sábado, junho 01, 2013

Bolsa Família e a perenização da pobreza

Adelson Elias Vasconcellos

Há tanta  coisa para ser dita e comentada que a gente mal consegue dar conta  de todos os assuntos. Uma semana de atraso, e o mais grave dos escândalos acaba superado pela última incompetência, pela novíssima negligência, ou pela estreia da estupidez da hora.

A semana começou com a surpresa de que a cobertura da Fonte Nova não suportou a primeira chuva, isto vinte e quatro horas após a presidente, lá dos rincões da África, afirmar categórica que temos competência para fazer a melhor copa de todos os tempos. Isto, depois de vários eventos testes nas arenas recém-inauguradas demonstrarem o inferno que é ingressar nos estádios e as inúmeras tendinhas de construção em andamento nos entornos de todos eles.   

Em 2005, em Frankfurt, Copa das Confederações em 2005, a cobertura era semelhante, e também choveu. O jogo era Brasil versus Argentina. Muitos haverão de lembrar. E aconteceu o mesmo imprevisto. Alguém imaginou que aqui seria diferente? Pensou errado e mal. E, agora, quanto tempo para corrigir a cobertura da Fonte Nova? Haverá custos? Quem bancará o prejuízo? E, mesmo que tudo fique resolvido para a Copa das Confederações, em futuras chuvaradas, a cobertura irá suportar?    

Como também deveria ser assunto da semana o aviso de que a Transnordestina vai atrasar sua conclusão em mais cinco anos e que, até o momento, já teve seu custo final dobrado sem nem ter alcançado metade de sua construção. 

Vocês sabem quantos dias se passou do escândalo do leite envenenado? Quinze dias, e de lá para cá, o tema já foi superado por tanta patifaria que acontece no dia a dia deste país.  E entramos  numa semana em que uma MP pode perder sua validade por falta de apreciação e votação pelo Congresso: é a que reduz as tarifas  de energia elétrica. Já imaginaram o fiasco que seria?

Mas creio que nada supera o papelão que foi a boataria sobre o fim do Bolsa Família. E sabem por quê? Porque não se trata apenas de mais uma lambança cometida por gente incompetente e irresponsável nomeada por um governo ruim. Claro que agora nas explicações aparecem gente de escalões inferiores que abusaram da confiança. Os chefões da patifaria, não sabiam de nada, não autorizaram nada. 

Mas são as muitas outras facetas que o episódio transmite para o país que deveremos refletir. Já nem entro na questão das acusações levianas e suspeitas indecentes levantadas pelo governo através de Maria do Rosário, Eduardo Cardozo, a própria Dilma e, como não poderia deixar de ser, do próprio Lula. 

Antes,  porém uma observação importante: tendo ficado claro que o erro partiu da Caixa Econômica, que antecipou os pagamentos sem prévio aviso, fica claro que o tumulto se originou não de um boato, mas de uma tremenda falha administrativa e de comunicação pela Caixa Econômica Federal.  Isto teve um peso terrível pelo pânico que provocou. Pergunta: não vai rolar a cabeça de ninguém, dona Dilma?  Não bastam desculpas apenas, é preciso cobrar responsabilidades e dado o tumulto, obrigando o ministro da Justiça ordenar a abertura de uma investigação pela Polícia Federal, além da própria mentira contada no início pela direção da CEF, alguém precisa ser demitido. Não se constrói um país desenvolvido com tamanha falta de seriedade.

Reparem neste detalhe: em outubro deste ano de 2013, o Bolsa Família estará completando 10 anos de existência. Tem gente que recebe o benefício há mais de cinco, seis, sete e até oito anos e que, segundo entende o governo, ainda precisa da ajuda oficial. Isto, senhores, é a prova de que o programa como ação social é uma fraude, uma mentira, uma farsa, porque no fundo, o Bolsa Família é aquilo que sempre se disse dele: um programa com propósitos unicamente eleitoreiros. 

São várias as comprovações de que a tal bolsa abrange não apenas pessoas em situação de extrema pobreza.  Como, ainda, o impacto que a bolsa produz no mercado de trabalho. Há poucos dias, o próprio governo admitiu a existência de irregularidades e prometeu que iria apertar o cerco contra as fraudes. Mas promessas que não se cumprem e não se cobram, acabam esquecidas. E o problema tende a permanecer.

No vídeo abaixo, a gente tem o testemunho de uma beneficiária  que chega ao cúmulo de achar a ajuda pequena, uma vez que não lhe permite comprar uma calça de “R$ 300,00” para sua filha adolescente de 16 anos.



Por que a sociedade que trabalha, teria obrigação de pagar pela calça de R$ 300,00 da filha desta senhora? Ora, qualquer pai ou mãe, desejando presentear seus filhos com algo de maior, faz sacrifícios, trabalha mais, arranja bicos, para poder ver o sorriso estampado no rosto de seus filhos diante do presente desejado? 

E o orçamento não permite, que a calça se ajuste ao que o orçamento permite! Isto é básico, vai até da boa educação e dos limites que os pais devem impor ao seus filhos.   

A seguir, um segundo vídeo traz o testemunho de uma outra beneficiária que, ao ir à Caixa depositar, como sempre faz, um valor na poupança de “seu esposo”,   descobriu que havia um valor disponível para ser retirado do Bolsa Família. “Poupança” é? Quantos trabalhadores com dois ou três salários mínimos, não conseguem fechar seu orçamento básico, quanto mais poupar?  E reparem: ela foi a agência no dia “13”, ou seja, até ali, quase metade do mês, o valor do Bolsa Família não havia lhe feito falta em seu orçamento.



“Eu fui na lotérica, como vou de costume, fazer um depósito na poupança do meu esposo. Fui depositar o dinheiro. Como eu já estava lá, eu tinha de ir fazer isso, eu aproveitei, levei o cartão e tirei o meu Bolsa Família. Quando eu tirei, saiu (sic) os dois meses”.

Ou seja, ela sacou a grana porque a grana estava lá, e não por conta de algum boato de que o programa terminaria, certo? E alguém imagina que esta senhora não tenha corrido a espalhar a notícia da grana “extra” aos parentes, amigos e vizinhos, também beneficiários? 

Numa excelente reportagem do jornal O Globo, (veja alguns posts abaixo), ficamos sabendo que há famílias que chegam a receber   o total de R$ 1.262,00 mensais, isto é, cerca de dois salário mínimos de benefício. 

Se sairmos país afora, conferindo as condições de vida e a renda das 13 milhões de famílias, podemos ficar certos de que, pelo menos metade, não se enquadra nas condições exigidas para receberem o benefício.  Não me venham justificar que o Estado, ou por último, a sociedade que trabalha e paga impostos, tem obrigação de bancar o bem estar do restante. Que haja pessoas em condições de miséria extrema, isto sabemos bem. Não precisamos de estatísticas ou estudos especiais. A periferia dos grandes centros urbanos nos dá bem esta dimensão. Porém,  é a própria ministra do Desenvolvimento Social e Combate à Fome, Tereza Campello, quem afirma que, 70% dos beneficiários do Bolsa Família trabalham. Mas, segundo ela entende, o que recebem é insuficiente para se sustentarem. Pois bem: cadê o estudo que comprova esta deficiência de sustento através do trabalho assalariado?  E sabem por quê é importante tal estudo? 

Reparem: quem fixa o salário mínimo no país é o próprio governo federal. Sabemos que, com dois salários mínimos e meio,  o assalariados já são tributados na fonte. É lei. Além disto, é o próprio governo, através da Secretaria de Assuntos Estratégicos quem fixou que a partir de R$ 300,00 de renda, a pessoa já passa a integrar a classe média. É um absurdo, sei disto,  mas quem estabeleceu estes limites foi o governo federal. 
Ora, se a pessoa trabalha com carteira assinada, seu salário já seria superior ao teto  máximo de renda individual para ser beneficiário do Bolsa Família, conforme fixado em lei. Se o salário mínimo é fixado pelo governo, então é o próprio governo quem determina a condição de pobreza das famílias.

Mas imaginemos que a pessoa trabalhe de maneira informal, sem carteira assinada. Há quanto tempo os leitores ouvem que muitos trabalhadores não deixam assinar suas carteiras de trabalho com medo de perder seu benefício?

Fica claro que ao governo federal não há o mínimo interesse em ver reduzido este contingente de beneficiários que, aliás, seria o correto, para que o programa se complete como programa social. Como também fica claro, e as fotos das pessoas indo em busca aos bandos à Caixa Econômica Federal que, no fundo, o programa é aquilo que sempre se disse dele nas mãos do PT: um imenso caçador de votos. 

Que hajam pessoas necessitadas, repito, não podemos duvidar. Mas pergunto: qual os programas complementares para que estas pessoas tenham a oportunidade de,no curto prazo, andarem com suas próprias pernas, sem necessidade da muleta do  assistencialismo estatal? 

Não importa qual o peso que o volume total de recursos gastos no Bolsa Família tenha em relação ao PIB, por exemplo. O que importa é que um programa distorcido, está perenizando a pobreza, e tirando do mercado de trabalho, milhões de pessoas em idade economicamente ativa que não se sentem estimuladas nem em buscarem melhor qualificação profissional, tampouco em se tornarem independentes como cidadãos. Estes milhões poderiam estar produzindo e gerando mais riquezas, e de certa forma, até preenchendo as lacunas existentes num mercado de trabalho onde o que não faltam são verdadeiros apagões. 

Da mesma forma, aquela geração de jovens na faixa etária de 16 a 24 anos, dos quais 25% não trabalham nem estudam, poderia ser estimulada a formarem nossa reserva de qualidade no futuro e, sendo bancados pelo Estado que tudo lhes provê, continuarão eternamente deitados em berço esplêndido. 

O Brasil precisa pensar seriamente sobre estas questões seriamente. Do contrário, estaremos condenado toda uma geração à ociosidade remunerada por uma parcela cada dia mais reduzida de trabalhadores, que entendem ser indigno passarem a vida inteira sustentados por seus vizinhos.  E isto se reflete, negativamente no mercado de trabalho, nos indicadores sociais que tendem a estabilização em condições muito pobres,  na perda de competitividade da nossa indústria,  na ausência de maior número de profissionais qualificados, no aumento indiscriminado do déficit da Previdência. Pensar nas mudanças que o Bolsa Família requer que sejam feitas, é pensar no país que iremos deixar para nossos filhos e netos.  Porque, senhores, programa social digno do nome, para se realizar como tal, é aquele que vê um número cada vez menor de beneficiários, e não o contrário como acontece hoje, em que já estamos perto de ter um terço da população dependente do assistencialismo. Isto tem nome e sobrenome, e não é programa social. Estamos como que transmitindo para uma leva de milhões de brasileiros que eles podem viver felizes, numa boa, sem precisarem estudar e trabalhar, só se alimentando da papinha estatal.  Não há sociedade desenvolvida que se construa com tal pensamento e sentimento. 

A bagunça de costume

O Estado de S.Paulo

Depois de insinuar que foram propositais os boatos sobre a extinção do Bolsa Família, que levaram multidões a agências da Caixa Econômica Federal em 13 Estados no penúltimo fim de semana - quando, em meio a filas e tumultos, R$ 152 milhões foram sacados em cerca de 900 mil operações eletrônicas -, o governo e o banco oficial continuam devendo uma explicação convincente para o ocorrido. Enquanto isso, robustecem-se as evidências de que a presidente Dilma Rousseff não sabia o que dizia quando afirmou que o rumor sobre o término do programa foi "criminoso". O mesmo vale, naturalmente, para o seu antecessor Luiz Inácio Lula da Silva, que saiu falando em "ato de vandalismo" e "brincadeira estúpida", sem esquecer da titular da Secretaria de Direitos Humanos, Maria do Rosário, que atribuiu a boataria a uma "central de notícias da oposição" e precisou se retratar.

Os fatos, na realidade, apontam para a clássica combinação de incompetência e tosca tentativa de acobertamento de seus resultados - no que a gestão Dilma é pródiga. Na segunda-feira seguinte aos dois dias de pânico disseminado, um alto funcionário da Caixa, o vice-presidente de Governo e Habitação, José Urbano Duarte, apareceu na TV Globo para dizer que, diante da aflição da clientela do Bolsa Família, a instituição decidiu liberar os pagamentos a todos os inscritos, quaisquer que fossem as datas autorizadas para os saques (conforme o último dígito dos respectivos cartões). A alegação se revelou falsa. No último sábado, a Folha de S.Paulo relatou que na véspera do caos, quando apenas os portadores de cartões com final 1 poderiam receber o benefício do mês, uma surpreendida dona de casa da região metropolitana de Fortaleza já tinha conseguido sacá-lo. Só então a Caixa reconheceu que os depósitos de maio, no valor total de R$ 2 milhões, precederam a corrida às agências - e não o contrário.

A quebra da rotina correu de boca em boca, desencadeando o medo - característico em tais circunstâncias, como ensina a psicologia do rumor - de que a mudança era presságio de más notícias. No caso, o encerramento do programa que transfere R$ 151 mensais, em média, a 13,8 milhões de famílias pobres. (O Bolsa Família custa ao erário quase R$ 24 bilhões por ano.) Essa hipótese parece mais plausível do que a teoria conspiratória segundo a qual alguém, não se sabe quando, teria acionado uma empresa de telemarketing do Rio de Janeiro para difundir gravações mentirosas anunciando o fim do benefício. O que pressupõe, entre outras coisas, que a firma teria ou recebeu os números dos telefones de uma parcela, ao menos, da população assistida.

Mas por que a Caixa resolveu mudar dessa vez o sistema de pagamento? Numa entrevista, anteontem, em que pediu desculpas pelo "erro" de sustentar dias a fio a versão desmascarada sobre a data da liberação antecipada do dinheiro, o presidente da Caixa, Jorge Hereda, deu uma resposta inverossímil.

Segundo ele, o banco havia descoberto que 692 mil famílias assistidas tinham mais de um cadastro, o Número de Identificação Social (NIS), que serve para definir o dia de recebimento do Bolsa Família. Apenas o NIS mais antigo foi revalidado. "Para garantir que esses beneficiários não estivessem impedidos de buscar os seus benefícios nas datas que usualmente tinham por referência", argumentou Hereda, escolheu-se liberar tudo para todos.

O nexo entre uma coisa e outra é difícil de entender, assim como o fato de o órgão responsável pela decisão, o comitê operacional do programa, não ter se dado ao trabalho de avisar a tempo nem a direção da Caixa, muito menos a população interessada. Fica no ar a suspeita de que a instituição - antes por incompetência do que por malevolência - cometeu uma falha que se recusa a admitir e de cujos efeitos tenta se distanciar a todo custo.

O Planalto, de seu lado, está numa enrascada. Tendo reagido pavlovianamente ao episódio, ao culpar a oposição pela boataria, sem procurar saber, primeiro, qual teria sido a verdadeira origem dos saques em massa, a presidente Dilma se vê mais uma vez no papel constrangedor de espectadora inerte da bagunça que reina no seu governo.

Bolsa Família: a versão oficial tem cara de boato

Josias de Souza





Ao contrário do que se imagina, o fato nem sempre é um taquígrafo frio que conta a história guiando-se pelo que ela tem de mais lógico. Por vezes, o fato tem pretensões literárias. Quando isso acontece, o improvável passa a ser o exato. O inacreditável é que é o verdadeiro.

Tome-se o caso dos boatos do Bolsa Família. Na versão oficial sobre o que se passou na Caixa Econômica Federal, personagens ordinários viveram uma sequência de fatos extraordinários. Coube ao presidente da Caixa, o petista Jorge Hereda, relatar o ocorrido.

Hereda reconheceu que a Caixa antecipou o pagamento de todos os benefícios da clientela do Bolsa Família. A instituição fez isso na sexta-feira que antecedeu o final de semana dos boatos sobre o fim do programa e sobre o falso abono que Dilma Rousseff jamais mandou pagar às mães pobres.

Segundo o companheiro Hereda, a decisão de mandar a dinheirama para os guichês antes da hora foi tomada pelo setor operacional da Caixa. Ele próprio, presidente da instituição, não foi avisado. Tampouco a ministra Tereza Campello (Desenvolvimento Social) foi informada.

Repetindo: nessa versão, tudo o que coube ao mandachuva da Caixa e à ministra do Bolsa Família foi o papel de figurantes. A turma do terceiro escalão decidiu sozinha antecipar os benefícios de mais de 13 milhões de brasileiros e achou que não devia nada aos superiores hierárquicos. Muito menos explicações.

Consumados os boatos e o sururu produzido por eles em 12 Estados, o vice-presidente de Governo e Habitação da Caixa, José Urbano Duarte, veio à boca do palco para informar que a antecipação dos benefícios ocorrera no sábado, não na sexta. Agora, pilhado na inverdade, ele alega que também não sabia das decisões tomadas nos fundões da Caixa.

Hereda descobriu há uma semana que o diretor Jorge Urbano contara uma mentira à plateia. Por que diabos deixou que o noticiário desmascarasse a Caixa para, só então, reposicionar-se em cena? Era preciso reunir o máximo de informações antes de fazer um pronunciamento público, Hereda alegou, antes de pedir desculpas.

O relato do presidente da Caixa é tão extraordinariamente sensacional que merecia ser contado como boato, não como versão oficial. O ministro petista José Eduardo Cardoso (Justiça), superior hierárquico da PF, apressou-se em declarar que não considera verossímel a tese segundo a qual a lambança da Caixa pode ter alimentado as fofocas sobre o Bolsa Família.

Isso é que é governo eficiente! Ele mesmo se enrola, ele mesmo se investiga e, antes de concluir o inquérito, ele mesmo se absolve. Para completar a script, só falta a ministra petista Maria do Rosário (Direitos Humanos) assumir o papel que lhe cabe –o de estenógrafa ascética— para resumir todo esse drama barato nos 140 caracteres do Twitter.

Nobel da Paz diz que assistencialismo deve dar espaço a soluções de longo prazo

Cecília Araújo
Veja online

Muhammad Yunus está no Brasil para lançar um fundo de apoio aos negócios sociais, além de uma filial de um centro acadêmico especializado no assunto

(Renato S. Cerqueira/Futura Press)
A ESPM, em parceria com o Nobel da Paz Muhammad Yunus, 
lança o primeiro Centro Acadêmico de Negócios Sociais da América Latina 

O Nobel da Paz Muhammad Yunus está no Brasil nesta semana para para lançar um fundo de apoio aos negócios sociais, além de uma filial do Yunus Social Business Centre, o primeiro Centro Acadêmico de Negócios Sociais da América Latina. O objetivo da instituição será fomentar o conceito e a prática do “negócio social”. “Ao se enveredar para o mundo dos negócios, a pessoa deve escolher entre acumular dinheiro ou solucionar problemas”, explicou Yunus, em palestra nesta segunda-feira em São Paulo, para um público formado por estudantes, professores, empresários e jornalistas. “Caso opte pela segunda alternativa, é preciso criar metas anuais de alcance para seu projeto como incentivo, da mesma forma como as empresas tradicionais focam no lucro”, completou. O modelo já existe no Japão, Coreia, Itália, Alemanha, Estados Unidos, França e Turquia. 

Ao ser questionado por um jornalista, “por que o Brasil?”, Yunus rebateu com outra pergunta: “por que não o Brasil?”. Segundo ele, o país tem se mostrado muito consciente sobre as questões sociais e interessado em achar soluções locais e mundiais. Mas Yunus também critica o modelo assistencialista adotado pelo governo brasileiro ao falar sobre programas como o Bolsa Família. “É importante ajudar as pessoas que precisam, mas é preciso tomar cuidado para que elas não se tornem dependentes dessa ajuda por um tempo longo demais. A Europa criou um problema nesse sentido, com várias gerações de pessoas desempregadas. É necessário pensar em ideias para tirar as pessoas dessa situação de dependência, a começar por um grupo pequeno. Esse é o desafio do negócio social”. Para Yunus, o assistencialismo deve dar espaço para soluções de longo prazo, tornando os cidadãos responsáveis e colaborando para a sua integração à sociedade.

Problemas e soluções - 
Vencedor do Prêmio Nobel da Paz de 2006 e conhecido como “banqueiro dos pobres”, Yunus é o fundador do Grameen Bank, em Bangladesh - o primeiro banco do mundo especializado em conceder microcrédito a pessoas de baixa renda. Sua história tem servido de inspiração para governos e pessoas de várias partes do mundo. “A diferença do negócio social para as contribuições de caridade é que estas não são parte de um processo de conscientização: elas fazem um ótimo trabalho, mas o dinheiro investido para ali. Para ajudar mais pessoas, é preciso começar do zero e fazer uma nova arrecadação. Já o negócio social permite que o mesmo dinheiro seja investido várias vezes”, explica. “Para todo problema que vejo, penso em um negócio que busque uma solução para ele. Se a encontro, crio novas instituições para alcançar outras pessoas que enfrentam o mesmo problema”. 

Para diminuir o desemprego, por exemplo, é possível incentivar a formação de profissionais que estão em falta no mercado. “É preciso combinar demanda e oferta”, diz. Já o microcrédito é a maior prova de que a solução de um problema local pode ser usada em vários países do mundo, sejam eles desenvolvidos ou não, por mais diferentes que sejam suas realidades.  “Às vezes os problemas parecem tão gigantes, que individualmente nos sentimos minúsculos. Meu conselho é: não se sintam ameaçados pela amplitude dos problemas em questão. Tente pensar em como ele reflete em cada indivíduo. Se você conseguir solucionar o problema para uma única pessoa, você amplia a solução para centenas, milhares, milhões: ele pode ser aplicado em qualquer lugar do mundo. A fome, o analfabetismo e o desemprego não são problemas de uma só cidade, mas de todo o país, de toda a região, de todo o planeta", pontua. 

Trajetória - 
Yunus estudou economia nos EUA e voltou a Bangladesh depois que o país se tornou independente do Paquistão (1971). Diante de uma situação desesperadora, em que a fome era protagonista, criou uma solução inusitada: emprestar pequenas quantias de dinheiro aos pobres, que jamais conseguiriam ajuda dos bancos convencionais. Em 1976, quando ainda era professor universitário, fez a primeira experiência desse tipo ao oferecer 27 dólares a um grupo de 42 artesãos em dificuldades, grande parte deles mulheres. A soma foi suficiente para que comprassem matéria-prima, vendessem sua produção de tamboretes de bambu e garantissem a continuidade do negócio. Animado com as possibilidades que a iniciativa apresentava, o intelectual virou banqueiro no ano seguinte. Fundou o banco Grameen, que significa "banco da aldeia" em bengali, e passou a fomentar a atividade econômica entre os pobres.

Em 2011, porém, Yunus foi demitido da direção do banco que fundou. Naquele ano, o banco já tinha cerca de 955 milhões de dólares em empréstimos a 8,3 milhões de tomadores de crédito. Segundo o governo, o Nobel da Paz deveria ter se aposentado das funções no banco aos 60 anos. O ministro das Finanças de Bangladesh, A.M. Muhit, chegou a sugerir que Yunus era muito velho para dirigir o banco. Deixando de lado as questões legais, alguns bengalis não descartaram a possibilidade de o economista ser vítima de uma campanha política movida pela primeira-ministra Sheikh Hasina Wajed. À época, Hasina declarou publicamente que os fornecedores de microcrédito estavam “sugando o sangue dos pobres”. Os desentendimentos entre os dois começaram em 2007, quando Yunus sugeriu que criaria seu próprio partido político para limpar seu país da corrupção na administração pública.

O falacioso sucesso do Bolsa Família

Sandro Schmitz
Instituto Millenium

Considerar um sucesso o resultado de que apenas 12% de pessoas abriram mão do benefício não passa de uma mentira descarada para a população

Na semana passada, com o estardalhaço de praxe, os órgãos governamentais anunciaram que 1,6 milhão de casas abriram mão do benefício do programa Bolsa Família, ou seja, o total de 1,690 milhão de pessoas deixaram, espontaneamente, o programa após declarar que haviam conseguido obter renda superior a R$ 140 mensais, o limite permitido pelo programa. Como não poderia deixar de ser, tal fato foi amplamente divulgado como um grande feito pelo governo federal.

Mas os dados do relatório governamental, em sua integralidade, mostram uma realidade diversa do divulgado. Essas informações foram obtidas por meio da declaração voluntária dos beneficiários. No entanto, o Ministério desconhece se a renúncia ao benefício se deve ao fato de as famílias terem aumentado sua renda ou reduzido seu número de integrantes, o que aumentaria sua renda per capita e os excluiria da faixa de beneficiários. Fica evidente o total descontrole governamental sobre o programa, que depende da boa fé dos beneficiários.

O relatório revela também que o número de pessoas que abriram mão do benefício por aumento de renda corresponde a 12% do universo dos beneficiários, ou seja, em cada 100 pessoas apenas 12 apresentaram alguma evolução em sua renda efetiva no período de dez anos caso se confirme que houve aumento de renda em todos que abriram mão do benefício. Em sentido oposto, significa que, em cada 100 do universo de beneficiários, 88 se mantiveram da mesma forma ou pioraram em relação ao início do programa. Lembrando novamente que são dados do governo federal. Ínfimo, portanto, o resultado do Bolsa Família.

De acordo com dados do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA), o o Brasil possui 16 milhões de pessoas abaixo da linha de indigência (8,5% da população), e 25 milhões de pessoas com renda inferior à linha da pobreza (15,1% da população), enquanto o programa atende 13.8 milhões de pessoas no país.

Aliás, se considerarmos os parâmetros do programa é perceptível que o mesmo se vale dos mesmos parâmetros do Banco Mundial para definição do valor do mesmo. De acordo com o Banco Mundial, é considerada na linha de indigência a pessoa que tem renda igual ou inferior US$ 1 (um dólar por dia), e linha da pobreza caso a pessoa tenha renda inferior a US$ 2 (dois dólares por dia). Este ponto de vista revela que o programa se centra em retirar pessoas da linha de indigência, mas não necessariamente da linha da pobreza, especialmente no processo inflacionário que estamos assistindo acirrar nos últimos meses.

Como o limite do programa é de R$ 140 por família, se considerarmos uma família de quatro pessoas, sendo os pais e dois filhos, teremos uma renda per capita de R$ 35, o que corresponde a R$ 1,20 por dia, sendo que na cotação do dia 13 de maio de 2013, corresponde a US$ 0,60 por dia, o que colocaria cada pessoa da família no exemplo na linha de indigência do Banco Mundial.

No entanto, como afirmei no artigo anterior, a inflação atinge com mais severidade as pessoas com menor renda, pois essa população destina 30% de sua renda para alimentação, separando o restante para outros gastos, alguns tão importantes como moradia.

Se retirarmos esses 30% do valor percebido do benefício de R$ 140, teremos como resultado o valor de R$ 98, pois 30% do benefício recebido na família usada como exemplo totalizaria R$ 42. Ainda que alguém não consiga comprar alimentos suficientes para uma família de quatro pessoas com R$ 42, assim mesmo vamos considerar que seja possível. O valor restante tornaria ainda mais baixo o valor percebido pelos beneficiários. Dessa forma, fica evidente o quanto o programa como um todo é falacioso e com fins unicamente eleitoreiros. Seus maiores resultados têm apenas dois efeitos: tornar a pessoa dependente do Estado e gerar uma fábrica de votos para o partido no poder.

Não é válido o argumento de que o efeito acima foi provocado pelo aumento do dólar, pois mesmo com a moeda em níveis de R$ 1,60, o valor pago pelo programa por pessoa equivalia a US$ 43,80, ou seja, US$ 1.50 por dia, valor entre a linha de indigência e pobreza pelos critérios do Banco Mundial, os mesmos que balizam o programa oficial do governo.

Dez anos após a implementação do Bolsa Família, considerar um sucesso o resultado de que apenas 12% de pessoas abriram mão do benefício não passa de uma mentira descarada para a população e uma ofensa a qualquer pessoa que saiba raciocinar numericamente no país. Sempre digo e repito: matemática não busca votos. Está ficando cada vez mais evidente que a competência do governo é muito mais propaganda do que realidade, pois o controle sobre a inflação se torna cada vez mais ficcional, e o Bolsa Família vem mostrando a ineficácia dos programas de transferência de renda como eu próprio já havia afirmado em outras ocasiões. Essa é a arte dos incompetentes, atacar e calar quem não vencem, ou ao menos tentar. Sempre foi assim.

Famílias numerosas recebem até R$ 1.262 do governo federal

Demétrio Weber
O Globo

Isso ocorre desde o lançamento do Brasil Carinhoso, para garantir renda superior a R$ 70 mensais por pessoa

André Coelho / O Globo 
A família de Helenice Alexandrino tem 12 pessoas
 e recebe R$ 842 por mês do Bolsa Família 

CAMPO FORMOSO (BA) — Famílias numerosas e classificadas como miseráveis ganham benefícios muito acima da média do Bolsa Família. Isso ocorre desde o ano passado, quando o governo lançou o programa Brasil Carinhoso — uma complementação para garantir renda superior a R$ 70 mensais por pessoa, que é a linha oficial de pobreza extrema. Conforme o GLOBO revelou em junho, inicialmente o repasse mais alto era de R$ 1.332 por mês. Atualmente está em R$ 1.262, de acordo com o Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome. Em Campo Formoso, na Bahia, há beneficiários recebendo R$ 842 ou até R$ 994, o que corresponde a quase um salário mínimo e meio. Embora ninguém passe fome, transferências elevadas nem sempre bastam para reverter condições miseráveis de vida.

Aos 36 anos, Helenice Alexandrino dos Santos é mãe de dez filhos. A caçula tem 4 anos e o mais velho, 18. Ela, o marido e o filhos — um total de 12 pessoas — moram numa casa sem banheiro.

— É no mato — diz Helenice.

Helenilce vive no povoado Casa Nova dos Ferreiras, nos arredores do remanescente de quilombo Lages dos Negros, a 85 quilômetros da sede de Campo Formoso (60 deles em estrada de terra).

A família começou a construir um banheiro no quintal dos fundos, mas parou por falta de dinheiro. Neste ano, porém, a casa de Helenice foi selecionada pelo governo da Bahia para ganhar um sanitário. Das 50 moradias do povoado, segundo ela, 14 teriam sido contempladas.

Quando o GLOBO esteve na residência da família de Helenilce, há duas semanas, três operários trabalhavam no local — as paredes de tijolos já tinham sido erguidas e os pedreiros aguardavam a chegada do vaso sanitário, da pia e do chuveiro. Os filhos de Helenice cavaram duas fossas.

O benefício mensal de R$ 842 supera em mais de cinco vezes o valor médio de R$ 149,70 repassado pelo Bolsa Família no país. Helenice, contudo, diz que é pouco:

— É só isso que eu tenho para comer, vestir, calçar, comprar caderno, lápis e remédio. Tinha que ter aumento.

Como não há sequer loteria no povoado, os beneficiários do Bolsa Família precisam ir até Campo Formoso. A passagem de ida e volta custa R$ 20 e o ônibus sai por volta das 3h. Os gastos com transporte, café da manhã e almoço na cidade constituem uma espécie de “pedágio” para buscar o benefício.

Emprego é carência na região
Ao contrário da área urbana de Campo Formoso, a região do quilombo continuava castigada pela seca que já dura dois anos. As plantações de mandioca, feijão e milhão não prosperam. E mesmo as de sisal, planta resistente à seca e base da economia local, cuja fibra é vendida à indústria têxtil, estavam murchando.

Com poucos empregos no comércio, nas escolas e no serviço público, a saída para quem vive em Lages dos Negros, segundo Helenice, é buscar trabalho fora. Ela conta que o marido Geraldo Ferreira dos Santos, de 40 anos, chegou a passar cinco meses num garimpo, mas voltou de mãos vazias.

— Meu marido não pode pegar trabalho pesado, fica quase sem poder andar. É por isso que não vai para fora. Antes chovia e a gente não precisava comprar feijão nem farinha — diz Helenice.

Geraldo recebeu cinco parcelas de R$ 135 do garantia-safra, uma ajuda do governo federal para enfrentar a seca, no ano passado. Indagado sobre o que falta na região, ele responde:

— Emprego.

Até quatro anos atrás, era preciso buscar água numa fonte fora de casa, usando latas para transportá-la. Hoje a residência tem água encanada, embora a residência não tenha torneiras: um único cano deságua num tanque de alvenaria, no quintal. Na maior parte do tempo, não sai nada do cano, que é abastecido por um poço artesiano.

A filha Edna Ferreira dos Santos, de 16 anos, está no 1.º ano do ensino médio. Ela tem um pôster do jogador Neymar na parede do quarto e sonha cursar letras na faculdade. Adora poesia e já escreveu mais de 300 poemas em cadernos que guarda numa sacola plástica. "Já sei por que incomodo, é a minha cor. (...) Sou negra batalhadora. E luto pela verdade", escreveu Edna.

Benefício sustenta família com 18 filhos
Em Tiquara, povoado na zona rural a 35 quilômetros da sede urbana de Campo Formoso, o casal de lavradores José Gessimo da Silva e Maria Lúcia tem 18 filhos, dos quais 15 moram com os pais, sendo que duas filhas só nos fins de semana. Eles recebem R$ 994 do Bolsa Família.

— Era para ser 20 — diz Maria Lúcia, de 45 anos, contando que sofreu dois abortos naturais.

Sem interromper a entrevista, ela começa a amamentar a caçula Melissa Vitória, de 2 anos, que está em seu colo. O primogênito, Márcio, tem 26 e já saiu de casa — trabalha como operador de máquinas na mina de cromo da cidade.

José Gessimo tem 53 anos e é o titular do cartão do Bolsa Família. Ele tem uma moto, comprada por R$ 4 mil, e uma caminhonete Ford fabricada em 1975, movida a gás, que custou R$ 6.500. José Gessimo diz que adquiriu os veículos com dinheiro que ganhou do pai, um pequeno proprietário rural de 89 anos que vendeu parte das terras para uma fábrica de cimento na região.

Jose Gessimo tem uma plantação de sisal nas terras do pai, com quem divide a produção. Ganha cerca de R$ 80 por semana. O filho Josiel, de 18 anos, ajuda no serviço e recebe, em média, R$ 50. Maria Lúcia diz que também trabalhava no sisal, mas parou há dois anos por causa de dor nas costas. Atualmente, ela ganha R$ 10 por semana para varrer um ônibus de linha que fica estacionado na frente de casa. Devido à seca, a família também recebe o seguro-safra.

A casa originalmente tinha três quatros. Hoje são cinco. A reforma incluiu a ampliação da cozinha e a construção de um banheiro — uma casinha nos fundos do quintal foi desativada.

A filha Eliana, de 18 anos, está no 3.º ano do ensino médio. Ela ajuda a mãe a tomar conta dos irmãos e sonha em ser policial militar “para prender os bandidos”.

A caixa d'água em cima do banheiro é abastecida manualmente com baldes: um filho fica no topo de uma escada, enquanto outros enchem baldes num tanque. Jose Gessimo usa a caminhonete Ford para buscar água numa fonte a cerca de 5 quilômetros da casa. É com essa água que tomam banho, dão a descarga no vaso sanitário e lavam a moto. A água de beber e cozinhar vem de uma cisterna, construída pelo governo federal e abastecida mensalmente por um carro-pipa do Exército.

— O sisal não é fixo, é por produção. As pessoas que vivem no Sul não sabem as dificuldades da região Nordeste: o clima, o tempo, a falta de chuva. A gente planta, mas é perdido. Os programas do governo são a sorte nossa — diz José Gessimo.

Beneficiários trabalham, mas ainda dependem do Bolsa Família

Exame.com
Alex Rodrigues, Agência Brasil

O programa federal de transferência de renda completa este ano dez anos de funcionamento

Valter Campanato/ABr 
A ministra do Desenvolvimento Social e Combate à Fome, Tereza Campello: 
de acordo com a ministra, é errado pensar que as pessoas beneficiadas 
pelo Bolsa Família são pobres porque não trabalham.

Brasília – Mais de 70% dos beneficiários adultos do Programa Bolsa Família trabalham, mas, mesmo assim, continuam dependentes do benefício por não obterem, somente com seus esforços, o dinheiro necessário para sustentar a família.

O dado foi fornecido hoje (21) pela ministra do Desenvolvimento Social e Combate à Fome, Tereza Campello. O programa federal de transferência de renda completa este ano dez anos de funcionamento.

De acordo com a ministra, é errado pensar que as pessoas beneficiadas pelo Bolsa Família são pobres porque não trabalham. “Muitos inclusive trabalham no campo e até mesmo têm sua terrinha, mas não conseguem tirar dela o sustento da família. Mesmo nas cidades, há muita gente que não teve condições de estudar e de participar de um curso de qualificação profissional”, disse a ministra, ao participar, esta manhã, do programa Bom Dia, Ministro, produzido pela Secretaria de Comunicação Social da Presidência da República em parceria com a EBC Serviços.

Ao comentar os transtornos causados pela onda de boatos de que o governo federal iria extinguir o Bolsa Família, a ministra foi enfática. Segundo ela, o governo nunca havia tido problemas com a execução do programa, que beneficia 13,8 milhões de famílias e que, este ano, quando completa dez anos de existência, conta com um orçamento de R$ 24 bilhões.

“Esse é um dinheiro que circula e fortalece a economia de cada uma das unidades da Federação, dinamizando o comércio e a indústria. Se o programa beneficia as famílias carentes diretamente, também ajuda a aquecer toda a economia”, comentou a ministra, rebatendo críticas ao programa, classificado por muitos como “assistencialista” e “eleitoreiro”.

Tereza Campello argumentou que o Programa Brasil sem Miséria, do qual o Bolsa Família faz parte, prevê uma série de investimentos públicos na qualificação profissional dos beneficiados por programas sociais, “exatamente para que não seja apenas a transferência de renda, o apoio que damos para que a população saia da extrema pobreza”.

De acordo com a ministra, a ampliação do Bolsa Família garantiu que 22 milhões de brasileiros deixassem a situação de extrema pobreza. “Agora, temos um grande desafio, que é levar qualificação profissional e oportunidades para essas famílias que querem melhorar sua situação”, disse a ministra.

Segundo ela, mais de 450 mil trabalhadores de todo o país já se matricularam ou estão frequentando os cursos de qualificação oferecidos por entidades como o Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (Senai), o Serviço Nacional do Comércio (Senac), o Serviço Nacional de Aprendizagem Rural (Senar) e os institutos federais de ensino por meio do Programa Nacional de Aceso ao Ensino Técnico e Emprego (Pronatec). “Estão sendo oferecidos cursos de excelência e o público tem atendido ao nosso chamado e participado”.

Ainda respondendo às críticas ao programa, a ministra disse que os dados de acompanhamento do programa indicam que o dinheiro é bem gasto pelas famílias. “Em 93% dos casos, o recurso é pago às mulheres, mães de famílias. E nossos indicadores apontam que ele é gasto em comida, remédios, material escolar, roupas e calçados. Não temos nenhum tipo de indício de que o recurso seja desviado”, comentou.

Tereza Campello disse que o Bolsa Família superou as críticas feitas no início de operação e atualmente é um programa reconhecido em todo o mundo como referência de política pública bem-sucedida. “Hoje, a maior parte da população reconhece os avanços, não só quanto à melhoria da renda, mas também por levar as crianças às salas de aula”, explicou.

De acordo com a ministra, o balanço do Bolsa Família é favorável com relação à educação. “Nestes dez anos de existência do programa, as crianças beneficiadas tiveram uma redução muito grande no percentual de evasão das escolas. E não só estão abandonando menos a escola, como conseguiram chegar a um desempenho igual às demais [da rede pública], repetindo menos de ano. Isso é uma prova de que o programa está no caminho certo”, garantiu.

***** COMENTANDO A NOTÍCIA:
Afirmações como as que a senhora Campello faz merecem um comentário longo, à parte. Se é um coisa que este governo não tem é compromisso com a verdade, com os fatos. Adoram distorcer e mistificar. Se o ministro, ou a ministra, o secretário ou a secretária, o assessor ou assessora pertencer aos quadros do PT, então, sai da frente: o crédito é z-e-r-o. Voltaremos ao final para repor a verdade nos seus devidos lugares, além de provar que a ministra faz uma afirmação que não choca ninguém. A partir dela, fica claro que o Bolsa Família é, de fato, um programa caça votos. De social, só o nome. .  

O impossível acontece.

Carlos Brickmann
Brickmann & Associados Comunicação

A história oficial dos boatos sobre o Bolsa-Família mostra que aqui tudo pode acontecer. No Brasil, elefantes voam e centopeias mancas correm na maratona.

Pois na véspera da corrida à Caixa, funcionários de escalão inferior, veja só, tomaram sozinhos a decisão de antecipar pagamentos e colocar mais de R$ 150 milhões nos guichês. Não contaram nada, os distraídos, nem ao presidente da Caixa, Jorge Hereda, nem ao vice-presidente de Governo e Habitação do banco, José Urbano Duarte, nem à ministra do Desenvolvimento Social, Tereza Campello. Nenhum dos três ficou bravo por ter sido ignorado. Numa empresa comum, pessoal de baixo escalão não toma essas decisões. Mas aqui é Brasil, zil, zil, que é rico porque é um país sem pobreza e por decreto aboliu a miséria.

Bom, houve toda a confusão. Aí o vice-presidente Urbano Duarte disse que a antecipação dos benefícios não tinha sido a causa da corrida de sexta, porque só ocorreu no sábado. Estava errado: quando aqueles funcionários atrevidinhos de baixo escalão lhe contaram a história, trocaram as datas. O presidente da Caixa, Jorge Hereda, logo descobriu o erro. Mas, como é ocupadíssimo, tem muita coisa a fazer, levou pelo menos uma semana para corrigir o equívoco do seu vice. 

E quem foram os funcionários distraídos e atrevidos que extrapolaram sua competência e tomaram decisões importantes à revelia de seus superiores? Ora, temos o pré-sal, o trem-bala, a Copa, as Olimpíadas, estádios novinhos com pequenos desabamentos, e querem saber o nome dos responsáveis. Responsáveis?

Brasil de sempre
Há uns 70 anos, o grande cineasta americano Orson Welles veio ao Brasil filmar dois episódios de um filme, É tudo verdade. Welles era gênio, tinha apoio de Washington, mas É tudo verdade, no Brasil, não chegou a ser concluído.

Bons, lá fora
O ministro da Fazenda, Guido Mantega, disse que a dívida dos Estados brasileiros com a União não será renegociada. Não há possibilidade sequer de redução de juros. Em compensação, a presidente Dilma Rousseff perdoou a dívida de US$ 900 milhões de 12 países africanos: Congo, Costa do Marfim, Gabão, Guiné, Guiné-Bissau, Mauritânia, República Democrática do Congo, São Tomé e Príncipe, Senegal, Sudão, Tanzânia e Zâmbia. 

E por que não há concessões aos Estados brasileiros, enquanto se concede tudo aos africanos? Simples: os africanos talvez votem para colocar o Brasil no Conselho de Segurança da ONU. 

Paz pacífica
Lembra das festas, com direito a muita TV, muita entrevista de autoridades, quando as favelas do Alemão, no Rio, foram pacificadas - ou seja, ocupadas pela Polícia e pelas Forças Armadas? Deu até roteiro de novela das nove. E, para comemorar de novo a grande vitória, o Governo fluminense promoveu a Corrida da Paz no domingo, 26. Claro que o Governo sabe direitinho os limites da pacificação e escalou 200 PMs para proteger os corredores.

O secretário da Segurança, José Mariano Beltrame, sabe ainda melhor, e escalou 20 seguranças para ele correr em paz. Não adiantou: os narcotraficantes, aqueles que tinham sido expulsos, lembra?, promoveram pesado tiroteio, aterrorizando os atletas. Foram mais de dez minutos de fogo com armas de mão de combate, de longo alcance. 

O Rio é governado por Cabral, mas o Porto Seguro fica muito, muito longe.

Uma, duas abobrinhas
A campanha "Conte até 10" é federal, mas por sua pertinência não podia prescindir do apoio de São Paulo e do governador tucano Alckmin. Abobrinha fica ótima com chuchu. O objetivo da campanha é evitar assassínios cometidos por impulso, no momento da raiva. Ótimo - só que quem mais está matando não tem raiva nenhuma de quem é morto. Cobiça, talvez, por seus pertences, um celular, uma mochila; e insensibilidade total, já que se mata até por divertimento.

Em São José dos Campos, SP, mais um dentista foi queimado por bandidos, depois de ser banhado em álcool (seu estado de saúde é gravíssimo). 

É o segundo caso no Estado: o primeiro foi o de Cinthya Moutinho de Souza, queimada viva por ter só R$ 30,00 na conta do banco. O caso atual é idêntico: dois bandidos entraram no consultório, acharam que o dinheiro era pouco e incendiaram a vítima. A Polícia pede informações pelo Disque-Denúncia, 181. OK: tentemos prender os bandidos em vez de contar até seja que número for. Mas há tempos o radialista João Alkimin, na mesma São José dos Campos, foi alvejado na rua. Havia testemunhas, o atentado foi filmado por câmeras de rua, os donos de caça-níqueis, que ele enfrenta, são suspeitos óbvios, mas a Polícia nada apurou.

O prefeito moto-serra
O prefeito paulistano Fernando Haddad, PT, autorizou um megadesmatamento para a construção de um condomínio de alto luxo, o Golf Village. Serão derrubadas 1.787 árvores, muitas de um trecho sobrevivente da Mata Atlântica. Licença ambiental demora? Não nesse caso: saiu em quatro meses. Segundo a Prefeitura, cortar as árvores é necessário para a descontaminação do terreno (que, até agora, ninguém sabia que estava contaminado). 

Quanto são 1.787 árvores? Mais de 10% das que existem no Ibirapuera, um dos maiores parques da cidade. 

carlos@brickmann.com.br 
www.brickmann.com.br

Hereda diz que irá ao Congresso explicar o Bolsa Família

Exame.com
Anne Warth e Ricardo Della Coletta, Estadão Conteúdo

O presidente da Caixa, Jorge Hereda, negou que tenha ocorrido falha no sistema de pagamento dos benefícios do Bolsa Família

Tânia Rêgo/ABr 
O presidente da Caixa disse que o banco poderia ter travado o sistema no sábado, 
mas decidiu mantê-lo aberto para evitar danos patrimoniais e "tragédias"

Brasília - O presidente da Caixa, Jorge Hereda, afirmou nesta segunda-feira, 27, que irá ao Congresso se for convidado para prestar esclarecimentos sobre os problemas relacionados ao pagamento do Bolsa Família.

"Eu pretendo dar esclarecimento necessário a quem quer que seja, vamos fazer o esclarecimento que o Congresso quiser", afirmou em coletiva de imprensa para explicar as ações do banco nos dias 18 e 19 deste mês, quando um boato de que o programa de transferência de renda iria acabar lotou agências da Caixa Econômica Federal em Estados do Norte, Nordeste e no Rio de Janeiro.

Hereda negou que tenha ocorrido falha no sistema de pagamento dos benefícios do Bolsa Família naquele final de semana. O que aconteceu, segundo ele, foi uma renovação do NIS, uma sistema de cadastro para programas sociais.

Desculpas
O presidente da Caixa pediu desculpas pelo fato de a instituição ter informado, na semana passada, que havia liberado o pagamento antecipado do benefício apenas no sábado, 18. O banco havia informado inicialmente que só havia liberado os pagamentos no sábado para minimizar os problemas causados pelo tumulto.

Posteriormente, no entanto, o banco reconheceu que os saques já estavam liberados um dia antes. "Essa imprecisão só se justifica pelo momento que a gente estava vivendo e eu peço desculpas pelo engano na manifestação", disse.

Perguntado por jornalistas sobre qual a razão de o banco demorar uma semana para prestar esclarecimentos, Hereda disse que pediu, na segunda-feira, 20, levantamento completo de todas as informações relacionadas ao problema, o que levou uma semana para ser concluído.

Atualização
Desde março, o banco implementou um novo cadastro de informações para todos os programas sociais do governo. Segundo Hereda, o sistema tem mais de dez anos e precisava ser atualizado, pois havia mais de 200 milhões de cadastros.

Com a atualização, o sistema identificou que cerca de 1 milhão de famílias tinham mais de um cadastro. Isso foi corrigido e cada família foi colocada em um cadastro único - o número é chamado de NIS. Hereda explicou que os pagamentos respeitam uma ordem de acordo com o número final do NIS.

Como algumas famílias tiveram o cadastro alterado, mas não foram informadas, Hereda disse que a Caixa optou por evitar que as famílias que tentassem receber o benefício não conseguissem e decidiu permitir que o pagamento fosse feito independentemente do dia específico. "Isso não foi avisado a todas as famílias em razão do comportamento de retirada do Bolsa Família", afirmou.

Hereda disse ainda que não houve nenhuma alteração no perfil de pagamento do Bolsa Família na sexta-feira. "O comportamento foi completamente normal, dentro do esperado", afirmou. No sábado, porém, houve um pico de pagamentos a partir das 13h, com um crescimento atípico, motivado, segundo ele, por boatos de que o Bolsa Família iria acabar.

O presidente da Caixa disse que o banco poderia ter travado o sistema no sábado, mas decidiu mantê-lo aberto para evitar danos patrimoniais e "tragédias".

Brasil, uma onda

Folha de São Paulo
Eliane Cantanhêde

BRASÍLIA - Este filme a gente já viu. No começo do ano, o ministro Guido Mantega estufa o peito e promete um pibão. No meio do ano, o mesmo Mantega diz que não é bem assim e revisa para baixo. No fim do ano, o mesmíssimo Mantega se conforma com um pibinho de dar dó.

O PIB deste ano seria de 4,5%, caiu para 3,5% e a nova previsão será abaixo disso, depois do banho de água fria de ontem, quando foi anunciado um crescimento de apenas 0,6% no primeiro trimestre em relação ao último trimestre de 2012. Planalto e mercado esperavam 0,9%.

Quem está segurando o crescimento positivo é justamente a agricultura, que aumentou 9,7% e compensou mais uma queda da indústria e o recuo no ritmo do consumo das famílias, muito provavelmente por causa da inflação. Preços mais altos, menos compras, certo?

É assim que a tão badalada economia brasileira vai perdendo o encanto, com PIB baixo, inflação no teto, juros em alta (apesar de toda a propaganda) e, agora, o dólar disparando, a balança comercial dando uma má notícia atrás da outra e nada de respostas na área fiscal.

Aquela onda de Brasil grande parece ir morrendo na praia, enquanto a imprensa internacional vê o país sob Dilma Rousseff como imprevisível, sem rumo, movido com um viés intervencionista. E continua sem avançar nas reformas estruturais.

Pode-se acrescentar a isso uma novidade de 2013: a toda hora o Planalto bate de frente com o Congresso, onde tem uma base aliada gigantesca, mas, pelo visto, nada fiel.

Aprovar a MP dos Portos já foi um inferno. Agora, o jeito foi incluir um "caco" na MP da Cesta Básica para cumprir a promessa de baixar a conta de luz. Uma promessa, lembre-se, feita em rede nacional de TV, com requinte de campanha eleitoral.

No caso do PIB, a culpa é do Mantega. No das MPs, da Ideli. No do Bolsa Família, da Caixa. Mas todos eles têm chefe. Ou seria "chefa"?

As mentiras, os fatos e o tornado Joaquim

Ruth De Aquino
Revista ÉPOCA

O presidente do STF usa o redemoinho da verdade para provocar políticos de mentirinha  

O Brasil também tem seu tornado – e ele se chama Joaquim Barbosa. Por muitas vezes ainda, o presidente do Supremo Tribunal Federal exercitará seu temperamento explosivo. Essa impulsividade cobra um preço alto em sua coluna lombar. E joga destroços no lombo de muita gente no Planalto. Acho sensacional quando o redemoinho da verdade atinge nossos políticos.

O tornado Joaquim só espalha o que todo mundo diz. Que os partidos são “de mentirinha”. Que “o grosso dos brasileiros não vê consistência ideológica e programática em nenhum dos partidos”. Que “os partidos e seus líderes não têm interesse em ter consistência” e “querem o poder pelo poder”. E que o Congresso prima pela ineficiência e submissão ao Executivo.

Joaquim falou como professor, em palestra no Instituto de Educação Superior de Brasília. Não é desculpa. Ele pode ser tudo, menos ingênuo. Sabe que qualquer coisa que fale, ainda mais espinafrando, tem hoje o peso da toga e da posição no STF. O juiz supremo recebeu bordoada de todo lado. O presidente da Câmara, Henrique Alves, disse que “uma declaração desrespeitosa como essa não contribui para a harmonia constitucional”. O presidente do Senado, Renan Calheiros, disse que a declaração não ajuda “o fortalecimento das instituições”.

Joaquim – é pelo primeiro nome que o povo o conhece e o aplaude nas ruas – não negou nem voltou atrás, apenas afirmou ter falado como acadêmico em recinto fechado. Ora, ministro, paredes não resistem a tornados. Joaquim acha mesmo tudo o que disse. Na concepção de Alves e Renan, temos então no STF um golpista, um revolucionário, um juiz que joga contra a democracia e quer ver o circo pegar fogo. Menos, menos.

O roteiro da costura de alianças para 2014 é pior que na última novela da Globo, Salve Jorge. Estamos assistindo a “Salve-se quem puder”. É constrangedor acompanhar as cambalhotas de PT, PMDB, PSDB e PSB em busca de votos e palanques. Todas as declarações para a imprensa têm um quê de ameaça, chantagem, destempero, falsos beijos e tapinhas nas costas. Os slogans são pífios, os discursos são gritados. Como seria bom mandar todos os candidatos para a Capadócia, dar um tempo no noticiário político. Há uma imensa carência de ideias e programas. Capítulo após capítulo, vemos uma guerrinha de personalidades, saias justas, jantares conspiratórios.

Acompanhamos boquiabertos a manipulação de estatísticas jogadas para baixo – como os índices de inflação e o total de miseráveis. No fundo, a realidade dos políticos é rasa. A governadora Roseana Sarney só pressiona por mais uma ajudinha de R$ 1,5 bilhão para o Maranhão, o Estado que desmoraliza o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH). Pensando bem, o pedido de Roseana não é nada para um governo federal que gasta com 39 ministérios, em 17 prédios, a fortuna anual de R$ 58 bilhões, mais que o dobro do Bolsa Família. Falar contra esse escândalo do toma lá dá cá também atenta contra a democracia? Essa gastança é imposta a todos nós, que já sentimos a inflação pesar a cada visita ao supermercado. Não dá para enganar todos o tempo inteiro.

Será que o comportamento errático do Congresso e de nossos partidos colabora para “o fortalecimento das instituições”? Esqueçam Joaquim e olhem para seu próprio umbigo. Ah, a Justiça também tem sua parcela de culpa. Várias decisões do STF nos últimos anos contribuíram para tornar os partidos pouco representativos. As falhas do Judiciário não desmerecem, porém, o discurso de Joaquim por um Legislativo mais eficaz. Com objetivos mais nobres, que honrem o espírito público. É só ter mais coerência e princípios. Mentir menos. Tudo isso ajudaria, sim, na democracia. Ajudaria a votar com gosto e convicção.

As críticas de Joaquim aos partidos encontram um eco poderoso no mais novo indicado ao STF: o advogado Luís Roberto Barroso. Ele sempre defendeu uma reforma política abrangente, “que desça à raiz do problema” e combata “a corrupção e o fisiologismo”. Barroso critica Fernando Henrique Cardoso e Lula: “Nem FHC nem Lula tentaram mudar o modo como se faz política no Brasil. (...) Eles aderiram a esse modelo de presidencialismo sem base ideológica, com eleições em que se vota em candidatos, e não em partidos”. Traduzindo para o português corrente: nossos partidos são de mentirinha.

O tornado é um intenso redemoinho de vento que ocorre quando uma nuvem em movimento alcança a terra. No Brasil, esse fenômeno costuma ocorrer quando se dá o microfone a Joaquim.

Derrapagem na curva

Dora Kramer 
O Estado de S.Paulo

Até pela prática autoritária e centralizadora da presidente da República, conhecida por não dar autonomia nem aos ministros "da casa", não é crível que o governo tenha deixado para o terceiro escalão uma decisão como a antecipação dos pagamentos aos beneficiários de programa tão estratégico (sob todos os aspectos) como o Bolsa Família.

Se algo tão importante quanto alterações no cronograma de liberação do dinheiro foi feito sem ao menos se informar à diretoria específica (Habitação), pior ainda. Quer dizer que nem a joia da coroa está a salvo da impressão de bagunça - política e administrativamente falando - que assola o governo de Dilma Rousseff. Sob qualquer ângulo que se olhe, a história é uma peneira.

Recapitulando: nos dias 18 e 19 de maio houve uma corrida aos caixas eletrônicos da Caixa Econômica Federal devido a boatos sobre o fim do programa. No dia seguinte, a CEF anunciou que antecipara os pagamentos para segunda-feira, 20, a fim de aplacar os ânimos dos beneficiários.

Em seguida, mudou a versão: segundo o vice-presidente responsável pela área, os saques haviam na verdade sido antecipados para o fim de semana, mas ele não sabia. Horas depois, a ministra do Desenvolvimento Social confirmou que os pagamentos haviam sido liberados por causa dos boatos.

Uma semana depois, o presidente da Caixa informou que o calendário na verdade fora alterado no dia anterior aos boatos, 17 de maio, e atribuiu a decisão à área operacional da CEF, que nada lhe comunicara.

Nesse meio tempo, a ministra dos Direitos Humanos saiu dizendo que o falatório era coisa da oposição e o ministro da Justiça declarou que havia sinais de "ação orquestrada".

Como se viu, o maestro da cacofonia foi o próprio governo. Junto a versões difundidas pela assessoria de imprensa do Palácio do Planalto sobre a "irritação" da presidente com o episódio - que, aliás, havia sido qualificado por ela como ato criminoso - , o presidente da CEF nesta segunda-feira deu uma entrevista para supostamente esclarecer as coisas.

Disse que levou uma semana para falar porque precisava "entender com clareza" o que acontecera. Ora, se real a explicação fornecida por ele, não precisava de muito esforço de compreensão.

Disse que a Caixa cometeu uma "imprecisão" decorrente do nervosismo diante do corre-corre e dos boatos. Não foi uma imprecisão, foi mentira mesmo dizer que o adiantamento deveu-se aos saques em quantidade anormal quando se sabia que a antecipação fora ordenada na véspera.

Disse que a CEF não considerou necessário avisar a ninguém - e aqui falamos dos "clientes" do programa - porque em média "apenas" 70% dos beneficiários fazem saques nos dias marcados nos respectivos cartões. Ou seja, a ampla maioria, que por si só justificaria um aviso.

O dado concreto e o efeito substantivo de uma confusão dessas é o abalo da confiabilidade do governo numa parcela da população que até agora estava alheia ao debate, digamos, de elite, sobre a ineficácia da administração federal.

O que era conversa de políticos insatisfeitos com a desarticulação no Congresso e com o trato dado a partidos aliados; o que era tema de empresários agastados com o travamento dos negócios devido à falta de infraestrutura; o que era assunto de economistas sobre alta de inflação e maquiagem de dados estatísticos, chegou àquele setor da sociedade que assegura altos índices de popularidade à presidente.

Uma derrapagem na curva capaz de abrir o mais sério flanco por onde os adversários de Dilma encontrem matéria-prima para estabelecer diálogo com o grosso da população sobre a qualidade da gestão daqueles que comandam e pretendem comandar por muito tempo o Brasil.

O ambiente exige respeito

Carlos Alberto Sardenberg
O Globo

Por que o empresário da construção civil não constroi mais prédios se os juros estão baixos e há estímulo ao comprador? Ele até quer fazer mais, mas é tomado por uma ponta de dúvida: essas regras, essas circunstâncias valem até quando?

"Confiança, o senhor sabe, não se tira das coisas feitas ou perfeitas: ela rodeia, é o quente da pessoa" (Guimarães Rosa)

Quando estimam o crescimento da economia, os economistas estão, claro, imaginando o futuro. Mas com boa matemática. Vem tudo encadeado. Uma área plantada de tantos hectares, mais um determinado consumo de sementes, deve levar a uma safra de tantas toneladas de grãos. Acrescente-se aí um ganho de produtividade pelo uso de novos equipamentos já encomendados e uma previsão de bons preços internacionais, o que anima o produtor a plantar, e a safra pode acrescentar tantos pontos ao Produto Interno Bruto do próximo ano.

Do mesmo modo, com carros. Estímulos do governo, juros baixos, renda da população, capacidade instalada da indústria mais ganhos esperados com novas fábricas e máquinas - soma-se isso tudo, dá uma determinada produção e consumo de automóveis, o que equivale a tantos pontos do PIB.

Ou a Copa. Observa-se a lista de obras - incluindo estádios, aeroportos, transportes em geral, novos hotéis, telecomunicações, etc - coloca-se no calendário e, pronto, mais um pedaço de PIB. Sabe-se que um avanço determinado na construção civil deve dar um ganho de tanto no PIB.

Mas por que, então, os erros são tão frequentes, para menos e para mais? Primeiro, porque são milhares de hipóteses a serem formuladas, um exercício passível de falhas mesmo com os melhores e maiores computadores. Segundo, porque nem sempre é possível recolher todas as informações necessárias. E terceiro porque, bem, porque estamos lidando com pessoas.

Ok, os juros estão baratos, os preços estão melhorando, vai se colocar mais etanol na gasolina - de modo que está na hora de investir na reforma do canavial e da usina. Será mesmo? - vacila o agricultor lá na sua subjetividade. E se o governo, tocado por pessoas, como se sabe, mudar tudo de novo na política do álcool/açúcar?

O resultado é menos investimento. Segue-se toda a sequência, e dá menos PIB.

Considerem a Copa. Os investimentos em curso já são menores do que os estimados anteriormente porque muita coisa atrasou e muitas outras foram deixadas de lado.

Ou as telecomunicações. Para atender as necessidades da Copa - desde a transmissão dos jogos em HD, com dezenas de câmeras, até os torcedores nos estádios mandando milhares de fotos - é preciso instalar novos equipamentos, entre os quais mais de dez mil torres para celulares. Mas em muitas cidades do país, muita gente ainda acha que essas torres podem dar câncer. Vai daí, menos PIB.

Como se pode perceber, é difícil medir, mas o ambiente, o jeitão da coisa, o grau de confiança das pessoas, onde quer que estejam, determinam o crescimento de um país. Daí as falhas de previsão, que podem ser para mais ou para menos.

Para tomar um exemplo clássico: olhando pela matemática, pelos fundamentos econômicos e pela capacidade de gestão do governo brasileiro, a ideia de construir Brasília, tirar uma cidade do nada e colocá-la no meio do nada, parecia um completo delírio. Mas saiu, sabe-se lá como. Sabe-se, porém, que a força motriz foi o clima de extrema confiança dos anos JK. Pode-se até dizer, hoje, que era uma confiança desmedida, fora de proposito. Mas foi assim que funcionou.

Hoje, parece ser o contrário. As pessoas do governo Dilma estão inconformadas. Com tanto estímulo ao consumo e ao investimento, presenteados pelo governo, como é que o país não cresce? A presidente já chegou a dizer que não estaria satisfeita com crescimento menor que 4,5% anual. Hoje, tenta salvar dois e alguma coisa - e não está fácil.

É o ambiente, o jeitão da coisa, a falta de confiança. Por que o empresário da construção civil não constrói mais prédios se os juros estão baixos e há estímulo ao comprador? Ele até quer fazer mais, mas é tomado por uma ponta de dúvida: essas regras, essas circunstâncias valem até quando?

O investidor privado que precisa construir um porto gostou das novas regras do setor, que favorecem isso. Mas também fica com uma ponta de dúvida: as novas regras prejudicaram o investidor privado que já havia investido em portos públicos. Podem mudar de novo, não é mesmo? E reparem que estamos falando de investimentos de 30 anos.

E o dólar? O governo segurou, puxou até R$ 2,10, deixou cair, está subindo de novo. E os juros? Entraram na propaganda como em queda, mas estão subindo de novo.

Os economistas ressaltam sempre a importância de um ambiente regulatório consistente, claro e seguro. É tudo que não temos. Aí fica muito na dependência de decisões pessoais. E aí ....

Decepcionante

Celso Ming  
O Estado de S.Paulo

O ministro da Fazenda, Guido Mantega, lembrou ontem sua cara de paisagem, criada em 2011 para enfrentar reivindicações da Bolsa. Foi com ela que tentou esconder sua frustração com os resultados do primeiro trimestre. Como fez outras vezes, Mantega olhou para os números das Contas Nacionais divulgadas pelo IBGE e tentou convencer o resto do País de que as coisas refletem mais o copo cheio do que o vazio:

"Estamos crescendo este ano mais do que no ano passado", disse ele na entrevista que deu logo depois de conhecidos os dados do PIB. No primeiro trimestre de 2012, o Brasil cresceu apenas 0,1%; no primeiro trimestre deste ano, cresceu 0,6%. Como ao longo de todo o ano de 2013, o PIB vai crescer bem mais do que o medíocre 0,9% registrado em 2012, o ministro não deixa de ter uma dose de razão. Mas, convenhamos, para quem apostava num avanço do PIB de 4,0% a 4,5% neste ano, os resultados do primeiro trimestre são de amargar.

A nota positiva é a melhora do investimento que, nas Contas Nacionais, leva nome e sobrenome mais comprido: Formação Bruta de Capital Fixo (FBCF). Acusou avanço de 4,6% no primeiro trimestre sobre o anterior e de 3,0% quando medido sobre o primeiro trimestre de 2012. O ministro garantiu que tem a ver com certa mudança de ênfase da política econômica, do consumo para o investimento. Ainda assim, reflete mais o grande crescimento da frota de caminhões e da construção civil do que inversões de capital em aumento da capacidade de produção. Além disso, o investimento continua baixo, de apenas 18,4% do PIB. Para garantir crescimento sustentável, da ordem de 3,5% a 4,0% ao ano, tem de ser superior a 24% do PIB, mas estamos longe disso.

Excelente surpresa é o desempenho da agropecuária: crescimento de 9,7% de um trimestre para outro e de 17,0%, em comparação com o primeiro trimestre de 2012. O problema é que o setor não pesa mais do que 5% no PIB e nas contas finais não chega a fazer diferença.

A indústria é que continua na pior. Em vez de avançar, recuou: queda de 0,3% em relação ao quarto trimestre e de 1,4% em relação ao primeiro trimestre do ano passado. A recuperação sustentável do setor precisa de muito mais do que desonerações pontuais e refrescos caseiros fornecidos pelo governo.

O principal imprevisto foi o baque no consumo, até recentemente o carro-chefe da política econômica. Cresceu apenas 0,1% no trimestre e 3,0% em um ano. Nesse campo, o fator negativo é o que ontem veio no diagnóstico da gerente da Coordenação de Contas Nacionais do IBGE, Rebeca Palis. O consumo, advertiu, perdeu fôlego porque a inflação vai deixando menos salário para as compras do mês. Quer dizer, o governo tem de levar mais a sério o combate à inflação se não quiser ver mais corrosão.

Não é só isso, aí vai o lado bom da moeda mais fraca: se é verdade que o governo mudou a ênfase e passou a cuidar mais do investimento do que antes, o mau desempenho do PIB pode prenunciar mudanças na condução da política econômica. 

Painel do crédito

Míriam Leitão
O Globo

O mercado de crédito brasileiro tem relevado números discrepantes. Os bancos públicos ampliaram a carteira de crédito em 29% ao ano, enquanto os bancos privados nacionais cresceram 6,2%.

A concessão de crédito para a compra de veículos está encolhendo, apesar dos incentivos à indústria automobilística. A renda cresce, mas o endividamento anda mais forte.

Numa época de elevação dos juros, a atenção em relação às dívidas deve ser ainda maior porque agora o Brasil é um país mais parecido com os outros: o total de dívidas das empresas e das famílias é mais que metade do PIB. O crédito precisava mesmo crescer, mas o temor é sempre com os excessos.

Os empréstimos para consumo estão perdendo força, mas o risco do crédito está concentrado principalmente nos bancos estatais que já respondem hoje por quase metade dos empréstimos concedidos.

A pressão do governo sobre os bancos públicos gerou esse número absurdo: Banco do Brasil, Caixa e BNDES e outros bancos estatais ampliaram suas carteiras de crédito em 29% nos últimos 12 meses.

Ao mesmo tempo, os bancos privados nacionais emprestaram apenas 6,2% a mais. Os bancos estrangeiros cresceram 6,6%.

A concessão de crédito para financiar o consumo começou a perder fôlego mesmo, mas é apenas uma queda do ritmo. O saldo cresceu 9,2% em 12 meses, bem menos que o crescimento total do crédito, de 16%.

De janeiro a abril, o crescimento foi de 2,1%. O saldo total de empréstimos destinados à compra de carros caiu 0,4% nesse período. As concessões, ou seja, novos empréstimos, recuaram 1,1%.

A inadimplência do setor de veículos havia subido muito e tem caído devagar. Era de 3,6% em março de 2011 e chegou a 7,2% em maio de 2012. Em abril deste ano, caiu para 6,3%.

O que torna pior a situação desse mercado é que os atrasos entre 15 e 90 dias no financiamento de veículos estão com taxa maior, de 8,2%. Ou seja, a inadimplência pode voltar a subir nos próximos meses.

Mesmo com o ótimo momento do mercado de trabalho, que favorece reajustes salariais, o endividamento das famílias em relação à renda de 12 meses continuou subindo e atingiu 43,99%.

A renda mensal comprometida com o pagamento das dívidas caiu um pouco, de 21,84% para 21,66%, mas continua em patamar elevado. A alta da Selic deve complicar um pouco esse quadro.

Há boas notícias. O crédito direcionado para as pessoas físicas, que serve para a compra da casa própria, subiu, em um ano, de 7,5% para 9,1% como proporção do PIB. Esse crescimento é bom porque o país tem um forte déficit habitacional.

Nos últimos 12 meses, o saldo de empréstimos imobiliários chegou a R$ 281 bilhões, com alta de 34%. Somente em abril, houve R$ 10 bi de crédito imobiliário concedido. Técnicos do governo argumentam que esse é um dos motivos para o crescimento do endividamento porque muitas famílias estão deixando de pagar aluguel para pagar essas prestações. Eles têm razão, mas isso também significa um comprometimento com uma dívida de longo prazo.

Outra boa notícia é que o estoque de crédito podre na economia — empréstimos não pagos por mais de 6 meses — está há cinco meses sem crescer. Ficou em R$ 72 bilhões, em abril, mas já esteve em R$ 74 bi, em dezembro. O que preocupa nesse indicador é que o número, em 2003, era de apenas R$ 13 bilhões.

Os juros caíram, mas algumas linhas revelam taxas absurdas. Para a compra de outros bens que não sejam veículos, a taxa recuou de 77,8% ao ano, em dezembro de 2011, para 68,2% em abril deste ano.

O cheque especial teve uma redução de mais de 30 pontos, mas continua quase sendo caso de polícia: foi de 169% a 136%.

O Brasil não é um país de famílias endividadas, mas já está num nível em que todos esses dados precisam ser acompanhados com cuidado. Tudo isso aumenta o dilema do Copom. Juros subindo tornam o crédito mais caro; inflação em alta tira renda das famílias. Mas o compromisso do BC é segurar a inflação.

Governo não pretende adotar novos estímulos ao consumo, diz Mantega

O Estado de SPaulo

Segundo o ministro da Fazenda, os estímulos do governo iniciados em 2011 estão surtindo efeito


Após a divulgação do crescimento de 0,6% do Produto Interno Bruto Brasileiro (PIB) no 1º trimestre de 2013, o ministro da Fazenda, Guido Mantega, lembrou que o País manteve o mesmo ritmo de crescimento do 4º trimestre de 2012 (o melhor do ano passado, trimestralmente), quando avançou também 0,6%.

Segundo Mantega, os estímulos dados pelo governo desde 2011 estão surtindo efeito e a economia cresce mesmo em cenário adverso internacionalmente.

Mantega afirmou que o governo não pretende fazer novos estímulos ao consumo e espera que o setor se recupere partir do dinamismo dos investimentos. Segundo ele, o consumo não será o carro-chefe do crescimento da economia.

Para o ministro da Fazenda, a qualidade do crescimento do País melhorou, pois os investimentos mostraram força, com alta de 4,6% no primeiro trimestre contra o quarto trimestre de 2012.

"A economia está em ritmo de crescimento de 2,2%", disse.

Crédito sinaliza esgotamento de modelo

Editorial 
O Globo

Copom anuncia taxa de juros no momento em que se torna consensual a necessidade de ativação dos investimentos. A inflação será decisiva

Entre as variáveis que o Conselho de Política Monetária (Copom), formado pela direção do Banco Central, analisa para decidir sobre a taxa básica de juros, a Selic, está o crédito. O anúncio a ser feito hoje pelo Conselho, de manutenção ou elevação da taxa de 7,5%, em alguma medida deverá ser condicionado pela constatação de que a concessão de financiamentos arrefece — de março para abril, o volume de dinheiro liberado caiu de R$ 14,1 bilhões para R$ 13,5 bilhões, em todas as modalidades de crédito.

Não se sabe se o fato justificará maiores preocupações com o nível de atividade ou pesará mais como indicador do esgotamento do longo ciclo de aquecimento do consumo, modelo que precisa ser substituído pela prioridade aos investimentos.

O crédito no Brasil teve um impulso nunca visto em tempos recentes, impulsionado pela queda dos juros, a própria estabilização da economia — hoje em perigo — e algumas mudanças de regulação para reduzir o risco excessivo do financiador, caso do mercado imobiliário. Depois de crescimentos vigorosos, na casa dos dois dígitos, os financiamentos se aproximam dos 55% do PIB, índice acanhado diante dos verificados em economias desenvolvidas, mas recorde no país.

O governo tem tentado prolongar ao máximo o ciclo de crescimento via consumo: capitalizou, até de forma temerária, bancos públicos, forçou-os a aumentar a participação nos financiamentos, e não para de ampliar os gastos públicos em custeio, em que arranha a responsabilidade fiscal.

Mas tudo tem um limite. A inflação em segmentos como o de serviços que o diga. Assim como o relativo esgotamento da capacidade de as famílias se endividarem, principalmente para a aquisição de bens duráveis. Segundo dados do próprio BC, em março o índice de endividamento familiar chegou a 43,99%. Quer dizer, desvia-se quase metade da renda anual. É o nível mais elevado desde quando o indicador passou a ser calculado, em 2005, e foi de 18,39%. A inadimplência não preocupa, mas o momento é de retração, para recompor renda e reconstituir capacidade de se contrair novas dívidas.

O tempo passa e fica cada vez mais evidente, e consensual, que a retomada do crescimento, de forma consistente, terá de ser impulsionada pelos investimentos. Pelo lado do governo, conspira contra a proverbial falta de agilidade da máquina pública e a ainda não superada de todo dificuldade de se fazerem licitações para o setor privado tocar projetos de infraestrutura.

Hoje, o BC tem mais uma oportunidade de, ao decidir sobre os juros com independência, ser o que se espera de todo banco central: balizador das melhores expectativas. E, por óbvio, qualquer perspectiva de inflação em alta funciona como inibidor do que o país necessita com urgência — investimentos.