domingo, março 30, 2008

Bolsa-Família cresce porque mantém pobreza, diz Cristovam

David Moisés, Estadão

Senador e ex-ministro critica governo por ter tirado a educação do foco do programa; foco de lula 'é o voto'

O crescimento do número de famílias pobres beneficiadas por programas sociais não é sinal de sucesso, e sim de um sério desvio no esforço pela eliminação da miséria, adverte o senador Cristovam Buarque (PDT-DF). Idealizador do Bolsa-Escola, justamente o programa que inspirou o Bolsa-Família - carro-chefe das políticas sociais do governo Lula -, Cristovam lembra que o objetivo do País é ter cada vez menos necessitados do auxílio, reduzindo o número de beneficiados. Segundo o IBGE, entretanto, a parcela de domicílios que recebem dinheiro de programas sociais no Brasil cresceu de 15,6% em 2004 para 18,3% em 2006, conforme dados divulgados na sexta-feira, 28.

O problema, diz o senador, é que o Bolsa-Família não tem o foco na educação. "A educação das crianças é o único caminho para a emancipação dessas famílias, mas o programa deixou de ter impacto nessa emancipação", afirma. "Há uma grande diferença entre pensar 'recebo o benefício porque meu filho vai à escola' e 'recebo porque sou pobre', como ocorre agora." O Bolsa-Família exige dos pais a garantia de freqüência escolar dos filhos, mas Cristovam vê uma certa frouxidão neste quesito, e lembra o "controle rigorosíssimo" exigido pelo Bolsa-Escola que ele exportou para o México.

Mantido como está, o Bolsa-Família nunca vai reduzir o número de beneficiários, prevê o senador. Em 2006, dos cerca de 10 milhões de domicílios brasileiros onde pelo menos uma pessoa recebeu benefício de programas sociais, 8,1 milhões tinham seu sustento no Bolsa Família, segundo o IBGE. Enquanto puder ser sustentado, "o programa vai manter ou aumentar seus números e seu custo", tendendo a ser um programa permanente, e não um socorro às famílias em situação de extrema necessidade, comentou Cristovam, por telefone, de Santiago do Chile.

Preguiça e Duda Mendonça
Ele não vê no Bolsa-Família o "efeito preguiça" apontado por muitos críticos, que acusam o governo de acostumar os beneficiários a receber o auxílio sem buscar trabalho. "Não há isso, ninguém se conforma em ficar sem trabalhar, e acho que até as crianças estão trabalhando mais", diz. Para ele, o que mantém os beneficiários presos ao programa é a falta de perspectiva, dada pela falta de formação e qualificação. "A saída da pobreza está nas crianças. Tirar o foco da educação é mudar, no imaginário da população, a noção do direito à emancipação. 'Tenho direito ao dinheiro, mas o direito à educação é só dos ricos.' A escola vira um lugar que dá comida, mas não emancipação."

O foco na educação existiu, diz Cristovam, quando ele levou a experiência do Bolsa-Escola - criado em sua gestão no governo do Distrito Federal, de 1995 a 98 - para o primeiro governo de Luiz Inácio Lula da Silva. De janeiro de 2003 a janeiro de 2004, Cristovam foi Ministro da Educação e tentou implementar o programa em todo o País, mas sua passagem por ali foi difícil. "Sempre fui o patinho feio no governo Lula, sempre sob pressão do José Dirceu."

Ainda antes de ser demitido, por telefone, Cristovam já sabia que o foco ia mudar. "Quando Duda Mendonça veio para uma reunião e trouxe o plano do Bolsa Família, eu disse que o governo estava mudando a ideologia da sua estratégia nesta área", relata. O primeiro sinal efetivo de mudança, após sua saída do governo, foi "a retirada do programa do Ministério da Educação, passando o para a área da assistência social, no Ministério do Desenvolvimento Social".

Bolsa e ideologia
O senador diz que não se surpreende com a transmutação do Bolsa-Escola em Bolsa-Família, e não vê contradição entre este fato e a prática de Lula e do PT. "Não houve uma ruptura ideológica. O governo e o PT não mudaram o discurso nem a prática. O PT sempre foi um partido corporativizado, e não um partido para o Brasil, sempre atuou em nome dos interesses de grupos organizados, como os sindicatos dos professores nas universidades, e não em nome da educação."

A opção de Lula, com o Bolsa Família, é pelo apoio popular, diz. "Lula pensa no voto." É uma atitude coerente com o comportamento do presidente diante do público, segundo o ex-ministro. "Observe que ele não fala para o País, ele fala sempre para a platéia que está diante dele."

Fausto tropical

Folha de São Paulo

A obsessão do Itamaraty por uma vaga permanente no Conselho de Segurança da ONU está levando a diplomacia brasileira a agir como um Fausto dos trópicos, que negocia sua reputação em troca de apoio para aquela veleidade.

A última do Ministério das Relações Exteriores foi aceitar o convite de Robert Mugabe, ditador do Zimbábue, para atuar como observador das eleições gerais de hoje. É natural que o regime desta antiga colônia britânica no sul da África procure legitimar a farsa eleitoral que prepara solicitando a presença de monitores de países que considera "neutros", ou seja, que não condenarão o pleito ou se limitarão a críticas leves. Já é bem pouco lisonjeiro que o Brasil tenha sido incluído nessa lista, mas é a aceitação do convite por parte de Brasília que se afigura patética.

O tamanho da encrenca em que o Itamaraty se meteu pode ser medido pelas dúvidas em torno do processo eleitoral. A primeira delas diz respeito à própria condição de Mugabe como favorito. Os principais legados de sua administração são uma hiperinflação de 100.000% ao ano e, com o auxílio da Aids, uma redução da expectativa de vida de 60 (1990) para 37 anos. Já seria surpreendente que o líder de um governo com esse currículo tivesse um mísero voto; que tenha a preferência de 57% dos eleitores, como indicam as "pesquisas", parece uma pilhéria.

Os indícios de fraude são abundantes. O governo mandou imprimir 9 milhões de cédulas, embora só haja 5,9 milhões de eleitores registrados. O excedente, alega-se, é para evitar "falta". A polícia foi autorizada a entrar nas seções eleitorais para "ajudar" os eleitores analfabetos.

É o caso de perguntar por que Mugabe se dá ao trabalho de organizar um pleito. Afinal, os comandantes do Exército, da polícia e da guarda penitenciária (força paramilitar) já disseram em alto e bom som que não permitirão a derrota do ditador.

A situação fica ainda mais constrangedora para o Itamaraty quando se consideram os demais países escolhidos para monitorar a eleição. Trata-se de verdadeiros "campeões da democracia" como China, Venezuela, Irã, Rússia, Sudão, Líbia e Egito. Observadores dos EUA e da UE foram proibidos de entrar no Zimbábue. É que, segundo Mugabe, eles não são "neutros".

O Itamaraty deveria poupar o Brasil de tanta "neutralidade".

Retrocesso na educação

Estadão

Sob a alegação de que "escola não é padaria" e "educação não é mercadoria", o Ministério da Educação (MEC) pretende intervir, de modo indireto, nos processos de incorporações de universidades particulares, de lançamento de ações em bolsa por conglomerados educacionais e de participação de capitais internacionais em entidades brasileiras de ensino superior. A estimativa é de que o mercado educacional movimente anualmente cerca de R$ 40 bilhões.

Só nos dois primeiros meses de 2008 foram realizadas 9 operações de incorporação de empresas do setor, no valor de R$ 81 milhões. Em 2007 ocorreram 25 aquisições, das quais 14 realizadas por 4 empresas de capital aberto. Elas obtiveram R$ 1,4 bilhão com a venda de ações em bolsa, tendo aplicado os recursos na aquisição de universidades concorrentes para aumentar sua participação no mercado.

As demais aquisições foram realizadas por empresas de capital fechado, que cresceram adquirindo faculdades de porte médio e pequeno. Bancos de investimento nacionais e internacionais constituíram fundos específicos para adquirir participações em conglomerados educacionais. Para as autoridades educacionais, esse processo poderia levar à desnacionalização do setor. O que o governo mais teme é que a abertura do mercado educacional seja incluída nas negociações do Acordo Geral para o Comércio de Serviços, na Organização Mundial do Comércio (OMC). "Até que ponto não se retirará do poder público nacional o controle da regulamentação no País? É um risco para o projeto de desenvolvimento do Brasil aderir à proposta da OMC, porque a educação, na concepção governamental brasileira, é um bem público e um direito, não uma mercadoria", diz o secretário de Educação Superior do MEC, Ronaldo Mota.

Embora não existam obstáculos legais para a presença de capitais estrangeiros no setor educacional, o MEC vem tentando impor limites à sua participação. Pelo artigo 209 da Constituição, "o ensino é livre à iniciativa privada", cabendo ao poder público a responsabilidade pela "autorização e avaliação da qualidade". Numa interpretação extensiva desse artigo, o MEC tem elaborado pareceres nos quais afirma que quem tem competência para autorizar e avaliar também pode regular. Ou seja, pode estabelecer regras, sob a justificativa de exigir um padrão mínimo de qualidade.

Como disse Mota em entrevista ao jornal Valor, na década passada o poder público avaliava e o mercado regulava; agora, "o Estado é regulador", obrigando algumas universidades a reduzir a oferta de vagas, diminuir o número de alunos por sala de aula e a elevar exigências de qualificação do corpo docente. Embora seja óbvio que o papel do MEC é zelar pela qualidade do ensino, o modo como a questão é colocada pelo secretário de Educação Superior tem um tom de repulsa ao capital estrangeiro. A preocupação com a qualidade, em outras palavras, seria pretexto para criar empecilhos para empresas multinacionais que pretendam investir no mercado educacional brasileiro.

Essa impressão ficou ainda mais nítida depois que o secretário, em entrevistas e artigos, passou a pedir ao Congresso a votação do Projeto de Lei do Ensino Superior. O projeto foi enviado pelo Executivo em regime de urgência. Mas, por causa das críticas que sofreu, o pedido de urgência foi retirado e o projeto passou a tramitar vagarosamente nas comissões técnicas. Antes que o secretário de Educação Superior começasse a fazer o seu lobby, até as próprias lideranças governistas pareciam ter perdido o interesse na aprovação do projeto. Um dos exageros do texto é o dispositivo que define ensino privado como "função pública delegada" e prevê que 70% do capital votante das universidades pertença a brasileiros natos ou naturalizados.

Trata-se de uma medida obtusa. Por razões ideológicas, os autores do projeto não admitem que boas idéias e tecnologia de ponta podem vir junto com investimentos estrangeiros. Defender a retomada de um projeto absurdo, que parece não interessar nem mesmo às lideranças governistas no Congresso e que permitiria ao governo maior interferência regulatória nas universidades privadas a pretexto de assegurar a qualidade, e evitar a "desnacionalização" do ensino, como o MEC está pretendendo, é um enorme retrocesso.

Placar da dengue no Rio de Janeiro

Infectados: 46.578 pessoas

Mortes: 59 casos confirmados e mais 50 “suspeitos”

Omissão dos governantes: 100% confirmado

E o cara ainda acusa a oposição de destilar ódio contra ele. Errado: as vítimas da omissão dos governantes é quem deveriam estar destilando ódio. A propósito: ao que se sabe, até agora não apenas o "vossa excelência" não dirigiu uma única e miserável palavra de consolo para a população carioca, bem como não esboçou o menor gesto humanitário em relação ao Rio de Janeiro para ir conferir de perto o “resultado” de de ter investido nos últimos três anos apenas 50% do total previsto em programas de prevenção da doença.

A vergonhosa manipulação das estatísticas

Adelson Elias Vasconcellos

Várias vezes alertamos aqui que, a exemplo do que os militares no tempo da ditadura fizeram, o governo petista trabalharia incessantemente na manipulação de estatísticas como forma de propaganda do “regime”. Para quem viveu (e sofreu) as agruras vividas naquele período 1964-1985, se lembrará que um dos próceres e especialista na manipulação de dados, era ninguém menos do que Delfim Neto, que hoje posa de “democrático” mas, que foi o homem forte da economia naqueles idos tempos. E que já foram muito tarde.

O Brasil experimentou no período da ditadura uma das maiores concentrações de renda de sua história. Era de Delfim a mágica frase de que “é preciso aumentar o bolo para depois repartir”. Ocorre que o bolo que eles mostravam ao país era um bolo que nunca crescia. Assim, a massa salarial foi achatada da classe média para baixo.

Com a redemocratização, outro flagelo: a inflação sem controle, que corroía o poder de compra de todos. Parte da perda histórica foi recuperada com o Plano Real que trouxe para o mercado de consumo milhões de brasileiros que, mesmo tendo algum dinheiro, não conseguiam acompanhar a evolução acelerada de preços.

Ainda fruto do achatamento e concentração de renda, é bom lembrar, a pirâmide social foi se fragmentando com o tempo. Na Classe A, havia os ricos muito ricos, e depois, num grau menor, os simplesmente ricos.

Na Classe Média produziu-se o mesmo fenômeno, e até com maior intensidade. Havia alta que passou a ser representada pela Classe B, depois vinham a média e a baixa classe média. A antiga Classe C, que reunia os pobres, desceu alguns degraus, e passou a ser representada pelas Classes D e, mais tarde, a E. Na D, eram trabalhadores com pouca formação escolar, mas toda ela trabalhadora, percebendo baixos salários. A Classe E recebeu os miseráveis, desempregados ou simplesmente trabalhadores informais como camelôs, vendedores de doces, pipoca, quinquilharias de toda a sorte e gênero, e assim por diante.

Nesta semana, o Instituto Ipsos divulgou uma pesquisa no mínimo curiosa e para a qual precisamos analisar com muita calma, porque ela embute um resultado final um tanto distorcido e não condizente com a realidade brasileira.

Diz a pesquisa que a Classe Média se tornou a maioria da população. Será ? Interessante é que nem o IBGE, com todo o seu aparato técnico, conseguiu chegar a esta mesma conclusão. Enfim, vamos em frente.

Diz a pesquisa que as classes D/E reduziram-se de 93 milhões em 2005, para 73 milhões em 2007. A Classe C, ao contrário, saltou de 62 milhões em 2005 para 86 milhões em 2007. Ou seja, enquanto uma diminui em 20 milhões, a outra cresceu em 24 milhões. Ora, há uma diferença considerável de 4 milhões de pessoas que não vieram das classes D/E, provavelmente, pessoas que estavam nas classes A/B e que perderam renda, patrimônio ou o que mais possa caracterizar, em 2 anos, terem caído seu padrão.

Aí é começa o rolo. A pesquisa simplesmente não informa quantas pessoas haviam nas classes A e B nem em 2005 tampouco em 2007. Portanto, fica difícil a gente tentar fechar a conta.

Para tentar saber as quantidades das classes A/B, precisei recorrer ao IBGE. Em seu site, há um arquivo no padrão excel, de um levantamento enviado ao TCU em novembro de 2007, com a contagem por municípios, do total da população brasileira estimada em 2007. Temos lá, 183.989.711 de habitantes.

Pois bem, de posse do total de habitantes do país, já podemos chegar ao resultado final. Para 2007, a pirâmide social da população brasileira estava assim composta:

Classes A/B – 24 milhões
Classe C - 86 milhões
Classes D/E – 73 milhões


E aí a coisa começa a ficar esquisita. Porque a ser verdadeira a pesquisa da Ipsos, as Classes A/B representariam pouco mais de 13% da população brasileira atual. Historicamente, este total nunca atravessou a barreira de 5%. Convenhamos que tem rico demais neste resultado final, mais do que, repito, historicamente se tem apurado, inclusive o próprio IBGE.

Mas, vá lá, consideremos que os totais acima divididos em classes sócio-econômicas, apesar de esquisitos, estejam certos, que sejam estes mesmos.

Aí fomos analisar os números que a pesquisa considerou para definir quem pertence a esta ou aquela classe. Confesso que levei um susto. E, uma vez refeito, comecei a entender o quão distorcido o resultado acabou se apresentando.

A pesquisa considerou a renda média para fazer seus cálculos. Para as classes D/E a renda média saltou de R$ 545,00 em 2005 para R$ 580,00 em 2007. A renda da Classe Média se manteve estável durante os anos de 2005, 2006 e 2007: R$ 1.100,00. E, nas Classes A/B, a renda média decresceu de R$ 2.484,00 para R$ 2.217,00, uma perda de 11%.

Sabendo-se que o salário mínimo em 2007 foi de R$ 380,00, considerar classe A/B pessoas com rendimento médio equivalentes a menos de 6 salários ??? Isto é alguma piada ? Considerar classe média pessoas com menos de 3 salários mínimos ? Isto é alguma brincadeira de faz de conta ???

É claro que a artilharia do governo Lula já saiu Brasil afora soltando rojão e comemorando, a tal ponto que, a princesinha de Brasilia, aquela da Casa Civil que está empacada no PAC, a moça do dossiê apelidado de “levantamento de um banco de dados”, já saiu trovejando que “Lula transformou o Brasil em um país de classe média”.

Sinceramente, fica difícil de se tentar fazer alguma interpretação do porquê o pessoal da Ipsos cometeu este horroroso engano. É preciso que esta gente entenda que a renda média brasileira não é nem de perto próxima a renda per capita que se considera em outros tipos de estatísticas. O sujeito dizer que é classe média quem ganha menos de três salários é uma heresia. Isto não custeia nem a escola do filho, quando mais a manutenção de um padrão de vida de bom padrão, sabendo-se que além de escola particular, a classe média tem seu imóvel próprio, muito bem localizado, um ou dois automóveis, e toda a sorte de conforto que sua renda de CLASSE MÉDIA lhe pode proporcionar. Achatar, artificialmente, esta renda média acabará que logo, logo todos seremos classe média. Não haverá pobreza no país. Convenhamos isto precisa ser corrigido porque trará prejuízo pra muito gente.

Se esta é a situação da classe média considerada pela pesquisa, pior ainda quando se tenta classificar a renda média das Classes A/B. Reparem, além de perderem 11% de seus ganhos nos últimos três anos, para esta camada da população foi estabelecida a renda, em 2007, de R$ 2.217,00, ou seja, pouco mais de 5 salários mínimos.

Perguntinha simples e ingênua: em que categoria o Instituto Ipsos classificaria, por exemplo, a classe política brasileira, que é numerosa, e que percebe acima de R$ 10.000,00 por mês? Ou os nossos magistrados, com renda mensal superior a R$ 20.000,00? Classes AA e BB?

E a improcedência destes resultados ficou ainda mais visível diante da informação dada pelo IBGE, de que, de acordo com o PNAD, 25 % população é beneficiária de programas sociais do governo, ou seja, caso não haja fraudes nem maquiagem, estes beneficiários tem renda média mensal abaixo de R$ 120,00, e sendo 25% do total, eles somam um batalhão de 46 milhões de pessoas. Sem dúvida, alguém escorregou feio nos resultados.

O pior é o uso político cretino que o governo Lula capitaliza a partir de informações que, conforme vimos acima, são absolutamente falsas. Será que eles não sabem matemática ? Pelo visto nem se preocupam, basta medirmos do que se compõem o eleitorado que o aprova, de acordo com a escolaridade.

É triste alguém construir uma biografia sob estruturas mentirosas. O povo brasileiro está idolatrando um engodo, uma mentira, uma mistificação. Não é a toa que Delfim se tornou o consultor particular de Lula. O homem forte da economia da ditadura, sem dúvida, deve ter muita coisa para ensinar ao Luiz Inácio, principalmente, as mais sórdidas.

A tragédia do neopopulismo

João Mellão Neto, Estadão

O ex-deputado federal Wilmar Rocha, de Goiás, foi presidente do Instituto Tancredo Neves (ITN) na época em que eu fui diretor, em meados dos anos 90. Grande sujeito, missão ingrata a dele. Explico: por força de lei, todos os partidos devem criar um instituto de estudos e pesquisas, para melhor fundamentarem seu posicionamento no Congresso. Até aí, tudo bem. Ocorre que, no Congresso, ninguém, em sã consciência, é capaz de dispor de um minuto sequer de seu tempo para discutir ideologia. Não que esta não seja importante. O problema é que, na prática, cada um adapta o discurso da maneira que quiser. Restamos nós, os bravos mosqueteiros do ITN, para formular, de maneira simplificada, simplória até, os postulados de nosso partido. Alguns, a esta altura, vão dizer que o PFL - hoje DEM - não tem ideologia. Acontece que o mesmo problema afligia todos os partidos, inclusive o (então vestal) Partido dos Trabalhadores.

Éramos meia dúzia de deputados, mas a nossa ação sugeria que fôssemos mais de cem. Devemos tudo isso ao Wilmar Rocha, que, a par de seus sólidos conhecimentos sobre sociologia política, tinha um senso de marketing inigualável.Pois bem, o Wilmar esteve em São Paulo na semana passada, para lançar o seu excelente e atual livro O Fascínio do Neopopulismo, que ele diferencia do antigo em função de algumas características básicas: o velho populismo alavancava o seu poder graças ao apoio incondicional dos sindicatos urbanos, aos quais concedia, em troca, vantagens salariais e privilégios trabalhistas; o neopopulismo, ao contrário, prefere cortejar a massa dos destituídos de tudo - são os sem-terra, os sem-teto, os sem-emprego.

Essa mudança estratégica se deve ao fato de o operariado, hoje, estar longe de ser a camada mais sacrificada da sociedade. De modo geral, o operário tem casa própria, TV em cores, automóvel e, cercado pelo conforto que seus eletrodomésticos lhe proporcionam, não tem mais disposição para sair às ruas em passeatas de protesto.

O livro de Wilmar Rocha traz numerosos exemplos de como estão pipocando pela América Latina presidentes populistas, agora com ideologia renovada, e a ameaça que isso representa. O populismo, seja de que tipo for, redunda sempre em desastre. No início, o governo começa a gastar mais do que arrecada e, assim, pode dar aumentos salariais polpudos aos proletários e tocar um sem-número de programas sociais. Na segunda fase, o governo descobre que precisa criar receitas para fazer frente às crescentes despesas e passa a emitir bônus da dívida pública, na esperança de que essa fonte de receita seja inesgotável. Na terceira fase, o volume de bônus em poder do público é tão grande que ninguém mais acredita que o governo poderá pagá-los. O resto é sabido: a nação entra em colapso, não sem antes drenar toda a poupança do público.

Presidentes ou chefes de Estado personalistas existem em todas as partes do mundo. Nicolas Sarkozy, na França, é um deles, Silvio Berlusconi, que governou a Itália até recentemente, é outro. Barak Obama, caso venha a vencer as eleições norte-americanas, é um terceiro.

Por que eles não são classificados como populistas? Porque o poder de mando deles, uma vez no poder, é baixo. Quer falemos de França, Itália ou EUA, são todos países politicamente amadurecidos, cujos povos resistem, com ferocidade, a qualquer tentativa de conspurcar as suas instituições.

A América Latina é o berço e, felizmente, a única pátria do populismo. Na África, simplesmente não existem instituições; nos países desenvolvidos, elas são fortes demais para que alguém ouse confrontá-las. Já na América Latina, as instituições existem, porém são fracas demais para resistir às investidas de aventureiros dotados de uma boa dose de carisma.

Pesquisa recente levada a cabo em toda a América Latina demonstra o desapreço que nossos povos têm pelas instituições democráticas. Questionados a respeito, apenas 55% dos pesquisados consideraram a democracia o melhor regime. Esses números também são válidos para o Brasil, com uma agravante: boa parte dos pesquisados condicionou sua resposta a uma circunstância - se a economia for bem, se os salários subirem, etc.Acende-se, assim, uma luz vermelha no painel. O mais correto seria pensar que a democracia é importante quando as coisas vão bem e imprescindível quando vão mal. Caso contrário, nós estaremos à mercê do primeiro tiranete que apareça, em situações de crise, prometendo tão-somente que, por intermédio dele, "dias melhores virão".

Prova disso tive recentemente, quando um aluno do terceiro ano de uma das mais renomadas faculdades de Administração do Brasil me procurou para que eu desse um testemunho vivo em seu trabalho de escola sobre os anos da ditadura. (É nessas horas que percebemos que estamos ficando velhos...)

Procurei mostrar-lhe que a nossa ditadura foi ambivalente: truculenta e cruel no trato com a oposição, com os dissidentes e até mesmo com os descontentes, eficiente e bem planejada no que tange à administração pública.

Para surpresa minha, a essa altura, aquele rapaz que estudava na fina-flor da elite acadêmica, me aparteou: "Mas, se os governos militares tocavam a economia e a administração pública com muito mais eficiência do que o regime democrático, não teria sido mais inteligente mantê-los no poder?"

Confesso que fiquei perplexo. Não é só ele que pensa assim. Provavelmente, a maioria de seus colegas de faculdade pensa dessa forma. Arrisquei uma resposta: "O que se discutia ali era a liberdade. E a liberdade não é um bem que se possa trocar no mercado."

Terminamos a entrevista, notei que ele não ficou nem um pouco convencido com a minha resposta. Queira Deus que não seja mais um, no futuro, a cerrar fileiras com os ditadores.

Que falta faz um Voltaire

Reinaldo Azevedo, Revista VEJA

"O socialismo acabou, sim. Então vamos lá: ‘Abaixo o socialismo!’.

Porque ele sobreviveu nas mentalidades e ainda oprime o cérebro dos vivos com o peso de seus milhões de mortos. O século passado viu nascer e morrer esse delírio totalitário"

Falei outro dia a estudantes da Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo. Um deles, militante socialista, antiimperialista, favorável ao bem, ao justo e ao belo, um verdadeiro amigo do povo (por alguma razão, ele acha que eu não sou), tentou esfregar Rousseau (1712-1778) na minha cara como exemplo de filósofo preocupado com o bem-estar do homem. "Justo esse suíço que não cuidava nem dos próprios filhos, entregando-os todos a asilos de crianças?", pensei. O sujeito amava demais a humanidade para alimentar as suas crias. "O que será que alguns mestres andam dizendo nas escolas?" Já participei de outros eventos assim. A expressão do momento, nas universidades, é resistir à "colonização promovida pelo mercado". A maioria silenciosa não dá bola pra essa besteira. A minoria barulhenta vai à guerra. O conceito é curioso porque faz supor que possamos ser caudatários, então, de uma cultura autóctone, de um nativismo pré-mercado ou de um tempo edênico em que o mundo não havia sido ainda corrompido.

A pauta de contestação varia pouco. Que importa se Israel é a única democracia do Oriente Médio? A justiça, sem matizes, estará sempre com os palestinos. O terrorismo islâmico assombra o planeta e obriga os regimes democráticos a uma vigilância que testa, muitas vezes, seus próprios fundamentos? A culpa cabe ao "fundamentalismo cristão" de George W. Bush, com sua "guerra ao terror". As Farc seqüestram e matam? É preciso eliminar a influência que os EUA exercem na América do Sul. O crime assombra a vida cotidiana dos brasileiros? O país precisa é de menos cadeias e mais escolas, como se fossem categorias permutáveis. Existe remédio para a tal "injustiça social"? Claro! Responda-se com a estatização dos pobres. A Terra está derretendo? É preciso pôr fim ao neoliberalismo. Sem contar os malefícios da imprensa burguesa...

Agora sei. É tudo culpa de Rousseau e do seu Discurso sobre a Origem e os Fundamentos da Desigualdade entre os Homens. Quem melhor comentou a obra, numa cartinha enviada ao próprio autor, foi Voltaire (1694-1778), pensador francês: "Quando se lê o seu trabalho, dá vontade de andar sobre quatro patas". Este sabia das coisas. Descobriu a "força da grana – e da liberdade – que ergue e destrói coisas belas". Está claro nos textos de Cartas Inglesas. E, à diferença do outro, não dava muita pelota pra esse papo de "igualdade".

Algumas normalistas de meias três-quartos do articulismo pátrio diriam que Voltaire era um malcriado. Onde já se viu tratar daquele jeito um senhor que só pensava no bem da humanidade? Afinal, o que ele queria? Ora, todos cedemos um pouquinho aos interesses coletivos e seremos felizes. Não sou Voltaire: minhas ambições e meu nariz são menos proeminentes, mas noto o convite permanente para que passemos a nos deslocar sobre quatro patas. Na prática, o iluminismo anglo-saxão venceu: a força da grana erigiu cidades, catedrais, civilizações e fez vacinas. O discurso da igualdade, quando aplicado, produziu uma impressionante montanha de mortos. Mas vejam que coisa: é Rousseau quem está em toda parte, reciclado pela bobajada do marxismo, que tentou lhe emprestar o peso de uma ciência social.

O que isso quer dizer na história das mentalidades? O socialismo perdeu o grande confronto da economia e desabou sobre a cabeça dos utopistas, mas as esquerdas têm vencido a guerra da propaganda cultural, impondo a sua agenda, aqui e em toda parte. Dominam o debate público e, pasmem!, foram adotadas pelo capital. Estão incrustadas, como se sabe, nas universidades e nos aparelhos do estado, mas também nas grandes empresas, que financiam institutos culturais e ONGs dedicados a preservar as árvores, as baleias, as tartarugas, a arte e, às vezes, até as criancinhas. De quebra, também nos convidam a ser tolerantes com o que nos mata.

São todos, de fato, "progressistas", filhos bastardos do suíço vagabundo. Eu, um "reacionário", um tanto voltairiano, embora católico, pergunto aos meus botões: um banco não é mais "humanista" quando oferece crédito e spread baratos do que quando se propõe a salvar o planeta? Na propaganda da TV, a mineradora parece extrair do fundo da terra mais sentenças morais do que ferro, mais poesia e idéias de "igualdade" – esta droga perigosa – do que minério. Escondam o lucro! Ele continua a ser um anátema, um pecado social e uma evidência de mau-caratismo. O lucro leva pau até em roteiro de Telecurso 2º Grau. Aposto que boa parte dos nossos universitários, a pretensa elite intelectual brasileira, acredita que as vacinas nascem do desejo de servir, não da pesquisa financiada pela salvadora cupidez da indústria farmacêutica.

O socialismo acabou, sim. Então vamos lá: "Abaixo o socialismo!". Porque ele sobreviveu nas mentalidades e ainda oprime o cérebro dos vivos com o peso de seus milhões de mortos. O século passado viu nascer e morrer esse delírio totalitário. Seu marco anterior importante é a Revolução Francesa, mas sua consolidação se deu com a Revolução Russa de 1917, que ousou manipular a história como ciência da iluminação. A liberdade encontrou a sua tradução nos campos de trabalhos forçados, com a população de prisioneiros controlada por uma caderneta ensebada que o ditador soviético Josef Stalin (1879-1953) levava no bolso. A igualdade mostrou-se na face cinzenta da casta dos privilegiados do regime. A fraternidade converteu os homens em funcionários do partido prontos a delatar os "inimigos do estado e do povo". A utopia humanista vivida como pesadelo impôs-se pelo horror econômico e acabou derrotada pelo inimigo contra o qual se organizou: o mercado. Mas, curiosamente, sobreviveu como um alucinógeno cultural.

De que "socialismo" falo aqui? É claro que o modelo que se apresentava como "a" alternativa não-capitalista de organização da sociedade desapareceu. E a China é a prova mais evidente de sua falência – do modelo original, o país conservou apenas a ditadura do partido único. O livro O Fim da História e o Último Homem, do historiador americano Francis Fukuyama, já se tornou um clássico do registro desse malogro. Demonstrou-se a falência teórica e prática de um juízo sobre a história: aquele segundo o qual o macaco moral que fomos nos tempos da coleta primitiva encontraria o estágio final de sua sina evolutiva no bom selvagem socialista, de espinha ereta, pensamentos elevados e apetites controlados pela ética coletiva.

De fato, os donos das minas de carvão (que seres desprezíveis!), os mercadores cúpidos, os colonizadores e até seus sicários, toda essa gente acabou, mesmo sem saber, civilizando o mundo. Felizmente, o homem não é bom. A sociedade, por meio dos valores, é que ajuda a controlar os seus maus bofes. Estamos falando de duas visões distintas de mundo. Uma supõe uma religião em que o deus único é o estado; o bem alcançado é diretamente proporcional à redução do arbítrio individual: menos alternativas, menos probabilidade de erro. E a outra acolhe a vontade do sujeito como motor da transformação do mundo, respeitadas algumas regras básicas de convivência. Atenção: a democracia moderna nasce dessa vertente, não da outra, semente dos dois grandes totalitarismos do século passado: fascismo e comunismo.

É o modelo de proteção às liberdades individuais, sem as quais inexistem liberdades públicas, que nos faculta o direito de criticar o nosso próprio modelo. Não obstante, as causas influentes, reparem, piscam um olho ora para utopias regressivas, ora para teorias que nos convidam a entender os facínoras segundo a particularíssima visão de mundo dos... facínoras! É a forma que tomou a militância de esquerda, que nos convida a resistir à "colonização promovida pelo mercado".

Tomem cuidado com os militantes da "igualdade" e da "justiça social". Toda crença tem um livro de referência. Esta também. Além de ter sido escrito com o sangue de muitos milhões, só se pode lê-lo adequadamente sobre quatro patas.

São Paulo e Paraná

J.R. Guzzo, Revista Veja

"Nenhuma menção foi feita pelo presidente, enfim, ao fato de que Severino, após renunciar, tentou voltar à Câmara nas eleições de 2006. Não poderia haver oportunidade melhor para o povo de Pernambuco, com a força do voto livre e secreto, corrigir a injustiça feita pela elite de São Paulo e do Paraná, dando um novo mandato ao ex-deputado. Mas o povo de Pernambuco não quis dar um novo mandato ao ex-deputado"

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva chefiou na semana passada, numa visita a Pernambuco, um desses eventos que mantêm o Brasil entre os primeiros colocados do mundo em termos de ISH, ou Índice de Subdesenvolvimento Humano, no exercício do governo. Mais uma vez, foi seguido à risca o Manual das Piores Práticas em vigor na política brasileira: platéia formada por gente humilde, recompensada com um lanche para bater palmas e entregue ao pé do palanque por ônibus fretados com o dinheiro de prefeituras amigas. Junto ao presidente, no coreto reservado às autoridades, estava o habitual cordão dos puxadores de aplauso. Até aí, tudo de acordo com o procedimento-padrão que garante, desde sempre, o atraso na vida política do Brasil, e que conta com a entusiasmada adesão do governo atual. Mas o presidente da República, nessa ocasião, resolveu compartilhar com o público algo que ninguém sabia até agora. Segundo ele, o ex-presidente da Câmara e ex-deputado pernambucano Severino Cavalcanti, presente na platéia, perdeu a presidência e o mandato, em setembro de 2005, por ter ficado amigo do governo, em vez de unir-se à oposição. Mais: quem fez isso foram as elites de São Paulo e do Paraná. Do Paraná, também? Foi o que Lula falou.

Ninguém sabia disso, naturalmente, porque não foi isso que aconteceu. O ex-deputado não perdeu nem uma coisa nem outra por ter ficado amigo de Lula; perdeu ambas porque foi acusado, com o apoio de um cheque entregue a sua secretária, de extorquir 10.000 reais por mês do então concessionário do restaurante da Câmara. Severino não explicou o que fez. Renunciou ao cargo e ao mandato para escapar da cassação, depois que um discurso do deputado Fernando Gabeira, no qual foi descrito como "um desastre" para a Casa, o pôs para correr dali. Severino pode ser, como diz o presidente Lula, uma grande figura humana, mas não foi vítima de um ato de perseguição; foi vítima do que ele próprio, e mais ninguém, fez. Não se imagina o que a elite de São Paulo e menos ainda a do Paraná – por motivos desconhecidos, dessa vez sobrou para o Paraná – tenham a ver com isso. É difícil, também, culpar a direita pela renúncia do ex-deputado. Se alguém pode ser considerado, nessa história toda, como uma liderança na maré de indignação que surgiu com a denúncia, esse alguém é o deputado Gabeira. E o deputado Gabeira, por mais boa vontade que se tenha com Lula, seu governo e Severino, não é um político de direita. Não haveria nada de errado se fosse, mas ele simplesmente não é – e tem todos os atos do seu passado e do seu presente para atestar isso. Da elite paulista (ou paranaense), Gabeira certamente também não é. Talvez seja da elite, genérico que o governo costuma utilizar contra todas as pessoas de quem não gosta, mas nesse caso seria da elite de Minas Gerais, onde nasceu, ou do Rio de Janeiro, onde vive e faz sua carreira política. Nenhuma menção foi feita pelo presidente, enfim, ao fato de que Severino, após renunciar, tentou voltar à Câmara nas eleições de 2006. Não poderia haver oportunidade melhor para o povo de Pernambuco, com a força do voto livre e secreto, corrigir a injustiça feita pela elite de São Paulo e do Paraná, dando um novo mandato ao ex-deputado. Mas o povo de Pernambuco não quis dar um novo mandato ao ex-deputado. Quem é o culpado, então, por ele continuar fora da Câmara?

O presidente não parece preocupado com observações desse tipo; passa a impressão, ao contrário, de estar cada vez mais indiferente aos fatos, quando se lança em discursos como o da semana passada. Tanto faz, para ele, dizer que o baralho tem cinco naipes ou que o ângulo reto ferve a 90 graus – tudo serve, desde que acredite estar fazendo bonito com suas performances no palanque. É esquisito, também, que em todas as acusações de corrupção e de má conduta feitas nos últimos cinco anos Lula tenha tido até agora dois, e só dois, tipos de reação: ou fica em silêncio ou fica a favor do acusado. Toda a sua revolta cívica, em cada um desses casos, se dirige contra os autores das denúncias e contra a oposição em geral – que teve direito, no espetáculo de Pernambuco, de ouvir do presidente que não vai ganhar, de jeito nenhum, as eleições de 2010.

Seria de imaginar que Lula, a esta altura, estivesse um pouco mais calmo. Os resultados do seu governo, na economia, são os melhores que o Brasil vê há muitos anos. Sua popularidade, segundo todas as pesquisas de opinião, continua brilhante. Quanto aos adversários, enfim, não poderia haver oposição mais zen que a atual. Os seus principais líderes, os governadores Aécio Neves, de Minas Gerais, e José Serra, de São Paulo, só se opõem entre si mesmos e fazem todos os malabarismos possíveis para demonstrar que são compreensivos e amigáveis em relação ao governo; comparado a eles, o Dalai-Lama parece um criador de caso. Nada disso adianta. Em vez de relaxar, o presidente fica cada vez mais irado. Por que será?

Lula deve saber o que está fazendo. Espera-se, francamente, que saiba mesmo – porque, se ele não souber, com certeza ninguém mais sabe.

Quem destila ódio contra quem ?

Adelson Elias Vasconcellos

A revista VEJA deste final de semana traz uma reportagem interessante, e sobre uma característica comportamental de Lula, sobre a qual já comentamos muitas vezes.´Diz respeito a sua encenação nos palanques por onde passa fazendo propaganda eleitoral, que é o que ele mais gosta de fazer.

Numa cerimônia no Nordeste, diante do noticiário e bombardeio intenso sobre a omissão do governo nos programas da dengue, para os quais investiu apenas a metade do previsto nos últimos três anos, e muito por conta da história mal contada pelo governo sobre o vazamento de informações consideradas sigilosas, o tal dossiê anti-FHC, que, muito embora todos os desmentidos, versões e apelidos que o dossiê recebeu, se trata claramente de um dossiê montado a partir de um banco de dados, que a ministra Dilma afirma ter sido feito o tal “banco de dados” por recomendação do TCU, e que o próprio TCU já desmentiu dizendo que não recomendou coisa nenhuma (a propósito, leiam nesta edição artigo do Josias de Souza sobre o tal documento do TCU a que a Dilma se referiu. Aliás, com quem será que a Dilma anda aprendendo a mentir?). Muito bem: diante do tiroteio, a reação costumeira, até quando o mar está sereno e calmo, de parte do senhor Luiz Inácio subiu um pouco o seu tom, já usualmente estridente. Acusou a oposição, com todas as letras, de destilar ódio contra ele.
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Isto seria correto não fossem alguns detalhes bastantes significativos: primeiro, que Lula tem maioria nas duas casa do Congresso, podendo aprovar o que bem entender. Pode se dar ao luxo de ignorar a oposição que, mesmo assim, adora também fazer uma “oposição responsável”, em outras palavras, seu comportamento é até submisso, muitas vezes de forma patética e ridícula. Também se fizermos um levantamento rigoroso de todas as lambanças protagonizadas pelo governo Lula não se encontra uma única e miserável digital de alguém da oposição para colaborar na divulgação. Tudo o que veio à tona foi por ações atrapalhadas da própria base de apoio do presidente, inclusive do próprio petê, que "carinhosamente foram alcunhados de "aloprados".

Acrescente-se ainda nesta mistureba todas as acusações, o roubo da obra pronta, a picaretagem explícita, a ação de desmoralização do Congresso, as tentativas de cerceamento da liberdade de expressão, e se terá uma rica salada cheia de proteínas venenosas.

Agora, para completar o quadro, junte-se todos os discursos de Lula, de 2003 para cá, em vídeo, e vocês se darão conta de que a postura do chefe da Nação é a de um desequilibrado: de seus gritos vertem rancor, ódio, acusações levianas, mentiras históricas, misturadas com ironias deselegantes carregadas de absoluta falta de respeito e educação, acusações sórdidas, tentativa de transferência de culpas e responsabilidades.

Reparem na foto abaixo: ela expressa qualquer discurso de Lula, em qualquer lugar do Brasil, em qualquer solenidade ou ocasião, e em qualquer época compreendida no período 2003-2008, inclusive. Se fôssemos computar o período em que ele era da oposição, seria necessário retirar as crianças da sala.

Portanto, deveria o Luiz Ignácio refletir-se no espelho e adotar uma postura mais condizente com a instituição que ele representa, portando-se de uma forma um pouco mais equilibrada. Já não vou pedir para parar de mentir e sistematicamente rasgar a história do país e distorcer a realidade como, por exemplo, em passar a mão na cabeça de aloprados que cometeram “erros” quando na verdade cometeram crimes, ou em chamar Hugo Chavez de “pacificador” na crise Colômbia – Equador, que não lhe dizia respeito e ele ainda deslocou Exército e Força Aérea para a fronteira do país vizinho, ou quando ele simplesmente ignorou as razões que derrubaram Severino Cavalcanti e Renam Calheiros. A oposição existente no governo Lula é aquela que todo o governante adoraria ter, razão pela qual ela é incapaz de destilar o que quer que seja contra quem quer que seja. Aliás, é bom lembrar, que quem, realmente, entende de destilados não é bem a oposição...
Reparem na encenação teatral, gesticulação circense e na expressão facial enraivecida: é uma rotina nos discursos de Lula. Pergunta-se: quem é que está destilando ódio contra quem?
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Popularidade e fúria
Revista VEJA

Apesar dos índices recordes de aprovação, Lula esbraveja no palanque e afaga políticos punidos

Com uma economia a todo o vapor e índices de popularidade pessoal e do governo que beiram a consagração, o presidente Lula tinha tudo para estar, na linguagem de que ele gosta, "feliz como pinto no lixo". Mas não. O presidente passou a semana ralhando com a estridência dos contrariados. Como se fosse um presidente acuado e sem nenhum apoio, deu-se a fazer carinhos públicos em figuras políticas que foram tiradas de cena ao cabo de escândalos de corrupção. Na quarta-feira, elogiou o ex-presidente da Câmara Severino Cavalcanti e criou uma edulcorada versão para a sua queda, em 2005: "Elegeram o Severino. Não levou muito tempo e perceberam que ele não era oposição, e trataram de derrubar o Severino com a mesma facilidade com que o elegeram". Como é público e notório, Severino não foi "derrubado" pelas oposições nem pelas elites, como sugeriu o presidente, mas antes se derrubou sozinho, no momento em que passou a cobrar propina de um empresário em troca da manutenção da concessão de um restaurante que funcionava na Câmara. Dois dias depois, Lula repetiu o gesto dos submissos em Alagoas, ao criticar os detratores do igualmente pouco recomendável Renan Calheiros, a quem chamou de "amigo". O ex-presidente do Senado renunciou ao cargo em dezembro, depois de ser acusado de corrupção, tráfico de influência, lavagem de dinheiro, formação de quadrilha, exploração de prestígio e sonegação fiscal.


Os gestos de Lula têm sempre um componente de cálculo. Por que está se rebaixando em público diante de figuras infinitamente menores do que ele? A explicação mais plausível é que ele já está querendo compor o arco de apoios para 2010 de modo a eleger seu sucessor – e, em se tratando de votos, Lula aceita-os de onde vierem. Mas os gestos do presidente que atropelam o bom senso e a ética carregam também o componente da arrogância e da soberba, a do político que venceu tudo aos olhos do seu povo. Os romanos, quando voltavam de suas expedições triunfais de conquista e expansão do império, entravam em Roma em uma biga. Durante o desfile, em meio aos gritos ensurdecedores da multidão, um escravo repetia aos ouvidos do vencedor: "Você é apenas um homem!". Os sábios da Antiguidade greco-romana tinham a moderação como a maior das virtudes de um governante. E o maior dos pecados? Os gregos o chamavam de húbris, a arrogância produzida pela autoconfiança em excesso, com o conseqüente desprezo pelas instituições. O filósofo Aristóteles (384-322 a.C.) dizia que as manifestações de húbris eram invariavelmente seguidas por um castigo.

Se, do ponto de vista da estratégia política, o afago em Renan Calheiros visa a agradar a caciques do PMDB e a transubstanciação de Severino de corrupto em mártir se destina a atacar DEM e PSDB, como acredita o cientista político David Fleischer, do ponto de vista da ética não há justificativa para as falas de Lula. Para o deputado Fernando Gabeira (PV-RJ), a atitude do presidente "afronta não só o Congresso, mas todas as pessoas que querem uma melhoria na ética da política brasileira". O deputado diz que o comportamento do petista não o surpreende: "Lula tem essa tendência: quando se sente ameaçado, fica hábil, cuidadoso. Mas, quando se sente forte, fica imprudente".

Popularidade pode andar lado a lado com moderação. Quando deixou a Presidência do Chile, o socialista Ricardo Lagos desfrutava o fenomenal índice de mais de 70% de popularidade. À sua sucessora, a também socialista Michelle Bachelet, entregou um país integrado à economia global, com inflação controlada e um ritmo de crescimento de 5,9% ao ano. Os resultados obtidos por seu governo, seu alto índice de popularidade e seu tirocínio político contribuíram para que Lagos se apresentasse com a distinção e a serenidade de um estadista – inclusive durante os seus últimos momentos na Presidência. Na mensagem que divulgou depois da vitória de Bachelet nas eleições, ele fez questão de reconhecer o mérito da oposição nas conquistas do seu governo. Lula não é Lagos. O Brasil não é o Chile. Mas evitar o vale-tudo eleitoral e evitar embriagar-se com a própria popularidade é uma virtude que atravessa as eras.

O dossiê da maternidade

Janio De Freitas, Folha de São Paulo

"Ferramenta de gestão" não quer dizer nada; o que saiu da Presidência para divulgação é, sim, o que se chama de dossiê

A maternidade recente é causa comum de vários problemas, e a ministra Dilma Rousseff, mãe do PAC de que Lula é o pai indeclarado mas óbvio, tem aí um diagnóstico para as perturbações que a acometem. Bem maiores do que a intromissão em gastos alheios. A casa de Dilma, que chamam de Casa Civil, está em desordem lastimável, relegada pela dona tomada de repentina mania de passar o tempo nas praças e solenidades. É difícil saber se mais revelador da atual Casa Civil é o vazamento mal intencionado do tal dossiê ou a menos falada, e não menos grave, remessa ao Congresso de medida provisória que é plágio integral do projeto de um deputado. A lucidez foi-se nas perturbações pós-maternidade.

A oposição não tem gerado rebentos de espécie alguma, limitada a uma discurseira estéril. Em sua permanência nas preliminares, não se deu conta sequer de que a gravidade do tal dossiê não está em que o Planalto levante e organize gastos de Fernando Henrique e Ruth Cardoso. Nem mesmo vem da divulgação em si de pequena parte desses dados, porque gastos de governo devem ser de conhecimento público. A gravidade está em que, de um levantamento talvez útil, os gastos pinçados e divulgados o foram com o propósito de intervenção velada do governo em uma comissão de inquérito do Congresso. Para assim inibir a busca parlamentar dos gastos de Lula e familiares. E essa operação perturbadora, de fins políticos e anti-éticos, foi feita na própria Presidência da República.

Dilma Rousseff e os governistas atribuem a má-fé da imprensa, em particular da Folha e de "Veja", às referências a dossiê. Para contestá-lo, de início disseram ser um levantamento pedido pelo Tribunal de Contas da União. Constatado haver apenas uma sugestão do TCU para menos precária organização de dados da Presidência da República, a explicação passou a ser os preparativos para atender à CPI, cuja criação refere-se ao uso de cartões e da conta B (gastos em dinheiro) dos últimos dez anos. Agora, nota oficial da Casa Civil, com a dona-de-casa em viagem pelo Nordeste, pretende que o levantamento dos gastos "trata-se de uma ferramenta de gestão".
Ocorre que "ferramenta de gestão" não quer dizer nada. É só uma expressão de burocratas e tecnocratas iletrados. Dossiê diz. Todos sabemos ser um conjunto de informações ou documentações que têm alguma ligação entre si. O que saiu da Presidência da República para divulgação é, sim, o que se chama de dossiê.

A recusa à denominação quer negar o propósito. Mas retrata também a perturbação da trabalhosa maternidade recente, Brasil afora ao som de cada discurso mais tresloucado que o anterior, e da também perturbadora condição de já candidata a Mãe do Ano de 2010. Algumas palavras que nunca se suporia ouvir de Dilma Rousseff:

"Se estão interessados em apurar mais profundamente esse episódio [do dossiê], seria importante que aqueles que divulgaram informações que constam de um banco de dados da Casa Civil viessem a público e assumissem quem recebeu aqueles documentos, aquelas páginas".

Pois é, quem recebeu, e não quem entregou, é que teria de vir a público para assumir não sei o quê. De tal modo que o auxiliar de Dilma Rousseff que selecionou os dados e aquele que os entregou a um repórter continuassem anônimos. O que está aí não é só a inversão de responsabilidades e o abandono da lucidez. É a adesão a práticas de regimes em que a inculpação e a inocentação distribuíram-se segundo a conveniência do poder, ou de um poderoso.

E quem será o chamado a assumir a responsabilidade pela medida provisória plagiadora? O deputado Asdrubal Bentes, que apresentou o projeto com o texto original no ano passado, e não o funcionário que o copiou na íntegra, talvez no Ministério do Desenvolvimento Agrário, e a Casa Civil que o recebeu, aprovou, deu à assinatura de Lula e o mandou à Câmara, para entrada imediata em vigor? Note-se ainda que Lula se comprometera a não enviar MPs senão em caso de relevância e urgência, para evitar decisões do Congresso que as limitem mesmo ao permitido pela Constituição.

O jornalismo agradece a divulgação de gastos presidenciais, ainda que só do passado, mas a operação palaciana que a executou é repugnante. O plágio da MP, por sua vez, é só uma clara radiografia do comando do governo

Acórdão do TCU contradiz versão de Dilma Rousseff

Josias de Souza, Folha online

  • Ministra diz que tribunal pediu os gastos da gestão FHC
  • Documento citado por ela, porém, não contém ‘pedido’
  • Decisão de coletar os dados foi exclusiva da Casa Civil

De passagem por Curitiba (PR), neste sábado (29), Dilma Rousseff foi espremida por repórteres. Crivaram-na, de novo, de perguntas sobre o dossiê que coleciona despesas palacianas atribuídas ao ex-presidente Fernando Henrique e à ex-primeira-dama Ruth Cardoso. Além das negativas de praxe, a chefe da Casa Civil mencionou um documento: o acórdão 230/2006, do Tribunal de Contas da União.

Em vez de desfazer as suspeitas que rondam o Planalto, o documento que a presidenciável preferida de Lula trouxe à baila tonificou-as. O texto do TCU não condiz com o que afirma a chefe da Casa Civil. Bem ao contrário. Anota precisamente o oposto. Deu-se o seguinte:

1. Na entrevista, Dilma repisou a versão segundo a qual o Planalto organizou um “banco de dados”, não um dossiê. Chama-se Suprim (Sistema de Controle de Suprimento de Fundos). Registra, eletronicamente, as despesas feitas com cartões de crédito corporativos e com verbas destinadas a suprir pequenos gastos da presidência da República;

2. Segundo a ministra, a base de dados do Suprim começou a ser alimentada em 2005, “por recomendação do TCU”. No ano seguinte, o tribunal teria pedido, por meio do acórdão 230, que o arquivo eletrônico retroagisse ao período FHC. “O TCU aprovou o banco de dados e pediu um recuo para 2002”, disse Dilma;

3. Diante da suposta determinação, Dilma diz ter ordenado à sua secretária-executiva, Erenice Alves Guerra, que cumprisse “tudo o que Tribunal de Contas pedir". Por isso não vê razões para demitir Erenice, apontada como autora da ordem que resultou na elaboração do dossiê. É nesse ponto que a versão da ministra começa a fazer água;

4. O signatário do blog obteve cópia do acórdão 230, citada por Dilma. É datado de 22 de fevereiro de 2006, dia em que foi aprovado, em sessão plenária, pelos ministros do TCU. Traz o resultado de uma auditoria nos cartões de crédito da presidência da República. Cobre o período de setembro de 2002, quando os cartões começaram a ser usados, ainda sob FHC, a julho de 2005, já na gestão Lula;

5. Percorrendo-se o texto, descobre-se que: 1. o Suprim é festejado pelos auditores do TCU não como o atendimento a uma exigência do tribunal, mas como uma “iniciativa do próprio gestor”, a Secretaria de Administração da Casa Civil. “Houve um nítido aprimoramento dos controles internos sobre a gestão dos cartões de pagamento”, anota o relatório.

6. Não se encontra no documento do TCU uma mísera menção à necessidade de recuar os arquivos eletrônicos à gestão FHC. Bem ao contrário. Na parte em que relaciona as recomendações que julgou conveniente fazer ao Planalto, o relato do processo, ministro Ubiratan Aguiar, escreveu: “Há que salientar que algumas questões abordadas no relatório dispensaram a formulação de proposta de encaminhamento, tendo em vista as providências já adotadas” pela Casa Civil. “Com destaque para o desenvolvimento do Sistema de Suprimento de Fundos, o Suprim”, fez questão de realçar o ministro.

7. Ou seja, diferentemente do que afirma Dilma Rousseff, a criação do “banco de dados” não foi determinada pelo TCU. Tampouco partiu do tribunal qualquer pedido para que os dados da era FHC fossem adicionados ao novo arquivo eletrônico. Deve-se o par de providências à exclusiva deliberação da pasta gerida por Dilma;

8. A equipe de auditores do TCU encontrou um Suprim já em franca implantação. A coisa já estava, àquela altura, automatizada: “A alimentação do sistema é descentralizada, iniciando-se pelo próprio portador do cartão e complementado com informações específicas pelos setores competentes da Secretaria de Administração” da Casa Civil. Encontravam-se devidamente cadastrados todos os gastos de 2004 e as despesas relativas aos meses de janeiro a julho de 2005. Fez-se menção à coleta retroativa de dados. Mas processo só recuaria até o primeiro ano da administração Lula: “Relativamente a 2003”, informa o relatório do TCU, “os processos estavam sendo primeiramente desmembrados por portador, para que, então, pudessem ser lançados segundo o padrão adotado pelo sistema.”

9. A ausência de menções ao período FHC deixa evidente que, até a conclusão do trabalho do TCU, dois anos e três meses atrás, a Casa Civil de Dilma não esboçara a menor intenção de levar ao novo “banco de dados” as despesas realizadas na gestão do antecessor de Lula. Algo que só ocorreu ao Planalto fazer nos primeiros dias de fevereiro de 2008, quando a proposta de criação da CPI dos Cartões já estava pendurada nas manchetes dos jornais;

10. Há, de resto, muitos mistérios pendentes de elucidação. Há na praça uma planilha de computador que contém, em 13 folhas, 295 despesas atribuídas a FHC, a Ruth Cardoso e a funcionários que passaram pelo Planalto na gestão tucana. Dilma reconhece que os apontamentos foram extraídos dos arquivos mantidos pela Casa Civil. O dossiê chegou ao Congresso, ganhou as páginas de Veja e tomou conta do noticiário. Como documento com pernas é algo que não existe, fica no ar a pergunta: quem vazou? Por ordem de Dilma, abriu-se, em 22 de março, uma sindicância para tentar responder a essa pergunta.

11. Há, porém, uma outra indagação que a ministra pode responder antes mesmo da conclusão da sindicância. Por exemplo: por que a Casa Civil decidiu remexer a papelada da era FHC? Logo agora, no calor do embate com a oposição em torno do uso de cartões corporativos.

12. A pedido do TCU, como já restou demonstrado, não foi. Os auditores foram cavar os dados relativos a 2002, o último ano de FHC no Planalto, nos computadores do Siafi, sistema eletrônico que armazena todos os gastos do governo. A propósito, o TCU informa em seu relatório que, no período coberto pela auditoria –2002 a 2005— “não se constatou a aquisição de bens ou o fornecimento de serviços de caráter estritamente pessoal”. Ressalva, porém, que não foram analisados os “gastos com alimentação, higiene, cerimonial e outros empregados em eventos sociais.”

Aloprando no armazém

Editorial da Folha de São Paulo

Montagem de dossiê sobre gastos sigilosos de Fernando Henrique expõe governo Lula ao descrédito e ao ridículo

Aloprados nunca faltaram ao governo Lula, cumprindo habitualmente a função de assumir a responsabilidade por iniciativas que seus superiores dizem ignorar. O exemplar mais recente dessa espécie é, conforme revelado pela Folha nesta sexta-feira, a principal assessora de Dilma Rousseff na Casa Civil. Seu nome é Erenice Guerra; surge no noticiário por admitir, a interlocutores, que foi sua a ordem de organizar um banco de dados com as despesas sigilosas de Fernando Henrique e Ruth Cardoso no governo anterior.

O alopramento petista já fez coisas piores que esmiuçar, para posterior divulgação, o custo secreto das codornas desossadas que abasteceram a cozinha do Palácio da Alvorada. Erenice Guerra não foi surpreendida com uma mochila repleta de dólares destinada a comprar dossiês contra um candidato oposicionista; nem mesmo revelou os dados bancários de um caseiro a quem interessasse intimidar. Na vasta despensa do desgoverno ético petista há sigilos e sigilos, dossiês e dossiês, aloprados e aloprados, cada qual com seu peso próprio.

Quebrar a privacidade das contas de um cidadão é ato bem mais grave do que o vazamento de informações sobre as despesas palacianas do Executivo, que afinal são pagas pelo contribuinte, e sobre as quais se impõe uma blindagem injustificada.

Mesmo assim, o governo Lula e, em especial, a ministra Dilma Rousseff, desacreditam-se pateticamente neste episódio. O dossiê, que uma retórica esfarrapada traduz em "base de dados", foi de fato produzido; não se confunde meramente com os registros oficiais do sistema de controle de gastos do Executivo.

Torna-se ridículo o argumento de que os dados de consumo de Lula devem ser protegidos por segredo de Estado, quando o próprio governo o quebra no intuito de minar seu antecessor. Não teve êxito nesse alopramento de armazém; mina-se, em troca, o nome de Dilma Rousseff na sucessão presidencial.

Pouco importa. Se há alguma lição a tirar do episódio, é que o segredo em tais contas deve ser reduzido ao prazo mínimo indispensável para a segurança presidencial. O sigilo nesse aspecto é tão pouco republicano quanto o ato de rompê-lo por motivações partidárias; o governo petista conseguiu, entretanto, reunir as duas coisas num só vexame.

Alckmin ainda acaba elegendo a Marta Suplício

Adelson Elias Vasconcellos

A seguir a pesquisa DATAFOLHA na corrida rumo à Prefeitura de São Paulo. Comentaremos depois.

Datafolha mostra Marta um ponto à frente de Alckmin

A mais recente pesquisa Datafolha, publicada na Folha de S.Paulo que começa a circular no domingo, coloca a ministra do Turismo, Marta Suplicy (PT), um ponto à gente de Geraldo Alckmin (PSDB) na corrida pela prefeitura de São Paulo. As pesquisas anteriores davam sempre Alckmim em primeiro. Em um eventual segundo turno entre os dois pré-candidatos, o do PSDB ainda ganharia por 53% a 41%.

O Datafolha ouviu 1.089 eleitores nos dias 25 e 26 de março e chegou a esses números:

* 29% - Marat Suplicy (em fevereiro eram 25%)
* 28% - Geraldo Alckmin (em fevereiro eram 29%)
* 13% - Gilberto Kassab do DEM (em fevereiro eram 12%)
* 8% Paulo Maluf do PP (em fevereiro eram 10%)
* 7% Luiza Erundina do PSDB (em fevereiro eram 8%)

Margem de erro de 3%, para mais ou para menos, o que deixa Marta e Alckmin virtualmente empatados.

***** COMENTANDO A NOTÍCIA: A exemplo do que ocorrera na corrida presidencial em 2006, quando Serra aparecia em todas as pesquisas, de primeira e segundo turno, com o único dentre todos os candidatos a superar Lula, e Alckmin atabalhoadamente interferiu no processo de escolha do candidato tucano, acabou impondo uma candidatura condenada à falência múltipla e, vocês sabem, deu no que deu: conseguiu ter menos votos no segundo do que no primeiro turno, muito por culpa da campanha ridícula com que se apresentou ao eleitorado.

Agora, com o Gilberto Kassab concorrendo a reeleição, com resultados positivos e até bem cotado na pesquisa, com real apoio do governador Serra, lá vai o gerente de Pindamonhangaba e, PIMBA, ressuscita a prefeita que os paulistanos já haviam enxotado, sem direito a reeleição. Reparem nos números da pesquisa: a soma de Alckmin e Kassab supera em mais de 10 pontos percentuais os de Marta Suplício. Porém, no individual, ela é quem aparece em primeiro, porque o Alckmin conseguiu a proeza de dividir um eleitorado cativo para a aliança DEM/PSDB.

O diabo é Alckmin é cabeça dura e não ouve ninguém. Falta-lhe grandeza para reconhecer que, em eleições, sempre o eleitorado traz uma certa expectativa de conservar o que está dando certo, razão pela qual a posição da aliança DEM/PSDB é majoritária. Não se intrometesse indevidamente no assunto da eleição da prefeitura de São Paulo, provocando a divisão do eleitorado, conseguiria, ele próprio, concorrer tranquilamente em 2010 ao governo do Estado e, a partir daí, poder sonhar com vôos mais altos. Porém, teimoso e arredio a qualquer argumentação de bom senso, acabará entregando a prefeitura ao PT e abrindo uma imensa avenida para os petistas chegarem fortes à eleição de 2010 na sucessão de Serra.

Convenhamos: Alckmin acaba ainda se tornando petista por merecimento. Sempre dá tiro contra !!! E nesta marcha, acabou se tornando o maior cabo eleitoral da Marta Suplício. É ter muito “carisma” para a derrota.

A República dos dossiês

Ruy Fabiano, Blog do Noblat

Não há dúvida de que o episódio do dossiê da Casa Civil relativo às contas pessoais do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso e de sua mulher, dona Ruth, revelado por Veja – e confirmado pela Folha de S. Paulo - é fato gravíssimo, que se soma e equipara a delitos anteriores na esfera do atual governo, ainda impunes.

Entre outros, cobrança de propina por parte do subchefe da Casa Civil, Waldomiro Diniz; mensalão; quebra ilegal do sigilo de um caseiro pelo ministro da Fazenda e pelo presidente da Caixa Econômica Federal; dossiê dos aloprados do PT contra o PSDB. Etc.

O agravante no caso presente é o grau hierárquico em que o delito se opera: sua origem e destinação. Concebido na Casa Civil da Presidência da República, instância mais íntima do chefe do governo, teve como alvo um ex-presidente.

Embora a Constituição diga que todos são iguais perante a lei, vale na prática a constatação de Millor Fernandes, segundo a qual alguns são mais iguais. Se a quebra do sigilo do caseiro Francenildo Costa, há dois anos, foi um mega-escândalo que levou à lona um superpoderoso ministro da Fazenda e o presidente de um banco estatal, que se pode esperar deste, que tem como responsável o mais importante auxiliar do presidente da República – a ministra-chefe da Casa Civil e pré-candidata à sucessão presidencial, Dilma Roussef, e como vítima um ex-presidente da República?

Espantosamente, até aqui, nada.

O desdobramento do caso revela o descompromisso oficial com o decoro, a inconsciência da gravidade que envolve o caso. Diante da denúncia de Veja – devidamente documentada, goste-se ou não da revista -, a reação inicial foi de negar tudo. Tratava-se de uma farsa. Como a denúncia não era apenas adjetiva – ao contrário, estava recheada de dados objetivos e substantivos -, não era possível ficar apenas na negação. Derivou-se então para os eufemismos.

Não haveria dossiê, mas, segundo o ministro da Justiça, Tarso Genro, “um levantamento”, a pedido do Tribunal de Contas da União. O TCU, no entanto, desfez a versão, esclarecendo que não solicitou coisa alguma. A mentira (que outro nome dar?) exposta no ato mesmo de sua enunciação. Falou-se então, sem qualquer constrangimento com a negativa anterior, em “vazamento”, o que não retiraria a responsabilidade do governo, mas a atenuaria.

Mais uma vez, bastaria acusar “assessores aloprados”, como fez Lula em relação aos autores do falso dossiê contra o PSDB, na eleição presidencial passada, e assunto encerrado. Só que, na seqüência, chegou-se a um nome por trás da lambança, graduado demais para isentar a cúpula do governo de responsabilidade: a secretária-executiva da Casa Civil – uma espécie de vice-ministra –, Erenice Alves Guerra, braço direito da ministra Dilma Roussef.

Ela, segundo apurou a Folha, comandou a operação-dossiê, que teve início ainda no período do carnaval, quando pipocavam as denúncias de uso irregular dos cartões corporativos pelos altos escalões governamentais, incluindo o presidente da República.

Entre aquele momento e a denúncia do dossiê, os ministros Paulo Bernardo, do Planejamento, e Tarso Genro, da Justiça, insinuavam que havia algo de podre nas contas do governo anterior. No Congresso, o PT emulava esses argumentos, insistindo que a CPI abrangesse a administração FHC.

Paralelamente, a secretária-executiva da Casa Civil empreendia operação de Estado-Maior para montar o documento e - o que é mais grave – vazá-lo, com o objetivo explícito de intimidar a oposição e esvaziar a CPI. Pode-se até argumentar que as despesas pessoais do presidente não deveriam estar no topo da agenda política de um país com tantos problemas estruturais.

A questão, porém, é que está. E não pelo tema em si, mas pelo que nele está embutido. A verdade administrativa não pode ser instrumento de chantagem política. Se um ex-presidente delinqüiu, deve ser responsabilizado, e quem está no lugar de providenciá-lo é o presidente atual. Não pode condicionar ou negociar a denúncia, sob pena de improbidade equivalente. Mais grave ainda se o faz para ocultar ou pelo menos deixar de investigar as mazelas de sua própria administração. É o que está em pauta.

A reação de FHC de mandar abrir as próprias contas é um marco na história da administração pública brasileira. Como ele mesmo disse, nada justifica o sigilo continuado em torno dos gastos de um chefe de Estado. O argumento da segurança estratégica é circunstancial. Superada a circunstância, deve ser revelado.

O assunto parece menor, mas não é. Embute considerações de ordem ética vitais ao saneamento da prática republicana brasileira.

Cabral defende fechamento de hospital que pode tratar dengue

Alexandre Rodrigues, de O Estado de S. Paulo

Único hospital de infectologia 'não faz falta', diz governador do Rio sobre Instituto Estadual de Infectologia
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RIO - O governador do Rio, Sérgio Cabral (PMDB), disse que a paralisação do único hospital de infectologia do Rio não faz falta ao combate da epidemia de dengue que assola o Estado, principalmente a capital. O Instituto Estadual de Infectologia São Sebastião, construído no século 19 na zona portuária, está funcionando com menos de 20% de sua capacidade. "Aquilo era um caos, uma desorganização. Um prédio completamente desestruturado, longe de tudo."

Para o governador, não houve equívoco de seu governo ao fechar o hospital e impedir de concretizar a sua transferência para o prédio da Beneficência Portuguesa, no Catete, que ainda será comprado. Cabral também criticou o presidente do Sindicato dos Médicos do Rio, Jorge Darze, que classificou ontem no Estado o fechamento do hospital como um crime contra a saúde pública. "Acho que o sindicato neste momento tinha que estar mobilizando os médicos".

O governador inaugurou ontem mais uma tenda de hidratação. São 24 poltronas para soro para crianças, instaladas ao lado de um hospital infantil em Duque de Caxias, na Baixada Fluminense. Até ontem, 54 mortes por dengue foram confirmadas.

Cabral disse concordar com a decisão da Justiça de obrigar os governos estadual e municipal a oferecer um leito aos pacientes com dengue em 24 horas, mesmo que tenham que o SUS tenha que pagar por um na rede privada. O governador disse não saber se o instrumento será necessário e informou que o Hospital Israelita ofereceu leitos para doentes da rede estadual. O secretário estadual de Saúde, Sérgio Côrtes, ressaltou que os hospitais privados também estão sobrecarregados.
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***** COMENTANDO A NOTICIA: Cabral alega as más condições e dalta de estrutura. Muito senhor Cabral, se o prédio chegou ao ponto em que chegou foi por culpa de quem ? E mais: por que não sua transferência para outro local? Ou por que não permitir sua transferência para o prédio da Beneficiência Portuguêsa, ou não permitir uma melhor adequação do próprio Instituto para funcionar pelo enquanto a epidemia não ceder ? Fechar pura e simplesmente no caos atual é, de um lado, total falta de sensibilidade e, de outro lado, é colocar a população em risco maior ainda como se nos hospitais Rio de Janeiro, presentemente, estivessem sobrando leitos. Até parece...

A propósito, senhor Cabral: juntando todo o didnheiro de suas “viagens de turismo oficial” ao exterior, nãoa teria sido mais útil destinar a verba da gastança para ampliar, reformar e modernizar o Instituto São Sebastião? Sei não, perigava sobrar um troquinho para um lanchinho rápido...

ENQUANTO ISSO...

Dengue: ministério contesta volta de vírus tipo 4
Agência Brasil

O Ministério da Saúde contestou em nota divulgada hoje que o vírus tipo 4 da dengue (o DENV-4) tenha voltado a infectar pacientes no Amazonas. Um artigo publicado por pesquisadores da Fundação de Medicina Tropical do Amazonas na revista científica Emerging Infectious Diseases afirma que o vírus foi confirmado em três pacientes, após exames sorológicos e testes moleculares.

Segundo o ministério, "no Brasil, somente os de 1 a 3 circulam em território nacional. Não há evidência concreta de que o DEN 4 está presente no País".

A nota explica ainda que, para se certificar da existência do vírus no Brasil, as amostras utilizadas pela fundação foram testadas novamente. "Dois laboratórios de referência nacional re-testaram essas amostras pelas técnicas de cultura viral e PCR e o sorotipo DENV3 foi detectado em seis amostras pela técnica de PCR e três amostras foram negativas. O produto da PCR foi seqüenciado confirmando os resultados de dengue sorotipo 3 (DENV3)", ressalta o documento.

De acordo com o Ministério da Saúde, o resultado das novas verificações foi que "em nenhuma das amostras testadas houve confirmação de títulos de anticorpos para o sorotipo DENV4".

Mesmo assim, três unidades sentinelas para isolamento viral foram implantadas no município de Manaus com o objetivo de monitorar a circulação viral na região, sem nenhuma detecção do tipo 4 até o presente momento, informa a nota.

Caso o vírus tipo 4 tivesse efetivamente presente na população de Manaus, acrescenta a nota do ministério, a situação epidemiológica seria muito diferente da verificada atualmente, ou seja, haveria uma transmissão com predominância desse tipo, o que não ocorre.

Enquanto isso...
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Infectologista: mais 3 centros confirmam dengue tipo 4

A infectologista Maria Paula Mourão, doutora em doenças tropicais, afirmou hoje que o estudo realizado por cientistas da Fundação de Medicina Tropical do Amazonas (FMT) teve seus resultados confirmados por outros três centros de pesquisa que eram parceiras no estudo, como Universidade Federal do Amazonas, Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa) e Universidade de Porto Rico. O relatório aponta a presença da dengue tipo 4 em Manaus e foi contestado em nota pelo Ministério da Saúde.

"Eles usaram a mesma metodologia de nossa pesquisa, mas cada um em seu laboratório, e chegaram ao mesmo resultado", afirmou, sobre o estudo realizado entre 2005 e 2007 que ganhou repercussão depois de publicado em revista científica internacional.

Maria Paula informou que o artigo divulgado na Emerging Infectious Diseases é resultado da análise de 128 amostras de sangue de pacientes que procuraram a instituição com sintomas de febre aguda, tiveram diagnóstico negativo para os exames de malária e foram submetidos aos exames de dengue.

Nas análises, os vírus da dengue foram isolados a fim de serem identificados quanto a sua tipagem. "De todas as amostras analisadas, três delas deram resultado positivo para dengue tipo 4", contou, ao lembrar que o último caso desse tipo de dengue foi registrado no país há 26 anos, em Roraima.

A pesquisa foi concluída em agosto do ano passado e os resultados, informados às Secretarias de Saúde de Manaus e do Amazonas e ao Ministério da Saúde.

Entre outubro e novembro, técnicos do ministério coletaram em Manaus cerca de 50 novas amostras, incluindo sangue de pacientes adultos e de crianças com quadro clínico com suspeita de dengue, para avaliação em laboratórios de referência nacional, como o Instituto Evandro Chagas, em Belém (PA) e na Fiocruz, no Rio de Janeiro (RJ).

"O objetivo era ver se havia outra indicação de dengue tipo 4", disse Maria Paula, que alegou não ter recebido o retorno disso. Ela afirmou, no entanto, que a descoberta de um novo tipo de dengue no Brasil representa apenas que a população brasileira tem mais uma chance de se expor à doença.

"Não existe qualquer relação de gravidade entre o tipo de vírus de dengue e a apresentação clínica da doença. Se os indivíduos não forem picados por mosquitos infectados, não vão adquirir vírus nenhum e nem a doença. O que faz a diferença é a situação de defesa do indivíduo. Se ele já foi exposto outras vezes a infecções por dengue, tem mais chances de ter a doença grave", ressaltou.

Para a infectologista, a entrada do vírus no País independe das ações integradas de saúde, já que "os vírus se transportam através das pessoas, ou seja, pessoas picadas por mosquitos infectados poderão levar a doença por onde forem. O que depende das ações de saúde é o controle do mosquito transmissor".

No Amazonas, neste ano, segundo a Secretaria de Estado da Saúde, registrou, até quinta-feira, 1.221 casos suspeitos de dengue clássica e 55 confirmados de dengue hemorrágica (três mortes).

Sobre a nota em que o Ministério da Saúde contesta os resultados da pesquisa, dizendo que, no Brasil, somente os vírus de 1 a 3 circulam em território nacional e que, portanto, não há evidencia concreta de que o vírus tipo 4 esteja presente no País, Maria Paula Mourão ressaltou que a divergência entre a Fundação de Vigilância em Saúde do Estado e o ministério se deve a um erro no acondicionamento das amostras durante o transporte até o Rio de Janeiro.

"Não temos dúvidas de nossos resultados, mas o ministério sim. Os resultados no Rio de Janeiro ficaram comprometidos porque as amostras não foram submetidas às baixas temperaturas que deveriam para serem analisadas", concluiu.


***** COMENTANDO A NOTÍCIA: Ontem, reproduzimos reportagem do Jornal do Brasil sobre a infecção com Dengue do tipo 4, do qual vale registrar e destacar o seguinte trecho:

De acordo com estudo de pesquisadores da Fundação de Medicina Tropical do Amazonas, o vírus tipo 4 (o DENV-4) voltou a infectar pacientes da região, depois de 25 anos sem registros do vírus no Brasil.

O artigo, publicado na revista científica 'Emerging Infectious Diseases', afirma que o vírus foi confirmado em três pacientes, depois de exames sorológicos e testes moleculares. O mais alarmante é que as pessoas que já contraíram qualquer dos três tipos de vírus da dengue no país não estão imunes ao tipo 4 - e ainda estão mais vulneráveis à dengue hemorrágica.


Que moral pode ter o Ministério da Saúde do Mosquito, para contestar o estudo? Que pesquisa de campo foi feita e por qual especialista ou estudioso para o Ministério sair por aí desmentindo pesquisadores sérios que estão inclusive prestando um serviço de altíssimo valor, ao prevenir as autoridades sanitárias para o perigo que corre a população brasileira?

Menos mal, que cientistas não se curvam ao viés de certos políticos ou certas autoridades, preocupadíssimas muito mais em captar votos do que serem úteis ao país que os sustentam ! Deste modo, outro três centros de estudos vem a público proclamar que não apenas os primeiros estudos se confirmaram, como também, os 4 casos inicialmente detectados são reais.

É de se esperar que o senhor Temporão, tão omisso em relação ao Rio de Janeiro, deixe de firulas e tome as medidas emergenciais necessárias para evitar que o Tipo 4 da dengue se dissemine e acabe infectando a população brasileira. Isto seria bem mais do que catastrófico...Bastam 45 mil infectados com mais de 100 mortes, ou o ministro ainda considera tal situação “sob controle”?

Não é por nada, não, mas seria muito bom que o mosquito desse uma experimentada nos sangues do Maia, do Cabral e do Temporão, não precisava matar, só para eles sentirem um pouquinho do sofrimento que eles relegaram a população carioca ter que passar....

No próximo post, mais um triste capitulo sobre como nossas “autoridades” tratam a saúde publica no Brasil.