segunda-feira, dezembro 28, 2009

Conceitos equivocados sobre desenvolvimento

Adelson Elias Vasconcellos


O programa que está sendo traçado pela turma do Planalto para um futuro governo Dilma, já começa torto. Por se tratar de um programa de campanha eleitoral, deveria ser montado por gente que não ocupasse cargos no governo. Vemos que em matéria de ética, o PT continua o mesmo: não têm a menor noção do que seja isso.

Na reportagem abaixo, se lê claramente a utilização da máquina do Estado para a montagem de campnha eleitoral, portanto, se faz do Estado brasileiro, um departamento do partido -  PT. Além de anti-ético é ilegal e imoral.

Além disto, o programa ressuscita claramente a visão que o regime militar tinha sobre o Brasil dos anos 60/70, e parte da premissa de que, somente com um estado gigante, inchado, com estatais fortes, o país conseguirá se desenvolver mais rapidamente.

Errado. Apesar dos governos que se sucedem nesta república de meu Deus, o país cresce. Apesar dos pacotões, pacotaços, pacotinhos, apesar da corrupção sem limites, apesar do gigantismo desmesurado da estrutura de poder, apesar da insegurança jurídica fruto de um judiciário sem estrutura e de legislação feita para preservação das oligarquias políticas, apesar de uma classe política totalmente dissociada dos reais interesses do país, apesar dos péssimos serviços públicos que são oferecidos à população em contrapartida à injusticada carga tributária que lhe pesa nos ombros, apesar de toda esta miséria, o Brasil cresce sem parar. Pode, em determinados momentos, crescer menos do que deveria, do que precisaria e do poderia dada à sua imensa riqueza de solo e subsolo, como, ainda, pode parecer estagnado, o que não é uma  verdade absoluta. O Brasil cresce sim, seja no plano econômico, seja no social, seja na qualidade de vida de seu povo.

Mas reparem no rol de barreiras listadas acima: todas, individual e agrupadamente, representam entraves,  dificuldades imensas para serem superadas pelo país e que, tivéssemos uma classe política mais responsável para com seus mandatos, poderiam ser afastadas muito rapidamente, abrindo espaço para crescimentos em ritmos chineses sem conta.

O que nos tem impedido de avançar mais rapidamaente, tem sido justamente o excessivo peso e presençpa do Estado na vida nacional, em atividades que não lhe dizsem respeito. Na contramão, aqueles serviços públicos de sua exclusiva responsabilidade, e que realizados com dignidade e eficiência, serviriam de alavanca impulsionadora para o desenvolvimento pleno do país, estes o Estado trata com profundo descaso.

Dou um exemplo muito claro disto: o período de governo de Lula coincidiu, primeiro, com a recepção de um Estado organizado, equilibrado em suas contas, ajustado e preparado para fazer o país crescer. E, depois, coincidiu também com o melhor momento da economia mundial dos últimos 100 anos. Em consequência, o governo bateu sucessivos recordes de arrecadaçpão de impostos e taxas. Com tantos ventos favoráveis, conforme vimos aqui na reportagem do Edison Militão, Congresso em Foco, Lula investiu num mesmo período de tempo no poder, 22 bilhões de reais a menos do que FHC, cujo período foi marcado por adversidades de todo o tipo. (Clique aqui para ler a reportagem).

Para que se tenha uma idéia de grandeza deste número, basta que se observe que, para 2010, com tudo a favor, e cerca de oito anos depois, o governo Lula pretende investir R$ 29,0 bilhões. Se conseguirá é outra história, mas isto é o que consta do orçamento para 2010, em ano de campnha eleitoral, portanto, ano que sempre é marcado por maciço investimento público.

Portanto, na função básica de governar que seria oferecer serviços minimamente dignos para população, como infraestrura, saúde, segurança e saúde, o Estado brasileiro continua atracado no porto, não deu partida, não consegue sair do lugar e isto emperra de forma eloquente o desenvolvimento do paáis como um todo.

Durante toda década de 80, até métade da década de 1990, do século passado, foram 15 anos em que o país mergulhou ora em depressão ora em estagnação. E isto foi fruto do quê? Da visão militar de governar o País durante 20 anos, em que se investiu uma enormidade no gigantismo e presença do Estado. Esta fórmula ultrapassada segue, invariavelmente o mesmo roteiro: destróí a capacidade de investimento público. Retornando-se no tempo, veremos que os governos Sarney e Collor foram marcados por uma hiperinflaçao descontrolada, justamente pelos déficits em atacado das contas públicas. E as empresas estatais estavam na raiz destes déficits. Tamanho foi o desequilíbrio orçamentário, que Sarney, em seu mandato, decretou moratória à divida externa, o que nos copnduziu ainda mais para o fundo do poço. Sem capacidade para investir, e sem crédito para receber investimentos de fora, mergulhamos no abismo. Parte das grandes desigualdades sociais foram plantadas nestes períodos.

E, mesmo que a memória nacional seja curta, há ainda os países em que a mesma receita foi aplicada, com igual insucesso.

Em nome de uma crise de mercados financeiros especulativos, agora se tenta justificar maior presença do Estado para impedir novas bolhas, mas para justificar que o governo atue como agente econômica ativo, criando estatais a rodo. Volto a afirmar o que venho dizendo há muito tempo: o que faltou para evitar a crise na dimensão em que ela aconteceu, não foi a maior presença do Estado nos mercados, foi justamente o Estado falhar na sua função essencial de fiscalização e regulação. Não são empresas públicas que farão este serviço, até porque tais empresas acabam fugindo a qualquer controle. Se apregoa que a crise nos atingiu menos do que em outros países. Mas por que não fomos tão afetados? Justamenete, porque não tínhamos ainda bolhas de crescimento, nosso mercado financeiro estava ajustado a partir do PROER de Fernando Henrique, e também porque o Plano Real, no seu bojo, trouxe instrumentos de fiscalizaçpão, regulação e controle que antes não tínhamos.

Gaste o governo menos em despesas que considero inúteis e de pura ostentação, e investa mais nas suas funções essenciais que lhe cabe, e haverá espaço para uma reforma tributária profunda que, como consequência maior, incentivará o consumo pelo aumento automático da renda dos brasileiros, fortalecerá as empresas em geral por lhe fornecer maior poder de capitalização, principalmente seu capital de giro, que hoje é tomado de forma antecipada, extorsiva e abusiva pelo Estado arrecador de impostos. E isto empurraria as taxas de juros para baixo, dada a menor demanda de financiamentos.

Assim, lucraria o próprio governo com aumentos de arrecadação fruto da maior atividade econômica, com seu maior dinamismo. Se o Estado nada produz, não se justifica seu peso excessivo sobre a sociedade que trabalha e produz. O desenvolvimento não tem como alvo o Estado em si mesmo, e sim a melhoria na qualidade de vida das pessoas. É para elas, em última análise, que o desenvolvimento e progresso deve ser dirigidoa, e não para o Estado, que mal consegue cumprir sua missão essencial.

Portanto, a filosofia adotada por Dilma Rousseff deve ser repelida pelo povo brasileiro com veemência. Sabemos como terminam estes miraculosos espetáculos de crescimento. Sofremos o inferno por conta deste modelo. Retornar a ele é uma burrice completa. Exemplo desta tolice é o fato de que, com todo o carnaval promovido pelo governo Lula em torno do tal pac, que completará três anos em 2010, estamos muito longe de concluir metade do que foi proposto. De acordo com levantamento da ONG Contas Abertas, das 12.520 obras do programa em todo o país, apenas 1.229 estavam concluídas, o que representa 9,8% do total. Cerca de 62% das obras nem sequer saíram do papel - consideradas em contratação, em ação preparatória ou licitação. Apenas 29% estão em pleno andamento.

Diante de tal resultado, uma vez mais o Petê apresentará ao país não mais do que uma bela carta de intenções, emoldurada pelo marketing político da mistificação.

O do que mais precisamos são reformas nos cenários que possibilitem o crescimento natural a partir do estímulo adequado com políticas públicas orientadas para o investimento na atividade produtiva. Neste campo, quanto menos interferência, e mais fiscalização, e uma regulação que de fato ofereça segurança jurídica às empresas e pessoas físicas em geral, melhor. É bom não esquecermos que o Estado não corre  nenhum risco de falir. Sendo assim, pouca responsabilidade lhe recai em questões de eficiência nas despesas que executa.

Deste modo, tomando por base um programa em que não se observa nenhum cuidado em relação a esta eficiência, o resultado final não será muito diferente do que o que se tem em relação ao pac, tres anos depois, com o agravante de minarmos cada vez mais o equilibrio das contas públicas. O resultado desta equação perversa é o aumento do endividamento do Estado e, em consequência, o retorno da famigerada inflação e os males socio-econômicos dela decorrentes.

Em conclusão, é bom que nos resguardemos quanto aos conceitos de desenvolvimento defendidos por Dilma Rousseff: a insistência em repetir os mesmos erros do passado, com a adoção de fórmulas que custaram muito caro para o país por longos períodos, devem que ser descartados. Nem se trata de questões de cunho ideológico-partidário, e sim numa teimosia burra que poderá jogar por terra o imenso esforço dispendido pelo país, nos últimos 16 anos, para atingirmos uma tão sonhada estabilidade econômica. Dilma Rousseff e seus assessores não tem, definitivamente, tal direito, e o país não pode se dar ao luxo de andar para trás. Esquecer o marketing, o ufanismo, a babaquice dos nacionalismo anacrônico que não vingou em lugar algum do planeta, eis a fórmula adequada para o eleitorado evitar o engodo.

Dilma defenderá Estado forte para embalar ''novo desenvolvimentismo''

Vera Rosa, Estadão


Programa petista em discussão mescla incentivos ao investimento público e privado com distribuição de renda

A plataforma de governo da ministra da Casa Civil, Dilma Rousseff, candidata do PT à Presidência, será embalada pelo mote do "novo desenvolvimentismo". O modelo defendido pelos petistas para escapar do rótulo da mera continuidade do governo Lula mescla incentivos ao investimento público e privado com distribuição de renda. Embora o programa de Dilma ainda esteja em discussão, a cúpula do PT e o Palácio do Planalto já têm um diagnóstico: a nova concepção de desenvolvimento exige restabelecer o planejamento econômico de longo prazo e o papel do Estado forte.

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva quer colar em Dilma o carimbo do "novo desenvolvimentismo" para enfrentar os espinhosos debates sobre gasto público com o PSDB do governador de São Paulo, José Serra, pré-candidato ao Planalto. É com essa marca que Dilma vai aparecer na campanha. Até agora, os eixos do projeto sob análise do PT são ciência, tecnologia e inovação, pré-sal, meio ambiente e matriz energética, educação, reconstrução do sistema de saúde, programas de moradia, como o Minha Casa, Minha Vida, transporte de massas e saneamento básico.

O Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), carro-chefe da propaganda de Dilma, não será tratado apenas como plano de obras, mas, sim, como "uma estratégia de desenvolvimento", como diz texto da corrente Construindo um Novo Brasil, hegemônica no PT. A meta do partido para os próximos anos é crescer de 6% a 6,5% do Produto Interno Bruto (PIB).

O comando da campanha de Dilma está certo de que o PSDB vai atacar o governo com o discurso da gastança e já se prepara para o contra-ataque na área fiscal. A despesa de custeio da União saltou de R$ 23 bilhões, em 2002, para R$ 32 bilhões, em 2008 - cifra equivalente à inflação do período, de 40% -, mas economistas do governo garantem que esses gastos tiveram crescimento porcentual muito superior na gestão tucana em São Paulo, na mesma época.

No duelo com o PSDB, o Planalto pretende derrubar a pecha de gastador invertendo a lógica do argumento pejorativo. Dilma dirá que a maior despesa foi com o pagamento de benefícios sociais, vinculados ou não ao salário mínimo - como Bolsa-Família, aposentadorias, pensões e seguro-desemprego -, melhorando a distribuição de renda e o mercado de consumo de massas.

Guarda-chuva
O papel dos bancos públicos na crise, suprindo a necessidade de crédito, e a ampliação dos investimentos das estatais são outros temas abrigados no guarda-chuva do "novo desenvolvimentismo" petista. Pelos cálculos da equipe econômica, as estatais federais fecharão o ano de 2009 com um investimento de 2% do PIB, o dobro do realizado pela União.

"No mercado global não tem mais esse negócio de ficar esperando que o trem vai passar, que eu vou pegar o trem", disse Lula em jantar oferecido pela Agência Brasileira de Promoção de Exportação (Apex) a empresários, na última segunda-feira, no Rio. "Nós temos de correr atrás, porque a competitividade, depois da crise, vai aumentar."

Foi também nesse jantar que Lula deu seu recado: ninguém precisa temer um Estado forte. "O Estado não pode ser é intruso, é diferente. Não pode querer ser o Estado gestor, mas ele tem de ser o indutor e o fiscalizador de muitas coisas. A crise mostrou isso", insistiu o presidente. Para Dilma, a tese do Estado mínimo faliu e só os "tupiniquins" a aplicam. Detalhe: Serra é da mesma escola desenvolvimentista de Dilma, mas permanece apegado à corrente que prega o investimento puro.

Brasil 2022
Lula pediu ao chefe da Secretaria de Assuntos Estratégicos, Samuel Pinheiro Guimarães, que apresse o plano Brasil 2022 e entregue em março o calhamaço com perspectivas de 12 anos. O programa de Dilma é coordenado pelo assessor de Assuntos Internacionais da Presidência, Marco Aurélio Garcia, mas o plano sob a batuta de Guimarães também servirá como peça de campanha.

Com essa radiografia em mãos, a equipe de Dilma quer descobrir qual é a economia do futuro e onde o PT apostará suas fichas. "Ainda temos de ruminar muito sobre isso", afirmou a ministra, em conversa reservada. Sua plataforma terá como ingrediente as "vocações regionais", que serão incorporadas à estratégia do desenvolvimento sustentável. O PT vai dar destaque a políticas para a Amazônia e o Nordeste.

Na prática, a volta da retórica à esquerda na seara do petismo é reflexo da vitória, dentro do governo, do grupo desenvolvimentista, que no primeiro mandato de Lula travou forte queda de braço com os monetaristas. "Nós interrompemos a visão neoliberal do Estado mínimo e recuperamos não só os bancos públicos, como estatais do porte da Petrobrás", argumentou o líder do PT no Senado, Aloizio Mercadante (SP), integrante da comissão escalada pelo partido para preparar o programa de Dilma. "Estamos, sim, construindo um novo desenvolvimentismo."

Para o presidente do PT, deputado Ricardo Berzoini (SP), a campanha petista mostrará que o Brasil pode ser a quinta economia do mundo. "Depois de resolver o impasse macroeconômico e estabelecer o paradigma de que é possível distribuir renda crescendo, queremos dar um salto", disse Berzoini. A nova palavra de ordem do PT é gestão. Mas sem o "choque" proposto pelos tucanos.

Menos de 10% das obras do PAC foram concluídas, diz ONG Contas Abertas

O Globo


BRASÍLIA - O Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) completa três anos em 2010 ainda longe de concluir metade do que se propôs. De acordo com levantamento da ONG Contas Abertas, das 12.520 obras do programa em todo o país, apenas 1.229 estavam concluídas, o que representa 9,8% do total, mostra reportagem de Gustavo Paul, publicada nesta segunda-feira pelo jornal O GLOBO.

Esse montante inclui os programas de habitação e saneamento, que formam sua grande maioria. Sem esses dois setores, os números melhoram, mas ainda ficam distantes das metas do PAC em 2010: o volume de obras concluídas sobe para 31% dos 1.340 empreendimentos contabilizados.

Cerca de 62% das obras nem sequer saíram do papel - consideradas em contratação, em ação preparatória ou licitação. Apenas 29% estão em pleno andamento. A compilação dos dados só foi possível em 16 de dezembro, quando a Casa Civil divulgou os cadernos estaduais do PAC, que detalham todas as obras do programa. Os números se referem ao balanço de agosto.

- O governo terá de trabalhar em um ano mais do que fez em dois anos e oito meses para entregar boa parte das obras ao final do mandato - diz o economista Gil Castelo Branco, coordenador do Contas Abertas.

Ao lançar o PAC em uma grande solenidade em janeiro de 2007, o governo tinha como horizonte apenas o ano de 2010, fim do mandato de Luiz Inácio Lula da Silva. A previsão era gastar R$ 503,9 bilhões em obras no setor de logística, energia e nas áreas social e urbana. Em fevereiro de 2009, ao completar dois anos, o governo turbinou o programa com R$ 142,1.

Com isso, o PAC passou a ter um orçamento de R$ 646 bilhões até 2010. Além disso, foram computados mais R$ 502,2 bilhões para após a gestão Lula.

A Casa Civil contesta o levantamento, sob argumento de que ele leva em conta apenas o número de obras. No 8º Balanço do PAC, divulgado em outubro, o governo federal informou que 32,9% das ações estavam concluídas, considerando o montante de recursos.

"Consideramos que o critério de valor seja mais adequado para calcular o percentual de conclusão de obras, pois o PAC é composto de um número muito grande de obras com dimensões muito diferenciadas. Esse fato provoca distorções", informa a assessoria da ministra Dilma Rousseff, em nota.

Balanço externo

Míriam Leitão, O Globo


A corrente de comércio brasileira deve fechar 2009 com queda de US$ 90 bilhões. De janeiro a novembro, deixamos de exportar 24% em relação a 2008 e importamos 27% a menos. Parte da queda das importações é puxada pelos bens de capital, que são sinônimos de investimento. Eles caíram 18%. E em 2010 a corrente de comércio não voltará ao nível anterior à crise.

O ano de 2009 é o primeiro desde 2003 com redução na corrente de comércio (veja no gráfico). É o ano em que trocamos de principal parceiro comercial: entrou a China, saíram os EUA. Para os americanos, deixamos de exportar 44% entre janeiro a novembro, na comparação com 2008. Deixamos de vender produtos manufaturados, de maior valor agregado, como aviões (-69%); partes de motores e geradores (-40,40%), calçados de borracha (-30,98%). A exportação do principal produto, petróleo, caiu 44,39%. Como a queda das importações foi menor (-21,2%), o Brasil ficou deficitário no comércio com os EUA. Isso não acontecia desde 1999.

A China hoje, sozinha, representa mais para as exportações brasileiras do que África, Oriente Médio e Europa Oriental juntas. Ela compra 13,6% de tudo que vendemos para o exterior. De janeiro a novembro, exportamos para os chineses 21,6% a mais do que no mesmo período de 2008, saltando de US$ 15,9 bilhões para US$ 18,8 bi. Para o presidente da Associação de Comércio Exterior do Brasil (AEB), José Augusto de Castro, a hegemonia chinesa como principal parceiro do país aconteceu “ao sabor das ondas”, e não por conta de políticas de comércio bilateral entre os países. Isso porque os chineses compram principalmente matérias-primas, como minério de ferro e soja.

— Todo o mundo sabe que o Brasil é grande produtor de minério de ferro, soja, carne de frango e celulose. Então o Brasil não precisou fazer esforço e foi beneficiado pelo apetite voraz da economia chinesa, que precisou estimular o mercado interno para combater a crise — disse.

A queda das importações foi geral. O Brasil comprou menos de todos os blocos econômicos, o que é resultado natural de uma economia que não cresceu. O que preocupa, nesse caso, é que deixamos de fazer investimentos, comprometendo a sustentação do crescimento futuro. A redução de compras de bens de capital foi de 17,9%. As quedas foram generalizadas: partes e peças para agricultura (-46,3%); máquinas e ferramentas (-34,2%); partes e peças para indústria (-29,5%); máquinas e aparelhos de escritório e serviço científico (-22,0%); ferramentas (-20,5%); acessórios de maquinaria industrial (-16,2%); maquinaria industrial (-11,5%); equipamento móvel de transporte (-7,6%). Essas importações vão fazer falta em 2010, quando o país voltará a crescer fortemente.

Para 2010, Castro estima que a corrente de comércio subirá de US$ 281 bilhões para US$ 328 bi. Ou seja, ainda ficaremos bem abaixo do resultado de 2008, quando exportamos e vendemos para o exterior um total de US$ 371 bilhões. As exportações devem crescer 11%, enquanto as importações devem subir 23%. Ele estima que o saldo do balança será positivo em US$ 12 bilhões, praticamente a metade do que ocorrerá este ano.

— Corrente de comércio menor significa menos atividade econômica, menos emprego. E mais uma vez nossas exportações estarão focadas em commodities. Isso é ruim porque dependeremos da cotação de preços que são negociados em bolsa e que podem estar inflados por conta dos juros baixos no mundo.

Esse é um dos receios para o ano que vem. Com a retirada dos estímulos econômicos pelos países ricos, que acontecerá em algum momento de 2010, os preços das principais commoditities devem sofrer uma correção e isso terá impacto sobre as exportações brasileiras. Além disso, explica Castro, três de nossos principais produtos têm cenários incertos: aço, minério de ferro e soja.

— Há excedente de mais de 350 milhões de toneladas de aço no mundo e isso se reflete nos preços do minério de ferro. Em relação à soja, há supersafras nos Estados Unidos, Brasil, e Argentina, os três maiores produtores.

Ele considera que há outra ameaça, referendada pelo Congresso e que terá o apoio do presidente Lula: a entrada da Venezuela de Hugo Chávez no Mercosul. Isso tornará mais difícil o estabelecimento de relações comerciais bilaterais do Brasil. Alguém duvida de que Chávez usará seu poder de veto para impedir acordos entre Brasil e EUA?


Centro-Oeste e Nordeste lideram apagões por problemas na transmissão em 2009

O Portal G1 fez levantamento nos boletins diários do operador do sistema elétrico. Muito embora não se tornem noticias diárias, dado que suas consequências são restritas a áreas menores, em comparação com o apagão de novembro que atingiu 18 estados no país, os apagões nas regiões Centro-Oeste e Nordeste se tornaram corriqueiros. E sua constância vem compçprovar as afirmações feitas por especialistas de que o país não tem realizados os investimentos indispensáveis para assegurar tranquilidade total no campo da geração e transmissão de eneregia, muito embora o discurso oficial pregando o contrário.

Contudo, entre o discurso e a realidade, a reportagem de Mariana Oliveira vai mostrar o enorme abismo existente. A seguir.



As cidades das regiões Centro-Oeste e Nordeste do país lideram o número de apagões no ano de 2009 em função de ocorrências nas linhas de transmissão de energia elétrica, de acordo com dados do Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS).


Foi por causa de um problema nas linhas de transmissão que 20 estados e o Distrito Federal ficaram sem energia por até sete horas no dia 10 de novembro. O governo diz que o incidente foi causado por raios que atingiram uma subestação entre São Paulo e Paraná. Três linhas de transmissão com energia que vinha de Itaipu desligaram por conta de curto-circuito.

O G1 verificou todos os boletins diários do ONS, que abordam as "ocorrências relevantes" registradas na geração ou transmissão de energia no Sistema Interligado Nacional (SIN), que compreende quase 97% da produção de energia do Brasil.

As linhas de transmissão são aquelas que levam a energia das usinas até as subestações. Em seguida, linhas de distribuição enviam a energia diretamente para o consumidor. Os boletins do ONS não contabilizam as interrupções de energia por responsabilidade das distribuidoras.

Neste ano, até 22 de dezembro, foram registradas 63 ocorrências de apagão em linhas de transmissão, que causaram interrupção de energia - isso significa um apagão a cada seis dias. No Centro-Oeste foram 20 ocorrências; no Nordeste, 18; na região Norte, 13; no Sudeste, 12; e no Sul, 6 (a soma resulta em mais de 63 devido a ocorrências que atingiram mais de uma região simultaneamente).

Na maioria dos casos, a interrupção de energia ocorreu por desligamento de linhas de transmissão. As razões dos desligamentos, no entanto, não são esclarecidas na maioria dos boletins, que apenas informam que as causas estão sob investigação. Em algumas situações, chuvas e atos de vandalismo são apontados como motivos. A assessoria do ONS disse que também há casos de interrupção programada.

O G1 localizou desde interrupções de 3 MW de energia até 900 MW - sem considerar o apagão de novembro, quando houve a interrupção de 28.800 MW.

Segundo a Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel), 1 MW de energia supre a demanda, em média, de 5 mil residências no período de uma hora. Em média, os apagões duraram entre meia e uma hora - há casos, no entanto, de interrupções mais curtas, de 5 a 15 minutos.

O ONS e a Aneel foram procurados para esclarecer os motivos sobre a maior incidência das interrupções de energia no Centro-Oeste e no Nordeste. A Aneel informou que cabe ao ONS comentar sobre o tema. O ONS disse que nada falará sobre interrupção de energia até que a Aneel se pronuncie sobre o relatório do apagão de novembro, quando 20 estados e DF foram atingidos.

Mato Grosso
Dentro do Centro-Oeste, Mato Grosso foi o estado que mais sofreu com blecautes no ano, conforme os dados do ONS.

Na avaliação de Fábio Garcia, presidente do Sindicato da Construção, Geração, Transmissão e Distribuição de Energia Elétrica e Gás no Estado de Mato Grosso (Sincremat), os cortes de energia são sentidos pelas empresas locais e podem prejudicar os investimentos.

"Certamente, você ter cortes de energia, ainda que temporários, representa que não se pode ter uma confiabilidade total no sistema elétrico e isso impacta no momento de decidir entre uma ou outra região. (...) As empresas acabam tendo que gastar mais em sistemas de 'no break'", afirma Garcia.

O presidente do Sincremat destaca que o estado tem dimensões muito grandes e que foram desativadas termoelétricas que ajudavam a abastecer a região.

"Mato Grosso está pendurado na geração de hidrelétricas, nas grandes usinas de geração de energia. Isso faz com que tenham cortes de energia localizados. Para um estado com grande capacidade de crescimento, isso é bastante prejudicial."

Segundo explicou, o corte de energia sempre é prejudicial para as empresas, mesmo no caso de interrupções de curta duração. "A retomada da produção muitas vezes não é imediata e a indústria pode ainda ter prejuízo com queimas de equipamentos."

Na avaliação dele, porém, o sistema de energia do Brasil é confiável e o ideal. "Eu acho que o sistema interligado é o ideal porque consegue trazer um grande benefício, que é oferecer a energia mais barata e garantir que não haverá desabastecimento nos momentos mais secos.”

Garcia diz, porém, que é preciso discutir um sistema hidrotérmico, para aliar a energia mais barata com a segurança das termoelétricas.

"A matriz energética preferencial deveria ser o gás natural. Já existem algumas termoelétricas interligadas, mas falta o funcionamento estratégico dessas termoelétricas.

O presidente do Sincremat disse que o apagão de novembro não causou prejuízos no estado.

"O estado ficou 50 minutos sem energia em alguns locais e foi algo pontual. É algo passado e não foi relevante para o Mato Grosso. O pior são as interrupções contínuas (os miniapagões)."

Sistemas de isolamento
Para o secretário-geral do Instituto de Desenvolvimento Estratégico do Setor Energético (Ilumina), o engenheiro Luiz Pereira de Azevedo Filho, que atuou em Furnas, é preciso investir em sistema de isolamento de panes elétrica, para evitar que graves problemas como o de novembro se repitam.

"O nosso sistema interligado é muito bom em termos de proteção. Algumas falhas são quase que inexplicáveis. O início da falha é compreensível, mas as consequências é que são intoleráveis. (...) Os sistemas de ilhamento (isolamento das panes) devem ser melhor estudados", disse o engenheiro.

Ele destacou, por exemplo, que em 16 de dezembro, as mesmas linhas de transmissão que causaram o apagão de novembro voltaram a ser alvo de transtornos.

"Não funcionou a proteção de novo, mas, desta vez, o operador do sistema (ONS) estava atento e evitou algo maior. E, de novo, o motivo foram as tempestades, os raios", comenta Azevedo Filho, afirmando que a nova ocorrência demonstrou que o local é um ponto vulnerável dentro do sistema.

Azevedo Filho sugere que as regiões Centro-Oeste e Nordeste possam ser mais suscetíveis aos miniapagões porque estão "na ponta" do sistema e supostamente recebem menos investimentos. Mas esclareceu que é impossível fazer essa análise sem ter o conhecimento do que gerou a interrupção de energia nesses locais.

Estabilidade do sistema
Na avaliação do diretor de energia do Sindicato dos Engenheiros do Estado de São Paulo (Seesp), Carlos Augusto Ramos Kirchner, engenheiro aposentado da Companhia Energética de São Paulo (Cesp) e ex-funcionário da TermoRio, os miniapagões são muitas vezes necessários para garantir a estabilidade do sistema e o fornecimento da energia.

"No sistema de transmissão você tem situações de alívio de carga que às vezes provocam apagões pequenos, que servem para evitar apagões de maior proporção", diz Kirchner.

O diretor do Seesp avalia que o sistema de transmissão tem recebido investimentos e que o grande problema na interrupção de energia está nas distribuidoras.

"O problema é que uma ou outra distribuidora não faz as melhorias necessárias, sendo que elas têm obrigações para manter a qualidade do serviço."

Neste mês, a Aneel aprovou mudanças no sistema de punição às distribuidoras de energia responsáveis por interrupções de energia. A partir de 2010, as empresas não terão mais que pagar multas à Aneel e sim compensar diretamente o consumidor.

SISTEMA DE ENERGIA ELÉTRICA NO PAÍS

Como funciona
O sistema de energia elétrica no país, o Sistema Interligado Nacional (SIN), é unificado desde 1999 e depende basicamente nas usinas hidrelétricas. Apenas 3,4% da produção de eletricidade é isolada em pequenos sistemas - principalmente na região da Amazônia.

Quem coordena
O SIN é coordenado pelo Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS), uma entidade privada formada por empresas de geração, transmissão que opera sob fiscalização da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel), subordinada ao Ministério de Minas e Energia.

Vantagens
Por ser interligado é mais econômico porque todos os estados são capazes de receber energia mesmo quando as hidrelétricas mais próximas estão com nível baixo. Com o sistema integrado, os locais com mais chuva ajudam os mais secos, se for preciso. Permite ainda maior controle sobre os serviços oferecidos.

Desvantagens
Como o sistema é unificado, uma falha de menor porte pode ganhar uma proporção maior e, dessa forma, derrubar a energia em efeito cascata.

Para 40%, atuação do Congresso vai de ruim a péssima

Comentando a Notícia

Em recente pesquisa feita pelo Datafolha, registrou que 40% da população brasileira reprova o Congresso Nacional. Não a instituição, que fique claro, mas a atuação dos chamados “representantes do povo”. Convenhamos, que pela atuação deprimente dos caras, até que a reprovação poderia ser pior, e ninguém se surpreenderia.

Tirante os escândalos e as impunidades, sem dúvida, que as atuação dos parlamentares chega muitas vezes a ser ridícula, se convertendo em uma das traves que fazem o país andar mais devagar do que poderia.

Apenas a título de exemplos, veja-se dois temas que deveriam ser prioridades, e que os nobres, simplesmente, os tratam com absoluto descaso.

De um lado, um projeto que obriga que se declare nas notas fiscais o total de impostos que o consumidor paga. Isso conscientizaria a população a cobrar um pouco mais de ação dos governos, além de cobrar com mais veemência redução da própria carga de impostos que pagamos.

De outro, há uma quantidade enorme de projetos que, se aprovados, se converteriam em instrumentos poderosos para combater a corrupção que corrói as entranhas do poder.

Tanto um projeto quanto outro, parecem não contar com a simpatia dos parlamentares em vê-los aprovados. Até entendemos quais razões alimentam esta falta de vontade política...

* Lei para detalhar impstos na nota está emperrada - O Globo
Na véspera de Natal, faz seis meses que os deputados federais estão retendo um presente para consumidores.

Desde o dia 24 de junho, deixou de constar da pauta da Câmara o projeto de lei 1.472 de 2007, que exige que os impostos pagos sejam discriminados na nota fiscal de produtos e serviços. Se aprovado, o texto, que passou pelo Senado em 2006, irá para a sanção presidencial.

O projeto, fruto da mobilização de várias organizações e entidades de classe - tendo à frente a Associação Comercial de São Paulo -, chegou ao Congresso amparado por 1,5 milhão de assinaturas.

.O relator, deputado Guilherme Campos (DEM-SP), diz que a Receita nunca quis a aprovação da medida, contando com o apoio velado de governos estaduais. A razão é o receio das consequências negativas da divulgação.

O deputado Miro Teixeira (PDT-RJ) concorda:

- A população não tem noção clara do que vai para os cofres federal, estadual e municipal todo dia, e tornar isso transparente não interessa a quem arrecada.

* Projetos anticorrupção emperram no Congresso - O Globo
Há pelo menos 60 propostas tramitando há mais de uma década no Congresso com o objetivo moralizar e coibir a corrupção nas diferentes esferas do Estado.

Porém, não mobiliza líderes e bancadas para que a votação seja efetivada. É o que mostra reportagem de Isabel Braga, publicada na edição deste domingo do jornal O GLOBO.

Dos mais de 60 projetos, 30 chegaram à Comissão de Constituição e Justiça e aguardam pareceres. Outros 20 estão em outras comissões ou são emendas constitucionais à espera da criação da comissão especial de análise do mérito.

De acordo com a reportagem, de ano, apesar dos sucessivos escândalos de corrupção, é possível contabilizar a aprovação e transformação em lei apenas de uma proposta: a que estabelece normas de finanças públicas voltadas para a responsabilidade na gestão fiscal.

Entre as que estão em análise nas comissões a passos de tartaruga há propostas de modificação da lei de licitações, de aumento de penas para crimes de improbidade administrativa e de criação de um tribunal para julgar esse tipo de crime.

* Grandes escândalos, mas sem qualquer punição - O Globo
Em 2009, Senado e Câmara viveram grandes escândalos de desvios de comportamento e de recursos públicos, mas nenhum político sofreu punição. É o que mostra reportagem de Adriana Vasconcelos, publicada na edição deste domingo do jornal O GLOBO.

No Senado, com o patrocínio do Palácio do Planalto, o presidente da Casa, José Sarney (PMDB-AP), por exemplo, escapou ileso de nada menos do que sete processos por quebra de decoro. Entre as denúncias que pesaram sobre ele, a de que contratou e favoreceu parentes no Senado.

Na Câmara, o caso mais rumoroso - o de desvio de recursos da verba indenizatória por Edmar Moreira (sem partido-MG), que ficou nacionalmente conhecido como o deputado do castelo - terminou na absolvição do acusado de irregularidade. Com o singelo argumento de que não estava escrito em nenhum lugar que ele não podia desviar dinheiro da verba em favor de suas empresas.

Seis meses depois da revelação de que o Senado teria editado ao longo dos últimos 14 anos mais de mil atos secretos, parte deles para encobrir casos de nepotismo e assim evitar constrangimentos de parlamentares ou diretores da instituição, só uma pessoa foi punida até agora: o ex-diretor de Recursos Humanos da Casa João Carlos Zoghbi. Ele teve sua demissão publicada há pouco mais de um mês no Diário Oficial da União.

Já a sindicância que apura o envolvimento de Agaciel Maia , ex-diretor geral do Senado, apontado como um dos responsáveis pela edição desses atos secretos, só deverá terminar no próximo ano. Ele foi afastado de sua função de confiança.

Ausência do Estado

Estadão

Elaborado pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) com o objetivo explícito de mostrar a importância do papel do poder público na vida da população brasileira, o recém-divulgado estudo Presença do Estado no Brasil: Federação, suas unidades e municipalidades é, em vários aspectos, uma comprovação da inexistência de serviços públicos em muitas localidades, ou de sua insuficiência, em outras.

Apesar do alto custo que a sustentação do seu enorme aparato impõe a todos os cidadãos - como deixa claro o próprio estudo do Ipea, ao registrar o imenso contingente de funcionários públicos espalhados pelo País -, o Estado não cumpre adequadamente seu papel em parte significativa do território nacional. Em milhares de municípios faltam serviços públicos essenciais, e os mais prejudicados são justamente os que mais precisam deles, pois suas populações não dispõem de recursos para pagar pelos serviços privados.

O objetivo do trabalho, como afirma em seu prefácio o presidente do Ipea, Márcio Pochmann, foi "destacar como ocorre a presença do Estado ao longo do território brasileiro, com ênfase especial nas municipalidades, onde, de fato, vivem e convivem os brasileiros e as brasileiras". O que se destaca, porém, é o contrário desse enunciado - ou seja, a ausência do Estado.

A carência da ação pública é notável especialmente na área da saúde, o que mostra, mais uma vez, a limitada eficácia do Sistema Único de Saúde (SUS), cujos princípios foram estabelecidos em 1990, cumprindo determinação constitucional. Entre esses princípios estão a universalidade, a integralidade (atender às necessidades das pessoas, ainda que não sejam iguais às da maioria) e equidade (todos devem ter igual oportunidade de usar o sistema público de saúde). De um total de 5.564 municípios, 1.867 (33,5%) não dispõe de estabelecimentos de atendimento de urgência do SUS e um número ligeiramente maior (1.875 municípios) não tem estabelecimentos de atendimento de internação do SUS. Em 938 municípios, as unidades do SUS não dispõem de equipamentos para diagnóstico e terapia.

Ainda na área da saúde, a pesquisa constatou que os moradores de 428 localidades não dispõem de médico que atendam pelo SUS. Em 2.780 municípios não há unidades de vigilância epidemiológica e sanitária de qualquer ordem. Obtidos a partir de informações dos três níveis de governo, esses dados são bastante recentes, referindo-se a abril deste ano.

É uma deficiência socialmente perversa, pois prejudica mais os mais pobres. Com razão, o presidente do Ipea observa que "quem mais sofre com a ausência do Estado é aquele contingente da população que não tem recursos próprios para utilizar os serviços privados, e depende do setor público". Ou seja, a ineficácia do serviço público atinge mais duramente a base da pirâmide social.

Na área da cultura, a pesquisa constatou que, em 2.953 municípios (ou 53% do total), não existem estabelecimentos públicos de cultura, como museus e teatros. Em 1.560, não existe serviço de cultura com patrocínio público em nenhum nível de governo.

Dados como esses poderiam ser utilizados como argumento para aumentar os gastos dos três níveis de governo, sobretudo com a contratação de pessoal. Mas, na maioria dos casos, não se trata de falta de pessoal ou de recursos, e sim de má distribuição dos serviços públicos. Uma mudança nos critérios de montagem dos orçamentos, sobretudo os da União e dos Estados, para o atendimento prioritário dos municípios carentes, por exemplo, reduziria rapidamente esses indicadores negativos sobre a distribuição dos serviços públicos de saúde e de cultura.

Quanto a funcionários públicos, seu número é mais do que suficiente para prestar serviços à população em todos os municípios. Só na área de educação e saúde, o poder público emprega 4,2 milhões de pessoas. No total, havia, em 2008, 8,2 milhões de funcionários públicos, o equivalente a 20,8% do total de brasileiros com emprego formal. Ou seja, um entre cinco trabalhadores registrados estava empregado no serviço público. A maior parte deles (4,4 milhões) era formada por funcionários municipais; os governos estaduais empregavam 3,1 milhões de pessoas e o federal, os demais 676 mil funcionários.

***** COMENTANDO A NOTÍCIA:
Mais do que qualquer discurso ou publicidade, este tipo de levantamento mostra a realidade brasileira de forma indiscutível. Mostra o quão distante se está entre esta realidade e as mentiras que tentam mascará-las. 

Tivesse o governo Lula, nestes sete anos que já está no poder, com a situação econômica que encontrou e que pode desfrutar, com a abundância de recursos que não cessam de jorrar nos cofres do Tesouro, aproveitado tais circunstâncias para se dedicar a um projeto de país, e não de poder que é a sua prioridade número um, e certamente o quadro acima seria menos doloroso. 

Diante destes cenários desoladores, não é de se estranhar que encontremos tantas pessoas que colocam em dúvida a seriedade das pesquisas sobre a popularidade de Lula e os índices de aprovação de seu governo. Não me incluo no clube, até pelas razões que várias vezes  já coloquei. A razão maior que explica e em parte justifica os altos índices, se deve muito mais a tremenda desinformação que atinge cerca de 90% da população, e que acabam se valendo muito mais do discurso e da marquetagem do que pelos benifícios que não recebe.  E note-se: apesar dos índices favoráveis à Lula, quando o povo é confrontado com as questões práticas da governança,  como saúde, educação, segurança, transportes públicos, programas sociais, os altos índices não se sustentam. Isto é indicativo da eficiente máquina de propaganda oficial que vende ao país uma mistificação.

A sacanagem de Lula com Estados e Municípios

Prefeituras bancam gastos da União e dos Estados
Ricardo Brandt, Estadão


Municípios perdem fôlego financeiro com repasse de serviços pela União
Para 70% das prefeituras, esse tipo de despesa comprometeu mais do que toda a arrecadação tributária própria

Os 5.563 municípios brasileiros gastaram em 2008 pelo menos R$ 11,8 bilhões com o custeio de serviços que são responsabilidade constitucional da União e dos Estados. Para 70% dessas prefeituras, esse tipo de despesa comprometeu mais do que toda a arrecadação tributária própria - um universo de 3.942 cidades com até 20 mil habitantes que este ano podem fechar as contas no vermelho.

São gastos com a manutenção de prédios da Justiça, das polícias, do Corpo de Bombeiros, de unidades hospitalares estaduais, fornecimento de transporte e merenda para alunos da rede de Estado entre outros. Pelo pacto federativo, os recursos para custear toda essa estrutura deveriam sair dos cofres dos governos federal e estaduais.

"Somos obrigados a decidir entre perder um posto da polícia na cidade, por exemplo, ou comprometer recursos que poderiam ser usados para investimentos. Obviamente optamos pela manutenção dos serviços para a população", afirma o prefeito de Várzea Paulista, Eduardo Pereira (PT), representante da Associação Brasileira de Municípios (ABM).

Na média nacional, 4% da receita total das prefeituras é imobilizada por esse tipo de gasto extra, que incha a folha de despesas em municípios já sufocados por problemas financeiros - em virtude da concentração de receita por parte da União e da queda de transferências de recursos, como o Fundo de Participação dos Municípios (FPM).

O problema é que quanto menor a cidade, maior o estrago. Nos municípios com até 10 mil habitantes (40% das cidades do País), esse comprometimento salta para 10,8% ano. Para se ter noção mais precisa do prejuízo, nas 102 cidades com menos de 2 mil habitantes, os dispêndios que deveriam ser cobertos pela União e pelos Estados chegam a ser 5,14 vezes maiores que a arrecadação tributária local.

Borá, o município menos populoso do País - são 834 moradores -, teve em 2008 uma receita orçamentária de R$ 6 milhões. Ao longo do ano, a prefeitura desembolsou R$ 660 mil para custear despesas que não eram de sua responsabilidade. Ainda em valores absolutos, uma cidade de médio porte como Jundiaí, com 347 mil habitantes, gastou R$ 27,9 milhões pagando por contas que do Estado ou da União - dinheiro que poderia ser usado para investimentos.

Os dados são de um estudo feito pelo economista François Bremaeker, publicado em setembro pela ONG Transparência Municipal. "Se os municípios continuarem a assumir os encargos das demais esferas de governo, sem que seja efetuada a correspondente compensação financeira, não resta dúvida de que acabará por comprometer a qualidade dos serviços oferecidos à população", conclui o pesquisador.

Para ele, a solução seria um novo pacto federativo "que defina as competências de cada ente da Federação e efetue a justa repartição de recursos para o custeio dos serviços e ações de cada ente governamental".

Paulo Ziulkoski, presidente da Confederação Nacional dos Municípios (CNM) - entidade que representa a maioria das prefeituras de cidades de pequeno porte do País -, diz acreditar que o valor gasto é três vezes superior aos R$ 11,8 bilhões calculado pelo estudo. Segundo ele, só para manutenção do principal programa do governo federal, o Bolsa-Família, são gastos de R$ 4 bilhões a R$ 5 bilhões por ano pelos municípios. "Essa é uma criança que o presidente Lula pariu, mas quem cria, educa, paga suas despesas são os municípios", diz Ziulkoski.

Ilegal
Esse pesado encargo que fica às expensas dos municípios compromete não só o caixa das prefeituras, mas representa sérios riscos legais para seus administradores, que poderão ser enquadrados por descumprimento da Lei de Responsabilidade Fiscal.

Em seu artigo 62, a Lei Fiscal estabelece que os municípios somente contribuirão para o custeio de competências de outros entes da Federação se houver autorização em suas leis de diretrizes orçamentárias e previsão nos Orçamentos, além de um convênio, acordo, ajuste ou congênere entre as partes.

O problema é que os municípios nem sempre mantêm convênios com Estado ou União para custear esses serviços. Para Bremaeker, "seria injusto penalizar os agentes políticos por um déficit fiscal provocado por despesas efetuadas com a manutenção de serviços de competência" dos demais entes federativos.

Denúncias de sequestro internacional de filhos crescem com globalização

Pablo Uchoa, Da BBC Brasil



Caso Sean mostra como processo pode ser difícil e lento

Ao abrir espaço para mais casamentos entre pessoas de diversas nacionalidades, a globalização também vem aumentando o número de disputas familiares internacionais envolvendo crianças, como o caso do garoto Sean Goldman.

Segundo dados recentes do Departamento de Estado, foram registrados, em 2008, 1.082 casos envolvendo 1.615 crianças sequestradas dos Estados Unidos por um dos pais, um aumento de 36% em relação aos 794 casos de 2007. Em 2006, foram 642 casos.

Em um levantamento informal para verificar se a tendência é global, o governo americano verificou que o aumento no número de sequestros variou de 20% a 88% nos 13 países que responderam à consulta.

O sequestro de filhos se dá quando um dos pais leva o filho ou a filha para fora do país e, à revelia do outro genitor, decide não devolvê-los.

"Em um mundo incrivelmente conectado, americanas e americanos estão cada vez mais encontrando seus parceiros em outras partes do planeta. Em casos extremos, os parceiros estrangeiros removem filhos desse país", afirmou recentemente no Congresso dos EUA o senador republicano Rush Holt, durante uma audiência sobre o tema.

Na Grã-Bretanha, o número de crianças sequestradas chegou a 470 no ano passado, quase dobrando em relação a 1995, segundo a organização Reunite, que media conflitos desse tipo.

"Temos de aceitar que somos uma aldeia global e que as pessoas têm mais mobilidade em decorrência de trabalhos em outros países e de contratos mais curtos", disse à BBC Brasil a diretora da organização, Denise Carter. Segundo a Reunite, em 60% dos casos a sequestradora é a mãe.

Efeito do tempo
Mas há caminhos inversos, como o da britânica Abigail Hunter, mãe de um garoto de 12 anos levado para os EUA pelo pai quando tinha três anos de idade. Em 2008, cerca 500 crianças foram levadas ilegalmente para os Estados Unidos por um dos pais.

Abigail diz que um dos principais fatores nesse tipo de disputa é o "efeito do tempo".

"Quanto mais o sequestrador consegue manter uma criança, é menos provável que a Justiça decida removê-la, mesmo que seja para corrigir um erro", escreveu Hunter, no jornal The Guardian.


Martin ficou preso em Guarulhos em uma cela com diversos outros presos

No caso Sean, a família brasileira tentou ao longo do processo convencer a Justiça de que era desejo do garoto permanecer no Brasil.

No fim, o Supremo Tribunal Federal (STF) acabou decidindo pela volta do menino aos EUA com base na Convenção de Haia, assinada na Holanda em 1980, que determina o retorno imediato da criança ao seu país de residência.

O Brasil é signatário do acordo e um dos argumentos do Supremo para basear sua decisão foi que manter Sean no país poderia implicar em sanções internacionais.

Já havia contra o Brasil uma queixa na Corte Interamericana de Direitos Humanos e uma ameaça do Senado dos EUA de bloquear o acesso das mercadorias brasileiras a benefícios tarifários americanos – ameaça que foi retirada assim que o STF tornou pública sua decisão.

Outros casos
Em outros casos, a questão é ainda mais complexa – por exemplo, nas histórias da garota Nadia Fawzi, 6, levada da Grã-Bretanha para a Líbia por seu pai líbio sem o conhecimento da mãe, e da garota Rebeca Rezende, 17, cujo pai biológico, o britânico Martin Boyle, alega estar sendo impedido de vê-la por obra da mãe brasileira.

No caso de Nadia, a Convenção de Haia não se aplica porque a Líbia não é signatária do acordo.

A mãe de Nadia, Sarah Taylor, deixou o emprego, vendeu a casa e mudou-se para a Líbia para procurar a filha. Mesmo depois de ganhar na Justiça líbia a guarda da menina, só foi possível reavê-la com uma mediação de alto escalão, que teria envolvido inclusive o primeiro-ministro britânico, Gordon Brown.

No caso de Rebeca Rezende, o pai britânico não conseguiu que a Convenção de Haia fosse aplicada.

A menina não foi levada para o Brasil à revelia do pai, ela já morava no Brasil, onde vivia legalmente sob a guarda da mãe. A alegação do britânico é a de que ele tem tido o acesso à filha dificultado há 15 anos.

Para complicar ainda mais o caso, o britânico foi acusado de abandonar a filha – coisa que ele refuta e atribui à "má-fé" da mãe – e perdeu o poder paterno sobre Rebeca.


Nadia foi levada para a Líbia, país que não assinou o acordo de Haia

Frustrado com as engrenagens do sistema judiciário brasileiro, Martin diz que foi vítima da manipulação da mãe, melhor assessorada e com mais trânsito na Justiça de São José dos Campos (SP), onde o caso se desenrola.

Ele diz que a perda do poder paterno e a posterior adoção de Rebeca pelo marido da mãe surpreenderam até a Autoridade Central brasileira, o órgão do Ministério da Justiça encarregado de levar adiante as petições baseadas na Convenção de Haia.

Em 2008, ele foi informado de que seu caso não se encaixava na Convenção e que deveria tentar reverter as duas decisões na Justiça paulista.

Mobilidade
Para Denise Carter, apesar das imensas diferenças, todos os casos têm em comum a capacidade de colocar o direito familiar de pernas para o ar, à medida que o mundo se globaliza e a identidade das famílias envolve diferentes partes – e legislações – do globo.

"Hoje, vemos pessoas viajando por dois, três, quatro anos de contrato. Isso também vai afetar a noção de residência dos filhos", afirma. "Isto é um grande tema internacional, para o qual precisamos garantir mais mediação, inclusive em termos financeiros."

"O que acontece se eu prometo que uma criança vai viajar do Brasil para ver o pai em Londres duas vezes por ano e os pais não têm dinheiro para pagar as passagens aéreas? Não vai funcionar."

Para ela, é necessário que o tema seja alvo não apenas de legislação internacional, mas também de ações de conscientização do público e mesmo de funcionários do Poder Judiciário.

"Os empregadores também têm a responsabilidade de informar aos seus empregados do que significa viver como uma família em outro país", defende Carter. "Garantir que eles estejam cientes de que, ao se mudar para outro país, podem estar voluntariamente mudando o país de residência de seus filhos."

Na ponta de uma organização que oferece ajuda a famílias de qualquer nacionalidade e em qualquer parte do planeta, Carter diz que conhece "várias histórias de sucesso", inclusive de casais que viveram situações altamente conflitantes mas conseguiram, após mediação, conviver de forma a prover o melhor ambiente familiar para a criança.

Papai Noel tributário

Rubens Branco, O Globo

No apagar das luzes de 2009, o Governo (através da Medida Provisória 472, de 15 de dezembro de 2009) e a Receita Federal do Brasil (através da IN RFB 981/09) trazem diversas alterações na legislação tributária que virão com certeza causar mais dor de cabeça e desconforto (além de mais trabalho) aos contribuintes em 2010 e nos anos que seguirão.

A MP 472 /2009 é na realidade a prova da má utilização das Medidas Provisórias que cria diversos incentivos para o desenvolvimento de indústrias específicas: indústria do petróleo nas regiões Norte, Nordeste e Centro Oeste que recebeu o apelido de REPENEC; cria o Programa Um Computador por Aluno, o PROUCA, e institui benefícios fiscais para a indústria de informática; prorroga benefícios fiscais existentes; dispõe sobre a Letra Financeira e o Certificado de Operações Estruturadas; altera o Programa Minha Casa Minha Vida (PMCMV) e dá outras providências.

Nada contra a implantação de benefícios fiscais para indústrias específicas, como aliás, era comum na época dos Governos Militares, mas a cada dia que passa estamos muito mais perto do que existia a partir de 1º de março de 1964, principalmente a partir do discurso de nosso guia maior que disse no Rio de Janeiro que os empresários (e logo o povo em geral) têm mesmo de se acostumar com impostos altos se não, como vamos ter dinheiro para tantos mensalões, corrupção, e para a saúde da população!

Ao mesmo tempo seu ministro da Fazenda em outro discurso no mesmo dia falava que iremos financiar o desenvolvimento futuro do País com as tais renúncias fiscais (ou seja, os favores dados a determinadas indústrias que o Governo entenda por bem ajudar).

Ou seja, Reforma Tributária mesmo, na forma como a queremos, não iremos ter tão cedo enquanto Municípios, Estados e a União quiserem mais dinheiro e o povão continuar querendo produtos brasileiros mais baratos.

Outras providências
Mas só para ficar nas três ultimas expressões da MP 472 “dá outras providências” já que benefícios fiscais embora dados de maneira discriminada como feito atualmente não se reclama, se aproveita, vamos ver que mais uma vez o contribuinte é quem vai pagar a conta.

Multas novas
Foram tomadas diversas medidas para reduzir a sonegação, criando-se a multa de 75% para despesas consideradas como “indevidas” na declaração da pessoa física (a IN 981/09 faz o mesmo para os créditos indevidamente tomados na pessoa jurídica) ou de 150% se ficar provado evidente intuito de fraude.

Tudo bem tem que se cobrarem mesmo altas multas de quem tenta falsificar documentos ou despesas para reduzir o imposto a pagar ou aumentar indevidamente a restituição do imposto.

Mas o que mesmo significam “deduções e compensações indevidas informadas na declaração anual de ajuste”? Significam que se o contribuinte, ao lançar uma despesa médica de R$ 450,00, digita erroneamente R$ 540,00, ficará sujeito a uma multa de 75% sobre os R$ 540, ou seja, por ter invertido um número pagará R$ 405 de multa.

O mesmo se aplica para uma despesa médica de cirurgia plástica que as autoridades fiscais de maneira ilegal definem como não sendo despesa médica (o que não deixa de ser uma enorme burrice fiscal, pois se estimula a sonegação).

Muitos vão dizer: “mas não temos que combater a fraude?” Respondo que sim, mas os critérios fixados para aplicar altas multas são subjetivos, uma vez que o termo “indevida” vai levar sim ao aumento da arrecadação por aplicação de multas altíssimas para contribuintes que simplesmente erram na declaração de rendimentos.

Quanto à multa de 150% para recibos falsos, embora se possa questionar ser superior ao benefício tomado indevidamente, ela é válida na medida em que desestimula o fraudador.

Mas para desestimular o fraudador iremos também prejudicar milhares de contribuintes. É esperar para ver, mas como a MP ainda tem de passar pela aprovação do Congresso, esperamos que alguém mais esclarecido que tenha a preocupação de não prejudicar a imensa maioria da população defina com mais precisão o termo “indevida”.

Planejações fiscais
Demais medidas tomadas para evitar planejações (mistura de planejamento com mera sonegação):

Se o contribuinte mudar de residência para um país considerado como de tributação favorecida continuará considerado como residente no Brasil, a menos que comprove que está sujeito ao imposto de renda daquela jurisdição e que comprove ainda a residência habitual de sua família na mesma jurisdição ou que demonstre ter ali a maior parte do seu patrimônio.

Quanto a estas medidas nada a criticar, mas é triste verificar como são mal assessoradas as pessoas físicas que se utilizavam destes expedientes como forma de planejamento tributário. É de uma insopitável pobreza intelectual.

Dedução de juros
Outra medida, agora para as pessoas jurídicas, foi a limitação da dedutibilidade dos juros pagos a empresa no exterior que esteja constituída em jurisdições com tributação favorecidas ou pagos a empresas ou pessoa físicas vinculadas.

Esta é uma regra internacionalmente conhecida como thin capitalization rules ou regras de capitalização mínimas onde a parcela do endividamento não pode exceder aos limites de 30% do valor do patrimônio da empresa no Brasil (no caso de credor localizado em países com tributação favorecida) ou de duas vezes o valor da participação da vinculada no patrimônio da pessoa jurídica residente no Brasil.

Nestes dois casos, os juros referentes ao valor do endividamento que ultrapassar os limites estabelecidos serão considerados despesa não dedutível na apuração do lucro real.

Como a matéria é complexa, tenho visto nos jornais que a mesma ainda não foi bem entendida pelos não especialistas já que estão confundindo os limites com a dedutibilidade dos juros.

Vejamos um exemplo:

Empresa brasileira toma emprestado com empresa vinculada no exterior a importância de R$ 1.000.000,00. Vamos assumir que a taxa de juros é de 10% ao ano. Logo, a despesa de juros seria de R$ 100.000,00 anuais.

Vamos assumir que a participação da empresa vinculada no patrimônio líquido da empresa no Brasil seja de R$ 200.000,00. Neste caso, duas vezes o valor do patrimônio, pois seriam de R$ 400.000,00, logo a parcela de juros sobre o excedente de R$ 600.000,00 do empréstimo será glosada na apuração do lucro real.

Como o total dos juros lançados seriam de R$ 100.000,00, somente R$ 40.000,00 seriam dedutíveis do cálculo do lucro real e os outros R$ 60.000,00 seriam considerados despesas não dedutíveis.

Juros - tributação favorecida
No caso do credor estar em país com tributação favorecida, a regra é mais restrita, pois, utilizando-se os mesmos números acima, a parcela do empréstimo cujo juros seriam considerados não dedutíveis seria de R$ 940.000,00, uma vez que 30% do patrimônio são R$ 60.000,00, logo, somente a parcela do empréstimo que estiver dentro dos 30%, no caso R$ 60.000,00 teriam juros considerados dedutíveis.

Como o total dos juros são de R$ 100.000,00, somente uma pequena parcela de R$ 6.000,00 seriam considerados despesa anual dedutível, sendo que o restante R$ 94.000,00 de juros seria considerado despesa não dedutível na apuração do lucro real.

Ou seja, a relação endividamento e patrimônio líquido passou a compor uma equação que irá determinar o quanto dos juros a serem pagos serão considerados como despesa dedutível para fins do cálculo do Imposto de Renda e da Contribuição Social sobre o Lucro (CSSL).

Para que não fiquem dúvidas estes critérios se aplicam aos empréstimos devidamente registrados no Banco Central do Brasil.

Despesas em geral- países com tributação favorecida
Quaisquer outras despesas pagas para empresas ou indivíduos domiciliados em países com tributação favorecidas só serão consideradas despesas dedutíveis se houver cumulativamente:

- Identificação do efetivo beneficiário da empresa ou entidade credora no exterior;

- Houver comprovação (aqui mais uma vez se abre a interpretações subjetivas o que além de ilegal contribui para corrupção) da capacidade operacional da empresa no exterior que realizar a operação. Como mesmo se comprova isto?

- Houver comprovação documental do pagamento do preço e do recebimento dos bens, direitos ou a utilização dos serviços.

Impostos novos
E para não terminar sem a criação de um imposto novo foi introduzida a tributação de 15% de imposto de renda na fonte nas remessas ou pagamentos sobre prêmio de seguros cedidos ao exterior. Ou seja, as seguradoras ao transferir ao exterior o resseguro feito no Brasil cobrarão um imposto de 15% na fonte o que vai, sem dúvida, aumentar o custo dos seguros para o segurado no Brasil.

Também foi criada a Taxa de Fiscalização dos mercados de seguros e resseguro, de capitalização e de previdência complementar aberta que também acabará no bolso do segurado brasileiro.

Como disse o nosso guia, temos de nos acostumar com impostos altos e com todos os outros impostos que eles venham a criar.

Boas Festas e um Feliz Ano Novo a todos os contribuintes.

Pesquisa revela despreparo dos professores para usar novas tecnologias

Jornal do Brasil


BRASÍLIA - Pesquisa realizada em 400 escolas públicas em 13 capitais brasileiras mostra que o tradicional problema de falta de infraestrutura está sendo superado pela falta de preparo para lidar com as novas tecnologias. De maneira geral, as escolas agora possuem computadores, mas têm de enfrentar a falta de treinamento dos profissionais para melhorar o uso das máquinas, conclui levantamento da Fundação Victor Civita. Entre as instituições de ensino, 98%, por exemplo, tem computador e 83% acesso a internet com conexão banda larga. Mas em poucas escolas os equipamentos são utilizados de forma eficiente na melhoria da aprendizagem.

– A formação inicial não prepara os professores para isso. Você precisaria combinar a disponibilidade dos recursos com a melhor formação para que a tecnologia fique a serviço da aprendizagem dos conteúdos escolares – explica Ângela Danneman, diretora executiva da fundação e responsável pela pesquisa.

Entre os professores entrevistados, 74% diz que foi pouco ou nada preparado durante sua formação para utilizar o computador como ferramenta pedagógica. E mais da metade não participou de nenhum tipo de curso de atualização em tecnologias no último ano.

Outro dado negativo é que nas escolas os computadores costumam estar concentrados em áreas administrativas ou no laboratório de informática. Em apenas 4% delas há máquinas nas salas de aula.

– A média de alunos das escolas nas capitais brasileiras é de 1 mil. E a minoria delas têm mais do que 30 computadores, então ainda temos a necessidade de ampliar a infraestrutura – aponta a pesquisadora. Apenas 15% das escolas têm mais de 30 máquinas, 28% entre 21 e 30, 29% entre 11 e 20 e 28% têm de um a dez.

A especialista destaca que é importante que os professores dominem não só o uso de ferramentas, mas saibam como utilizá-las na transmissão de conteúdos de forma a motivar o aprendizado.

– Os jovens estão muito avançados no uso da internet, eles se comunicam em redes sociais, usam blogs, a escola precisa acompanhar isso. Mas precisa acompanhar fazendo o que é papel da escola, ou seja, na aprendizagem dos conteúdos – defende.

Desperdício
A pesquisa da Fundação Victor Civita revela, por exemplo, que os professores ainda dão preferência aos programas mais simples quando utilizam o computador com seus alunos. Para a metade dos entrevistados, o software mais utilizado é o de edição de texto, seguido por programas de visualização de mapas (48%) e editores de apresentação. Segundo o estudo, falta preparo aos docentes para inserir as novas tecnologias de forma eficiente dentro de sala de aula.

“A atividade mais realizada pelo professor com seus alunos é editar, digitar e copiar conteúdos”, aponta trecho do relatório da pesquisa.

Para o professor do Laboratório de Novas Tecnologias Aplicadas na Educação (Lantec) da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), Sérgio Amaral, o investimento feito pelos governos – federal, estaduais ou municipais – para equipar as escolas se tornam “uma estupidez” se não houver preparação dos professores para trabalhar com as tecnologias.

– Não adianta nada instrumentalizar. O computador já é uma realidade na escola, mas o problema fundamental é que o professor não utiliza o recurso como instrumento didático. É ínfimo o potencial que se está utilizando – critica o especialista. Segundo Amaral, a falta de preparo vem da base, tendo em vista que os próprios cursos de graduação não preparam os futuros educadores para a tarefa. E a maioria dos cursos oferecidos posteriormente, segundo ele, são “instrumentais”. – O que o professor precisa não é de um treinamento para dominar as tecnologias da informática. Mas para aprender como usar esses recursos, qual é a didática por trás?

Para Amaral, quando o recurso tecnológico é mal utilizado acaba sendo apenas um gerador de despesas e um fator de distanciamento entre professores e alunos.

– Um computador caro vira um retroprojetor. E essa subutilização tem impacto no aprendizado do aluno. A criança já tem contato com o mundo digital pelo celular, pelo videogame, nas lanhouses. É preciso criar a aproximação desses sujeitos (professor e aluno). Caso contrário, o desinteresse e o distanciamento continuam sistêmicos – explica o professor.

O estudo aponta ainda que apenas 28% das escolas contam com um professor orientador de informática. Segundo Ângela Danneman, esse foi o modelo adotado pelos sistema educacional brasileiro para introduzir e administrar as tecnologias nas escolas.

- O importante é garantir a formação de todos os professores, (o que vai) melhorar a utilização da tecnologia como ferramenta para a aprendizagem de todos os conteúdos – completa. (ABr) .

***** COMENTANDO A NOTÍCIA:
Uma pergunta obrigatória, indispensável: a quem caberia cuidar desta capacitação? É claro que apresentar, em programas de propaganda eleitoral, escola dotadas de recursos tecnológicos dá IBOPE. A frustração dos alunos vem depois, e isto, claro, o marketing político faz questão de ignorar.

Ou seja: o problema da educação brasileira, está visto, nunca foi a da falta de recursos. O que nos falta, além da melhor capacitação dos professores, como acima se noticia, é de fato, melhor eficiência na aplicação dos recursos que existem.

Como tais recursos são investidos apenas para provocar "emoção" no eleitorado, acabamos sempre jogando dinheiro no lixo, já que a qualidade, que é o que mais interessa, continua relegada a um segundo plano.

Um marco que n~´ao serve prá nada!

Governo esquece temas polêmicos em projeto de novas regras da internet
Jornal do Brasil

BRASÍLIA - O governo deve enviar até março do próximo ano ao Congresso Nacional o projeto de lei do novo marco regulatório da internet. Produzido pelo Ministério da Justiça, o marco civil, como está sendo chamado, deverá tratar de direitos fundamentais dos usuários de internet, responsabilidades desses usuários e deveres do Estado, mas deve deixar de fora temas polêmicos como direitos autorais, pedofilia e outros assuntos de direito penal.

– A ideia é criar uma primeira camada de interpretações para assuntos legais relacionados à internet, lançando pedras fundamentais para depois tratar outras questões – explica o coordenador do projeto, Paulo Rená da Silva Santarém. De acordo com o representante do governo, os assuntos mais polêmicos não devem ser pautados pelo marco porque já estão com o debate “mais estruturado socialmente e já possuem projetos de lei específicos”. Antes de tratar deles, na opinião do coordenador, é preciso criar um mecanismo para que as decisões judiciais sobre o uso da internet sejam uniformizadas. – Atualmente você pode ter duas decisões judiciais sobre um mesmo assunto completamente diferentes. E as duas estarão embasadas legalmente nos preceitos constitucionais. É preciso criar diretrizes para guiar essas decisões.

Informações
O texto em elaboração pelo governo passa pela primeira parte da consulta pública, prevista para ir até o último dia 17, e deve focar questões como anonimato em declarações e privacidade e divulgação de dados dos usuários. Sobre este último tópico, ainda não está decidido o que exatamente a nova lei determinará, mas já se sabe que a orientação é para que as informações sobre a movimentação do usuário dentro de uma página não possam ser compartilhada entre empresas livremente para fins comerciais.

O projeto surge a partir de uma exigência dos movimentos sociais ligados ao tema que cobraram do governo federal um marco regulatório. O texto vai na contramão de alguns projetos que tramitam no Congresso Nacional que buscam mais controle e restrição na rede. Alguns projetos prevêem, por exemplo, a necessidade de registro biométrico para o uso da internet e a obrigatoriedade da instalação de câmeras de vigilância em lan houses.

– A intenção do projeto é não começar a regular internet pela porta da cadeia. O objetivo é ampliar a liberdade – garante Rená.

A priorização da liberdade dos usuários faz parte de um conjunto de diretrizes lançadas pelo Comitê Gestor da Internet (CGI) – órgão que cuida da governança da internet no Brasil – que prevê também a neutralidade da rede, a inimputabilidade da rede pelas violação de direitos que possam ser cometidas e ambiente legal regulatório, entre outros.

Direito fundamental
Também devem ser incorporados ao projeto os princípios do Plano Nacional de Banda Larga, que será divulgado pelo governo até o fim de janeiro. Junto com a previsão do plano de levar internet rápida e barata para todo o país, universalizando o acesso, o novo marco regulatório irá incluir esse acesso como preceito constitucional.

– A ideia é transformar uma política de governo em política de Estado. Como direito fundamental do cidadão, isso passará a ser um compromisso estatal – acrescenta o coordenador.

O novo marco civil deverá passar por uma segunda consulta pública quando a minuta do projeto estiver pronta, entre janeiro e fevereiro. A primeira consulta ficou já está disponível na internet há 45 dias e recebeu uma média diária de 1,3 mil visitas. (ABr)

***** COMENTANDO A NOTÍCIA:
Da forma como o governo está compondo o tal marco regulatório, só podia mesmo obra do colosso chamado Tarso Genro. Ninguém como ele, conseguiria produzir tanta inutilidade.

Ora, se é para servir como marco regulatório, deixar de fora as questões como direitos autorais, pedofilia e outros assuntos de direito penal, é um absurdo; pode-se dizer que o restante não resolve coisa alguma. Sem atender as questões mais importantes que estão exigindo justamente uma inadiável regulação, o tal marco se torna uma peça inútil, como aliás, inútil é tudo aquilo da larva do senhor Genro. Conclusão: o marco regulatório se tornará a cara de seu criador, se é que vocês me entendem...

Dirigismo cultural

Estadão

Quando levou ao Congresso Nacional o projeto de reforma da Lei Rouanet - a Lei nº 8.313 de 23/12/1991, de incentivo fiscal à cultura -, o ministro da Cultura, Juca Ferreira, disse que "a Lei Rouanet completou 20 anos sem produzir grandes resultados". E criticou, especialmente, o excesso de concentração de recursos públicos destinados à cultura no chamado eixo Rio-São Paulo. Talvez seja um tanto subjetiva a avaliação do que poderiam ter sido "grandes resultados" nestes 18 anos (e não 20) de vigência da lei que, por meio do mecanismo da renúncia fiscal, estimula a produção cultural e artística. Também é discutível se não se justifica a concentração de recursos em regiões que concentrem maior quantidade de produtores de cultura e arte. Não se pode ignorar que produz e consome mais projetos culturais uma região do País que representa 73% do Produto Interno Bruto (PIB) nacional e é o maior mercado para os produtores culturais de todas as demais regiões.

De qualquer forma, o mecanismo fiscal de estímulo à cultura - originalmente introduzido no País por lei de autoria de José Sarney - tem trazido benefícios à cultura e às artes no Brasil, mas também tem propiciado grandes distorções. E a mais evidente delas tem sido um certo "dirigismo mercadológico", como se a renúncia fiscal - que, afinal, onera todos os contribuintes - devesse se prestar ao financiamento da promoção de marcas ou produtos comerciais de qualquer natureza. Nesse sentido, haveria razões para se reformar o sistema vigente de incentivo fiscal à cultura e às artes, quer estabelecendo limites porcentuais para as deduções fiscais incentivadas, quer melhorando o sistema de fiscalização - sem emperrar os projetos com excesso de burocracia - e ainda eliminando os tipos de "intermediação" entre patrocinadores e produtores culturais. Estes tópicos estão no novo projeto.

Pela nova proposta, as doações poderão ser totalmente abatidas do Imposto de Renda somente se repassadas ao novo Fundo Nacional de Cultura, que começará a funcionar em 2010, com orçamento de cerca de R$ 800 milhões. No caso de patrocínios (mecenato) para projetos específicos, as empresas poderão abater de 40% a 80% dos valores doados do Imposto de Renda, dependendo do projeto. E o abatimento só será integral se a transferência de recursos for feita para os patrimônios de fundações culturais, dos quais apenas os rendimentos podem ser utilizados nas atividades culturais. É com isso que o Ministério da Cultura pretende acabar com as distorções que são o financiamento público do marketing cultural de grandes empresas e do custeio de fundações privadas.

Mas o projeto enviado ao Congresso suscita dúvidas. Por exemplo, a submissão do valor porcentual dedutível, em cada projeto, a determinados critérios de avaliação ou a características de interesse que ele apresente não fará o sistema recair sobre outra forma de dirigismo cultural não mercadológico, mas governamental?

A Lei Rouanet em vigor, no seu artigo 22, resolve essa questão ao determinar que "os projetos enquadrados nos objetivos desta lei não poderão ser objeto de apreciação subjetiva quanto ao seu valor artístico-cultural". Não parece, no entanto, que a mudança proposta pelo Ministério da Cultura pretenda manter esse importante princípio. Aliás, os produtores de arte e cultura sempre tiveram que resistir às tentativas de seus financiadores de influenciar seu trabalho. Mas uma coisa é a eventual pressão exercida por um mecenas - que sempre pode ser rejeitada - e outra, muito diferente, é a pressão dos governos, que têm um poder de coerção incomparavelmente maior.

Assim é que, nem comissões governamentais, nem gestores de recursos públicos, nem empresas patrocinadoras devem imiscuir-se na produção artística e cultural, para conduzi-la por este ou aquele caminho.

Uma coisa é certa: o incentivo fiscal tem sido importante para o desenvolvimento da cultura e da arte do Brasil. No entanto, jamais as sociedades produziram arte e cultura, de boa qualidade, "de cima para baixo" - quer dizer, com orientação oficial ou sem liberdade de expressão.