quinta-feira, junho 20, 2013

Baixaram as tarifas, e agora?

Adelson Elias Vasconcellos

Foi com enorme satisfação que assisti as transmissões das manifestações de segunda feira, quando mais de 200 mil pessoas, em todo o Brasil, saíram às ruas para mostrar seu inconformismo com este Brasil que ninguém quer (ao não os políticos e os amigos do reino). 

Várias observações importantes se pode fazer sobre as passeatas e protestos, com conclusões que nos dão o que pensar.  Primeiro, ficou claro que, mesmo uma ideia estúpida como o tal passe livre, é capaz de provocar uma indignação em escala inimaginável há um mês atrás, por exemplo.  Ao se rebelarem contra os aumentos das tarifas do transporte público, despertaram em toda a sociedade (ou quase toda, falo disso mais adiante), um sentimento de revolta que parecia que nunca aconteceria, não ao menos no Brasil. Não que não houvesse inconformismo. Porém, aquela coisa nos incomodava por dentro, meio nebulosa, sem sabermos distinguir do que se tratava.   Não é por outra razão que muitos dos que se somaram às multidões , traziam em seus cartazes, não o pedido de redução das tarifas, mas bradavam por mais educação, saúde, segurança, e menos impunidade e corrupção. E de sobremesa, outros se rebelavam contra os gastos com as Copas das Confederações e do Mundo, a PEC 37. Faltou mais cartazes pedindo cadeia para os mensaleiros julgados e já condenados pela Justiça.

A primeira consequência no meio político, além do estratégico recuo dos prefeitos,  reduzindo estas tarifas, é o medo e terror que se abaterá sobre algumas cabeças coroadas da nossa república. O povo mostrou sua cara, sua força, sua indignação e a que ponto de revolta ela pode chegar se a política brasileira insistir em trilhar os mesmos caminhos com que vem sendo conduzida de alguns anos para cá. Disse antes e repito agora: o que lamento é que estas gigantescas manifestações tenham ocorrido num tempo ainda distante das eleições de 2014. 

Faltando ainda mais de um ano, isto dá tempo para que se ergam puxadinhos, arremedos e paliativos capazes de maquiar a inação dos nossos governantes.  Vocês não imaginam a imensa capacidade que esta gentalha tem quando se trata de defender sua sobrevivência nas tetas do tesouro!

Até outubro do ano que vem, poderemos esperar um rearranjo do mundo político, na edição de pacotes e pacotinhos, com o propósito de passar mel nos beiços do povão para parecer que eles estão atuantes, que estão ouvindo e dando atenção as vozes que vem das ruas.  Até seus discursos palanqueiros, não menos hipócritas, cínicos e demagógicos, ganharão novos apelos e argumentos. Teremos pela frente,  principalmente quando se abrir a campanha eleitoral de 2014, um festival de sandices, mistificações e promessas ridículas (e por isso inviáveis), que, se bem analisadas, parecerá concurso público para ingresso no circo estatal...

Por isso me preocupa muito o “depois” que se seguirá à redução das tarifas, apelo número um destas manifestações. Esta redução, é claro, não terá o dom de apagar ou desfazer a insatisfação nacional com  o Brasil que se tem. Se esta bandeira por mudanças puder ser mantida, pode ser que a campanha eleitoral que virá, ganhe novos contornos e coloridos. Porém, se ela murchar, é bem capaz de vermos reeleitos as mesmas ratazanas que atazanam e atrasam o desenvolvimento do país.  Daí porque sugiro a seguinte campanha: não reeleger ninguém em 2014.. 

Para mudar é preciso dizer  o Brasil que queremos. Isto exige um projeto de país. Pois bem: quem hoje tem este discurso, esta proposta e a estratégia adequada para dar direção ao clamor popular? Nem o PT fez questão de ter, mesmo estando no poder há mais de dez anos, tampouco a oposição se encarregou de construir tal plataforma, ocupada demais em se autodestruir.  O PT, por razões óbvias, tratou de se unir ao que há de mais retrógrado, para se manter onde chegou com discursos e propostas completamente contrárias aos discursos e propostas que apresentou para se eleger. Como este “novo Brasil” que está no coração dos brasileiros exige mudanças que são verdadeiros tabus para os petistas, não será ele quem dará o primeiro passo. Toda e qualquer mudança estrutural, por óbvio, sempre agradará a uns e irá contrariar outros tantos. E o PT não irá apostar  colocar seu capital político em jogo para agradar o Brasil. Compactuará com mudanças até o ponto limite em que este capital político for colocado em risco. 

A oposição, se pensasse mais no país do que em futricar correligionários, até que tem estofo para encarar o risco. Aliás, fez  isso  a partir do Plano Real, e até hoje paga um alto preço político pela ousadia de enfrentar os interesses contrariados dos oligarcas. 

Como o PT, esperta e maquiavelicamente roubou  para si a paternidade da obra que ele próprio combateu, e isto emprestou ao partido a popularidade de que desfruta, os líderes da oposição em sua maioria, se borram de medo de enfrentar os petistas. É bom registrar que o PT tem a seu favor toda uma máquina estatal e sindical bem azeitada, e não se furtará em momento algum de empregá-la até de modo desonesto, para se dizer o mínimo, com o objetivo de desqualificar a quem lhe opor dificuldades. 

Fossem as eleições em outubro próximo,  talvez pudéssemos sonhar mais, esperar mais, confiar mais. Não haveria tempo para repor a confiança perdida. E esta insatisfação nacional serviria como rolo compressor para afastar da vida pública o monte de porcaria que ali se alojou.

Por isso, é com enorme expectativa  que devemos observar a movimentação dos ventos dos próximos meses, não importando o lado do balcão em que estivermos posicionados.  Analisar, com extremo cuidado e critério, o recado que sairá das próximas pesquisas de opinião.  Mas elas não podem servir como único canal de informação. Ouvir com cuidado o que se está dizendo nas ruas e nas redes sociais. Este gigante que acabou de despertar, ainda não está totalmente de pé. Assim como ele pode voltar a adormecer, ele pode erguer-se de seu sono esplêndido e  mover-se. E este é o movimento que todos nós pretendemos: que o gigante se mova.

Porém, para todos aqueles que  não reduzem seu inconformismo ao preço do transporte, mas que trazem em suas agendas outras demandas, é bom manter distância de movimentos que, sob o signo da promessa vazia mas embaladas na pura demagogia, tentarão capturar   simpatias e apoio, para tudo ficar como está  e sendo tocado pelos mesmos patifes que já estão lá. Se é para mudar, mudemos os atores sob o compromisso dos novos cumprirem outros papéis. Não será pela campanha do voto nulo que atingiremos o objetivo. Há um exército imenso de beneficiários cujo voto, voz e consciência foi comprado, cooptado, coagido e silenciado e que se manterão fiéis aos seus donos e gigolôs. Talvez por conta das bolsas que os sustentam, a gente quase não percebeu a presença de gente pobre e necessitada nas passeatas. Não que não existem pobres insatisfeitos. Mas é preciso deixar claro quem é que trabalha, estuda e sustenta esta zorra toda: é a verdadeira classe média, sem bolsa nem favores privilegiados, e que não vive de cotas, e sim de trabalho. Portanto, o “muda Brasil” exige atores novos, projetos novos, estratégias novas. E não será anulando o voto que o Brasil mudará.

Entendo que, todo o esforço empreendido para mostrar ao mundo nosso inconformismo, não pode resumir-se e contentar-se com o troco de vinte centavos que eles nos deram. Creio que a nossa honra valha muita mais do que isso.

Transporte público, um sistema que precisa ser debatido

Adelson Elias Vasconcellos

Do jeito que a coisa toda se desenrolou, seria necessário que as prefeituras de todos o país reduzissem as tarifas de transporte coletivo, pelo menos para por ordem  na casa. O Brasil parou e o que é pior: as manifestações que se diziam pacíficas, caminhavam para um radicalismo cujas consequências não beneficiariam ninguém.

Porém, de alguma forma, estas mesmas prefeituras resolvam agora abrir um debate  envolvendo a própria sociedade, nele juntando-se representantes dos governos estaduais e federal , para discutirem um novo modelo de transporte público que pudesse atender  ao clamor dos usuários por melhor qualidade (pior do que está não fica),  tarifa baixa que pudesse repor os custos (que são altos),   mas sem que nem os subsídios atuais (para manter as tarifas baixas) e os futuros, afetassem os investimentos em outras áreas das administrações.

Ao longo do tempo, a partir da Constituição de 1988, prefeituras e governos estaduais passaram a ter maiores responsabilidades como educação, saúde, segurança, antes encargos da União, sem que os recursos fossem transferidos na mesma proporção para bancar estas transferências. Hoje, grande parte das administrações municipais encontra-se, literalmente, quebradas. Não tem de onde tirar recursos para novos e indispensáveis investimentos. Tanto é assim que, ao longo do tempo, muitas transferiram para a iniciativa privada parte dos serviços essenciais como água, esgoto, transporte público, por absoluta incapacidade de gerir tais serviços. E aqui a gente logo vê o primeiro grande erro destas concessões. O fato das prefeituras transferirem tais serviços à iniciativa privada não lhes tira a obrigação de fiscalizar que estes serviços sejam realizados com qualidade superior .  Isto é elementar. Porém, não o fazem e o resultado de sua omissão resulta em serviços precários que, por sua vez, geram imensa insatisfação popular. 

Portanto, não é na transferência do serviço que prefeituras erram. Erram quando deixam de cumprir sua obrigação de fiscalizar, cobrando qualidade, investimentos e melhorias. 

Mas volto ao ponto inicial. O debate se faz necessário porque não se pode ignorar que o transporte público, por pior que seja, gera custos. Combustível, salários e encargos previdenciários precisam ser pagos. Manter uma frota não é barato. Além disto, algumas prefeituras (pena que sejam muito poucas), exigem das concessionárias renovação da frota em circulação a cada período de tempo. Um ônibus barato não é. Ora, se o desejo central de todos é que o serviço seja melhor, não se pode comprometer a saúde financeira das concessionárias privadas ao ponto de levá-las à falência. Isto já aconteceu e ainda acontece. 

A ideia do tal “passe livre” não apenas é estúpida, mas inviável economicamente. É estúpida também porque sua implementação  obrigaria as prefeituras, ao menos,  adotarem uma de duas medidas: ou corta investimentos em áreas também essenciais para subsidiar o custo que o serviço gera, ou aumenta impostos como IPTU, por exemplo, gerando ainda mais revolta, dado a carga tributária final no Brasil já ser escorchante demais. 

Além disto, e para atender o clamor popular que exige mudanças e melhoria da qualidade do serviços,  são necessários mais investimentos em aumento e renovação da frota, além da contratação de novos trabalhadores. Quem paga a conta, o poder público municipal, já com suas finanças estranguladas e corroídas? 

Claro que, se sairmos Brasil afora fazendo uma auditagem séria nas prefeituras dos mais de 5 mil municípios (e ainda querem aumentar mais), encontraremos muita gordura para queimar. Grande número deles gasta quase a totalidade de suas receitas em folha de pessoal. Em alguns casos, é até compreensível, dada a miserabilidade destas cidades que não encontram, além da própria prefeitura, outro meio de trabalho.

Mas há aquelas que empregam, sem necessidade, quase que a família inteira do prefeito, vereadores e afins, sem falar dos salários de vereadores e seus assessores inúteis. Porém, nem aí o corte de gastos seria suficiente para manter um serviço de transporte com qualidade mínima sendo inteiramente bancado pelo poder público.

Vejam que o problema que, aos olhos da turma do “passe livre” parece simples, de simples ele não tem nada.  E, por mais que se busquem soluções, e todas elas seriam apenas paliativas, a viabilidade do sistema só se concretiza com a tarifa sendo bancada pelo usuário. Porém, as exigências de melhorias na qualidade e até  nas condições físicas das frotas que irão circular, exigem investimentos altos e fiscalização permanente, coisa que no Brasil sabemos ser o forte do Poder Público, em seus diferentes níveis, com imensas dificuldades em cumprir por absoluta falta de interesse. 

Por outro lado, se as atuais concessionárias não puderem manter os custos e ainda tiverem que bancar os investimentos necessários à melhoria da qualidade, o que vai acontecer é que os empresários buscarão outra atividade para atuarem. Ninguém está aqui para praticar caridade para o Estado que já cobra um preço alto demais em impostos da sociedade, e o retorno é bastante desprezível . 

E, se os empresários entregarem às Prefeituras suas concessões, a qualidade que hoje já é ruim ou ficará ainda pior, ou ou as prefeituras abandonarão outros serviços essenciais para cobrirem os custos que o transporte público acarretará.

Portanto, não serão soluções fáceis que trarão sanidade para o sistema de transporte. É preciso um debate amplo e aberto com a sociedade para que esta perceba as implicações de cada alternativa que vier a ser proposta. 

E talvez este debate possa abrir outras portas e janelas para discussão. O fato é que o tamanho do Estado brasileiro está ficando insuportável de ser mantido pela sociedade a quem ele deveria servir. E várias vezes já comentamos que estamos cometendo os mesmos erros que levaram ao estrangulamento econômico de paires europeus como Espanha, Portugal, Itália, Grécia, Irlanda, Chipre.  Na medida do tempo, é insustentável não só o tamanho mas, principalmente, o custo total  que este masstodonte gigantesco provoca. 

Atualmente, já se vê os primeiros indícios desta insustentabilidade, com a gradual redução dos investimentos públicos, o crescente endividamento cujo serviço – juros apenas – já consome hoje perto de 50% da arrecadação federal. Assim, a fórmula adotada pelos governos petistas de 2003 para cá,  é totalmente inviável. Para ser mantida sem estrangular a capacidade do Estado de se manter e ainda investir minimamente no essencial, ou ele se endivida mais e mais a exemplo do que fizeram os europeus em crise, ou ele aumentará a carga tributária de tal forma que acabará por provocar revoltas cada vez mais crescentes. Porque de uma coisa sabemos todos: nenhuma elevação de imposto é capaz de garantir qualidade nos serviços públicos essenciais. Daí porque a discussão chegará ao ponto extremo: a necessidade de se ter não um Estado mínimo mas um Estado necessário e sustentável, capaz de garantir bem estar social sem afetar a saúde financeira das pessoas e empresas. Não se justificam os altos salários e privilégios bancados pelo Poder Público federal em qualquer escalão, num país em que a renda média ainda é muito baixa, a distribuição de renda é tão desigual  e as carências são tão vergonhosamente elevadas. 

O transporte público talvez tenha o dom de abrir um debate sério sobre esta questão: que Estado é preciso suportar para que tenhamos serviços essenciais universais e de boa  qualidade. Não se trata, portanto,  de um tema revestido de ideologia, mas sim de racionalidade. Creio que ninguém, de sã consciência e propósitos honestos, seria capaz de recusar-se em pagar R$ 3,20 pela tarifa do ônibus, se o serviço oferecesse conforto, segurança, rapidez. Porém,  sendo o lixo que é, fruto das distorções do sistema com que é mantido conjugado com a injustificável negligência do poder público, qualquer valor é caro demais para o que se oferece. 

Protesto

Demétrio Magnoli
O Globo

Do lado de fora da ampla coalizão governista, os partidos de oposição remanescentes abdicaram da crítica e do debate

E do caos fez-se o protesto. No início, manifestações pequenas degeneraram, previsivelmente, em violência e depredação. Truculências policiais, uma vaia avassaladora contra Dilma Rousseff e manifestações com outra pauta, sobre os gastos públicos na farra da Copa do Mundo, pontuaram o estágio intermediário. Enfim, protestos multitudinários tomaram as ruas de São Paulo, do Rio de Janeiro, de Belo Horizonte e de Brasília. A sequência desafia a lógica convencional e escapa às ferramentas de tradução dos políticos, mas lança alguma luz sobre uma crise larvar que, agora, emergiu. Bem na hora em que o Palácio do Planalto preparava-se para tocar novamente uma velha canção da Copa do Mundo de 1970, o céu desabou.

Nada houve de espontâneo na etapa inicial. Os movimentos pelo “passe livre” são constituídos por autointitulados “anarquistas”, seitas esquerdistas e jovens indignados que se movem à margem dos aparelhos da esquerda oficial (PT, PCdoB, sindicatos, UNE). Nas franjas dos movimentos, circulam bandos de punks à caça de oportunidades para confrontos com a polícia. O “passe livre”, uma utopia socialmente reacionária, funcionava como pretexto para quimeras diversas: a “superação do capitalismo”, a “revolução proletária”, a “guerra urbana”. As vergonhosas distorções de nossos sistemas de transporte coletivo — avessos à transparência, hostis aos usuários, pontilhados de privilégios, curvados pela associação oculta entre empresas de ônibus e políticos — não interessam realmente aos grupos radicalizados que protagonizaram as primeiras manifestações.

Há sintomas de uma notável regressão política. As passeatas estudantis de 1977 contra a ditadura militar tinham linha de frente e cordões de segurança, elementos ausentes nos protestos em curso. A desordem prestou-se à ação de incendiários e depredadores. Governantes e chefes de polícia despreparados multiplicaram o caos, produzindo cenas chocantes de violência contra manifestantes pacíficos. Mas a escala faz a diferença: quando dezenas de milhares foram às ruas, os encapuzados viram-se reduzidos à insignificância e, quase sempre, à impotência.

“Não é por centavos, é por direitos”, esclarecia uma faixa no Rio de Janeiro. “Brasil, vamos acordar, o professor vale mais que o Neymar”, cantou-se em São Paulo. Na segunda-feira, o “passe livre” já era só um pretexto coletivo para manifestações que exigiam o reconhecimento de um “direito ao protesto” e exprimiam uma frustração “difusa” e “crescente” — duas palavras usadas pelo ministro Gilberto Carvalho, a sombra onipresente de Lula no governo de Dilma. As marcas da juventude e de uma diversificada classe média, inclusive das periferias, estavam impressas nos protestos de massa. “Não é a Turquia, não é a Grécia — é o Brasil que saindo da inércia”, gritaram em São Paulo. Só se grita isso porque, de algum modo não óbvio, é “a Grécia” e “a Turquia”.

A escala faz a diferença. As quimeras das seitas esquerdistas tornaram-se inaudíveis nos protestos de multidões. No lugar delas, desenhavam-se os contornos de uma agenda implícita, ainda não cozida no fogo da linguagem política. As pessoas estão fartas do governo e da oposição, da corrupção e da impunidade, da arrogância e do cinismo, da soberba e do descaso. O estádio superfaturado, o ônibus superlotado, a escola arruinada, a inflação, a criminalidade, o Dirceu e o Eike — é sobre isso que falam os manifestantes, ecoando palavras de milhões ainda inseguros quanto à conveniência de protestar nas ruas. O inimigo, que ninguém se engane, é toda a elite política reorganizada durante a década de balofa euforia do lulopetismo. Um preocupado Gilberto Carvalho alertou contra a tentação de “tirar proveito político, de um lado ou de outro” dos eventos da segunda-feira. Mestre no ofício de “tirar proveito político”, ele já percebeu que um ciclo se fechou.

A política é, entre outras coisas, a arte de ordenar e hierarquizar as inquietações populares. No declínio da ditadura, estudantes e sindicalistas usaram as expressões “anistia”, “liberdades democráticas”, “direito de greve”. Na hora da dissolução do regime militar, as oposições se reuniram em torno do estandarte das eleições diretas. A bandeira do impeachment, erguida pelos partidos e movimentos sociais, encerrou a saga desastrosa do governo Fernando Collor. Diante da hiperinflação, os tucanos ofereceram um programa de estabilização, reformas e privatizações. Na conjuntura de crises externas que erodiam os salários e as aposentadorias, o PT prometeu distribuir a renda e exterminar a pobreza. Hoje, porém, a “difusa” e “crescente” inquietação não encontra traduções políticas nítidas.

A desmoralização da ágora — eis a pior herança do lulopetismo. O governo Lula cooptou os movimentos sociais, convertendo-os em marionetes de suas ambições eleitorais, e reforçou os grilhões que prendem o movimento sindical ao poder de Estado. No governo Dilma, completou-se a construção de uma esmagadora maioria parlamentar alicerçada sobre a distribuição de sesmarias na administração direta e nas empresas estatais. Do lado de fora da ampla coalizão governista, destituídos de princípios ou convicções, os partidos de oposição remanescentes abdicaram da crítica e do debate, aguardando que um milagre transfira o poder para suas mãos. A política parlamentar democrática feneceu, exaurindo-se de sentido. As manifestações provavelmente teriam começado antes, não fossem as esperanças depositadas no julgamento do mensalão.

Nesse cenário, os protestos descrevem trajetórias pré-políticas e os manifestantes apalpam terreno desconhecido, em busca de uma linguagem e de uma agenda. A anomia não perdurará eternamente — mas, por enquanto, gera muito calor e pouca luz. De qualquer modo, uma festa terminou antes mesmo de começar: desconfio que Prá frente Brasil não será ouvida na Copa do Mundo de 2014.

Dilma tenta salvar credibilidade - pelo menos no discurso: "Está tudo sob controle"

Veja online

Cenário é de preocupação: com arrecadação em queda e gastos públicos elevados, governo tem anunciado mais manobras fiscais para tentar garantir cumprimento da meta

(Ueslei Marcelino/Reuters) 
Às vésperas do ano eleitoral, 
Dilma enfrenta mais uma dor de cabeça: a política fiscal 

Em um momento em que a inflação e o cenário econômico como um todo afetam sua popularidade, a presidente Dilma Rousseff disse nesta quarta-feira que a situação real vivida pelo Brasil é de inflação e contas públicas "sob controle". "É muito importante que o Brasil tenha uma visão do seu futuro condizente com a situação real que vive. E a situação real que o Brasil vive é inflação sob controle, contas públicas sob controle", disse. "Isso significa que quando nós olhamos no entorno a relação do Brasil com vários componentes que caracterizam os indicadores macroeconômicos, é muito saudável", declarou a presidente durante anúncio de linha de crédito para os beneficiários do programa Minha Casa, Minha Vida. 

A declaração de Dilma chega em um momento em que o Brasil passa por uma preocupante crise de credibilidade - desta vez, em relação à política fiscal. Os ânimos em Brasília estão exaltados e há uma ofensiva sendo preparada para combater a deterioração da imagem do país.   Segundo o jornal Valor Econômico, a presidente Dilma Rousseff deve anunciar medidas para fortalecer as contas públicas até sexta-feira desta semana. "O anúncio deve ser feito pela própria presidente, para mostrar o compromisso com a austeridade fiscal", aponta o jornal. O ministro da Fazenda esteve reunido com Dilma na tarde de terça-feira em Brasília, mas nenhuma medida foi anunciada após o encontro, apesar o mercado esperar o anúncio de mais reduções do imposto sobre operações financeiras (IOF).  

Em entrevista do jornal Folha de S. Paulo na edição desta quarta, Mantega tentou apaziguar os ânimos e disse que o governo vai conter gastos. Segundo ele, o superávit primário deste ano será de 2,3% do Produto Interno Bruto (PIB). "Podem cravar a informação. Isso é uma meta firme do governo", afirmou o ministro. Mas, diante da incapacidade do governo em cumprir metas (seja de inflação, crescimento ou superávit), o mercado espera um resultado fiscal da ordem de 1,8% do PIB.   

O ministro disse ainda que, se a meta fiscal for ameaçada, o governo deverá cortar gastos. Sobre a inflação, Mantega também mudou o discurso. Não culpou a crise internacional e disse que não serão poupadas medidas para mantê-la sob controle.  

Contudo, não é tarefa fácil convencer o mercado de que há seriedade fiscal quando, ao mesmo tempo, o Ministério da Fazenda lança mão de mais uma manobra para engordar as contas do governo, com o objetivo de ajudar no cumprimento da meta fiscal - a chamada "contabilidade criativa". Na terça-feira, o ministro da Fazenda, Guido Mantega, autorizou a venda de 1,455 bilhão de reais de créditos da usina Itaipu Nacional, que pertencem à União. A decisão veio logo em depois de o governo aprovar um novo empréstimo de 15 bilhões de reais do Tesouro ao Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES).  Essa operação foi permitida pela Medida Provisória nº 600, editada no final do ano passado.  

Essa é a segunda operação desse tipo que a União faz com o banco. No final do ano passado, o BNDES comprou 4 bilhões de reais de créditos de Itaipu e pagou com ações. A operação serviu para o governo fechar as contas e conseguir cumprir a meta de superávit primário de 2012. A venda entra como receita para o caixa da União.  

As contas públicas mostram franca deterioração da política fiscal. No primeiro quadrimestre, o superávit primário - diferença entre a arrecadação de impostos e os gastos do governo, antes do pagamento das dívidas - teve o pior resultado desde 2010, somando 41,058 bilhões de reais. As desonerações que o governo vem fazendo para tentar impulsionar a economia implicam em uma renúncia fiscal que compromete a arrecadação de impostos e, consequentemente, o resultado fiscal. 

Broncas sem saída

Carlos Alberto Sardenberg
O Globo

As demandas são infinitas, mas a principal política é exatamente escolher as prioridades, decidir onde e com quem vai gastar o dinheiro público

A gerente de uma pequena farmácia do bairro de Pinheiros, em São Paulo, me conta, animada, que fechara a loja na última terça, às 21 horas, e fora direto para a manifestação na avenida Paulista. Protestar contra o que? — pergunto, sabendo que ela tem carro. E ela: "Bom, contra tudo, né? A gente trabalha tanto e não tem dinheiro para passear, aproveitar a vida".

Uma reclamação rara, valia a pena especular. A moça elaborou mais um pouco. "A gente paga IPTU, tanto imposto, e o governo fica dando dinheiro para quem não trabalha. Dar emprego, tudo bem, mas dar bolsa não é justo, o senhor não acha?"

Resumindo a bronca: muito trabalho, salário suficiente para viver, mas não para aproveitar a vida; o governo toma muito imposto e não devolve serviços justos para quem trabalha tanto.

Tarifas de ônibus, trens e metrô cabem aí. O passageiro paga caro por um serviço ineficiente e desconfortável.

Generalizando, o governo é caro, mas não presta. Pelo email da CBN, um ouvinte de Petrópolis conta que foi ontem à secretaria municipal de saúde tirar a carteira para atendimento no SUS. Não deu, o sistema estava fora do ar. Na fila, comentaram que estava assim havia quatro dias. Cidadão zeloso, nosso ouvinte ligou para o 136, ouvidoria do SUS, onde obteve a informação de que... o sistema estava fora do ar.

Na pesquisa CNI-Ibope divulgada ontem, a área de saúde apareceu, junto com segurança, como a de pior avaliação: 66% dos entrevistados desaprovam os serviços. Esse resultado negativo tem se repetido e a vale para os três níveis de governo (municipal, estadual e federal) já que todos têm alguma coisa a fazer nesse setor.

Entende-se porque os protestos parecem, digamos, genéricos. É difícil mesmo para o cidadão saber que o posto é municipal ou estadual, mas o remédio é federal.

Pedro Herz, dono da Livraria Cultura, um intelectual sempre interessado em entender a cena brasileira, costuma perguntar a todo mundo que encontra: "Me diga o que você acha que funciona no Brasil".

As três respostas mais citadas, amplamente dominantes: o sistema de apuração de eleição, as campanhas de vacinação e a Receita Federal. Elaborando aqui e ali, o pessoal aprecia a rapidez da apuração, mas não os políticos eleitos. Com as vacinações, tudo bem. Já quanto à Receita, seria uma admiração ao revés - como os caras sabem cobrar!

E assim voltamos ao ponto de partida: o governo cobra caro, sabe cobrar, e não entrega. Trata-se de um sentimento, um mal-estar que, entretanto, não resulta em propostas políticas determinadas.

É curioso. Bronca generalizada com o governo e com os impostos - bem, isso parece uma atitude liberal. Lembram-se? Governo não é a solução, é o problema, repetia Ronald Reagan.

Mas, por aqui, muita gente que reclama do governo pede mais governo. Por exemplo: as reivindicações para a estatização completa dos transportes públicos, de modo a eliminar o "lucro predatório" das empresas privadas que operam o setor.

Não faz sentido. Se as prefeituras e governos estaduais não conseguem gerenciar nem fiscalizar, como conseguiriam fazer isso e ainda operar todo o sistema? Tanto é assim que governadores e prefeitos das maiores cidades têm deixado o tema de lado. Eles sabem que não teriam dinheiro nem capacidade de assumir todo o transporte público.

O governo Dilma, ainda que constrangido, também admite essas dificuldades do setor público. Tanto que está aplicando um programa de privatização de rodovias, ferrovias, portos e aeroportos.

Mas é uma espécie de privatização envergonhada, com muitas restrições à atuação das empresas privadas. Isso resulta de uma ideologia de esquerda bastante disseminada no país, mas também de uma prática velha, fisiológica, dos políticos que vivem de ocupar espaço nos governos para atender não o povo, mas seus interesses e os de seus correligionários.

Caímos, assim, nesse impasse: o pessoal tem bronca do governo e , por falta de outra proposta, acaba achando que a solução está no governo.

Fica difícil. Como pedir menos impostos — e todo mundo pede isso - e mais serviços oferecidos pelo governo?

Já os governantes, pressionados pelas manifestações, dizem que não têm dinheiro para fazer o que pedem. De certo modo, é verdade: as demandas são infinitas. Mas a principal política do governante é exatamente escolher as prioridades, decidir onde e com quem vai gastar o dinheiro público.

É nisso que falha nosso sistema político. Não aparecem as diferenças de orientação programática. Por isso os governos ficam parecidos, e tão parecidos que as pessoas reclamam "contra tudo". A questão política nacional é: como sair da bronca para uma doutrina e respectiva ação que consertem as coisas?

Manda quem pode

Dora Kramer  
O Estado de S.Paulo

No primeiro momento a tendência do governo federal foi a de espetar na conta do governador Geraldo Alckmin o prejuízo político dos protestos. Houve até quem no PT reclamasse que o prefeito Fernando Haddad não fora contundente o bastante nas críticas à atuação truculenta da polícia de São Paulo no enfrentamento de quinta-feira passada.

No segundo momento, porém, as antenas mais sintonizadas do Palácio do Planalto começaram a perceber que a parte gorda da fatura recairia sobre a presidente Dilma Rousseff. Não por uma questão de antipatia pessoal, mas porque é sempre assim: a conta é cobrada de quem tem a responsabilidade de pagar.

Brasília percebeu isso. E, na falta de formuladores, reagiu como sempre: por orientação do marqueteiro João Santana, cujas digitais são nítidas na construção do discurso da presidente que tenta se dissociar dos protestos, dizendo que as vozes das ruas "precisam ser ouvidas". Como se não fosse ela a representante máxima da legião de surdos à qual se dirigem os manifestantes.

Se não estivesse no comando da Prefeitura e caso os protestos se restringissem a São Paulo, talvez fosse bem-sucedida a tentativa de empurrar o problema para o alheio. Os tucanos são governo e é de cobrança ao poder público que cuidam os manifestantes.

No Rio, a passeata "dos cem mil" na segunda-feira se ocupou por longo tempo em insultar o governador Sérgio Cabral Filho. Em uníssono, a multidão o mandava àquele desconfortável lugar. Nessa hora não dá para cobrar bons modos de quem aguentou calado os maus-tratos.

O movimento se espalhou, tomou conta de todas as regiões do País, foi ao interior e ao exterior. Na última terça-feira, uma semana depois dos primeiros protestos inicialmente vistos como atos isolados de bagunça, foram 11 capitais. Para hoje, esperam-se manifestações em 21 dos 27 Estados, 15 capitais e 71 municípios.

Diante da adesão crescente, vislumbrado o tamanho oceânico da encrenca, autoridades de todos os matizes correram para tentar amenizar os danos: prefeitos reduziram simbolicamente os preços das passagens (entre 0,05 e 0,10 centavos), os governadores (Alckmin e Cabral) que inicialmente falaram grosso passaram a falar fino transmitindo seu apreço aos movimentos, a presidente cerrou fileiras ao lado da "mensagem direta das ruas".

Fez isso quatro dias depois de ter afirmado mais uma vez que corria tudo bem no Brasil e que as críticas eram produto de um "estardalhaço" promovido pelo "terrorismo informativo" sobre a situação econômica do País.

Tudo certo que a presidente, governadores, prefeitos e políticos em geral tenham adaptado o rumo de suas ideias ao itinerário e dimensão dos protestos. Ótimo, não brigam com os fatos nem negam o fato de que a sociedade quando quer e se empenha faz valer seu poder de mando, obrigando o poder público a ouvi-la.

Resta uma questão a ser resolvida: se na visão da presidente da República as ruas têm razão, se há consistência em suas reclamações, então quem não tem razão é o governo, que procura iludir ao pintar um cenário paradisíaco.

Em seu pronunciamento, Dilma Rousseff avisou que está ao lado da população "no repúdio à corrupção e ao uso indevido do dinheiro público".

Pois quem tem os instrumentos para corromper? Quem recebeu delegação para usar dinheiro público? A quem cabe dar uma solução para a inflação? Quem gastou a rodo com os estádios da Copa?

Certamente não foram os marcianos nem a oposição. O discurso manipulador não é só insuficiente, pode ser também contraproducente. Se a revolta alcança partidos e políticos de uma forma geral, a cobrança é em particular ao governo, que tem a responsabilidade, os meios, a delegação e, sobretudo, a obrigação de oferecer as soluções.

Hora de mudar

Celso Ming 
O Estado de S.Paulo

Se foi mesmo sincera quando, ao elogiar as manifestações e suas reivindicações por mudanças, garantiu que fará essas mudanças, a presidente Dilma tem de começar a mudar o diagnóstico e o tratamento que vinha dando à inflação.

Embora não se saiba onde e como vão desembocar, os protestos começaram com a revolta com o reajuste de R$ 0,20 nas tarifas da condução cobradas em São Paulo.

Ora, o problema não é o reajuste, ontem revogado. É a inflação, que exigiu o reajuste. Ela vem corroendo o poder aquisitivo e em algum lugar do bolso do consumidor teve mesmo de começar a pressionar.

Um eventual recuo dos administradores na cobrança desse reajuste, como já aconteceu em São Paulo e em outras sete capitais, não resolve o problema central. Vai continuar faltando salário antes de chegar o fim do mês.

Até agora, o governo Dilma fez uma avaliação arrogante da inflação. Ignorou sua importância e seus estragos. Atribuiu o problema a causas externas (choques de oferta produzidos pelas secas nos Estados Unidos em 2012) ou a fenômenos temporários internos. A partir desse diagnóstico, não havia o que fazer. 

Era esperar pelo refluxo espontâneo da inflação. Durante meses, o Banco Central fez o mesmo jogo. Mas, desde abril, passou a admitir que a inflação tem causas internas relevantes. Entre elas, os gastos excessivos do setor público (política fiscal expansionista), consumo acima da capacidade de oferta da economia e mercado de trabalho excessivamente aquecido, que vinha proporcionando pagamento de salários acima da expansão da produtividade do trabalho.

Traído no compromisso quebrado pelo governo de manter uma política orçamentária responsável, a partir de abril o Banco Central se sentiu liberado para acionar sua política monetária (alta dos juros) até então teimosamente mantida a serviço do arranjo voluntarista de política econômica que vem produzindo as conhecidas distorções. Já se vê que uma política de juros mais restritiva desacompanhada de uma política fiscal responsável pode pouco contra a inflação.

Depois de muita vacilação e uma tentativa de sacramentar a adoção de uma política fiscal que denominou de anticíclica (que implica mais despesas agora), o ministro da Fazenda, Guido Mantega, admitiu que entregará ao final deste ano um superávit primário (sobra de arrecadação para pagamento da dívida) correspondente a 2,3% do PIB. Mas ninguém sabe, provavelmente nem ele, como conseguirá esse resultado nem se será suficiente.

A percepção geral é a de que a política fiscal do governo Dilma é uma bagunça. E este é um fator adicional que tira a credibilidade da política econômica e trabalha contra a virada.

A inflação sofre agora os ataques de outro fator: o da disparada das cotações do dólar no câmbio interno. É o que vai encarecer ainda mais os produtos importados e as dívidas em moeda estrangeira, numa proporção incerta, mas que provavelmente não será inferior a 0,5 ponto porcentual de inflação ao ano para cada alta de 10% na cotação do dólar.

Enfim, falta saber o que mudará na condução da política econômica do governo Dilma. E se de fato mudará.

Protestos indicam que modelo brasileiro chegou ao limite, diz FT

Veja online

Jornal aponta que as mudanças sociais não corresponderam aos anseios da classe média - e que a população percebeu que o Brasil não é o país cor-de-rosa que o governo pinta

Felipe Frazão
São Paulo -  Tropa de Choque da PM entra em confronto com manifestantes
 na Rua Augusta, durante protesto contra o aumento da tarifa do transporte público  

A onda de protestos que se espalhou pelo país nas últimas semanas já repercute nos jornais internacionais, inclusive nos que tratam de economia e investimentos. O jornal britânico Financial Times dedicou seu editorial desta quarta-feira aos protestos que ocorrem em cidades brasileiras, que tiveram como estopim o aumento do preço das tarifas de transporte público.

Segundo o diário, o movimento que se alastra no Brasil, sem líderes e propostas bem definidas (que vão de combate à corrupção ao gasto do dinheiro público e a inflação), mostra um cenário preocupante: "ele sugere que o modelo brasileiro pode ter chegado ao seu limite".

O FT reconhece a década de crescimento econômico ocorrida no país graças, sobretudo, ao boom dos preços das commodities e o estímulo ao consumo. O jornal cita, ainda, a saída de cerca de 30 milhões de pessoas da pobreza e o aumento da classe média, como consequência. Contudo, como as mudanças sociais não corresponderam aos anseios da própria classe média, como melhora em saúde pública e educação, a população, segundo o FT, se encontra diante de um impasse: por um lado, a conjuntura ruim que diziam ter ficado para trás, e por outro, o glorioso presente no qual o governo diz que os brasileiros vivem. 

"Eles (os brasileiros) pagam impostos de países desenvolvidos para serviços públicos deficientes. Ônibus superlotados e um alto tráfego fazem da rotina diária um fardo caro e demorado. A corrupção do governo é frequente. O descompasso é especialmente amplo quando se trata de instituições que não passaram por reformas, como a polícia. Sua truculência contra os manifestantes indignaram a população", escreve o jornal.
Segundo o FT, os acontecimentos políticos não deixarão nenhum líder imune - e tal situação deve preocupar os mercados em relação aos mercados emergentes como um todo. O editorial aponta que o atual cenário é um aviso de que o descaso político e o dinheiro fácil da última década podem estar perto do fim.

Mercados - 
Também nesta quarta, o blog Beyondbrics, do FT, afirmou que, por ora, os protestos não afetaram o mercado financeiro. Ainda que a bolsa de valores brasileira esteja operando com volatilidade, abaixo dos 50000 pontos, e o dólar esteja em franca trajetória de valorização, o diário informa que investidores não estão preocupados com as manifestações no curto prazo. "Não encontramos nenhum analista que fizesse qualquer conexão entre as manifestações e os preços dos ativos", escreveu o Beyondbrics.

No entanto, o FT aponta que as manifestações resultam de crescimento econômico em desaceleração, alta dos preços e falta de ação para conter problemas estruturais - e tais fatores, sim, preocupam investidores.

'Sem violência' e sem controle

O Estado de S.Paulo

Bem que o secretário-geral da Presidência, ministro Gilberto Carvalho, invocou os velhos tempos em que os protestos de rua tinham carros de som para guiar as ações dos participantes e lideranças claramente identificadas que as autoridades poderiam chamar para uma conversa. Nos velhos tempos, aqui e no exterior, tampouco havia marchas organizadas pelo Partido Comunista (PC) ou por centrais sindicais sob o seu mando que não exibissem, além da clássica comissão de frente com os braços entrelaçados, um adestrado aparato de segurança pronto a reprimir, não raro a porretadas, os companheiros de viagem que, por palavras ou atos, se desgarrassem do roteiro político traçado para a ocasião pela autodeclarada vanguarda do proletariado. Os meganhas do PC também expulsavam do cortejo os militantes expurgados que, ainda assim, se achavam no direito de desfilar em meio à massa.

Os velhos tempos já se foram tarde. E a última coisa a esperar de passeatas "horizontais", sem estrutura hierárquica preestabelecida, como as que se propagam pelo País - e que outrora a ortodoxia do Partidão rotularia com desdém de "espontaneístas" -, seria uma falange capaz de impor o respeito às cláusulas pétreas do movimento: nada de partidos, nada de violência. No primeiro caso, o controle tem funcionado. Sumiram por bem, pelo menos em São Paulo, as bandeiras das agremiações ultrarradicais, como PSTU e PCO. Ou sumiram por mal, quando, numa cena sem precedentes, um manifestante na Praça da Sé, cansado de argumentar, arrancou de seu portador - e pisoteou - a rubra bandeira engalanada com a foice e o martelo do Partido Comunista Revolucionário (PCR), que ainda reverencia o camarada Stalin. A multidão encorajou o revolucionário a deixar o local.

Já o caráter pacífico dos protestos não havia como defender. Assim como tinha ocorrido na véspera, no ataque à Assembleia Legislativa do Rio, na terça-feira a exortação "sem violência" foi impotente para impedir a tentativa de invasão e a depredação da entrada da Prefeitura paulistana e a queima de um posto da PM e de uma van da Rede Record, a pouca distância dali. Os arruaceiros berravam "sem moralismo", e "sem burguesia". A ampla maioria civilizada não conseguiria, tampouco, enfrentar os grupos que se puseram a vandalizar ou a saquear as lojas de departamentos das proximidades. A polícia, que na segunda-feira atirou em quem não devia, porque não fizera nada de errado ou nem sequer participava do protesto, dessa vez só apareceu com três horas de atraso, quando o pior já ocorrera. Se antes faltou policiar os PMs, depois sobrou desorientação - a começar do governador Geraldo Alckmin.

Pelo menos ele não deixou às pressas o Palácio dos Bandeirantes para pedir socorro a alguém presumivelmente mais apto a lidar com a incomum situação destes dias. Foi o que fez, apequenando-se perante aliados, adversários e a opinião pública, a presidente Dilma Rousseff. Ela, que tanto intimida a sua equipe com seus modos autoritários e a certeza de ser a dona da verdade, tornou a demonstrar que, na hora H, não é ninguém sem dois conselheiros. Um é o marqueteiro-residente do Planalto, João Santana. O outro, claro, é o seu progenitor político Luiz Inácio Lula da Silva. Foi Santana quem a instou finalmente a se pronunciar, após mais de uma semana em que os jovens, às dezenas de milhares, tomaram as ruas do País. Na terça-feira, antes de um bate-volta a São Paulo para perguntar ao seu mentor o que fazer agora, ela encaixou elogios à moçada numa fala sobre mineração.

Quem os escreveu é do ramo. Quem os leu, se também fosse, saberia infundir de sentimento pelo menos este enunciado: "A grandeza das manifestações comprova a energia da nossa democracia, a força da voz da rua e o civismo de nossa população". Mas, ao vivo, nada consegue derreter a frieza da presidente e a sua robótica entonação. A campanha de 2010 colou nela o depreciativo "poste", que o próprio Lula viria a repetir para se gabar de sua eleição. (Fez o mesmo quando Fernando Haddad se elegeu em São Paulo.) O pior é que Dilma, depois de 2 anos e meio no Planalto, continua a precisar dele para ligar a luz.

É preciso ouvi-los

Míriam Leitão 
O Globo


Um surto de manifestação como o que se espalhou pelo Brasil nos últimos dias nunca tem uma explicação simples. É preciso humildade para admitir que ele não está inteiramente compreendido. Existem pistas. Ele tem a vantagem de quebrar a convicção de que o brasileiro suportaria todo o desaforo sem reagir: da deterioração dos costumes políticos ao desconforto econômico.

Há razões conjunturais e outras mais antigas para justificar qualquer manifestação de protesto no Brasil. A inflação está alta há muito tempo, o nível de inadimplência cresceu e isso eliminou o amortecedor que o crédito vinha exercendo, o desemprego de jovens chega a quase 16% em São Paulo.

No início da nova legislatura, o Congresso escolheu, para presidentes das duas Casas, líderes e integrantes de comissões que foram vistos como um acinte pela população. A lista com 1,3 milhão de assinaturas coletadas em tempo recorde contra Renan Calheiros na presidência do Senado foi ignorada com desprezo.

O mamútico governo federal, montado com 39 ministérios, faz anúncios sequenciais de planos que não se transformam em realidade. Em cada pronunciamento de sua campanha eleitoral antecipada, a presidente Dilma desenha um país cor de rosa onde tudo está resolvido, exceto por alguns da “turma do contra”.

Ontem, ela elogiou o movimento das ruas. Falta só agora conciliar o elogio aos protestos com a sua visão de que o governo faz tudo certo, que o país vai muito bem, e só os que torcem pelo pior é que não reconhecem.

O movimento é heterogêneo, apartidário, sem lideranças claras. As reivindicações são muitas. Como em qualquer onda de descontentamento, há sempre um estopim. Desta vez foi o aumento da tarifa de ônibus, que havia sido adiado. Mas o estopim é só isso: a gota que transborda o copo já cheio pelos desaforos diários.

O Brasil sofre uma aguda crise de representação política. Nossa democracia envelheceu precocemente pela repetição do jogo dos conchavos, pelas escolhas erradas para cargos importantes, pela mesmice de oligarquias que controlam partes da federação e nacos da administração pública.

Ainda que o protesto seja contra políticos em geral, e todos devem pôr suas barbas de molho, é preciso ponderar um fenômeno recente.

O governo do PT cooptou a maioria das organizações de representação da sociedade civil. Sindicatos e centrais sindicais, algumas ONGs, movimento estudantil, e até o Movimento dos Sem-Terra, recebem recursos federais e ficam na órbita do governo. Já não representam os interesses dos representados.

A UNE acaba de eleger sua nova presidente. Mais uma vez não se sabe como foi a escolha, mas já se sabia de antemão que seria do PCdoB. Como tem sido por décadas. Há muito tempo a UNE deixou de justificar o nome e virou um feudo do partido da base governista. É plataforma de lançamento do partido.

Na economia, a inflação de alimentos está em 13,5% e tem estado persistentemente em níveis altos, a de serviços está em 8,51%, as famílias já comprometem quase um quarto da sua renda mensal com o pagamento de dívidas.

O desemprego de jovens tem índices de 12,6% no Rio, 15,9% em São Paulo e 17,4% em Salvador. Nada disso é novo, mas o torniquete foi rodando. Famílias com ambições recentes alimentadas pela abundância do crédito já sentem o efeito colateral.

Para a imprensa, o desafio é enorme diante de tantas demonstrações de protesto. O maior erro dos jornalistas e das pesquisas de opinião foi não ter percebido o avanço do descontentamento.

Mas, se nessa pilha de motivos para a insatisfação fosse necessário escolher um, talvez o mais acertado seja essa sensação de divórcio entre os governantes e os brasileiros. Movimentos como esse produzem alguns excessos, mas sempre fortalecem a democracia. É preciso ouvi-los.

Em defesa da honra

Dora Kramer  
O Estado de S.Paulo

Enquanto a economia vai bem, tudo o mais vai também, reza a norma geral dos construtores de candidaturas, instrutores de campanhas e conselheiros de imagem inspirados em James Carville, marqueteiro do ex-presidente americano Bill Clinton.

Prova, diriam eles, é a coincidência entre os protestos que levam milhares às ruas do Brasil depois de duas décadas de apatia e a deterioração da economia. Do ambiente de estabilidade que deu duas vitórias em primeiro turno a Fernando Henrique Cardoso e levou Luiz Inácio da Silva à Presidência da República quando ele convalidou o compromisso na Carta aos Brasileiros.

Incontestável. Aceitemos, pois, que a economia tenha o condão de deflagrar as crises. Mas, é a política que dispõe dos instrumentos para construir as soluções, por meio da intermediação entre demandantes e demandados.

O professor Luiz Werneck Vianna foi preciso no artigo "O movimento da hora presente" publicado ontem no Estado.

Disse que é hora de a política se fazer presente removendo práticas e instituições que levaram a atividade à degradação, deixando a sociedade brasileira prisioneira do "anacronismo destes novos coronéis da vida republicana"; em seguida alertou para o risco de "intervenções desastradas dos atuais governantes" levarem a juventude a se afastar dos valores da democracia.

O exercício da política é valor democrático. O modo como ela está sendo exercida, no entanto, levou à depreciação desse ativo. Os jovens que não viveram os tempos em que, caladas as vozes dos políticos, falava o chicote do autoritarismo, com facilidade são levados a não acreditar no sistema representativo.

Ainda mais quando ele funciona "nesta forma bastarda de presidencialismo de coalizão sob a qual se vive", como bem afirmou Werneck Vianna.

Ou se encontram formas de reconstruir as pontes entre representantes e representados, ou se reabrem os canais de comunicação entre a sociedade e as instituições, ou iremos ao beco sem saída.

As ruas começaram a falar sobre aumento nas tarifas e os péssimos serviços dos transportes públicos, mas seguem falando de muito mais: de corrupção, de descaso, de desmandos, de desonra, de desvios de conduta. Na economia o poder público - e aqui o nome é governo do PT - abusou da sorte e agora chega para todos a dolorosa conta da farra de gastos.

Na política os Poderes abusaram do despudor, os valores foram dissolvidos. As pessoas não querem apenas de volta a estabilidade na economia. Elas desejam também recuperar o respeito perdido, a dignidade aviltada pela vulgarização dos modos e a celebração da esperteza.

Lula, que representava a esperança, que foi uma referência, acabou encarnando o personagem do herói sem princípios que a todos vence mediante o uso de quaisquer meios.

O ex-presidente não inventou a falta de ética na política, mas ao pretender construir uma unanimidade a poder de cooptação de partidos, entidades e movimentos, aprofundou os velhos vícios. Deu aval ao que havia de mais retrógrado, liderou um processo de rebaixamento dos padrões a níveis nunca vistos, incorporou a amoralidade como regra cotidiana.

As pessoas estão nas ruas para dizer que não estão dispostas a ser tratadas como massa de manobra. Terminem amanhã ou depois os protestos, o ânimo despertado voltará forte na campanha eleitoral. Sabem que não obterão passe livre nos transportes, mas avisam que ninguém é dono do passe de seus anseios.

A julgar pelo sentimento que emerge das manifestações, terá êxito em estabelecer um diálogo amistoso com a população não quem manipular emoções com mais competência, mas quem puder se mostrar confiável na tarefa de recuperação da política como fator essencial para o exercício da democracia.

As faces do movimento nas ruas

Artur Rodrigues, Bruno Paes Manso e Diego Zanchetta 
 O Estado de S. Paulo

Punks, tribos sem vínculos políticos, viciados, trabalhadores e moradores de rua foram personagens dos protestos

Enquanto o carro da TV Record pegava fogo na frente da Prefeitura, um jovem com o rosto coberto surpreendeu a todos em um gesto suicida. Subiu na capota do furgão, em meio às labaredas. Ficou cinco segundos, arriscando-se a cozinhar com os braços levantados, e pulou, para escapar e ser aplaudido por cerca de 200 pessoas que participavam ou testemunhavam o quebra-quebra no centro na terça-feira.

A disposição ao risco, a obsessão pelas alturas e a desobediência civil sem escrúpulos revelaram uma massa de anarquistas urbanos que há quase três décadas mantém uma relação de agressividade com a cidade: os pichadores. Na quarta-feira, 19, eles engrossam a massa dos Black Blocks - nome dado ao grupo de pessoas que apostam na destruição de bens materiais como forma de fazer política. Eles integraram a tropa de choque dos protestos pela redução da tarifa, onde a violência acabou tendo papel importante na pressão aos governantes.

"O picho nasceu no movimento punk nos anos 1980 e sempre foi anarquista. O pichador prega a desobediência civil. É (Mikhail) Bacunin (pensador anarquista) na veia", disse um dos pichadores, que pediu para não ser identificado e ajudou articular a participação dos pichadores nos protestos.

Durante as passeatas, os pichadores, que costumam se encontrar em bares vizinhos ao Largo do Paiçandu, vindos principalmente de bairros das periferias da cidade, criaram o movimento Pixo Manifesto Escrito, com página no Facebook em que também defendem a retirada da PEC 37 (que tira poder de investigação dos promotores), a ser votada no Congresso.

Eles picharam as fachadas da Prefeitura, do Teatro Municipal e o monumento do arquiteto Paulo Mendes da Rocha na Praça do Patriarca, além de participarem de depredações e incêndios. Assim como arriscam cotidianamente a vida para revelar o nome de seus grupos em pontes e monumentos, ontem eles subiram pelas paredes da Prefeitura e nas altas estruturas dos monumentos que foram vandalizados. Nos primeiros protestos, picharam dezenas de coletivos.

A intenção era canalizar as energias para ações que fossem além do exibicionismo nas paredes, que costuma motivar a maioria dos integrantes da cena na cidade. Entre as frases pichadas estavam "R$ 3,20 é roubo" e críticas à PEC 37, mas também havia nome de grupos de pichadores de São Paulo, como "Pub Crew, PRT DK e TR Roots", com suas letras rebuscadas que há décadas, juntamente às de outros grupos, espalham-se pelos edifícios.

História. Entre provocações históricas, pichadores já invadiram a Bienal de Artes para atacar obras de artistas e são incisivos na crítica aos grafiteiros que se vendem ao mercado. Atualmente, os mais respeitados são os pichadores que sobem pelo lado de fora dos edifícios para feitos que são considerados mais heroicos quanto mais risco de vida corre o autor. A morte de pichadores que caem dos prédios não é fato incomum no meio.

Apesar da desobediência civil fazer parte do DNA anarquista dos grupos de pichadores, parte deles se assustou com o quebra-quebra de terça-feira. Houve críticas aos grupos que colocaram seus nomes nos monumentos, já que o objetivo era o anonimato para fortalecer as "pautas coletivas".

Também foi criticada por integrantes do grupo a destruição desenfreada das lojas e os saques. "Acho covardia quando não há PM. O nosso papel no enfrentamento com polícia foi fundamental. Sem PM, não tinha graça", disse.

Clima festivo reúne várias tribos na Paulista
Entre estudantes e a PM, a Avenida Paulista vinha sendo o símbolo de resistência do Movimento Passe Livre. Nos últimos dois dias, porém, o lugar antes tomado por mascarados que destruíam agências bancárias e enfrentavam bombas de gás lacrimogêneo transformou-se num imenso bulevar colorido e pacífico, com jovens se vendo e sendo vistos pelas redes sociais enquanto protestam. Bancários engravatados, enfermeiras com bandeiras do Brasil, professores, ativistas de direitos humanos e jovens recém engajados tomaram a via e tentam, de alguma forma, mostrar o clima festivo das manifestações.

Até os mais politizados e os que estavam à frente dos confrontos na semana passada agora se contagiam pelo clima de "jogos universitários" do lugar, onde a cerveja e o violão ditam o embalo da concentração no Masp. "É como se fosse um Facebook de pernas. Todo mundo resolveu ‘postar’ sua indignação na Paulista", resumia na noite de quarta-feira a jovem Renata Guerra dos Santos, de 22 anos, estudante de Ciências Sociais da USP. Ela estava incomodada com a "farofa" que tomava conta da avenida, com pessoas, a seu ver, "pouco conscientes e, no fundo, reacionárias".

Reaça ou de esquerda, a maior parte das 30 mil pessoas que foi à Paulista na terça-feira queria mostrar que a onda de protestos tem o seu "lado do bem". Eles se recusaram a compactuar com o quebra-quebra do centro da cidade e subiram a Rua da Consolação para celebrar em paz.

Como dezenas de outros manifestantes que saíram às ruas a partir de segunda-feira, o bancário Paulo Meira, de 39 anos, que levou o filho de 6 anos nas costas, de cara pintada em verde e amarelo e bandeira do Brasil, era contrário ao protesto na semana passada e condena qualquer ação de vandalismo. "Não vale a pena fazer a cidade parar só pelos R$ 0,20 da tarifa de ônibus. É que agora o protesto é por um Brasil melhor em todos os sentidos. Quero que meu filho viva esse momento", celebrava o bancário.

Também de cara pintada e bandeira nacional, a enfermeira Valéria de Oliveira Radowski, de 42 anos, levava a filha de 12 para ver o protesto. "Ela queria de todo jeito ver a festa aqui na Paulista. Acho importante ajudar a acabar com toda essa corrupção por aí", dizia a enfermeira, cercada por outros médicos e profissionais que trabalham em hospitais da região e resolveram aderir às manifestações.

Grupos de jovens de diferentes classes sociais e que queriam unir protesto e azaração num ambiente de festa eram a maioria na noite de terça-feira na Paulista, ao contrário da semana passada. E os engajados do Passe Livre deram boas-vindas a "mauricinhos" e "coxinhas" de todas as vertentes. "Quanto mais gente, mais poder de negociação para reduzir a tarifa nós vamos ter", argumentava Rodrigo Mazone, de 21 anos.

Por trás dos saques, moradores de rua, viciados e trabalhadores
Os ladrões de ocasião juntaram-se a manifestantes que depredavam lojas para saquear na noite de terça-feira, 18. O resultado foi a destruição de pelo menos 29 estabelecimentos comerciais na região central de São Paulo.

Inicialmente, anarquistas destruíram duas agências bancárias do Itaú. Sem a presença de nenhum policial para coibir a ação criminosa, mesmo a poucos metros da Secretaria de Estado da Segurança Pública, eles passaram a atacar também lojas na Praça do Patriarca. Foi aí que moradores de rua, usuários de drogas e até pessoas que saíam do trabalho no centro aderiram ao grupo para furtar produtos.

Os principais alvos eram eletrodomésticos, como TVs e computadores. De repente, várias pessoas podiam ser vistas carregando caixas de grandes aparelhos televisores. Um usuário de drogas estava oferecendo uma TV de 40 polegadas por R$ 200 em pleno Viaduto do Chá.

No McDonald’s, saqueadores foram cuidadosos e levaram tortas de maçã, em vez de sorvetes, para que não derretessem até chegar em casa. O segurança, sem ter o que fazer, foi obrigado a assistir à cena em silêncio.

"Não filma, não. Não filma, não", repetiam alguns. Outros, porém, entravam nas lojas filmando com os celulares. Alguns vídeos foram parar no YouTube.

Pessoas uniformizadas, que haviam acabado de sair do trabalho, se juntaram ao grupo que assaltava as lojas. "Ai, queria tanto um celular novo", comentou uma jovem que passava pelo local. "Pena que não tenho coragem de roubar", completou. Outros, porém, não viram problema em voltar para casa com produtos furtados.

A reportagem do Estado presenciou meninos de rua saindo com brinquedos e doces das Lojas Americanas da Rua Direita e moradores de rua aproveitando para levar roupas de uma filial das Lojas Marisa.

Um homem de origem andina, que havia poucos minutos estava no prédio da Prefeitura tentando impedir o vandalismo, entrou em uma loja do Boticário e saiu com cremes e xampus.

Um rapaz visivelmente alcoolizado que deixava uma loja com um tablet nas mãos teve dificuldade para descobrir como ligar o aparelho. Outro homem, também embriagado, se esforçava para carregar um monitor de computador.

A Tropa de Choque da Polícia Militar, em pelo menos cinco ônibus, só chegou ao local quando as pessoas que haviam praticado os saques já haviam fugido dos arredores da Rua Barão de Itapetinga

Pela baderna e pelos saques, 61 pessoas foram detidas e encaminhadas para cinco distrito policiais. Muitos eram moradores de rua que não tinham onde esconder os produtos furtados.

Alguns foram recuperados pela polícia, mas a grande maioria se perdeu. O Sindicato das Lojas de São Paulo não soube informar o valor do prejuízo.

Câmera. Os jornalistas também foram vítimas. Na tarde de quarta-feira, 19, a PM flagrou dois homens carregando uma câmera de TV com um símbolo da Rede Record. O aparelho está avaliado em R$ 200 mil. Sem conseguir explicar sua origem, os homens foram levados ao 2.º Distrito Policial (Bom Retiro). Ambos foram presos em flagrante por receptação. Funcionários da emissora foram até a delegacia e reconheceram a câmera, que havia sido roubada na quarta-feira, 19.

Aprovação do governo Dilma cai 8 pontos, segundo CNI/Ibope

Chico De Gois  e Demétrio Weber 
O Globo

Os brasileiros também estão mais críticos ao jeito de Dilma governar


BRASÍLIA — Pesquisa CNI/Ibope, divulgada nesta quarta-feira, aponta uma queda de oito pontos percentuais na aprovação do governo Dilma e de igual percentual no jeito como ela comanda o país. O levantamento demonstrou ainda um pessimismo da população em relação o restante da gestão da petista. A pesquisa ouviu 2.002 eleitores, em 142 municípios, entre os dias 8 e 11 de junho, portanto, antes da repressão policial contra os manifestantes, na quinta-feira passada, dia13, e antes de o movimento se espalhar por todo o país, levando milhares de pessoas às ruas para demonstrar seu descontentamento.

De acordo com a pesquisa, 55% dos eleitores consideram o governo bom ou ótimo. Em março, eram 63%. Para 13%, a gestão dela é ruim ou péssima, um aumento de oito pontos percentuais em relação a março, quando apenas 7% tinham essa avaliação. O índice de regular teve uma variação de 29% para 32%.

Segundo a pesquisa, os brasileiros também estão mais críticos ao jeito de Dilma governar. Enquanto em março 79% aprovavam a maneira como a presidente administra o país, agora são 71%; 25% desaprovam.
A expectativa dos eleitores em relação ao restante do mandato da presidente também se mostrou mais negativa. Para 55%, esse um ano e meio será ótimo ou bom; em março, 65% tinham essa expectativa. Já 14% preveem que o fim de mandato será ruim ou péssimo.

Apesar da queda na popularidade, Dilma continua sendo mais bem avaliada, em seus pouco mais de primeiros dois anos de mandato, do que seus antecessores. No mesmo período, Fernando Henrique Cardoso (PSDB) era aprovado por 34%, e Luiz Inácio Lula da Silva (PT), por 35%.

A queda da popularidade foi maior entre a população com maior renda. Segundo o levantamento, a aprovação caiu de 77% para 50% entre os que têm renda familiar acima de dez salários mínimos.

Uma das principais críticas dos entrevistados está no combate à inflação. No último levantamento, em março, 47% disseram desaprovar a maneira como o governo tratava o tema. Agora, esse índice subiu para 57%, a maior taxa desde março de 2011, quando foi feita a primeira pesquisa sobre o governo Dilma.

O Ibope também aferiu que o boato sobre o fim do Bolsa Família foi a notícia mais lembrada pela população - 15% citaram esse fato; para 10%, a notícia mais lembrada foi a entrega dos estádios e o atraso no cronograma das obras.

Cardozo não vê relação da pesquisa com onda de violência
O ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, disse após a divulgação da pesquisa que não vê relação nenhuma entra a onda de protestos no país e a queda de popularidade da presidente:

— A pesquisa é uma situação episódica, decorrente de situações muito pontuais e conjunturais. O índice de aprovação do governo continua muito alto. Pesquisas são retratos de momentos que se alteram. Então, não vejo relação nenhuma de causa e efeito entre um governo que é muito bem avaliado e as manifestações. Acho que as manifestações têm o seu conteúdo, a sua razão de ser, e cabe a nós, governantes, ouvir e refletir.

Dilma e Lula tentam ‘salvar’ Haddad

O Estado de S. Paulo

Presidente e ex-presidente se encontraram com prefeito de São Paulo em busca de solução para crise política iniciada pelos protestos

A presidente Dilma Rousseff e seu padrinho político, Luiz Inácio Lula da Silva, montaram uma "operação de salvamento" do prefeito de São Paulo, Fernando Haddad, alvo de nova onda de protestos, na noite de teraça-feira, 18. O prefeito encontrou-se ontem com Dilma e Lula, na Base Aérea de Congonhas, depois de uma reunião com representantes do Movimento Passe Livre, na qual se comprometeu a estudar a revisão da tarifa.

Márcio Ferrandes/AE
Em encontro na manhã de terça, 
prefeito afirmou que iria estudar possibilidades de redução da tarifa

A informação sobre a operação de resgate de Haddad foi divulgada com exclusividade ontem no fim da tarde pelo Broadcast Político - o primeiro serviço em tempo real do País na cobertura dos assuntos políticos, lançado oficialmente também ontem em Brasília.

Antes dessa conversa, Dilma tinha se reunido com Lula, com o ministro da Educação, Aloizio Mercadante, com o presidente do PT, Rui Falcão, e com o marqueteiro João Santana, em um hotel da capital paulista. O ex-presidente disse que o PT e suas administrações erraram ao se distanciar da juventude e agora pagam o preço do afastamento.

O ministro-chefe da Secretaria-Geral da Presidência, Gilberto Carvalho, deverá assumir a tarefa de interlocução com a juventude, e o governo estuda novos programas para beneficiar essa camada da população, que tem força eleitoral. Lula disse a Dilma e a Haddad que era preciso agir rápido para impedir mais desgaste aos governos do PT.

No diagnóstico do ex-presidente, a oposição começa a agir para "faturar" politicamente e, se o PT não abrir diálogo com a juventude, ninguém sabe como a onda de protestos terminará.

Diante dessa avaliação, Dilma acertou com João Santana, ainda na noite de segunda-feira, o tom do discurso lido ontem, durante a cerimônia de lançamento do Código de Mineração. 

Ajuste de discurso. 
No pronunciamento, elogiado por Lula, Dilma desviou do cerco político e se solidarizou com as manifestações pacíficas. "As vozes das ruas querem mais. O meu governo também quer mais", insistiu a presidente.

O discurso foi feito sob medida para tentar aproximar Dilma da juventude e, mesmo sem citar diretamente o escândalo do mensalão, protagonizado por petistas, ela disse entender a mensagem das ruas, de repúdio à corrupção e ao uso indevido do dinheiro público.

No Palácio do Planalto, a avaliação é a de que o PT perdeu o controle não só da juventude, como também dos movimentos sociais.

Pesquisas qualitativas em poder de dirigentes do partido indicam agora que a insatisfação generalizada atinge tanto a imagem de Dilma, candidata à reeleição, como a de Haddad.

"É uma insatisfação contra o status quo", resumiu o ministro do Desenvolvimento, Fernando Pimentel. "Isso pode até mesmo nos ajudar a apressar as mudanças que queremos para o País." A estratégia do PT é a de se solidarizar com os manifestantes, na tentativa de neutralizar o movimento, que começou com protestos contra o aumento da tarifa de transporte coletivo e fugiu ao controle do monitoramento do Planalto.

"Eu penso que temos de fazer uma autocrítica porque há um distanciamento do PT em relação à agenda da juventude no período pós-Lula", afirmou o deputado estadual Edinho Silva, presidente do PT paulista. "Existe um ideário em disputa no País e, se não tivermos a capacidade de dialogar, esse movimento poderá ser facilmente cooptado por setores mais conservadores."

Governadores. 
A presidente Dilma também telefonou ontem para os governadores de São Paulo, Geraldo Alckmin (PSDB), do Rio de Janeiro, Sergio Cabral (PMDB), e do Rio Grande do Sul, Tarso Genro (PT), para falar sobre as manifestações ocorridas ontem nas capitais.

Na conversa com Alckmin, elogiou especificamente a ação da polícia, que, diferentemente da semana passada, não agiu com violência nem tentou conter a ação dos manifestantes na capital paulista. Também destacou o caráter pacífico da manifestação de segunda-feira.

Setores do partido entendem que a estratégia da comunicação com foco no social e a bandeira da retirada de milhões de pessoas da miséria precisa ser modificada porque já não dá conta de englobar os anseios da população que agora começam a aparecer.

O encontro de Dilma e Lula ocorreu no Hotel Sheraton, um dos mais luxuosos da capital paulista, e durou três horas. Como de costume, nem a Presidência e nem o Instituto Lula divulgaram o local do encontro. Ontem, especificamente, temiam que a publicidade da reunião pudesse juntar manifestantes contrários a ambos. Após conversar com Dilma e Lula em Congonhas, Haddad aparentemente abandonou a disposição, que se mantinha firme desde a véspera, de não rever o aumento da tarifa de R$ 3,20.

Democracia, ordem e espaço público

Sebastião Ventura Pereira Da Paixão Jr
Zero Hora

Definitivamente, a forma de ação política mudou. E quanto a nós: será que continuaremos os mesmos?

A rua é o ambiente natural da vida democrática e, assim o é, porque o abrir das flores da liberdade precisa do terreno fértil de um espaço público saudável. No entanto, o que estamos vendo em Porto Alegre, Rio de Janeiro e São Paulo contra o aumento da tarifa de ônibus nada tem a ver com democracia e liberdade. O fenômeno é outro: é desordem, é violência, é balbúrdia, é anarquia. Destaco um detalhe: muitos manifestantes estão encapuzados. O que isso significa? Significa que precisam esconder seus rostos porque sabem que estão fazendo algo errado, ilícito ou reprovável. E é sabido e ressabido que a justa reivindicação não precisa de disfarces ou anonimatos.

Poderíamos, então, pensar que o disfarce (capuzes) é usado porque estamos a viver um período de exceção e arbítrio. Não. Vivemos um tempo de liberdade democrática protegida por uma Constituição viva, real e pulsante. E o que o diz a regra constitucional? Que “todos podem reunir-se pacificamente, sem armas, em locais abertos ao público, independentemente de autorização, desde que não frustrem outra reunião anteriormente convocada para o mesmo local, sendo apenas exigido prévio aviso à autoridade competente” (art. 5º, XVI, CF/88). Como se vê, o direito de reunião é constitucionalmente assegurado, condicionando-se: deve ser obrigatoriamente pacífico, sob pena de legitimar o uso da força pública para o restabelecimento da ordem e da lei.

Pergunto, por oportuno: se uma manifestação pública interromper o trânsito, impedindo que uma ambulância com um paciente grave chegue ao hospital e ocasione o óbito do doente, serão os manifestantes responsabilizados pela morte? Poderão ser acusados de homicídio? Como negar que não tiveram intenção da morte se até um frade de pedra sabe que bloquear o trânsito pode impedir que uma ambulância alcance em tempo a UTI de um hospital? Haveria como recusar essa evidência incontestável? E que os manifestantes teriam a dizer para a família da vítima? Será que um simples pedido de desculpa bastaria?

Ora, se a própria insegurança pública não fosse o bastante, temos, agora, que conviver com movimentos sociais que, ao invés de lutarem pela pacificação do ambiente público, exacerbam, ainda mais, o estado de tensão da sociedade brasileira. Tais sintomas indicam que algo está mal e que precisa ser urgentemente medicado. A questão é que talvez os veículos tradicionais de participação política (partidos políticos) estejam superados pelas novas formas de direta manifestação democrática (internet e redes sociais). Na rota do progresso, o caminho passará por uma reconquista civilizada e sem violência do espaço público que imponha uma agenda de novas práticas e cobre melhores hábitos na vida pública. Definitivamente, a forma de ação política mudou. E quanto a nós: será que continuaremos os mesmos?

'Vai ter mais', diz manifestante que participou de quebra-quebra

Artur Rodrigues 
O Estado de S. Paulo

Estudante de 18 anos, que estava entre os que atiravam pedras no prédio da Prefeitura, afirma que esse é o único jeito de ser ouvido

SÃO PAULO - Manifestantes que participaram de invasão da Prefeitura na noite de terça-feira prometem mais quebra-quebra nas próximas manifestações. Um estudante de 18 anos, que estava entre os que atiravam pedras no Edifício Matarazzo, afirma que esse é o único jeito de ser ouvido. "Se não ouvir a gente, se não prestar atenção na gente, vai ter muito mais.", disse.

"A Dilma foi contra a ditadura. Foi presa. Procura lá na ficha dela os roubos que ela fez. Por que a gente não pode fazer isso?", disse. De acordo com ele, a tarifa é apenas a "faísca" de tudo que vem acontecendo. Entre os partidários do quebra-quebra como instrumento político, há punks e pichadores, entre outros grupos. Os gritos de guerra deles são "Sem moralismo, sem moralismo" e "Se não quebrar não vai rolar".

Um grupo maior e menos agressivo, porém, se arrisca para tentar conter a depredação. O corretor de imóveis Gustavo Klis, de 26 anos, foi agredido para impedir que a bandeira do Brasil fosse queimada, como aconteceu com as da cidade e do Estado de São Paulo. "Nós estivemos seis atos defendendo essa bandeira. É uma hipocrisia queimá-la agora", afirma.

Vestido de Super-homem, o artista plástico William Steadille, de 18 anos, fez parte de uma corrente humana para impedir que a porta dos fundos da Prefeitura fosse arrombada com um poste. "Não é de violência que o Brasil precisa. É de voz, de um grito. Isso não é um grito, é uma lesão", ele afirma.

Até o empresário Oscar Maroni, dono da boate Bahamas, foi até o local para dar apoio ao grupo que tentava invadir o prédio do Executivo municipal. "Isso aqui é o novo povo deixando de agir como gado", disse.

Um vendedor de churrasco não se importou com o fato de a Tropa de Choque e manifestantes estarem prestes a entrar em confronto. "Não penso nada disso. Mas já vendi vários churrascos", disse, pouco antes de ter de se retirar devido às bombas de gás jogadas pelos policiais.

***** COMENTANDO A NOTÍCIA:
Impressionante como a delinquência ganha tamanha repercussão e até apoio de grande parte da imprensa. O sujeito que se tem por “moderno”  e talvez encha a boca para falar de democracia, acha que é correto fazer apologia de violência, vandalismo, saques, quebra-quebra. Depois a polícia no encalço do mangano, e ele vai reclamar de “repressão”. Mas o fato é que lugar de bandido, que adora infringir as leis do país, é na cadeia. Violência só gera violência.

É bom que a garotada que não compartilha desta mentalidade bucéfala trate de isolar este troglodita de suas manifestações. Um cara destes é só atraso de vida.