significa que a escolha dos indivíduos da amostra não é aleatória, oscilando ao sabor de variáveis arbitrárias e contrariando os princípios teóricos da amostragem estatística.

O Gallup aprendeu a lição depois de errar na previsão de triunfo de Thomas Dewey nas eleições americanas de 1948. Venceu Harry Truman e o instituto mudou sua metodologia, adotando um plano de amostragem probabilística, que gera amostras aleatórias. Quase meio século depois, os institutos britânicos finalmente renunciaram à amostragem por cotas. O copo entornou em 1992, quando as pesquisas baseadas na metodologia furada previram a vitória trabalhista, mas triunfou o conservador John Major. Na sequência, uma equipe de especialistas identificou o problema e apresentou a solução. Os institutos brasileiros conhecem toda essa história. Não mudam porque a metodologia atual é mais prática e barata. Vendem gato por lebre.

A amostragem por cotas não permite calcular a margem de erro. Os institutos "resolvem" a dificuldade chutando uma margem de erro, que exibem como fruto de cálculo rigoroso. Como as eleições brasileiras costumam ter nítidos favoritos, eles iludem deliberadamente a opinião pública, cantando acertos onde existem, sobretudo, equívocos. Não é um fenômeno novo. Jorge de Souza, no seu Pesquisa Eleitoral: Críticas e Técnicas (Editora do Senado, 1990), já registrava que 16 das 23 pesquisas Ibope referentes às eleições estaduais de 1986 se situaram fora da margem de erro - o mesmo desastroso intervalo de confiança, em torno de 30%, verificado neste 3 de outubro.

Nem todos os institutos são iguais. O Datafolha conserva notável isenção partidária, embora também utilize o indefensável sistema de amostragem por cotas. O Oráculo do Ibope anda ao redor dos poderosos, sem discriminar partidos ou candidatos, farejando oportunidades em todos os lados. Marcos Coimbra, seu congênere do Vox Populi, pratica uma subserviência mais intensa, porém serve apenas a um senhor. Durante toda a campanha, o Militante assinou panfletos políticos governistas fantasiados como análises técnicas de tendências eleitorais. Dia após dia, sem descanso, sugeriu a inevitabilidade do triunfo da candidata palaciana no primeiro turno. Sua pesquisa da véspera do primeiro turno, publicada com fanfarra por uma legião de blogueiros chapa-branca, cravou 53,4% dos votos válidos para Dilma Rousseff. Errou em 6,5 pontos porcentuais, quase três vezes a margem de erro proclamada, de 2,2%.

Pesquisas, obviamente, não decidem eleições. Mas elas têm um impacto que não é desprezível. Sob a influência dos humores cambiantes do eleitorado, supostamente captados com precisão decimal pelas pesquisas, consolidam-se ou se dissolvem alianças estaduais, aumentam ou diminuem as doações de campanha, emergem ou desaparecem argumentos utilizados na propaganda eleitoral, modifica-se a percepção pública sobre os candidatos. Os institutos comercializam um produto rotulado como informação. Se fosse leite, intoxicaria os consumidores. Sendo o que é, envenena a democracia.

Beto Richa, o governador eleito em primeiro turno no Paraná, obteve da Justiça Eleitoral a proibição da divulgação de pesquisas eleitorais que não o favoreciam. A censura é intolerável, principalmente quando solicitada por alguém que se comprazia em dar publicidade a pesquisas anteriores, nas quais figurava à frente. Ele poderia ter usado o horário eleitoral para expor a incúria metodológica dos institutos e o lamentável papel desempenhado por alguns de seus responsáveis, como o Oráculo e o Militante. A opinião pública, ludibriada a cada eleição, encontra-se no limiar da saturação. Mais um pouco, aplaudirá o gesto oportunista de Richa e clamará pela censura. Que tal os institutos agirem antes disso, mesmo se tão depois do Gallup?

Ah, por sinal, qual é mesmo a taxa de aprovação do governo Lula?

(*) Sociólogo, é Doutor em Geografia Humana pela USP.

Saiba como Dilma Roussef ajudou a privatizar a CRT no RS.

Políbio Braga


Bem ao contrário do que trombeteiam seus programas eleitorais na TV, a candidata do PT a presidente, Dilma Roussef, trabalhou durante toda a sua primeira administração como secretária gaúcha das Minas e Energia (1.12.1993 A 2.1.1995) no governo do PDT, para privatizar a CRT, a Companhia Riograndense de Telecomunicações. Quando saiu do governo, foi contratada pela RBS para ajudar a conceber a aliança com a Telefônica de Espanha para privatizar a CRT.

Durante o governo do PDT, que foi de 1991 a 1994, a mando de Dilma Roussef, seu então subordinado, o presidente da CRT, Milton Zuanazzi, homem que ela levaria no governo Lula para a Anac, fez várias viagens a Santiago para afivelar o negócio com a CTC, a Companhia Telefônica do Chile, então controlada pela Telefônica de Espanha.

O negócio não saiu.

É que o governador Alceu Collares, também do PDT, como Dilma Roussef, já tinha assinado um protocolo intenções com a Stet, na época a estatal telefônica da Itália, mais tarde privatizada e transformada em TIM. O governo chegou a iniciar negociações com a RBS para interessá-la a se associar à Stet e assumir a CRT, mas o presidente Nelson Sirotsky tinha outros planos e disse ao interlocutor que o procurou, logo após farto almoço que ambos mantiveram na própria sede do grupo gaúcho (o interlocutor tinha acabado de regressar de Havana, onde verificou de que modo a Stet passara a operar uma fração dos serviços telefônicos locais, por concessão do governo comunista de Fidel Castro):

- Se for para comprar a CRT, eu compro sozinho e não preciso dos italianos.

Ao bater de frente com o próprio governador Alceu Collares, Dilma Roussef e o presidente da CRT pagaram caro pela ousadia. Zuanazzi foi demitido com desonra da CRT.

O negócio que o governo pensava tocar com a Stet, era complicado, envolvia emissão de debêntures conversíveis em ações e acordo de acionistas, porque a Lei de Privatizações ainda não tinha sido editada, o que só aconteceu no governo FHC.

Terminado o governo, Dilma Roussef, de posse de toda a memória das negociações com a Telefônica de Espanha, via CTC, mais informações privilegiadas sobre a CRT, foi trabalhar para a RBS, a convite do então diretor Jurídico, Afonso Motta (Deputado Federal eleito pelo PDT em 2010). Motta, brilhante advogado, era do PDT como Dilma Roussef. Nem uma só vírgula de qualquer contrato ou acordo da RBS saía do grupo sem o seu aval.

A ex-secretária de Minas e Energia foi ajudar na área de Projetos Especiais da RBS. Um deles, o mais ambicioso e brilhante, foi o que levou ao acordo com a Telefônica de Espanha. Nelsinho, o dono da RBS, e Juan Villalonga, no dia 16 de dezembro de 1996, dois anos depois do final do governo do PDT, venceram o leilão de privatização da CRT. Na data da privatização da CRT, a composição acionária da Telefônica do Brasil era: Telefônica Internacional, 30%; RBS, 30%; e o restante das ações dividido entre a Portugal Telecom, 23%; a Iberdrola (empresa de energia espanhola), 7%; e o Banco Bilbao Vizcaya, 7%.

O País real e a candidata

José Israel Vargas (*) - O Estado de São Paulo

Externei recentemente, neste espaço, preocupações sobre a ciência e a tecnologia brasileiras, a meu ver, obstáculo maior ao desenvolvimento econômico e social almejado para o nosso país. Verifico agora que perplexidade de índole ainda mais ampla vem de ser retratada, em manchete de primeira página, por um de nossos grandes jornais diários, ao questionar: Quem vai administrar o País real?

Estou convencido de que, a despeito do inegável progresso econômico e social ocorrido em continuação ao trabalho realizado pelas administrações passadas, o angustiante grito de alarme reflete a insegurança quase generalizada no País sobre a qualidade da liderança atual e da que pode emergir do segundo turno do pleito eleitoral. De um lado, acabamos de assistir, no primeiro turno, ao desempenho tíbio da oposição, talvez devido à influência oportunista de marqueteiros, deixando de oferecer, na ocasião, soluções para os graves e abrangentes problemas do País real. De outro lado, a possível reassunção do poder de vasta aliança articulada entre opções políticas díspares, sob o guante do chefe inconteste tanto do partido "social-nacionalista" quanto da antiga súcia, sempre ávida em aderir ao eventual poder do dia.

A força do líder da aliança afirmou-se paulatinamente pela prática de contrafações sistemáticas de fatos bem sabidos de nossa História recente. Transmudadas em "herança maldita", elas são ostentadas como sólidas verdades para engodo de suas audiências, mobilizadas a um só tempo em despeito e autolouvação ostensiva. Nessa trajetória, vem posando de autor exclusivo de grandiosas obras e iniciativas políticas, executadas ou em curso de execução, "jamais dantes" testemunhadas pela humanidade embasbacada, em ilustração eloquente do desprezo que o líder vota ao saber e à verdade. Infeliz e antiga atitude, genialmente retratada pelo Bardo: "O prêmio com que mais se alevanta o engenho, não o dá a Pátria, não, que está entregue ao gosto da cobiça..."

A candidata escolhida exclusivamente pelo líder da aliança, a então poderosa ministra da Casa Civil, levou a Copenhague (COP 15) a proposta brasileira sobre medidas destinadas a mitigar o clima, usurpando desta feita, no grande encontro, as atribuições da ministra Marina Silva, de fato a responsável pela área... É fácil imaginar as razões que levaram o presidente da Republica à inusitada preterição: as eleições! O propósito era expor a candidata em fórum internacional, armada de batuta de comando erguida discricionariamente até mesmo por sobre os profissionais da área e do próprio Itamaraty.

O Brasil renunciou ao privilegio conferido pelo Tratado do Rio (1992) a ele e a outros países em desenvolvimento, que consistia na isenção de reduzir suas emissões de gases causadores do efeito estufa, por terem iniciado tardiamente sua industrialização, geradora das referidas agressões ambientais.

Tanto a China como a Índia, à vista de suas contribuições importantes para o efeito estufa e submetidas a fortes pressões internacionais, comprometeram-se a reduzir em 30% suas emissões poluentes até o ano de 2020 e vincularam as reduções paulatinas a frações bem definidas de seu produto interno bruto (PIB) anual.

Já o Brasil adotou meta de reduzir as suas emissões, até aquele ano, em cerca de 39%, sem, contudo, especificar, até agora, o ritmo anual e as práticas necessárias à promoção das reduções anunciadas. O País comprometeu-se também a observar a meta (parcial) de reduzir em 80% o desmatamento, em relação ao ano de 2005. Tal fração, somada à da agropecuária, constitui 58% do total das nossas emissões, mas nosso governo igualmente deixou de apontar os valores anuais das ações indispensáveis ao cumprimento dessas obrigações.

É, pois, duvidoso que esses compromissos sejam cumpridos, tanto mais que o seu cumprimento envolverá profunda reestruturação do sistema agropecuário nacional, bem como intenso reflorestamento compensatório do desmatamento decorrente tanto da expansão da infraestrutura na região amazônica (usinas hidrelétricas, linhas de transmissão e estradas) quanto das demandas de madeira para a construção civil e outras obras pelo País afora. De fato, a correlação entre o aumento do PIB nacional e o desmatamento é hoje bem conhecida, e o "sucesso" alardeado para sua redução seria, pois, devido antes à recente crise econômica do que às medidas adotadas pelo governo.

Da mesma lavra surgiria projeto de lei sobre direitos humanos, enviado ao Congresso Nacional "sem ler", justificou-se a atual candidata oficial. Diante dos protestos da opinião pública em defesa das liberdades democráticas, esse projeto foi retirado. Entretanto, renasceu das cinzas, reapareceu no programa para o futuro governo petista e teve - talvez provisoriamente - o mesmo destino da iniciativa anterior, também lançado no limbo por falta de leitura... Hábito que parece ser a marca deste governo.

Registre-se que o mesmo governo do qual se tornou figura central a digna candidata se alinha também com um acordo sobre direitos humanos estabelecido entre o Brasil... Cuba e China! A tanto vai o nosso amor pela justiça. Vamos, assim, manter relações mais do que amistosas com governos apontados pela comunidade internacional como criminosos.

Finalmente, o apoio dado à candidatura de um assumido queimador de livros ao alto cargo de diretor da Unesco, organização das Nações Unidas dedicada à promoção da educação, da cultura, da ciência, da informação e da comunicação, bem ilustra que essas atividades são cada vez mais estranhas ao atual governo brasileiro.

(*) Ph.D. pela Universidade de Cambridge, Professor Emérito da Universidade Federal de Minas Gerais e do Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas, foi Ministro Da Ciência e Tecnologia

Ídolos do PT são tão cínicos e corruptos quanto coronéis do NE, diz repórter alemão

Folha de São Paulo
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Correspondente alemão elege o pior e o melhor do Brasil recente

 
O que diz um jornalista alemão sobre os recentes avanços da economia brasileira e os escândalos políticos? O correspondente Alexander Busch, radicado no país há quase duas décadas, tenta responder no livro "Brasil, País do Presente - O Poder Econômico do Gigante Verde", lançamento da editora Cultrix.

Ele escreve para veículos como "WirtschaftsWoche" (Semana Econômica), "Handelsblatt (Jornal do Comércio) e a revista suíça "Finanz und Wirtschaft" (Finanças e Economia). O repórter foi criado na Venezuela, formou-se em jornalismo em Colônia (Alemanha) e estudou economia e política em Colônia e Buenos Aires. Vive e trabalha em São Paulo e Salvador.

Em sua obra, ele conta que o Brasil ainda é refém dos estereótipos como "futebol, samba, carnaval e praia, de uma sociedade profundamente injusta, marcada pela corrupção e pela violência bárbara". Isso fez, na análise do jornalista, que "a ascensão do Brasil à condição de potencial mundial" fosse ignorada, quase sem repercussão na Alemanha.

"O país já fracassou anteriormente em suas tentativas de ascensão, e depois disso deixamos de nos interessar por ele. Não é a primeira vez que o Brasil tenta 'decolar' rumo à condição de potência econômica mundial. Nos anos 70, o país vivia numa situação parecida com a da China de hoje", escreve Busch.

Ao retratar as últimas transformações do Brasil, o correspondente cita detalhes do cotidiano. "Quando quero dar a um visitante uma ideia do boom econômico brasileiro dos últimos anos, levo-os de metrô até a Zona Leste de São Paulo. Em 10 anos, essa região da metrópole de 12 milhões de habitantes viveu uma ascensão surpreendente. Ainda em meados dos anos 90, a Zona Leste parecia não ter futuro", narra na página 27.

Ele também descreve os efeitos do crescimento do mercado interno ("Os shopping centers cada vez mais numerosos e geralmente abarrotados da antiga periferia") e das mudanças na paisagem urbana ("As igrejas católicas desapareceram. Os evangélicos dominam totalmente a Zona Leste. Seus templos parecem com versões da Acrópole nos parques de Walt Disney").

Os capítulos mais contundentes avaliam o desencanto da classe média com os escândalos de corrupção que atingiram o governo do presidente Lula. "Para a grande maioria dos brasileiros, os políticos são invariavelmente corruptos, os partidos são organizações mafiosas e Brasília é um antro de devassidão", compara Busch.

O correspondente relembra os casos de corrupção mais ruidosos e como o governo Lula se comportou nesses episódios. "As diferenças de renda, o baixo nível educacional da maioria e a pobreza ainda arraigada tornam o Brasil um alvo fácil de políticos demagogos", observa o jornalista.

Ele escreve que "todos ficaram muito decepcionados ao perceber que os ídolos da esquerda brasileira eram tão cínicos, tão corruptos e tão sedentos de poder quanto os velhos 'coronéis' do Nordeste ou os 'dinossauros' da política, como o paulista Paulo Maluf".

Leia trecho de "Brasil, País do Presente - O Poder Econômico do Gigante Verde". *

Um desastre no Partido dos Trabalhadores: seus líderes não são muito diferentes dos outros "caciques"

Hoje em dia, a classe média costuma zombar do português "errado" do presidente, costuma rir de suas metáforas desajeitadas e sem graça, de suas "gafes" desastradas em discursos oficiais ("Quem chega a Windhoek não parece que está num país africano, tudo aqui é tão limpo e ordeiro"). Outros reclamam do famoso escândalo do "Mensalão", o esquema de pagamento de propinas patrocinado pelo PT (Partido dos Trabalhadores). Deputados oposicionistas recebiam uma "mesada" para votarem a favor do governo em decisões importantes. Era um verdadeiro salário "por baixo do pano". A maioria dos "companheiros" de Lula na liderança política (inclusiva o poderoso José Dirceu, ex-militante esquerdista, ex-deputado e ex-chefe da Casa Civil) foram envolvidos no escândalo e tiveram que renunciar.

Para Lula e "seus companheiros", o prejuízo político desse esquema de corrupção foi enorme. Afinal, o PT e seus líderes não representavam só os sindicatos e classe trabalhadora. A classe média e os funcionários públicos também votaram no PT, pois encarnavam um Brasil novo e democrático que já não tinha nada a ver com os antigos clãs políticos. Por isso, todos ficaram muito decepcionados ao perceber que os "ídolos da esquerda" brasileira eram tão cínicos, tão corruptos e tão sedentos de poder quanto os velhos "coronéis" do Nordeste ou os "dinossauros" da política, como o paulista Paulo Maluf.

José Dirceu, o homem que organizou a vitória de Lula em 2002, é uma figura emblemática. Tinha uma reputação lendária entre os intelectuais brasileiros. Segundo ele conta aos amigos íntimos sobre seu aprendizado político, seu lema na juventude era "matar ou morrer". À primeira vista, isso pode parecer um exagero. Hoje, Dirceu é um senhor de 64 anos, meio calvo, que usa óculos dourados e ternos elegantes. Mas, em 1968, o líder estudantil foi preso pelos militares. Saiu da prisão junto com outros esquerdistas, em troca da liberdade do embaixador norte-americano sequestrado. No exílio em Cuba, recebeu treinamento de guerrilha para a futura revolução brasileira. Depois de uma operação plástica no rosto feita por cirurgiões chineses, voltou secretamente ao Brasil com outros 28 "companheiros". Só oito deles sobreviveram ao primeiro ano da "Operação Primavera". Dirceu usava a identidade falsa de Carlos Henrique de Mello, comerciante de tecidos no interior do país. Casou-se e teve um filho. No dia da anistia política, em agosto de 1979, sua família soube tudo sobre sua identidade verdadeira. Dirceu voltou para Cuba e desfez a operação plástica. De novo no Brasil, começou sua segunda carreira política no Partido dos Trabalhadores, o PT.

Como presidente do PT, usou mão de ferro para unir um partido fragmentado em diversas facções em torno de uma ala de centro, chamada "Corrente Majoritária". O ex-guerrilheiro não se acanhou de costurar alianças com a casta política reacionária -pois, sem esse tipo de pacto, nada acontece no maior país da América Latina. E ainda conquistou um aliado importante para acalmar os receios da economia brasileira diante do esquerdista Lula: o vice-presidente José Alencar, justamente um empresário do ramo têxtil cuja empresa fica numa das regiões mais pobres e de salário mais baixo do país. Os estratagemas deram certo: Lula foi eleito em 2002 e Dirceu tornou-se chefe da Casa Civil.
O desastre aconteceu três anos depois: em 2005, Dirceu foi cassado em seu mandato como deputado federal. Antes disso, já tinha renunciado a todos os seus cargos no governo Lula. Os deputados chegaram à conclusão de que Dirceu era o cérebro do "Mensalão" - a máquina de corrupção do Congresso. Outros altos dirigentes do PT, implicados com as denúncias de corrupção, afundaram também no mar de lama. Hoje em dia, poucos fundadores do partido ainda têm uma reputação sem manchas. Exemplo disso é José Genoíno, ex-presidente do PT e deputado federal com votação recorde em várias eleições. Na única tentativa de organizar uma revolução no interior do Brasil, quase todos os seus companheiros de guerrilha foram massacrados pelos militares. Genoíno sobreviveu por um triz, foi torturado e amargou cinco anos de prisão. Depois disso, tornou-se um dos principais parlamentares do PT e hábil negociador da abertura democrática. Mas, em 2005, um assessor de seu irmão José Nobre Guimarães foi detido no aeroporto com 100.000 dólares escondidos na cueca. Genoíno teve de renunciar ao cargo de deputado e à presidência do partido.

José Dirceu, antigo líder esquerdista, vive hoje uma situação incômoda: quando aparece em público - num restaurante ou num aeroporto -, é recebido com vaias e insultos. Retomando a profissão de advogado depois da cassação, tornou-se lobista de empresas estrangeiras que querem investir no Brasil. Ganha um bom dinheiro com isso, pois tem influência sobre políticos de esquerda no Brasil, em Cuba e no Caribe. Seus clientes incluem donos de multinacionais latino-americanas como o mexicano Carlos Slim, o homem mais rico do mundo, ou Ricardo Salinas do Banco Azteka, que recentemente fez investimentos maciços no Brasil. É uma ironia da História o fato de que o ídolo esquerdista de toda uma geração seja hoje consultor de bilionários estrangeiros. O próprio Lula quase não foi afetado pelos escândalos. Em 2005, apesar das ameaças de impeachment que pareciam tornar improvável sua sobrevivência política, ele se recuperou sem grandes problemas. Ganhou as eleições presidenciais de 2006 e cumpre seu segundo mandato com índices de popularidade de mais de 70%. Na conferência do G20 (Grupo dos 20) em Londres, o presidente norte-americano Barack Obama chamou Lula de "político mais popular do mundo". Muitos brasileiros - sobretudo os de classe média -afirma que o "Mensalão" do PT foi o pior escândalo de corrupção na história do Brasil. Mas eu vejo a coisa de outra maneira. Acho que antes disso a política brasileira tampouco se caracterizava pelo jogo limpo. Não quero com isso embelezar a corrupção no governo petista -quero apenas relativizá-la. Em comparação com os anos 80 e 90, quando grandes escândalos foram denunciados pela imprensa, nos últimos dez anos a economia brasileira atingiu dimensões diferentes. "Uma fatia de 10% não deixa de ser uma fatia de 10%", disse Larry Rohter, ex-correspondente do "New York Times", sobre os vários escândalos de corrupção no Brasil. "A diferença é que, hoje, o bolo é muito maior."

Lula consegue amenizar as tensões sociais, mas ninguém o aplaude por isso

Para mim, o principal mérito de Lula é a ampliação da igualdade social no Brasil. Mas não entendo por que esse feito é ignorado justamente pelas classes mais altas. Lula não aboliu nenhum de seus privilégios. Nos anos do boom econômico, ela não reduziu os lucros recordes dos bancos, da iniciativa privada, da agroindústria e dos produtores de matérias-primas - como aconteceu nos países vizinhos. Pelo contrário, nos dois mandatos de Lula, todas as camadas da sociedade tiveram elevação de renda notável.

Garantindo a sobrevivência dos mais pobres, Lula desarmou a "bomba-relógio" dos conflitos sociais no Brasil. Não é pouca coisa. Muitas gerações de políticos não fizeram isso antes dele. Trata-se de um fator decisivo da atual estabilidade política. Aliás, ninguém garante que essa estabilidade dure para sempre, pois as diferenças de renda, o baixo nível educacional da maioria e a pobreza ainda arraigada tornam o Brasil um alvo fácil de políticos demagogos.

* "Brasil, País do Presente"Autor: Alexander Busch
Editora: Cultrix
Páginas: 256

Vargas Llosa: Lula tem conduta 'esquizofrênica' no governo

BBC Brasil

Em visita ao Brasil após prêmio Nobel, peruano diz que postura democrática do presidente não se reproduz na política externa.

Escritor peruano se disse otimista em relação ao futuro da América Latina

Em sua primeira visita ao Brasil desde que foi agraciado com o prêmio Nobel de Literatura na semana passada, o escritor peruano Mario Vargas Llosa, 74, chamou de "esquizofrênica" a conduta do presidente Luiz Inácio Lula da Silva no governo brasileiro.

"Lula fez evolução notável na política interna. Há no Brasil um desenvolvimento que impressiona o mundo inteiro, conduzido por posições democráticas admiráveis. O que lamento é que (ele) não tenha uma política internacional equivalente", disse Vargas Llosa, que criticou a relação que Lula mantém com o presidente do Irã, Mahmoud Ahmadinejad.

"Lá (Irã) estão atirando pedras em mulheres adúlteras! Como (Lula) vai legitimar um tirano assassino que representa uma forma anacrônica de fanatismo? (...) Há razões políticas, geopolíticas, mas não há razão ética ou moral que justifique esse tipo de esquizofrenia na conduta de um governante", disse o peruano.

Ele ainda se disse "desconcertado, entristecido e indignado" com o encontro entre Lula e o líder cubano Raúl Castro em janeiro, quando o dissidente político cubano Orlando Zapata morreu em razão de uma greve de fome. "Por que um democrata no Brasil vai se abraçar com um ditador repelente como o sr. Castro no mesmo momento em que está morrendo um dissidente?"

Vargas Llosa falou nesta quarta-feira a funcionários do Grupo Abril, em São Paulo, em entrevista conduzida pelo jornalista Ricardo Setti. Ao longo de uma hora, ele tratou da sua reação ao Nobel, da relação entre política e literatura e dos motivos que o fazem estar "mais otimista" quanto aos destinos do mundo e da América Latina.

Correção política
Defensor do liberalismo na economia e na política, Vargas Llosa disse ter ficado "surpreso" com a notícia de que recebera o maior prêmio da literatura mundial, principalmente ao levar em conta os últimos ganhadores.

"A impressão é que eles não queriam dar o prêmio a pessoas controvertidas, principalmente do Terceiro Mundo. Preferiam os que seguiam uma certa correção política. Mas, posto que me deram o prêmio, parece que estavam errados", disse o peruano, provocando risos na plateia.

Vargas Llosa rejeitou a ideia de que a sua atuação política (ele escreve com frequência artigos e ensaios sobre o tema) afete negativamente a sua produção literária.

"A literatura não deve se afastar da vida. (...) Gostaria que a minha obra fosse como uma esponja que absorvesse tudo o que acontece no seu tempo. Não conheço grande literatura que tenha sido indiferente à política."

Desmonte do comunismo
Sobre os rumos da política mundial, o escritor disse estar hoje mais otimista do que há alguns anos, citando o "desmonte" do comunismo.

"Lembro-me de um discurso do Henry Kissinger (secretário de Estado americano entre 1973 e 1977), que não é um tonto, pouco antes da queda do Muro de Berlim (1989). Ele disse: 'Senhoras e senhores, tenhamos claro que o comunismo está aqui para ficar'. Mas ele desapareceu, e não porque foi derrotado pelo Ocidente, mas por uma putrefação interna, por uma incapacidade de organizar uma economia produtiva, porque o sistema de controle do pensamento e da vida o foi asfixiando."

Vargas Llosa também considera que a América Latina evoluiu substancialmente nos últimos anos, com a expansão e a consolidação da democracia.

"(Na América do Sul) hoje só temos uma semiditadura, a de Hugo Chávez, que foi derrotada nas últimas eleições e tem um fracasso econômico enorme. Dificilmente o regime vai sobreviver muito tempo."

Segundo o escritor, os avanços recentes fazem com que o continente "comece a recuperar o tempo perdido". Mas ele alerta que, apesar do progresso, "não se pode cair na ingenuidade, porque pode haver volta".

Experiência desoladora
Para o peruano, situação muito menos promissora que a América Latina tem a República Democrática do Congo, país que ele visitou durante a produção do seu último livro, O sonho do celta, ainda não publicado no Brasil.

A obra trata da vida do diplomata irlandês Roger Casement (1864-1916), que denunciou os abusos cometidos na colonização do então Congo belga pelo rei Leopoldo 2º, entre os séculos 19 e 20.

Vargas Llosa conta que a viagem ao país africano, que durou 15 dias, foi a experiência "mais desoladora, triste e deprimente" de sua vida.

"Vi um médico congolês que me disse: 'o problema número um deste país são os estupros. Aqui, há muitos anos que não se estupra por prazer sexual, o estupro é uma arma para humilhar o adversário. Te digo que num povoado não há uma só mulher que nunca tenha sido estuprada'. Ele me disse isso e começou a chorar de modo atroz."

Para Vargas Llosa, o cenário é tão grave que os prognósticos de que o país não tem solução "pode ser verdadeiro". "Mas, se é certo, a culpa maior, a responsabilidade principal de que o país tenha chegado a essa situação de espanto é a colonização belga, é o que os belgas fizeram ali", diz o escritor.

Relatórios negativos sobre a Petrobrás poderiam ter saído antes da megaoferta

Leandro Modé, de O Estado de S. Paulo

Segundo a CVM, única condição é que material deveria ser analisado pela autarquia antes da veiculação; textos derrubaram ações

SÃO PAULO - A Comissão de Valores Mobiliários (CVM) informou na quarta-feira, 13, que as instituições financeiras que participaram da megacapitalização da Petrobrás poderiam ter divulgado análises sobre a oferta durante o período em que a operação ainda estava aberta.

Semana passada, os bancos Itaú e Morgan Stanley causaram polêmica ao publicar relatórios negativos sobre a estatal logo após o encerramento oficial da transação. Ambos estavam entre os coordenadores da oferta, a maior da história mundial, que movimentou R$ 120 bilhões. Cada negócio desse tipo origina comissões de 0,5% a 2% do valor do negócio – no caso, entre R$ 600 milhões e R$ 2,4 bilhões.

Para críticos, as instituições incorreram em conflito ético porque venderam as ações aos investidores e, logo depois, indicaram que se tratava de um mau negócio. Os maiores prejudicados seriam os pequenos poupadores.

"Não posso crer que um banco ‘descobriu’ que não era um bom investimento assim que acabou o período de silêncio", disse Marcello Klug Vieira, sócio da área de mercado de capitais do Salusse Marangoni Advogados e membro do Comitê Jurídico Consultivo da Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima). "Isso configura conflito de interesses, conflito ético."

As ações da Petrobrás caíram fortemente ao longo da semana passada sobretudo por causa de relatórios desfavoráveis à empresa. O Itaú rebaixou a recomendação para os papéis de "desempenho acima da média do mercado" para "desempenho conforme a média do mercado".

O Morgan Stanley reduziu o chamado preço-alvo para as ações (ou seja, acredita que, no fim de 2011, valerão menos do que se esperava antes), mas manteve a recomendação "acima da média do mercado".

Apesar das diferenças entre si, os dois textos foram citados por operadores de mercado para explicar o desempenho das ações na semana passada – os papéis ordinários (ON, com direito a voto) perderam 5,2% e os preferenciais (PN), 5,5%.

O banco inglês Barclays e o suíço UBS também rebaixaram a estatal, mas, diferentemente dos outros dois, não estiveram entre os líderes da megaoferta.

Temor
Procurados pelo Estado, o Itaú e o Morgan Stanley não quiseram se pronunciar. No entanto, fontes do mercado que pediram para não ser identificadas afirmaram que os bancos não divulgaram relatórios durante o andamento da operação por temer a reação da CVM.

Por meio da assessoria de imprensa, a autarquia deixa clara sua posição, que contraria o argumento dos bancos. "Pensamos que é perfeitamente lícito que as áreas de pesquisa (research) devidamente segregadas, mas pertencentes ao mesmo grupo (ou à mesma instituição), que participam de uma oferta pública divulguem relatórios de análise avaliando o emissor e seus valores mobiliários, desde que sejam apresentados à CVM", diz a nota.

Em outras palavras, o regulador entende que o banco pode divulgar um relatório desde que o material seja analisado por seus técnicos antes da divulgação para o mercado.

Outro argumento dos bancos é o de que a oferta, por ser global, também envolvia a interpretação de reguladores de outros países, como a Securities and Exchange Commission (SEC, a CVM dos Estados Unidos).

O Estado entrou em contato com a instituição, que informou que não poderia se pronunciar especificamente sobre a operação da Petrobrás. Um porta-voz da SEC explicou apenas que a análise depende das circunstâncias e varia caso a caso.

Uma fonte de mercado observou ainda que, informalmente, analistas de bancos já conversavam com clientes sobre a operação e o futuro da Petrobrás.

Por tudo isso, especialistas acreditam que a regulamentação deve ser aperfeiçoada. O educador financeiro Mauro Calil, por exemplo, defende que os bancos que participam de uma oferta pública sejam obrigados a manter na carteira ações da empresa para a qual estão trabalhando por ao menos um ano.

"Digamos que, na semana passada, fundos de investimento de bancos de varejo tenham vendido papéis da estatal depois da divulgação dos relatórios. Uma norma diferente da atual evitaria isso", pondera Calil.

Para Klug Vieira, o chamado período de silêncio (pré-operação) deveria ser revisto pela CVM. "Sou a favor desse período, mas acho que, em algumas ocasiões, os investidores acabam sendo privados de informações importantes."

Apareceu a oposição

Marco Antonio Villa, O Globo

A campanha presidencial finalmente começou. Acabou a pasmaceira do primeiro turno. Agora é um combate franco entre duas propostas para o futuro do Brasil. O formato do debate do último domingo facilitou o confronto entre os candidatos. Algumas vezes, porém, pode até ter prejudicado a ampliação do leque dos temas a serem discutidos. Em alguns momentos, o programa ficou monotemático, ora a discussão era sobre a privatização, ora sobre o aborto. Os organizadores poderiam ter sugerido em cada bloco uma questão inicial para ser debatida entre os candidatos, deixando o restante do tempo livre para as perguntas entre eles. Dessa forma, os temas não contemplados acabariam sendo abordados e seria ampliado o leque de propostas discutidas.

Mesmo assim foi o melhor debate da eleição. Os ataques de parte a parte são absolutamente naturais. Eleição precisa ter situação e oposição. É uma obviedade, porém, no Brasil, dado o domínio exercido pelo PT e especialmente pelo presidente Lula, criticar o governo foi considerado algo temerário, perigoso. Temerário devido à popularidade de Lula, que foi superestimada pelos institutos de pesquisa. Se é exequível supor que o presidente é popular, é inimaginável que somente 4% da população achem ruim ou sofrível o governo.

Perigoso pois a crítica foi considerada um comportamento inadequado e que desagradaria ao eleitor. Ledo engano, como vimos após a abertura das urnas.

Com a finalização da disputa para os governos estaduais, nos maiores colégios eleitorais, a eleição presidencial acabou ficando solteira, independentemente das divergências regionais.

E isto é bom, pois valoriza os programas dos presidenciáveis e permitirá uma escolha mais ponderada por parte dos eleitores. Presidente não será somente mais uma escolha na cédula eletrônica: é a única na maioria dos estados.

Dessa forma o pleito acabou adquirindo autonomia e permitindo um reposicionamento dos eleitores. Isto pode favorecer o candidato José Serra, pois diminui o rolo compressor imposto pelo governo federal nos estados mais dependentes da União. Além disso, dificilmente o PMDB de Minas Gerais, Bahia ou Rio Grande do Sul vai fazer uma campanha entusiástica em defesa de Dilma Rousseff. As marcas e as mágoas da derrota são recentes e a neutralidade pode ser uma resposta.

Afinal, no cotidiano da pequena política, o que conta mesmo são as divergências regionais.

Foi necessário um recado explícito dos eleitores – afinal, a maioria dos votos, na eleição presidencial, foi para a oposição – para que ficasse claro que há um considerável espaço para o crescimento de uma candidatura oposicionista. Uma coisa é a avaliação do presidente, outra é a candidatura Dilma. Não há uma relação de absoluta transferência de votos de Lula para a sua candidata.

E seria um caso raríssimo na política mundial: um presidente, mesmo que bem avaliado, eleger uma quase desconhecida no cenário nacional, com a maioria absoluta dos votos, em um só turno.

O discurso lulista foi tão eficaz que pareceu uma surpresa o resultado da eleição do último dia 3. Tudo dava a entender que haveria somente um ato formal, meramente homologatório, do que já se sabia: Dilma seria a presidente do Brasil com uma votação consagradora. Muitos analistas – basta reler os jornais da última semana anterior à eleição – não só apontavam a fácil vitória de Dilma como já discutiam a composição do Ministério.

Agora estamos em um novo momento.

A eleição está indefinida. Somente o receio da derrota pode explicar a virulência de Dilma, no último debate, e a guerra estabelecida na internet. A empáfia foi substituída pela ameaça. E nos próximos 19 dias a campanha vai aumentar a temperatura como nunca na história deste país.

Tudo indica que Lula – que abandonou as funções presidenciais no último mês – percorrerá os principais colégios eleitorais do país, até às vésperas da eleição, intimidando, amedrontando a oposição e desenhando um cenário catastrófico para o país, caso Serra vença. Em cada discurso vai preparar as “deixas” para Dilma. Ele fará o trabalho considerado sujo e ela será encarregada de dar os arremates. Tudo o que não deveria fazer um chefe de Estado. Mas faz muito tempo que ele abandonou suas funções constitucionais para ser simplesmente o maior dirigente da campanha de Dilma.

Uma pergunta que fica é se o encanto do povo brasileiro com Lula está dando os primeiros sinais de esgotamento.

Sem ir para outros terrenos, na política o encantamento também tem prazo de validade.

Deformações eleitorais

O Estado de São Paulo

Eleições livres, limpas, periódicas e abertas a toda a população adulta são condições necessárias para o ingresso de um país no grupo das democracias estáveis. Mas não são suficientes, por si sós, para atender a outros requisitos, a partir dos quais se pode medir a legitimidade dos resultados eleitorais, no caso das disputas para as Casas Legislativas. Um é a igualdade de oportunidades entre os candidatos. Outro é a representatividade dos eleitos.

Esses objetivos - aos quais se acrescentam o fortalecimento do sistema partidário e a qualidade do processo legislativo - costumam ser alcançados uns à custa dos outros, porque ainda está para nascer um sistema eleitoral livre de distorções. Que nem por isso devem permanecer intocadas. No Brasil, duas delas são particularmente perversas. Os seus efeitos combinados desfiguram a vontade do eleitorado nacional.

Em primeiro lugar, o princípio clássico da democracia - um homem, um voto - é atropelado pela norma que estabeleceu um piso e um teto (8 e 70) para a representação dos Estados na Câmara dos Deputados. Foi uma regra imposta de cima para baixo. Fez parte do conjunto de mudanças constitucionais baixadas pelo presidente Ernesto Geisel a partir de 1.º de abril de 1977 - quando ordenou o fechamento do Congresso Nacional por duas semanas exatamente para isso. O chamado Pacote de Abril visava sobretudo a perpetuar a maioria governista no Legislativo.

Para isso, além de manter as eleições indiretas para governadores, criou a figura do senador biônico, as sublegendas nos pleitos para o Senado e o único entulho autoritário que os políticos se recusaram a remover - a ampliação das bancadas federais dos Estados menos habitados. Neles, a Arena, o partido oficial do regime militar, conseguiu manter-se à tona no naufrágio eleitoral de 1974, quando a oposição, reunida no MDB, obteve surpreendente votação no País.

O argumento de que a alteração se destinava a diminuir a concentração do poder político nos Estados já detentores do poder econômico não passava, portanto, de pretexto para um golpe político. A distância entre a distribuição das cadeiras na Câmara e a distribuição do eleitorado pela Federação faz com que um voto digitado em Roraima, por exemplo, valha 11 vezes mais que o de um eleitor registrado em São Paulo. No pleito recente, essa foi a diferença entre o maior e o menor quociente eleitoral (número de votos válidos em cada Estado, dividido pelas vagas a que tem direito) do País.

Não se trata de sugerir que os candidatos de um Estado sejam piores ou melhores do que os de outro. Mas é fato que o sistema tende a prejudicar os partidos mais votados nos Estados mais populosos. Foi o caso do PSDB. Metade dos seus 11,3 milhões de votos para a Câmara veio de São Paulo e Minas Gerais. Esses Estados deram ao PMDB apenas 12% dos seus 12,5 milhões de votos. Isso ajuda a explicar por que, embora a votação do PMDB tenha sido apenas 9% maior que a do PSDB, o número de cadeiras conquistadas pelo primeiro foi 49% maior que o deste.

O outro grande fator que deforma os resultados das eleições parlamentares é o mais lembrado. A cada pleito, só uma ínfima parcela de deputados se elege com os seus próprios votos. Este ano foram 35 em 513, ou 7%, os candidatos que alcançaram o quociente eleitoral em seus Estados. Em São Paulo, apenas dois candidatos, o notório Tiririca, do PR, e o vereador Gabriel Chalita, do PSB, ultrapassaram o mínimo necessário de 304 mil votos. Com as sobras, elegeram companheiros de viagem e correligionários.

É conhecida a causa do chamado desvio de votos, pelo qual o eleitor marca o candidato A do partido X e acaba elegendo, sem saber, o candidato B do partido Y a ele coligado. É a regra que permite parcerias partidárias em eleições para Câmaras e Assembleias. Elas servem para os partidos nanicos cederem tempo de TV em troca de vagas na chapa a que se juntaram. Bastaria acabar com as coligações em eleições proporcionais e um grande passo teria sido dado para diminuir o hiato entre a composição do Congresso e a intenção do eleitor.