terça-feira, junho 19, 2012

Os desafios da maturidade para o Brasil


Kenneth Maxwell

Kenneth Maxwell é historiador britânico, diretor do Programa de Estudos Brasileiros do Centro David Rockefeller para Estudos Latino-Americanos da Universidade Harvard, nos Estados Unidos 

(Foto: Ilustração: Adams Carvalho)
Não ajuda na relação com os EUA quando a política brasileira 
sustenta uma inclinação nostálgica em direção a Cuba  

O Brasil não é um país novo – apesar de pensar ser. Tem mais de meio milênio. Os ciclos econômicos, políticos e geopolíticos do passado pesam muito em seu papel atual e na maneira como ele se relaciona com o mundo. Por 300 anos, o Brasil foi colônia de Portugal. Por outros 80 anos, continuou a ser governado por uma monarquia. Entre 1808 e 1822, o Rio de Janeiro foi o centro do império luso-brasileiro. Mas quando o Brasil se tornou Brasil? Como espaço geográfico onde se falava a língua portuguesa, o país foi por mais de 200 anos uma série de enclaves litorâneos, mais acessível por mar que por terra.

Nesse período, o Brasil se tornou o maior exportador de açúcar do mundo e, por mais de 100 anos, dominou o mercado mundial. O açúcar trouxe milhões de escravos africanos, fato que fez com que o Brasil estabelecesse relações regulares e íntimas com a África durante 350 anos. Esse envolvimento precoce do Brasil com o comércio internacional moldou-o como um país que olha para fora, sensível aos mercados globais, aos preços das commodities e às políticas internacionais. A luta com os holandeses no século XVII, pelo controle do comércio de escravos e de açúcar no Atlântico, levou à mobilização da força militar brasileira, que venceu o mais formidável império comercial da época.

Na metade do século XVIII, a expansão brasileira para o interior do continente conectou as duas maiores bacias hidrográficas: a do Rio Amazonas e a do Rio Paraná. Essa vasta incorporação de território, que ainda precisava ser explorado, foi reconhecida pelo Tratado de Madri, de 1750, assinado entre Portugal e Espanha. O acordo estabeleceu e legalizou a fronteira interior, que pode ser protegida. Em 1763, a capital foi transferida de Salvador, na Bahia, para o Rio de Janeiro. A nova capital da colônia refletia o impacto da corrida do ouro e consolidou a ocupação do interior de Minas Gerais e Goiás. Ouro e diamantes, assim como o açúcar, reforçaram a relação entre o Brasil e o comércio internacional. Em torno de 1800, a maior parte dos brasileiros vivia em Minas Gerais. Mas Rio de Janeiro, Salvador e Pernambuco também eram consideravelmente populosos, assim como São Luís e Belém, localizados no norte. A chegada da família real portuguesa em 1808, que fugia da invasão napoleônica de Portugal, fortaleceu essas conexões e ajudou a concentrar o poder administrativo. Também levou à ambição no sul e no extremo norte, com a tentativa do Rio, sem sucesso, de expandir seu controle sobre o Uruguai e as Guianas. Isso estabeleceu uma competitividade de longo prazo com a Argentina que se estendeu até os anos 1980, quando o presidente Raúl Alfonsin, da Argentina, e José Sarney, do Brasil, estabeleceram um novo e mais cordial patamar para as relações entre os países.

O Brasil independente enfrentou e superou uma série de movimentos regionais separatistas no Nordeste, no extremo Norte e no Sul. Recuperou-se das sérias consequências políticas da Guerra do Paraguai e, durante esse período, garantiu a integralidade de seu território e, mais tarde, ajustou suas fronteiras no Acre pela diplomacia. O Brasil também enfrentou o legado da escravidão. No final do século XIX, as elites brasileiras abraçaram teorias do racismo europeu. Mas, nas décadas de 1920 e 1930, figuras eminentes, como Gilberto Freyre ou Jorge Amado, celebraram a diversidade racial e a história de miscigenação, enquanto o racismo virulento estava prestes a dizimar a Europa. Mais marcante foi a constante expansão da cultura popular, muitas vezes para além das instituições formais do Estado e da Igreja, refletindo a vivacidade intercultural e inter-racial.

O legado do comércio de escravos e da escravidão foi a herança mais difícil de superar. O tráfico de escravos acabou em 1850 e a escravidão persistiu até 1888. Com o surgimento da produção de café no século XIX, o Brasil novamente conquistou mercados mundiais. O país se abriu a grandes ondas migratórias vindas do sul da Europa, Japão e Oriente Médio. Em 1900, a cidade de São Paulo chegou a uma população de 500 mil habitantes, dos quais 100 mil eram imigrantes italianos. A urbanização e a industrialização de São Paulo foram seguidas de uma grande migração de nordestinos, incluindo a família do futuro presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Apesar da ditadura e de reveses econômicos, o Brasil emergiu com uma sociedade de quase 200 milhões de habitantes e com uma democracia vibrante.

Hoje, o Brasil é um dos maiores produtores globais e exportadores de equipamentos de transporte, minério de ferro, soja, sapatos, café e automóveis. A China é seu maior mercado, seguido por Estados Unidos, Argentina, Holanda e Alemanha. O Brasil importa maquinaria, produtos químicos e equipamentos de transporte, peças de automóveis e eletrônicos de Estados Unidos, China, Argentina, Alemanha e Japão. Seus negócios são cada vez mais internacionais, e o país está desenvolvendo recursos petrolíferos vastos.

O desenvolvimento do Brasil tornou-o mais próximo de seus vizinhos. Ele tem fronteiras com todas as nações da América do Sul, exceto Chile e Equador. À medida que o agronegócio e a exportação de recursos minerais cresceram, foi forçado a negociar realisticamente com sua própria vizinhança. O Brasil tem sido cauteloso em firmar um papel de liderança na América do Sul, mas seus vizinhos ficam, por vezes, ressentidos com o crescente poder e riqueza brasileiros. O Brasil é responsável por 50% das riquezas, população e território sul-americanos. Ao mesmo tempo, é cada vez mais dependente do comércio internacional e, apesar de ter se saído bem na crise de 2008, é improvável que consiga escapar para sempre do impacto da estagnação econômica europeia, do fim da explosão imobiliária da China e da lenta e incerta recuperação americana.

Onde está o Brasil hoje e para onde está caminhando? Desde a introdução do Plano Real por Itamar Franco, em 1994, o Brasil viveu dois sucessivos e bem-sucedidos mandatos presidenciais, que debelaram a inflação e sustentaram a estabilidade econômica. Políticas sociais e econômicas também expandiram enormemente a classe média e diminuíram a desigualdade de renda e a pobreza. A presidente Dilma Rousseff parece preparada para continuar o processo.

O Brasil tem uma economia mista, em que o papel do governo foi determinante para estabelecer e proteger o desenvolvimento industrial. Essa foi a herança de Getulio Vargas. Mas, desde a década de 1980, um lento processo está em andamento para restringir as limitações impostas à livre-iniciativa e ao ambiente de negócios. A Petrobras se tornou um caso clássico em que a iniciativa estatal e privada agiram juntas pelo interesse nacional. O papel do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) é outro exemplo positivo. Apesar de sua abertura ao comércio internacional, o país também tem uma economia doméstica vigorosa, que o protege das violentas reviravoltas do mercado externo.

À medida que o Brasil assume um papel no mundo proporcional a suas dimensões geográficas e geopolíticas, fica cada vez mais difícil sustentar sua política externa ambígua. O desenvolvimento econômico da Amazônia, com novas represas, estradas e ferrovias, trará potenciais conflitos nas relações com alguns de seus vizinhos. Isso já aconteceu na Bolívia. O Brasil tem manobrado para manter boas relações com Colômbia e Venezuela, mas uma Venezuela pós-Chávez pode trazer escolhas difíceis. A Argentina está cambaleando em uma fase neo-Peronista, que pode representar problemas para o Brasil com as nacionalizações e com a disputa sem fim com o Reino Unido pelas Malvinas.
Os Estados Unidos são a grande ausência na estratégia diplomática do Brasil nos últimos anos. Para muitas instâncias militares e diplomáticas brasileiras, isso é bom. O Brasil se opôs ao Tratado de Livre Comércio das Américas, o projeto mais ambicioso de Washington. A Colômbia continua a ser o parceiro favorito de Washington na América Latina. Políticas antidrogas alimentam esse entrosamento e trazem apoio militar e burocrático americano – algo a que o Brasil não pretende fazer frente. Lidar com os Estados Unidos nunca é fácil, e é improvável que isso mude. A política americana dirigida à América Latina é prisioneira politicamente do lobby anti-Cuba, fortemente baseado no Congresso, nos comitês de relações internacionais do Senado e da Câmara dos Deputados.

O Brasil tem influência no Estado da Flórida. O país é o maior parceiro comercial exterior da Flórida. Diversas grandes corporações brasileiras, incluindo a Embraer, estão localizadas no Estado. Os brasileiros gastam lá mais do que qualquer outro turista estrangeiro e estão comprando imóveis. Mas o Brasil precisará aprender a jogar o jogo da política interna americana. E não ajuda quando a política externa brasileira sustenta uma inclinação nostálgica em relação à Cuba de Castro. Os comentários feitos por Dilma Rousseff em Cuba, logo depois de ter visitado Barack Obama em ano de eleição presidencial, também não ajudaram. Nem os planos da Odebrecht no Porto de Mariel e a ajuda à exploração de petróleo cubano no Estreito da Flórida. 

A aspiração brasileira a uma cadeira no Conselho de Segurança das Nações Unidas é igualmente problemática. A necessidade de reforma nas Nações Unidas é óbvia. Mas o Reino Unido e a França não concordarão em abrir mão de seus poderes de veto, e a América espanhola e o México não apoiarão o Brasil para a “cadeira sul-americana”. Quanto aos Brics (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul), eles podem ser, no mínimo, tão competitivos quanto colaborativos. A lógica da aliança entre as maiores potências em desenvolvimento é poderosa na teoria, mas muito débil na prática. O Brasil tem a sorte de estar numa região em que não acontecem grandes conflitos, mas precisa modernizar suas Forças Armadas. Um debate aberto é urgente para definir que tipo de modernização é necessária e para quais propósitos. Decisões não deveriam ser tomadas para apaziguar militares, interesses políticos ou lobbies. O Brasil não pode adiar as consequências da maturidade. Isso significa fazer escolhas difíceis.

Os dois PTs


Alberto Bombig
Revista Época

Como o julgamento do mensalão, as acusações contra a Delta na CPI do Cachoeira e as eleições municipais dividiram o partido entre a turma de Lula e a turma de Dilma

Uma linha divide a estrela do PT. Seu nome: mensalão. De um lado, estão os acusados no maior escândalo de corrupção do governo de Luiz Inácio Lula da Silva, como José Dirceu e José Genoino. De outro, os integrantes do governo de Dilma Rousseff, que querem distância da banda enrolada do partido. Alguns membros do Partido dos Trabalhadores já levantam a tese dos “dois PTs”. O PT de Lula e o PT de Dilma. O primeiro lado é o defendido pelo ex-presidente, que, no afã de proteger seu legado, operou nos bastidores para adiar o julgamento do mensalão. Agora que foi marcado, ele tenta minimizar os prejuízos dos “réus companheiros”. Na outra ponta, a presidente Dilma e seu governo sabem que só têm a perder com o envolvimento com o “outro lado”. O PT de Lula, afinal, é o passado. O de Dilma é o futuro.

  (Foto: Ruy Baron/Valor/Folhapress, Ueslei Marcelino/Reuters e Valterci Santos/Ag. Gazeta do Povo)

Há outros sinais da divisão no PT. A atitude da senadora Marta Suplicy na campanha eleitoral deste ano em São Paulo expôs as fragilidades do centralismo nas decisões petistas. Preterida em favor de Fernando Haddad, Marta decidiu enfrentar Lula. Assim, deixava claro a Dilma com qual dos dois PTs pretende ficar. Outro indício foi o desconforto de Lula com a atitude do governo federal, que deixou que a CPI do Cachoeira – incentivada por Lula contra os interesses da presidente da República – quebrasse os sigilos da empreiteira Delta. O PT, com isso, quase perdeu o controle da comissão. O cochilo, segundo ÉPOCA apurou, embute a estratégia de uma ala do governo: jogar aos leões a empreiteira líder em obras e negócios no Programa de Aceleração do Crescimento. Lula quase saiu do sério. Ele não chegou a reclamar diretamente com Dilma, mas externou seu desconforto a auxiliares e parlamentares de sua confiança. “A relação entre Lula e Dilma não chegou a azedar, mas deu uma esfriada”, afirmou um deles a ÉPOCA.

Os que acreditam na tese do partido rachado dizem que a linha divisória entre os dois PTs ficará mais clara a partir de agosto, quando o Supremo Tribunal Federal começar a julgar o mensalão. Ao contrário de Lula, Dilma planeja se manter afastada do processo e cogita participar de campanhas de candidatos petistas a prefeito somente no segundo turno, após o fim do julgamento. A tese petista sobre o mensalão sustenta que o esquema envolvia apenas sobras de campanha de 2002 e liga o escândalo a disputas eleitorais. Dilma teme associar sua imagem às disputas e não quer nem ouvir falar em palanque.

(Foto:Eraldo Peres/AP,Alan Marques/Folhapress(2),Antonio Gauderio/Folhapress e Marques/Folhapress)

Em privado, petistas com cargo na gestão Dilma já admitem um resultado desfavorável aos eminentes réus do partido no julgamento: o ex-ministro José Dirceu, o deputado João Paulo Cunha (SP), o ex-tesoureiro Delúbio Soares e o ex-presidente do PT e ex-deputado José Genoino (SP). A eventual condenação de todos eles poderá significar, ao menos em termos simbólicos, a reprovação do governo Lula no campo da ética. Essa possibilidade tem levado Lula a se alinhar com os réus numa campanha por sua absolvição.

Já em 2005, no auge do escândalo, o então líder do governo no Senado, Aloizio Mercadante, chegou a propor uma “refundação” do partido. Sete anos depois, a chance parece ter ressurgido na esteira da popularidade de Dilma. Hoje ministro da Educação, Mercadante passou décadas ao lado de Lula, como um de seus gurus para a economia. Agora é só elogios à presidente.

De volta a São Bernardo do Campo, seu berço político na Grande São Paulo, e mesmo em tratamento contra um câncer na laringe, Lula aceitou se ocupar da política partidária miúda. Dilma e seus auxiliares petistas ficaram ainda mais distantes da atividade, que a presidente diz detestar. “Lula voltou à articulação política numa situação nova. Antes, usava uma pressão indireta sobre as escolhas partidárias. E ganhava na maioria das vezes. Agora, usa o intervencionismo direto”, diz o cientista político Lincoln Secco, da Universidade de São Paulo e autor do livro História do PT. “Isso revela duas coisas: ele tem um poder muito maior no PT, mas isso tem custos políticos que nem sempre pode controlar. Vide o caso paulistano: ele impôs o candidato, Haddad, e acabou com as prévias. Mas há um setor do partido que simplesmente não entrou na campanha até agora.”

Com Lula à frente das negociações, o PT de Dilma sentiu-se desobrigado de negociar eleitoralmente com os líderes petistas e dos partidos aliados. O movimento é bom para Dilma, uma ex-pedetista que só adotou o PT em 2000. Assim, ela se afasta ainda mais da turma do mensalão. Ao lado dela, instruídos a não perder tempo com conversas políticas, atuam, além de Mercadante, os ministros petistas Gleisi Hoffmann (Casa Civil), José Eduardo Martins Cardozo (Justiça), Guido Mantega (Fazenda), Giles Azevedo (chefia de gabinete), Fernando Pimentel (Desenvolvimento Econômico), Ideli Salvatti (Relações Institucionais) e Paulo Bernardo (Comunicações).

Em sentido oposto, Lula manobrou para vetar a indicação do prefeito do Recife, João da Costa, à reeleição. Também costurou alianças com antigos aliados de partidos “faxinados” por Dilma após algum escândalo, como o PCdoB e o PP de Paulo Maluf. “A relação mudou. Em primeiro lugar, Dilma tem sido muito mais dura com auxiliares acusados de desvios éticos. Em segundo, embora seja do PT, ela não tem história na sigla. Nunca havia sido candidata a nada. A relação do partido com ela é mais fria”, diz Secco.

Por enquanto, ninguém aposta num confronto aberto entre Lula e Dilma, ungida por ele para assumir o comando do país. Mas os choques recentes são reais e cada vez mais frequentes. A presidente era contra a criação da CPI do Cachoeira, instalada para investigar o bicheiro Carlos Augusto Ramos. Estava disposta a atuar contra a CPI, mas perdeu a disputa com o antecessor. Deu o troco ao vetar a indicação de Cândido Vaccarezza (PT-SP), fiel escudeiro de Lula, para a relatoria.

O deputado Vaccarezza acabaria flagrado ao celular enviando uma mensagem ao governador do Rio de Janeiro, o peemedebista Sérgio Cabral. Prometia blindagem absoluta a Cabral nas investigações. Vaccarezza queria o apoio do PMDB para acuar a imprensa com a comissão. Não conseguiu e deixou os governistas fragilizados. Poucos dias depois, em 30 de maio, a CPI quebrou o sigilo da empreiteira Delta (braço operacional do esquema de Cachoeira) em âmbito nacional durante toda a era Lula (2003-2010). Lula queria a Delta longe do foco da CPI que ele mesmo ajudou a criar. Mas o feitiço do feiticeiro ameaça ter vida própria. Na quinta-feira passada, governistas comandados pelo líder Jilmar Tatto (PT-SP) conseguiram uma vitória e postergaram a convocação de Fernando Cavendish, ex-homem forte da Delta. Mesmo assim, a CPI examinará as contas da Delta e poderá convocá-lo no futuro.

O deputado federal André Vargas (PT-PR) nega haver tempo ruim com o Planalto. “Nas relações com o Congresso e o PT, Dilma é diferente de Lula. Mas ela encampa os símbolos do partido e da gestão do ex-presidente. Os estilos são diferentes, e temos de entender isso”, diz Vargas. Verdade, mas algo mais os difere. Lula é pressionado pelo tempo, algo que Dilma, na primeira metade de seu primeiro mandato, tem de sobra. No discreto embate da presidente contra o lulismo, o tempo está de seu lado.

Choque da tropa


Dora Kramer 
O Estado de S.Paulo

A CPI mais famosa do Brasil teria feito jus à fama e dado um bom sinal à sociedade se tivesse aprovado ontem a convocação do empresário Fernando Cavendish e do ex-diretor do Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes, Luiz Antonio Pagot.

A boa notícia é que a recusa venceu por pouco. A má é que suas excelências deixaram passar a melhor oportunidade até agora de marcar posição em favor do presumido foco da comissão: desvendar a triangulação entre organização criminosa, poder público e a empreiteira que saiu do nada e em dez anos virou "top" sustentada por negócios governamentais.

E deixaram por qual razão? Segundo o deputado Miro Teixeira, em decorrência da movimentação da "tropa do cheque".

Autoexplicativa, a expressão surgiu na cena política há 20 anos para definir a motivação da "tropa de choque" que atuava em defesa do então presidente Fernando Collor quando da CPI que resultou no processo de impeachment.

Talvez haja algum excesso no juízo formado pelo deputado e caberá à comissão dirimir essa dúvida. Mas, como ele disse, a referência não foi mais específica, não apontou nomes porque isso só seria possível se a respeito deles os parlamentares ouvissem Pagot e Cavendish.

Ficou parecendo que a maioria governista da CPI não está suficientemente motivada para enfrentar a questão. É o que se depreende da alegação de que as convocações "no momento" não seriam produtivas.

Seria perfeitamente possível - mais que isso, necessário - aprová-las e marcar a data dos depoimentos depois, de acordo com a conveniência estipulada pelo surgimento de provas e indícios.

Sobretudo uma maneira eficaz de demarcar o terreno do antagonismo entre investigadores e investigados, já suficientemente prejudicado por parlamentares que abrem mão de questionar testemunhas para se ocupar do degradante ofício da bajulação. Vale para governistas e oposicionistas.
A chance só não foi inteiramente perdida porque foram ditas coisas tão fortes durante a sessão de ontem, a repercussão será tão negativa que dificilmente deixará de haver um recuo (no caso, resultando em avanço) na próxima reunião.

Se obscuros os motivos da recusa - sob o sofisma de que se trata de um "sobrestamento" -, as razões para a aprovação dos depoimentos configuram-se nítidas.

O dono da construtora Delta, afastado desde a eclosão do escândalo em tentativa de se manter estrategicamente distante do centro dos acontecimentos, andou falando (há gravações) sobre uma tabela de preços mediante a qual os serviços de um senador lhe custaria R$ 6 milhões e a abertura de caminho para obtenção de negócios a rodo sairia por algo em torno de R$ 30 milhões.

O ex-diretor do Dnit, que silenciou quando foi ouvido pelo Congresso sobre sua demissão no ano passado em meio a denúncias de corrupção no Ministério dos Transportes, já manifestou vontade de falar à CPI sobre uma alegada conspiração entre a Delta e o grupo de Cachoeira para derrubá-lo.

A menos que venham a se desmentir, teriam contribuição substantiva a dar sobre o objeto das investigações. A obrigação da comissão é tentar, não atuar na base da adivinhação.

A recente declaração de inidoneidade que impede a empreiteira de participar de licitações e firmar novos contratos com o poder público foi baseada num episódio emblemático, reunindo Dnit e Delta: a descoberta de que a construtora subornou funcionários do Ministério dos Transportes na regional do Ceará em troca de relaxamento nos procedimentos de fiscalização de obras e serviços.

Juntando-se esse fato à referência de Cavendish sobre propinas, temos uma boa pista de quais seriam as normas vigentes na casa que comandava. "Não foi um ato isolado de corrupção", afirmou o ministro-chefe da Controladoria-Geral da União, Jorge Hage.

A comissão ontem deu margem à desconfiança de que exista ali algum temor relativo ao que Pagot e Cavendish possam falar. Levantou entre si e a opinião pública uma forte barreira que se espera venha a derrubar em breve tempo. Para o bem de todos.

A CPI de araque


Ruy Fabiano
Blog do Noblat

Pelo visto somente o senador Demóstenes Torres pagará alguma coisa com a CPI do Cachoeira - e não propriamente em função dela, mas da Comissão de Ética, que lhe deve cassar o mandato. Os demais, incluindo Cachoeira, devem ser preservados.

O contraventor obteve anteontem um habeas corpus do Tribunal Federal da 1ª Região. É bem verdade que continua preso graças a outro mandado de prisão, expedido pela Justiça do DF.

Mas, se obteve um, não deve ter dificuldades em obter outro, já que tem a defendê-lo ninguém menos que Márcio Thomaz Bastos.

Por que Thomaz Bastos, ex-ministro e conselheiro de Lula, sabendo o que simboliza politicamente, se dispôs a defender o notório contraventor, é um mistério transparente.

O fato de estar recebendo R$ 15 milhões de honorários não paga o custo político e pessoal da defesa. Não se trata de alguém a quem R$ 15 milhões fariam falta ou acrescentariam muita coisa.

Thomaz Bastos está a décadas no mercado, à frente de uma das bancas mais prósperas do país. O que está em pauta, porém, não são os R$ 15 milhões, mas a reputação de um governo de que fez parte, e que tem em Cachoeira um homem-bomba, prestes a explodir. Um Roberto Jefferson sem imunidades.

A CPI começou errada, proposta pela maioria, tendo como objetivo punir dois inimigos de Lula e do PT: o próprio Demóstenes e o governador goiano Marcone Perillo – e, de quebra, incriminar a imprensa, acusando-a de conspirar contra o governo, e de produzir uma cortina de fumaça para o Mensalão.

Lula, conforme se infere de sua patética conversa com Gilmar Mendes, pretendia também usar a CPI para pressionar alguns ministros do STF. Disse a Mendes que controla a CPI e ofereceu-lhe blindagem, em troca de adiamento do julgamento do Mensalão. Uma troca vantajosa, desde que o interlocutor tivesse algo a temer. Não tinha.

Mas como as CPIs, mesmo as de araque, são sempre uma janela aberta ao imponderável, a do Cachoeira não fez por menos: trouxe à tona a Construtora Delta, de tal modo articulada com o bicheiro que se suspeita que o tenha como sócio secreto.

O certo é que a Delta, além de ter contribuído generosamente para a campanha eleitoral de Dilma Roussef, detém a maioria das obras milionárias do PAC, algumas obtidas sem licitação.

A Controladoria Geral da União (CGU) a considerou inidônea, mas o Dnit disse que manterá seus contratos com ela. Só aí a CPI teria motivos para se espantar.

Ao invés disso, considerou tudo normal e se recusou, por maioria (a maioria que a instalou), a convocar Fernando Cavendish, dono da Delta. As razões da recusa estão no noticiário, até aqui não desmentido: Cavendish, íntimo do governador Sérgio Cabral e de José Dirceu, seu ex-consultor, inevitavelmente levaria os amigos a serem convocados.

Coincidentemente, é no Rio, governado por Cabral, que está o maior faturamento da Delta.

Como PMDB e PT estão associados em não perder de vista o objetivo original da CPI – torná-la banco dos réus da oposição -, preferiram deixar Cavendish de fora, e com ele toda a penca de amigos influentes incrustados no coração da República.

O noticiário também dá conta, sem que ninguém se tenha dado ao trabalho de desmentir, que Lula não se satisfaz com a cabeça de Demóstenes: quer porque quer a de Perillo, responsável por tornar pública a informação de que o advertira do escândalo do Mensalão, desmoralizando o argumento do “eu não sabia”.

Lula topa até sacrificar o amigo e correligionário Agnelo Queiroz, governador do DF, com implicações bem mais explícitas que seu colega goiano, desde que Perillo pague pelo crime de tê-lo exposto a uma vexatória contradição.

Se a CPI não está servindo objetivamente para muita coisa, serve ao menos para dar à posteridade um pequeno retrato moral destes tempos que o Brasil atravessa.

Descansar, que ninguém é de ferro


Carlos Brickmann
Brickmann & Associados Comunicação

Que é que tem a Comissão Parlamentar Mista de Inquérito, CPMI, a ver com a Rio+20, a Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável? Quem respondeu "nada" está errado. Nesta semana, a CPMI não se reúne porque, a uns mil quilômetros de distância, realiza-se a Rio+20. Descanso geral - pois, todos sabem, trabalhar cansa. E dá um tempinho legal para que os ânimos se acalmem e os parlamentares inconvenientes que querem explicações do empreiteiro Fernando Cavendish, da Delta, que não as quer dar, o esqueçam. 

Cavendish trabalha em silêncio. Tudo o que não quer é falar; tudo o que não quer é aparecer (pois quando apareceu, integrando a Turma do Guardanapo, formada por pessoas inebriadas pelo poder e pelo dinheiro, ficou mal nas fotos). Esteve reunido em Paris com dois integrantes da CPMI: Cyro Nogueira e Maurício Quintella Lessa. Ambos viajavam às custas do Tesouro,com as respectivas esposas, para uma missão parlamentar em Uganda, e voltaram por Paris onde, por acaso (foi o que disseram), encontraram-se num restaurante com Cavendish. 

O deputado Cândido Vaccarezza, do PT paulista, alegou que a CPMI foi criada para investigar atividades e vínculos do bicheiro Carlinhos Cachoeira, e não pode perder o foco investigando a Delta - que, a propósito, abasteceu com R$ 47 milhões as contas de empresas de Cachoeira. Ciro Nogueira, o do almoço em Paris, encaminhou a votação contrária à convocação de Cavendish. 

Até agora funcionou direitinho: o trabalho em silêncio tem dado bons resultados.

Recordando
Há mais uma coisa em comum entre a CPMI e a Rio+20. O ferocíssimo defensor da moralidade pública Fernando Collor, que quer atingir de alguma forma o procurador-geral da República Roberto Gurgel, era o presidente da República quando se realizou a primeira conferência da ONU no Rio, há 20 anos. 

A frase
Do editor Jayme Serva: "Agnelo Queiroz diz na CPI que é vítima de uma trama. Por que será que esses misteriosos fabricantes de tramas insistem em ter como alvo gente envolvida em tramoias?"

Caminho das pedras
Ainda há quem conte piadas de luxemburguês no Brasil. Aquelas, sabe, que sempre começam assim: "O Joakinsky e o Manuelsky (...)". Pois, diante da onda de assaltos a bares e restaurantes de São Paulo, vários deles situados a poucos minutos, a pé, de algum posto policial, o governador Geraldo Alckmin decidiu tomar providências. Determinou energicamente que, em datas festivas como o Dia dos Namorados, réveillon e outras, haja reforço no policiamento de locais onde haja concentração de bares e restaurantes. 

Nos demais dias do ano os assaltantes poderão agir normalmente.

Alô, alô, Haddad! 
Alguém se lembra da indignação do candidato petista à Prefeitura de São Paulo, Fernando Haddad, quando a polícia estadual, com ordem da Justiça e tudo, desocupou prédios da USP ocupados por estudantes? Pois bem: Haddad, quando ministro da Educação, abriu unidades da Universidade Federal de São Paulo em Guarulhos e esqueceu a formalidade de instalar salas de aula. Os universitários têm aulas numa escola primária municipal, no intervalo dos turnos das crianças, ou em prédios abandonados há muitos anos, cheios de entulho. E como é que a Unifesp, até há pouco tempo subordinada a Haddad, lidou com uma manifestação estudantil em que se pedia espaço para estudar?

Simples: chamou a PM tucana - exatamente aquela cuja presença na Universidade era contestada por Haddad. Houve tiros, balas de borracha, vidros quebrados, prisões - o de sempre. Só faltou a presença de Haddad. 

O ex-ministro, hoje candidato, evaporou-se: nem no cabeleireiro de costume (o mesmo da presidente Dilma e da ex-prefeita Marta Suplicy) ele apareceu. O candidato petista à Prefeitura é sábio: há ocasiões em que o silêncio é de ouro.

Pura maldade
Comentário no Facebook: "O candidato sumiu! Onde está o Haddad? No Itaim? Qual deles, o Bibi ou o Paulista?" O candidato petista à Prefeitura paulistana não sabia que na cidade há dois bairros grandes, ambos chamados Itaim: o Bibi, chiquérrimo, e o Paulista, numa região muito mais pobre e desassistida. Como dizia Jânio Quadros de seu adversário Fernando Henrique, "ele não sabe onde fica Sapopemba".

Jânio sabia, e ganhou a eleição. 

O nosso é deles
Este colunista já sabe o que o caro leitor vai achar: que é despesa demais. Mas Suas Excelências explicam: a despesa é necessária. Querem passar de R$ 60 mil para R$ 75 mil mensais a verba de gabinete dos deputados federais, para que possam remunerar melhor os 25 assessores que podem contratar sem concurso. Não dá para trabalhar com 25 assessores; tanto não dá que nem cabem no gabinete de Sua Excelência. Em geral, ficam no gabinete uns cinco assessores, e os outros vinte, supostamente, prestam serviços no escritório da base eleitoral do nobre parlamentar. 

Custo: R$ 92,3 milhões a mais por ano. E vai passar.

carlos@brickmann.com.br 
www.brickmann.com.br

O craque e o espelho


Nelson Motta 
O Estado de S.Paulo

Pisando na bola, errando passes, falhando nos desarmes, atropelando seus próprios companheiros de time e, em lance inusitado, tentando driblar até o juiz, para usar as metáforas futebolísticas que lhe são caras, Lula sem barba está parecendo um Sansão sem cabelos. E a Dalila a lhe cortar a força não é a doença, mas sua própria vaidade. Enfrentar o câncer e a morte, e sobreviver, talvez tenha lhe provocado o efeito colateral de aumentar a sua onipotência e fazê-lo vítima de sua já desmesurada vaidade. Ao lado de Sérgio Cabral e Eduardo Paes, Lula foi flagrado em mais um impedimento clamoroso no futebol político.

"É com muito orgulho que eu posso dizer ao povo do Rio de Janeiro: um dia tive a coragem de ir para a televisão e pedir votos para este moço."

A vaidade de Lula é tanta que ele se sente orgulhoso do que qualquer um se envergonharia, chamando de coragem pedir votos para um moleque que detestava, que era secretário-geral do PSDB e havia infernizado a sua vida e dos petistas na CPI dos Correios, e pior, tinha denunciado seu filho Fábio Luis como beneficiário de uma associação suspeita com a Brasil Telecom, que o fazia ainda mais odiado por dona Marisa Letícia. Dobrar a ira da mãe e a decepção do filho em nome da política e da luta pelo poder não dá para orgulhar ninguém.

Cometendo faltas e culpando o adversário, pressionando o juiz e insuflando a arquibancada, Lula prende demais a bola e centraliza todas as jogadas, mas erra na distribuição e não consegue armar os contra-ataques. O craque dos palanques está em fase mais para Ronaldinho Gaúcho do que para Fenômeno.

Disse que pouco conhecia Eduardo Paes em 2008 e por isso tinha dúvida em apoiá-lo, mas foi convencido por Sérgio Cabral: "Não me arrependo de ter pedido voto para ele e farei isso em 2012 com muito mais convicção".

Assim como não sabia do mensalão, Lula não conhecia um dos oposicionistas que mais o denunciavam. Assim como José Dirceu está cada vez mais convencido de sua inocência, Lula agora está muito mais convicto de que pode enganar todo mundo o tempo todo. Assim não há teflon que aguente.

Cavendish ameaça levar outras empreiteiras à CPI


Veja online

No mesmo dia em que a Delta foi punida pela CGU, empresário mandou recado a um parlamentar: a maioria das grandes empreiteiras paga propina a servidores públicos e políticos – e usa os mesmos laranjas

(Eduardo Knapp/Folhapress) 
Fernando Cavendish, dono da Delta: o recado foi entendido 

Na terça-feira, a Controladoria-Geral da União (CGU) declarou inidônea a Delta Construções, a empreiteira de Fernando Cavendish que está no centro do caso Cachoeira. Dois dias depois, a CPI que investiga o escândalo negou-se a ouvir o empresário. Pareceu um tremendo contrassenso. E é. Mas tem explicação. Reportagem de VEJA desta semanarevela que Cavendish tem ameaçado revelar segredos que comprometem outras empreiteiras.

No mesmo dia em que a CGU anunciou a punição à Delta, Cavendish esteve em Brasília. Numa conversa com um parlamentar de quem é amigo, disse que não apenas a Delta, mas a maioria das grandes empreiteiras paga propina a servidores públicos e políticos em troca de obras e aditivos contratuais. Conforme Cavendish, a Delta adotou o mesmo sistema: para dificultar o rastreamento da propina, repassava os recursos a empresas-laranja, que, posteriormente, entregavam o pedágio a quem de direito.

Sentindo-se injustiçado por ser o único a expiar os pecados em público, Cavendish apresentou ao parlamentar um conjunto de empresas-laranja que serviriam à Delta e às concorrentes. Deu nome de sete empresas das áreas de engenharia e terraplanagem. Todas funcionam em São Paulo e têm como proprietário o empresário Adir Assad, apesar de estarem em nome do técnico em refrigeração Jucilei Lima dos Santos e de Honorina Lopes, sua mulher, ambos no papel de laranjas.

Cavendish conhece como poucos Adir Assad – e os serviços prestados por ele. Há duas semanas, VEJA revelou que a Delta repassou 115 milhões de reais a empresas-laranja. Do total, 47,8 milhões abasteceram as contas da Legend Engenheiros Associados, da Rock Star Marketing e da SM Terraplanagem, que também são de propriedade de Adir Assad. As sete novas empresas de engenharia e de terraplanagem, segundo Cavendish, fariam parte do mesmo laranjal.

O parlamentar que conversou com Cavendish passou o relato adiante. Foi como se acendesse um rastilho de pólvora que percorreu as bancadas do PMDB, PP, PR e PT. O recado foi entendido como um pedido de solidariedade e, claro, como uma ameaça velada, destinada a trazer novas empresas e parlamentares para o centro da investigação. “Está claro que convocar o Cavendish é trazer para a CPI todas as empreiteiras”, diz um graduado petista, que votou contra a convocação do empreiteiro. Só uma investigação acurada sobre a movimentação financeira das empresas-laranja revelará se Cavendish blefa ou fala a verdade. O fato é que, na semana passada, o empresário foi blindado, apesar da fartura de indícios que pesam contra ele.

Planilha – 
A própria CPI já detectou que houve grande quantidade de saques em dinheiro, às vésperas das eleições, nas tais empresas-laranja abastecidas pela Delta. Uma planilha em poder da comissão também revela que contas da empreiteira que recebiam os recursos federais foram as mesmas que transferiram dinheiro para uma empresa-laranja sediada em Brasília, agraciada com 29 milhões de reais. Os parlamentares de oposição acreditam que encontraram o caixa usado para subornar funcionários do governo federal.

A CPI desistiu de votar a convocação de Cavendish por 16 votos a 13. Prevaleceu a maioria formada por aquilo que o deputado Miro Teixeira (PDT-RJ) chamou de “tropa do cheque” – expressão cunhada um dia antes, num ato falho, pelo deputado Ronaldo Fonseca (PR-DF). A tropa pró-Cavendish foi integrada pelos parlamentares do PT e da base aliada. Para a definição do placar, foram decisivos dois parlamentares: o senador Ciro Nogueira (PP-PI), que se alinhou à maioria, e o deputado Maurício Quintella Lessa (PR-TO), que não participou da sessão. Soube-se depois que Nogueira e Lessa haviam se encontrado na Semana Santa com Cavendish num restaurante em Paris. Os parlamentares alegam que o encontro foi casual e não teria influenciado sua posição dos dois na comissão.

Sinfonia em Paris: CPI colide a rota de Dilma Rousseff


Pedro do Coutto
Tribuna da Imprensa

O deputado Miro Teixeira, que vem desenvolvendo uma atuação política excelente, apontou com nitidez a contradição total da maioria governista na CPI do Congresso instalada para identificar até onde se estende (ou estendia) a rede de influência de Carlos Ramos Cachoeira.

De um lado, o Palácio do Planalto, através do ministro chefe da Controladoria Geral da União, Jorge Hage, declara a Delta inidônea. Mas de outro, a base parlamentar do próprio governo bloqueia a convocação do empresário Fernando Cavendish. Este, na sinfonia em Paris que compôs, reuniu-se com vários parlamentares, entre estes o senador Ciro Nogueira e o deputado Maurício Quintela Lessa. Os dois integram a Comissão Parlamentar Mista de Inquérito. O bloco majoritário colocou-se acima da vontade da presidente Dilma Rousseff. Não pode haver outra interpretação. Das duas, uma.

O Globo de sexta-feira editou magnífica reportagem sobre a reunião da véspera da CPI, assinada por Chico de Góis e Demétrio Weber. Fotos de Ailton de Freitas e André Coelho. Na Folha de São Paulo a reportagem foi de Andreza Matais e Erich Decat.

O título do meu artigo – claro – é inspirado no grande musical de Vicente Minelli, com Gene Kelly e Leslie Caron nos papeis principais. Filme de grande sucesso do início da década de 50. Obra inesquecível pelo uso da cor e estética dos números dançados.

Miro Teixeira referiu-ser em seu pronunciamento a um almoço ou jantar promovido por Cavendish em Paris, num restaurante do Triângulo de Ouro. Pena que os fotógrafos Ailton de Freitas e André Coelho não tenham estado lá nesse encontro de encantamento. Teriam produzido material visual de alto nível porque Paris é sempre uma festa. Cidade que fascina por sua beleza, arte e atmosfera. Mas este é outro ângulo da questão: o cenário.

Do cenário passamos para a trama. Mais um apontamento inadequado de Fernando Cavendish com autoridades públicas. Não pega bem. Surge sempre a sombra da suspeita, fundada ou não, mas sempre uma dúvida em torno do comportamento humano e dos assuntos tratados. A dúvida emerge reforçada no palco dos acontecimentos sobretudo diante do temor e do fervor com que o deputado Cândido Vaccarezza, líder do governo, combateu a convocação e a acusação de Miro Teixeira, aliás ex-ministro do primeiro governo de Lula.

Qual a razão do medo? Não se atina qual seja. Principalmente porque a CPI não se encontra, a rigor, investigando Carlos Cachoeira ou Fernando Cavendish. As investigações já foram feitas pela Polícia Federal.

Assim, a CPI do Congresso está, na verdade, confirmando os levantamentos da PF, órgão subordinado ao ministro da Justiça, Eduardo Cardozo, portanto integrante da equipe de Dilma Rousseff. Na sequência, segundo plano, tentando iluminar a profundidade das ações desenvolvidas em conjunto pelos personagens, estendendo-se às obras da Delta. Contratos muito confusos. Tão confusos que o ministro Jorge Hage, com base neles, declarou a inidoneidade da empresa hoje aparentemente sem proprietários.
Ia ser vendida à JF Friboi, de cujo capital o BNDES participa. Porém a operação foi cancelada depois de articulada. Cancelada, provavelmente, por determinação da própria presidente da República.

A sinfonia em Paris da Delta ainda vai produzir alguns capítulos em série. Possui todos os ingredientes para isso. Principalmente a partir de agora, quando a liderança de Dilma Rousseff no Parlamento desafina e sai fora do tom do Palácio do Planalto. Não é provável que o ministro Jorge Hage venha a recuar do ato que excluiu a Delta pelo menos de novos contratos públicos. Confirmada a hipótese, como ficará Vaccarezza?

Basta! O Brasil não é saco de pancadas de ninguém.


Humberto Viana Guimarães
Tribuna da Imprensa

Quem bem estudou a matéria História do Brasil sabe que a penúltima vez que um país ousou tomar algum patrimônio do Brasil foi o Paraguai, que, por ordem do ditador Francisco Solano Lopez, em 12 de novembro de 1864, tomou à força – manu militari – o navio imperial Marquês de Olinda. A consequência por este ato insano foi imediata, com a declaração de guerra do Brasil ao Paraguai, pois o imperador dom Pedro II não permitiu que a nossa soberania fosse vilipendiada.

Quase 142 anos depois, no dia 1º de maio de 2006, Evo Morales, ex-presidente do sindicato de produtores de coca, agora alçado a presidente da República da Bolívia, mandou as tropas do Exército ocupar e confiscar os campos de gás e instalações da Petrobras naquele país. Recordemos que a estatal brasileira já havia investido mais de US$ 1,5 bilhão na Bolívia e, como resultado do seu esforço, viabilizou não só a extração do gás natural naquele país como a construção do Gasoduto Bolívia-Brasil.

Não obstante a Petrobras sempre ter trabalhado dentro das mais rigorosas normas internacionais, o ex-cocaleiro teve a tremenda cara de pau de acusar nossa empresa petrolífera de fazer contrabando, de sonegar impostos e de operar ilegalmente. Tamanhas ofensas atingiram não só a Petrobras mas, também, o povo brasileiro, já que a empresa tem como sócio majoritário o governo brasileiro e milhões de acionistas minoritários, no número dos quais me incluo.

O governo boliviano, ao usurpar o patrimônio dos brasileiros, humilhou o nosso país. E qual foi a reação das autoridades brasileiras? Uma pífia e vergonhosa nota do Itamaraty, que naquela época era comandado por Celso Amorim, através da qual reconhecia que a decisão boliviana era um “ato inerente à sua soberania”.

Passados seis anos, precisando o presidente cocaleiro criar mais um factoide para reverter o seu baixo prestígio, voltou a atacar o Brasil. Como já não tinha a Petrobras para servir de bode expiatório, partiu com tudo para cima da construtora brasileira OAS, que, no dia 10 de abril, teve anulado um contrato — estimado em US$ 415 milhões (sendo US$ 332 milhões financiados pelo BNDES) — para a construção de uma estrada de 325 quilômetros naquele país.

Segundo a matéria “Presidente da Bolívia cancela contrato com a construtora brasileira OAS”, publicada pelo Jornal do Brasil (10/04), o presidente boliviano, ao valer-se da mesma lenga-lenga para cometer as suas arbitrariedades, como fez com a Petrobras em 2006 (procedimento típico dos tiranetes), alegou “que há uma fraude ou algo suspeito” e que a construtora havia descumprido várias obrigações contratuais.

E qual foi a reação do governo? De acordo com o jornal Valor (27/04), a senhora presidente Dilma Rousseff declarou que o governo brasileiro “não é advogado da OAS” e que “não podemos dar a impressão de que somos porta-vozes da empresa. Mas achamos que o governo boliviano foi além nesse caso”.

Segundo o citado jornal, uma fonte ligada ao governo declarou que “medidas como essa são muito mais marketing político do que intenção de dar uma pancada no Brasil. Não nos interessa ter um conflito com o vizinho”.
É triste dizer, mas, uma vez mais, o Brasil se dobrou aos caprichos da Bolívia. Não foi por acaso que Evo declarou em seguida que “Dilma era uma mãe para a Bolívia”.

Como o governo, eu não sou advogado (nem consultor) da OAS, mas, acima de tudo, temos que defender os interesses dos nossos cidadãos e de nossas empresas que trabalham no exterior. Para um bom entendedor, o recado da presidente Dilma foi claro: a OAS e outras empresas que se virem, pois, se depender do governo brasileiro, vão ficar “a ver navios” na Bolívia e em outros países.

Talvez, por saber como seria a reação do governo brasileiro, no dia 3 de abril, a província argentina de Neuquén cancelou de forma arbitrária a concessão da Petrobras no campo de Veta Escondida, obviamente sob as ordens da contumaz rompedora de contratos, a presidente Cristina Kirchner.

Até quando o governo vai permitir que o Brasil continue sendo saco de pancadas dos seus vizinhos? A nossa dignidade e soberania não são moedas de troca por alguns milhões de metros cúbicos de gás e outros produtos.

Quem é do ramo conhece um texto intitulado “Geisel avisava”, no qual se lê: “E quando aqueles bolivianos fecharem a válvula, o que é que eu faço? Mando o Exército lá abrir?” Respeitosamente, pergunto à presidente Dilma: se um dia Evo Morales resolver fechar as válvulas que abastecem o gasoduto Bolívia-Brasil, qual será a reação de Vossa Excelência.

(Matéria transcrita do JB Online,enviada pelo comentarista Paulo Peres)

Vem aí mais um cabide de empregos inúteis: Governo cria empresa para supervisionar projeto do trem-bala.


Folha de São Paulo
Informações da REUTERS


O governo publicou decreto que cria a Etav (Empresa de Transporte Ferroviário de Alta Velocidade), entidade com objetivo de orientar a implantação do trem de alta velocidade, que interligará Rio de Janeiro, São Paulo e Campinas.

Segundo o decreto, publicado no "Diário Oficial da União" desta sexta-feira, a Etav será uma sociedade anônima de capital fechado, vinculada ao Ministério dos Transportes, com capital inicial de R$ 50 milhões.

O texto afirma que o Ministério dos Transportes ainda vai indicar um representante para a constituição da Etav, função que "será considerada prestação de serviço público relevante, não remunerada".

No começo do mês, o ministério confirmou que a presidência da Etav, que será sócia dos investidores privados que arrematarem a concessão do projeto orçado, ficará a cargo do ex-diretor-geral da ANTT (Agência Nacional de Transportes Terrestres) Bernardo Figueiredo.

A ANTT estima que o projeto, que já teve cronograma adiado várias vezes, terá um custo total de cerca de R$ 33 bilhões, dos quais R$ 25 bilhões relativos à infraestrutura da ferrovia.

Em fevereiro, Figueiredo afirmou que esperava que o leilão da primeira fase do projeto, de escolha do operador e fornecedor do sistema do trem-bala, ocorresse em outubro. Com um segundo leilão, da infraestrutura como trilhos, viadutos e túneis, ocorrendo no fim de 2013.

Editoria de Arte



Miro denuncia ‘tropa do cheque’ e encontro secreto com Cavendish


Demétrio Weber e Chico De Gois
O Globo

Parlamentares teriam se encontrado em Paris com o ex-presidente da Delta

ANDRÉ COELHO / O GLOBO
Os deputados Miro Teixeira e Cândido Vaccarezza discutem após o petista se sentir ofendido por declarações do deputado durante a sessão que adiou as convocações de Luiz Antônio Pagot e Fernando Cavendish

BRASÍLIA - Dois dos integrantes da CPI do Cachoeira estiveram em um restaurante em Paris, na Semana Santa, com Fernando Cavendish, então presidente da Delta. O encontro reuniu o senador Ciro Nogueira (PP-PI) e o deputado Maurício Quintella Lessa (PR-AL). Estava com os dois o deputado Eduardo da Fonte (PP-PE), que não faz parte da comissão de inquérito. Nesta quinta-feira, por 16 votos a 13, a CPI barrou a convocação de Cavendish numa sessão tumultuada. Ciro Nogueira fez discurso e votou contra a convocação. Maurício Quintella Lessa não estava presente.

O encontro do empreiteiro com parlamentares foi denunciado pelo deputado Miro Teixeira (PDT-RJ) e publicado em 1ª mão pelo site do GLOBO. Indignado com o adiamento da convocação do ex-presidente da Delta, Miro, sem citar nomes, pediu que a CPI investigasse se algum parlamentar tinha se encontrado com Cavendish na França. E alertou que poderia haver uma “tropa do cheque” em ação.

O encontro em Paris ocorreu na volta dos três parlamentares da 126ª Assembleia Geral da União Interparlamentar, realizada entre 30 de março e 5 de abril, em Kampala, Uganda. Hugo Napoleão (PSD-PI), Átila Lins (PSD-AM) e Alexandre Santos (PMDB-RJ) também integravam a comitiva para a África. A viagem foi uma missão oficial e cada um dos parlamentares recebeu US$ 350 de diária, para cinco dias, num total de US$ 1.750 cada. O dinheiro serve para refeições e pagamento de hotel. A despesa aérea, em classe executiva, foi paga à parte pelo Congresso.

Depois da Assembleia, Ciro Nogueira, Maurício Lessa e Eduardo da Fonte voaram para Paris para passar a Semana Santa. As mulheres já os aguardavam lá. À época, a CPI não havia sido criada, mas o escândalo envolvendo o bicheiro Carlinhos Cachoeira e a Delta já tinha vindo à tona.

Ao GLOBO, Nogueira confirmou o encontro, mas disse que foi casual:

— Conheço Cavendish, tenho relação com ele há uns cinco anos. Mas nada que envolva doação de campanha. (Em Paris) Nós só o cumprimentamos. Foi um encontro totalmente casual.

Encontro foi em restaurante famoso
Ele afirmou não recordar o nome do restaurante, mas lembra que ficava na Avenue Montaigne. Essa avenida, junto com a Champs Elysées e a George V, é um dos endereços mais chiques — e caros — de Paris, conhecidos como Triangle D’Or (Triângulo de Ouro). Embora a Champs Elysées seja mais conhecida dos turistas, é na Montaigne que estão as lojas e restaurantes mais exclusivos.

Segundo Nogueira, os três parlamentares e as mulheres apenas cumprimentaram Cavendish, que, recorda o senador, estava com uma namorada nova, “muito bonita”. Ciro Nogueira confirmou a amizade com o ex-presidente da Delta. Em 12 de dezembro de 2009, ele postou no Twitter: “hoje vou ao casamento do meu amigo Fernando Cavendish”.

A Delta Construções negou nesta quinta-feira qualquer pagamento a parlamentares no Congresso, bem como eventual encontro de parlamentares com Cavendish “em qualquer lugar que seja”. Outra viagem de Cavendish a Paris já causou polêmica: a que ele apareceu em fotos num jantar ao lado do governador do Rio, Sérgio Cabral (PMDB), e secretários do governo do estado.

O GLOBO procurou falar com Maurício Lessa, mas não o localizou. De acordo com o atendente do gabinete, o parlamentar estava em audiência. O GLOBO telefonou para o gabinete do deputado Eduardo da Fonte, mas sua assessoria informou que ele estava voando para Pernambuco e que não seria possível localizá-lo.

Na sessão da CPI, Ciro Nogueira afirmou que não adiantava trazer Cavendish porque ele nada acrescentaria ao trabalho de investigação.

— Será que o doutor Fernando Cavendish vai chegar aqui e vai falar, vai entregar qualquer tipo? Não vai. Ou nos preparamos para a arguição dessas pessoas, ou nós vamos ser desmoralizados, como nós fomos ontem e anteontem — argumentou.

Miro disse que era necessário levar Cavendish à CPI porque a CGU declarou a Delta inidônea:

— Essa comissão se recusa a convocar o presidente da companhia que o governo declarou inidônea. Isso é incompreensível. Isso revela uma tropa do cheque — afirmou Miro.

Ciro Nogueira mostrou-se contrariado com Miro:

— Achei uma maldade extrema. Fiquei surpreso com Miro, porque ele podia ter identificado publicamente as pessoas.

Cândido Vaccarezza (PT-SP), ex-líder do governo na Câmara, reagiu:

— Quero me dirigir ao deputado Miro Teixeira. Vou ficar em pé como ele costuma fazer. Não assaque acusações genéricas. Se Vossa Excelência acha que tem um deputado que é da bancada do cheque, vire para o deputado e diga: “É fulano”. Eu não sou da bancada do cheque.

Ao site do GLOBO, Miro disse que a “luta contra a blindagem do senhor Cavendish, nós vamos ganhar”:

— É injustificável não convocar uma pessoa que diz que compra político. E que varia de R$ 6 milhões a R$ 30 milhões. Isto é injustificável.

Sem interesse na investigação, base nem indica suplentes na CPI


O Globo

Com falta de engajamento de aliados, PT fica com tarefa de conduzir apuração

O GLOBO / AILTON DE FREITAS
Blairo Maggi: 
senador é um dos que não se interessa pela comissão

BRASÍLIA - Diante da falta de engajamento dos partidos aliados na Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) do Cachoeira, principalmente do PMDB, o PT está cobrando que eles façam pelo menos o mínimo: preencham seis vagas de suplentes da cota do Senado que estão vagas — quatro do bloco PMDB, PP, PV e duas do bloco PTB, PR, PSC. Os petistas querem, sobretudo, o apoio dos aliados na guerra contra o PSDB na CPMI. Mas os aliados não parecem dispostos a ir para a comissão defender o governo e o partido da presidente Dilma Rousseff.

O PT foi o responsável pela criação da CPMI, e os demais partidos da base governista tiveram que ir a reboque. Agora, os aliados se dividem em três grupos: os que simplesmente não se interessam pela comissão parlamentar de inquérito, os que atuam para impedir a ampliação das investigações e os que desejam que a CPMI atinja o governo, para poder cobrar caro pelo apoio.

— Pediram que eu botasse meu nome lá (como suplente). Eu disse que podia botar, mas eu não vou aparecer lá, não. Quem pariu Mateus que o embale — afirmou o líder do PR, senador Blairo Maggi (MT).

Já o líder do PMDB, senador Renan Calheiros (AL), disse que ninguém aceita ser indicado para a CPMI, por isso não consegue preencher as vagas de suplente. E negou que o partido seja desleal:

— Os líderes do PT me procuraram para que a gente indicasse os suplentes que estão vagos, não só do PMDB, mas também de outros partidos. O problema é que ninguém quer — disse Renan, acrescentando: — O PMDB votou contra a convocação do Agnelo (Queiroz, governador petista do Distrito Federal). Dizem que a gente votou contra, mas manobrou para que os outros votassem a favor. Isso não é verdade.

Um líder aliado afirmou que seu partido está disposto a ajudar, mas à conta-gotas. Diante da dificuldade de relacionamento do Palácio do Planalto com sua base no Congresso — principalmente a falta de atenção da presidente Dilma, que aboliu nos últimos meses a prática de receber os políticos em audiências separadas —, os parlamentares pretendem usar a comissão parlamentar de inquérito para ter, pelo menos, suas demandas atendidas, como cargos e liberação de emendas ao Orçamento da União.

— Qual o único jogo que a gente tem com o Planalto? E a gente vai entregar o jogo? — pergunta um desses líderes.

O presidente do PMDB, senador Valdir Raupp (RO), tentou explicar o papel de figurante adotado pelo partido, até agora, na CPMI:

— O PMDB é um partido equilibrado e vai continuar sendo — afirmou Raupp, dizendo que o PMDB procurou dar o mesmo tratamento aos governadores Marconi Perillo (GO), tucano, e Agnelo.

PT se queixa do PMDB por não escalar primeiro time
Uma das reclamações do PT é que o PMDB não escalou deputados e senadores experientes para compor a comissão parlamentar de inquérito. Seus integrantes na comissão tratam mais das questões de interesses locais, como os deputados de Goiás e do Distrito Federal.

Do outro lado, uma das preocupações dos peemedebistas é com a investigação da Delta, já que a empreiteira tem contratos com governos comandados por eles, inclusive no Rio de Janeiro. Líderes do PMDB na Câmara e no Senado que não são integrantes da CPMI agem, nos bastidores, para evitar problemas, como o pedido de convocação do dono da empreiteira, Fernando Cavendish, derrubado ontem.

Quatro brasileiros em lista internacional de corrupção


Débora Alvares 
O Estado de S. Paulo

Banco de dados relaciona 150 casos no mundo; Maluf é citado duas vezes


SÃO PAULO - No momento em que os brasileiros acompanham o desenrolar de mais um escândalo de desvio de dinheiro público, o Banco Mundial lança um banco de dados em que cita 150 casos internacionais de corrupção. São diversas ocorrências em todo o mundo. E o Brasil não passa despercebido. Entre os representantes estão o deputado Paulo Maluf e o banqueiro Daniel Dantas.

Batizado de The Grand Corruption Cases Database Project, o projeto reúne informações de casos em que foram comprovadas movimentações bancárias de pelo menos US$ 1 milhão relacionados à corrupção e lavagem de dinheiro. A ideia teve origem em um relatório publicado pelo Banco Mundial no fim do ano passado. Segundo o estudo, a corrupção movimenta cerca de US$ 40 bilhões por ano no mundo.

O banco de dados coloca à disposição documentos e informações dos processos de cada caso, mas não há um ranking dos mais corruptos ou de qual país concentra casos mais graves e onerosos aos cofres públicos.

Entre os brasileiros presentes no levantamento, chama a atenção a dupla aparição do ex-prefeito da capital paulista e deputado federal, Paulo Maluf. Na primeira vez em que aparece no sistema, ele é acusado pelo procurador-geral de Nova York de movimentar US$ 140 milhões no Banco Safra, entre 1993 e 1996. Em outro processo, é acusado de desviar dinheiro de pagamentos fraudulentos para contas em bancos em Nova York e na Ilha de Jersey, no Reino Unido. O assessor de imprensa de Maluf, Adilson Laranjeira, disse ontem que "Paulo Maluf não tem nem nunca teve conta no exterior".

O banqueiro Daniel Dantas também é citado no banco de dados criado pelo Banco Mundial pelo caso do Grupo Opportunity, em 2008, quando teve US$ 46 milhões bloqueados em contas do Reino Unido. Em nota, o Opportunity afirma que esse relatório é datado de 2008 e está desatualizado. "Em 2008, a farsa da Satiagraha ainda não havia sido desmascarada em toda a sua extensão. Por conta de possíveis erros como esse, o Banco Mundial expressamente não garante a veracidade das informações."

O fundador e ex-presidente do Banco Santos Edemar Cid Ferreira também aparece na relação. Edemar rechaçou a publicação, alertando sobre a existência de um disclamer - segundo ele, um aviso da própria instituição de que "as constatações, interpretações e conclusões expressas no banco de dados não refletem necessariamente a opinião dos diretores executivos do Banco Mundial ou dos governos que eles representam".

O caso do propinoduto, que envolveu o ex-subsecretário de Administração Tributária do Rio Rodrigo Silveirinha Correa e outros três fiscais e quatro auditores da Receita Federal, também é citado. "Meu cliente é acusado de corrupção passiva, mas até hoje não foi identificado nenhum corruptor", afirmou o advogado de Silveirinha, Fernando Fragoso. Segundo ele, o fiscal não tomou conhecimento da citação do seu caso na lista.

Impunidade por atos de tortura está disseminada no Brasil, aponta relatório da ONU


Daniella Jinkings
Agência Brasil

Brasília – O relatório feito pelo Subcomitê de Prevenção da Tortura (SPT) da Organização das Nações Unidas (ONU), divulgado hoje (14), aponta que a impunidade por atos de tortura está disseminada no Brasil. Segundo o subcomitê, isso se evidencia pelo “fracasso generalizado” na tentativa de levar os criminosos à Justiça, assim como pela persistência de uma cultura que aceita os abusos cometidos por funcionários públicos.

Oito membros do subcomitê visitaram os estados de Goiás, São Paulo, do Rio de Janeiro e do Espírito Santo entre os dias 19 e 30 de setembro de 2011. Além de fazer visitas a locais de detenção, o SPT participou de reuniões com autoridades governamentais, com o Sistema ONU no Brasil e com membros da sociedade civil.

No relatório, o subcomitê manifesta preocupação com o fato de a atual estrutura institucional no Brasil não proporcionar proteção suficiente contra a tortura e os maus-tratos. Durante a visita, o subcomitê encontrou cadeias em condições precárias, com número restrito de agentes. Além disso, foram relatados casos de tortura, maus-tratos, corrupção e controle de milícias.

Um dos principais pontos destacados pelo documento diz respeito à falta de médicos nas prisões. O subcomitê classificou como “espantosas” as condições materiais na maioria das unidades médicas, nas quais havia carência de equipamentos e de remédios. “A equipe médica era insuficiente e incluía detentos não qualificados para prestar serviços. Por exemplo, em uma prisão visitada, o SPT foi informado de que havia somente um médico presente, uma vez por semana, para atender mais de 3 mil prisioneiros”, diz o relatório.

O SPT também criticou a falta de acesso de presos à Justiça. Por meio de entrevistas com pessoas privadas de liberdade, o SPT descobriu que a assistência jurídica gratuita não era disponibilizada a todos que dela necessitavam. Outro problema apontado pelo subcomitê é que os juízes evitam a imposição de penas alternativas, mesmo para réus primários.

Além de mostrar problemas no sistema carcerário, o SPT faz diversas recomendações ao país para melhorar as condições de vida dos presos. Segundo o subcomitê, esta não é a primeira vez que recomendações como essas são feitas ao Brasil. “Infelizmente, o SPT detectou muitos problemas semelhantes aos identificados nas visitas anteriores, ainda que tenha havido progresso em algumas áreas específicas.”

O Brasil tem até 8 de agosto para apresentar uma resposta ao subcomitê das Nações Unidas. De acordo com a coordenadora-geral de Combate à Tortura da Secretaria de Direitos Humanos, Ana Paula Moreira, o governo federal ainda está trabalhando na resposta que será enviada à ONU. “O que temos visto é que os ministérios já têm se articulado. É algo que já vem sendo construído há algum tempo.”

Ela destacou ainda o Programa Nacional de Apoio ao Sistema Prisional, que tem como meta acabar com o problema da falta de vagas em presídios e cadeias femininos e diminuir pela metade o déficit de vagas para presos provisórios hoje detidos em delegacias. A expectativa do Ministério da Justiça é criar, nos próximos três anos, 42,5 mil vagas, sendo 15 mil para mulheres e 27,5 mil vagas para homens, em cadeias públicas. Será investido um montante de R$ 1,1 bilhão.

“É horrível falar de um plano que aumenta vagas, mas ele não está isolado. Há ações de outras pastas que tratam dessa questão do sistema prisional em si. Tanto os relatórios nacionais quanto os internacionais vão possibilitar um diagnóstico. Para a criação de políticas públicas, a gente precisa ter dados e diagnósticos para fazer essa discussão”, disse Ana Paula à Agência Brasil.

Os dados mais recentes do Departamento Penitenciário Nacional (Depen), do Ministério da Justiça, mostram que no Brasil há 514,5 mil presos. Desses, 173 mil são provisórios, ou seja, ainda não foram julgados. A superlotação dos presídios é um dos principais problemas do sistema carcerário. O país tem apenas 306 mil vagas para mais de 500 mil presos.

Edição Juliana Andrade

Rio mais 20 e Brasília menos 513


Carlos Chagas
Tribuna da Imprensa

A reunião do Rio+20 poderá gerar uma série de iniciativas fundamentais para a sustentabilidade do planeta, mas serve de desculpa para tirar a sustentação do Congresso. A próxima semana será, também, de Brasília-513, porque a Câmara dos Deputados não vai funcionar. Suas Excelências estão liberados para freqüentar a conferência ambiental, ainda que boa parte não deva sequer passar pela antiga capital, tomando a maioria o rumo de seus estados para as festas de São João. No Senado, há dúvidas sobre se pelo menos os integrantes do Conselho de Ética permanecerão no Distrito Federal para decidir sobre o futuro do mandato do senador Demóstenes Torres. Mas sessões deliberativas na Câmara Alta, de jeito nenhum, conforme decisão do presidente José Sarney, à maneira da mesma iniciativa tomada por Marco Maia, presidente da Câmara.

A CPI do Cachoeira não tem marcada qualquer reunião, nem mesmo as administrativas. Melhor para seus integrantes, que terão uma semana para ver assentada a poeira do vexame de quinta-feira passada, quando por maioria decidiram não convocar para depor Luís Pagot e Fernando Cavendish. Erra quem disser que não dá para entender a negativa, porque entende-se muito bem: PT e PMDB uniram-se e continuarão unidos para preservar o governo federal.

O governo federal? Claro, porque tanto o ex-diretor geral do Denit quanto o ex-presidente da Delta Construções poderiam revelar a participação de altos funcionários do Executivo, até ministros e ex-ministros, envolvidos no superfaturamento de obras, no recebimento de propinas e na formação de quadrilhas. Para não falar no envolvimento de partidos políticos.

Claro que a presidente Dilma Rousseff nada tem a ver com a lambança praticada em torno das obras do PAC, a cargo das empreiteiras e com o beneplácito de alguns ministérios. Mas o barro que seria jogado no ventilador respingaria no governo dela. Sendo assim, companheiros e peemedebistas uniram-se para blindar o Palácio do Planalto e a Esplanada dos Ministérios. Como para blindar-se, também.

Por tudo isso, uma semana de folga parlamentar surge providencial. Ficam faltando os últimos sete dias do mês, que serão devidamente enrolados até chegar o recesso de julho . Aí, pernas para o ar, que ninguém é de ferro…

SIGA O DINHEIRO
Na novela de horror que foi Watergate, nos Estados Unidos, um capítulo essencial serviu para apontar o final feliz que foi a renúncia do presidente Richard Nixon. Coube ao Garganta Profunda, aliás recentemente falecido, aconselhar um dos jornalistas do Washington Post para que “seguisse o dinheiro”.

Na CPI do Cachoeira bem que esse conselho poderia dar certo. Acompanhar os bilhões destinados a obras concedidas à empresa Delta serviria para identificar corruptos e corruptores, mesmo se em muitos casos as propinas tiverem sido pagas em espécie. Começar pelos contratos aditivos que duplicaram preços acertados nas concorrências também seria um bom começo.

QUEM FOI COMPRADO?
O senador Álvaro Dias ocupou ontem a tribuna do Senado para cobrar de seus colegas da CPI, algum dia, uma pergunta principal ao ex-presidente da Delta: “qual o senador, ou quais os senadores, que o senhor comprou por 6 milhões de reais?”

Como representante do PSDB, ele acusou superfaturamento na maioria das obras do PAC, apesar de quase todas paralisadas. Denunciou um conluio entre o PT e o PMDB.

ANTECIPANDO O TRABALHO
Ouve-se nos corredores do Supremo Tribunal Federal que, à exceção dos ministros Joaquim Barbosa e Ricardo Lewandowski, já tendo completaram seu julgamento, ou quase, os demais integrantes da corte debruçam-se frente aos computadores para examinar em detalhes os autos do processo do mensalão.

A maioria já vai avançada na leitura e, em paralelo, formando opinião a respeito da participação dos 38 réus. Como os Meretíssimos terão o mês de julho para adiantar as tarefas, a impressão é de que o calendário será mesmo cumprido à risca. Iniciado em agosto, na primeira quinzena de setembro o julgamento estará concluído. Claro que pesarão nas decisões as peças do Procurador-Geral da República e dos respectivos advogados de defesa, mas ganha uma passagem de graça para Uganda, com baldeação em Paris, quem supuser os 11 ministros sem tendências já cristalizadas.

Sob suspeita de desviar R$ 100 milhões, Banco do Nordeste terá um novo ‘aporte’: R$ 4 bilhões

Josias de Souza



Às voltas com uma investigação em que o Ministério Público e a Polícia Federal apuram desvios de mais de R$ 100 milhões em créditos fraudulentos, o Banco do Nordeste receberá do Tesouro Nacional um reforço de caixa. Coisa de R$ 4 bilhões.

Deve-se o feito ao deputado Danilo Forte (PMDB-CE, na foto). Relator da medida provisória 564, editada por Dilma Rousseff para criar o programa Brasil Maior, o deputado Forte fez jus ao nome numa negociação com o Ministério da Fazenda.

No seu texto original, a MP de Dilma previa a capitalização do BNDES em R$ 100 bilhões. Em seu relatório, Danilo Forte salgou a conta em mais R$ 5 bilhões –além dos R$ 4 bilhões que destinou ao Banco do Nordeste, incluiu R$ 1 bihão para o Banco da Amazônia.

Para evitar riscos à tramitação da MP, que perderá a eficácia se não for aprovada pela Câmara e pelo Senado até 15 de agosto, o governo cedeu. A rendição foi formalizada num entendimento de Danilo, o Forte, com o secretário-executivo do Ministério da Fazenda, Nelson Barbosa. Segundo do ministro Guido Mantega, ele desfruta de prestígio junto a Dilma.

O deputado celebrou o êxito numa nota veiculada no Twitter: “Vitória! Apesar do momento político difícil pelo qual o BNB está passando, conseguimos…” Num link que se segue à mensagem, Danilo Forte remete os internautas para notícia veiculada pelo jornal ‘O povo’, um dos principais diários do seu Estado.

Junto com a injeção de recursos que propiciou ao nordestino BNB e ao amazônico Basa, Danilo introduziu na medida provisória de Dilma mudanças nos fundos constitucionais voltados ao desenvolvimento das duas regiões.

Com as novidades, disse o deputado, os bancos poderão potencializar suas operações de crédito sem ter de “mendigar aporte de recursos no futuro para continuar ampliando os investimentos na região.”

Único servidor afastado depois que os milionários desvios do Banco do Nordeste ganharam as manchetes, o ex-chefe de gabinete da presidência da instituição, Robério Gress do Vale, concedeu uma entrevista reveladora.

Disse que o banco, cuja diretoria é 100% composta de apadrinhados do PMDB e do PT, convive com uma “briga” das duas legendas. Uma disputa por espaço, que convulsiona as engrenagens administrativas.

“Essa briga está sendo muito prejudicial ao Banco do Nordeste, nos cargos estatutários, porque é um grupo daqui, um dali, é o PMDB que quer ganhar mais espaço e quer foder com o PT”, disse Robério. “Então essa questão, eu acho, acaba deixando muitas vezes em xeque a própria administração do banco.”

Levado à grelha sozinho, Robério insinua que merece companhia. “O alvo não sou eu, eu sou um elemento que dá manchete. […] Eu acho que as coisas vão aparecer. Eu, hoje, tenho forte sentimento de que isso é para desfocar de uma questão maior. De uma questão maior operacional. Para desfocar de uma questão maior.”

É contra esse pano de fundo enodoado que o deputado Forte prevaleceu sobre a Fazenda. Inicialmente, o governo se dispunha a levar ao pano verde em que é negociada a MP do Brasil Maior algo como R$ 1,5 bilhão –R$ 1 bilhão para o Banco do Nordeste e R$ 500 milhões para o Banco da Amazônia. Tendo atrás de si os votos do PMDB e dos “aliados” da Câmara, o relator puxou suas fichas. E levou R$ 5 bilhões.

País já começou o segundo trimestre estagnado


Gabriela Valente
O Globo

Índice do Banco Central ficou em 0,22% em abril. Mais analistas preveem alta do PIB menor que 2%

BRASÍLIA — O Brasil cresceu 0,22% em abril na comparação com março. O Índice de Atividade Econômica do Banco Central (IBC-Br), divulgado na sexta-feira, veio dentro do esperado pelos analistas do mercado financeiro e foi o primeiro resultado mensal que apontou um leve crescimento da economia neste ano, mas ainda assim não contribuiu para melhorar as expectativas em relação ao futuro da economia. Ao contrário, alguns economistas já admitem que o crescimento pode ficar abaixo de 2% neste ano. O IBC-Br é uma prévia do comportamento do Produto Interno Bruto (PIB) que o BC usa para tomar as suas decisões. O BC ainda revisou para baixo o dado de março. A queda foi quase o dobro do que foi anunciado no mês passado: 0,61% de retração da atividade em vez de uma queda de 0,35%.

Para Nilson Teixeira, economista-chefe do Credit Suisse, os indicadores disponíveis do segundo trimestre não apontam para uma forte aceleração da atividade no futuro:

— Acreditamos na perspectiva de um declínio na produção industrial e no IBC-Br de maio. Isso aumenta significativamente o risco de crescimento no segundo trimestre menor do que a nossa projeção de 0,8% e, portanto, de uma expansão em 2012 também menor que a nossa previsão atual de 2%.

Na opinião do economista-chefe do Itaú, Ilan Golfajn, a crise pode se estender e fazer o Brasil crescer menos por um período maior que o previsto com consequências para a economia real:

— Baixo crescimento aumenta o risco de o mercado de trabalho se enfraquecer.

Nos últimos 12 meses, o IBC-Br acumula alta de 1,55%. O governo aposta que a economia vai reagir no segundo semestre. O economista-chefe do Bradesco, Octavio de Barros, tem a mesma opinião.

— O resultado positivo de abril, sustentado pelo bom desempenho do consumo das famílias, conforme apontado pelas vendas no varejo, reforça nossa expectativa de uma retomada gradual mais à frente da atividade econômica — afirma, em relatório do banco.

Já o analista da Corretora Votorantim Roberto Padovani afirmou que o impacto da crise já está sendo sentido e é mais forte do que se imaginava e enfraquece qualquer previsão.

— Ninguém sabe ao certo o impacto porque ninguém consegue traçar com clareza o cenário externo e nem mesmo como a crise vai afetar a confiança das pessoas.

Já a inadimplência do consumidor, outro freio ao consumo, subiu 21,4% em maio frente ao mesmo período do ano passado, segundo o Serasa Experian. Na comparação com abril, que teve dois dias úteis a menos, a inadimplência foi 6,2%, na terceira alta seguida.