Adelson Elias Vasconcellos
Tanto a turma do governo da senhora Roussef, ela própria e a turma que a apoia têm feito pouco caso das críticas sobre a atuação do governo na economia. Isto é ruim. E o é porque o Brasil cresce insignificâncias há quatro anos, com inflação alta e indicadores econômicos em queda livre.
Ora, qualquer governante dotado de um mínimo de bom senso, trataria os críticos com um pouco mais de respeito. Insisto: um governo ,seja ele qual for, tenha a ideologia que tiver e leve consigo convicções políticas de qualquer padrão, vale pelos resultados que sua atuação provoca. Nesta semana, vimos que o governo Dilma só consegue melhor, ao longo da história republicana, que Collor e Floriano Peixoto. Esta classificação não é fruto nem de preconceito contra a presidente, tampouco de má vontade de uns e outros. É resultado daquilo que o governo desta senhora conseguiu produzir em um mandato inteiro, porque, muito embora 2014 ainda tenha metade do tempo para correr, já se sabe que terminaremos com inflação alta e crescimento baixo.
Portanto, o pessimismo decorre da falta de atuação do governo naquilo que o país reclama para alavancar seu crescimento e sair desta pasmaceira em que está mergulhado desde 2011.
Lula, o ex em exercício, falando em Porto Alegre nesta semana, disse que o governo precisa gastar mais, que se deve insistir no consumo, que se deve apostar na ampliação do crédito. A pergunta que se faz: não é justamente este o modelo perseguido por Dilma Rousseff ao longo de todo o seu mandato? Se, num primeiro momento, justo no auge da crise de 2008/2009, a fórmula produziu resultados positivos, hoje ela se mostra esgotada.
Já mencionamos aqui inúmeras vezes que, tanto o crédito quanto o consumo, sofrem uma limitação terrível no Brasil, que é a baixa renda da imensa maioria da população. Atualmente, mais de 60% das famílias brasileiras está endividada, portanto, com sua capacidade de endividamento estourada. Conceder mais crédito a quem já está com a corda no pescoço é matar o comércio e os bancos com inadimplência alta como, aliás, já aconteceu há um ano atrás. Crédito é algo sério que não pode ser tratado com desaforo.
O ex presidente parece não ter entendido que o problema do país, além da baixa renda, é de oferta, não de demanda que, mesmo assim, ainda se mantém em bom nível. Para manter a demanda aquecida, quem lucra, quando a produção interna é insuficiente? Ora, os importados que concorrem aqui dentro, sem carregarem o pesado fardo do custo Brasil. E, para incentivar que estes importados atendam a demanda, você mata a indústria nacional, e vai gerar emprego e renda lá afora.
Se tentar reprimir os importados, para favorecer a indústria local, como esta não tem volume de produção suficiente, acaba provocando elevação dos preços. Simples assim.
Quanto a gastar como apregoou o senhor Lula, perguntamos: quando foi que este governo, e mesmo o dele, gastaram menos? Há quase doze anos o governo gasta mais do que arrecada. A elevação das despesas governamentais tem se mantido, em termos reais, acima do crescimento do PIB e da própria inflação. Continuar teimando nesta fórmula, ou se irá reduzir cada vez mais os investimentos, ou se aumentará o endividamento do poder público, hoje já ultrapassando a casa dos R$ 2,0 trilhões.
Além disto, o governo insiste em dar as costas para as reformas estruturais. Teima em manter o modelo intocável. Quando abre a porta para o investimento privado em infraestrutura, teima em querer regular o lucro do investidor, em querer editar marcos regulatórios que mais afastam do que atraem o capital privado.
Além disto, a insegurança jurídica assumiu ares masoquistas. O IOF para empréstimos tomados no exterior, ora zerado para prazos superiores a 180 dias, há um ano atrás andou no sentido oposto. Assim, que segurança tem alguém para tomar dinheiro lá fora, sabendo-se que pode ser surpreendido, a qualquer hora, com nova norma que eleve o IOF aos níveis anteriores?
Além disto, sabemos que há um represamento de tarifas públicas no país que, cedo ou tarde, terão que ser liberadas. Isto é o cheiro de inflação futura. Assim, prestadores de serviços tendem a manter seus preços no alto com tal perspectiva, assim como as demais cadeias produtivas.
Em artigo anterior, dissemos que o país vive uma armadilha que o levou a esta sinuca de bico. Se continuar aumentando juro para conter a inflação, acaba inibindo a atividade econômica. Com juro alto, o consumo tende a se retrair, mas os preços continuarão apostando nesta inflação represada pelo próprio governo. Quem dá o rumo para o pessimismo, portanto, é o próprio governo que nem controla seus gastos, nem investe mais, nem libera as tarifas mesmo que a conta gotas.
Tal redemoinho maluco já deveria ter sido desfeito há uns dois anos. Teria dado tempo para elevar investimentos em infraestrutura, mas com regulações não preconceituosas ao capital privado, redução de gastos correntes, aumento mesmo que gradual dos prazos de recolhimento de impostos – o que daria maior oxigênio para as empresas investirem em aumentos de produtividade, redução do peso dos impostos sobre a produção e o trabalho. Ora, sobre o trabalho, ano após ano, o governo aperta ainda mais o torniquete sobre os salários mais baixos. Sobre a produção, teima em conceder benefícios tributários localizados e provisórios e ainda assim buscando compensar estes benefícios parciais aumentando alíquotas de impostos em outros ramos.
Sem apontar uma miserável perspectiva de mudança no cenário que ele próprio traçou, como esperar que os empresários confiem num governo que teima na mesmice, sem dar sinal de que investirá em reformas e em mudanças de modelos esgotados?
Não é só o investidor privado que puxou o freio de mão. O governo da senhora Rousseff também vem reduzindo pouco a pouco os investimentos públicos. São incontáveis as obras iniciadas e interrompidas espalhadas pelo país. O projeto da copa do mundo é um exemplo típico. São dezenas de projetos não terminados que ficaram pelo caminho e que não se tem a menor noção de quando serão concluídos. Mesmo o tal PAC, anda devagar quase parando. Há mesmo obras que até já pararam.
Assim, esperar que tanto consumidores e empresários voltem a apostar com a mesma volúpia de dois ou três anos atrás, é achar que todos são idiotas ou milionários excêntricos. Investidor não acha dinheiro na rua, e os consumidores já perceberam o quão doloroso é gastarem além de sua própria capacidade de renda.
Ademais, o vulcão do consumo emitiu seu poder de fogo sobre bens duráveis. Ninguém, com dois ou três salários mensais, que conseguiu comprar televisão LCD ou até um automóvel popular, vai trocar por um novo nos próximos meses, até porque tais itens foram adquiridos em longas prestações que a maioria ainda está terminando de pagar. Aliás, tal situação, por si só, derruba por terra a grande mentira da tal “nova classe média” de 30 milhões de brasileiros. Prova que sua renda continua baixa, muito aquém do que se admitiria para uma classe média real.
Portanto, concluiu-se que o pessimismo atual que toma conta do país é derivado do governo ruim da senhora Rousseff, e não o seu contrário, isto é, que é o pessimismo dos brasileiros que tem tornado ruim o governo atual.
Seja a presidente e sua equipe, ou ainda o ex em exercício, ou ainda os puxa-sacos de plantão, deveriam avaliar que, se não houver um diagnóstico correto e real dos problemas que afligem a economia do país, não se conseguirá prescrever o tratamento adequado para mudança do humor. Além disto, em razão desta base de apoio político armada por Lula e transferida para Dilma, não há como o governo ter controle sobre seus próprios gastos e, em consequência, não tem como aplicar um choque fiscal necessário e urgente. Este choque permitiria ao governo aumentar sua própria poupança e, com isso, abrir espaço para aumentar o investimento publico. Não será destinando volumes crescentes de recursos para a Educação, que se conseguirá dar a ela a qualidade que se exige de um país com ambição de crescer e modernizar-se. Vamos continuar desperdiçando dinheiro num sistema falido e torto. Por que torto? Porque está provado que o Brasil já investe quantias equivalentes a de países com melhor resultado. Onde está o nó? Está no fato de que o grande investimento é feito no nível superior, e não no básico e fundamental. Grande parte dos professores continuará mal paga e mal formada. Num sistema assim, não é aumentando o volume de dinheiro que se conseguirá dar a qualidade que se exige. E isto acaba estourando lá na outra ponta, quando estas gerações já em idade adulta, não terão a formação que se requer para conseguirmos aumentar a produtividade média dos trabalhadores e profissionais.
Deste modo, não se ouvindo dos atuais ocupantes do poder nenhum indício de que já se compenetraram das reais dificuldades pelas quais passa o país, e, em consequência, nãoa tendo debaixo do braço as soluções necessárias, mesmo que dolorosas, não há como se conceder-lhe crédito para mais quatro anos. Não basta falar do passado, é insuficiente e até inútil tentar desqualificar os concorrentes da oposição. O que país quer ouvir, e nem Dilma nem seu partido conseguiram e conseguem dizer, é quais são as suas soluções para os nossos problemas de agora. E aí fica difícil só prometer paraísos venturosos que os fatos de agora desmentem. CONCLUSÃO: este governo continua sem projeto para o Brasil crescer de forma virtuosa. É isso que tira o humor de todos. Nada além disso. O resto é papo furado.