Adelson Elias Vasconcellos
A Inglaterra é considerada o berço do regime parlamentarista. A organização do poder no regime parlamentarista envolve normalmente três órgãos. Um Parlamento, via de regra bicameral, um Chefe de Estado e um Gabinete. E cada um desses organismos são especializados: ao Parlamento compete a função legislativa, ao Gabinete a função executiva, sendo que algumas padronagens promovem a partilha dessas funções executivas entre o Gabinete e o Chefe de Estado.
O traço marcante do Parlamentarismo é que não existe, como no Presidencialismo, a separação e independência entre os três poderes, e sim uma divisão do mesmo. O poder legislativo e o executivo são intrinsecamente relacionados, porque o gabinete que exerce as funções típicas do Presidente da República (ou seja, de governo) é indicado pelo poder legislativo.
Importante destacar que o Chefe de Estado, que junto com o gabinete compõe o poder executivo, é um mero “figurante”, que nomeia diplomatas, preside solenidades oficiais, chefia delegações, e intermédia os conflitos entre o parlamento e o gabinete.
Daí a se dizer que o rei reina, mas não governa. De um certo modo caboclo, o Brasil parece querer adotar um figurino remendado deste modelo. Vimos até aqui, desde que foi eleita à sucessão de Lula, que Dilma outra coisa não faz senão “consultar” seu guru, antes de tomar qualquer decisão sobre a montagem de seu ministério. A rigor, eu diria que a única escolha que me parece independente dentre as que Dilma tomou, foi para o Ministério do Planejamento. No restante, segue-se o ritual do beija a mão, ou do “posso fazer, padrinho?”.
Creio que o desenho do que se constituirá num futuro programa de governo não será diferente, já que Dilma não esconde que será a continuidade do governo anterior. O discurso após a vitória nas urnas, tinha um certo tom de rumo próprio, contudo, como todo o discurso proferido no calor da emoção, ele carrega muito mais intenções do que determinações.
Há um nó nas contas públicas, cada vez menos transparentes, que obrigará Dilma a decidir seguir em rumo oposto ao que até aqui tem sido a escolha do governo Lula. Não dá, e isto já está demonstrado, para continuar neste oba-oba de gastos sem critérios, sem colocar em perigoso risco a estabilidade atual. Não só do lado das despesas correntes precisará haver contenção: o ritmo de alguns investimentos precisará ser reduzido, e alguns projetos deverão ser protelados ou até mesmo suspensos, se o objetivo maior a perseguir é uma drástica redução da taxa de juros e redução da relação divida pública / PIB. Por trás deste esforço, imagina-se estar uma futura redução dos encargos impostos pela dívida atual, aumentando lenta e gradualmente o nível de recursos liberados para investimentos. A ideia não apenas é ótima: não se entende por quais razões Lula não a perseguiu desde seu primeiro mandato. Teve todas as condições para isto, não fez por absoluta covardia em ter que arcar com o ônus político derivado de algumas reformas que jogou prá frente e que seriam e são indispensáveis.
Assim, fica a expectativa de que, quando assumir de fato o poder, Dilma possa andar com as próprias pernas, e dê um rumo próprio ao seu governo. O de que menos o país precisa nesta altura, é de um testa de ferro no Planalto, feito marionete, a ser comandado por fora m por alguém sem mandato, mas concentrando em si todo o poder. Isto tem um nome próprio, e não é democracia.
Nosso regime é ainda presidencialista, portanto, mesmo que não leve muita fé, torço para que Dilma, pelo bem do país, se determine buscar aqueles objetivos desenhados em seu discurso primeiro, mesmo que precise contrariar os caprichos de seu guru. Que seja ela quem ,de fato, exerça o governo, porque para tanto é que foi eleita, e não para servir como fantoche nas mãos de um títere. Dar continuidade a programas e ações de governo é uma coisa, outra bem diferente é submeter cada decisão que tiver de tomar à aprovação e consentimento do seu antecessor, como tem feito na montagem de seu ministério. Se dona Dilma pretende preservar sua autoridade perante as pessoas que irá comandar, é bom mudar o foco de atuação. Nada impede que consultas esporádicas possam ser feitas, mas o que se tem visto é um ritual de benção muito além do que seria razoável. A continuar neste ritmo, não está livre de, já empossada, algum ministro dirigir-se primeiro a Lula antes de qualquer decisão, e à revelia da presidente, o que além de constrangedor, seria a via certa para a instalação de sucessivas crises. A relação, deste modo, deve ser de troca de ideias, sempre preservando sua própria vontade, e não de inteira submissão como tem ocorrido.
Dilma foi eleita para governar o Brasil, não para ser uma rainha da Inglaterra que reina, mas não governa. E Lula, a partir de 01º de janeiro de 2011, será mero ex-presidente, e não primeiro-ministro (ou seria Primeiro- presidente?).


