sábado, maio 05, 2012

Os rasgadores de contratos da América Latina


Miriam Leitão
O Globo

A Petrobras havia comprado duas refinarias da Bolívia, por US$ 102 milhões, no programa de privatização. E comprou por insistência do então governo boliviano, que não tinha como modernizá-las. No dia primeiro de maio de 2006, elas foram ocupadas com tropas do exército boliviano e expropriadas. Mas, no final, a Petrobras recebeu US$ 112 milhões e ainda tem um valor para receber de dividendos. A Bolívia poderia ter feito tudo diferente.

Os governos da Bolívia, Equador e Venezuela pagam pelas suas estatizações, que anunciam como nacionalizações justas, em meio a comícios e brados populistas.

Em alguns casos, a empresa que é atacada não consegue receber o que acha justo porque tudo é feito como na Argentina com a YPF: é um tribunal local que vai arbitrar o preço. A YPF quer arbitragem neutra e internacional. Os dois lados ainda brigam.

Cada país é soberano para dizer o que acontece em seu solo, obviamente, mas paga-se um preço alto por quebra de contratos, atos espalhafatosos, ocupação de empresas com tropas, expulsão de executivos de suas salas e outras arbitrariedades.

Na Venezuela, as empresas foram forçadas a vender seus ativos para a PDVSA. A Exxon Mobil, segundo avaliação feita por Adriano Pires, do CBIE, acabou recebendo 10% do que pedia:

— A opção é sempre aceitar ou nunca ver a cor do dinheiro, tendo que brigar em tribunais internacionais.

Na Bolívia, o governo reestatizou campos de gás que tinham a participação da Petrobras e as duas refinarias. Mas a empresa brasileira diz que não se sente lesada, já que recebeu de volta o preço que pagou.

A Petrobras investiu e recuperou as refinarias, mas também teve lucro durante o período em que a operou. A empresa brasileira é estatal e acaba aceitando o preço que o governo quer que ela aceite para não ter briga com vizinhos. Mas, de qualquer maneira, ela recebeu pelas refinarias.

No Equador, a Petrobras também recebeu US$ 217 milhões por uma concessão que foi cancelada.

Na Província de Neuquén, na Argentina, a estatal brasileira enfrentou o mesmo problema: o cancelamento de uma concessão, e de forma intempestiva. A empresa está negociando, mas, como Neuquén tem autonomia, não depende tudo do governo federal.

A presidente da Petrobras, Graça Foster, está sendo dura. Falou em audiência na Câmara que o Brasil não rompe contrato e não vai aumentar investimento na Argentina. A Vale também anunciou a mesma coisa. O JBS fechou ou vendeu quatro das cinco unidades que tinha no país vizinho.

O caminho escolhido pela Bolívia, Argentina, Venezuela e Equador leva apenas ao descrédito, à redução do investimento de empresários nacionais e estrangeiros. Depois que se cria o ambiente de insegurança jurídica fica difícil recuperar a reputação de bom lugar para investimento.

A própria atitude de quem vai para um país assim é a de retirar o máximo de lucro no menor tempo possível, porque um fato como o deste primeiro de maio na Bolívia — que expropriou a empresa de transmissão de energia — pode acontecer de repente.

O Brasil deve evitar ser visto como parte de um movimento latino de recuperação dos ativos na lei ou na marra. Não há risco de atitudes assim por parte do governo brasileiro, mas o ideal é não demonstrar, por atos e palavras, apoio às decisões dos governos que estão expropriando bens privatizados.

O Brasil tem atraído investimento, e de longo prazo, de várias partes do mundo, até porque não há qualquer inclinação no governo de fazer uma insensatez dessas. Em má hora os vizinhos começam a tomar decisões tresloucadas. Nos últimos anos, a América Latina cresceu a um ritmo forte, por isso o melhor a fazer era aproveitar a onda.

O governo, em qualquer país, mesmo quando vende seus ativos em programas de privatização continua com muito poder. Ele nunca poderá abrir mão, por exemplo, do poder regulatório. Como muitas dessas empresas são concessionárias de serviço público — como no caso da empresa de transmissão de energia da Bolívia — bastava aprovar normas que a obrigassem a investir, se esse fosse o problema.

Nos primeiros dias logo após a ocupação das refinarias da Bolívia, o presidente Evo Morales fez as mais duras críticas à Petrobras. Hoje, já se sabe o fim da história: o governo boliviano indenizou a estatal brasileira.

Na Venezuela, Hugo Chávez sempre fez espetáculos públicos nas expropriações das empresas e depois negociou o pagamento. Mas o que ficou foi a fama de governante que rasga contratos.

Como investidor, o Brasil precisa também se proteger, e às suas empresas, para reduzir o risco de eventos como os que têm envolvido a Petrobras e outras companhias brasileiras.

Dias depois da expropriação da YPF, o governo argentino veio pedir ao Brasil mais investimento, e o ministro Edson Lobão deu demonstração de que aceitaria.

É um erro achar que se os vizinhos enxotarem empresas com maus modos nós poderemos ocupar o lugar delas com as nossas companhias. Quem rasga contrato uma vez rasga novamente.

O Brasil precisa ser tão cauteloso quanto qualquer outro investidor nesse momento em relação aos rasgadores em série de contratos na América do Sul.

Pobreza real argentina seria três vezes maior do que a oficial


Ariel Palacios 
O Estado de São Paulo

Índice de pobreza calculado pela Universidade Católica Argentina aponta a existência de 8,7 milhões de pobres no país, ou seja, 6,1 milhões a mais do que diz o governo

BUENOS AIRES - A Universidade Católica Argentina (UCA), que elabora um índice próprio de pobreza, anunciou que 21,9% dos argentinos são pobres. O índice da instituição contraria os números oficiais, preparados pelo Instituto Nacional de Estatísticas e Censos (Indec), que sustentou na semana passada que a pobreza quase desapareceu do país, já que somente afetaria 6,5% dos argentinos, o equivalente a 2,6 milhão de pessoas. Mas, segundo o cálculo da UCA, existem 8,7 milhões de pobres na Argentina. Entre ambas estimativas existe uma significativa brecha de 6,1 milhões de pessoas.

A UCA também afirma que, dentro da população pobre, a proporção de pessoas indigentes é de 5,4%, enquanto que o Indec sustenta que é de apenas 1,7%. Desta forma, de acordo com o cálculo oficial, somente existiriam 680 mil pessoas indigentes em toda a Argentina. Segundo a UCA, os indigentes chegariam a 2,2 milhões.

Segundo o Indec, a pobreza teria caído de 53% em 2003 (ano da posse de Nestor Kirchner) para 23,4% em 2007 (ano da posse de Cristina Kirchner). Em 2011, segundo o Indec (ano da reeleição de Cristina), a pobreza foi de 8,3%. Neste ano, com o índice oficial da pobreza em 6,5%, o Indec celebrou "o menor índice dos últimos 30 anos".

No entanto, a UCA, os partidos da oposição, economistas independentes e diversos sindicatos afirmam que não há motivos reais para celebrar. Segundo eles, o governo tenta camuflar a pobreza desde 2007, ano em que o governo Kirchner iniciou uma férrea intervenção no Indec, que implicou na manipulação das estatísticas sobre a inflação, PIB, além da evolução do número de pobres. Segundo os economistas, a pobreza, que havia caído entre 2003 e 2006, voltou a crescer em 2007. Desta forma, o total de pobres oscilaria atualmente entre 20% e 25% da população.

Os economistas indicam que a pobreza na Argentina pode ter-se transformado em um fenômeno "estrutural", já que não desce do patamar extraoficial de 20%.

Segundo o relatório da UCA, a província de Tucumán e os municípios da Grande Buenos Aires concentram os principais bolsões de pobreza.

Agustín Salvia, pesquisador do Observatório da Dívida Social da UCA considera que "os programas sociais do governo não foram eficientes para reduzir os índices. É difícil perfurar o piso da pobreza no contexto inflacionário por intermédio da transferência de ingressos".

Enquanto a pobreza persiste, a economia informal permanece elevada. Segundo dados oficiais, 34,1% dos assalariados não possuem carteira registrada. Em média, os profissionais informais recebem salários 57% inferiores aos formais na Argentina.

RICA - 
Cristina Kirchner é - depois do bilionário chileno Sebastián Piñera - a segunda presidente mais rica da América do Sul, com US$ 17 milhões, segundo a declaração oficial de bens, basicamente investidos em imóveis e aplicações financeiras. A fortuna de Cristina - uma declarada admiradora de Evita Perón, a "mãe dos humildes" - aumentou 930% desde 2003.

A presidente argentina - que em seus comícios ostenta um Rolex Presidente, usa bolsas Louis Vuitton e sapatos Christian Louboutin - define sua política como "nacional e popular", mais conhecida pela abreviatura "nac e pop".

Glossário sobre problemas econômicos e pobreza

A gíria do Rio da Prata, o "Lunfardo", possui vários termos para referir-se a fatos da pobreza.

Malaria: Nada a ver com a doença tropical. Na Argentina é o período de vacas magras, tempos de pobreza.

Mishiadura: Miséria, indigência. Provém do genovês 'miscio'.

Mango: Tal como no Brasil, dinheiro. Também pode ser usado como unidade monetária. Un mango, dos mangos, tres mangos.

Guita: Dinheiro. Gaita.

"No tengo siquiera un peso partido al medio": "Não tenho sequer um peso partido pela metade". Expressão típica para indicar falta total de cash.

Sope: 'Peso', a unidade monetária local, dito ao contrário.

Marcha à ré na América do Sul


O Globo


É impressionante que alguns países sul-americanos enveredem cada vez mais por um caminho que, longe de os fazer avançar, os leva na direção oposta, rumo a um pântano em que muitos já atolaram.

Na América do Sul, há grupos indo em duas direções: uns progridem melhorando suas credenciais democráticas e aperfeiçoando a economia de mercado; outros embrulham em novos slogans a velha ideia nacionalista/populista de que a solução é estatizar empresas.

Não surpreende que sejam estes os que mais maltratam a democracia.

O fundador do atual ciclo nacional/estatizante foi o coronel Hugo Chávez, da Venezuela, que imaginou transformar sua nação num obstáculo ao “avanço do império” (os EUA) na América do Sul e reunir em torno de si uma constelação de países com o mesmo credo numa associação, a Aliança Bolivariana da América (Alba), capaz de rivalizar com a Alca (Área de Livre Comércio das Américas).

Exageros caudilhescos à parte, os EUA não levaram a Alca à frente, por relutância do Brasil/Argentina, e a Alba ficou apenas como símbolo do grupo dissonante.

Aliado de Chávez, Evo Morales, primeiro indígena a governar a Bolívia, aproveitou a data cheia de simbolismo do Primeiro de Maio para nacionalizar a Rede Elétrica Espanhola (REE), dona da Transportadora de Eletricidade (TDE), que atende a 85% do mercado boliviano.

Já é uma tradição: há seis anos, anunciou a estatização de toda a cadeia de petróleo e gás, inclusive dos ativos da Petrobras. Desde então, a cada Dia do Trabalho, Morales providencia novas encampações.

A iniciativa boliviana ocorreu pouco mais de duas semanas após a expropriação, pelo governo argentino, da empresa de energia Repsol-YPF, pertencente ao grupo espanhol Repsol.

Medida que provocou impacto no mercado e forte repúdio na Espanha, que iniciou, inclusive, alguns procedimentos retaliatórios. A repercussão foi péssima também na UE.

Na Argentina, os ciclos se sucedem ao sabor da necessidade do governo da hora, pois a YPF fora privatizada no governo Menem, em 1999. O mesmo aconteceu com a Aerolíneas Argentinas, vendida na década de 90 ao grupo espanhol Marsans e expropriada em 2008.

O grupo pró-estatização inclui, além de Cuba, Venezuela, Bolívia, Equador, Nicarágua. O velho argumento de expulsar o “tubarão imperialista” — seja ele uma multinacional americana ou uma empresa espanhola — não passa de um truque para caudilhos do século XXI usarem o nacionalismo exacerbado para se perpetuar no poder.

Mesmo que ao custo de afugentar o investimento externo necessário à melhoria das condições de vida da população. É o velho populismo em ação.

Sabe-se que a empresa privada é mais eficiente e oferece maior gama de produtos e serviços ao consumidor. O Estado, aí sim, tem os instrumentos para punir desvios de conduta.

Países sul-americanos mais bem-sucedidos, como Brasil, Chile e Peru, são exemplos disso. Já a empresa estatal é sabidamente ineficiente e, no mais das vezes, deficitária. Sangra os cofres do Estado e, em consequência, o bolso do contribuinte.

Serve apenas ao caudilhismo, enquanto ele está no poder.

Elevação do nível dos mares até o fim do século pode ser menor do que se pensava


Marco Túlio Pires
Veja online

Geleiras da Groenlândia estariam derretendo mais lentamente do que o esperado. Segundo especialista, nível está de acordo com relatório da ONU

 (iStockphoto/ThinkStock) 
Quanto mais rápido as geleiras se movem, 
mais gelo e água derretida elas depositam nos oceanos

Novas estimativas para o movimento das geleiras indicam que a contribuição da Groenlândia para a elevação do nível dos mares no século 21 pode ser menor do que alguns cientistas pensavam. O estudo foi feito por pesquisadores da Universidade de Washington, nos Estados Unidos, e será publicado nesta quinta-feira na revista Science.

Quanto mais rapidamente as geleiras se movem, mais gelo e água elas vertem no oceano. Em estudos recentes sobre as mudanças do clima, os cientistas acreditavam que o gelo derretido da Groenlândia teria uma contribuição, até o ano 2100, de 10 centímetros no aumento do nível do mar. No cenário mais pessimista, essa contribuição seria de 48 centímetros. Contudo, os dados que serviram de base para essas pesquisas não eram muito precisos.

O aumento no nível dos mares é preocupante porque pode causar uma crise global. De acordo com o a ONG ambiental Greenpeace, mesmo o melhor cenário pode causar enchentes, contaminar reservatórios de água potável e aumentar a salinidade de estuários. Algumas cidades e vilas próximas à costa seriam afetadas. 

Agora, os especialistas da Universidade do Washington, em Seattle, analisaram o movimento das geleiras da Groenlândia entre os invernos de 2000 a 2010 usando dados de satélites. As observações revelaram que a velocidade das geleiras não aumentou tanto quanto se supunha em estudos anteriores. 

Os cálculos mais otimistas indicavam que as geleiras dobrariam de velocidade entre 2000 e 2010. Os mais pessimistas apontaram que o aumento seria de 10 vezes. "Até agora, vimos um aumento médio de 30% em dez anos", disse Twila Moon, chefe da pesquisa. 

O estudo afirma que não há pistas claras de que as geleiras vão diminuir de velocidade até o fim do século. "Essa é a desvantagem de um estudo que cobre apenas 10 anos", disse Ian Howat, coautor. "Esse período é muito curto para entender o comportamento das geleiras em longo prazo."

Isso quer dizer que eventos no futuro podem causar grande aumento na velocidade das geleiras e, portanto, levar mais água aos mares. "Ou talvez, grandes geleiras no Norte da Groenlândia, que ainda não exibiram alterações, podem acelerar o movimento, o que aumentaria enormemente a taxa de crescimento do nível do mar", disse Howat.

Detalhes — 
De acordo com Twila, as observações precisam ser mais detalhadas para realmente entender os efeitos das mudanças do clima. "Vamos precisar acompanhar as mudanças nas geleiras e analisar detalhes complicados para entender como essas alterações acontecem."

A análise da especialista é corroborada pela revista Science, que na mesma edição publica dois artigos de opinião defendendo que os cientistas precisam, dentre outras coisas, de mais detalhes sobre o nível dos mares em escala local e compreender melhor a interação dos oceanos com o gelo, para estimular políticas de mitigação e adaptação.

Opinião do especialista

Paulo Artaxo
Pós-doutor pela Universidade de Harvard e físico da USP, Artaxo é especialista em mudanças climáticas e membro do IPCC, o painel intergovernamental da ONU sobre mudanças climáticas

A conclusão do artigo é de que no caso das geleiras da Groenlândia, a contribuição para o aumento do nível do mar vai ficar próximo do limite inferior de outras estimativas recentes, mas dentro da faixa esperada. Esta faixa de valores é relativamente larga, pela falta de observações detalhadas como esta, e pela falta de dados tomados por períodos de tempo mais amplos.

Mas o estudo cobre somente a Groenlândia (não cobre a Antártica nem geleiras continentais de outras regiões). Além disso, o espaço de tempo é de somente 10 anos, fatos limitantes reconhecidos pelos autores.

Dependendo do cenário, a projeção do último relatório do IPCC publicado em 2007 é de 20 a 60 centímetros de aumento médio do nível do mar até 2100. Este valor é abaixo das estimativas mais recentes (trabalhos publicados de 2007 a 2011) e está de acordo com as projeções deste artigo. Algumas estimativas de trabalhos mais recentes vão de 70 a 120 centímetros.

Este artigo certamente vai entrar como uma contribuição científica na próxima revisão do IPCC que será publicada em 2013.


Revista 'Nature' publica controverso estudo sobre vírus da gripe aviária

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Artigo revela como os cientistas conseguiram fazer com que o vírus seja transmissível entre mamíferos, tornando-o potencialmente mais letal
(Thinkstock) 
Modelo digital mostra o vírus H5N1, causador da gripe aviária 

A revista britânica Nature publicou finalmente, nesta quarta-feira, o estudo que mostra como cientistas produziram uma versão mutante do vírus da gripe aviária, o H5N1, tornando-o infectável entre mamíferos. O artigo foi publicado depois de meses de negociações. Em dezembro de 2011, um painel de especialistas que aconselha o governo americano havia recomendado que partes sensíveis do estudo não fossem publicadas, pois as informações poderiam ser usadas para a fabricação de armas biológicas. No fim de março, contudo, o painel de especialistas voltou atrás, e o artigo foi encaminhado para publicação. Outro estudo parecido deverá ser publicado na revista Science nos próximos dias.

O H5N1 é um vírus que pode matar seres humanos, mas não consegue se espalhar facilmente entre pessoas (saiba mais abaixo). Os cientistas queriam entender se o micro-organismo teria o potencial para iniciar uma pandemia, ou seja, ser transmitido por via área entre seres humanos — atualmente, apesar de sua alta letalidade, ele só é transmitido pelo contato com carne contaminada de aves; a transmissão de humano para humano é raríssima. A pesquisa divulgada agora foi conduzida pelo virologista japonês Yoshihiro Kawaoka, da Universidade de Wisconsin-Madison e da Universidade de Tóquio. 



A equipe de Kawaoka provocou a mutação de um gene chamado hemaglutinina (HA), responsável pela produção da proteína que o vírus utiliza para se encaixar nas células hospedeiras. Do mesmo modo que os vírus da gripe desenvolvem novas características realizando a troca de genes, os pesquisadores combinaram o HA com outros sete de um vírus da gripe altamente transmissível em humanos, o H1N1, o mesmo que causou uma pandemia em 2009.

Os pesquisadores descobriram que quatro mutações são suficientes para que o H5N1 consiga se espalhar entre furões separados por gaiolas, indicando que a transmissão do vírus se dá por via aérea. É assim que a maioria dos vírus da gripe comumente se espalha entre os humanos. Três dessas mutações permitem o HA se encaixar nos receptores das células dos mamíferos, e a quarta estabiliza a proteína.

Pandemia — 
O estudo mostra que o H5N1 natural pode estar a apenas uma mutação distante de se espalhar entre seres humanos. Isso porque algumas cepas do vírus no Oriente Médio já conseguem reconhecer receptores de células humanas. Contudo, elas não são estáveis. Se essa cepa atingir a quarta mutação descrita no artigo publicado na Nature, é possível que haja uma pandemia da gripe aviária. "A descoberta de que a HA precisa estar estável para ser transmissível pelas vias aéreas de seres humanos é uma descoberta importante", disse à Nature a virologista Wendy Barclay, do Imperial College London.

Para verificar se o H5N1 poderia reconhecer os receptores de células humanas, a equipe de Kawaoka realizou mutações aleatórias na proteína HA. Os cientistas criaram 2,1 milhões de cepas diferentes. Apenas uma reconheceu os receptores humanos. Depois disso, os pesquisadores fundiram o gene HA mutante com outros sete encontrados na cepa do H1N1 que causou a pandemia em 2009. O vírus híbrido evoluiu ainda mais depois que a equipe infectou furões, considerados o melhor modelo animal para se estudar a gripe humana. 

Depois de seis dias, um dos animais tinha em seu organismo muito mais vírus que os demais, algo na ordem das dezenas de milhares. Depois de sequenciar essa cepa específica do vírus, os pesquisadores descobriram que ele adquiriu uma terceira mutação no HA. Foi essa mutação que permitiu, pela primeira vez, a transmissão do vírus entre os furões. Animais em gaiolas próximas também ficaram doentes. Colhidas algumas amostras, os cientistas verificaram que alguns dos vírus transmitidos pelo ar tinham uma quarta mutação no HA. Essa alteração melhorou ainda mais a capacidade do vírus de se transmitir entre os bichos.

Baixa letalidade — 
A boa notícia é que o vírus não matou nenhum dos furões infectados, e sua transmitissão é mais lenta que a cepa do H1N1 da pandemia de 2009. Além disso, ele causou menos danos severos ao pulmão e é vulnerável tanto ao remédio Tamiflu como a um protótipo de vacina contra o H5N1. Os pesquisadores ainda não sabem se a transmissão do vírus entre seres humanos é tão bem-sucedida quanto em furões, nem se as quatro mutações do HA dariam à versão natural do vírus as mesmas habilidades. Isso porque os sete genes do H1N1 inseridos no vírus híbrido podem ter contribuído para a transmissão pelas vias aéreas.

De acordo com Kawaoka, a maior descoberta está na natureza das quatro mutações que permitem a transmissão do vírus pelas vias aéreas. Para lançar o material genético, os vírus da gripe precisam fundir suas membranas com as das células hospedeiras. A proteína HA inicia esse processo ao mudar de forma em resposta ao nível de acidez da célula. Contudo, as três mutações no receptor do vírus produzido por Kawaoka fazem essa transformação acontecer prematuramente, reduzindo a habilidade do vírus em se espalhar. A quarta mutação, chamada T3181I, estabiliza a proteína, fazendo com que ela mude de forma na hora certa. Além disso, ela faz o vírus mais resistente a altas temperaturas. Todas as quatro mutações são necessárias para que o vírus reconheça a célula correta e a infecte efetivamente.

Controvérsia — 
O artigo só foi publicado na Nature depois de um longo debate entre a comunidade científica, o governo americano e a imprensa. Em novembro de 2011, um painel de especialistas que aconselha o governo americano pediu que tanto a revista Science quanto aNature retirassem partes sensíveis das duas pesquisas (o artigo da Science, conduzido por outros cientistas, ainda não foi publicado) que poderiam ser usadas por terroristas para a fabricação de armas biológicas.

Muitos cientistas protestaram, inclusive os autores, dizendo que os benefícios da publicação eram maiores que os riscos. O trabalho poderia ajudar na fabricação de uma vacina contra o vírus. Muitos consideraram que a não publicação violaria a liberdade acadêmica. O painel de especialistas, então, pediu que se encontrasse uma forma de disponibilizar a parte sensível do artigo apenas para pesquisadores legítimos. Contudo, logo ficou evidente que não haveria jeito de se fazer isso em escala global.

Em entrevista à rede britânica BBC, Philip Campbell, editor-chefe da revista Nature, comentou sobre o dilema de publicar o controverso estudo. "Se tivéssemos optado pela censura, como decidiríamos quais pesquisadores deveriam receber as informações sensíveis? Como poderíamos garantir, realisticamente, que essa informação ficaria restrita ao ambiente universitário?"

O estudo se mostrou útil ao revelar vários mecanismos da transmissão do H5N1 que eram desconhecidos, como a importância da estabilidade da proteína produzida pelo gene HA para a transmissão eficiente entre os furões. "O estudo de Kawaoka aumenta substancialmente nosso conhecimento sobre quais propriedades virais controlam a transmissão por via áerea dos vírus da gripe", disse Vincent Racaniello, professor de virologia na Universidade de Columbia, em seu blog. "A visão de que o estudo proporcionaria a criação de armas biológicas é altamente especulativa e fundamentalmente errônea."

·                     O que é a gripe aviária?
Gripe aviária ou influenza aviária é uma doença contagiosa causada por um vírus que normalmente atinge só as aves, mas que em algumas ocasiões também contaminou humanos.

·                     O que é o vírus H5N1?
Ele é o vírus que causa a gripe aviária. Surgiu em 1997, provavelmente em algum lago, rio ou represa da Ásia, onde gansos e codornas dividiam o mesmo habitat. Nessa ocasião, um vírus da gripe mais agressivo, que há pouco havia acometido os gansos locais, foi transmitido para as codornas. O vírus se misturou com dois outros vírus das codornas e daí nasceu o H5N1.

·                     Como ele passou das aves para os humanos?
Ele circulou entre as aves até atingir as galinhas de Hong Kong. Ali, os trabalhadores da granja entraram em contato com seus excrementos e, para a surpresa dos cientistas, contraíram a doença.

·                     Quantas pessoas já morreram por causa da H5N1?
Das 507 pessoas já infectadas com o vírus, 302 faleceram em consequência da doença.

·                     Como se contrai o vírus?
A contaminação humana normalmente ocorre no contato com excrementos de aves ou manuseamento do corpo de aves mortas. Até onde se sabe, é seguro comer os ovos ou a carne das aves contaminadas desde que ela seja devidamente cozinhada – o vírus H5N1 é sensível ao calor.

·                     Qual a diferença da H5N1 para a gripe comum?
Os sintomas são bem parecidos. A diferença é que o H5N1 causa uma inflamação muito mais grave no pulmão, levando mais da metade dos pacientes à morte. Ao contrário da gripe comum, não é transmitido de humano para humano.

O vírus da discórdia

Variante mais mais perigosa do vírus da gripe aviária, criado por virologistas nos Estados Unidos e na Holanda, provocou controvérsia entre cientistas e autoridades

20 de dezembro de 2011
O Painel Científico Consultivo para Biossegurança Nacional (National Science Advisory Board for Biosecurity), solicita que as revistas Science e Nature não publiquem detalhes de um estudo sobre uma nova versão do vírus da gripe aviária, mais perigosa, transmissível entre mamíferos.


21 de janeiro de 2012
Os cientistas que criaram uma versão geneticamente alterada e potencialmente transmissível entre humanos do vírus da gripe aviária H5N1 decidem interromper as pesquisas por 60 dias. Em um artigo publicado nas revistas científicas Nature e Science, eles afirmam que querem dar tempo "aos governos e organizações para discutir esse tipo de pesquisa."


31 de janeiro de 2012
Em comunicado publicado nas revistas Science e Nature (periódicos aos quais os artigos foram submetidos para veiculação), o Painel Científico Consultivo para Biossegurança Nacional (National Science Advisory Board for Biosecurity, NSABB), órgão do Departamento de Saúde dos Estados Unidos, afirma que a divulgação dos estudos colocaria em risco a biossegurança e a saúde pública mundiais.


30 de março de 2012
Depois de recomendar a não-publicação dos artigos, o Painel Científico Consultivo para Biossegurança Nacional (National Science Advisory Board for Biosecurity, NSABB), órgão do Departamento de Saúde dos Estados Unidos, volta atrás e afirma que a divulgação dos estudos revisados podem ser uma boa forma de compreender melhor a transmissão do vírus e e melhorar a biossegurança no país.


02 de maio de 2012
Depois de meses de discussões, enfim a revista Nature publica o artigo na íntegra, explicando os detalhes do desenvolvimento da variante do vírus capaz de ser transmitida pelo ar entre mamíferos. Virologistas elogiam a publicação por esclarecer mecanismos ainda não conhecidos sobre a transmissão do H5N1.


Seleção natural ainda se aplica aos seres humanos


Marco Túlio Pires
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Estudo contraria ideia de que a agricultura e a monogamia teriam impedido a evolução natural dos seres humanos
(iStockphoto/ThinkStock) 
Mesmo com a revolução agrícola e a monogamia, 
a seleção natural continua atuando na evolução humana, diz estudo

Um novo estudo comprova que a seleção natural, proposta pelo naturalista inglês Charles Darwin no século XIX, ainda se aplica à espécie humana. O artigo foi publicado nesta segunda-feira no periódico PNAS.

Pesquisadores de diferentes áreas, como medicina, ciências sociais e biologia, ainda não chegaram a um acordo sobre o quanto a seleção natural influenciou a evolução humana depois de adaptações sociais e culturais e a revolução agrícola. Parte dos cientistas considera que alguns aspectos seletivos, como o acesso à comida e influências ambientais, não são tão importantes hoje quanto eram nas sociedades de caçadores-coletores de 10.000 anos atrás.

O estudo realizado na Universidade de Turku (Finlândia), contudo, aponta que a seleção natural ainda se aplica aos seres humanos. Para chegar a essa conclusão, os autores analisaram o registro de 6.000 finlandeses pertencentes a famílias monogâmicas entre 1760 e 1849. Os cientistas determinaram se as mudanças demográficas, culturais e tecnológicas da revolução agrícola reduziram a seleção natural em humanos. 

Os cientistas usaram informações detalhadas sobre a condição econômica, nascimento, mortes e casamentos e estudaram quatro estágios da seleção natural: sobrevivência à vida adulta, acesso à procriação, sucesso na procriação e a fertilidade por indivíduo. A pesquisa revelou que a intensidade da seleção natural nas populações era compatível com a seleção em outras espécies.

Por exemplo, quase metade das pessoas morreram antes de completarem 15 anos. Nenhum dos seus genes foram passados para as gerações seguintes, um sinal de que a seleção natural atuou sobre essa população. Dos que conseguiram avançar além da infância, 20% não se casaram e não tiveram filhos. Isso sugere que algumas características impediram alguns indivíduos de conseguir parceiras e passar os genes para a próxima geração.

Apesar de a monogamia ter limitado o potencial da seleção natural, o estudo revelou que todos os pré-requisitos para a seleção natural foram cumpridos. Isso é verdade mesmo para indivíduos mais ricos, que teoricamente teriam recursos para impedir que a seleção natural favorecesse essa ou aquela pessoa. Os mais ricos poderiam, por exemplo, tratar de algum filho doente contratando serviços médicos, evitando que ele morresse antes de chegar à vida adulta. Contudo, o estudo descobriu que as taxas de sobrevivência logo após o nascimento e a fertilidade desempenharam papel mais importante.



Saiba mais

SELEÇÃO NATURAL
A teoria da seleção natural foi formulada pelo naturalista Charles Darwin em seu livro A Origem das Espécies, em 1859. Segundo a teoria, as criaturas mais adaptadas — não necessariamente as mais fortes — conseguem passar adiante suas características, enquanto as menos adaptadas perecem. Ainda segundo essa teoria, todas as criaturas têm um ancestral em comum. Mutações sucessivas foram diferenciando as espécies. As mutações que deixavam os seres mais adaptados prosperavam. 


Aversão às carnes pode ter explicação genética


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“Para essas pessoas, o cheiro da carne realmente é repugnante, e lembra suor ou odor de urina”, explica pesquisador
 (Ninell Art/iStockphoto/Getty Images)
Carne: genes podem determinar aversão ao alimento

O motivo pelo qual algumas pessoas têm, e outras não, aversão à carne pode ser genético, de acordo com um novo estudo feito na Universidade Norueguesa de Ciências da Vida. Segundo os pesquisadores, a presença de um gene que permite que um indivíduo sinta um odor típico de carnes como a de porco pode determinar a repulsa pelo alimento. "Para essas pessoas, o cheiro da carne é repugnante e lembra odor de urina”, explica um dos pesquisadores responsáveis pela pesquisa.

O trabalho, publicado nesta quarta-feira no periódico PLoS One, é um dos primeiros a mostrar como os genes podem influenciar os nossos hábitos alimentares.

Como explicam os autores do estudo, a capacidade de as pessoas detectarem odores se deve a receptores químicos presentes nas células nervosas do nariz. No total, um indivíduo possui genes ligados a aproximadamente 400 receptores de odor diferentes, capazes de detectar algo em torno de 10.000 cheiros variados. Alguns desses receptores são capazes de detectar a androsterona, um hormônio esteroide encontrado em grandes concentrações nos porcos machos. Estudos anteriores mostraram que cerca de 70% da população mundial possui genes que permitem que uma pessoa sinta a androsterona, o que provoca reações diferentes em cada indivíduo.

De acordo com um dos autores do estudo, Hiroaki Matsunami, os indivíduos mais sensíveis ao odor da androsterona são aqueles que possuem as duas cópias do gene OR7D4, que é justamente o gene ligado aos receptores capazes de detectar o hormônio. Ou seja, devem herdar o gene tanto do pai quanto da mãe. “Para essas pessoas, o cheiro da carne realmente é repugnante, e lembra suor ou odor de urina”, explica o pesquisador. No entanto, como o autor indica, há pessoas com somente uma cópia do gene (e uma variante) que, mesmo sentindo o odor do hormônio, não se incomodam tanto com ele. “Esses indivíduos não acham o cheiro da carne tão desagradável, e muitas vezes o odor é tão fraco que chega perto de se tornar imperceptível”, diz.

A pesquisa — 
Para chegar a essa conclusão, Matsunami e sua equipe selecionaram 23 adultos saudáveis. O trabalho foi feito em três etapas: primeiro, os autores do estudo adicionaram androsterona em dois de três copos de água e pediram que os participantes cheirassem cada copo e identificassem qual deles tinha um odor diferente. Assim, a equipe concluiu que os que estavam certos eram os indivíduos sensíveis ao odor do hormônio. Em seguida, os participantes tiveram que comer carne de porco moída e cozida com níveis variados de androsterona que era acrescentada à carne e, depois, avaliaram sabor e cheiro do alimento. Por fim, os autores realizaram testes genéticos nos indivíduos.

Os pesquisadores descobriram que todas as pessoas que conseguiram identificar o cheiro da androsterona nos copos de água tinham duas cópias do gene relacionado aos receptores do odor do hormônio. Além disso, esses indivíduos foram mais propensos a classificar o sabor da carne como ruim. Por outro lado, aqueles que possuíam somente uma cópia do gene não identificaram o odor da androsterona e tenderam a considerar o sabor da carne bom.

Segundo os autores, o estudo mostrou que os genes certamente influenciam a capacidade de uma pessoa identificar odores e, consequentemente, interferem nas preferencias por determinados alimentos. Porém, eles lembram que a experiência é outro fator que deve ser levado em consideração, já que, segundo a pesquisa, parte das pessoas que inicialmente não conseguem identificar determinado odor podem passar a senti-lo se entrarem em contato com o cheiro repetidamente.

CONHEÇA A PESQUISA

Título original: Genetic Variation of an Odorant Receptor OR7D4 and Sensory Perception of Cooked Meat Containing Androstenone

Onde foi divulgada: periódico PLoS One

Quem fez: Kathrine Lunde, Bjørg Egelandsda, Ellen Skuterud, Joel D. Mainland, Tor Lea, Margrethe Hersleth e Hiroaki Matsunami

Instituição: Universidade Norueguesa de Ciências da Vida, Noruega

Dados de amostragem: 23 adultos saudáveis

Resultado: Pessoas que têm duas cópias do gene OR7D4 são mais sensíveis ao odor de um hormônio presente em porcos machos, consideram o cheiro desagradável e tendem a não gostar de carne, em comparação com quem possui somente uma cópia do gene.

Saiba mais

ANDROSTERONA
É um hormônio esteroide, que está relacionado com a testosterona e é responsável por dar o odor desagradável típico de carnes de animais machos, especialmente da suína. Já é sabido que quando os animais são castrados, esse cheiro diminui. Por isso, ao menos nos Estados Unidos, animais como os porcos são castrados antes de serem comercializados, prática que, segundo a pesquisa da universidade norueguesa, a Europa vem considerando banir.