sexta-feira, outubro 26, 2012

Apagão no Nordeste de novo. De novo, Dona Dilma?

Comentando a Notícia

Pois então, como a soberana afirmou que o país estava livre dos apagões elétricos, graças ao super deus Lula e a competência da própria quando esteve no Ministério de Minas e Energia, a gente acredita que a causa destes enormes apagões – ops!, ble-cau-tes – sejam culpas de FHC, do FMI, da imprensa direitista, da oposição, de parte do judiciário, dos países dos louros de olhos azuis, das “zelites”, dos países ricos que praticam tsunami monetários, etc. 

Em torno de um mês, foi a segunda vez que o Nordeste ficou às escuras. A primeira foi em 22 de setembro. As causas não podem ser por falta de investimentos, por falta de manutenção, por falta de competência gerencial, por falta de mentiras, de enrolação, de incompetência, de irresponsabilidade. Nada disso. A culpa para os males do país, quando ele é governado pelo PT há dez anos, sempre será dos outros, nunca do governo petista, este enorme poço de competência, graças ao que o Brasil tem saúde, educação, portos, aeroportos, segurança pública, transportes, com qualidade de primeiro mundo. Não sejamos, portanto, tão exigentes e injustos. 

Logicamente, as doutas autoridades encontrarão uma desculpa perfeita para tentarem se justificar pelo “acidente”, por mais esfarrapada que seja. 

Segue a notícia de mais este apagão – ops! ble-cau-te - no Nordeste. A reportagem é de O Globo com informações do Portal G1.

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Apagão atinge nove estados do Nordeste


Concessionárias confirmaram o blecaute em quatro estados. Redes sociais informam falta de energia em mais cinco

(Foto: André Teixeira/G1)
Apenas luzes dos carros iluminavam as ruas de 
Fortaleza na madrugada desta sexta-feira (26). 

RIO - Um apagão atingiu na noite de quinta-feira e no início da madrugada desta sexta-feira nove estados do Nordeste. Concessionárias de Ceará, Maranhão, Paraíba e Bahia confirmaram o blecaute. As redes sociais informam ainda sobre falta de energia no Rio Grande do Norte, Pernambuco, Alagoas, Sergipe e Piauí e parte dos estados do Pará, Tocantins, além de parte do Distrito Federal.

A Bahia sofreu um apagão por volta das 23h20m de quinta-feira. De acordo com a assessoria da Companhia de Eletricidade do Estado (Coelba), um problema no sistema interligado nacional, do Operador Nacional de Sistema Elétrico (ONS), afetou a região e atingiu todos os consumidores baianos. Ainda segundo a Coelba, a companhia deixou de receber energia para fazer a distribuição. Não há previsão para que o serviço seja restabelecido. A Coelba afirmou que outros estados do país também foram afetados pelo apagão.

Por volta das 23h30m (horário local), a Paraíba também sofreu um apagão que afetou todas as cidades do Estado. De acordo com informações da assessoria de imprensa da concessionária de energia elétrica do Estado, Energisa, o problema não é de distribuição.

No Ceará, a Companhia de Energia Elétrica do Ceará (Coelce), empresa distribuidora de energia no estado, informou que houve um problema no sistema interligado nacional que afetou todo o Nordeste. A companhia não soube informar sobre as causas do blecaute.

Em Fortaleza, moradores dos bairros, Messejana, Benfica, Jardim Iracema, Barra do Ceará, Fátima, Aldeota, Meireles relataram a queda de energia. Moradores de outras cidades do estado como Crato, Juazeiro do Norte, Sobral e Maracanaú usam as redes sociais para falar sobre a falta de energia.

É a segunda vez nos últimos 35 dias que ocorre um apagão na região Nordeste. Em 22 de setembro, segundo o Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS), órgão responsável por administrar o Sistema Interligado Nacional, um problema nas interligações Sudeste/Norte e Sudeste/Nordeste, atingiu o fornecimento de energia elétrica em parte da região Nordeste do país.

Segundo o Operador Nacional do Sistema (ONS), não se sabe ainda o que causou o desligamento nas linhas de transmissão. Segundo a ONS, à 1h20m desta madrugada algumas linhas já haviam sido recompostas e que a energia elétrica já havia voltado em algumas localidades.

Um país emperrado


Rolf Kuntz
O Estado de S. Paulo

Com 13 procedimentos e 119 dias para abrir um negócio, o empreendedor brasileiro precisa de muita persistência só para iniciar a atividade

A empresa brasileira gasta em média 2.600 horas, cada ano, para cuidar dos impostos. A empresa colombiana, 203. Na União Europeia, o dispêndio é de 193 horas. Indicadores desse tipo mostram uma economia travada, onde os empresários têm muito menos tempo que seus concorrentes estrangeiros para cuidar de inovação, produção, qualidade e estratégia comercial. São forçados a enfrentar, no dia a dia, uma sequência absurda de obstáculos criados quase sempre pelo setor público – por excessos burocráticos, por inépcia administrativa ou simplesmente por omissão. Mais uma vez a pesquisa Doing Business, realizada anualmente pelo Banco Mundial, mostra o Brasil em péssima posição na escala internacional de facilidades – ou dificuldade – de fazer negócios. O levantamento cobre principalmente as condições de operação de pequenas e médias empresas em 185 países, mas as diferenças encontradas valem, de modo geral, para o conjunto de cada economia. O ambiente de negócios é descrito com base em dez tópicos – abertura da empresa, licenças de construção, acesso à eletricidade, registro de propriedade, obtenção de crédito, segurança do investidor, pagamento de impostos, comércio internacional, garantia de contratos e processos de insolvência. O relatório aponta avanços em muitos países em desenvolvimento, mas, no caso brasileiro, as mudanças têm sido escassas e de alcance limitado.

Somadas e ponderadas todas as notas, o Brasil, como no ano anterior, ficou em 130.º lugar na classificação geral, logo depois de Bangladesh e um posto à frente da Nigéria. Só um dos Brics, a Índia, apareceu em posição pior, a 132ª. A África do Sul ocupou o 39º posto, a China, o 91º, e a Rússia, o 112º. A Itália, terceira maior economia da zona do euro, foi a 73ª colocada, mas, de modo geral, as potências capitalistas foram bem classificadas, com os Estados Unidos em 4º lugar, depois de Cingapura, Hong Kong e Nova Zelândia.

Num estudo mais amplo de competitividade seria preciso levar em conta fatores como o peso e a qualidade dos impostos, a infraestrutura, os investimentos em inovação, a qualidade e a disponibilidade da mão de obra, entre outros fatores. Nesse caso, as vantagens das economias mais desenvolvidas seriam mais nítidas e a classificação geral seria diferente. Mas o ambiente de negócios, foco da pesquisa Doing Business, também afeta a eficiência e o poder de competição das empresas e, no caso do Brasil, o peso negativo desse conjunto de fatores é indiscutível. Vários países latino-americanos ficaram em posições bem melhores na classificação geral – casos do Chile (37ª), do Peru (43ª), da Colômbia (45ª) e do México (48ª).

Com 13 procedimentos e 119 dias para abrir um negócio (contra 13 dias na Colômbia, por exemplo), o empreendedor brasileiro precisa de muita persistência só para iniciar a atividade. A obtenção de licenças para construção consome no Brasil 131 dias, bem mais que a média regional, 95. O acesso à eletricidade é uma das poucas vantagens comparativas do empresário brasileiro – demora de 57 dias, contra 98 nos países ricos da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE). Mas essa vantagem se perde no meio de uma porção de entraves, como os 14 procedimentos (o dobro da média regional) e 34 dias necessários para registrar uma transferência de propriedade.

O Brasil perde também quando se trata das condições do comércio exterior. Nesse quesito, o País ficou em 123º lugar na classificação global. Os países da União Europeia ficaram em 36.º e as economias de alta renda da OCDE em 33º. O Chile foi classificado na 48.ª posição e o Peru, na 60.ª. As empresas brasileiras precisam de 7 documentos para exportar (4 na União Europeia) e de 13 dias para o embarque – posição até razoável diante dos padrões globais (10 dias para as economias mais ricas da OCDE). Mas os custos são desastrosos: US$ 2.215 por contêiner, contra US$ 1.004 na União Europeia, US$ 980 no Chile e US$ 890 no Peru. Procedimentos (burocracia excessiva, por exemplo) e infraestrutura são alguns dos itens considerados.

Esses indicadores mostram apenas alguns dos entraves à eficiência. Um quadro completo incluiria vários outros fatores, como o fracasso dos investimentos públicos, as deficiências do transporte, os custos da segurança, o peso e a inadequação do sistema tributário e a situação desastrosa do ensino fundamental. Parte dos empresários e dos analistas prefere, no entanto, discutir a taxa de câmbio. Há quem defenda R$ 2,40 por dólar. Por quanto tempo? É uma atitude confortável para o governo, porque reforça o discurso contra os tsunamis monetários, justifica a solução simplista do protecionismo e torna mais aceitável a política dos incentivos parciais. Já começou a campanha por mais uma prorrogação do IPI reduzido. Para que perder tempo com assuntos de maior alcance?

Vira-latas e mascarados


Carlos Alberto Sardenberg
O Globo

Qual é o oposto do complexo de vira-lata que Nelson Rodrigues encontrou nos brasileiros? É a máscara, com duas variáveis. O brasileiro mascarado que vive achando por aqui o/a melhor do mundo; e aquele que despreza a sabedoria, digamos, universal e a troca pelas “nossas” soluções.

Normal, se poderia dizer. Se cada um de nós alterna momentos de depressão e euforia, por que isso não poderia ocorrer com um povo inteiro? E não apenas com o brasileiro. Pesquisas mostram que todas as populações oscilam entre confiança e baixo-astral, isso dependendo, em grande parte, da situação real em que se encontram. 

Os americanos, por exemplo, estão no “maior baixo-astral”.

Compreende-se. Já são quatro anos de uma crise que chegou, devastadora, depois de um período que parecia o melhor de todos.

Já os brasileiros estão mais animados. O país cresce pouco, mas ainda preserva os benefícios das mudanças estruturais dos últimos 20 anos.

De todo modo, é preciso admitir que há povos mais espertos do que outros. Há países cujas sociedades resolvem melhor as situações e, assim, tornam-se mais prósperas e ricas. Sim, há nações abençoadas com riquezas naturais, mas isso não é a variável determinante.

O Japão tem escassas fontes naturais de energia, mas construiu uma indústria poderosa. Israel não tem uma gota de petróleo, nem de água, aliás, mas é a sociedade mais desenvolvida, de maior renda per capita e a única democracia estável de uma região onde jorra petróleo e sobram ditaduras e pobreza.

Cingapura e Jamaica eram colônias britânicas até 1960, igualmente pobres. Hoje, a nação asiática é rica, desenvolvida e moderna. A Jamaica tem quase nada além de Usain Bolt e seus colegas velocistas. Todo mundo celebra o bicampeão olímpico, mas as pessoas vivem melhor em Cingapura.

E, para chegar do nosso lado, nos anos 60 a Coreia do Sul era muito mais pobre que o Brasil. Hoje, nem dá para comparar.

Portanto, a alternância tristeza/alegria e mesmo a depressão/euforia pode ser normal, desde que leve e rara. Do contrário, a doença aparece. E talvez a pior seja mascarar a realidade de um extremo a outro. O complexo de vira-lata só mostra coisa ruim. O mascarado dança nas ruas e tira sarro dos outros. Isso tem atrapalhado o Brasil.

Nos últimos tempos, temos sido mais mascarados do que vira-latas. É uma característica da era Lula. Na verdade, ele começou, em 2003, mais complexado e com medo da reação mundial à sua eleição. Tanto que adotou a política econômica que ele e seu partido haviam condenado e deixou de lado as propostas de “soluções próprias, não as do FMI”.

Depois, quando o mundo ajudou e as políticas ortodoxas finalmente funcionaram, Lula transformou tudo em coisa própria, incluindo a bonança global (os fantásticos preços das commodities e alimentos).
Como diz mesmo um amigo do governo petista, a maré subiu para todo mundo, mas o ex-presidente acha que ele puxou a maré. E um monte de gente concordou.

Assim, tudo virou solução brasileira para problemas que o mundo e gerações nacionais anteriores não sabiam resolver. Exemplo, o Bolsa Família.

Será? Sugiro uma pesquisa no site do Banco Mundial, item “Conditional Cash Transfer”, “Transferência de Renda com Condicionalidades”. Pois é, o programa, dinheiro em troca de colocar a criança na escola, é uma ideia desenvolvida por tecnocratas do Banco Mundial nos anos 90.

Entre nós, Cristovam Buarque estudou e aplicou. Nos anos 2000, cerca de 30 países já aplicavam o programa (México Oportunidades, Chile Solidário, por exemplo).

Aqui, por sinal, o Bolsa Família foi criado pelo decreto 5.209, de 17/09/04, especificamente com a unificação dos programas Bolsa Escola, Vale Gás e Bolsa Alimentação, que vinham do governo FHC.

É verdade que, no mundo, se fala com mais entusiasmo do Bolsa Família brasileiro e de Lula. E por quê? Porque é o maior e porque o Brasil tem mais pobres...

Todos os principais países emergentes, latino-americanos incluídos, se deram muito bem neste século 21: crescimento forte, inflação controlada, surgimento das novas classes médias e acumulação de reservas.

Pelo complexo de vira-lata, diríamos que o Brasil só pegou a onda e copiou o que todo mundo fez. Na outra ponta, mascarados, diríamos que o mundo todo copia e inveja o Brasil.

Nos dois casos, não estamos vendo a história real. Não foi pouca coisa pegar a onda certa. Mas ainda levamos uns bons tombos na areia. Voltaremos ao assunto.

Agora vai: o governo criou uma comissão para discutir os aeroportos


Ricardo Galuppo 
Brasil Econômico

O governo se mexeu e tomou providências para evitar novos acidentes como o que, pouco mais de uma semana atrás, interrompeu as operações no aeroporto de Viracopos por 46 horas.

Conforme anunciou ontem o ministro da Aviação Civil, Wagner Bittencourt, foi nomeada uma comissão para discutir o problema e buscar alternativas.

Só para efeito de registro: 10 dias depois do acidente é que o governo nomeou a tal comissão. E ela só colocará a mão na massa a partir da semana que vem...

Mais rápida foi a Agência Nacional de Aviação Civil (Anac), que uma semana depois do acidente lavrou contra a companhia americana Centurion, dona do cargueiro MD11 que sofreu o acidente, uma multa no valor de R$ 2,8 milhões.

Aí estão as providências: uma comissão e uma multa. A população que depende do transporte aéreo pode ficar tranquila. Se amanhã ou depois acontecer outro incidente que obrigue à interdição de uma pista movimentada (três toques na madeira), já haverá uma comissão em funcionamento e uma Agência disposta a aplicar uma multa na proprietária do avião acidentado.

Nos 10 dias que se passaram, muita coisa já poderia ter sido tratada. Do ponto de vista técnico, no entanto, a única solução com a qual o ministro acenou foi a adaptação das pistas de táxi (os caminhos paralelos que conduzem o avião da estação de passageiro à cabeceira da pista) para que possam receber operações de pouso e decolagem em caso de emergência.

E só. É lógico que ninguém em sã consciência tem o direito de exigir de Bittencourt um plano detalhado de ação apenas 10 dias depois do acidente.

Mas também não é o caso de aceitar os argumentos apresentados para justificar a lerdeza do governo em encontrar uma solução para uma situação que só foi resolvida em 46 horas porque a TAM conseguiu deslocar da cidade de São Carlos (onde fica seu centro de manutenção) para Campinas - a menos de 150 quilômetros de distância - o guindaste que permitiu a remoção do MD11.

Se o acidente tivesse acontecido em Salvador, é provável que o jato da Centurion ainda estivesse estatelado no meio da pista e o aeroporto fechado até hoje.

O ministro da Aviação Civil diz, com razão, que nem todo aeroporto do mundo dispõe de um equipamento como esse. E que no Japão, assim como no Brasil, só existe um guindaste com as características do que foi utilizado em Viracopos. É verdade.

Também é verdade que o Brasil tem um território 22 vezes maior do que o japonês (onde o equipamento disponível pode, portanto, chegar ao ponto em que é necessário em muito menos tempo) e que, no Japão, nenhum dos aeroportos estratégicos conta com apenas uma pista de pouso e decolagem.
O Brasil precisa perder a mania de varrer para debaixo do tapete a necessidade de prevenir o pior.

(*) Ricardo Galuppo é publisher do Brasil Econômico

Tripé cambiado


Celso Ming 
O Estado de S.Paulo

O ministro da Fazenda, Guido Mantega, já começa a admitir que o tripé da economia, que tanto sucesso fez até recentemente, não é mais o mesmo. O câmbio flutuante, por exemplo, não flutua como flutuava.
Em entrevista publicada ontem no jornal Valor Econômico, Mantega prefere dizer que o regime do câmbio é o de "flutuação suja". Entenda-se que seja o mesmo que câmbio administrado ou câmbio mais ou menos fixo. Ou seja, o governo, por meio do Banco Central ou do Tesouro, opera no mercado tanto na ponta de compra como na de venda de moeda estrangeira, de modo a manter oferta e procura a nível tal que defina cotação de R$ 2 por dólar.

Embora reconheça que o câmbio já não flutua como antes, Mantega segue afirmando que os outros dois apoios do tripé, a meta de inflação e o superávit primário (meta fiscal) estão sendo rigorosamente cumpridos.

Não é bem assim. As duas outras metas também sofrem o efeito da "flexibilização". A de inflação (4,5% ao ano) não tem sido cumprida à risca. Mas o Banco Central diz que a convergência da inflação à meta será "de forma não linear". É só conferir: em 2011, a inflação foi de 6,50%; em 2012, pelas projeções do mercado aferidas pelo Banco Central (Pesquisa Focus), aponta para 5,44%; e, em 2013, para 5,42%. Ou seja, o governo Dilma e o Banco Central passaram a ser tolerantes a uma inflação acima do centro da meta.

O próprio Mantega assume que o superávit primário, de 3,1% do PIB, tem sido flexibilizado, à medida que, nos cálculos, possam ser descontadas despesas do governo carimbadas como "investimentos públicos". Também o Banco Central já não considera que o governo cumpra rigorosamente seus compromissos de responsabilidade fiscal. Na última Ata do Copom, por exemplo, deixou escrito que as contas públicas passaram a ser "expansionistas". Assim, ao dizer que a meta de solidez fiscal continua inalterada, Mantega também está flexibilizando a verdade.

O ministro com razão adverte que não se pode ser rígido e que o tripé não pode ser confundido com a estratégia. De fato, o importante é o resultado; é o crescimento econômico e a previsibilidade da economia que favorecem os investimentos.

Esse é outro produto prometido e não entregue. No ano passado, o PIB avançou só 2,7%; neste ano, não passará de 1,6%; e, embora possa induzir um crescimento de 3,0% em 2013, nada garante a sustentação desse ritmo. Os fundamentos da economia estão sendo flexibilizados a ponto de gerar instabilidade e falta de confiança.

Todo dinheiro tem dois preços: o câmbio é a cotação em moeda estrangeira; e os juros são o preço da própria moeda. A economia brasileira opera com preços fixos nesses dois segmentos. O câmbio está sujeito à tal "flutuação suja" de R$ 2 por dólar: e os juros básicos (Selic), fixados a 7,25% ao ano, "por um período de tempo suficientemente prolongado".

Não é verdade que a flexibilização da flutuação cambial, da meta de inflação e da política fiscal dão mais molejo à economia. Ao contrário, tornam-na mais rígida. Qualquer choque externo, por exemplo, se transmite automaticamente à economia à cotação de R$ 2 por dólar - como aconteceu com a alta dos alimentos, por causa da estiagem nos Estados Unidos. E a flacidez fiscal retira espaço para maior queda da Selic.

Mas admitir que o tripé já não é mais o mesmo já é um avanço diante da insistência anterior, de que nada mudou.

Brasília, nós temos um problema


Miriam Leitão
O Globo

O contido pedido de socorro feito por astronautas, na iminência de uma catástrofe, celebrizado na frase “Houston, nós temos um problema” poderia ser enviado para Brasília quando o tema é educação e mercado de trabalho. O alerta a fazer é grave. Se não corrigirmos a rota vamos fracassar no projeto de desenvolvimento.

Os empresários dizem que não há trabalhadores qualificados, mas os jovens amargam números europeus de desemprego. Nas pessoas entre 18 e 24 anos, a taxa dos desocupados oscila entre 13% e 14%, mas no país se fala de pleno emprego. O recorte de gênero, cor e região levará a índices ainda piores. Uma pessoa negra, do sexo feminino e de Salvador enfrenta desemprego de 20%.

O estranho é que os mais jovens têm em média mais anos de estudo do que as faixas mais velhas da população. Portanto, não se pode dizer que o desemprego é decorrente apenas do problema educacional. Claro que temos uma crise grave na educação. É tão evidente que nem precisamos enviar recado para Houston, Marte ou Brasília.

A geração que tem hoje 45 a 50 anos estudou em média menos dos que os que estão sendo barrados na porta do mercado de trabalho. Pode-se levantar a hipótese de que eles estão estudando o que o mercado não está procurando, e o mercado procura o que eles não estão estudando.

O descasamento entre oferta e demanda é parte do problema, mas não basta para explicar o enigma de um país que se queixa de escassez aguda de trabalhadores qualificados e onde o desemprego de mulher — que tem escolaridade maior do que a dos homens — é mais elevado.

O mercado de trabalho brasileiro prefere e pretere. E só faz isso quem pode escolher e não está com escassez de oferta. As explicações dadas pelos especialistas e empresários não parecem suficientes. Existe no Brasil um agudo atraso na educação, mas isso não justifica tudo.

Há quem defenda a tese de que devemos dar aos jovens que querem ser trabalhadores técnicos apenas o conhecimento técnico. Reservando o ensino universitário para quem tem maiores ambições. Isso apressaria a formação da mão de obra requerida pelo mercado. Parece uma solução perfeita e ela tem um defeito: não conversa com o momento atual.

Tudo é mais desafiador hoje. Um trabalhador pode aprender de forma eficiente como dominar uma tecnologia que amanhã estará obsoleta. Imagine alguém que tenha se especializado na área de Tecnologia da Informação há dez anos e não tenha feito atualização nesse período. Ele hoje seria um jurássico, fora do mercado e sem emprego.

Mesmo se olharmos para trás, para um mundo mais simples que o nosso, aquele no qual um rapaz vindo de Pernambuco entrou no Sesi para se formar torneiro mecânico. No que aquele jovem foi realmente bom? Na liderança sindical e política que o levou à Presidência da República.

O conhecimento se torna obsoleto com tanta rapidez que, em vez de fazer a diferenciação entre ensino técnico e intelectual, o Brasil deveria estar pensando na qualidade do básico na educação que dará aos seus cidadãos a capacidade de pensar, escolher, comparar, raciocinar, divergir e, sobretudo, aprender.

Qualquer pessoa que estiver agora entrando no mercado de trabalho terá, ao longo das próximas décadas da sua vida profissional, que fazer várias mudanças radicais de áreas ou de formas de executar o trabalho. Não há um conhecimento que possa ser entregue como uma caixa mágica para o profissional de área alguma. Esse é o risco, e a delícia, de viver tempos revolucionários.

Mas Houston, ou Brasília, deveria estar a essa altura curiosa para saber por que um mercado que se queixa de falta de mão de obra rejeita jovens que têm níveis mais altos de escolaridade do que os de gerações mais velhas.

Uma possibilidade é que as empresas não tenham entendido a parte que lhes cabe nesse esforço coletivo de preparação de trabalhadores. Só aceita quem já está pronto. Empresa moderna educa, qualifica, especializa, oferece cursos, treina os que recruta. Se as máquinas têm manutenção, por que as pessoas não? Na época em que vivemos, os cérebros são o bem mais valioso de uma empresa. 

Confissões de derrota


Alexandre Schwartsman 
Folha de S. Paulo

Passou a hora de o BC explicitar o que quer fazer da inflação

De agosto de 2011, quando iniciou o ciclo de afrouxamento monetário, até julho de 2012, o Banco Central prometeu entregar a inflação na meta, garantindo que as medidas de política monetária foram tomadas com tal objetivo em mente.

Por exemplo, na ata do Copom referente à reunião realizada nos dias 10 e 11 de julho deste ano, o comitê afirmava que “as decisões futuras de política monetária serão tomadas (…) com vistas a assegurar a convergência tempestiva da inflação à trajetória de metas”.

Mais recentemente, porém, o comitê recuou de sua promessa original e passou a afirmar que “a inflação (…) tende a se deslocar na direção da trajetória de metas, ainda que de forma não linear”.

Não bastasse, pois, o Copom confessar-se incapaz de atingir a meta, deixa também de se comprometer com qualquer trajetória de convergência (o que, diabos, significa “não linear”?) e, mais grave, não sinaliza um horizonte de tempo no qual os agentes privados possam contar com uma inflação compatível com a determinada pelo CMN (Conselho Monetário Nacional).

De fato, as projeções de inflação para 2012, 2013 e 2014 (até o terceiro trimestre), conforme o Relatório de Inflação (RI) de setembro de 2012, mantêm-se acima de 4,5%.

O próprio Banco Central, portanto, não consegue precisar o tempo necessário para trazer a inflação de volta à meta, por mais que professe arraigada fé na “convergência não linear”.

Em meio a tamanha incerteza, não falta quem se pergunte qual seria a verdadeira meta de inflação. Falta, isso sim, qualquer pista mais sólida sobre o tema na comunicação usual do Copom, exceto que certamente não mais se trata do número oficial.

Há indicações em relatos da imprensa, segundo os quais o Banco Central tem argumentado que o IPCA registrou variação inferior a 5,2% em apenas 3 dos 13 anos de vigência do atual regime (em 2006, 2007 e 2009). Note-se que 5,2% é valor que o último RI projetava para a inflação em 2012.

Parece, portanto, que o comitê confessa mais uma derrota e se contenta com uma inflação em torno desse valor e talvez mesmo um pouco a mais, já que os mais recentes resultados sugerem uma elevação média de preços mais próxima a 5,5% neste ano, novamente surpreendendo as projeções oficiais.

É interessante comparar a atual posição do Copom, que persegue de forma (mal) disfarçada uma meta de inflação mais elevada do que a determinada pelo CMN, com a adotada em 2004, quando o BC declarou publicamente ter alongado o período de convergência.

Naquele momento foi anunciado um objetivo intermediário (5,1%) para 2005, assim como o compromisso de convergência no ano seguinte. A inflação então recuou em direção à meta, em que permaneceu até o fim de 2007.

Ao deixar claro o desvio da inflação, assim como sua estratégia para eliminá-lo, o Copom estabeleceu, para si próprio, limites na condução da política monetária e deu ao setor privado a oportunidade de avaliá-lo no processo. Ao fim dele a inflação esperada havia convergido para 4,5%, valor do qual não se afastou até o fim de 2010, revelando a vitória do BC na batalha das expectativas.

O BC explicitou, pois, à época suas dificuldades e os custos de convergência; hoje, em contraste, tais informações são escamoteadas sob um rótulo impreciso e nenhuma indicação de como (ou quando) a atual diretoria pensa em trazer a inflação de volta à meta.

Some-se a isso o reconhecimento encabulado sobre o não cumprimento da meta fiscal (sugerindo que as premissas usadas para prever a inflação são mais otimistas do que o Copom gostaria de admitir publicamente) e temos uma explicação clara para a perda de credibilidade do BC, expressa em expectativas inflacionárias persistentemente superiores à meta.

Já passamos da hora de o BC explicitar o que pretende fazer acerca da inflação, revelando qual o valor que de fato persegue e como pretende cumprir o mandato que lhe foi conferido.

Brasil não caga nem desocupa a moita


André Cunha

A novela do Projeto FX mina a credibilidade da política externa brasileira e já serviu ao populismo de Lula e seus correligionários. É hora de voltar ao preto-no-branco: quem quer fazer negócio?

Em 7 de Setembro de 2009, o então presidente francês Nicolas Sarkozy assistiu ao desfile da Independência com o então presidente Lula na Esplanada dos Ministérios. Depois, ambos confraternizaram em um churrasco na Granja Do Torto. Ao final da comilança, Lula, quem sabe motivado pela caipirinha, estava tão amigo de Sarkozy que prometeu comprar-lhe 36 aviões, na lata: "Sarkô, eu compro!" deve ter dito. Pra mostrar que o negócio era sério, os dois governos lançaram uma nota na qual confirmavam o negócio. Pena que era tudo bravata do Lula.

Seria apenas mais um lance patético na licitação mais rocambolesca dos últimos tempos, o famoso Projeto FX, que se arrasta desde 1998, quando o Brasil alardeou no meio da feira que tinha dinheiro e que estava procurando aviões bons e baratos. França, Suécia, Estados Unidos e Rússia logo fizeram suas propostas. Cabia ao Brasil analisar tudo e bater o martelo.

Infelizmente surgiram conflitos entre Exército e Governo, Itamaraty e Planalto, empresas foram desclassificadas, outras entraram no processo, a licitação foi cancelada, outra reaberta e novos lances foram feitos. No meio de tudo surgiu Lula, com um narcisismo "nunca antes visto na história desse país." Uma sensação de que "eu posso tudo", posso trazer a Copa e as Olimpíadas, chamar a crise internacional de "marolinha" e ouvir de Obama que sou "o presidente mais popular do mundo."

Pra um cara desses, dizer pra um chefe de Estado "eu compro seus aviões", ainda que à revelia do Exército, não deve ser muito difícil. Segundo o escritor João Ubaldo Ribeiro no livro "Política", publicado pela Nova Fronteira, "A política tem a ver com quem manda, por que manda, como manda. Afinal, mandar é decidir, é conseguir aquiescência, apoio ou até submissão." Nos seus anos de estrelato, Lula chegou a mais de 80% de aprovação. Reinava absoluto. Não precisa ser nenhum psicanalista pra saber que isso destrói o superego do sujeito, que fica se achando acima das leis do mundo.

E vejam quantas voltas dá o mundo. Depois de iludir os franceses, o Brasil tenta barganhar com os russos. Leio aqui no 247 que "Vazou entre a diplomacia internacional um item da agenda secreta que a presidente Dilma Rousseff terá com o presidente da Rússia, Vladmir Putin, em Moscou, para onde ela viaja no dia 14 de dezembro: a reabertura do diálogo formal para a compra dos poderosos caça Sukói, um dos aviões militares classificados no Projeto FX, de modernização da Força Aérea Brasileira."

Tomara que os russos tenham a fleuma dos franceses se Dilma assinar qualquer contrato e depois voltar atrás dizendo "foi culpa da vodka, juro." Só resta ao brasileiro médio sentir vergonha da política externa no caso FX, e se consolar pensando "as decisões na minha família, eu tomo de outro jeito." Ou seja, do jeito certo: com lisura e transparência, com respeito a quem está vendendo. Pagando o preço justo e exigindo todas as garantias. "Transferência de tecnologia" é a condição que impomos. A pergunta, portanto, não tem nenhum mistério: Quem quer fazer negócio?

"Aqui embaixo as leis são diferentes", já diziam naquele música. Afinal, Lula sofreu alguma consequência por ter assinado o seu contrato maroto? E em que planeta conspirar com o Putim traz credibilidade a nossa querida chefe do Executivo? A licitação, por sua própria definição, é uma concorrência aberta. Sem essa de "agenda secreta", Dona Dilma, ou o Wikileaks vai devassar os seus e-mails.

Política Desencantada


Maria Lucia Victor Barbosa (*)
Alerta Total 

A poucos dias do segundo turno da disputa pela Prefeitura de São Paulo, 19% dos eleitores dizem não ter candidato. O índice é o maior da história para o período e em se tratando da capital do Estado mais importante do país esse é um dado significativo a merecer atenção. O que estará ocorrendo para que 10% dos eleitores declarem que votarão em branco ou anularão seu voto sendo indecisos outros 9%? E note-se que tal ocorrência poderá aumentar no dia da eleição levando-se em conta as abstenções.

Alguns analistas atribuem o fenômeno á imaturidade dos eleitores, mas penso o contrário. O que está acontecendo é um desencanto com a política na medida em que candidatos apresentam propostas monotonamente parecidas, discursos ultrapassados, promessas não críveis.

Outros explicam que há um desgaste da polarização PSDB x PT. Mas nesse caso, por que o candidato Celso Russomanno (PRB) que liderou o primeiro turno não foi para o segundo? Aliás, partidos políticos não existem no sentido clássico de “homens que professam a mesma doutrina”, de agremiações dotadas de programas, coerência ideológica e estrutura nacional. 

O que temos são clubes de interesses com alguns donos cujo objetivo é alcançar o poder custe o que custar o que acaba provocando alianças inimagináveis de ex-inimigos que se tornam momentaneamente amigos de infância, de adversários ferrenhos que em determinadas circunstâncias se abraçam e beijam em palanques. E como essa geleia partidária tem aumentado a cada eleição o povo continua fazendo o que sempre fez: vota no candidato e não no partido.

Em São Paulo pesquisas indicam a vitória do candidato petista. Os institutos erraram feio no primeiro turno, mas caso isto se confirme Haddad vencerá menos por mérito próprio e mais pelos reiterados erros do PSDB que ao longo do tempo nunca soube ser oposição ao governo petista. Além do mais, na seara tucana houve desperdício dos melhores quadros, falta de coesão entre os membros e o apoio incondicional de Fernando Henrique Cardoso a Lula da Silva.

Note-se que caso os paulistanos escolham ex-ministro trapalhão irão reeditar administrações petistas como as de Erundina e Martha Suplicy, mesmo que não tenham ficado satisfeitos com tais gestões. Afinal, estas senhoras não lograram ser reeleitas. Mas isto não foi capitalizado pelo PSDB.

O amadorismo político dos tucanos contrasta com seus quadros muito superiores ao do PT em termos intelectuais e profissionais. Entretanto, o PT, que resvala para o primitivismo político é o único partido que se preparou ao longo do tempo para alcançar o poder e lá permanecer como organização fortemente estruturada, dotada de poder centralizado na figura populista de Lula da Silva, hierarquizada, disciplinada, impregnada da mística que nutre militantes que se comportam de forma sectária. O PT, mais que um partido é uma organização que lembra a estrutura da Igreja Católica ou das famílias mafiosas. 

Mesmo assim, o PT não é onipotente, não venceu em Belo Horizonte, no Rio de Janeiro, em Porto Alegre, em Recife. E ainda há indefinições no segundo turno em cidades e capitais onde o PT se empenha na vitória sempre em busca do seu projeto hegemônico continuado.

No panorama de desencantamento não o novo, mas algumas novidades afloram. É o caso dos pretendentes à eleição presidencial, o senador Aécio Neves e o governador Eduardo Campos, sendo que o partido deste, o PSB, foi o que mais cresceu em número de votos nas nove maiores regiões metropolitanas do país na comparação do primeiro turno deste ano com o de 2008: um avanço de 141%.

Contudo, o fato mais importante que se assistiu ao longo de quase três meses foi o julgamento do mensalão, que desmentiu Lula da Silva ao provar que existiu o maior crime de corrupção já perpetrado por um governo. E, em que pese a atuação dos ministros Lewandowski e Toffoli que mais pareciam advogados de defesa dos réus do PT, prevaleceu a linha da denúncia do procurador-geral da República, Roberto Gurgel, endossada brilhantemente pelo relator do processo, ministro Joaquim Barbosa, sendo que a maioria os ministros concluíram que houve uso de dinheiro público para pagar parlamentares, que houve empréstimos fraudulentos para abastecer esses pagamentos, que o dinheiro serviu para comprar apoio político e que tudo foi comandado por José Dirceu num esquema de quadrilha.

Se a guerra contra a corrupção continuará, uma batalha importantíssima foi pela primeira vez ganha no país da impunidade. Venceu a independência do Poder Judiciário, o Estado Democrático de Direito, o Brasil e o julgamento foi um alerta para bandidos de terno e gravata. Como disse o ministro Celso de Mello: “o mais importante é o alto poder pedagógico do processo, cuja essência não está na distinção entre técnica e política, mas em seu caráter moral”. “A peça fundamental em exame é a ética dos governos”. Seria bom que os políticos aprendessem a lição, afinal, a política está em desencanto.

(*) Maria Lucia Victor Barbosa é socióloga 

STF: Barbosa pergunta se Lewandowski advoga para Valério


Gabriel Castro e Laryssa Borges
Veja online

Sessão desta quarta-feira no STF teve discussões ásperas entre relator e revisor do processo do mensalão. Discussão sobre penas gerou embates

Ueslei Marcelino/Reuters
 Ministro Joaquim Barbosa, relator, 
durante o julgamento do mensalão, em 23/10/2012 

Os ministros Joaquim Barbosa e Ricardo Lewandowski voltaram a bater boca na 41ª sessão de julgamento do mensalão no Supremo Tribunal Federal (STF), nesta quarta-feira, durante a chamada fase da "dosimetria" das penas dos condenados. No limite, o relator da ação se excedeu e atacou: "Vossa excelência advoga para ele?", acusando Lewandowski de tentar amenizar a punição ao operador do mensalão, Marcos Valério de Souza.

Durante a discussão, Barbosa chegou a ser repreendido pelo presidente da corte, Carlos Ayres Britto: “Aqui não advogamos para ninguém!”

Barbosa, relator do processo, se queixava das penas baixas aplicadas a Valério por um dos crimes do qual o publicitário é acusado: o de pagar 336 mil reais a Henrique Pizzolato, então diretor de Marketing do Banco do Brasil, para ter sua empresa favorecida em um contrato com o banco. O relator defendia uma pena de quatro anos e oitos meses por esse crime. Mas prevaleceu a corrente defendida por Lewandowksi, que sugeriu três anos, um mês e dez dias. 

Derrotado pela maioria dos colegas, Barbosa se irritou: disse dar razão a uma reportagem recente do jornal The New York Times que classificou como “risível” a Justiça brasileira. “Tenho certeza, ele não cumprirá mais do que seis meses dessa pena", disse, em referência ao caso Pizzolato.

Ricardo Lewandowski argumentou que é preciso levar em conta as outras condenações de Valério, lembrou que o publicitário será condenado a mais de “duas décadas” de prisão e disse que o relator estava “sofismando”. Barbosa se irritou ainda mais com a contestação do colega: "Vossa excelência advoga para ele?", indagou. 

Lewandowski devolveu: “Vossa excelência faz parte da promotoria?". O relator ainda fez uma segunda provocação da Lewandowski:"Fiz apenas um comentário sobre um artigo e lá vem a defesa"

Insinuação - 
Essa não foi a primeira discussão desta quarta-feira entre Barbosa e Lewandowski. Mais cedo, ao discutir a aplicação da pena para o mesmo crime que geraria o outro bate-boca, eles se exaltaram quando o relator do processo criticou a punição leve imposta pelo revisor: “Eu não barateio crime de corrupção”, disse Barbosa, que ainda foi mais longe: “A tática do ministro Lewandowski é plantar neste momento o que ele quer colher daqui a pouco” – referência à definição das penas do núcleo político do mensalão, também condenado por corrupção ativa. Ricardo Lewandowski não respondeu.

A discussão ganhou corpo porque Joaquim Barbosa propôs, inicialmente, a aplicação da lei atual sobre corrupção ativa, que tem penas mais altas (de 2 a 12 anos). Mas os colegas entenderam que, por causa da data do crime ocorrido em 2003, deveria ser aplicada a legislação anterior (que estabelece de 1 a 8 anos de pena). Barbosa concordou em aplicar a lei antiga, mas preferiu manter o cálculo de 4 anos e 8 meses de cadeia para Valério. Por maioria, a corte optou pela proposta de Lewandowski.

Condições objetivas


Dora Kramer  
O Estado de S.Paulo

Observado o sagrado direito ao esperneio, há que se considerar a lógica na análise da anunciada reação que estaria sendo preparada por PT e adjacências contra as condenações de José Dirceu e José Genoino, logo após as eleições.

De um lado existe o desejo, justo na perspectiva de quem o manifesta, de buscar algum tipo de saída menos desonrosa para se confrontar com a dura possibilidade da condenação de dois símbolos do partido à prisão por corrupção e formação de quadrilha.

Nesse cenário o PT já nem seria mais igual aos outros partidos, mas o único a ter dirigentes na cadeia. Compreende-se, portanto, a aflição, pois não se trata de mera derrota eleitoral, mas da perda da liberdade e do nivelamento ao patamar de criminosos comuns.

É dolorido, embora decorrência inexorável dos atos julgados pelo Supremo Tribunal Federal.

De outro lado estão as condições objetivas para a eficácia dessas reações. Não parecem favoráveis. Nos últimos anos não foram poucas, não obstantes frustradas, as tentativas de transformar o mensalão em obra de ficção escrita pelos inimigos.

Se o PT não conseguiu "desmontar a farsa" antes nem durante o julgamento, muito menos agora terá capacidade de desmentir a palavra final da Justiça.

Não há manifesto que contradiga a fundamentação das sentenças, não há esforço de retórica que dê aos condenados o status de presos políticos, não há injúria que abale a credibilidade do Supremo. Não há ativismo que mobilize multidões em defesa dos presos, não há indignação capaz de obscurecer a indignidade cometida no uso partidário do patrimônio coletivo.

Não há, enfim, objetivamente o que fazer. E por isso acabará prevalecendo o discurso do "cumprimento democrático" da decisão. Apenas e tão somente porque não existe opção.

Antes tarde. O rigor do tratamento dado a Marcos Valério, seja pelo papel de protagonista na dita "organização criminosa", seja pelo volume das penas, ultrapassa em muito o esperado pelo empresário quando colaborou de maneira comedida com a Justiça na fase de instrução do processo.

Como ainda enfrenta várias ações em primeira instância, há quem veja interesse em colaborar mais ativamente de forma a se beneficiar do instituto da delação premiada. Recurso que, para ser concedido, precisa se mostrar comprovadamente eficaz.

Enquanto o cenário era de dúvida, Valério jogou com ameaças veladas. Agora a certeza do duro destino extingue as razões da dubiedade.

Crime e castigo. 
O publicitário Cristiano Paz, ex-sócio de Marcos Valério e condenado por peculato, corrupção ativa e lavagem de dinheiro, escreveu um longo depoimento para o jornal Correio Braziliense.

Perplexo com o desfecho do caso, diz algo importante para a compreensão desse tipo de episódio: "Sou um criador publicitário que não soube enxergar os riscos".

Quais riscos? Pelo que se depreende do relato, não percebeu o perigo de embarcar em operações financeiras nebulosas, de fazer crescer a agência de publicidade mediante aproximação com o partido do poder como "uma porta certa" para campanhas eleitorais, de não pesar nem medir consequências a despeito dos sinais de que havia algo de profundamente errado nas negociações de sua empresa com o PT.

E por que não enxergou os riscos? Porque a tradição de condescendência no trato de crimes contra a administração pública dispensava a análise prévia do custo-benefício.

Ao conferir tratamento mais igualitário a esse tipo de ilícito, o Supremo introduz o fator de equilíbrio entre perdas e ganhos na decisão da freguesia interessada em se locupletar naquele conhecido balcão.

Um enigma dentro de um mistério


Carlos Chagas
Tribuna da Imprensa

 Começando no geral para depois chegarmos ao particular, é preciso desfazer certos mitos e verdades absolutas que envolvem o Poder Judiciário. Repete-se com frequência a falsa máxima de que sentenças de juízes não se discutem, cumprem-se. Não é bem assim. Cumpri-las, tudo bem, mas deixar de discuti-las, jamais. Ou não existem tribunais para rever decisões de primeira instância? E tribunais superiores para passar tudo a limpo? O que são os recursos e até os embargos senão discussões sobre pronunciamentos anteriores?

Estabelecido que sentenças podem ser discutidas, vamos ao caso específico. No Supremo Tribunal Federal, quatro ministros manifestaram-se contra a denúncia de que os mensaleiros formaram uma quadrilha. Um direito deles, garantido não só pela Constituição, mas pelos mais elevados princípios do Direito. Foram derrotados por seis de seus pares, que aceitaram a acusação do Ministério Público e o voto do relator.

Mesmo assim, a discussão não se encerra. Como foi possível que Ricardo Lewandowski, Dias Toffoli, Rosa Weber e Carmem Lúcia deixassem de ver o óbvio, no caso, a formação de quadrilha? Com todo o respeito, e algum perigo, importa discordar de Suas Excelências. E com muito vigor, até com indignação.

Filigranas semânticas não subsistem por dez minutos diante da evidência de que José Dirceu e companhia compunham um bando destinado a garantir maioria parlamentar para o governo através da corrupção dos partidos, enxovalhando a Câmara dos Deputados pela compra de votos de seus integrantes, roubando os cofres públicos, burlando a lei e o fisco, desmoralizando o poder que exerciam, atentando contra a paz pública e quanta coisa a mais? Se isso não é formar uma quadrilha, o que mais será?

O ministro-revisor entrou no processo para desmontar a argumentação do ministro-relator. Não deixar Barbosa sobre Joaquim. Terá tido seus motivos, que importa não perscrutar, caso tenham sido pessoais. Politicamente, porém, transformou-se num advogado de defesa dos réus, com raríssimas exceções. Mais pareceu um privilegiado patrono do PT.

O coroinha nessa missa estranha, Dias Toffoli, teve mais escancaradas suas razões. Foi assessor jurídico do Partido dos Trabalhadores e serviu sob as ordens de José Dirceu, na Casa Civil. A gratidão terá atropelado seu vasto saber jurídico.

O que precisa ser discutido mais a fundo é a participação das ministras Rosa Weber e Carmem Lúcia, coerentes durante todas as fases do julgamento, menos na última. Condenaram muitos réus. Poderiam tê-los absolvido sem que se levantasse contra elas o menor reparo. Sequer o de terem sido indicadas pelo Lula e por Dilma. O diabo foi a questão da formação de quadrilha. Tivessem sido vitoriosas e os principais mensaleiros estariam livres da prisão em recinto fechado.Levaram em conta essa realidade? Votaram por piedade, em nome daquele sentimento tão feminino de evitar sofrimento aos seres humanos, mesmo para quem merece punição?

Fica em aberto um enigma dentro de um mistério, porque quadrilha, inequivocamente, foi formada pelos réus. Como decidiu a maioria do Supremo Tribunal Federal.

O ÚLTIMO ATO VAI VIRAR PRIMEIRO ATO
Domingo, conhecidos os resultados das eleições para prefeito nas cidades onde se realizará o segundo turno, encerra-se um ciclo político e começa outro. Numa espécie de simbiose, as disputas municipais vão virar nacionais. A sucessão presidencial ocupará o palco, ironicamente sem que a presidente Dilma, até hoje, tenha avançado uma só palavra sobre sua decisão de candidatar-se a um segundo mandato. “Nem precisa”, dirão todos. O Lula já repetiu mil vezes que a vez é dela.

Do outro lado, a derrota de José Serra consolida a candidatura de Aécio Neves no ninho dos tucanos, ainda que Geraldo Alkmin, Fernando Henrique e o próprio Serra possam atrapalhar um pouco.

Outros fatores poderão pesar nas duas armações em andamento. O PT confiará em Eduardo Campos para continuar na aliança oficial? Ou o governador de Pernambuco cederá à tentação de disputar em 2014 o cargo que a prudência recomendaria para 2018? Poderá o Partido Socialista bandear-se para o PSDB? A vice-presidência na chapa de Aécio seria uma aventura, um risco ou uma saída?

Quanto ao PMDB, parece tudo acertado para Michel Temer continuar na vice-presidência, se Dilma se reeleger. Parece, mas garantir, ninguém garante. Desde que lançou Orestes Quércia que o partido omitiu-se da obrigação de apresentar candidato próprio. Suas bases ressentem-se, mas só se animariam a levantar a hipótese caso o governo e o PT sofressem queda vertiginosa, o que não parece provável.

Julgamento de companheiros de Lula pode ser marco


Exame.com
Yana Marull, da AFP

O julgamento "transmite uma mensagem extremamente positiva de luta contra a corrupção", disse à AFP a professora de Direito da Fundação Getúlio Vargas, Tânia Rangel

©AFP/Archivo / evaristo sa
O ex-presidente do PT, José Genoíno: os brasileiros não estão
 acostumados com seus políticos na cadeia

Brasília - O maior julgamento do STF, que condenou por corrupção o círculo político do ex-presidente Lula, abriu um precedente que poderá desencadear uma primavera anticorrupção, em um país onde a impunidade é comum, indicaram analistas e juristas.

O julgamento "transmite uma mensagem extremamente positiva de luta contra a corrupção, porque a impressão que se tinha era de que para (se condenar) altos cargos políticos os tribunais exigiam provas quase impossíveis (de conseguir) e não havia condenação", disse à AFP a professora de Direito da Fundação Getúlio Vargas, Tânia Rangel.

O complicado julgamento, iniciado em 2 de agosto no Supremo Tribunal Federal, condenou 25 políticos, entre deputados e lideranças históricas do Partido dos Trabalhadores, além de empresários, pelo esquema ilegal de compra de apoio político de partidos aliados do governo no Parlamento.

O escândalo conhecido como "Mensalão" fez tremer em 2005 o governo de Lula e desmembrou o PT. Apesar de tudo, assim como Dilma Rousseff, o ex-presidente conseguiu se manter fora do caso e foi reeleito em 2006, deixando o poder em 2010 com uma popularidade recorde de mais de 80%.

O julgamento continua no STF com a decisão das sentenças dos 25 condenados, que devem ser rigorosas. A grande maioria será definida nas próximas semanas.

Os principais acusados são o ex-chefe de gabinete José Dirceu, braço direito de Lula desde que chegou ao poder em 2003 até o escândalo em 2005, e o presidente do PT na época, José Genoino.

Dirceu e Genoino, ambos ex-guerrilheiros que combateram a ditadura militar (1964-1985), foram fundamentais na criação do partido que chegou ao poder no Brasil agitando a bandeira da ética, mas acabaram cometendo as mesmas práticas tradicionais da política brasileira.


 José Dirceu, ex-ministro-chefe da Casa Civil: 
político deve permanecer pelo menos dois anos na cadeia antes de
 conseguir progredir para o regime semiaberto, caso estimativa se confirme

Os brasileiros não estão acostumados com seus políticos na cadeia. O STF, que tem a autoridade para julgar ministros, parlamentares e o presidente, condenou apenas seis políticos importantes desde a aprovação da Constituição de 1988, sendo que o primeiro deles foi em 2010 e nenhum foi parar na prisão.

Algumas coisas mudaram nos últimos anos: acaba de entrar em vigor a lei da Ficha Limpa, que partiu de uma iniciativa popular e que impede a eleição de políticos condenados pela justiça ou cujos mandatos foram revogados, e multiplicaram-se as iniciativas por uma transparência maior na administração pública.

Desde que assumiu o cargo em 2011, a presidente Dilma Rousseff, também do PT, destituiu sete ministros acusados de corrupção, o que foi interpretado como uma intolerância maior às práticas ilegais.

Mas as mudanças "são muito lentas", lamentou Cláudio Abramo, diretor da ONG Transparência Brasil, para quem o país precisa de mais regulação, fiscalização e atacar diretamente práticas institucionalizadas, como a da distribuição de cargos de confiança para aliados "em troca de apoio e para que não exista controle".

O julgamento na Suprema Corte criou um precedente jurídico: simplificou a condenação por corrupção, que anteriormente era quase impossível, ao estabelecer que, se for provado que um político recebeu benefícios indevidos, entende-se que houve suborno para que esses benefícios fossem retribuídos com outros favores, sem a necessidade de provar a existência de tais favores.

Para Abramo, este julgamento terá um impacto real se influenciar outras decisões, ou seja, se provocar uma "primavera de condenações na justiça".

"O julgamento é uma mensagem de efeito a médio e longo prazo, se os partidos políticos perceberem que a impunidade já não é uma certeza", disse à AFP o cientista político Everaldo Moraes.

O juiz do caso, Joaquim Barbosa, implacável nas condenações, tem cativado as redes sociais, onde é apresentado como um Batman na luta contra a corrupção. As máscaras com seu rosto já se tornaram um hit para o próximo carnaval.

Na prática política, o julgamento pareceu afetar muito pouco as eleições municipais de 7 de outubro, nas quais o PT cresceu 14% e permaneceu como terceira força política. Um segundo turno está previsto em 50 cidades para domingo, entre elas a maior do país, São Paulo, onde o candidato do partido à Prefeitura, Fernando Haddad, é o favorito das pesquisas de intenção de voto à frente do ex-governador do estado José Serra.

"É difícil e muito cedo para medir o impacto do julgamento nas eleições municipais ou presidencial de 2014 (quando o PT deve procurar levar Dilma Rousseff novamente à presidência), mas eu entendo que o PT, que governa há nove anos, pode crescer ainda mais e se tornar a primeira força", disse Moraes.

O STF vai julgar um outro caso muito parecido envolvendo o grande adversário do PT, o Partido da Social Democracia Brasileira (PSDB), no financiamento de uma campanha regional em 1998, que utilizou as mesmas instituições bancárias e empresas publicitárias que o "Mensalão".

“Oposição” ensaia pedir investigação sobre mágica evolução patrimonial da família Lula no pós-Mensalão


Jorge Serrão 
Alerta Total  

Animada com a surpreendente condenação do núcleo político do Mensalão, a até agora ineficiente e inexpressiva “oposição” ao PT no Congresso já ensaia promover uma devassa sobre a magnífica evolução do patrimônio de Luiz Inácio Lula da Silva e seus familiares. De olho no redesenho de forças para a campanha de 2014, adversários e inimigos de Lula ameaçam fazer agora aquilo que não fizeram antes, por conveniência ou erro de estratégia política, quando o escândalo foi denunciado no meio do primeiro mandato presidencial. Ontem, dentro do plenário do STF, se falava de tal assunto, com informes vindo da Câmara e do Senado.

As pré-condições para alvejar Lula foram escancaradas com o resultado final do julgamento da Ação Penal 470 no Supremo Tribunal Federal. Todo mundo sabe que José Dirceu de Oliveira e Silva se transformou no grande bode expiatório. Embora todos saibam que ele não era o único ou o maior chefe da quadrilha, ele pagará o pato junto com os companheiros José Genoíno e Delúbio Soares. Os três podem até pegar penas que os levem a uma pequena temporada na prisão ou a uma forçada prestação de serviços à comunidade. Dirceu, Genoíno e Delúbio pagarão para o chefão deles ser poupado? Eis a questão...

O Alerta Total já antecipou na edição de 10 de outubro. Sob a presidência de Joaquim Barbosa no STF, a partir de 18 de novembro, o mito Lula deverá enfrentar o rigor da Justiça – com o agravante de que agora não tem mais foro privilegiado para se blindar. Barbosa deverá retirar o estranho segredo de Justiça sobre o Processo Investigatório 2.474. Os 77 volumes em sigilo apuram as supostas irregularidades no convênio entre o Banco BMG e o Instituto Nacional do Seguro Social (INSS), com a participação da Empresa de Tecnologia e Informações da Previdência (Dataprev), para a “operacionalização de crédito consignado a beneficiários e pensionistas”. O caso contra Lula dormita “blindado”, desde 2007, no Supremo.

A petralhada pretende retaliar pesado. Exigirá que o STF tenha o mesmo rigor com o julgamento do chamado Mensalão Mineiro. Mas este contra-ataque pode se transformar em um Arakiri. Afinal, o escândalo não compromete apenas e diretamente o tucano Eduardo Azeredo e, indiretamente, o provável presidenciável Aécio Neves. Quem também dança, mais ainda, neste processo é Marcos Valério Fernandes de Souza. Já condenado a 40 anos, um mês e seis dias de prisão pelos crimes do atual Mensalão, será que Valério aceitará, passivamente, passar um mínimo de 6 anos e 8 meses preso em regime fechado, em silêncio obsequioso?

Valério é uma bomba que pode estourar no colo do PT, bem antes de ser também pego pelo Mensalão Mineiro. Se Valério sair do controle, sem dúvida, vai sobrar para o chefão Lula. Até agora, o que ele tem feito é ameaçar abrir o bico. Já mandou amigos lançarem a versão na revista Veja de que Lula seria o chefe maior do Mensalão. Toda semana, vão e vêm os boatos de que pode conceder alguma entrevista bombástica ou liberar o vídeo (produzido por um cineasta que contratou) para revelar o que ainda não foi dito claramente sobre o famoso escândalo de corrupção. Blefe ou não, Valério é um terror permanente para a petralhada. Só precisa rezar para não fazer companhia a Celso Daniel e outros cadáveres politicamente insepultos do nada Admirável Novo Mundo a Petralhagem... 

Voltando ao Boi numa fria, o resultado do segundo turno eleitoral pode radicalizar o processo de tentativa de implosão política e judiciál do mito Lula. Mesmo vencendo em São Paulo com o incomPTente Fernando Haddad – o que é possível em função do desgaste pessoal de José Serra -, Lula perde força para a guerra de 2014. Seu futuro dependerá, primeiro, do estado de saúde. Segundo, que a conjuntura econômica internacional desfavorável não atrapalhe o desempenho do governo Dilma. E, terceiro, que os novos processos do Mensalão, milagrosamente, não atinjam diretamente o chefe maior do PT.

Aliado tradicional, como PSB, ensaia voo solo com Eduardo Campos ou em parceria com os tucanos – dependendo da habilidade de Aécio Neves, que também sonha com o trono do Palácio do Planalto. A fidelidade do PMDB é pragmática e sempre pende para o lado que tenha mais certeza de vencer a eleição. Outro risco de traição para o PT é o sinal dado pelo PRB – ligado à Igreja Universal do Bispo Edir Macedo -, que pode lançar Celso Russomano como candidato a vice na reeleição de Geraldo Alckmin para o governo do Estado de São Paulo. 

O cenário começa a ficar esquisito e com sérios riscos de que as futuras disputas de poder saiam do controle e abram caminho para a sempre ameaçadora ruptura política – que pode descambar para uma ruptura institucional. Vendo que perderá o poder, o PT investirá na radicalização ideológica e investirá de forma covarde contra aqueles que considera inimigos maiores: os adversários políticos e a liberdade midiática. A confusão política lembra bem a famosa República de Weimar da Alemanha pré-nazista, quando os extremismos abriram espaço para a ascensão de Adolf Hitler. 

Os santos guerreiros de Lula lutarão para destruir tudo que lhes pareça dragões da maldade. O resultado final desta batalha fanática e suicida tende a ser nada bom para a Democracia no Brasil. A pergunta que se faz sempre que tal cenário se desenha tem respostas complexas e repletas de dúvidas. Será que os militares estão preparados para atuar como o poder moderador no conflito radical que parece inevitável? Ou quem poderia assumir tal papel é o Supremo Tribunal Federal agora revigorado como poder republicano perante a opinião pública e publicada?

O tempo (que pode ser curto) será o senhor de tão complicadas e complexas respostas político-institucionais.

Para o PT, manter criminosos condenados em seus quadros não tem nada demais.


Ricardo Setti
Veja online

A decisão combina perfeitamente com a ética (ou falta de...) do partido

(Foto: Eliana Andrade / Agência Globo) 
José Dirceu, segundo o Supremo chefe da quadrilha do mensalão: 
nada de expulsão, vai continuar no PT tranquilamente

Amigas e amigos do blog, vocês viram o que conta, hoje, o jovem e competente jornalista Gabriel Castro, do site de VEJA em Brasília?

O PT vai jogar no lixo seus estatutos, que prevêem expulsão de militantes na situação em que se encontram os mensaleiros condenados pelo Supremo Tribunal Federal — para que os “companheiros” continuem normalmente no partido.

E — aguardem, e verão – eles ainda serão eleitos para cargos importantes no partido.

Eu estava para escrever hoje mesmo um “Perguntar não ofende” indagando quando se daria a expulsão, prevista nos estatutos do partido, e nem tive tempo: os “companheiros” já resolveram praticar esse acinte aos militantes sérios do PT — sim, eles existem — e aos brasileiros em geral.

Até o suposto campeão de ética que seria o cantor amador e senador Eduardo Suplicy (SP) está perfeitamente confortável com a decisão, como vocês lerão no trecho da reportagem de Gabriel Castro, abaixo.

Mas não é de se estranhar, não é? Abraçar criminosos condenados, e abrigá-los, combina perfeitamente com a ética desse PT de hoje — até porque os principais figurões do partido, começando pelo ex-presidente Lula, o “deus” do lulalato, se insurgiram publicamente contra a decisão do Supremo Tribunal do nosso país, com a facilidade com que se discorda um pênalti marcado por um juiz de futebol.

Leiam, agora, trecho do que Gabriel Castro publicou no site de VEJA , sob o título

PT VAI RASGAR ESTATUTOS PARA PROTEGER MENSALEIROS

O PT vai ignorar o próprio estatuto para proteger os quatro integrantes do partido condenados pelo Supremo Tribunal Federal (STF) no processo do mensalão. José Dirceu, José Genoino, Delúbio Soares e João Paulo Cunha, considerados culpados pela Corte, enquadram-se no dispositivo do regimento petista que prevê pena de expulsão para quem sofre condenações judiciais.

Mas seguirão militando na legenda.

Os integrantes da executiva do partido não pretendem sequer debater o assunto: punir os condenados seria reconhecer que o esquema criminoso de compra de apoio político existiu, algo que os negacionistas do PT não admitem.

Mas o artigo 213 do estatuto da legenda é claro ao tratar dos casos em que a expulsão ocorrerá: quando houver “inobservância grave da ética” ou “improbidade no exercício de mandato parlamentar ou executivo, bem como no de órgão partidário ou função administrativa”.

Isso já bastaria para excluir do partido os mensaleiros, condenados por crimes como corrpução passiva e formação de quadrilha.

Mas um outro dispositivo do estatuto, logo abaixo, elimina qualquer dúvida: José Dirceu, José Genoino, Delúbio Soares e João Paulo Cunha precisam ser expulsos do PT. O texto estabelece que a remoção do partido se dará também quando ocorrer “condenação por crime infamante ou por práticas administrativas ilícitas, com sentença transitada em julgado”.

[A sentença do Supremo Tribunal ainda não transitou em julgado. Para isso, será necessário aguardar a publicação do acórdão -- equivalente à sentença de um juiz --, que se presume terá 6 mil páginas e sairá em abril de 2013 no Diário da Justiça. Aí, ainda cabem, em certos casos, um tipo de recurso chamado embargos infringentes, para as decisões do Supremo da qual divergiram, ao votar, pelo menos quatro ministros.]

A versão de Jefferson: quando, como e por que ele decidiu detonar o mensalão.


Tribuna da Imprensa

Circula na internet com sucesso esse texto sobre Roberto Jefferson, sem indicação precisa de autoria. É mencionado apenas que foi redigido “com informações do livro “Nervos de Aço”, em depoimento do ex-deputado a Luciano Trigo, da editora Topbooks.  O texto foi enviado ao Blog por Mário Assis.

*****

“Aí eu disse pro Dirceu…”

Quando saiu do banho, naquela manhã de 24 de maio de 2005, o deputado Roberto Jefferson, deu com o poderoso ministro da Casa Civil do governo Lula, José Dirceu, sentado em sua sala, acompanhado do líder do governo no Congresso, Aldo Rabelo.

– Bom dia, senhores – cumprimentou, frio.

Se tivesse sido consultado, não o teria deixado subir. No dia anterior, a empregada Elza lhe dissera que Dirceu e mais quatro ministros estavam na portaria com uma urgência, mas ele os mandara voltar da porta, porque tinha chegado ao limite. Mesmo com o presidente Lula, que havia ligado à noite para pedir-lhe que retirasse a assinatura do pedido de uma CPI para investigar a corrupção nos Correios, havia sido frio:

– Essa CPI vai ser muito ruim para o governo, muito ruim, muito ruim… – apelou o presidente, entre outras coisas.

– Eu sei. Mas, moralmente, não me resta outra saída, presidente.

Mas nesta manhã eles conseguiram entrar por uma traição do amigo José Múcio, que ligara antes do banho querendo uma conversa urgente e avisara aos dois que ele estava em casa. O porteiro e a empregada não tiveram peito para segurá-los na portaria. Sim, estava sozinho. Não tinha apoio de nenhum amigo nem dentro do seu partido, o PTB.

José Dirceu, que o vinha evitando nos últimos dias e tratando direto com os deputados de seu partido os interesses do governo, inclusive evitar a CPI, agora faria o que fosse preciso para que ele retirasse sua assinatura.

– Roberto, você não vai assinar essa CPI – foi direto ao assunto. – Você não vai fazer isso com a gente. Essa CPI é contra o governo, é para paralisar o governo. É pra atingir o presidente Lula e vai nos atingir.

Jefferson sentou-se para encará-lo de frente.

– Quanto a isso não tenho dúvida, Zé, porque eu sou a escada, sou ponte. O alvo é você, o alvo é o Delúbio, o alvo é o Silvinho Pereira – referiu-se ao tesoureiro e ao secretário do PT que vinham fazendo negócios em nome do governo sob orientação da Casa Civil. – A CPI vai atingir vocês. Mas não posso sair disso sem alma, não vou virar zumbi. Minha honra pessoal foi atingida.

O deputado se sentia no fundo do poço desde que a revista Veja divulgara, havia 10 dias, uma gravação em vídeo em que seu indicado nos Correios, Maurício Marinho, embolsava R$ 3 mil reais de propina e se gabava de suas relações com ele. A partir daí, toda a grande imprensa, principalmente a revista e O Globo, haviam desabado em cima de sua reputação e ele percebera que havia dedo da Abin e da Casa Civil de José Dirceu, em conluio com jornalistas, para jogar todas as mazelas do governo nas costas do PTB.

– Zé, não posso confiar mais em você, porque estou vendo sua assinatura, sua impressão digital nesse noticiário todo contra mim. É uma pancadaria, é um jogo montado pelo governo e tem a Abin no meio.
– Não diga isso, Roberto, eu jamais faria isso.

Por sorte, um dia depois da publicação bomba da revista, um anônimo deixou em sua porta uma cópia da gravação integral, de uma hora e 54 minutos, num envelope amarelo. Imaginou que fosse coisa de arapongas velhos da agência de inteligência do governo, a Abin, que ganhavam dinheiro de todos os lados em Brasília para montar dossiês. Possivelmente, os mesmos que gravaram poderiam ter enviado a sua cópia, interessado em negócios futuros. Ao vê-la e revê-la, convenceu-se de que, mais do que flagrar o funcionário, os arapongas pretendiam incriminá-lo. Faziam perguntas recorrentes sobre sua influência.

E  o repórter Policarpo Júnior, de Veja, como os arapongas, evitava ir além das denúncias na diretoria de Marinho e chegar à poderosa diretoria de Operações, controlada por Delúbio e Silvinho, onde de fato se davam os grandes negócios suspeitos da instituição.

“Ele está protegendo o PT”, pensou. Uma investigação oficial da Abin, patrocinada pelo governo, tinha sido paralisada também quando chegou perto dessa diretoria.

– Eu vejo a sua mão, Zé. É coisa sua. Você sacaneou o PTB por causa dos conflitos que se instalaram entre nós, pelo acordo não cumprido do repasse de campanha e pelas nomeações que foram cumpridas e não foram feitas. Vocês estão me sufocando porque falei ao Lula sobre o Mensalão e porque não querem que o Dimas Toledo saia de Furnas.

Em janeiro, ele dissera ao presidente, na presença de Dirceu e de seu correligionário Walfrido dos Mares Guia, que Delúbio Soares iria colocar uma dinamite na sua cadeira. Informou que eles estavam comprando deputados para fortalecer as bases do governo e que ele pessoalmente estava sendo massacrado porque não aceitara a oferta e orientara seus correligionários a fazer o mesmo.

Cobrou 16 dos 20 milhões que o partido devia ao PTB, por uma promessa de campanha, e insistiu que as negociações que lhe interessavam era a co-participação no governo, através de nomeações de cargos nas estatais, que a Casa Civil vinha postergando.

– Não, Roberto, você está enganado, eu não fiz isso, você está sendo injusto comigo. Não sou um homem capaz de fazer uma coisa dessas.

No caso do presidente de Furnas, Dimas Toledo, ele havia acertado sua substituição por um homem de seu partido, Francisco Spirandel, numa outra reunião com Lula, em abril. Só que Dirceu vinha atuando nos bastidores para inviabilizá-la.

– Isso não é papel de homem, Zé. Vocês jogam fora os companheiros de aliança como se fossem bagaço de laranja depois que já chuparam o caldo.

De fato, estava tudo acertado para a eleição de Spirandel, na assembleia de 16 de maio. Dimas Toledo tinha laços com vários partidos e fazia em Furnas uma caixinha de R$ 3 milhões mensais, cujo maior favorecido era o PT. Mas o presidente Lula andava possesso com ele, por causa de seus favorecimentos ao governador Aécio Neves. No meio da assembleia, porém, chegou uma ordem da ministra das Minas e Energia, Dilma Rousseff, para suspender tudo.

Nessa tarde, em meio à pressão da imprensa contra o seu partido e em favor de apurações nos Correios, ele decidiu colocar sua assinatura no pedido de CPI que José Dirceu agora quase se ajoelhava para tentar retirar.

– Vejo sua mão nessa porra toda, Zé. E agora você vai ter que consertar.

– Roberto, isso vai passar. Vamos acertar por cima, vamos passar a borracha e fazer um acordo.

Aldo Rabelo ficou quieto todo o tempo.

Então Dirceu informou que o governo já estava trabalhando para inocentá-lo das denúncias nos Correios, no inquérito na Polícia Federal. A substituição de Dimas por Spirandel ocorreria num momento mais oportuno, porque havia uma enorme pressão de políticos, entre os quais o presidente da Câmara, Severino Cavalcanti, para mantê-lo.

Na mesma manhã, Maurício Marinho estava sendo interrogado na PF. Por volta de 11h, no meio da conversa, a Polícia Federal já havia divulgado em seu site um boletim em que o diretor assumia integral responsabilidade pela negociação da propina e inocentava Roberto Jefferson, afirmando que, na gravação, só citara o deputado para se valorizar profissionalmente.

Como Marinho depunha desde as 10h num depoimento sigiloso que se arrastaria até a tarde, Jefferson entendeu que a divulgação do boletim menos de uma hora depois só poderia ter o objetivo de convencê-lo. Seu advogado o trouxera no meio da conversa com Dirceu. Posteriormente, ficaria sabendo que o delegado do caso saia frequentemente da sala para dar telefonemas e dar curso ao esquema já armado com o governo: na hora que Marinho o inocentasse, fariam a divulgação imediata para a imprensa, para dar um bom argumento a Dirceu na negociação pela retirada da assinatura.

– Bom, se é assim, não tenho problema em retirar a assinatura da CPI.

Rendeu-se, mas acrescentou um pedido.  Para a completa restauração de sua honra, pediu a Dirceu que interviesse junto à revista Veja e ao Globo , seus principais algozes e que, no seu entendimento, estavam aliados à Casa Civil.

– A Veja está fazendo um verdadeiro linchamento.

– Roberto, na Veja eu não tenho nenhuma influência, porque a revista é tucana.

– Mas e O Globo ?

– O Globo eu acerto por cima, dá para segurar.

– Então não tenho problema de recuar. Tiro a assinatura, mas você me dá uma saída honrosa. Estou sendo linchado nisso.

– Vou tentar, Roberto.

O deputado deu entrevista à imprensa e reuniu os companheiros de bancada pedindo o mesmo, embora inutilmente porque todos já resistiam a deixar o governo e nunca apoiaram a decisão de seu presidente de rejeitar o dinheiro do PT.

No dia seguinte, porém, a oposição conseguira as assinaturas necessárias à instalação da CPI dos Correios e o noticiário contra o deputado só recrudesceu.

Apesar de Dirceu ter prometido que dava para controlar O Globo, no fim de semana, o jornal e a revista Época, do mesmo grupo editorial, circularam com páginas pesadas de denúncias envolvendo o deputado, seus familiares e suas relações em outros órgãos de influência do PTB.

“A mídia está envenenada – pensou. – Eles têm que dar sangue para os chacais, e o sangue vai ser o meu”.

Como agora sua posição já não tinha importância, porque a CPI fora instalada e não passava de um peso morto para o governo, iriam jogar todas as denúncias no seu colo e no partido.

Na sexta-feira, 4 de junho, os jornais deram que o ministro da Justiça, Márcio Thomaz Bastos, faria na segunda-feira (6) um pronunciamento à Nação, em cadeia de rádio e TV, para tentar impedir a CPI na Comissão de Constituição e Justiça. Iria também desmontar o esquema de corrupção na Eletronorte, nos Correios e no Instituto de Resseguros do Brasil – exatamente as três estatais em que o PTB tinham cargos influentes.

“Estão evacuando o quarteirão para implodir a mim e o PTB”. E o pior, agora estava claro que o presidente Lula também estava no jogo para destruí-lo. “O majestático ministro da Justiça não faria isso sem autorização do chefe”. Já não engolira uma entrevista do presidente do PT, José Genoíno, no meio da crise, dizendo que o PT precisava escolher melhor os partidos da base. “Precisamos requalificar a base”.

Agora, via que o presidente também estava no jogo. Tentou em vão falar com José Dirceu, que estava se preparando para viajar à Espanha. Ligou para Walfrido dos Mares Guia:

– Estou tentando falar com o Dirceu e não consigo. O ministro vai atirar no PTB na segunda-feira e acabar com a gente.

Só então recebeu uma ligação de Dirceu, ainda no aeroporto.

– Dirceu, você não devia estar viajando agora. A hora é horrível para você viajar. O ministro vai colocar essa bomba no colo da gente. É pra acabar com o PTB.

– Calma.

– Estou calmo.

– Olha, nós temos que ver o lado do Silvinho e do Delúbio, Roberto. Vê lá o que você vai fazer.

Ora, pensou. “Então eu estou prestes a ser massacrado em praça pública e ele preocupado com o Silvinho e com o Delúbio…”.

– Olha, Dirceu. Eu quero que o Silvinho e o Delúbio se danem. Na volta da sua viagem à Espanha, você terá uma surpresa. Vai com Deus, porque quando você voltar a notícia vai ser outra.

No sábado, suas assessoras ainda tentaram demovê-lo pela última vez: – Calma. Espera.

Mas estava decidido: – Não vou esperar mais nada, vou botar pra fora essa história do Mensalão.

Vou explodir, vou arrebentar com tudo. Eu avisei a eles e avisei ao país que ia explodir tudo. Não posso ficar no colo com um crime que não pratiquei.

– Você pode ser cassado.

– Não importa mais. Mais importante que o mandato é a minha honra pessoal.

Discutiram em seguida a qual dos três grandes jornais faria a denúncia, para ser publicada na mesma segunda-feira do pronunciamento do ministro da Justiça. Descartaram O Globo , porque, argumentou, estaria se comportando como Diário Oficial. O Estado de São Paulo, embora isento, também estava embarcando na onda contra ele. Restava a Folha de S. Paulo , que, na sua opinião, vinha tratando a crise com mais cautela, sem embarcar na versão do governo.

A assessora Íris Campos entrou em contato com Renata Lo Prete, editora do Painel, de notas de bastidores da política em Brasília. E, no domingo à tarde, enquanto Márcio Thomaz Bastos preparava seu pronunciamento e José Dirceu caminhava pela Espanha, possivelmente pensando em Sílvio Pereira e Delúbio Soares, o deputado Roberto Jefferson contava à repórter do jornal de maior circulação do país que o PT carregava malas de dinheiro para ampliar a base aliada, comprando deputados de pequenos partidos, porque não queria dividir o poder nos ministérios.

Na segunda-feira, 6 de junho, no mesmo dia do pronunciamento do ministro da Justiça à Nação, a Folha circulou com a manchete:

“PT pagava mesada de R$ 30 mil a partidos, diz Jefferson”

A república petista começava a desmoronar.