quinta-feira, dezembro 16, 2010

Os brasileiros roubados em 2010 são 190 milhões

Adelson Elias Vasconcellos

No Jornal da Globo, reportagem de André Luiz Azevedo, informa que doze milhões de brasileiros foram roubados em 2009. Pena que a pesquisa não abrange o ano de 2010. Por certo, o recorde seria quebrado com larga facilidade e diferença. Já conto porque, mas antes leiam a reportagem:

O número faz parte de uma pesquisa sobre a sensação de segurança com que se vive no Brasil. É como se quase toda a população da capital de São Paulo fosse assaltada nesse período.

Telefone celular, dinheiro, cartão de crédito: esta é a lista do que mais é roubado dos brasileiros. “Minha filha foi assaltada com uma faca na barriga. Até hoje não recuperou o celular”, diz a odontóloga Derci do Vale.

À noite nas ruas, vigilância e precaução. Em um ano, cerca de 12 milhões de brasileiros foram roubados ou furtados. É como se quase toda a população da capital de São Paulo fosse assaltada nesse período.

O índice faz parte de um estudo feito pelo IBGE em 2008 e 2009. Segundo a pesquisa, de 6 milhões de pessoas que foram roubadas, apenas a metade procurou um PM ou uma delegacia. Uma em cada três vítimas não acredita na polícia.

“A pessoa acha que a polícia não vai se mobilizar para resolver um delito pequeno, como furto de um cordão, uma bicicleta. E também existe a burocracia, que é um registro policial”, afirma Geraldo Tadeu Moreira, pesquisador do Centro de Criminologia.

A pesquisa do IBGE sobre a violência nas cidades não perguntou apenas se o brasileiro foi roubado ou furtado. Quis saber mais: se as pessoas se sentem seguras ou inseguras dentro de casa, nos bairros e nas cidades onde moram.

A maioria das pessoas diz que se sente segura dentro de casa, mas, à medida que o brasileiro se afasta do lugar onde vive, a sensação de segurança diminui. Quem mora na região Norte se sente ainda menos protegido nas cidades. Já o Sul é o lugar do Brasil onde as pessoas se dizem mais tranquilas para andar nas ruas.

Sentir-se protegido também tem a ver com a idade e com a renda da pessoa. Quanto mais velho e mais rico, mais inseguro. “É um desafio dos próximos governos recuperar essa confiança da população na polícia através de políticas de controle da ação policial, de melhoria da qualidade no atendimento, porque esse é um dado que aparece em todas as pesquisas”, diz Moreira.

***** COMENTO:

Vejam lá: segundo a pesquisa, apenas metade das pessoas dão queixa na polícia dos roubos e assaltos que sofrem. Contudo, em 2010, nem isso.

O que o Congresso aprontou em menos de 24 horas, assaltando o bolso de 190 milhões, acreditem, não receberá queixa ou registro policial. Mas deveria, e com todos os culpados sendo presos em flagrante, de forma incomunicável e inafiançável. Não se explica e não se justifica aumentos para eles próprios em mais de 60,0 %, e, para o executivo – presidente, vice e ministros – em mais de 100,0%, quando de 2007 – ano do último aumento – para cá, a inflação não cresceu além de 20%. Mas vocês acham o crime pequeno? Pois saibam, meus caros, que o salário mínimo, cuja discussão parece interminável, não irá além de uma merreca de 5,5%, ou R$ 540,00 por mes, afora os descontos de praxe.

É um acinte. Parlamentares, ministros, presidente e vice ganharão, numa pernada, quase cinquenta vezes mais que o maior salário regional vigente no país. Vergonhoso quando se sabe que o diferencial em países sérios, não é superior a 15 vezes.

E, no caso dos deputados e senadores, somando-se todos os privilégios que esta legião de gigolôs já recebem, e acrescentando-se aos desvios que se praticam aos bilhões dos cofres púbicos, sem a menor finalidade social em benefício da população, não há como negar que 190 milhões de brasileiros foram roubados, e cerca de 100 milhões de trabalhadores foram humilhados por quem deveria, antes de mais nada, representá-los com dignidade e decência.

Considerando-se que mais da metade do país sequer tem saneamento básico em suas casas e que milhares sequer atendimento médico de segunda classe conseguem receber, e somando-se à desgraça geral do atraso educacional a que está relegada mais de 2/3 da população, o fatídico aumento não pode ser classificado de outra forma do que a prática vergonhosa do maior roubo coletivo da história do país.

Lula, no seu discurso de ontem, prá variar palanqueiro e mentiroso, em que fez um balanço de seus oito anos, afirmou que com Dilma o país poderá tornar-se a quinta maior economia do planeta. Este milagre, infelizmente, jamais a sociedade brasileira conhecerá a curto e médio prazos. Não com esta classe de larápios que habita o Congresso Nacional, com o espírito de gigolôs que alimenta a alma podre destes cretinos. Não há jeito de nos tornarmos um país desenvolvido com uma classe política milionária às custas da miséria e da ignorância de sua população.

Tristemente, 190 milhões de vítimas assaltadas sem sequer terem o direito a miserável registro policial contra seus algozes. Parece que não há voto consciente capaz de repor a decência jogada no lixo dos ocupantes das cadeiras do Congresso encharcado de lama. Quando se vê que, apesar dos pesares, Maluf corre o risco de voltar e ser diplomado pelo TSE, a tal lei ficha limpa foi apenas uma das tantas decepções do país na sua doce ilusão de que a classe política se torne algo além de motivo de vergonha para todo o país. 

Deste modo, fica justificado para todo o sempre, a razão pela qual a preocupação dos larápios em distribuir bolsas esmolas muito mais do que investimento em educação. Povo educado se indigna e protesta de forma veemnte contra a existência destes gigolôs. O povo brasileiro, ao contrário, se deixa roubar na certeza de que, em política, sempre o crime compensa. 

Complexo de Jeca

José Roberto de Toledo - O Estado de São Paulo

Quando pensa em população rural, qual imagem lhe vem à cabeça? A de alguém carpindo o chão em plagas distantes? A de um caboclo cutucando o bicho-de-pé na porta da tapera? Como diria aquele velho mote publicitário, você precisa rever os seus conceitos.

Duas das três maiores populações rurais do Brasil estão circunscritas nas áreas de São Paulo e de Brasília. Segundo o Censo 2010 do IBGE, 119 mil paulistanos e 87 mil brasilienses não são urbanos. A lista de exotismos estatísticos não fica por aí.

A campeã rural, com 125 mil pessoas, é São José do Ribamar, no Maranhão. Não é nenhuma comunidade agrícola isolada e distante. A 16 km da capital maranhense, faz parte da Grande São Luís.

Na conta da população rural das metrópoles entram desde os guaranis da aldeia Curucutu, no extremo sul de São Paulo, até mini-latifundiários da capital federal que habitam condomínios de luxo para além do Plano Piloto. Estes, se exploram a terra, não o fazem com enxada.

A diferença entre rural e urbano no Brasil tem mais a ver com regras municipais de ocupação do solo e cobrança de impostos do que com estilos de vida ligados à lavoura.

O Censo não tem critérios próprios para diferenciar uma coisa da outra. Usa o perímetro urbano, uma linha imaginária traçada por governos municipais segundo idiossincrasias locais. Pela falta de padronização, é de pouca serventia para extrair conclusões de âmbito nacional.

Na Chapada dos Parecis, em Mato Grosso, Sapezal é um dos maiores centros produtores de soja do mundo. Do alto da torre de telefonia, no centro da cidade, avista-se 360 graus de campos arados que ultrapassam o horizonte. E quase nenhuma casa fora do quadrado urbano.

Sapezal empata com a média brasileira em população rural: 16%. Dos seus 18 mil habitantes, quase a metade chegou nesta década, atraída pelo boom econômico. Os recém-chegados se instalaram na área urbana e se ocuparam no ramo de serviços. Uma minoria dirige tratores.

Capital do país dos treminhões, Ribeirão Preto foi a cidade paulista que mais atraiu migrantes nos últimos 10 anos. Sua economia depende da cana-de-açúcar, mas o município é mais urbano que São Paulo: só 0,3% da população mora na área rural, contra 1,1% dos paulistanos.

Do ponto de vista da ocupação da mão de obra, o agronegócio é cada vez menos rural. Mesmo quem trabalha no campo, sempre que pode, vai morar na cidade. As pessoas querem estar perto da escola, do comércio, querem se conectar à internet, falar pelo celular.

O caipira trocou o cavalo e a charrete por veículos motorizados. A maior frota per capita de motocicletas do país não está em nenhuma capital, mas em Tocantinópolis (TO), na região do Bico do Papagaio: uma para cada três habitantes.

A distância salarial do interior para as capitais ainda é grande, mas já foi maior. Em 2009, o salário médio de um empregado registrado em Ribeirão Preto era R$ 1.519, contra R$ 2.109 em São Paulo. A diferença tende a continuar caindo à medida que aparecem empregos mais qualificados no campo.

Símbolos das piores condições de trabalho, cortadores de cana estão em extinção no centro-sul do País. É mais negócio para as usinas de açúcar e álcool substituí-los por operadores de colhedeiras pilotadas por joystick em cabine com ar-condicionado.

São exemplos e não exceções no interior do Brasil. Algo que um grupo de pesquisadores da Unicamp batizou de complexo rururbano, pela inutilidade de se continuar riscando uma separação entre o perímetro urbano e o mundo rural.

Os limites se confundiram e suas economias se fundiram. Associar o rural exclusivamente ao atraso é que é atrasado. O Brasil precisa se livrar do complexo de Jeca Tatu, de ter vergonha de ser o mais eficiente produtor agrícola do mundo.

Se chegou a essa condição, não foi só pelo solo, clima e extensão. Mas pelas pessoas que desenvolveram conhecimento científico em núcleos de excelência como a Embrapa e o Centro de Tecnologia Canavieira.

É uma combinação que não existe em nenhuma outra parte do planeta, não na escala brasileira. É certo que o País não deve só plantar, criar e extrair, mas ignorar essas vantagens competitivas, não investir nelas, é tão avançado quanto carpir e cutucar o bicho-de-pé.

Maracutaia com gelo

Sebastião Nery

RIO – Lomanto Júnior elegeu-se governador da Bahia em outubro de 1962 e foi aos Estados Unidos. Queria recursos para tocar para a frente o CIA (Centro Industrial de Aratu), próximo à refinaria de Mataripe, pensado, articulado, criado e estruturado por Rômulo de Almeida.

Com Lomanto, viajou o saudoso Marcelo Gedeon, parente do governador, presidente do CCPC (Conselho Consultivo dos Produtores de Cacau), cidadão do mundo, inteligente, sutil e mordaz.

Lomanto foi a uma reunião com empresários e tecnocratas do governo americano, fez longa exposição sobre o projeto do Centro de Aratu, suas perspectivas e possibilidades. Lomanto falava, naturalmente em portugues, Marcelo, casado com uma americana, traduzia.

Lomanto
Quando acabou, os empresários americanos apresentaram uma série de sugestões para investimentos. Lomanto anotava em um caderno branco. Depois, conferiu o relógio, viu que já era tarde, falou ao ouvido de Gedeon:

- Marcelo, vamos embora que esses gringos já estão muito ricos, falam demais e tenho um compromissos daqui a pouco.

Marcelo sorriu, os americanos ficaram curiosos:

- O que é que ele disse?

Marcelo fez uma cara de São Francisco de Assis com gripe:

- Ele disse que 5 por cento de tudo que foi acertado aqui é meu.

E deu uma gargalhada. Os americanos não entenderam nada.

Marcelo
A diferença entre a década de 60 e hoje é que, se fosse agora, os americanos iriam achar a resposta de Marcelo natural e modesta. Anteontem, na pagina 2 da “Folha”, o Fernando de Barros e Silva escreveu:

- “Todos honestos, todos inocentes. O fato é que ministérios como Turismo e Cultura viraram entrepostos de maracutaia”.

E ninguém reclamou, ninguém achou ruim.

Sarney
No mundo inteiro, o turismo tornou-se sobretudo uma atividade para a Terceira Idade. E o Brasil é um pais tão esperto que, para o ministério do Turismo, escolheu logo um ministro da Quarta Idade, o deputado maranhense Pedro Novais, já provecto nos seus 80 anos.

No Maranhão, explicam-me que o senador Sarney, que o indicou, o escolheu não pelo energético apelo das maracutaias, de que falou o Fernando de Barros e Silva, mas porque o Pedro Novais foi o único que Sarney encontrou mais velho do que ele.

Frei Beto
A regra básica do governo é mentir sempre para ver se a mentira pega. Mas nem todo mundo é igual no governo. Poucas pessoas, e dá para contar nos dedos de uma mão, são tão próximas e tão intimas de Lula quanto Frei Betto. E foi ele, com seu compromisso cristão da verdade, quem disse no jornal “O Dia”, do Rio, na semana passada :

1. – “Findas as eleições e vitoriosa Dilma Rousseff, é hora de encarar o Brasil real. Há muito a ser feito. Em que pese os avanços sociais do governo Lula, segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio (PNAD 2009, IBGE), a renda média do brasileiro, calculada em R$ 1.106 em 2009, foi 2,2% inferior (!) à de 2008”.

2. – “Embora o rendimento real médio do trabalho tenha se elevado de R$1.082 (2008) para R$1.106 (2009), numa alta de 2,2%, esta variação ainda é inferior (!) à da década de 1990”.

Desemprego
3. – “Em 2009, trabalhavam no Brasil 101,1 milhões de pessoas. Metade na economia informal, sem carteira assinada. Comparado com o ano anterior, houve aumento do emprego com carteira assinada, de 58,8% (2008) para 59,6% (2009)”.

4. – “Porém, o desemprego teve alta (!) de 18,5%. Em 2009, o índice foi de 7,1 milhões de desempregados. Em 2009, 8,4 milhões, acréscimo de 1,3 milhão de pessoas fora do mercado de trabalho”.

5. – “Com o governo Lula, o Brasil avançou na redução da pobreza e da desigualdade social. Cerca de 20 milhões de pessoas deixaram a extrema miséria. Porém, houve queda (!), nos últimos anos, do ritmo de aumento da renda dos 10% mais pobres”.

Argello
Antes da campanha eleitoral, meses atrás, toda manhã, na Península dos Ministros, em Brasília, caminhavam a ministra-chefe da Casa Civil, o cachorro do Zé Dirceu e um simpático, posudo e metido a bonitão senador.

Tanto caminharam e tanto conversaram que o até então anônimo e desimportante senador começou a disparar em prestigio e poder no Senado. Suplente do ex-senador e ex-governador Joaquim Roriz, o que lhe parecia um labéu, o senador logo se tornou líder de seu partido, o PTB, e sobretudo poderoso vice-líder do governo.

E, logo logo, surpreendentemente, o Palácio do Planalto o catapultou para a presidência da Comissão do Orçamento, uma das mais ambicionadas e disputadas posições do Congresso.

Eis senão quando tudo se esboroou. Enfiado até o pescoço em “maracutaias”, das quais falou o Fernando Barros, o senador Gim Argello, com seu nome de botequim (Gim com Gelo) renunciou à presidência da Comissão do Orçamento e voltou ao anonimato do Senado. Em tempo.

Razões outras

Dora Kramer - O Estado de São Paulo

Quase metade do ministério que toma posse com a presidente Dilma Rousseff no próximo dia 1º de janeiro já foi anunciada e até agora não se ouviu coisa alguma sobre a excelência profissional dos indicados para as respectivas pastas.

Uma exceção para confirmar a regra: Alexandre Tombini, do Banco Central, um funcionário de carreira reconhecido e respeitado.

Não que não existam competências entre os ministros escolhidos. Existem e até comprovadas, como é o caso de Antonio Palocci para a Casa Civil, não obstante o toque de impropriedade que o episódio da violação do sigilo bancário do caseiro Francenildo Costa confere à presença dele em tão estratégico posto.

Não pôde continuar à frente do Ministério da Fazenda, mas pode assumir um lugar que do ponto de vista do cotidiano de governo é o segundo depois da Presidência. Mas, como vivemos tempo de irrelevâncias no tocante ao conceito do ser e também parecer irretocável para se ocupar um cargo público, relevemos.

Ainda que o mérito tenha deixado de ser critério há muito tempo na escolha de auxiliares presidenciais, impossível não notar, e registrar, a arbitragem à deriva vigente na composição do Ministério Dilma em particular.

Tão exorbitante que é vista com a maior naturalidade a reserva de "cotas" à presidente dona da prerrogativa, conferida pela eleição, de nomear quem queira. E por conta desse exotismo não se pode perceber o que Dilma Rousseff realmente quer para o governo a ser iniciado em 18 dias.

Entretanto, já soubemos o que o presidente Luiz Inácio da Silva quis e a cada dia tomamos conhecimento de um novo desejo dele a ser satisfeito. Soubemos também que há ministros nomeados porque se mostraram "confiáveis" durante a campanha, bem como tivemos notícia de que o ministro da Agricultura continua porque o vice Michel Temer quer.

Pelo mesmo motivo Moreira Franco comandará a Secretaria de Assuntos Estratégicos para, entre outras funções, comandar o Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social e seu conhecido cardápio de sugestões solenemente ignoradas.

Fernando Pimentel irá para o Desenvolvimento porque é amigo de longa data de Dilma e perdeu a eleição em Minas; a escolha de Ideli Salvatti para a Pesca guarda relação com a reserva de mercado para o grupo petista de Santa Catarina.

Alfredo Nascimento continua nos Transportes não pela excelência (?) demonstrada à frente da pasta, mas porque assim quis o PR. Edison Lobão, cujo desastre na condução da última crise de energia dispensa apresentações, volta porque José Sarney quer.

O maranhense Pedro Novais vai para o Turismo - a pasta que libera emendas parlamentares a mancheias para entidades fantasmas - porque o PMDB da Câmara se articulou com Sarney.

Ciro Gomes está cotado para a Integração Nacional. Ciro, ou alguém de sua confiança, ganha uma pasta na cota do critério de prevenção de danos.

Para o Desenvolvimento Agrário, a indicação resultou do trabalho da ''cooperativa'' formada pelos governadores do PT no Nordeste para obter uma representação na equipe.

Antonio Carlos Valadares foi convidado para a pasta a ser criada das Micro e Pequenas Empresas, mas quer coisa melhor por causa da motivação de sua escolha: a necessidade de abrir vaga para José Eduardo Dutra no Senado.

O baile segue nessa toada onde sobram homens e mulheres, mas faltam ideias e todo mundo faz de conta que é assim mesmo. A exceção foi o senador eleito Eduardo Braga que deu uma entrevista ao Estado dizendo ter recusado a Previdência por falta de projeto para a área.

Pena que não era verdade. Não foi ministro porque Renan Calheiros vetou: precisava do cargo para acomodar Garibaldi Alves, pois era necessário afastá-lo da disputa pela presidência do Senado.

Da mesma forma, a disputa pela presidência da Câmara pautará a escolha de outro ministro do PT, partido campeão na ocupação de espaços na Esplanada a partir do critério da divisão de cargos entre as tendências internas do aparelho.

É bonito tudo isso? Feio de doer, mas é assim que a banda toca no retrógrado e viciado modo brasileiro de fazer política e governar o País.

Defesa da política contra alguns de seus amigos

Bolívar Lamounier, Exame.com

A questão do descrédito da política não é simples como parece. Começa que não é só no Brasil que os políticos estão em baixa. Por toda parte, há sinais de descrédito. Os fatores que o produzem são em parte históricos e em parte atuais. Neste post, vou tocar só em três ou quatro.

Pano de fundo : da transição à normalização da democracia
Lembremos que a fase final da redemocratização coincidiu com um sério aprofundamento da crise econômica. O crédito de confiança dado aos políticos civis ficou por um fio. Daí o paradoxo: quanto mais avançávamos no restabelecimento do regime democrático, mais a sociedade rejeitava os políticos, o Congresso e os partidos.

Desse plano inclinado, salvaram-se os presidentes (menos Sarney) e o pequeno grupo de alto calibre político e moral que liderou a resistência e a transição de volta à democracia. Falo de homens como Tancredo Neves, Ulisses Guimarães, Mário Covas, Franco Montoro, Teotônio Vilela, Severo Gomes. Formalmente, Raimundo Faoro não era político, mas foi, na condição de presidente da OAB, o principal negociador da Lei da Anistia; pelo governo, seu interlocutor foi o então ministro da Justiça, Petrônio Portella, também muito respeitado.

Observe-se, aliás, que todos os mencionados já faleceram. Num curto espaço de tempo, desapareceram quase todos os ícones daquela geração. O vazio que deixaram é bem perceptível. Estamos numa entressafra de lideranças. Esta, com efeito, me parece ser uma das causas do esvaziamento da política.

Com a Constituição de 88, a eleição direta de 89 e o impeachment de Collor, o país superou etapas difíceis e avançou no sentido da estabilidade democrática. Restavam dois grandes riscos : a inflação e a eventual chegada de Lula e do PT ao poder. Da inflação, o Plano Real deu cabo ; Lula e o PT de alguma forma se integraram no sistema.

Eis os dois primeiros pontos que desejava destacar. De um lado, um sensível esvaziamento da elite política, com o desaparecimento de vários líderes de expressão nacional. De outro, a estabilização ou normalização do regime democrático.

Mas como assim? Estarei então dizendo que a estabilidade democrática pode contribuir para o descrédito da política ?

Sim, estou. A democracia estável dispensa heróis. Não só os dispensa como dificulta seu aparecimento. Tampouco dá motivos ao público para se identificar com eles – ou seja, com os poucos que se afiguram capazes de atingir tal patamar. Não é por acaso que se fala tanto na escassez de líderes “carismáticos”.

De fato, o carisma – qualquer que seja o significado exato do termo – torna-se atributo apenas do presidente da República. Associa-se em parte à personalidade dele e em parte à instituição que ele personifica. E se mantém graças à devoção de milhões, alicerçada numa genuína identificação psicológica ou na gratidão por benefícios materiais – ou em ambas as coisas.

Quando o presidente se avoluma e a política partidária e parlamentar perde os seus heróis, um círculo vicioso rapidamente se configura. O desequilíbrio entre essas duas “quantidades” continua a aumentar – não raro com riscos para a democracia -, até que algum fato novo consiga revertê-lo.

Do heroísmo à comédia
Até aqui eu argumentei que o descrédito em parte se deve ao enfraquecimento da elite política brasileira. Emprego aqui o termo elite sem qualquer conotação aristocrática, plutocrática ou conspiratória. Elites são grupos que se distinguem por sua exemplaridade: quem se destaca torna-se um exemplo ou modelo a ser seguido.

O termo refere-se portanto a pessoas que se destacam e se credenciam para posições de relevo, mas não a qualquer preço. Só aos que se destacam professando ou encarnando determinados valores e objetivos – vale dizer, determinada concepção de política.

Um fato de fácil observação é que muitos cidadãos nutrem idéias contraditórias sobre seus modelos de “bom político”. Em tese, apreciam o político de nível alto, aquele que tem pinta de “estadista”, mas para passarem a vê-lo como um sujeito de nariz empinado, elitista etc, não custa nada. Não é raro oscilarem de A até Z. Poucos são consistente e continuamente apreciadores de um Tancredo ou, digamos, de um Brizola.

Subjacente a tais oscilações, creio existirem trade-offs, ou seja, opções que se equilibram em determinado ponto médio, mas não nos extremos. Dou um exemplo. No período militar, quem apreciava o tipo mineiro, maneiroso, conciliador, gostava de Tancredo Neves; quem preferia o tipo menos transigente, mais disposto ou propenso ao enfrentamento, voltava-se para Ulisses Guimarães.

Mas tanto Tancredo como Ulisses tinham legitimidade como oposição ao regime militar. Como membros da elite – no sentido em que a defini -, estavam ambos no ponto médio, um pouquinho para cá ou para lá.

O problema é que, levado ao extremo – e portanto desprovido de seus atributos de elite -, o conciliador não passa de um sujeito acomodatício, oportunista ou adesista, da mesma forma que o líder intransigente levado ao extremo, torna-se um radical ideológico, inflexível etc.

De seus grandes líderes o eleitor sempre espera coerência – coerência consigo mesmo, com seu passado e seu próprio modelo -, mas compreende que certas situações exigem ou justificam composição com adversários da véspera.

Dois exemplos. Em 1966, Juscelino, Jango e Lacerda estiveram perto de se unir numa “frente ampla” para forçar a saída dos militares. Em 1985, não só Ulisses e Tancredo, mas quase todo o espectro político concordou em se compor para derrotar Maluf no Colégio Eleitoral ; de fora, como inflexíveis, só ficaram Lula e os petistas, de um lado, e o próprio Maluf e o PDS, do outro.

Quando a prática democrática se normaliza e não há uma elite política digna do nome, as coisas se passam mais ou menos como as descreveu Marx no 18 Brumário : tanto nos enfrentamentos como nas conciliações, a política séria desaparece, ou se transforma em comédia.

Nos últimos anos, os episódios tanto abundaram que ficou difícil escolher um ou dois para ilustrar o argumento. Lembro-me por exemplo de Tarso Genro, alçado à presidência do PT durante o mensalão, conclamando a nação petista a “refundar” o partido. Não sei durante quanto tempo o atual governador do Rio Grande do Sul sustentou seu nobre propósito ; acredito que o tenha feito por várias horas.

No quesito coerência, o galardão cabe porém ao deputado Ciro Gomes, provável ministro da Integração Nacional ou da Saúde, e a seu celebrado guru, o professor Mangabeira Unger.

Dono de uma personalidade tempestuosa, Ciro Gomes é conhecido por sua capacidade de propor um amplo projeto nacional como plataforma de campanha à presidência ao mesmo tempo em que vitupera 80% ou mais da classe política, à qual pertence e com a qual obviamente teria que governar, na hipótese de se eleger. Fez isso durante vários anos até ser alijado da disputa pelo esforço conjunto de Lula e de seu partido, o PSB. Nesse percurso, ele fez jus à sua reputação de metralhadora giratória.

Como candidato a candidato, ele chegou a dizer que Dilma Rousseff teria menos preparo para governar que Serra. Em fevereiro, ele afirmou que havia um “roçado de escândalos, um roçado de corrupção” no governo Lula e na aliança PT-PSDB . Em 26 de abril, em entrevista à Rede TV, referiu-se ao PMDB como um “ajuntamento de assaltantes” e ao deputado Michel Temer como “o chefe dessa turma de pouco escrúpulo”. Não estranha, pois, que Temer, agora vice-presidente, lhe tenha recomendado “cautelas verbais” caso ele venha de fato a integrar o ministério.

Roberto Mangabeira Unger é professor em Harvard e autor de numerosos livros, mas sempre quis ter participação política, muitas vezes como assessor e algumas como protagonista direto. Manteve durante vários anos uma coluna na Folha de S. Paulo, e foi nela, em 2005, que chegou a propor o impeachment de Lula. Referiu-se ao presidente como um homem “avesso ao trabalho e ao estudo” e como líder do governo “mais corrupto de nossa história”. Isto não o impediu de aceitar o cargo de Secretário (Ministro) de Planejamento de Longo Prazo, nem de elogiar a “magnanimidade” e a “grandeza interna”de Lula ao tomar posse.

O leitor deve estar se perguntando por que me ocupo com tais miudezas. Agradáveis de relatar elas com certeza não são. Eu me ocupo delas porque estou tentando entender os fatores que desacreditam a política. Protagonistas de nível ministerial se comportarem como personagens de ópera bufa parece-me ser um deles.

Aumentos escandalosos, fisiologismo e corrupção
Pelo que venho dizendo, o leitor pode e deve inferir que eu vejo o fisiologismo e a corrupção como uma parte abominável, mas uma parte apenas do descrédito político que atualmente se observa.

O problema é que, no período pós-transição, as imagens de corrupção e inoperância grudaram para valer, e não sem razão, na classe política, no Congresso Nacional e nos partidos. “Anões do orçamento” e “mensalão” entraram definitivamente para o léxico político do país. Onde termina o “simples” fisiologismo, o apetite por cargos, o escândalo das remunerações parlamentares diretas e oblíquas, e a corrupção propriamente dita, o tráfico de influência, os propinodutos e por aí afora? Difícil dizer.

O que se impõe no momento é um registro sobre o comportamento do PT na Câmara. Impoluto na infância, o PT, como sabemos, perdeu muito ou praticamente todo o seu capital de moralidade. Nos primórdios, como se recorda, ele se apresentava como um partido ético e ideológico. Até seus adversários aplaudiam-lhe a “coerência”.

É pois irônico, para dizer o mínimo, ser justo o baixo clero petista o fautor da primeira grande derrota política da presidente Dilma – e de Lula, por que não ? Para a presidência da Câmara, ambos pretendiam emplacar o deputado Cândido Vacarezza, mais eis que uma rebelião das “bases” impôs o obscuro nome de Marco Maia, um ex-metalúrgico do ABC.

Como isso aconteceu eu não preciso contar, está nos jornais. Digo apenas que a refrega escancarou – “como nunca antes…?” – o labirinto do fisiologismo petista.

A política da não política

Roberto Damatta - O Estado de São Paulo

Seria possível viver sem política? Haveria alguma situação humana sem necessidade de decisão e, portanto, de politizar? De escolher e inventar destinos?

Só nos intervalos, nos entreatos, nas pausas e na plenitude das grandes passagens - quando o mundo fica suspenso entre alguma coisa que vai chegar, mas ainda não está presente - surge o não político, o que não pode ser falado. Só aí o jogo é interrompido. A política do jogo ou o jogo como político continua, mas deve ser visto como um "não jogo". Fica como aquelas fases pré-vestibulares, quando a expectativa é maior do que o exame. Na preparação de uma peça ocorre o mesmo. O texto está pronto, mas a produção requer um duro encontro entre os atores e os papéis a serem representados. Nos ensaios, vive-se um momento crítico de representações que não são representações, mas experimentos. Não se pode negar que não exista teatro nos ensaios, mas não se pode afirmar ou confundir o ensaio com a peça. Nesses casos, surge o humano do humano: o ser e o não ser; o papel sem ator e o ator sem papel. Nascimentos e mortes, seguidas de renascimentos e ressurreições.

* * *

Assistir a um ensaio é testemunhar, como está acontecendo agora no Brasil, a política da não política. Há muita politicagem, mas tudo ocorre em nome de uma não política. Predomina o silêncio dos fracos e não o grito dos poderosos. Estão todos "tapados", como o caso mexicano exprimia de modo nítido. A peça só vira espetáculo quando a cortina é solenemente aberta.

* * *

Estamos nessa fase. Temos os papéis, temos a presidente eleita e o presidente que vai sair de cena, mas a peça ainda não está pronta. E como há teatro na política, mas política não é teatro, pois nela não há ensaio e os custos são impagáveis; temos o preocupante não saber como os atores vão viver esses papéis. Revela-se em toda a sua nudez de corista os bastidores da peça a ser montada pelo governo da presidente Dilma. Olhar o não político no político mostra o lado pessoal e relacional da vida palaciana. Nada mais complicado que escolher, num universo de coalizão, um mundo onde se deseja tudo, menos ter o que se foi: oposição. Ademais, quem escolhe: o Lula (que, me fez) ou eu (que devo me fazer)? Fico com o PT ou com o PMDB que imagina ser o partido da modernidade política nacional? Convoco aquele canalha ou fico com este conhecido canastrão porque, afinal, ele me foi indicado por X que, sendo amigo de Z do partido N, tem influência junto a F que pode ser útil justamente porque é de uma teórica oposição?

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Sobre os canastrões pairam as dúvidas de sempre. Mas mesmo sobre o diretor-ator principal da peça - a presidente eleita - cabem incertezas porque até hoje ninguém sabe se o teatro imita a vida ou se a vida imita o teatro. Sem ensaio, ninguém pode dizer como a pessoa vai se sair no papel (e o papel na pessoa). Se os dois vão se juntar como a luva branca na mão do mordomo inglês ou se o ator presidente vai usar luvas de boxe. Já vivemos os dois casos. Sabemos, porém, que todo palhaço usa botinas maiores do que os seus pés, o que acentua a ambiguidade que conduz ao riso e a comiseração. Quem não riu e chorou com Carlitos? Ou com os presidentes que iam liquidar de uma vez por todas a corrupção nacional e, no curso da peça, revelaram-se larápios dignos de um Oscar?

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Esse momento sem política revela os bastidores da politicagem. Primeiro a luta por um partido do Brasil, algo impossível numa sociedade democrática, liberal e igualitária. Impossível porque isso seria equivalente a ter uma única marca representando toda uma indústria ou um time englobando todo um esporte. Como ser o melhor e o mais eficiente, se não existe o mais ineficiente?

A disputa relacional, a conta de chegar entre princípios e pessoas anunciam a peça a ser vista. Pagamos pela sua qualidade de tragédia ou farsa. Pagamos pelos artistas e pelo teatro. Aliás, somos nós - os cidadãos comuns - esse "povo" com ou sem Deus que segura todos os espetáculos deste mundo. Dos enterros anônimos aos funerais faraônicos; das escolhas baseadas na competência dos atores e das que pagam um favor ou se cumpre um requisito formal de apoio de modo que lá vai um canalha para o papel de ministro o qual, diga-se de passagem, vai desempenhar com o mesmo rigor de um Procópio Ferreira.

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Pois atores somos todos desde o dia em que, sem convite ou contrato, viemos ao mundo para tomar parte do dramalhão humano. Uma peça que não iniciamos e jamais iremos terminar. Felizes seremos se, dentro dela, pudermos compreender algum entrecho ou cena. Mais gratos ainda, se tivermos a sinceridade para nos havermos bem nos papéis que nos foram confiados e que, no fundo, são muito mais importantes que nós. Afinal, nós todos passamos, mas os papéis ficam - eis a lição que nossos políticos ainda não atinaram. Melhor seria disputar menos e pensar mais nas competências. Quanto mais não seja porque a noção de limite do papel que se disputa. O que, afinal de contas, não é disputado nesse nosso Brasil? Com todas essas claras aspirações autoritárias e um grupo de mandões devidamente entrosados e prontos a enriquecer com o nosso trabalho?

E se não fossem fantasmas?

Rolf Kuntz, Estadão.com

Dar dinheiro público a entidade fantasma é contra a lei; financiar festa ou show municipal com recursos federais não é. Mas o dinheiro do contribuinte vai sempre para o ralo, seja ou não realizado o evento, porque no fundo a lambança é uma só: a transformação do Orçamento numa pizza para ser estraçalhada em benefício de interesses particulares. A bandalheira é realizável dentro ou fora da lei, segundo a vocação de cada parlamentar, porque a espoliação do Tesouro é aceita como fato normal da política. De acordo com um pisadíssimo lugar comum, o Orçamento brasileiro é peça de ficção. Mas a maior das ficções é a concepção do processo orçamentário, no Brasil, como parte do governo democrático.

Em democracias mais avançadas, a submissão da proposta orçamentária ao Parlamento tem pelo menos duas funções políticas importantes. Uma delas é facilitar a participação democrática na definição dos gastos públicos. A outra é permitir o controle das ações do governo, incluída a alocação de recursos para a guerra. Houve quem vinculasse as possibilidades da paz à difusão da ideia republicana, isto é, à multiplicação de sistemas políticos fortemente orientados pela noção do público – da coisa pública, do interesse público – e governados com transparência. O objetivo continua distante, mas a tese ainda parece defensável.

No Brasil, as noções da função parlamentar e do uso de recursos públicos permanecem longe da ideia tradicional de republicanismo. A maioria dos parlamentares pouco ou nada se envolve na formulação de objetivos nacionais. Sua participação no processo orçamentário raramente vai além do esforço de inclusão de emendas paroquiais e clientelísticas, sem a mínima vinculação com qualquer ideia de prioridades para o País. Nem mesmo a ideia de país parece ter sentido para esses vereadores federais.

As emendas são aprovadas quase sempre sem discussão, graças a um acordo – tácito ou explícito, segundo a circunstância – de cooperação no ataque ao Tesouro. Cada um respeita as manobras do outro e todos podem viver em paz. Que as emendas sejam quase sempre de interesse particular é fora de dúvida. As prioridades não são definidas de acordo com objetivos nacionais, mas, na melhor hipótese, com base na conveniência político-eleitoral de cada um. Nesse jogo, o congressista reduz drasticamente a escala de suas funções e transforma o Parlamento em bolsa de transações privadas.

O ambiente e as normas da vida parlamentar contribuem para essa distorção. O leitor menos conformista poderá perguntar por que seu dinheiro deve ser destinado a festas ou shows municipais ou mesmo a obras de responsabilidade do poder local ou, no máximo, estadual. Que uma parte desse dinheiro vá para entidades fantasmas não surpreende. Tudo é muito fácil, quando os controles são precários. No fim do ano passado, segundo relatório recente do Tribunal de Contas da União, havia 50 mil prestações de contas entregues aos ministérios e não analisadas. Outras 6 mil eram devidas e não haviam sido encaminhadas. Os dois bolos, somados, envolviam transferências de R$ 24 bilhões.

Isso é privatização, com ou sem fraude. Privatização é também o uso das famosas verbas indenizatórias para manutenção de escritórios políticos, para contato com as bases e para distribuição de favores a companheiros e eleitores. Discute-se muito se as tais verbas são ou não excessivas, mas quase nunca se pergunta se é obrigação do contribuinte financiar o escritório político do parlamentar e outros itens de seu exclusivo interesse. Como legislador ele é um agente público. Mas, como político interessado numa carreira, é uma figura privada, assim como são privados o partido e as coligações.

Fraudes podem ocorrer em qualquer sistema orçamentário. Políticos podem furtar dinheiro em qualquer Parlamento e em qualquer nicho governamental. Sempre é possível ampliar o repertório da malandragem. Mas a comilança pode ser feita dentro da lei, ou quase, quando a interpretação das normas é feita com alguma elasticidade. Nem sempre é fácil provar, por exemplo, a ilegalidade do aparelhamento e do loteamento da administração pública. Também é difícil contestar legalmente a transferência de benefícios pelo Tesouro ou por bancos estatais. O requisito da impessoalidade na gestão pública é um dos itens modernos da Constituição, mas é raramente respeitado. Se essa regra não pegou, é porque os componentes arcaicos da política brasileira são dominantes. No Brasil, a chamada esquerda é tão eficiente quanto as velhas oligarquias na confusão entre o público e o privado.

Oligarquia e miséria

Marco Antonio Villa, O Globo

Mais uma vez o senador José Sarney mostrou a sua força. Deixou muito para trás vários personagens poderosos da história da República. Francisco Glicério, Pinheiro Machado ou Ulysses Guimarães nem se aproximam do poder demonstrado por Sarney. Se foram melhores republicanos — e isto não se discute —, o oligarca maranhense demonstrou ao longo de meio século conhecer melhor os meandros do poder. Sozinho indicou 2 ministros para a presidente Dilma Rousseff. Não são do partido, de uma região, não. São da sua cota pessoal. O país não ficou horrorizado. Já se acostumou.

O senador nunca teve tanto poder como durante os oito anos da presidência Lula. Algumas fatias do governo foram consideradas suas propriedades. A Eletrobrás e subsidiárias acabaram sendo apresadas. Nada se fez nessas empresas sem a sua concordância. É sabido que José Ribamar Ferreira de Araújo Costa — seu nome de batismo — nada entende de energia. O senador domina esta área pelas razões que todos nos sabemos — e que não são nada republicanas. Mas, no Brasil contemporâneo, isto também não causa estranheza.

Se a presença do maior dos oligarcas na cena nacional é nociva, muito pior é o que ocorre no Maranhão, considerado uma capitania da família Sarney. Lá, eleição é só para cumprir tabela. Eles sempre ganham. E, quando perdem, como em 2006, conseguem anular o pleito com o auxílio do Tribunal Superior Eleitoral, em um verdadeiro golpe de Estado, que o país assistiu passivamente.

A pequena cidade de Presidente Sarney é um bom e triste exemplo do domínio oligárquico. O município foi criado em dezembro de 1994, por lei estadual. Recebeu o nome do ex-presidente, o que é proibido pela Constituição. Mas no Maranhão existem dois tipos de cidadãos: os comuns e aqueles que fazem parte da famiglia Sarney. O gentílico dos nascidos na cidade é sarneyense. O município tem pouco mais de 17 mil habitantes, dos quais 2/3 vivem na área rural. Dos 4.700 domicílios, somente 4 mil estão ocupados, uma tendência nas áreas miseráveis: o trabalhador migra para cidades maiores à procura de emprego e retorna nas eleições e nas festas comunitárias.

Na prática não existe saneamento básico, o recolhimento de lixo é esporádico e o funcionalismo municipal vive com os salários atrasados. Mesmo assim, em 2009, a prefeitura fez um concurso para preencher 395 vagas na administração municipal. A receita da prefeitura é totalmente depende das transferências federal e estadual.

A economia local gira em torno da pequena produção de arroz, milho e feijão e do açaí (este cuja produção anual rende 146 mil reais). Na cidade há 20 automóveis, 2 caminhões e 184 motos, mas não tem nenhum trator. As 42 empresas (para o IBGE um pequeno negócio, por menor que seja, é considerado uma empresa) empregam apenas 471 trabalhadores assalariados. De acordo com o Ministério do Desenvolvimento Social, no município 2.853 famílias recebem o Bolsa Família. Como, em média, uma família sertaneja não tem menos que 5 membros (o casal e 3 filhos), é possível estimar que 80% da população recebam o benefício. Segundo a Previdência Social, em 2009 foram concedidos em Presidente Sarney 907 benefícios.

Entre os 20 municípios com os piores Índices de Desenvolvimento Humano (IDH) no Brasil, a maioria está no Maranhão. O estado disputa este triste troféu com Alagoas e Piauí. Entre os 5.506 municípios listados no IDH, Presidente Sarney é o 5286o- . A cidade maranhense melhor classificada é a capital, São Luís, que está em 1112olugar.

Apesar dos péssimos indicadores sociais, Presidente Sarney é uma cidade lulista. Na eleição de 2006, no segundo turno, Lula obteve 5.985 votos, e Geraldo Alckmin. apenas 302. Deve ter sido uma das melhores votações obtidas no país, 95% dos votos. Em 2010, Dilma Rousseff recebeu 6.315 votos, e José Serra, 677, dando à candidata oficial 90,3% dos votos válidos.

Tudo indica que o poder de Sarney tende a aumentar na presidência Dilma. Fortalecido pelos ministros da sua cota pessoal e com a provável manutenção da presidência do Senado, o velho oligarca vai aproveitar estes próximos quatro anos para consolidar seu poder na máquina federal e deter o controle da representação da União no Maranhão. Afinal, o segredo do poder local é ter expressiva presença no poder central. É ali a fonte originária do seu domínio.

A permanência na cena nacional de figuras como a de José Sarney é absolutamente nociva à democracia brasileira. Romper com o poder oligárquico é um imperativo. Só teremos uma democracia consolidada quando os oligarcas representarem uma página virada na nossa história.

Feliz 2014

Guilherme Fiúza, Revista Época

Estima-se que a legalização dos bingos renderá ao governo o equivalente a 14 AeroDilmas. A decolagem da presidenta estará garantida pela propina não contabilizada do lobby da jogatina.

Mas, como se sabe, a boca é grande. Por isso o cassino precisa também da CPMF, para fazer girar a roleta da saúde – aquela que cura todos os males da burocracia companheira.

Mesmo assim, a arrecadação mais do que recorde não será suficiente. Afinal, para o governo popular, as eleições de 2014 começam agora. E é preciso engordar a mágica da bondade.

A idéia é dar uma subida na linha da pobreza, deixando entrar mais gente na festa do Bolsa Tudo.

Em termos da batalha ideológica, está tudo dominado. Hoje, quem ousa dizer que o assistencialismo petista não é a vanguarda da civilização está perdido. A opinião pública parece ter sido seqüestrada pelos robespierres do Ipea.

Este é o Brasil moderno: dinheiro de graça para os pobres, e final feliz garantido no Oscar.

O novo conceito de prosperidade, que abençoa um exército de afilhados do Brasil pendurados nas bolsas do lulismo – o Baú da Felicidade do século 21 – é a base do projeto Dilma 2014. Se tudo der certo, a hegemonia neopopulista ficará a três anos de igualar o reinado de Getúlio Vargas.

É essa modernidade que vem encantando os bem pensantes, incluindo uma parcela que nem está na folha do PT.

O sucesso formidável da transformação do Bolsa Tudo em votos, que consagrou a presidenta pára-quedista, é um poderoso formador de convicções intelectuais. O desfile de teorias para justificação sociológica do novo Baú da Felicidade está só começando.

O Brasil vai erradicar a pobreza distribuindo dinheiro a fundo perdido. Como ninguém pensou nisso antes?

Vamos esperar para ver esse final feliz: uma população vivendo de mesada de um Estado que vende o almoço para pagar o jantar.

Que os bingos abençoem o país do futuro.

Bingo do bem, bingo do mal

Carlos Brickmann

A favor do bingo legal:
Cada pessoa é livre de fazer o que quiser, desde que não prejudique os outros. Joga o que é dela. O bingo cria empregos, abre alternativas de diversão, gera impostos e só será instrumento de lavagem de dinheiro se for mal fiscalizado. Mas açougues, indústrias, tudo o que for mal fiscalizado pode lavar dinheiro.

Contra o bingo legal:
É atividade antissocial, que vicia e gera problemas de saúde pública. A pessoa não joga o que é dela: joga o que é de sua família e cria nova fonte de endividamento, que atinge esposa e filhos. Abre caminho para o crime organizado; os recursos que gera são tão altos que dificilmente haverá fiscalização que funcione.

A favor ou contra?
Este colunista tem um sábio colega que o ensinou a acompanhar o movimento dos projetos de lei nas casas legislativas: não dá para ver um por um, nem pegar as espertezas eventualmente escondidas. Então, deve-se verificar quem os assina. Se for parlamentar do bem, OK; se for do mal, lupa no projeto, que é sujeira.

Quem é contra o bingo legal?
Entre outros, Fernando Gabeira, Marcelo Itagiba, Antônio Carlos Biscaia.

Quem apoia o bingo legal?
Entre outros, Paulinho da Força, João Dado, Régis de Oliveira.

E não é esquisito ver deputados com vontade de trabalhar perto do Natal?

Do mal vem o bem
O deputado Paulinho da Força propõe que os impostos pagos pelos bingos sejam destinados à saúde. O projeto atual propõe que os impostos sejam divididos entre Cultura, Esporte e Saúde (mas há que sugira que a Segurança também receba algum). O deputado Régis de Oliveira propõe que os bingos fiquem a 500 metros, no mínimo, de escolas e templos. Se o bingo é tão bom, por que não pode ficar perto de templos? Se não pode nem ficar perto de quem busca um contato com Deus, seu poder maligno deve ser imenso - então, por que tolerá-lo?

Gente fina
Bons policiais costumam dizer que, pelo modus operandi, a maneira de agir, é possível identificar o autor de um crime. Como é o modus operandi do pessoal do jogo? João Alckmin, radialista de São José dos Campos, SP, move dura campanha contra as máquinas caça-níqueis clandestinas na região do Vale do Paraíba (algumas delas, como provou, ligadas a policiais). Já sofreu dois atentados a bala. Um deles foi filmado, mas nem assim a Polícia achou o criminoso.

Serra voltou!
Depois de longo período de silêncio e de uma viagem internacional, José Serra retornou triunfalmente ao twitter, com a palavra de ordem a seus eleitores:

"Melhor desempenho que já vi de Isabelle Huppert: no filme francês White Material (Minha Terra África). Pessimismo desesperador sobre a África."

Você é rico...
Um levantamento do portal Contas Abertas mostra que boa parte da verba indenizatória, aquele monte de dinheiro público entregue aos senhores deputados para que custeiem suas despesas nas respectivas bases eleitorais, acabou sendo usada mesmo é na campanha. De R$ 2 bilhões de verba indenizatória pagos a empresas que contribuíram para a campanha, R$ 636 milhões voltaram a Suas Excelências na forma de doações. Em alguns casos, foi vexaminoso: os envolvidos nem disfarçaram. Um deputado do Paraná pagou a uma empresa, em fevereiro deste ano, pelo aluguel de um automóvel, R$ 8 mil. A empresa lhe doou exatamente R$ 8 mil. Uma deputada baiana gastou com uma agência de publicidade o total de R$ 42.500,00. Recebeu como doação, da mesma agência, R$ 40 mil.

... e não sabia
Você, caro leitor, paga caro: de acordo com o levantamento, nove deputados tiveram tudo o que gastaram como verba indenizatória, nos últimos dois anos, devolvido como doação. É uma operação de troca: você paga, eles se elegem.

Ele sempre ganha
O senador João Capiberibe e sua esposa, a deputada federal Janete Capiberibe, ambos do PSB do Amapá, foram eleitos mas não serão diplomados. Contra eles há dois fatos - um vagamente ridículo, outro extraordinariamente grave.

1 - O fato vagamente ridículo é que ambos foram acusados de comprar dois votos, pela extraordinária quantia de 26 reais, pagos em duas prestações, mais um lanche. Sairia mais barato comprar diretamente do que fazer campanha e convencer os eleitores. O cinegrafista que "documentou o fato" afirmou oficialmente que participou de uma fraude. Não adiantou: eles ficaram de fora.

2 - Agora, o fato grave: eles pertencem, na política do Amapá, ao grupo contrário ao do senador José Sarney. É uma posição difícil. O governador eleito do Maranhão, Jackson Lago, seu adversário, perdeu o cargo na Justiça, deixando-o para a segunda colocada na eleição - exatamente a filha de Sarney, Roseana.

A herdeira
Dilma seguiu o exemplo de Lula e vestiu o uniforme do Inter. O Inter perdeu.

Conselho quer fim da reprovação de crianças até 8 anos

Veja online

Para críticos, medida seria uma forma de mascarar a má qualidade do ensino

Novas diretrizes curriculares aprovadas pelo Conselho Nacional da Educação (CNE) e homologadas pelo Ministério da Educação (MEC) recomendam que os três primeiros anos do ensino fundamental, que abrangem crianças de 6 a 8 anos, sejam feitos em um ciclo, sem reprovação. As regras foram publicadas nesta terça-feira no Diário Oficial.

Discutida ao longo dos últimos anos, a proposta já é colocada em prática por algumas cidades e estados, como Minas Gerais e São Paulo. "Estudos mostram que essa iniciativa pode trazer ótimos resultados", afirma a secretária de Educação Básica do MEC, Maria do Pilar Lacerda. O principal deles seria evitar que crianças que apresentam um baixo desempenho no primeiro ano se sintam desestimuladas. "A experiência mostra que as maiores taxas de abandono escolar ocorrem entre alunos que repetiram nos primeiros anos de escola", completa.

Para críticos da proposta, a medida seria uma forma de mascarar o problema de má qualidade de ensino. O relator do processo no CNE, o conselheiro Cesar Callegari, diz que o propósito da medida é proteger o estudante. "A todas as crianças é dado o direito de estar alfabetizada aos 8 anos. Muitos alunos apresentam diferenças no ritmo do aprendizado, mas, até o 3.º ano, todos têm condições de ler e escrever", diz.

Em uma escola de qualidade ruim, o problema poderia ser revelado antes do terceiro ano. "Não é para o aluno ficar solto. A ideia é que seja feita uma série de avaliações. Qualquer problema no desenvolvimento do aluno poderia ser captado", afirma Callegari. De acordo com o conselheiro, o MEC está definindo quais são as expectativas de aprendizagem para cada etapa, para que em cada ciclo o aluno seja acompanhado.

"As avaliações deverão ser feitas sobretudo em procedimentos de observação, registros de atividades", diz Maria do Pilar. A secretária de Educação Básica argumenta ainda que a avaliação da escola não é feita por meio dos índices de repetência.

As escolas têm autonomia para adotar ou não as diretrizes publicadas hoje. Maria do Pilar salienta que mesmo as escolas que preferirem manter o regime seriado serão recomendadas a manter os três anos num bloco pedagógico.

(Com Agência Estado)

Reprovação nas escolas é o melhor caminho?

Nathalia Goulart, Veja online

Alunos que ficam para trás carregam essa marca e amargam um pior desempenho

(Thinkstock)

Alan Alves foi reprovado na segunda série do ensino fundamental. Desestimulado, ainda prosseguiu até o oitavo ano, quando repetiu novamente e decidiu abandonar os estudos. Atualmente, aos 22 anos, está de volta aos bancos da escola para concluir o supletivo, pressionado pelas exigências do mercado de trabalho. “Sem completar os estudos, fica difícil encontrar emprego”, conta. No Brasil, quase um em cada dez estudantes levou "bomba" em 2008. De acordo com dados do último Censo Escolar realizado pelo Ministério da Educação (MEC), 11,8% dos alunos do ensino fundamental das redes pública e privada passaram pela experiência e tiveram de passar 2009 revisando o que deveriam ter aprendido antes.

Fazer com que o aluno seja obrigado a rever todo o conteúdo de um ano escolar - ou seja, a reprovação - pode não ser a melhor opção para enfrentar o problema de estudantes com desempenho fraco. A conclusão é de uma pesquisa realizada pela Universidade Federal de Minas Gerias (UFMG). O estudo, coordenado por Luciana Soares Luz, do Centro de Desenvolvimento e Planejamento Regional (Cedeplar), comparou os níveis de aprendizado de mais de 5.000 estudantes dos dois anos finais do ensino fundamental em seis estados brasileiros – Goiás, Mato Grosso do Sul, Pará, Pernambuco, Rondônia e Sergipe.

A principal conclusão é que, a longo prazo, os alunos aprovados aprendem mais do que aqueles que foram reprovados. Em outras palavras, refazer um ano escolar não é garantia de aprendizado adequado. “E não estamos falando de um aluno que progrediu porque era melhor e outro que foi reprovado porque tinha nota piores. Mas, sim, de dois alunos cujos desempenhos eram semelhantes”, afirma a pesquisadora.

A especialista tem na ponta da língua uma explicação para o fenômeno. Segundo ela, os alunos aprovados evoluem mais porque, ao ascender na carreira escolar, encontram conteúdos novos, mais desafiadores e adequados à sua idade. Por outro lado, para os reprovados, rever assuntos já conhecidos tem efeito contrário. Patrícia Cursino, da Faculdade de Educação da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), lembra que a autoestima pesa quando o assunto é reprovação. “Quando isso acontece, o estudante sente que não atingiu o objetivo”, afirma.

A maioria das escolas brasileiras ainda opta pela reprovação. Elenice Lobo, do Colégio Santo Américo, em São Paulo, acredita no modelo. “As consequências negativas da retenção não dão conta da realidade. Se o aluno é retido, ele tem defasagem de conteúdo. Apesar do desconforto nos primeiros dias de aula, ao longo do ano ele resgata aquilo que lhe faltava e tem um desempenho acadêmico melhor”, afirma. Para minimizar os efeitos colaterais, a escola investe na integração do reprovado com a nova classe, além de esclarecer dúvidas com pais e pedir esforço redobrado ao professor. “Para exercer efeito positivo, a reprovação precisar ser bem aplicada”, diz Silvana Leporace, do Colégio Dante Alighieri. “Muitas vezes, é um fator que leva o aluno a recomeçar um processo pedagógico muito positivo.”

Pedro Henrique Rodrigues, de 19 anos, concorda. Ele foi reprovado pela primeira vez na sétima série. Mais tarde, experimentou mais duas retenções no primeiro ano do ensino médio. Não desanimou. Hoje, admite que, à época, não tinha condições de seguir em frente nos estudos. “Vejo que não tinha maturidade para avançar na escola. Mas, após as reprovações, encarei a situação como uma segunda chance”, conta.

Progressão continuada –
A discussão sobre eventuais efeitos da reprovação na vida dos estudantes é um tópico antigo na área da pedagogia brasileira. O estudo mineiro vem reanimá-lo. Para aqueles que defendem o fim do mecanismo, uma das alternativas é o que ficou conhecido como progressão continuada. A prática trocou a tradicional aprovação/reprovação anual por ciclos de aprendizagem, que avaliam o estudante, mas não o reprovam - concentrando-se em acompanhar o desenvolvimento de cada aluno para sanar suas dificuldades. O modelo foi adotado há 14 anos no estado de São Paulo e desde então se expandiu a outras unidades da federação.

Formulada a partir de políticas e da realidade europeia, a progressão continuada previa uma avaliação dos estudantes ao fim dos ciclos. Em países como a Inglaterra, onde obteve bons resultados, os clicos têm duração de apenas dois anos - e não quatro, como no Brasil. Naquele período, os alunos dividem a sala de aula com no máximo 30 colegas - algo incomum nas escola públicas do Brasil. Com um grupo reduzido, o professor pode dar atenção a cada aluno.

A política tem se mostrado eficaz. Levantamento realizado pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) em 2007 mostra que países que baniram a repetência – como Noruega e Suécia – se encontram em situação melhor nos rankings internacionais de educação do que aqueles que a permitem. O relatório, porém, demonstra que outras nações que não adotaram a progressão continuada – caso da Bélgica – também colheram bons desempenhos nas avaliações.

No Brasil, a adoção do modelo ainda é controversa - e seus frutos, discutíveis. No último índice de educação feito pela Unesco, braço da Organização das Nações Unidas (ONU) para a educação e a cultura, o país ocupou apenas a 88ª posição entre 128 nações. Por sua vez, dados do Sistema Nacional da Avaliação da Educação Básica (Saeb) relativos ao período 1995-2005, quando a aprovação automática ganhou força, mostram que a qualidade do ensino piorou. Em 1995, a média de proficiência em língua portuguesa dos alunos da quarta série do ensino fundamental era de 188,3 pontos. Em 2005, caiu para 172,3 pontos. Na terceira série do ensino médio os números são mais alarmantes: 290 pontos, em 1995, ante 257,6 pontos.

Mesmo entre os especialistas que apoiam a aprovação automática, a medida é vista com ressalvas. “Aprovar automaticamente é melhor que reprovar”, acredita Stella Maris Bordoni, da Faculdade de Educação da Universidade de Brasília. “A repetência resulta em um grade desperdício de recursos e, o que é pior, alimenta estatísticas alarmantes de evasão”, defende. “Mas essa política precisa ser acompanhada de um cuidado maior com a evolução do trabalho de cada aluno.”

Esse acompanhamento ainda não é visto nas escolas brasileiras que adotam o sistema de aprovação automática, lembra Fernando Becker, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), um crítico do método nos moldes em que é aplicado atualmente. "Ouço relatos de professores de quinta série do ensino fundamental que lidam com crianças analfabetas, que não teriam condições de progredir nem para a segunda série", conta. "Esse sistema está dirigido para uma conjuntura político-eleitoreira e não para a lógica da demanda educacional. É interessante para um governo ter um sistema que não alimenta altos índices de reprovação e evasão escolar", acrescenta. "Inventou-se a aprovação automática para escamotear outros problemas".

Neide Bittencourt, da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), sintetiza: "Muitos educadores afirmam que a reprovação traumatiza o aluno. No entanto, deixar que a criança chegue à quarta série do ensino fundamental sem saber ler e escrever é muito mais traumático. Incluir apenas por incluir é uma forma de exclusão", acredita. "A reprovação não vem no intuito de penalizar, mas, sim, fazer com que o aluno aprenda".



Avaliação mostra o que o Brasil faz com educação: Pisa

Claudio Carneiro, Opinião & Notícia

Pelo atual desempenho de nossos jovens, teremos, no futuro, uma geração não muito brilhante de executivos, professores, pesquisadores ou profissionais liberais.


Muito simbólico que o Alagoas dos Collor e o Maranhão dos Sarney tenham ficado nas últimas posições do ranking brasileiro do Programa Internacional de Avaliação de Alunos (Pisa). Famílias ricas se elegem e se reelegem às custas de estados cada vez mais miseráveis e ignorantes. E o Brasil vai perdendo gerações inteiras, com fraquíssimo desempenho escolar.

O país alcançou a 53ª posição (401 pontos) entre os 64 países avaliados, atrás de Chile (439), México (420), Trinidad e Tobago (414) e Montenegro (404) mas à frente do Azerbaijão (389) e Quirguistão (325) – o lanterninha da lista. Os estudantes chineses de Xangai (com 577 pontos) conquistaram o campeonato do Pisa e a Finlândia (543) ficou em segundo.

O Pisa – coordenado pela Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) – comparou o desempenho de nossos jovens na faixa de 15 anos para produzir indicadores sobre a efetividade de nossos sistemas educacionais e deve ter concluído que as milionárias famílias nordestinas não fizeram seu dever de casa ao longo de tantos anos no comando do Executivo em seus estados. Ao demonstrarem sua incapacidade para refletir e analisar, nossos jovens dão os sinais de que não serão capazes de enfrentar os desafios do futuro, não somente no aspecto intelectual, visto que este será um grave problema econômico.

Para o professor e pesquisador da Escola Nacional de Ciências Estatísticas (Ence), do IBGE, José Eustáquio Diniz Alves, o Brasil terá uma janela de oportunidades entre os próximos dez e vinte anos – criada pela demografia para o desenvolvimento econômico. Em outras palavras, isso quer dizer o seguinte: findo esse prazo, nossa população vai parar de crescer e, por conseguinte, nossa boa e farta mão de obra começará a envelhecer vertiginosamente. Pelo atual desempenho de nossos jovens, teremos, no futuro, uma geração não muito brilhante de executivos, professores, pesquisadores ou profissionais liberais. Nossa competitividade irá para o ralo e seremos obrigados a importar executivos que virão aqui para gerir e mandar.

Números são para manipular
Outra preocupação é que essa cada vez menor massa de trabalhadores sustentará um número cada vez maior de aposentados. É conta que não fecha e que os constantes adiamentos de reforma de Previdência que FHC e Lula empurraram com suas barrigas sobre as pernas de Dona Dilma.

Num bem-humorado comercial de TV da Topper – de belíssimo texto – comentam-se os pífios números estatísticos do desempenho do Brasil no rugby e manipulam-se os dados sempre a nosso favor. Tão logo saíram os dados do Pisa, o ministro Fernando Haddad – aquele das trapalhadas do Enem e que parece sempre cair de paraquedas nas situações de crise – apressou-se em manipular nossos péssimos números para destacar a melhoria da qualidade do ensino e afirmar que estamos no caminho certo para recuperar o atraso e o descaso de mais de meio século. O ministro falou em avanço dos investimentos para atingir 469 pontos no Pisa 2021 (!) e disse que a pontuação neste ranking foi muito melhor que a anterior. Sempre haverá números para apontar avanços, mas faltarão palavras para explicar porque estamos atrás da Bulgária, Romênia e Montenegro.

No Programa “A Voz do Brasil”, a serviço do Governo – e agora, cada vez mais, escravo do PT – Haddad comemorava o resultado do Pisa como um “gritante avanço”. Nascido em 1963, ele deve ter estudado em escola particular ou era ainda muito criança para perceber que – até o início dos anos 1970 – as escolas públicas brasileiras proviam ensino de qualidade – do jardim de infância à faculdade. A coisa degringolou com a organização e o ganho de força das escolas particulares como instituição, isso graças, é claro, ao descaso do governo com a educação. Muito parecido, aliás, com a decadência de nossos serviços médicos e gratuitos e, este sim, “gritante avanço” dos planos de saúde.

No Brasil, o Pisa é coordenado pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais “Anísio Teixeira” (Inep), também responsável pela aplicação do Enem. Instituto, aliás, que boa parte do país e quase a unanimidade dos estudantes percebe como “inepto”. Não deverá ir muito longe com essa sigla.

Tiririca e a educação nacional

João Batista Oliveira, Opinião & Notícia

Infelizmente, cerca de 50% das crianças do 5º ano do ensino fundamental não passariam no teste do Tiririca.


O Ministério da Educação (MEC) e o Tribunal Eleitoral têm muito a aprender um com o outro. O segundo pode ensinar ao primeiro o que significa alfabetizar. Já o MEC deve mostrar ao tribunal o que é compreender um texto. Essa troca de informações, sem dúvida, contribuirá para melhorar a educação e o nível dos nossos políticos. Na agenda pós-eleitoral, uma nova avaliação: a prova do Tiririca.

Conforme noticiou a imprensa, foi determinada a realização de uma prova de leitura e ditado ao recém-eleito vencedor das urnas. Nada mais acertado. Qualquer cidadão sabe que essa é a prova de fogo da alfabetização: escreveu, não leu, o pau comeu! Ler e escrever se avaliam com instrumentos tão simples quanto um ditado e leitura de um texto corriqueiro. Qualquer pessoa alfabetizada é capaz de montar, aplicar e corrigir uma prova dessas.

A educação no Brasil teria enormes chances de melhorar se o MEC e as secretarias de Educação fizessem, com a mesma presteza, essa checagem no fim do 1º ano do ensino fundamental. Pena que a imposição ao Tiririca não se estenda às instituições que elaboram testes de alfabetização e às faculdades que formam nossos professores, e que, há décadas, deixaram de formar professores alfabetizadores. A alfabetização das crianças é o primeiro gargalo da educação no país. É o primeiro passo a ser conquistado em qualquer nação que pratica educação de qualidade.

Infelizmente, cerca de 50% das crianças do 5º ano do ensino fundamental não passariam no teste do Tiririca. O mais grave: nunca foram submetidas, de fato, a uma prova como essa agora proposta. No lugar dos mirabolantes testes de alfabetização que andam por aí, se isso tivesse ocorrido, viveríamos em outro país. Pesquisas do Instituto Montenegro mostram que apenas 30% dos adultos de qualquer nível de escolaridade conseguem compreender o que está escrito nos textos do cotidiano.

Alfabetizar é isso: ser capaz de ler e escrever qualquer palavra da língua. A pessoa deve ser capaz de grafar as palavras, de forma legível e respeitando as regras da representação fonética e ortográfica. Se o aplicador do teste ditar “é ladrão de mulher”, Tiririca não poderá escrever “muié”, sob o risco de perder o seu registro. Se ditar “ficha limpa”, não vale escrever “fixa limpa”. Na leitura, é preciso que o ouvinte entenda o que foi lido — e isso exige um mínimo de fluência, e não apenas a capacidade de ler silabando ou ler palavras: Ho-je/é/di-a/de/cir-co!

Se houvesse um padrão mínimo na educação nacional, seria exigido — e bastaria isso — dos candidatos um diploma de determinado nível de ensino, da mesma forma que qualquer empregador sabe o que significa um diploma do Senai, quando recruta um trabalhador na indústria. Hoje, o documento de conclusão de ensino fundamental ou mesmo de ensino médio não garante que o portador saiba ler e escrever. Muito menos se compreende o que lê.

Compreensão na leitura é o mínimo que se pode esperar de um legislador, ainda que seja um legislador oriundo do povo. Ninguém ignora que adultos analfabetos são capazes de compreender muita coisa. Mas na sociedade do conhecimento é preciso ir muito mais além. Aprender sozinho, lendo, refletindo e se expressando por escrito, é requisito mínimo do século passado e já estamos na segunda década do século XXI.

As orientações do MEC nas últimas décadas têm insistido na questão da compreensão, mas suas recomendações ignoram dois componentes básicos para que ocorra. Primeiro, que o aluno seja alfabetizado, que saiba ler e escrever. Segundo, que entenda a estrutura de sua língua, que saiba usar a gramática, que não tenha dúvidas a respeito da diferença entre os que “foram” e os que “forem” alfabetizados ou condenados pela Justiça. Só esses terão uma ficha limpa da educação. Tiririca, obrigado pela lição que seu julgamento oferece ao Brasil!

Mercosul - retórica e realidade

Rubens Barbosa (*) - O Estado de São Paulo

Neste semestre, pela última vez no governo Lula, o Brasil assumiu a coordenação do Mercosul.

O ministro Celso Amorim, em recente discurso em Montevidéu, no Parlamento do Mercosul, reafirmou que a integração da América do Sul é a prioridade número um da política externa brasileira e que o fortalecimento do bloco é uma questão de honra do governo Lula.

Num exercício positivo de transparência para com a opinião pública nacional, nesse pronunciamento e em entrevista recente, Amorim delineou as intenções brasileiras para a reunião presidencial desta semana em Foz do Iguaçu. Disse que é preciso pensar grande e dar um salto qualitativo, com a aprovação de uma série de medidas que venham a definir metas para avançar na conformação plena da união aduaneira, visando à criação de um ainda distante mercado comum.

Foram alinhadas mais de 15 propostas que serão discutidas pelos presidentes dos quatro países membros. O amplo programa repete algumas das propostas apresentadas em dezembro de 2004, quando o governo brasileiro delineou um ambicioso projeto de revitalização do Mercosul - Objetivo 2006 -, aprovado dois anos depois como Programa de Trabalho 2004-2006, com pouco ou nenhum resultado desde então.

Dentre as medidas propostas pelo governo brasileiro caberia mencionar, pelo significado para a consolidação da união aduaneira, a discussão das exceções à Tarifa Externa Comum (TEC) e a definição de metas para sua eliminação gradual, sempre levando em conta as sensibilidades de todos os sócios. Cabe também lembrar o apoio à expansão do comércio de serviços, à negociação de acordo de garantia de investimentos, à adaptação do protocolo de compras governamentais do Mercosul, à necessidade de ser dado tratamento mais favorável aos sócios do que aquele que, isolada ou coletivamente, está sendo conferidos a terceiros países.

Adicionalmente, há uma ampla agenda visando ao aprofundamento dos aspectos sociais, a ser examinada pelo recém-criado Instituto Social do Mercosul, que começará a funcionar em breve em Assunção (Paraguai).

As propostas apresentadas por Amorim são coerentes com a retórica da prioridade que o Brasil atribui ao Mercosul, mas, mesmo aprovadas pelos presidentes na próxima reunião do conselho, parecem estar fadadas a ter destino idêntico ao do programa de 2006. Dificilmente haverá disposição política para levá-las adiante, entre outras razões, porque mudaram as circunstâncias em que o processo de integração hoje se desenvolve na América do Sul e no âmbito do Mercosul.

As realidades políticas e comerciais são muito diferentes das existentes quando da criação do Mercosul, em 1991. Em 1992, quando exerci a função de coordenador nacional, o Brasil fez proposta semelhante para a execução de uma série de medidas no que ficou conhecido como o cronograma de Las Leñas, com resultados insuficientes.

As divergências e diferenças políticas que surgiram com o aparecimento do movimento bolivariano, liderado por Hugo Chávez, e, nos últimos anos, a emergência da China como o primeiro parceiro comercial de muitos países da região, o Brasil incluído, tornaram o exercício de negociação no âmbito do Mercosul mais difícil e com poucas chances de sucesso. O bloco perdeu espaço político para outras instituições, como a Unasul. A crescente projeção externa do Brasil, por outro lado, está tornando o Mercosul e a América do Sul pequenos para os interesses brasileiros.

Das propostas anunciadas, talvez a mais discutível seja a introdução na estrutura do Mercosul de uma figura política que dê um rosto ao grupo. Essa personalidade, na visão do governo brasileiro, deveria ter funções substantivas, com atribuições para propor iniciativas sobre matérias relacionadas ao processo de integração e para articular consensos entre os Estados sobre temas relevantes para o bloco.

Do ponto de vista brasileiro, a proposta de criar uma figura política como presidente do Mercosul ou seu secretário-geral deveria ser mais bem examinada, por ser claramente inconveniente. Não convém ao Brasil, no atual estágio de integração do bloco, cogitar da criação de uma instância com poder de iniciativa. A menos que o cargo esteja sendo pensado para o presidente Lula ou para o ministro Celso Amorim, para atender a interesses políticos de curto prazo, o que parece pouco provável. Só em pensar que o cargo possa ser preenchido por personalidades de outros países membros ou que essa figura possa ser um político venezuelano, depois de completado o processo de adesão de Hugo Chávez ao Mercosul, podemos avaliar o potencial de risco para o Brasil. Como as decisões continuarão a ser tomadas por consenso, não se prevendo nem a discussão e muito menos a instituição do voto ponderado, a tendência será o Brasil ficar isolado nas matérias de real importância para nós.

Penso que o processo de integração regional e sua negociação no âmbito do Mercosul têm de ser revistos à luz das transformações que estão ocorrendo com grande impacto na região. Do ponto de vista do Brasil, o que nos interessa agora é ampliar os acordos comerciais e abrir corredores de exportação no Pacífico para as exportações brasileiras serem mais competitivas no mercado asiático, em particular no chinês. O comércio intra-Mercosul e intrarregional continuará a crescer com ou sem o bloco. O Mercosul político e social terá mais visibilidade do que o comercial. A integração física não apresenta controvérsias nem disputas e poderá avançar com mais rapidez.

O futuro governo poderá continuar a apontar o Mercosul como prioridade máxima na retórica oficial. Na prática, porém, se o Brasil realmente se interessar, os resultados concretos virão da integração física.

(*) Ex-Embaixador em Washington (1999-2004), é Presidente do Conselho de Comércio Exterior da Fiesp

Governo flagra esquema de emendas que tem até frentista como laranja

Leandro Colon, de O Estado de São Paulo

Controladoria-Geral da União (CGU) descobre que parlamentares destinaram R$ 20 milhões, desde 2008, para duas entidades fantasmas, conforme esquema já denunciado pelo ‘Estado’; uma papelaria consta como sede de um instituto

BRASÍLIA - Investigação recém-concluída pelo setor de inteligência da Controladoria-Geral da União (CGU) identificou um esquema envolvendo dois institutos de fachada e empresas fantasmas que usam um frentista de posto de gasolina e um motorista de caminhão como laranjas. Uma faxineira também aparece como testa de ferro nesse esquema, que levou R$ 20 milhões em emendas parlamentares liberadas pela pasta do Turismo desde 2008.  


Os indícios de fraude são semelhantes ao esquema descoberto e revelado pelo Estado na semana passada envolvendo os institutos Renova Brasil, Inbraest, Planalto Central, Brasil Sempre à Frente, Inbrasil, entre outros. A reportagem mostrou que uma empresa em nome de um jardineiro foi usada para lavar os recursos destinados a shows e eventos culturais. Um dos institutos, o Renova Brasil, tem sede numa vidraçaria. 



Relatoria
Autor de emendas para essas entidades, o senador Gim Argello (PTB-DF) renunciou à relatoria do Orçamento na semana passada. Agora, pelo menos R$ 600 mil em emendas de Gim também aparecem para os institutos investigados pela CGU. Surgem ainda emendas do senador Marconi Perillo (PSDB-GO), dos deputados Sandro Mabel (PR-GO), Raquel Teixeira (PSDB-GO), Carlos Alberto Lereia (PSDB-GO), Luciana Costa (PR-SP), Sandes Júnior (PP-GO), e do líder do PTB, Jovair Arantes (GO), entre outros.

A investigação da controladoria será compartilhada pelo Ministério Público Federal a partir de hoje, segundo informou nesta terça-feira, 14, à reportagem o ministro da pasta, Jorge Hage.

"A CGU vai encaminhar todos os seus achados de inteligência e auditoria ao Ministério Público, para as providências de natureza cível e penal. No âmbito administrativo, o Ministério do Turismo se comprometeu a passar um pente fino nas prestações de contas’, disse. Para Hage, o caso identificado pela CGU pode ter ligação com o esquema descoberto pelo Estado.

O serviço de inteligência da CGU abriu no fim do ano passado as investigações sobre o Instituto Educar Crescer e o Premium Avança Brasil. O órgão rastreou o dinheiro nos últimos meses e chegou à empresa Conhecer Consultoria e Marketing, que recebeu os recursos dessas entidades. Duas empresas de fachada foram usadas para simular cotações de preço dentro do convênio e favorecer a subcontratação da Conhecer.

Essa empresa de "consultoria" não existe. Tem como sócios o frentista Paulo Roberto Teixeira e Silva e o motorista de caminhão Luiz Henrique Peixoto de Almeida. Nos registros da empresa, aparece o nome da auxiliar de escritório Claudia Gomes de Melo como "administradora". Para a surpresa dos investigadores, ela preside a entidade Premium Avança Brasil.

Procuração
A Conhecer Consultoria e Marketing tem ainda procuração em nome de Carolina da Rosa Quevedo, que vem a ser tesoureira do Instituto Educar e Crescer. A faxineira dessa entidade, Delania Miranda da Silva, surge nos documentos como tesoureira do Premium Avança Brasil. Os documentos da CGU apontam ainda para o envolvimento de Idalby Ramos, conhecida como Bia, ligada à família Quevedo e apontada como uma das mentoras do esquema.