sexta-feira, outubro 02, 2009

A mistificação da olmpíada no Brasil

Excelente o texto do Antero Greco, Estadão, sobre a candidatura brasileira para sediar as Olimpíadas de 2.016, na cidade do Rio de Janeiro.

Tanto quanto ele, tal oportunidade me encheria de orgulho não fossem tantos "senões" que me obrigam a me posicionar contrário à simples idéia. Pelo menos neste momento. A simples recordação do que se fez nos Jogos Americanos e suas consequências, seja para os cofres públicos em contas mal explicadas, seja para o incentivo ao esporte nacional por parte dos governos e que, prá variar, não sairam do discurso, acho um desperdício destacarmos cerca de R$ 30,0 bilhões ( que, no final, nos custará o dobro disto), para investir em apenas uma única cidade, tendo o país as carências que têm e que se arrastam, ano após ano, sem soluções à vista.

Não que o Rio de Janeiro não mereça investimentos urgentes, mas acredito, firmemente, que o volume que se pretende gastar fariam melhor ao país e ao povo brasileiro  se direcionados para saúde, educação, transpsortes e segurança para Brasil como um um todo, e não apenas a capital carioca.

Mais: um país que não consegue ser transparente com o dinheiro público, como provam os relatórios dos Tribunais de Contas e em todos os níveis, está apostando em mais um canal de desvios e superfaturamento a sangrar as finanças públicas.

Como podemos ser candidatos se nem sequer temos um projeto de popularização de esportes de qualquer nível? Se, no futebol, em que somos tão destacados mundialmente, sequer conseguimos oferecer segurança mínima em nossos estádios ?

E que se note: após tantos meses do anúncio da Copa do Mundo em 2014, qual das cidades-sedes têm, de fato, um planejamento pronto e em andamento para atendimento ao caderno de encargos da FIFA? NENHUMA !!!

Podemos até sermos escolhidos, mas que a ninguém fique a ilusão de que todos os nosso problemas se resolverão. O tempo, o senhor da razão, acabará provando isto.

A seguir o texto do Antero Greco.

Quero Olimpíada. Um dia...


Eu quero uma Olimpíada no Brasil. Sonho com isso - e seria uma honra, como profissional, cobrir em minha terra evento tão majestoso. Como fã de esportes, certamente será uma delícia ver por aqui o que há de melhor no mundo em cada modalidade. Fico a imaginar quebras de recordes, competições emocionantes e sucessão de lances espetaculares. Encho-me de orgulho só de pensar em gente de toda parte a curtir nosso sol, nossa paisagem, nossa cortesia e hospitalidade. Jogos Olímpicos são mesmo demais!

Mas ainda não merecemos uma Olimpíada. Não faz sentido pleitearmos essa responsabilidade, pois estamos longe de ser uma nação esportiva. Nosso negócio, quando muito, é jogar futebol, o que sabemos fazer bem, modéstia à parte. Ainda assim, maltratamos atletas, clubes e torcedores, e há algumas décadas sofremos sangria provocada pelo êxodo de talentos.

Chega a ser indecente a pretensão de cartolas de venderem para o mundo, com a maquiagem bem cuidada de marqueteiros profissionais, a ideia de que o esporte faz parte de nosso cotidiano, como reforço e complemento de projetos de saúde e educação. Talvez consigam convencer eleitores mais impressionáveis e lhes passar a ilusão de que levamos o esporte a sério.

Levar o esporte a sério seria cuidar da garimpagem e da formação de talentos como missão educativa e não pontual. Levar o esporte a sério seria termos inúmeros centros de excelência bancados por clubes, confederações, universidades, Comitê Olímpico Brasileiro. Levar o esporte a sério seria termos aproveitado o Pan de 2007 para, de fato, termos um legado para a cidade do Rio de Janeiro e para o esporte nacional. Sobraram polêmicas, contas mal explicadas, arenas que se depreciam.

Alguém pode citar estrelas de primeira grandeza em nosso esporte. Ainda bem que existem, mas são fenômenos e como tal devem ser compreendidas. O que foram Adhemar Ferreira da Silva, João do Paulo, Joaquim Cruz, só para ficar em exemplos de ponta? Campeões excepcionais, mas aparições esporádicas, dessas que podem surgir em qualquer país de uma hora para outra, e não frutos de massificação do esporte. Dá para incluir, nessa lista, nadadores, judocas, tenistas, iatistas.

Uma passada d’olhos na história de sucesso de nossos poucos medalhistas olímpicos vai mostrar que o apoio veio eventualmente da família ou de clubes, ou de algum patrocinador. Em geral atos isolados. Não há como comparar com americanos, alemães, franceses, russos, chineses, italianos, espanhóis que, ideologias à parte, investem em esportes como parte da educação de seus jovens.

Na maioria das vezes, quem pretende aprimorar-se tem de ir para o exterior. César Cielo melhorou muito depois que passou a treinar nos EUA. Gerações de vencedores no vôlei encontraram espaço na Europa. Rodrigo Pessoa, nosso maior cavaleiro, vive na Bélgica desde garoto. Os que não têm essa alternativa devem submeter-se a sacrifícios por aqui mesmo.

Há no ar uma inversão lógica - dizem que o esporte brasileiro vai desenvolver-se com vitória do Rio. Num passe de mágica rivalizaremos com as potências. A mesma conversa usada na época do Pan - e aí estão casos de atletas que, mesmo recorrendo ao uso deprimente de doping, passam vergonha e obtêm resultados inexpressivos.

Quero uma Olimpíada no Brasil, quando também tivermos dirigentes à altura de nossa gente. Basta de mistificação!

Coisas do Brasil...