sábado, janeiro 11, 2020

Por que a Austrália vai abater milhares de camelos — com atiradores a bordo de helicópteros

BBC Brasil

Caçadores em helicópteros vão abater a tiros mais de 10 mil camelos no sul da Austrália.

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O que se considera como o grupo de 'camelos selvagens australianos' também inclui dromedários

A razão? O calor extremo e a grave seca que atingem a região.

O sacrifício dos animais, que começou na quarta-feira (08) , tem previsão de durar cinco dias.

Os caçadores pertencem ao Departamento de Meio Ambiente e Patrimônio da Austrália.

A população dos animais que serão caçados, na verdade, não é só de camelos: o que se considera como o grupo de "camelos selvagens australianos" também inclui dromedários.

A decisão foi tomada depois que as comunidades aborígenes da região denunciaram que grupos de camelos estavam danificando estruturas em busca de água.

"Eles estão andando pelas ruas em busca de água. Estamos preocupados com a segurança das crianças", disse Marita Baker, da comunidade Kanypi.

Alguns cavalos selvagens também serão abatidos.

O calor e a seca provocaram uma onda de incêndios florestais na Austrália nos últimos meses, mas a seca prolongada se estende há anos no país.

É por isso que o sacrifício dos camelos não está diretamente relacionado à crise causada pelas queimadas.

O abate será realizado na reserva Anangu Pitjantjatjara Yankunytjatjara (APY), área onde vivem vários grupos de povos indígenas.

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Animais invadiram comunidades em busca de água 
por causa da seca prolongada


'Pressão extrema'

"Há uma pressão extrema sobre as comunidades aborígines nas terras APY e suas atividades pecuárias com esses camelos em busca de água", afirmou Richard King, diretor-geral da APY, em comunicado.

"Dada a seca prolongada e as grandes concentrações de camelos que ameaçam comunidades e a infraestrutura na APY, é necessário controlar os camelos imediatamente."

"Estamos presos nestas condições de calor incômodas e sofrendo com a chegada dos camelos, eles estão derrubando cercas e se aproximando das casas para tentar obter água dos aparelhos de ar-condicionado", acrescentou Marita Baker, membro do conselho executivo da APY.

Muitos desses camelos morrem de sede e brigam entre si por água.

"Em alguns casos, as carcaças dos animais contaminaram importantes fontes de água e áreas culturais", vitais para os aborígenes da região.

Fora de controle

Esses camelos não são nativos da Austrália. Eles foram levados para o país no século 19 por colonizadores britânicos — e são provenientes da Índia, do Afeganistão e do Oriente Médio.

O número de camelos pode variar, mas estima-se que existam hoje centenas de milhares de exemplares em toda a parte central do país.

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A onda de incêndios florestais que atinge a Austrália
já deixou 25 mortos desde setembro

Os camelos danificam áreas ocupadas por humanos, incluindo cercas e equipamentos agrícolas. Além disso, bebem a água que seria destinada às pessoas que habitam essas áreas.

Eles também emitem gás metano, gás de efeito estufa que contribui para as mudanças climáticas.

Em entrevista à rede de televisão ABC, Richard King informou que vai aproveitar o momento em que os camelos se aproximarem da água para abatê-los.

"Isso nos dá a oportunidade de caçá-los quando estão juntos, porque eles geralmente se deslocam pelo deserto em pequenos grupos", explicou King.

Incêndios florestais

A onda de incêndios florestais que atinge a Austrália já deixou 25 mortos desde setembro — e quase 2 mil casas foram destruídas pelo fogo, que consumiu pelo menos 5 milhões de hectares até agora.

Cerca de 800 milhões de animais também perderam suas vidas nos incêndios, que afetam particularmente o leste e o sul do país.

Na Austrália, os incêndios florestais são comuns nessa época do ano, mas nesta temporada a situação foi pior do que em anos anteriores. A cada década, faz mais calor no país, e a expectativa é que a situação continue a se agravar.

De fato, os cientistas alertam há algum tempo que a seca e o aumento da temperatura vão contribuir para que os incêndios se tornem mais frequentes e intensos.

Incêndio na Austrália: governo ordena evacuação de 240 mil pessoas

Revista VEJA

Apesar de as previsões apontarem para uma queda do vento, a partir deste sábado, as autoridades antecipam que as próximas horas serão 'muito complicadas'

  Jonty Smith/Reuters
A cor do céu se transforma em vermelho na cidade de Mallacoota, 
Austrália, devido aos incêndios 

As autoridades australianas enviaram, nesta sexta-feira, 10,, mensagens de celular a 240 mil pessoas no estado de Victoria recomendando-lhes que estejam prontas para fugir da sua área de residência “assim que recebam a ordem”. Apesar de as previsões apontarem para uma queda do vento, a partir deste sábado, as autoridades antecipam que as próximas horas serão “muito, muito complicadas”.

As populações de regiões de alto risco, em Nova Gales do Sul e Austrália do Sul, foram igualmente notificadas para pensarem em abandonar as suas casas, mas não foi revelado quantas pessoas receberam a mensagem.

Shereen e Kim Green, proprietários de três casas e de 50 cabeças de gado nos arredores da cidade costeira de Éden, na Nova Gales do Sul, foram entrevistados enquanto enchiam um tanque com capacidade para mil litros de água.

Atrás deles, o horizonte era só fumaça, enquanto o ar em torno ficava carregado de cinzas empurradas pelos ventos fortes.

 “Isto é para apagar focos de incêndio e vamos ficar a pé a noite toda para proteger a nossa propriedade”, explicou Shereen, enquanto o seu veículo estremecia sob as rajadas de vento. “Estamos a aproveitar a oportunidade enquanto podemos”.

Em Éden, o nível de alerta subiu para atenção e ação na noite de sexta-feira. Sob uma torre de vigia, Robyn Malcom, outro residente, garantiu que “se tudo correr mal, vamos correr para o porto e embarcamos num barco”.

Aos jornalistas, o primeiro-ministro, Scott Morrison, revelou que os militares estão de prontidão para agir no terreno, caso as condições de eclosão de incêndio se tornem extremas, sob altas temperaturas e ventos erráticos.


Críticas e protestos

Morrison está ele mesmo debaixo de fogo, após milhares de australianos terem saído à rua na tarde de sexta-feira, contra a estratégia do governo para combater as alterações climáticas.

O primeiro-ministro da Austrália tem rejeitado as críticas e, aos microfones da radio 2GB, mostrou-se desapontado com a relação que as pessoas têm feito entre os recentes incêndios no seu país e os objetivos de redução de gases de estufa.

“Não queremos objetivos e alvos de destruição de empregos, de destruição de economia e de desmantelamento econômico, que não mudarão o fato de que temos incêndios florestais ou coisas dessas na Austrália”, afirmou Morrison.

Várias das estradas principais do sudeste australiano estavam fechadas esta tarde, devido à fumaça e às chamas.

Em torno de Sidney, foram as manifestações que bloquearam a circulação automóvel, com pessoas a cantar “ScoMo has to go!” [“ScoMo vai-te embora”]. Houve protestos também em Camberra, capital da Austrália, e em Melbourne, cidades recentemente incluídas na lista dos lugares com pior poluição atmosférica do mundo devido à fumaça dos incêndios.

A ira chegou mesmo à Grã-Bretanha, onde uma centena de pessoas se manifestou junto à sede da Alta Comissão da Austrália, em Londres.

“Estou aqui porque o governo australiano não está a fazer absolutamente nada sobre as alterações climáticas. Pelo contrário, de forma geral negam-no e precisam ser submetidos a pressão intensa”, disse Peter Cole, um londrino de 76 anos, erguendo um cartaz que acusa Scott Morrison de “tocar violino, enquanto a Austrália arde”.

Outro cartaz chamava Morrison de fossilfool, num trocadilho com as palavras inglesas para combustíveis fósseis.


Horas “muito complicadas”

Daniel Andrews, responsável pelo estado de Victoria, um dos mais afetados pelos incêndios, criticou as manifestações, dizendo que desviam recursos securitários e são inoportunas.

 “O senso comum diz-nos que há outras alturas para marcar posição”, reagiu Andrews num briefing na televisão. “Respeito o direito das pessoas ao seu ponto de vista, e estou inclinado a concordar com muitos dos pontos referidos – as alterações climáticas são reais – mas há um tempo e um lugar para tudo e não penso de um protesto esta noite seja algo apropriado”.

As autoridades do estado estão focadas no evoluir das condições atmosféricas e dos fogos ativos, e na proteção das populações.

“Até com chuva em Melbourne, mesmo com a precisão de melhoria de condições na próximas semana, há ainda um longo caminho a percorrer naquilo que tem sido uma prevalência de incêndios sem precedentes”, disse Andrews. “E, claro, sabemos que temos muitas semanas da época de incêndios pela frente”, acrescentou.

“As próximas horas vão ser muito, muito complicadas”.

Lisa Neville, ministra de Victoria para a Proteção Civil, informou que as comunidades receberam telefones satélite, comida para bebês, alimentos, fraldas e lanternas, para o caso de ficarem isoladas.


Mais 1 grau Celsius desde 1910

Nova Gales do Sul contabilizava ao início da noite de sexta-feira 160 fogos ativos, 46 dos quais sem controle. Dois evoluíam sob o “nível de emergência” e mais oito sob a categoria “atenção e ação”. O restante mantinha-se no nível mais baixo de atenção.

No vizinho estado de Victoria contavam-se 36 incêndios, nove deles em nível de emergência. O estado já perdeu 1,3 milhões de hectares para as chamas nos meses recentes.

Numa área de fronteira entre ambos os estados, dois incêndios estavam prestes a se fundir, criando um incêndio de mais de 600 mil hectares.

Desde outubro já morreram 27 pessoas e milhares foram forçadas a fugir, várias vezes, devido a incêndios devastadores, que queimaram mais de 10 milhões de hectares – numa área semelhante à da Coreia do Sul – provocando igualmente a perda de milhares de espécies naturais e uma catástrofe ecológica.

Cientistas do clima alertam que a frequência e intensidade dos incêndios se irá agravar à medida que o continente australiano se tornar mais quente e seco. Desde que há registos (1910), o clima da Austrália aqueceu cerca de 1 grau Celsius, revelou esta semana a cientista da NASA Kate Marvel.

“Isto torna mais prováveis as ondas de alta temperatura e de fogos”, tweetou Marvel. “Não há explicações para isto – nenhuma – que faça sentido, além das emissões de gases de estufa”, acrescentou.

As diferenças entre sunitas e xiitas, que explicam boa parte dos conflitos no Oriente Médio

BBC Brasil

Essa é grande divisão do mundo muçulmano: sunitas e xiitas. Hoje, ela está particularmente em evidência por causa das tensões entre Estados Unidos, seu grande aliado na região, a Arábia Saudita, e o Irã.

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O aiatolá Ali Khamenei, líder do Irã, e o príncipe Mohammed bin Salman, 
príncipe herdeiro da Arábia Saudita


A ordem do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, de matar o general iraniano Qasem Soleimani provocou uma resposta militar do Irã, que atacou com mísseis balísticos duas bases que abrigam tropas americanas no Iraque.

Para muitos analistas, as diferenças entre os dois ramos do Islã são um lembrete claro das complexas relações entre os dois principais inimigos no Oriente Médio.

Ambos os países estão envolvidos em uma luta feroz pelo domínio regional — e essa disputa de décadas é agravada por essas diferenças religiosas.

Cada um deles segue um ramo: o Irã é majoritariamente xiita, enquanto a Arábia Saudita tem os sunitas como principal vertente.

A divisão remonta ao ano de 632 e à morte do profeta Maomé, que resultou em uma luta pelo direito de liderar os muçulmanos. De certa maneira, essa disputa continua até hoje.

Embora as duas vertentes coexistam há séculos, compartilhando muitas crenças e práticas, sunitas e xiitas mantêm diferenças importantes em questões de doutrina, rituais, leis, teologias e organização.

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Mohammad bin Salman é o atual príncipe herdeiro 
da Arábia Saudita, país de maioria sunita

Seus respectivos líderes também tendem a competir por influência religiosa.

E da Síria ao Líbano, passando por Iraque e Paquistão, muitos conflitos recentes enfatizaram ou até agravaram essa divisão, separando comunidades inteiras.

A BBC News Mundo, serviço em espanhol da BBC, explica nesta reportagem em que consistem esses dois ramos do Islã e suas principais diferenças.

Quem são os sunitas?

Os sunitas são a maioria entre os muçulmanos — cerca de 86% a 90% pertencem a essa corrente. Os adeptos se consideram o ramo mais tradicional e ortodoxo do Islã.

De fato, o nome sunitas vem da expressão "Ahl al-Sunna": "o povo da tradição". Nesse caso, a tradição se refere a práticas derivadas das ações do profeta Maomé e seus parentes.

Assim, os sunitas veneram todos os profetas mencionados no Alcorão, mas particularmente Maomé, que é considerado o profeta supremo. Já os líderes muçulmanos subsequentes são vistos como figuras temporárias.

Em contraste com os xiitas, professores sunitas e líderes religiosos têm historicamente ligações com o Estado e com governos.

A tradição sunita, que tem a maior expressão na Arábia Saudita, também defende um sistema jurídico islâmico claramente codificado, além de pertencer a uma das quatro escolas de direito.

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Muitos clérigos xiitas participaram de manifestações no Irã 
e no Iraque após morte do general Soleimani

Quem são os xiitas?

Os xiitas começaram como uma facção política: literalmente "Shiat Ali", ou partido de Ali.

O Ali em questão era genro do profeta Maomé, e os xiitas reivindicam o direito dele e o de seus descendentes de liderar os muçulmanos.

Ali foi morto como resultado de intrigas, violência e guerras civis que marcaram seu califado. Ele tinha dois filhos, Hassan e Hussein. No entanto, foi negado a eles o direito — que muitos consideravam legítimo — de suceder Ali

Acredita-se que Hassan foi envenenado por Muawiyah, o primeiro califa — isto é, o líder dos muçulmanos da dinastia omíada. Já seu irmão Hussein morreu em um campo de batalha, junto com vários membros de sua família.

Esses eventos estão por trás do conceito xiita de martírio e rituais de luto.

De fato, a fé xiita também é caracterizada por um elemento messiânico. Os religiosos dessa vertente também têm uma hierarquia de clérigos que praticam uma interpretação aberta e constante dos textos islâmicos.

Estima-se que atualmente existam entre 120 a 170 milhões de fiéis xiitas, aproximadamente um décimo de todos os muçulmanos.

Eles são a maioria da população no Irã, Iraque, Bahrein, Azerbaijão e, segundo algumas estimativas, também do Iêmen.

Mas também existem comunidades xiitas importantes no Afeganistão, Índia, Kuwait, Líbano, Paquistão, Catar, Síria, Turquia, Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos.

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Nos países governados por sunitas, os xiitas geralmente 
estão entre a parcela mais pobres da sociedade

Qual o papel dessa divisão nos conflitos políticos?

Nos países governados por sunitas, os xiitas geralmente fazem parte da parcela mais pobre da sociedade e se vêem como vítimas de opressão e discriminação.

Alguns extremistas sunitas também pregam ódio contra os xiitas.

Em 1979, a revolução iraniana lançou uma agenda islâmica radical do lado xiita, o que desafiou os governos sunitas conservadores, particularmente no Golfo Pérsico.


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A divisão determina alianças e inimigos no Oriente Médio

E a política de Teerã de apoiar partidos xiitas e milícias em países vizinhos foi compensada pelos países do Golfo com mais apoio aos governos e movimentos sunitas no exterior.

Por exemplo, durante a guerra civil no Líbano, os xiitas ganharam destaque graças às atividades militares do Hezbollah.

E os extremistas sunitas, como o Talebã, fizeram o mesmo no Paquistão e no Afeganistão, onde frequentemente atacam locais de culto xiitas.


Inimigo comum

Enquanto isso, os conflitos atuais no Iraque e na Síria também adquiriram tintas sectárias.

Muitos jovens sunitas se juntaram aos grupos rebeldes nesses países, muitos dos quais reproduzem a ideologia extremista da Al Qaeda, um grupo sunita.

Já seus colegas xiitas geralmente lutam nas forças do governo ou ao lado delas, embora o Irã e a Arábia Saudita tenham identificado um inimigo comum: o auto-denominado Estado Islâmico.