Adelson Elias Vasconcellos
Sabe-se que urna não é, nunca foi e jamais poderá se transformar em lavanderia. Fosse assim, e muitos eleitos não acabariam atrás das grades pelos crimes que cometem empossados ou como governadores, prefeitos e parlamentares.
Ora, o PT aguarda o resultado das urnas, São Paulo principalmente, para se considerar “inocente” pelos crimes pelos quais sua cúpula foi julgada e condenada no STF, no processo do mensalão.
Se o PT não considera a palavra final de um Tribunal Superior como uma sentença condenatória definitiva, é porque não fez a menor ideia do que vem a ser um estado de direito. E aqui não seremos nós a tentar demovê-los desta atitude anti-democrática. Deveriam é fazer uma profunda reflexão sobre sua maneira de fazer política e tentar enquadrar-se aos limites legais previstos no código de leis vigentes no país.
Achar que a urna vai inocentá-los é insistir nas mesmas práticas vis e delinquentes com que sempre atuou. Pior do que isso; imaginam que o “povão” é estúpido demais para saber separar o joio do trigo.
Primeiro, é preciso entender que o caso do mensalão não é um fato de domínio público. Começo pelo fato de que mais de 2/3 da população é semi alfabetizada. Mal assistem noticiários de televisão que não chegam a informar a profundidade do que foi e do que resultaria caso o esquema se mantivesse em pé, para as instituições democráticas, o projeto petista. Já provamos aqui que apenas 15% dos brasileiros podem ser considerados como cidadãos informados, bem informados. O resto segue pela tradição oral, de ouvido, de ouvir falar, do que lhe contaram. Não chegam a ter domínio pleno dos fatos para traçarem um juízo de calor.
Sigo dizendo o seguinte: aqueles mais de 2/3 acima, passam a maior parte de seu dia trabalhando e correndo atrás de seus sonhos e de suas dívidas. Não têm tempo sobrando para perderem tardes e tardes assistindo as longas, e por vezes cansativas, sessões do Supremo Tribunal em que o caso mensalão está sendo julgado. E até posso concluir dizendo que os personagens envolvidos não são protagonistas da cena política atual. Pertencem ao tempo passado.
Juntando-se todos estes ingredientes o resultado que se tem é que, de fato, muito pouca influência junto às massas o mensalão poderia resultar nas eleições atuais. Se estrategicamente para os petistas elas se somam ao jogo de xadrez visando 2014, para as demais forças políticas, incluam aqui os partidos e agentes de oposição, há a busca de espaços perdidos e questiúnculas regionais do que uma estratégia bem elaborada de alianças visando as eleições de 2014. Os espaços que a oposição ocupou em 2010 e sobre o qual não soube trabalhar, vão sendo ocupados não apenas pelo PT, mas também por partidos menores, mas também o PSB de Eduardo Campos e até o PSD de Gilberto Kassab que, acrescente-se, foi a junção de inúmeros dissidentes do DEM, do PSDB e do PPS.
Logo após o término das eleições de 2010, afirmei aqui que as oposições deveriam ter-se reunido imediatamente e traçado (tentado, ao menos) uma ação estratégica não apenas visando as eleições de 2012, mas, sobretudo, para manter o espaço conquistado nas urnas recém computadas, bem como para ampliar sua presença no cenário político. Mas qual, como reunir visando o bem comum um conjunto de atores que se digladiam entre si?
Vimos recentemente a dificuldade enfrentada por Hugo Chavez diante de uma oposição que se uniu e lutou bravamente contra todas as adversidades impostas pela máquina estatal! E tal ponto que vai obrigar o venezuelano a rever sua atuação nos próximos anos.
Por aqui, não se consegue reunir as oposições nem para tomarem cafezinho, quanto mais para discutirem política. E este vazio que a sua briga interna proporcionou que o PT invadisse São Paulo com ações de desconstrução do governo Kassab, para impor qualquer nome à sua sucessão. Claro que o projeto maior é o governo do Estado que é o sonho dos sonhos dos petistas, que jamais o alcançaram. Não faltará ainda o jogo bruto (e sujo) do próprio governo federal para que o PT possa dar importantes passos rumo ao Palácio dos Bandeirantes, agora via prefeitura da capital.
Já disse em outras vezes que não há eternidade na política. Cedo ou tarde o PT descerá a mesma escada pela qual subiu. O que deve preocupar não é o tempo em que o petismo permanecerá na cena política, mas a enorme herança maldita que deixará para quem o suceder. Por isso, quanto mais tempo demorarem as oposições para entender seu real papel e a importância indissociável ao regime democrático e sua plenitude, maior se tornará a herança maldita a ser desfeita depois.
E creio que chegamos ao ponto central: não me preocupa o tamanho do PT, a preocupação é quanto o tamanho e a relevância da oposição. Talvez a derrota de José Serra, dada a sua biografia, e para um ilustre poste desconhecido, seja um divisor de águas a acender um sinal de alerta: se continuarem agindo de maneira tão omissa e ridícula, se persistirem em não valorarem o real significado de sua presença na cena política, se continuarem ignorando que o petismo é um partido de profissionais da política em todas as suas dimensões, boas e más, vão continuar contribuindo para o esvaziamento da própria política junto à população. O resultado de 2010 já foi um senhor incentivo para que se conscientizassem deste papel. Não souberam fazer a leitura. Em 2012, o elevado número de votos brancos e nulos, somado ao número de abstenções, chegou a 25%. Não é pouco não. Um em cada quatro eleitores resolveu ou não votar ou simplesmente anular o voto. Creio que se trata de um recorde histórico, e negativo. Se somados estes votos aos que não votaram no PT, simplesmente, isto forma uma imensa maioria que não se deve desprezar, além de indicar a total apatia de grande parte da população em relação à política nacional. É desencanto de um lado, e falta de vozes alternativas de outro, vozes alternativas que a oposição deveria representar.
Considerado apenas tal cenário, já se vê que a vitória do PT, dado sua presença, seus esquemas e estratégias, não é tão vitoriosa assim como tentam apregoar seus principais líderes e dirigentes. Ousaria dizer que pelo menos metade dos eleitores brasileiros esperam por um projeto de país que seja contrário ao que o PT vem implementando e ao ele representa como agente político. Reparem que até o próprio Bolsa Família, muito embora no Nordeste carreie significativa predominância de votos para os candidatos petistas, ainda assim , até pelos resultados colhidos no primeiro turno, já demonstram certo esvaziamento, é menos apelativo, entusiasma e incentiva menos. Tanto é que, apesar de ter tido, em 2012, menor presença do que em 2008, em termos quantitativos, o partido mais votado continua sendo o PMDB, não o PT, apesar do crescimento deste.
Portanto, está na hora das oposições sentarem e discutirem seu próprio destino. Devem começar por colocar de lado as vaidades pessoais em nome de um projeto de país que seja bom para todos os figurantes, independente de quem venha a ser o líder da manada. Se um ganhar, todos ganham. Além disto, se observarem bem, o que existe de deficiências no governo petista é um espanto. Ali, o que não falta é incompetência, mau gerenciamento, falta de planejamento e até diria total ausência de metas a serem alcançadas. Há muito discurso, muita solenidade, muitos programas e projetos, mas todos vazios em comprometimento para sua completa execução. Qualquer avaliação que se faça sobre os serviços públicos, nenhum alcançará sequer o conceito de bom, ou de mais ou menos. É de regular para baixo. São deprimentes, caóticos, patéticos, abaixo da crítica. Apenas neste campo, serviços públicos, já se teria uma ampla avenida a ser explorada para se depreciar qualquer governo.
Mas não se fique apenas nisto. O movimento repentino no aumento de violência em São Paulo é um escândalo que poucos exploram. Por que neste ano de eleição tamanho elevação de crimes dos mais diversos tipos? Lembra, sem dúvida, o ocorrido em 2006. Mas não se vê ninguém da oposição não apenas a explorar este fato, mas a denunciar as manobras contra a própria população no terreno da segurança, tudo feito em nome de um projeto de poder perseguido pelos petistas. Serra, lamentavelmente, repetiu a sequência de campanhas ruins que promoveu para si nos últimos anos. Tornou seu discurso agressivo, quando deveria ter insistido em demonstrar os bons e ótimos resultados obtidos na Prefeitura, tanto por ele quanto pelo próprio Kassab, deveria ter mostrado os erros e as correções, deveria ter sido mais propositivo do que crítico. Foi assim em 2002, foi assim em 2010 e agora, em 2012. Não pode culpar terceiros por seus fracassos. E, entendo, mesmo à distância, que ele deve, doravante, ser mais colaborador do que protagonista das ações de seu partido. Deve dar espaço para o surgimento de novas lideranças. Arriscaria dizer que Serra, insistindo em se manter na dianteira, estaria sufocando o próprio partido, além de comprometer sua própria biografia.
Contudo, no restante do país, onde há petista governando, o grau de violência exacerbou-se não apenas em um ano específico de eleição, como vemos em São Paulo, é uma elevação constante, que cresce ano após ano, tendo a Bahia, apenas como exemplo, triplicado seus índices ao longo deste tempo. O Nordeste, de modo geral, aliás, esta é a triste realidade.
Portanto, que PSDB, DEM e PPS, e se o PSB não quiser se tornar mero capacho do PT, também este, juntem as lições que a eleição municipal de 2012 está a oferecer. Saibam planejar-se para cumprirem o papel que lhes cabe, que saibam olhar com carinho para o elevado número de eleitores insatisfeitos. É imenso o campo a ser cultivado e semeado. Claro que não será um trabalho fácil, mas quem disse que seria? O PT é um partido previsível em suas ações, mas tem um passado pouco ou nada recomendável. O telhado al,em de ser de vidro, já apresenta fissuras em enorme quantidade. É um partido em que o rótulo com a palavra “corrupção” já vem agregado. Além disto, em termos de programas, onde tentou inovar, fracassou. Onde tentou copiar, de forma vigarista, roubou para si a criação. É um partido de trambiqueiros, mas tremendamente profissional na sua arte de convencimento, mesmo que empregue os métodos mais inescrupulosos. Para eles, TODOS os fins justificam a conquista do Poder.
Portanto, e ao contrário do que pensam alguns analistas, não entendo a hegemonia petista no cenário político nacional como fruto de suas virtudes, e sim muito mais pelas omissões e falta de estratégia das oposições. E a demonstrar esta tese eis aí o resultado das eleições de 2012, com partidos sem expressão crescendo, e a incrível marca de abstenções. O PT cresceu sim, mas não o suficiente para liderar o total nacional de votos, que ainda continua tendo o PMDB à frente.

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