terça-feira, junho 18, 2013

O dia seguinte

Adelson Elias Vasconcellos

Independente da agenda de reivindicações que cada uma das mais de 200 mil pessoas que foram às ruas nesta segunda feira, o que não podemos ignorar é que, sim, um sentimento de indignação e insatisfação represado na sociedade. Não se trata, apesar de alguns pensarem ao contrário, de extremismos e nem tampouco de se aderir à modismos da moçada. 

Claro que pessoas com tais espíritos também se juntaram à multidão. Porém, o sentimento de insatisfação é generalizado e nele inclui-se todos os políticos de todos os partidos. 

Porém, muito embora me alegre a ideia de ver milhares de manifestantes firmando sua posição de descontentamento, preocupa a falta de uma agenda única direcionada aos responsáveis pelos descalabros que atingem o país de alguns anos para cá.

Por exemplo, e disto já comentei, o tal Movimento Passe-Livre, ao qual se agregaram os radicalóides de esquerda – que, aliás, querem mais é ver o circo pegando fogo – agem como se eles fossem donos do país. Nada de negociação, nada concessões. É o passe livre e não se fala mais nisso! Ora, isto nem democrático é, uma vez que pedem algo impossível.

E por que passe livre é impossível? Pela simples razão de que o transporte público, esteja nas mãos da iniciativa privada ou não,  gera custos, não é de graça, não se movimenta guiado pelos ventos.  Quem banca, o poder público? E desde quando o Poder Público faz alguma coisa sem usar o meu, o seu, o nosso dinheiro? Assim, imaginando que houvesse a menor chance de prosperar a ideia do passe livre, mesmo aqueles que não usam o transporte público, acabaria pagando para os outros andarem de graça. Até os que se locomovem de “bike”, ou, no português mestiço, de bicicleta. E, isto, definitivamente, não é justiça social.
Tem aqueles que protestam contra os gastos das copas, das Confederações e do Mundo. Estão chegando com uns cinco anos de atraso. A hora de protestar era lá atrás, não agora com obras já realizadas e os eventos em andamento.Quando critiquei aqui o assanhamento dos políticos, Lula à frente de todos, e afirmei que não tínhamos condições nem competência para bancar os eventos, apanhei muito. O país todo se moveu em festas e gincanas nas ruas, com orgulho de ser brasileiro. Hoje, está claro que a crítica era procedente. 

Agora que aconteceu exatamente o roteiro previsto, creio ser um pouco tarde para o arrependimento. Claro que, mesmo tarde, é saudável presenciar que muitos despertaram da fantasia impossível, e caíram na dura realidade do custo para o país,e para o bolso dos brasileiros, de se realizar eventos tão grandiosos quanto dispendiosos num país com tantas carências essenciais.

Disse em artigo anterior, que adoraria ver estas mais de 200 mil pessoas marchando em direção à Praça dos Três Poderes, porque lá encontraremos as raízes de 99% das mazelas nacionais. Não adianta reclamarmos do escalão inferior, amarrado que está à dependência canalha que o petismo criou pelas verbas “federais”. E de lá também emanam todas as políticas esquizofrênicas lançadas nos últimos anos e que estão minando a estabilidade econômica do país. De lá, também, saem as ordens para a liberação de recursos volumosos que castram a cidadania de milhões de inocentes úteis, a maioria sobrevivendo no Norte/Nordeste, e que dão sustentação aos governantes no poder. Claro que me refiro aquilo que deveria ser um programa social amplo, e em favor da libertação do indivíduo, mas que se tornou ao longo dos anos, um imenso programa caça votos, que perenizam a pobreza, encabrestam seus beneficiários, além de iludir milhões deles com a falsa sensação de bem estar. 

É contra esta muralha política pobre que o país deve endereçar suas baterias e centrar o fogo dos protestos. 
Porém, e muito embora parte da população que está sendo prejudicada pelas tais manifestações, compreenda e até se conforme com a restrição ao seu direito de ir e vir, é preciso saber que, em tudo há limites sim. E, uma vez ultrapassado os limites da legalidade e até da civilidade, como se viu ontem à noite tanto no Rio quanto em São Paulo, as autoridades constituídas devem agir em favor da segurança da maioria ordeira, em favor da preservação do patrimônio público e privado. Qualquer causa, por mais justa que seja, não pode flertar abertamente com a baderna, com a bagunça, com a depredação. Atingido este ponto, a manifestação se esvazia por completa e perde sua razão de ser.

A resposta que se busca neste dia seguinte, talvez a gente nem encontre. São muitas causas em jogo, muitas bandeiras e faixas estendidas em nome de objetivos dispersos. Como também são variadas as motivações que estão movendo  milhares de pessoas. Daí meu apelo por uma agenda comum, por um objetivo único. A causa? A insatisfação com os governantes, com a política e com os políticos.  O objetivo? Mudar os agentes que atuam no cenário político.

Regra geral, manifestações deste tipo, e tome-se a Primavera Árabe como exemplo, acabou transformado em doloroso inverno, movimentos sem cara, sem agenda comum, sem objetivo claro como “o que se quer mudar?, acabaram perdendo o encanto e até cansando. 

Quando um povo se mobiliza movido pela indignação, ou se oferece alternativas viáveis que alimentarão o sonho por mudanças, e isto requer lideranças com discursos claros e objetivos, ou a mobilização acaba produzindo mais vazio, mais insatisfação, gerando o triste sentimento de que tudo vai ficar como está. 

Portanto, e apesar de comemorar esta mobilização, temo que ela produza muito barulho, muitos estragos, com um triste resultado zero. 

Não podem vigorar movimentos nascidos de uma utopia estúpida como é a do passe livre. Tampouco, aquela nascida com enorme atraso, mas incapaz de brecar a farra escandalosa e imoral dos gastos com as tais copas. 

Rezo para estar errado, adoraria ver esta mobilização toda ligadíssima a um propósito específico de mudança do quadro político, porém, temo que acabaremos sentados à beira do caminho, exaustos de tanto  caminhar e roucos de tanto berrar, mas com as mãos vazias e os sonhos desfeitos. Neste sentido, nem o calendário nos ajuda. Para as eleições, falta ainda mais de um ano, tempo suficiente para poeira sentar.

De positivo? Bem, os políticos estão assustados, procurando por respostas, querendo saber se seu futuro político está, de alguma forma, ameaçado. Alguma resposta, mesmo que pequena, há de vir. Alguma mudança acontecerá para que transmita a falsa sensação de que o “povo venceu”. Pura ilusão. No cenário político dominante, tudo tende a continuar na mesma, por mais maquiagem que seja colocada em seus atores.

E insisto num ponto que entendo mereça  atenção da população: todos os serviços públicos essenciais são de responsabilidade do governo federal, mesmo aqueles geridos pelas prefeituras e governos estaduais, uma vez que dependem, diretamente, de verbas controladas pela União. E, como sabemos, os governos petistas condicionam a liberação destas verbas à alianças políticas espúrias, tratando o recurso público, que pertence ao conjunto da sociedade, como se sua propriedade exclusiva fosse. Assim, que o descontentamento geral se direcione ao governo central, e que se inicie um movimento para, no voto,  retirar o partido no poder, alguma coisa parecida com “fora PT!”, algo parecido com que eles sempre utilizaram contra governos em que eram e são oposição. Aí sim, será possível promover mudanças até radicais, porque, senhores e senhoras, não imaginem que a situação atual não possa ficar pior do que se encontra. Com o PT no poder, o fundo do poço é sempre mais embaixo.  

O dia seguinte, muitas vezes, pode ser melancolicamente silencioso demais para ser percebido se as sociedades se deixam encantar pela estupidez das utopias, põem de lado o bom senso e a razão. E a razão indica que os bandidos estão alojados nos palácios dos três poderes em Brasília. Eles são os inimigos a serem vencidos. Quem imaginar o contrário, sofrerá dolorosas frustrações.  Neste sentido, nossa luta não deve mirar as instituições, tampouco transpor os limites da legalidade. Nossa luta deve dirigir seu foco contra aqueles que deveriam gerir as instituições em favor da sociedade, mas apenas as tratam como seus patrimônios pessoais. E este inimigos estão em Brasília. Todos eles. É a cabeça do dragão que precisa ser extirpada. 

O centro do debate

Marco Antonio Villa
O Globo

Quem efetivamente dá as ordens são pequenos grupos ultraesquerdistas. E o fazem para dar alguma satisfação aos seus exíguos militantes

As manifestações ocorridas em São Paulo nas últimas duas semanas permitem algumas reflexões. Que o transporte coletivo é ruim e caro, para os padrões do serviço oferecido, ninguém discorda. Mas não é esta a questão que está no centro do debate. O que se discute é como combinar a defesa do Estado Democrático de Direito, a liberdade de manifestação e o direito de ir e vir. O que está ocorrendo em São Paulo não tem qualquer relação com as manifestações de Brasília ou do Rio de Janeiro. Nestas cidades, o centro das reivindicações são os gastos abusivos da Copa do Mundo e o abandono daquilo que afeta o cotidiano da população: a saúde, educação, etc. É como em 1968: enquanto no Rio a passeata dos 100 mil defendia a democracia, em São Paulo, no mesmo dia, teve o atentado terrorista contra o II Exército.

Na busca de paralelos onde eles não existem, já foi possível ler e ouvir relações entre as manifestações de São Paulo com o que aconteceu nos países árabes, na Turquia, ou até com 1968. Os mais exaltados apontaram que nada mais é que o mal estar da civilização com a globalização e que o capitalismo vive uma crise terminal (como profetizado desde o século XIX...). Os jovens seriam emissários desta nova ordem pós (sempre tem de ter um “pós”) globalização, uma continuidade do falecido movimento Ocuppy Wall Street. Lembram-se que, em 2011, diziam que o movimento iria se espalhar pelo mundo inteiro? O que aconteceu semanas depois? Nada. A tentativa de relacionar com momentos da nossa história onde inexistiam – como agora – um regime de amplas liberdades, é patética. Neste ritmo, logo veremos algum estudante de 68 gritando – quarenta e cinco anos depois, já idoso - pelas ruas de São Paulo: “a luta continua.” Qual luta?

A organização efetiva dos atos não é de um movimento autônomo, apartidário, de jovens insatisfeitos com a política e desejosos de encontrar alguma forma de participação. Nada disso. Quem efetivamente dá as ordens são pequenos grupos ultra-esquerdistas. E o fazem para dar alguma satisfação aos seus exíguos militantes. Estão há anos discutindo e escrevendo sobre a crise do capitalismo. Falam e não encontram adesão na sociedade. Continuaram só falando. E foram perdendo o ralo apoio que tinham. Sem crise econômica e um desemprego monstruoso, como em vários países europeus, restou a estes grupos encontrar algum móvel de luta, para que não desaparecessem. O aumento das passagens de ônibus – abaixo da inflação, registre-se – caiu do céu. Foi o meio que as lideranças obtiveram para obter a legitimação das bases cansadas de ouvir discursos revolucionários sem uma efetiva ação.

O ataque aos bens públicos e privados, a tentativa de linchamento de um policial militar na Praça da Sé, atos que não tem qualquer relação com o aumento das passagens, são vistos como ação revolucionária, de resistência ao capitalismo e ao seu poder opressor, a polícia. O vandalismo é o alimento destes grupelhos que agem de forma violenta, desprezando os valores democráticos e os direitos constitucionais. Sonham com um Brasil nos moldes de Cuba, Coreia do Norte. Não entendem que a liberdade de manifestação não se sobrepõem ao direito de ir e vir. E este é o desafio da democracia: garantir ambos os direitos. E agir com energia – dentro dos limites legais - quando qualquer um deles estiver sendo violado.

Nestes momentos de tensão – inerentes ao regime democrático – é que são testadas as autoridades. O governador de São Paulo não se omitiu. Presumo que saiba que tem um custo político a defesa da lei e da ordem democráticas em um país que valoriza e estimula tudo o que é ilegal. Temos uma propensão à marginalidade. No caso das manifestações há os que justificam o vandalismo como uma forma de protesto, de insatisfação, de jovens que são incompreendidos pelo que chamam de sistema. E a ação do Estado Democrático de Direito é demonizada. Como é possível conter a destruição de ônibus, lojas, bancas de jornais, bares, liberar ruas e avenidas, sem o uso da força? E os abusos cometidos pela ação policial deverão ser investigados e devidamente punidos.

É evidente a tentativa do governo federal de obter algum dividendo político das manifestações. As declarações dos ministros José Eduardo Cardozo e Ideli Salvatti visam desgastar politicamente o governador Geraldo Alckmin. Os mandriões atacaram quem simplesmente fez cumprir a Constituição. A pergunta é: quem vai ganhar, politicamente falando? Ou será que todos – os partidos constituídos – vão perder?

Não faltam praças para mostrar indignação contra tudo e todos. Por que não aproveitam e pedem a prisão dos mensaleiros, a começar pelo sentenciado José Dirceu? Mas não é esse o objetivo dos manifestantes em São Paulo, volto a dizer, diferentemente do Rio ou Brasília. Grande parte dos manifestantes – especialmente a liderança que se pronuncia pela imprensa – são da classe média. Da classe média mesmo, não daquela inventada pelo petismo, a tal “classe c.” Nas imagens não encontrei trabalhadores, pobres, negros. Não vi também, protegendo os próprios municipais, a Guarda Civil Metropolitana. Foram omissos, como o prefeito Fernando Haddad - e o aumento das passagens de ônibus é da esfera da prefeitura. E a Câmara Municipal? Mutismo total. Os 55 vereadores servem para que? Pode ser que a luz contra o marasmo venha do Rio ou de Brasília.

O movimento da hora presente

Luiz Werneck Vianna
O Estado de SPaulo 

Eppur si muove, mas ao contrário do movimento da Terra, que não sentimos, na frase famosa de Joaquim Nabuco, este movimento que aí está não dá para não perceber. Em cima, em baixo, nas grandes capitais, nas periferias, no coração do Brasil, lá em Belo Monte, entre os índios, os sem-teto, os sem-terra, nas corporações profissionais e entre os estudantes, de dentro dessa crosta encardida que, há anos, a tudo abafava há sinais de vida nova.

Os interesses e as ideias de cada qual são díspares, desencontrados uns dos outros, como seria de esperar numa sociedade que não mais reflete sobre si, que destituiu a política da sua dignidade e converteu os partidos políticos em instrumentos sem vida, máquinas eleitorais especializadas na reprodução política dos seus quadros.

Os acontecimentos recentes em São Paulo, no Rio de Janeiro e em outras grandes cidades - especialmente no caso paulista - somente na aparência podem ser tomados como um raio em dia de céu azul. Igualmente enganoso seria compreendê-los como um mero, embora significativo, episódio de políticas públicas de transporte urbano.

As reportagens dos meios de comunicação, em particular as da imprensa escrita, têm trazido à luz a identidade social de algumas lideranças desse movimento de ocupação popular das ruas, não poucas cursando universidades de elite, para as quais o aumento irrisório nas tarifas dos transportes não teria como explicar a reação, à primeira vista desproporcional, aos poucos centavos acrescidos a seu preço.

A memória política talvez ajude a pensar o caso em tela: no segundo ano do governo de Juscelino Kubitschek, em 1956, um movimento de estudantes durante vários dias tomou as ruas na chamada greve dos bondes, no Rio de Janeiro, então capital federal, e seu alcance foi de tal natureza que se temeu a iminência de uma crise institucional. A crise foi contornada politicamente, com o próprio presidente Kubitschek intercedendo junto ao presidente da União Nacional dos Estudantes (UNE), a quem recebeu em seu gabinete presidencial.

Nesse registro, o que vale notar é que aquela movimentação estudantil transcendia a sua motivação declarada, o aumento do preço das passagens, encobrindo um malaise - sintoma que não escapou das sensíveis antenas políticas do presidente - que se arrastava desde o suicídio do presidente Getúlio Vargas e a subsequente turbulenta sucessão presidencial, em meio a golpes e contragolpes de Estado.

Não há exagero em sustentar que a feliz solução daquela crise - exemplar em termos de sua orientação democrática - vai estar na raiz da afirmação dos movimentos sociais nos anos subsequentes, os chamados "anos dourados", que viram nascer formas expressivas do moderno na cultura brasileira, como no Teatro de Arena, no Cinema Novo e na Bossa Nova, manifestações para as quais a UNE e o seu Centro Popular de Cultura desempenharam um não pequeno papel.

Foi assim que, de modo imprevisto e paradoxal, a modernização das estruturas econômicas do Brasil, desencadeada por decisões discricionárias do Poder Executivo - os "cinquenta anos em cinco" -, pôde se tornar compatível, numa sociedade dominada pelo tradicionalismo, com a emergência do moderno com as postulações que lhes são intrínsecas de autonomia da vida social.

O paralelo com a situação atual não é arbitrário: hoje, tal como nos anos 1950, vive-se um tempo de acelerada modernização promovida por indução da ação estatal, que vem revolvendo as suas estruturas sociais e ocupacionais e provocando o realinhamento, em curto espaço de tempo, da posição de classes e de estratos sociais.

Entre tantos processos dessa natureza, deve ser notada a nova configuração das chamadas classes médias, na esteira do processo de desenvolvimento capitalista do Brasil e da mobilidade social que a acompanha, inteiramente distintas, em termos de mentalidade e de inscrição no mercado, das que as antecederam.

Como inevitável, tais transformações vêm repercutindo no sentido de enriquecer as agendas de demandas sociais, como se verifica com o tema da mobilidade urbana que somente agora chega à ribalta. Contudo, esse ângulo tópico é apenas a ponta mais sensível das atuais manifestações - muitas delas mal escondendo a carga de fúria de que são portadoras - que irrompem por toda parte em diferentes cenários, não apenas urbanos.

Porém, sem dúvida, estamos longe das Praças Tahir, do Egito, e Taksim, da Turquia. Os movimentos sociais que emergem diante de nós não estão confrontados com um regime autoritário - vive-se na plenitude das liberdades civis e públicas.

Há, no entanto, um componente novo nessa movimentação social a requerer precisa identificação, a que o repertório de interpretação corrente nos últimos anos não concede acesso. A chave somente se fará disponível quando se compreender que se está diante de uma insurgência democrática em favor do reconhecimento de novas identidades sociais e de direitos de participação na vida pública, especialmente das novas gerações.

A hora da política está chegando e, com ela, a da remoção das instituições e práticas nefastas que a têm degradado, tal como nesta forma bastarda de presidencialismo de coalizão sob a qual se vive, engessando a moderna sociedade brasileira no passado e no anacronismo destes novos coronéis da vida republicana.

Há riscos na hora presente, e um dos maiores deles é o de não agir no sentido de evitar que a juventude se distancie dos valores da democracia, o que pode vir a ocorrer por intervenções desastradas dos atuais governantes. O desfecho de 2013 não pode repetir o de 1968.

A crise de representatividade dos partidos

Editorial
O Globo

Políticos deveriam entender as manifestações de rua e tratar de sanear as legendas, para que passem a ser canais legítimos de reivindicações da população

Depois das manifestações do MPL, Movimento do Passe Livre, na quinta-feira, no Rio e São Paulo, analistas políticos passaram a se dedicar a entender o que se passa — a imprensa, inclusive. O que parecia um pequeno movimento de estudantes alegadamente contra o aumento de tarifas de ônibus, acompanhado por grupos de anarquistas, sempre atentos a oportunidades como esta para atos de vandalismo, ganhou outra dimensão, principalmente a partir das passeatas de ontem.

Manifestações, à mesma hora, no Rio, São Paulo, Brasília e Belo Horizonte remetem a momentos que fazem parte da História: cassação de Collor, Diretas Já. Claro, não há sequer de longe comparação com a atual conjuntura política. O fenômeno é de outra natureza e passa ao largo da estrutura partidária e de organizações de longa história de militância, como a União Nacional dos Estudantes (UNE) e sindicatos, anestesiadas pelo convívio próximo com poder e suas benesses, nestes últimos 12 anos de PT e aliados no Planalto. Foram todos surpreendidos pelo crescimento desta onda de críticas a “tudo isto que aí está”, cuja faísca de ignição foi o custo do transporte urbano, no qual milhões de brasileiros padecem todos os dias. Elucidativo que alguns ativistas levem cartazes com a mensagem de que “nenhum partido me representa”. Reflete o enorme distanciamento entre legendas e a sociedade, construído com a ajuda de uma legislação deficiente, fonte de absurdas distorções.

Série de reportagens publicadas na semana passada pelo GLOBO sobre a estrutura partidária traça um diagnóstico deste divórcio crescente entre partidos e eleitores. É sabido que regras irreais, incentivadoras da dispersão partidária, não apenas diluem a representatividade como favorecem a entrada de oportunistas na vida pública, um dos fatores que contribuem para a degradação da imagem da democracia representativa, uma grave ameaça às liberdades. As 30 legendas legalmente registradas, um número excessivo, movimentam R$ 1 bilhão por ano, dos quais R$ 350 milhões do Fundo Partidário, provenientes do contribuinte. Mesmo que o partido não tenha sequer um parlamentar eleito, ele é beneficiado pela distribuição de 5% do Fundo Partidário. Assim, por exemplo, o Partido da Causa Operária (PCO), com 2.560 filiados no país, sem qualquer eleito na Câmara, recebeu do contribuinte, no ano passado, R$ 629.081. Já o Partido Ecológico Nacional (PEN), com irrisórios 247 filiados, embolsou R$ 343.303.

Se considerarmos que as legendas com bancada no Congresso têm garantido tempo no horário gratuito, por menores que sejam, conclui-se que as oportunidades de negócios são mais amplas. Entendem-se, então, cartazes de protesto contra os partidos. Infelizmente, a própria classe política resiste à criação de uma cláusula de barreira que saneie a estrutura partidária, e a torne capaz de, afinal, representar de fato o eleitorado e canalizar as reais reivindicações da população.

Onde está o terror econômico

O Estado de S.Paulo

Continuam piorando as perspectivas da economia brasileira para este ano, segundo a pesquisa realizada semanalmente pelo Banco Central (BC) com cerca de cem instituições do mercado financeiro e do setor de consultoria. Os economistas aumentaram suas projeções de inflação, agora estimada em 5,83%, e reduziram as do crescimento econômico (2,49%), da produção da indústria (2,5%) e do saldo comercial (reduzido para pífios US$ 6,55 bilhões).

Elevaram para US$ 73,66 bilhões, ao mesmo tempo, a previsão do buraco na conta corrente do balanço de pagamentos. Basta ler esses números para identificar um dos focos do terrorismo econômico denunciado pela presidente Dilma Rousseff. Um dos principais aliados desse foco é naturalmente o BC, responsável pela divulgação de tanto pessimismo.

Outros focos devem estar nas entidades representativas da indústria, em organizações acadêmicas, como a Fundação Getúlio Vargas (FGV), e até no Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), fontes de informações pouco animadoras sobre a evolução dos preços, a recuperação da atividade, o emprego industrial e a disposição dos empresários de se arriscar em novos investimentos.

Auxiliares próximos da presidente já identificaram uma crise de confiança. Evitam falar disso publicamente, mas já se esforçam para embelezar a imagem do governo. O BC elevou os juros básicos, intensificando e tornando mais sério o combate à inflação, e seu presidente, Alexandre Tombini, promete agir sem restrições para conter a alta de preços. Não basta, no entanto, restabelecer a confiança na política monetária, quando o lado fiscal permanece uma barafunda.

O ministro da Fazenda promete alcançar a meta de superávit primário equivalente a 3,1% do PIB, enquanto o secretário do Tesouro desqualifica esse objetivo e o condiciona a uma estratégia de gastos anticíclicos. Mesmo a promessa do ministro pouco significa em termos de austeridade.

O governo ainda se mostra disposto a abater investimentos e desonerações da meta fiscal e anuncia, além disso, a intenção de incluir na conta receitas de concessões e os bônus do leilão de blocos do pré-sal. Usará, portanto, receitas eventuais para ajeitar uma contabilidade formada, em um dos lados, por despesas permanentes cada vez maiores.

Em 30 dias investidores de fora tiraram da Bovespa R$ 8 bilhões, reduzindo a R$ 3,4 bilhões o saldo de aplicações estrangeiras. A fuga de capitais tem afetado muitas economias emergentes e é motivada, na maior parte dos casos, pela perspectiva de uma política monetária menos folgada nos Estados Unidos e, portanto, de mudanças no mercado financeiro internacional.

Mas fatores internos também minam a confiança no Brasil e isso é reconhecido sem dificuldade entre especialistas. A Standard & Poor's já ameaçou rebaixar a classificação do Brasil. Há um sério risco de rebaixamento pelas agências de classificação até o começo de 2014, segundo informe do Banco Barclays divulgado em Nova York. O crescimento permanece baixo e a inflação continua alta, de acordo com o informe.

Mesmo no governo poucas pessoas parecem levar a sério a conversa sobre terrorismo econômico. O problema de credibilidade é reconhecido, mas a única mudança relevante, até agora, foi a da política monetária. Demonstrando mais preocupação com as eleições, a presidente Dilma Rousseff lançou mais um programa de estímulo ao consumo, o Minha Casa Melhor, apesar do comprovado fracasso dessa estratégia nos últimos dois anos e meio.

Os problemas de produção e de oferta, amplamente reconhecidos por especialistas como os mais importantes, continuam sendo atacados com ações desarticuladas, claramente improvisadas e de alcance limitado.

Além disso, o ativismo do governo - de fato, hiperativismo -, apontado como um dos fatores de desconforto e desconfiança do empresariado, tanto nacional quanto estrangeiro, será mantido, como deixou claro a ministra chefe da Casa Civil, Gleisi Hoffmann. Eis aí uma promessa aterrorizante.

A economia está com o motor emperrado

Ana Paula Ribeiro
Revista EXAME

Com a economia em marcha lenta, as 500 maiores empresas do Brasil cresceram 1,8% no ano passado, pouco acima da expansão do PIB — que, aliás, ainda não deu sinais de reação em 2013

Germano Lüders/EXAME.com 
Consumo firme: 
a P&G mantém expectativa de crescimento da receita em 2013

São Paulo - O governo levou uma ducha de água fria ao receber, no fim de maio, os dados de expansão do produto interno bruto (PIB) no primeiro trimestre do ano. De janeiro a março, a economia brasileira cresceu 0,6% em relação aos três últimos meses do ano passado.

Foi um resultado frustrante — Brasília esperava expansão de 1% — e levou o ministro da Fazenda, Guido Mantega, a admitir que o governo “certamente” terá de rever para baixo a previsão de um crescimento do PIB de 3,5% em 2013. Essa revisão já estava nas contas de boa parte da elite empresarial do Brasil.

Um levantamento realizado entre abril e maio por Melhores e Maiores, de EXAME, com os presidentes das maiores companhias do país, revela que a grande maioria — 87% — acredita que o PIB brasileiro crescerá menos de 3% neste ano. Em conjunto, as 500 maiores empresas do país tiveram receita líquida de pouco mais de 1 trilhão de dólares em 2012, um crescimento de apenas 1,8% sobre o ano anterior — de 2010 a 2011, o avanço havia sido de 7,3%.

O pior número apareceu na última linha do balanço. Em 2012, as 500 maiores empresas somaram um lucro de 34 bilhões de dólares, metade do valor obtido no ano anterior. Os dados serão analisados em detalhes na edição de 40 anos de ¬Melhores e Maiores, que será publicada por EXAME¬ no início de julho.

No mesmo dia do anúncio do baixo crescimento do PIB, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística divulgou um dado aparentemente positivo em meio à safra de notícias ruins: o aumento da capacidade produtiva da economia por meio da elevação dos investimentos em máquinas e equipamentos.

Esse investimento cresceu 4,6% no primeiro trimestre em relação aos três últimos meses de 2012. Embora isso sinalize uma melhora das condições para o país sustentar um crescimento no longo prazo, a avaliação dos analistas é que a expansão só ocorreu porque a base de comparação é fraca.

“Não vejo o investimento se repetir na mesma magnitude nos próximos trimestres”, afirma Jankiel Santos, economista-chefe do Banco Espírito Santo Investimento.

Otimismo e cautela
Mesmo com a economia do país em marcha lenta, há quem aposte que 2013 será o ano da recuperação — pelo menos do próprio negócio. Quatro em cada dez presidentes ouvidos na pesquisa de MELHORES E MAIORES esperam que sua empresa cresça mais de 10% neste ano.

Um dos executivos que demonstram otimismo é Roberto Cortes, presidente da Man, fabricante alemã de caminhões. Depois de sofrer em 2012 uma queda de 19% na receita, a previsão da Man é crescer pelo menos 10% neste ano. “Um aumento do PIB, mesmo que de 3%, gera a necessidade de renovação da frota de caminhões”, diz Cortes.

Essa renovação conta com o incentivo do governo, que oferece linhas de financiamento do BNDES com taxa de juro anual de 3% para caminhões. No segundo semestre, essa taxa deverá subir para 4% ao ano — ainda bem abaixo do que era cobrado até setembro de 2012, de 10% ao ano.

Também estão otimistas as empresas ligadas ao setor de consumo, apesar dos indicadores, que apontam uma desaceleração nos gastos das famílias. O grupo americano P&G, fabricante de produtos de limpeza e de higiene pessoal, faturou 5,1 bilhões de reais em 2012. Neste ano, quer crescer e consolidar suas marcas no país.

“Mesmo com o achatamento da renda pela inflação, o consumidor não tirará do carrinho do supermercado produtos de higiene e limpeza”, afirma Gabriela Onofre, diretora de assuntos corporativos da P&G. A alta da inflação, contudo, é um fator que preocupa muitas empresas.

A Bombril aumentou sua receita 11% no ano passado porque conseguiu repassar a alta dos custos aos preços dos produtos. Mas isso tem um limite, segundo Pedro Brandi, diretor financeiro da Bombril. “Estamos confiantes no desempenho da empresa em 2013, mas com um pé-atrás em relação à situação do país”, afirma Brandi. Ele não é o único que pensa assim.

Reduziu-se o espaço de manobra

Samuel Pessoa
Folha de S. Paulo

O câmbio desvalorizou-se quase 6%. Com inflação e com PIB crescendo devagar, o estrago foi grande

Nas últimas semanas, o câmbio sofreu forte depreciação. Diversas outras economias, especialmente as dependentes da exportação de commodities, também foram afetadas.

Dois fenômenos aparentemente contribuíram para produzir esse movimento. Primeiro, a acomodação do crescimento da economia chinesa em valores mais próximos de 7% ao ano tem produzido uma queda continuada dos preços das commodities.

Desde o início de fevereiro até a primeira quinzena de maio, o índice de preços de commodities calculado pelo Commodity Research Bureau (CRB) de Chicago perdeu 3,5%. A moeda dos países que dependem da exportação de bens primários se desvaloriza em consequência do movimento dos preços dos bens primários.

Mais importante foi o segundo fenômeno, que produziu o ajuste das moedas de diversas economias, inclusive do real. Ao longo deste primeiro semestre, duas boas notícias sugeriram aos investidores que a economia americana se recuperaria mais rápido do que estava inicialmente implícito na trajetória das taxas de juros no mercado americano vigentes até o início de maio.

A primeira boa notícia foi que o setor público americano produziu no primeiro trimestre, em comparação ao primeiro trimestre de 2012, um ajuste em suas contas de dois pontos percentuais do PIB.

O déficit nominal, que fora de 8,7% do PIB no primeiro trimestre de 2012, reduziu-se para 6,7% do PIB no primeiro trimestre de 2013.

Dado que outra parcela do ajuste das contas públicas ocorreria no segundo trimestre, quando a maior parte da queda automática dos gastos com início a partir de março atingiria as contas públicas, os números sugerem que o setor público poderá reduzir seu déficit em 2013 em quase três pontos percentuais do PIB.

A segunda boa notícia com relação ao desempenho da economia americana foi que, além de ter crescido 2,4% no primeiro trimestre ante o trimestre anterior (na taxa anualizada), o acompanhamento das diversas estatísticas indicam que no segundo trimestre o produto crescerá ante o primeiro trimestre por volta de 1,8% na taxa anualizada.

Ou seja, no semestre em que a economia enfrenta ajuste fiscal na casa de 2 a 3 pontos percentuais do PIB, o produto crescerá 2% e a economia continuará gerando empregos suficientes para que a taxa de desemprego não cresça.

Para termos ideia do vigor da economia americana, basta lembrar que as economias europeias têm apresentado desempenho muito pior, muitas vezes com crescimento negativo, e melhoras irrisórias nas contas públicas.

As boas notícias fizeram com que o mercado trouxesse para mais perto, e de forma mais alinhada com o roteiro estabelecido pelo Federal Reserve (o BC americano), o momento de normalização da política monetária americana.

Os juros anuais pagos pelas notas do Tesouro americano de dez anos subiram de 1,6% para 2,2%. Esse movimento foi suficiente para produzir saída de capitais dos emergentes em direção à economia americana.
Por aqui o câmbio desvalorizou-se quase 6%. Em uma economia com a inflação batendo no teto da meta e crescendo a passos de cágado, o estrago foi grande.

O cenário básico da condução da política econômica até então era de “empurrar com a barriga” até a eleição. Minha avaliação era que a tentativa de implantação da “nova matriz econômica” já havia sido abandonada, ou estava suspensa até a eleição, em função dos impactos inflacionários que a desvalorização do câmbio de meados de 2011 até meados de 2012 provocara.

O governo controlaria a inflação com medidas tópicas e promoveria um ajuste pequeno na taxa Selic com vistas a acalmar as expectativas inflacionárias. O ajuste maior ficaria para 2015.

O movimento da economia americana adiantou o momento do ajustamento. Evidentemente, temperado pelo calendário eleitoral, podemos esperar uma pequena mas relevante melhora na política fiscal, retorno a um câmbio mais flutuante com a retirada das barreiras à mobilidade de capital, que já ocorreu, e possivelmente um ciclo ligeiramente maior de elevação da Selic. Evidentemente sobrará muito ajustamento para 2015.

A opção pelo mais fácil

Celso Ming 
O Estado de S.Paulo

Surpreendido pelas derrapadas seguidas na área econômica, o governo Dilma foi chamado a optar entre uma vigorosa correção de rumos e a manutenção, com um ou outro ajuste, do mesmo arranjo de políticas que prevaleceram até aqui.

Pelas indicações que chegam de Brasília, a decisão parece ter sido a mais fácil: manter e, até mesmo, aprofundar a combinação de políticas que provocaram as distorções já conhecidas: crescimento teimosamente baixo, inflação alta e renitente, desequilíbrio nas contas externas e uma indústria enfraquecida.
Duas parecem ter sido as razões que levaram o governo a decidir-se por deixar tudo como está. A primeira foi evitar passar mais um recibo público pelo fracasso de sua política econômica. A outra foi o entendimento de que uma terapia com base no aumento da responsabilidade fiscal (controle mais rígido das despesas públicas) e no reforço do investimento podia não produzir os efeitos desejados a tempo de lhe dar proveito nas próximas eleições.

Daí o lançamento na semana passada de um programa ("Minha Casa Melhor"), com R$ 18,7 bilhões em recursos públicos destinados a financiar, a juros subsidiados, aparelhos domésticos e móveis. Trata-se de um novo pacote designado a reforçar o consumo, a despeito das juras feitas pelo ministro da Fazenda, Guido Mantega, de que coisas assim não se repetiriam.

Sobra o Banco Central para enfrentar sozinho a disparada dos preços e tentar recuperar a capacidade de conduzir as expectativas. Na edição de ontem do jornal Valor Econômico, o presidente do Banco Central, Alexandre Tombini, avisou que não há limites para a alta dos juros, dando a entender que está disposto a fazer o que tem de ser feito, mesmo sem contar com a colaboração das políticas a cargo de outras áreas do governo. Como os efeitos da política monetária levam entre seis e nove meses para aparecer, é provável que até as vésperas das eleições toda a alta dos juros promovida pelo Banco Central também não terá produzido o efeito desejado de debelar a inflação.

Essa determinação de Tombini, que apareceu um pouco tarde, mas ainda a tempo, não combina com o discurso da presidente Dilma de que os velhos do Restelo semeiam um pessimismo mórbido e que a inflação, que está "hoje sob total controle do governo", logo mais refluirá.

Não é bem assim. Há meses, o Banco Central vem advertindo que a inflação está alta demais (e não propriamente sob controle) e que o governo está gastando demasiadamente. Se este é o discurso dos ranhetas da hora, então o Banco Central também é um deles.

Ao decidir por não corrigir radicalmente seu rumo, o governo Dilma está apostando que conseguirá administrar com sucesso suas atuais vantagens eleitorais. No entanto, a inflação em doze meses está no teto da meta (6,5%). É alta a probabilidade de que nos próximos três meses salte para acima desse nível. É uma situação que, por si só, tende a aprofundar a falta de confiança que hoje atinge a atividade econômica e a colocar em marcha forças ainda mais desestabilizadoras do que as que vêm surpreendendo a presidente Dilma. A disparada do dólar é um aviso.

Manicômio tributário

Paulo Rabello De Castro
O Globo

O nosso freio de mão está puxado

A tributação brasileira se tornou explosiva. A carga tributária dá saltos, ano após ano: de 26% do PIB por volta de 1994 a quase 38% hoje. Impostos sobre impostos criam improdutividade e burocracia, freios terríveis ao crescimento. Poucos segmentos, como a agricultura – menos onerada diretamente – se safam. A indústria murchou. O Brasil não vai melhorar enquanto não pusermos o dedo na causa da estagnação produtiva. Nosso freio de mão está puxado.

O ministro da Fazenda promete uma reação em breve. Não virá. Nem pode vir, senão por uma completa simplificação do atual manicômio tributário. O mercado erra mais do que o ministro quando o culpa por frustrar o crescimento esperado. Não há qualquer chance de se crescer mais rápido. A produtividade geral está zerada pela carga tributária descomunal. Foi só muita sorte que tivemos nos anos de Lula, pelos altos preços de commodities. Vários países, Austrália, Canadá, Chile e Peru, por exemplo, todos exportadores de produtos primários, se deram bem também. Entre eles, o Brasil foi dos que tiveram crescimento mais fraco. Aqui, só o consumo avançou com força. Junto com o endividamento geral da massa consumidora.

A capa da revista “Economist” colocou o Cristo Redentor decolando do Corcovado. Imagem equivocada. Nada havia mudado no modelo de alto desperdício e baixo investimento brasileiro que justificasse melhor expectativa sobre a economia no Brasil. Nossa capacidade de colocar investimentos para rodar está e esteve prejudicada. O Estado, obeso e perdulário, gasta na frente e sai cobrando o que pode em impostos. As empresas não investem e as famílias não poupam porque já são tosadas na recepção da sua renda por impostos malucos. Se você é da classe média, provavelmente deixa mais de 50% da sua renda familiar para o governo, entre o que é tributado no recebimento do salário e os impostos escondidos nos preços das mercadorias. O governo fica com o dinheiro, mas não o investe; vira gasto de consumo. Portanto, é impossível a taxa de investimento andar além dos 20% do PIB.

Na raiz de tudo, está a maldita carga tributária, agravada pelos impostos em cascata, que oneram até o ato de estar em dia com o Fisco. Viramos um país sonhador e lamentável. Sonhamos com um desempenho na economia descolado inteiramente da nossa estupidez tributária e do desperdício estatal que a acompanha. E somos lamentáveis por não distinguirmos entre entraves seculares, como educação, saúde, e mesmo infraestrutura, que sempre foram problemas, e a grande razão operacional e direta da estagnação brasileira: a tributação burra e o gasto público descontrolado.

Felizmente, isso tudo tem conserto. Como teve a inflação. Quando paramos de insistir no diagnóstico equivocado, fizemos um gol, o Plano Real. Agora podemos fazer outro, maior ainda, o Plano Real dos impostos. O ministro da Fazenda tem o esboço desse plano em suas mãos. Mas precisa de apoio da opinião pública. E de mais suporte de quem ainda pensa.

Mais impostos, não!

Denis Lerrer Rosenfield 
O Estado de SPaulo

A criatividade de nossos legisladores e, no caso, de nossos prefeitos parece não ter limites. A sua engenhosidade é tal que partem para a criação de formas de tributações como se o interesse público se resumisse ao que é melhor para eles, e não para os consumidores deste país.

É sabido que a carga tributária já está acima do razoável, com os cidadãos sentindo na carne - e na mesa - os efeitos de impostos que oneram a renda familiar. Progressivamente, esses mesmos cidadãos começam a perceber que impostos e tributos são nada mais do que transferências de renda e de bens em geral. Na verdade, uma família, por exemplo, transfere parte dos seus bens para o Estado, em suas várias instâncias, da municipal à federal, passando pela estadual e pelas diferentes instâncias do Legislativo e do Judiciário.

Não deixa, pois, de causar espécie o Projeto de Lei do Senado (PLS) n.º 386, de 2012, complementar, do senador Romero Jucá, que dispõe sobre o Imposto sobre Serviços de Qualquer Natureza (ISS), de competência dos municípios e do Distrito Federal. Com efeito, ele dispõe sobre a tributação da "locação empresarial", incidindo, entre outros setores, sobre empresas familiares (que vivem de sua renda), escritórios comerciais, pontos comerciais de shopping centers, áreas residenciais alugadas a empresas, inquilinos residenciais que tenham como locadores pessoas jurídicas, entre outros. Trata-se de uma transformação do mercado de locação empresarial, com reflexos evidentes sobre os preços dos aluguéis pagos pelos inquilinos. Note-se que o aumento de impostos tende a ser repassado ao preço, com o locatário arcando com o seu ônus.

Na iniciativa desse PLS estão os secretários de Finanças das capitais e a Frente Nacional dos Prefeitos. Se, de um lado, é compreensível que os prefeitos procurem aumentar a sua receita, visto as obrigações que devem cumprir, de outro lado, é incompreensível que os contribuintes devam arcar com isso, e não mediante uma redistribuição entre os diferentes entes federativos.

Entre os motivos de elaboração do projeto, cumpre destacar que ele "visa a diminuir a dependência dos municípios em relação às transferências constitucionais, em especial o Fundo de Participação dos Municípios e as transferências relativas ao ICMS e ao IPVA". Ou seja, os municípios procuram uma maior independência financeira à custa de tornarem os cidadãos mais dependentes do Estado, devendo eles arcar com uma carga maior de seu funcionamento.

Em linguagem popular, o contribuinte deveria "pagar o pato" do fato de os prefeitos não conseguirem se entender com os Estados e a União. Um "terceiro", o cidadão, deveria arcar com a má distribuição dos entes federativos entre si. Parece ser mais fácil descarregar o problema sobre alguém que se encontra numa condição passiva, devendo apenas "aceitar" uma solução "legislativa". O bem de todos é lesado por uma suposta e bizarra noção de "bem público", isto é, o deles!

Observe-se que essa iniciativa "legislativa" se insere num contexto político de regulamentação e aplicação da Lei de Transparência dos Impostos, Lei n.º 12.741, obrigando as notas fiscais a discriminarem, nos preços, os impostos e serviços neles embutidos. A lei foi elaborada a partir de uma iniciativa louvável da Associação Comercial de São Paulo, que, com a utilização do seu "impostômetro", contribuiu decisivamente para que a sociedade paulista e brasileira se conscientizasse daquilo que paga ao Estado cotidianamente.

Ora, esse contexto é bem o de conscientização do peso da carga tributária na vida de cada um. O que é visado é uma redução de impostos e contribuições e melhor equacionamento e proporcionalidade entre o que os cidadãos pagam ao Estado e o que dele recebem em serviços como segurança, saúde, educação e saneamento, entre outros.

Forçoso é reconhecer que o Projeto de Lei n.º 386 se situa na contramão dessa tendência brasileira. Convém, ainda, salientar que sobre os dividendos oriundos da locação já incidem o Imposto de Renda, as cobranças de PIS e Confins, além de os inquilinos pagarem o IPTU. Seria mais uma tributação a se inserir nessa lista suficientemente pesada. Quem arca com esse peso? O inquilino e o cidadão em geral, sobre cujos ombros se ergue toda a estrutural estatal. É muito peso para pouco suporte!

Além desse impacto sociopolítico, há que se considerar o impacto econômico, pois as locações empresariais de bens imóveis fazem parte de uma longa cadeia produtiva, ela mesma geradora de impostos, emprego e investimentos crescentes. Novas moradias postas em aluguel, mercado de escritórios, ampliação e construção de shopping centers não são frutos do acaso, mas nascem da segurança jurídica e de condições propícias aos negócios. Certamente, tal ambiente não se coaduna com carga tributária crescente!

Na verdade, os municípios são os maiores beneficiários de novos investimentos. Quanto maior for o número de moradias postas em locação, quanto maior for o número de shopping centers, quanto maior for o número de escritórios oferecidos, quanto maior for o número de famílias que se organizarem empresarialmente para usufruírem dos seus imóveis, maiores serão os ganhos dos municípios.

Com essa nova forma aleatória de tributação municipal, os investimentos serão afetados, tanto do ponto de vista nacional quanto internacional. Fundos de pensão, fundos imobiliários, investidores em geral, construtoras nacionais, incorporadoras e desenvolvedores de shoppings terão impacto imediato em suas atividades e projeções.

Imaginem um ambiente de aumento do valor de locações de imóveis, residenciais e comerciais, e pontos comerciais em shopping centers. Produtos mais caros serão vendidos e os consumidores serão aqueles que deverão pagar mais por aquilo que pagavam menos há apenas algumas semanas.

A percepção de aumento de impostos, inevitavelmente, não será positiva para os administradores municipais.

Conforme previmos, para cumprir meta fiscal, governo terá de cortar investimentos. E a opção está errada!

Adriana Fernandes
Agência Estado

Para mostrar compromisso com o superávit, governo teria de realizar corte adicional de R$ 20 bi, número considerado por técnicos como difícil de se atingir sem prejudicar o investimento

BRASÍLIA - A decisão da presidente Dilma Rousseff de garantir o cumprimento de um esforço fiscal de 2,3% do Produto Interno Bruto (PIB) este ano vai sacrificar o andamento dos investimentos públicos. Na avaliação da área econômica do governo, segundo apurou o Broadcast, serviço em tempo real da Agência Estado, não é possível assegurar esse esforço fiscal sem comprometer os investimentos.

Mesmo com o pé no freio nos investimentos, alcançar a meta de superávit primário determinada pela presidente, avaliam fontes do Ministério da Fazenda, será muito difícil e dependerá de uma resultado maior das receitas extraordinárias, como o leilão do poço de petróleo Libra, na Bacia de Santos, e da arrecadação da Receita Federal.

O controle terá de ser feito pelo Tesouro Nacional na boca do caixa, já que publicamente será difícil sustentar uma medida que afete os investimentos, o que aumentaria as críticas à política fiscal e à estratégia do governo adotada desde o ano passado de elevar as desonerações tributárias.

A prática de segurar os investimentos já foi utilizada pelo governo em outros momentos. Em 2011, primeiro ano do governo Dilma, o Tesouro derrubou o ritmo dos investimentos e segurou as emendas dos parlamentares para conseguir cumprir a meta de superávit.

Segundo uma fonte, o governo estuda a possibilidade de anunciar um corte adicional de gastos no Orçamento, mas por enquanto não há decisão e nem conta fechada. Para mostrar compromisso com um esforço fiscal de 2,3%, o governo teria de cortar pelo menos R$ 20 bilhões, algo de difícil operacionalização sem atingir os investimentos.

Um corte que não se mostre crível aos olhos dos analistas do mercado financeiro, argumentam técnicos, traria riscos adicionais para a credibilidade do governo nesse momento de desconfiança com a política fiscal. "No cenário atual, a meta de 2,3% não é crível", afirma um técnico, que admite que as receitas precisariam crescer num nível mais acelerado.

Resposta. A determinação da presidente de exigir um superávit primário de 2,3% foi acertada em reunião na semana passada com o ministro da Fazenda, Guido Mantega, como resposta à crise de confiança com os rumos da política fiscal que ganhou força depois que a agência internacional de classificação de risco Standard and Poor’s (S&P) rebaixou a perspectiva da nota brasileira.

Em seguida à reunião, o ministro tratou de afirmar seu compromisso com o cumprimento de da meta de 2,3% do PIB. Para cumprir esse compromisso, o governo terá de compensar o resultado fiscal menor dos Estados e municípios, o que não estava nos planos iniciais do Tesouro Nacional. Foi por isso que, em abril, o governo propôs mudança na Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO) que desobriga a União de repor, na conta da meta, a frustração do resultado dos governos regionais. Diante das críticas, o governo recuou da ideia para atingir a meta de 2,3% definida por Dilma.

Segundo cálculos preliminares, Estados e municípios não conseguiram um superávit primário maior do que 0,6% do PIB. Mas, no decreto de programação de receitas e despesas o valor esperado é de 1% do PIB, o equivalente a R$ 47,8 bilhões.

A política fiscal ficou desacreditada depois que o governo começou a acionar mais manobras contábeis, chamadas pelos críticos de "contabilidade criativa", para atingir a meta de superávit primário do ano passado. Mudanças regulatórias também foram acionadas, como a permissão para o abatimento das desonerações tributárias da meta fiscal. 

***** COMENTANDO A NOTÍCIA:
Já comentamos esta situação, e foi bem no início do governo Dilma quando rejeitou a ideia de se aplicar uma política de austeridade fiscal, dizendo tratar-se uma política ultrapassada.

O que seguiu foi um total descompasso entre gastos excessivos,  dívida crescente, déficit também, e receitas refreadas. Ora, tratava-se de um suicídio .  A consequência é o que se vê agora e que estava previsto lá atrás: para cumprir a meta fiscal, ou o governo reduzia seus gastos excessivos (grande parte deles desnecessários, puro desperdício), ou chegaria o momento em que os investimentos é que seriam sacrificados. E não deu outra. Num país precisando urgentemente elevar seus investimentos para promover o crescimento, a opção do governo Dilma tem sido esta: investir bilionárias somas lá fora, e depois, cretinamente, perdoar nossos devedores,  e frear estes investimentos internamente, como se o Brasil já tivesse atingido grau superior de bem estar social, e nossas carências diversas já tivessem sido resolvidas. 

O diabo é que diante dos críticos que veem nas escolhas opções equivocadas e que em nada contribuirão para o crescimento econômico,  e os resultados estão todos aí para quem quiser conferir, a presidente chama a todos de pessimistas, de torcedores do contra, de terroristas. Infelizmente, Dilma Rousseff perdeu completamente o senso de realidade. E o prejuízo, prá variar, recairá adivinhem nas costas de quem?

Este é o problema central de uma governante que ignora, solenemente, os interesses maiores do país, para concentrar sua gestão de olhos postos apenas em si mesma, na sua ambição de se reeleger a qualquer custo, mesmo que ao preço da deterioração da economia do país que deveria governar.     

Na crise, ministro

Cristovam Buarque
O Globo

Ela está visível nos preços em supermercados, nas lojas e nas fábricas

O ministro Guido Mantega saiu de reunião com a presidente Dilma Rousseff perguntando: “Que crise?” A resposta é simples: Na pergunta, ministro!

É crítica a situação de uma economia em que, diante de indicações óbvias de crise, seu ministro da Fazenda pergunta: “Que crise?” Porque, além da própria realidade, a crise se agrava por não ser vista por quem dela deve cuidar.

A crise está em uma economia cujo crescimento não reage a medidas fiscais pontuais que já custam R$ 50 bilhões anuais de sacrifício fiscal sob a forma de isenções; em uma inflação que supera a meta de 4,5% e atinge 6,5%, que é o patamar máximo de tolerância. A crise é visível nos preços em supermercados, nas lojas e nas fábricas, especialmente na indústria de transformação. É preciso reconhecer que, graças a medidas do ministro, a crise ainda não chega a desempregar. Mas a economia não deve ser vista apenas por pontos específicos e do presente. Deve ser vista como um organismo vivo e de longa vida, que não pode ser tratado por problemas individuais e somente no imediato. A continuar, a crise certamente chegará ao nível de emprego.

A crise é visível no saldo comercial, que caiu de US$ 20 bilhões para US$ 7,7 bilhões no ano; na baixa taxa de poupança de 14,1% do PIB; na queda da produção industrial que chegou a -1,1% no ano que terminou em abril de 2013. Também é visível no endividamento bruto do país, que subiu de 53,3% do PIB, em 2010, para 59,2%, em abril de 2013; como também no endividamento das famílias, que atingiu, segundo o Banco Central, 44% da renda em março deste ano. Está no déficit em conta-corrente, que atingiu 3% do PIB, bem como no superávit primário, estimado para cair em 2013, para próximo de 1% do PIB, o que eleva a dívida pública e derruba a confiança. A crise está na queda do Real em relação ao dólar, resistindo às intervenções do Banco Central financiadas por aumentos da dívida ou por redução das reservas.

As causas da crise estão no descontrole dos gastos públicos, no uso pouco responsável de incentivos ao consumo por exonerações fiscais, sacrificando as contas públicas e desincentivando a poupança; em uma política industrial antiga que visa à competitividade como questão de redução de custos e não como resultado da inovação; na forma errática como os “pacotes” geram incertezas ao substituir a política estrutural; no aparente uso do Banco Central e de estatais como Petrobras, Eletrobras e BNDES como parte do processo político, inclusive eleitoral. E ainda no uso de contabilidade apresentando resultados que não inspiram confiança.

Está na perda de credibilidade dos responsáveis pela economia, que evitam ver a crise, criam uma euforia e ampliam a crise ao negar que ela existe. Isto se agravará nos próximos meses se ocorrerem, como tudo indica, melhoras conjunturais que esconderão a dramaticidade do longo prazo.

A crise é de falta de estratégia para enfrentar os problemas estruturais, em todo o sistema, e de falta de percepção das tendências de longo prazo da economia.

Cai estimativa de instituições financeiras sobre economia

Exame.com
Kelly Oliveira, Agência Brasil

A projeção para o crescimento do Produto Interno Bruto (PIB), soma de todos os bens e serviços produzidos no país, desta vez, passou de 2,53% para 2,49%

Marcos Santos/USP Imagens 
Economia: a expectativa para o crescimento da produção industrial 
passou de 2,53% para 2,50%, este ano, e de 3% para 3,2%, em 2014.

Brasília – A estimativa de instituições financeiras para o crescimento da economia, este ano, caiu pela quinta semana seguida, de acordo com pesquisa divulgada todas as segundas-feiras pelo Banco Central (BC).
A projeção para o crescimento do Produto Interno Bruto (PIB), soma de todos os bens e serviços produzidos no país, desta vez, passou de 2,53% para 2,49%. Para 2014, a estimativa foi mantida em 3,2%.
A expectativa para o crescimento da produção industrial passou de 2,53% para 2,50%, este ano, e de 3% para 3,2%, em 2014.
A projeção para a relação entre a dívida líquida do setor público e o PIB foi mantida em 35%, este ano. Para 2014, a estimativa passou de 34,95% para 35%.
A expectativa para a cotação do dólar foi mantida em R$ 2,10, ao final deste ano, e em R$ 2,15, no fim do próximo ano. A previsão para o superávit comercial (saldo positivo de exportações menos importações) caiu de US$ 7,35 bilhões para US$ 6,55 bilhões, este ano, e de US$10 bilhões para US$ 9 bilhões, em 2014.
Para o déficit em transações correntes (registro das transações de compra e venda de mercadorias e serviços do Brasil com o exterior), a estimativa passou de US$ 73 bilhões para US$ 73,66 bilhões, este ano, e de US$ 79 bilhões para US$ 78,5 bilhões, em 2014.
A expectativa para o investimento estrangeiro direto (recursos que vão para o setor produtivo do país) foi mantida em US$ 60 bilhões, neste e no próximo ano.

Turbulência cambial

Celso Ming  
O Estado de S.Paulo

Ao longo da semana passada, as cotações do câmbio enfrentaram uma volatilidade como há muito tempo não se via, apesar dos 4 leilões de compra no câmbio futuro (swap cambial) realizados pelo Banco Central.
Desta vez, a deterioração das contas do Brasil com o exterior (contas correntes), cujo déficit em apenas quatro meses saltou de 2,4% para 3,0% do PIB, não foi o principal fator do treme-treme. No mundo inteiro, as cotações do dólar soluçaram.

A rigor, a novidade ainda não ocorreu. Bastou que Ben Bernanke, presidente do Federal Reserve (Fed, o banco central dos Estados Unidos), admitisse, em depoimento ao Congresso no dia 22 de maio, que poderá reduzir a emissão de moeda destinada à compra de títulos, para que os mercados entrassem em turbulência: as bolsas caíram, o dólar se valorizou em relação às outras moedas e os juros saltaram.

Ao longo do ano passado e deste ano, a presidente Dilma e o ministro da Fazenda, Guido Mantega, temeram que essas operações, conhecidas como afrouxamento quantitativo, provocassem sérios problemas para o Brasil. Hoje, o perigo mudou de lado.

Apenas para reavivar a memória, essas operações consistem em compra de títulos no mercado dos Estados Unidos com emissão de dólares para que mais dinheiro na economia reative o crédito, o consumo e a produção.

Foram objeto de denúncias seguidas da presidente Dilma e do ministro Mantega, que as chamaram de "tsunami monetário" e de "guerra cambial", respectivamente. Consideraram-nas prejudiciais à economia dos países emergentes porque provocam inundação de moeda estrangeira e valorização das moedas locais, fator que tira a competitividade e alija as indústrias nacionais do mercado global. O governo brasileiro levou a questão às cúpulas do Grupo dos 20 e ameaçou entrar com representações na Organização Mundial do Comércio (OMC) contra os países ricos, especialmente Estados Unidos e Japão, por praticarem jogo desleal no comércio com os vizinhos.

A simples perspectiva de suspensão das políticas de afrouxamento quantitativo já estão apontando para uma ameaça oposta: a de causar escassez de moeda estrangeira nos mercados, justamente quando o Brasil mais precisa de entrada de capitais para complementar a cobertura dos investimentos.

Mais ainda, diante da perspectiva de forte derrubada dos preços do gás natural e dos custos da energia em seu mercado interno, os Estados Unidos tendem agora a atrair centenas de bilhões de dólares que vinham pingando no câmbio dos países emergentes.

A tendência se inverteu e passou a ser de desvalorização do real, com todo o impacto que pode exercer sobre a inflação. Claro, há US$ 375 bilhões em reservas que podem ser utilizadas para frear a saída de dólares (ou a redução de entrada). Mas, dependendo da pressão sobre o câmbio, essas reservas podem ser exauridas em apenas alguns meses.

Essa foi a principal razão pela qual o governo Dilma suspendeu todas as barreiras contra a entrada de capitais, erguidas quando os fluxos tinham outra direção. Além do crescimento econômico insignificante (certamente abaixo de 3% em 2013), da inflação elevada demais, e do baixo nível dos investimentos, a economia brasileira começa a enfrentar outro foco de deterioração.

Governo usará receita de privatizações para atingir meta de superávit

João Villaverde e Adriana Fernandes
O Estado de S. Paulo

Com dificuldades para cumprir a meta de economia para pagamento dos juros, Planalto deve alocar no caixa do Tesouro os recursos com concessões de rodovias, ferrovias, aeroportos e poços de petróleo

O governo federal definiu a fórmula que usará neste ano para atingir a meta de economizar, no mínimo, R$ 110,9 bilhões para pagar os juros que incidem sobre a dívida pública. A presidente Dilma Rousseff tomou a decisão política de usar todo o dinheiro que for obtido com as concessões de infraestrutura deste ano, como as de blocos de petróleo e gás e grandes aeroportos e rodovias, para engordar a meta fiscal, conhecida como superávit primário.

Nas contas do Planalto, as privatizações previstas para o segundo semestre devem render pouco mais de R$ 30 bilhões ao governo. Segundo apurou o Estado, o uso dos recursos das concessões para atingir a meta de superávit primário foi definido na última quarta-feira, durante reunião entre a presidente Dilma e o ministro da Fazenda, Guido Mantega.

Quando anunciou as concessões de rodovias e ferrovias, em agosto de 2012, a presidente criticou as privatizações feitas por Fernando Henrique Cardoso, quando o dinheiro era usado para o pagamento de juros da dívida, e não para reforçar os investimentos públicos.

A principal aposta é para o leilão do poço de petróleo Libra, na Bacia de Santos. De acordo com uma fonte da área econômica, o governo vai "calibrar com Libra a meta fiscal". De lá viriam grandes volumes de recursos, que os técnicos calculam, hoje, em algo entre R$ 17 bilhões e R$ 25 bilhões.

Mas a nova estratégia ganha fôlego com o expediente de engordar a meta fiscal com todas as outras concessões, em especial a de aeroportos. A avaliação é que as licitações dos terminais do Galeão (RJ) e de Confins (MG), previstas para setembro, são as mais promissoras. A equipe econômica estima que as outorgas dos consórcios vencedores devem somar cerca de R$ 13 bilhões, mas apenas uma parcela disso entrará no cofre este ano - as concessionárias pagam parcelas anuais.

Alteração via MP. Antes blindados pela legislação do Fundo Nacional de Aviação Civil (Fnac), criado em 2011 para receber o dinheiro das outorgas dos terminais privatizados e que somente poderia ser gasto em investimentos no setor de aviação, os técnicos do governo agora estão livres. Um artigo inserido na Medida Provisória (MP) 600, publicada em dezembro, permite que os recursos das outorgas sejam depositados na conta única do Tesouro, e, portanto, engordem a meta fiscal.

No governo, a opção de ampliar o bloqueio de recursos do Orçamento é vista como última hipótese. O cenário da equipe econômica inclui uma melhora da arrecadação de tributos ao longo do ano, que será reforçada pela nova estratégia de engordar a economia para o pagamento de juros da dívida com os recursos das concessões. No limite, de forma a atingir "a qualquer custo" a meta de poupar 2,3% do Produto Interno Bruto (PIB), serão retidos gastos do orçamento.

A presidente Dilma Rousseff encara como missão a recuperação da credibilidade perdida na área fiscal. As manobras contábeis conduzidas no fim de 2012, quando até créditos da usina hidrelétrica de Itaipu foram usados para fechar as contas, mancharam a imagem construída em 2011, quando o governo cumpriu uma meta fiscal mais rigorosa que a inicialmente proposta.

Para o ano que vem, a estratégia voltará a ser aquela usada no início da gestão Dilma Rousseff. A meta de superávit primário será de 3,1% do PIB.

Apesar do BC, dólar fecha a R$2,16 pela 1ª vez em 4 anos

Exame.com
Bruno Federowski, Agência Reuters

O dólar fortaleceu-se mesmo após o Banco Central atuar para conter o fortalecimento da divisa.

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O dólar subiu 0,84 % ante o real, a 2,1661 reais na venda. 
É a cotação mais alta para a divisa desde 30 de abril de 2009, quando fechou em 2,182 reais

São Paulo -  O dólar fortaleceu-se ante o real nesta segunda-feira, fechando no patamar de 2,16 reais pela primeira vez em mais de quatro anos, mesmo após o Banco Central atuar para conter o fortalecimento da divisa norte-americana.

O dólar subiu 0,84 % ante o real, a 2,1661 reais na venda. É a cotação mais alta desde 30 de abril de 2009, quando fechou em 2,182 reais.

O BC voltou a intervir com a oferta de swap cambial tradicional --equivalente a venda de dólares no mercado futuro-- próximo ao fim do pregão, após o dólar acelerar a alta e atingir, na máxima do dia, 2,1781 reais.

"O BC deveria ter entrado quando o dólar bateu 2,16 reais, porque se não fizesse, o dólar ia embora: batia 2,17 reais, 2,18 reais... O pessoal ia testar", afirmou o operador de câmbio da B&T Corretora Marcos Trabbold, ressaltando, entretanto, que não é possível determinar um teto para a divisa.

A autoridade monetária vendeu 39,1 mil contratos da oferta de 40 mil contratos de swap cambial tradicional.

As últimas atuações do BC para segurar a alta do dólar ocorreram quando a moeda era negociada em torno de 2,16 reais, levando agentes do mercado a acreditarem que o BC não quer o dólar distante de 2,15 reais, com medo do impacto de um real depreciado sobre os preços.

No entanto, Trabbold classificou a intervenção desta segunda-feira como "tímida".

"Ele só está operando no mercado futuro. Isso afeta o pessoal que faz hedge, mas acho que ele vai acabar vendendo no mercado à vista", emendou.

Em entrevista ao Valor Econômico publicada nesta segunda-feira, o presidente do BC, Alexandre Tombini, disse que a autoridade monetária poderá usar todos os instrumentos que dispõe para combater a volatilidade no mercado cambial.

Segundo analistas, o viés de alta do dólar verificado neste pregão foi motivado, principalmente, por operações com o objetivo de testar a tolerância da autoridade monetária à valorização do dólar.

"Essa alta é realmente um braço de ferro entre o mercado e o BC", afirmou o superintendente de câmbio da Intercam Corretora, Jaime Ferreira.

À espera do Fed
No início do pregão, a alta do dólar foi limitada pelo sentimento de cautela antes da reunião do Federal Reserve, banco central nos Estados Unidos, que pode trazer sinais sobre o futuro do estímulo monetário no país.

"O que vai pegar é o Fed na quarta-feira, então o pessoal está em compasso de espera", resumiu o superintendente de câmbio da Advanced Corretora, Reginaldo Siaca.

Declarações recentes de autoridades do Fed, incluindo de seu chairman, Ben Bernanke, alimentaram expectativas de que a autoridade monetária comece a reduzir o seu programa de estímulo diante de sinais de recuperação econômica no país. Se isso ocorrer, haveria diminuição na oferta de dólares nos mercados.

Tais preocupações, aliadas a problemas domésticos, levaram a uma mudança de patamar no câmbio em maio, que viu o dólar começar o mês cotado e 2,01 reais e fechar perto de 2,15 reais, nível visto até agora.
Essa inquietação também levava investidores a adotar uma postura de cautela. O giro financeiro nesta sessão ficou em 1,2 bilhão de dólares, segundo dados da BM&F. Em comparação, o volume médio diário desde o início do mês é de 2,5 bilhões de dólares.

Contas fiscais equilibradas não impõem sacrifícios

O Estado de S.Paulo

O déficit fiscal dos Estados Unidos chegou a ser eliminado no governo Clinton, no final dos anos 90. Ressurgiu e cresceu com o financiamento da guerra no Iraque e a crise econômica, chegando ao pico de 10,9% do PIB, em 2009. Nos últimos oito meses do ano fiscal iniciado em outubro, foi de US$ 626 bilhões, 26% menos do que em igual período do ano fiscal anterior. Pela primeira vez, desde 2008, será inferior a US$ 1 trilhão, segundo o Congressional Budget Office (CBO), que prevê um déficit de US$ 642 bilhões, neste ano, e de US$ 378 bilhões, em 2015.

A queda do déficit entre os primeiros trimestres de 2012 e 2013, da ordem de 3% do PIB, deveu-se à combinação de corte de despesas com aumento de receitas. As regras aprovadas no Congresso - que votou contra o déficit - obrigaram o governo Obama a um ajuste, contra o qual o presidente lutou, mas perdeu.

As previsões catastróficas sobre o efeito do corte no ritmo da atividade, neste ano, não se confirmaram. A economia norte-americana deverá, segundo o Banco Mundial, crescer 2% neste ano, acima do que se imaginava quando o Congresso impôs o aperto à administração Obama. O FMI prevê crescimento do PIB dos EUA de 1,9% e considera o aperto fiscal muito severo, com corte de 1,15% a 1,75% do PIB de 2013. Ainda assim, a economia norte-americana dá sinais de vigor, acentuando a diferença entre Estados Unidos, União Europeia e emergentes.

Para o Brasil, o exemplo é útil. O governo brasileiro age como se os gastos fiscais fossem sempre virtuosos. Subsídios e incentivos são anunciados regularmente, assim como a destinação de recursos novos para o BNDES emprestar a tomadores ou setores escolhidos. A Fazenda também parece acreditar que pode controlar o câmbio, apesar do risco de despender cambiais que poderão ser escassas, mais adiante. Intervenções no mercado de câmbio teriam de ser tópicas, pois não podem evitar que o dólar se valorize se há razões econômicas para isso, no caso, a retomada norte-americana.

O resultado do ativismo econômico do Estado brasileiro é desfavorável para a economia. Além disso, políticas fiscal e cambial pouco claras geram oscilações nos mercados de câmbio e de ações, com prejuízos para alguns e lucros para outros.

Uma política fiscal equilibrada ajudaria a conter a inflação, sem impor forte alta do juro básico. Os Estados Unidos mostram que cortes de despesas fazem menos mal do que supõem as autoridades brasileiras.

Agência Moody's alerta para risco da Caixa com 'Minha Casa Melhor'

Veja online
Com Estadão Conteúdo

Agência afirma que programa aumentará exposição da carteira de crédito do banco, cujo crescimento é superior aos investimentos em tecnologia e gestão de risco

(Daniel Teixeira/AE) 
Caixa Econômica Federal: 
Minha Casa Melhor trará mais risco ao banco, diz Moody's 

A agência de classificação de risco Moody's afirmou, nesta segunda-feira, que o novo programa de empréstimos da Caixa Econômica Federal que visa fornecer crédito às famílias de baixa renda para a compra de móveis e eletrodomésticos - o 'Minha Casa Melhor' - vai aumentar os riscos de crédito do banco. "A medida é negativa para o crédito da Caixa porque vai aumentar ainda mais sua exposição ao risco de crédito para mutuários de baixa renda que vão financiar essas compras a taxas de juros subsidiadas por prazos mais longos", disse a Moody's.

Na semana passada, a presidente Dilma Rousseff anunciou o 'Minha Casa Melhor', um programa de crédito para beneficiários do Minha Casa Minha Vida que vai distribuir cartões de crédito com limite de 5 mil reais para a compra de mobília e eletrodomésticos, com taxa de juros de 5% ao ano e prazo de até 48 meses para pagar. O programa beneficiará famílias com renda de até 5 mil reais mensais e os juros serão subsidiados pela Caixa, com recursos do Tesouro Nacional.

"Somente em 2012, a Caixa registrou crescimento de 42% em seu portfólio de empréstimos, bem acima da taxa de crescimento de 16,4% de empréstimos totais do sistema bancário. A forte expansão para segmentos não tradicionais, como o financiamento de veículos e de pequenos e médios negócios, combinada com investimentos limitados em tecnologia de gestão de risco, significa um aumento de risco para a Caixa", afirmou a agência. 

Na manhã desta segunda-feira, durante o programa seu programa de rádio matinal, a presidente Dilma Rousseff afirmou que 12 mil pessoas já haviam contratado a linha de crédito. O montante total direcionado ao projeto pode chegar a 18,7 bilhões de reais.

Tapete vermelho para a indústria chinesa entrar

O Estado de S.Paulo

Aspiradores de pó, liquidificadores, espremedores e batedeiras, aquecedores e secadores de cabelo consumidos no Brasil já não são produzidos pela indústria local, e, sim, importados, em especial, do Sudeste Asiático e da China, segundo a Associação Brasileira da Indústria Eletroeletrônica (Abinee). Mas é ocioso lamentar a perda de mercado ou pleitear medidas protecionistas para a indústria local, como fazem seus representantes nos gabinetes de Brasília, pois o principal problema é o custo de produzir aqui, mais oneroso do que na maioria dos países concorrentes, deixando o produto local fora do mercado internacional.

Na China, além de mão de obra barata, tributação módica, infraestrutura adequada, uma logística de alto nível permite o embarque e o desembarque de mercadorias em portos modernos com custos razoáveis e muito mais eficiência do que no Brasil. O mesmo acontece em outros países voltados para a exportação. Isso faz toda a diferença.

Em 2010, foram produzidos no País 448 mil aspiradores de pó e importados 2,4 milhões; a produção local de liquidificadores e espremedores de frutas foi de 13,8 milhões e a importação de 73 milhões; só 25 mil aquecedores foram feitos aqui, enquanto 1 milhão foi adquirido no exterior; 3,7 milhões de secadores de cabelo foram produzidos internamente e 9 milhões foram importados, mostrou reportagem do Globo ontem.
O governo parece mais uma vez inclinado a remediar o problema, sem lhe dar solução. Máquinas de lavar, fogões e geladeiras, além de aparelhos de áudio e vídeo já foram beneficiados por incentivos e agora poderão ser adquiridos pelos mutuários do programa de habitação Minha Casa, Minha Vida com juros subsidiados e a longo prazo. Em 2014, segundo o diretor de Setores Intensivos em Capital e Tecnologia do Ministério da Indústria, Comércio e Desenvolvimento (Mdic), Alexandre Cabral, os eletroportáteis serão prioritários para o governo federal. Uma nova despesa fiscal se prenuncia.

Mais desafiador, mas muito mais correto, seria enfrentar as deficiências de infraestrutura e o custo Brasil. Os governos do PT perderam uma década sem provar que são capazes de remover os gargalos logísticos que roubam competitividade do produto brasileiro. Estenderam, assim, um tapete vermelho para que os exportadores chineses caminhassem maciamente, a baixo custo.

***** COMENTANDO A NOTÍCIA:
Dá para afirmar, com total segurança e sem medo de errar, que a política econômica implementada pelo governo da senhora Dilma, está destruindo a indústria nacional. Se esta senhora continuar no comando do país, não teremos apenas este motivo para chorar e lamentar. Ela conseguirá, porque empreende todos os esforços neste sentido, jogar a estabilidade econômica do país, no lixo. é contra este desmando e incompetência que o país deve reagir. Que 31 de dezembro de 2014 seja seu último dia na presidência da República.Basta de desgoverno.  

Em desvantagem, indústria de eletroportáteis perde espaço para importados

Eliane Oliveira 
O Globo

Sem incentivos ao setor, produtos chineses dominam mercado. Dólar alto pode afetar abastecimento

Márcia Foletto 
José Augusto de Castro, 
presidente em exercício da AEB, prevê impacto no fim do ano 

BRASÍLIA — Sem condições de concorrer com os importados, a indústria nacional praticamente parou de fabricar os chamados aparelhos portáteis, como ferros elétricos, aparelhos de barbear, torradeiras, panelas elétricas e cafeteiras. Os empresários que ainda insistem em produzir essa categoria de itens registram quantidades mínimas se comparadas com o que vem dos países asiáticos, especialmente da China. Um levantamento feito pela Associação Brasileira da Indústria Eletroeletrônica (Abinee) a pedido do GLOBO mostra que, de 2007 a 2010, as importações desses produtos cresceram 86%, passando de US$ 80,5 milhões para US$ 150 milhões.

Usando dados do IBGE e do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior (MDIC), a Abinee constatou que, em 2010, foram produzidos 448 mil aspiradores de pó no Brasil e importados 2,4 milhões de unidades. No mesmo ano, o país produziu 13,8 milhões de liquidificadores e espremedores de frutas e importou 73 milhões desses produtos. De aquecedores de ambiente, apenas 25 mil eram nacionais e um milhão importados. Secadores de cabelo (incluindo chapinhas) foram 3,7 milhões de produção local e 9 milhões de importados.

Essa situação perdura há anos, mas, se a alta contínua do dólar ante o real durar mais tempo, o consumidor brasileiro terá dificuldades para presentear, nas festas de fim de ano, parentes e amigos com aparelhos elétricos portáteis. Isso porque o encarecimento da moeda americana levará à redução das importações e, assim, esses produtos ficarão mais caros. E ainda escassos, devido à baixa produção nacional.

— A indústria brasileira não aproveitou o crescimento da renda da população. Boa parte do esforço de inclusão de pessoas no mercado de consumo no Brasil viabilizou a produção de outros países — lamentou o presidente da Abinee, Humberto Barbato.

Governo dará ‘atenção especial’ ao setor
Ele explicou que, além do câmbio, os empresários brasileiros estão em desvantagem por uma série de razões, sendo as principais os entraves em infraestrutura e logística. Segundo Barbato, a produção de ferro elétrico para uso doméstico e aparelho de barbear, entre outros exemplos, é tão pequena que sequer aparece nas estatísticas oficiais. Ele garantiu que, havendo queda das importações e espaço para as empresas nacionais, a produção desses produtos no país começa imediatamente.

O mesmo avalia Alexandre Cabral, diretor de Setores Intensivos em Capital e Tecnologia do MDIC. Ele admitiu que, na chamada família de eletroeletrônicos, os eletroportáteis não receberam a mesma prioridade do governo federal como os produtos de linha branca: máquinas de lavar, fogões e geladeira; e linha marrom, com destaque para televisões e outros aparelhos de áudio e vídeo. Graças aos incentivos dados a essas duas categorias de itens, 90% dos artigos vendidos no Brasil são fabricados por empresas nacionais. No caso dos portáteis, 30% são nacionais e 70% importados.

— Uma das características das linhas branca e marrom é que os produtos pesam para serem transportados, o que ajuda a indústria nacional, enquanto os portáteis são leves e fáceis de trazer para o Brasil — observou Cabral.

Ele revelou que os eletroportáteis terão atenção especial em 2014. Desde 2012, são tomadas medidas para evitar o ingresso irregular desses produtos, com barreiras técnicas. No entanto, explicou o técnico do MDIC, a fiscalização só será melhorada ano que vem, quando forem colocados fiscais do Inmetro nos portos, aeroportos e fronteiras. Também devem ser anunciados incentivos para que os produtores nacionais possam investir em design.

Risco de inflação nos eletroeletrônicos
Boa parte desses produtos são objeto de ações antidumping para proteger a indústria nacional. No entanto, a grande dificuldade de se abrir um processo administrativo é que, muitas vezes, não há no Brasil produtos similares para garantir o abastecimento do mercado. Pelas contas do governo e de especialistas, o aumento do dólar verificado desde abril, da ordem de 7%, vai se refletir na economia dentro de três a seis meses, o que coincide com as festas de fim de ano.

— Tudo indica que teremos um Natal tenebroso — previu o presidente da Associação Brasileira de Importadores de Produtos Populares (Abipp), Gustavo Dedivitz.

Existe o risco de uma inflação de eletroeletrônicos como há tempos não se via. Os números produzidos pelo Banco Central mostram que os aparelhos eletrônicos ficaram 1,98% mais caros em maio. Para o economista da Tendências Felipe Salto, a situação fica difícil para o consumidor e para o próprio fabricante nacional.

— A situação da indústria brasileira é calamitosa. Além da taxa de câmbio, há um problema estrutural de competitividade — disse Salto.

De acordo com o presidente da Associação de Comércio Exterior do Brasil (AEB), José Augusto de Castro, há importadores que já pensam em rever encomendas que começam a ser feitas de junho a setembro, para as festas de fim de ano.

— Esse tipo de oscilação só prejudica as negociações dos contratos — enfatizou Castro.

Bruno Menezes, do site de compras de produtos americanos Mercado Direto, disse que até o presente momento não houve baixa nas importações, apesar da alta no câmbio este ano. As vendas não foram afetadas.

— Há uma demanda crescente por produtos importados pelos consumidores brasileiros. Nossas vendas têm uma alta geralmente a partir do mês de setembro, que é quando o mercado brasileiro se aquece devido ao Natal. Com isso esperamos que nossas vendas aumentem e não sintam a alta do dólar ao menos por agora — comentou Menezes.