domingo, março 30, 2008

Quem destila ódio contra quem ?

Adelson Elias Vasconcellos

A revista VEJA deste final de semana traz uma reportagem interessante, e sobre uma característica comportamental de Lula, sobre a qual já comentamos muitas vezes.´Diz respeito a sua encenação nos palanques por onde passa fazendo propaganda eleitoral, que é o que ele mais gosta de fazer.

Numa cerimônia no Nordeste, diante do noticiário e bombardeio intenso sobre a omissão do governo nos programas da dengue, para os quais investiu apenas a metade do previsto nos últimos três anos, e muito por conta da história mal contada pelo governo sobre o vazamento de informações consideradas sigilosas, o tal dossiê anti-FHC, que, muito embora todos os desmentidos, versões e apelidos que o dossiê recebeu, se trata claramente de um dossiê montado a partir de um banco de dados, que a ministra Dilma afirma ter sido feito o tal “banco de dados” por recomendação do TCU, e que o próprio TCU já desmentiu dizendo que não recomendou coisa nenhuma (a propósito, leiam nesta edição artigo do Josias de Souza sobre o tal documento do TCU a que a Dilma se referiu. Aliás, com quem será que a Dilma anda aprendendo a mentir?). Muito bem: diante do tiroteio, a reação costumeira, até quando o mar está sereno e calmo, de parte do senhor Luiz Inácio subiu um pouco o seu tom, já usualmente estridente. Acusou a oposição, com todas as letras, de destilar ódio contra ele.
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Isto seria correto não fossem alguns detalhes bastantes significativos: primeiro, que Lula tem maioria nas duas casa do Congresso, podendo aprovar o que bem entender. Pode se dar ao luxo de ignorar a oposição que, mesmo assim, adora também fazer uma “oposição responsável”, em outras palavras, seu comportamento é até submisso, muitas vezes de forma patética e ridícula. Também se fizermos um levantamento rigoroso de todas as lambanças protagonizadas pelo governo Lula não se encontra uma única e miserável digital de alguém da oposição para colaborar na divulgação. Tudo o que veio à tona foi por ações atrapalhadas da própria base de apoio do presidente, inclusive do próprio petê, que "carinhosamente foram alcunhados de "aloprados".

Acrescente-se ainda nesta mistureba todas as acusações, o roubo da obra pronta, a picaretagem explícita, a ação de desmoralização do Congresso, as tentativas de cerceamento da liberdade de expressão, e se terá uma rica salada cheia de proteínas venenosas.

Agora, para completar o quadro, junte-se todos os discursos de Lula, de 2003 para cá, em vídeo, e vocês se darão conta de que a postura do chefe da Nação é a de um desequilibrado: de seus gritos vertem rancor, ódio, acusações levianas, mentiras históricas, misturadas com ironias deselegantes carregadas de absoluta falta de respeito e educação, acusações sórdidas, tentativa de transferência de culpas e responsabilidades.

Reparem na foto abaixo: ela expressa qualquer discurso de Lula, em qualquer lugar do Brasil, em qualquer solenidade ou ocasião, e em qualquer época compreendida no período 2003-2008, inclusive. Se fôssemos computar o período em que ele era da oposição, seria necessário retirar as crianças da sala.

Portanto, deveria o Luiz Ignácio refletir-se no espelho e adotar uma postura mais condizente com a instituição que ele representa, portando-se de uma forma um pouco mais equilibrada. Já não vou pedir para parar de mentir e sistematicamente rasgar a história do país e distorcer a realidade como, por exemplo, em passar a mão na cabeça de aloprados que cometeram “erros” quando na verdade cometeram crimes, ou em chamar Hugo Chavez de “pacificador” na crise Colômbia – Equador, que não lhe dizia respeito e ele ainda deslocou Exército e Força Aérea para a fronteira do país vizinho, ou quando ele simplesmente ignorou as razões que derrubaram Severino Cavalcanti e Renam Calheiros. A oposição existente no governo Lula é aquela que todo o governante adoraria ter, razão pela qual ela é incapaz de destilar o que quer que seja contra quem quer que seja. Aliás, é bom lembrar, que quem, realmente, entende de destilados não é bem a oposição...
Reparem na encenação teatral, gesticulação circense e na expressão facial enraivecida: é uma rotina nos discursos de Lula. Pergunta-se: quem é que está destilando ódio contra quem?
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Popularidade e fúria
Revista VEJA

Apesar dos índices recordes de aprovação, Lula esbraveja no palanque e afaga políticos punidos

Com uma economia a todo o vapor e índices de popularidade pessoal e do governo que beiram a consagração, o presidente Lula tinha tudo para estar, na linguagem de que ele gosta, "feliz como pinto no lixo". Mas não. O presidente passou a semana ralhando com a estridência dos contrariados. Como se fosse um presidente acuado e sem nenhum apoio, deu-se a fazer carinhos públicos em figuras políticas que foram tiradas de cena ao cabo de escândalos de corrupção. Na quarta-feira, elogiou o ex-presidente da Câmara Severino Cavalcanti e criou uma edulcorada versão para a sua queda, em 2005: "Elegeram o Severino. Não levou muito tempo e perceberam que ele não era oposição, e trataram de derrubar o Severino com a mesma facilidade com que o elegeram". Como é público e notório, Severino não foi "derrubado" pelas oposições nem pelas elites, como sugeriu o presidente, mas antes se derrubou sozinho, no momento em que passou a cobrar propina de um empresário em troca da manutenção da concessão de um restaurante que funcionava na Câmara. Dois dias depois, Lula repetiu o gesto dos submissos em Alagoas, ao criticar os detratores do igualmente pouco recomendável Renan Calheiros, a quem chamou de "amigo". O ex-presidente do Senado renunciou ao cargo em dezembro, depois de ser acusado de corrupção, tráfico de influência, lavagem de dinheiro, formação de quadrilha, exploração de prestígio e sonegação fiscal.


Os gestos de Lula têm sempre um componente de cálculo. Por que está se rebaixando em público diante de figuras infinitamente menores do que ele? A explicação mais plausível é que ele já está querendo compor o arco de apoios para 2010 de modo a eleger seu sucessor – e, em se tratando de votos, Lula aceita-os de onde vierem. Mas os gestos do presidente que atropelam o bom senso e a ética carregam também o componente da arrogância e da soberba, a do político que venceu tudo aos olhos do seu povo. Os romanos, quando voltavam de suas expedições triunfais de conquista e expansão do império, entravam em Roma em uma biga. Durante o desfile, em meio aos gritos ensurdecedores da multidão, um escravo repetia aos ouvidos do vencedor: "Você é apenas um homem!". Os sábios da Antiguidade greco-romana tinham a moderação como a maior das virtudes de um governante. E o maior dos pecados? Os gregos o chamavam de húbris, a arrogância produzida pela autoconfiança em excesso, com o conseqüente desprezo pelas instituições. O filósofo Aristóteles (384-322 a.C.) dizia que as manifestações de húbris eram invariavelmente seguidas por um castigo.

Se, do ponto de vista da estratégia política, o afago em Renan Calheiros visa a agradar a caciques do PMDB e a transubstanciação de Severino de corrupto em mártir se destina a atacar DEM e PSDB, como acredita o cientista político David Fleischer, do ponto de vista da ética não há justificativa para as falas de Lula. Para o deputado Fernando Gabeira (PV-RJ), a atitude do presidente "afronta não só o Congresso, mas todas as pessoas que querem uma melhoria na ética da política brasileira". O deputado diz que o comportamento do petista não o surpreende: "Lula tem essa tendência: quando se sente ameaçado, fica hábil, cuidadoso. Mas, quando se sente forte, fica imprudente".

Popularidade pode andar lado a lado com moderação. Quando deixou a Presidência do Chile, o socialista Ricardo Lagos desfrutava o fenomenal índice de mais de 70% de popularidade. À sua sucessora, a também socialista Michelle Bachelet, entregou um país integrado à economia global, com inflação controlada e um ritmo de crescimento de 5,9% ao ano. Os resultados obtidos por seu governo, seu alto índice de popularidade e seu tirocínio político contribuíram para que Lagos se apresentasse com a distinção e a serenidade de um estadista – inclusive durante os seus últimos momentos na Presidência. Na mensagem que divulgou depois da vitória de Bachelet nas eleições, ele fez questão de reconhecer o mérito da oposição nas conquistas do seu governo. Lula não é Lagos. O Brasil não é o Chile. Mas evitar o vale-tudo eleitoral e evitar embriagar-se com a própria popularidade é uma virtude que atravessa as eras.