sexta-feira, outubro 19, 2012

A culpa é nossa


Nelson Motta
O Globo

Nossos representantes no Congresso não querem uma reforma eleitoral de verdade porque se beneficiam do atual sistema: os elegemos, pagamos a conta e eles racham o butim.

Todo político flagrado com a mão na massa de dinheiro sujo tem sempre a mesma resposta: a culpa é do sistema eleitoral. É como se eles fossem obrigados a agir contra seus princípios para não ficar em desvantagem com os adversários. Porque os políticos dependem das empresas que financiam as campanhas e, naturalmente, esperam retorno para seus investimentos. Agora eles se apresentam, como fez o incrível José Roberto Arruda, como vítimas de um sistema eleitoral perverso.

A única solução para acabar com a corrupção eleitoral e o caixa dois, eles clamam, é o financiamento público das campanhas. Não contentes em já abocanharem fundos partidários milionários bancados com dinheiro público e de desfrutarem do valioso tempo do horário eleitoral “gratuito”, mas pago pelo contribuinte às emissoras de rádio e TV, ainda acham pouco. Sob o pretexto de democratizar a disputa, querem que todas as despesas das campanhas sejam pagas por nós — e distribuídas pelos critérios deles.

Nossos representantes no Congresso não querem uma reforma eleitoral de verdade porque se beneficiam do atual sistema. Ninguém quer perder nada do que já tem e todos querem ganhar em cima dos outros. Como a culpa é nossa, porque os elegemos, pagamos a conta e eles racham o butim.

Basta ver o que eles fazem com as verbas de gabinete na Câmara e no Senado, com suas manadas de assessores e cupinchas, seus gastos em publicidade, suas viagens, suas lambanças na vida pública e na privada.

Quem vai acreditar que esse pessoal não vai mais usar dinheiro ilegal em suas campanhas? Só o medo do Supremo Tribunal Federal não vai desencorajá-los.

O insuspeito ministro Dias Toffoli, que durante anos atuou no PT e em campanhas eleitorais, apresentou uma boa solução, com sólidos argumentos: simplesmente proibir doações de pessoas jurídicas para campanhas eleitorais. Porque empresa não vota! Os eleitores são os cidadãos, as pessoas físicas, os indivíduos que têm seus candidatos, partidos e interesses; então cabe a eles contribuírem para as campanhas, dentro de rígidos limites individuais que impeçam abusos do poder econômico.

A nova conta movimento


Celso Ming 
O Estado de S.Paulo

Ontem, o Tesouro repassou para o BNDES mais um empréstimo de R$ 20 bilhões de um total de R$ 45 bilhões previstos para este ano. No ano passado, o BNDES já recebera R$ 55 bilhões.

Essas transferências cumprem a função de suprir o BNDES de recursos oficiais destinados a empréstimos de longo prazo, para viabilizar investimentos das empresas tanto públicas como privadas. Mas não são os únicos repasses do Tesouro a bancos oficiais. O Banco do Brasil deve receber neste ano até R$ 8,1 bilhões, e a Caixa Econômica Federal, outros R$ 13 bilhões - como munição para o crédito e para forçar os bancos privados a reduzir os juros nas suas operações ativas.

Embora decididos com as boas intenções de praxe, esses repasses produzem distorções. A primeira é a reedição da chamada conta movimento. Foi a união incestuosa entre Tesouro e Banco do Brasil que financiou despesas do governo com dívida pública e emissões de moeda. Causou enormes estragos à economia brasileira até ser extinta em 1986, no governo Sarney.

O único ponto positivo dos atuais repasses do Tesouro é o de só poderem ser feitos caso, no resto, o governo cumpra um bom programa de responsabilidade fiscal. Mas, se é uma reedição de práticas condenáveis, está visto que não podem acabar bem.

A segunda incongruência já foi reconhecida pelo próprio presidente do BNDES, o economista Luciano Coutinho. Essa gambiarra fiscal, em que dinheiro público gerado com vento é injetado nas veias de algumas empresas brasileiras, impede o desenvolvimento de um mercado de capitais sadio no Brasil - onde qualquer empresa bem administrada e com um bom projeto poderia se financiar com recursos relativamente baratos para a sua expansão. Quem e qual instituição financeira pode concorrer com o BNDES (ou com o Tesouro) no fornecimento de recursos de longo prazo nessas condições? Esse é o maior obstáculo para o desenvolvimento de um mercado de debêntures, ou seja, de lançamento de títulos de longo prazo pelas empresas. O BNDES sempre fornecerá recursos mais baratos do que o mercado vai cobrar.

No passado, a falta de recursos de longo prazo para financiar o crescimento tinha outras causas - como a inflação alta ou a insegurança criada pelos fundamentos frágeis da economia. Hoje, um dos principais motivos é a ausência de poupança de longo prazo no mercado.

Esse desvio leva a outro: os bancos oficiais acabam por fazer concorrência desleal aos privados, em capitais de investimento e de crédito a prazos mais curtos.

Outro fator negativo é a escolha arbitrária dos campeões dos torneios de crescimento econômico. À medida que passa a deter o monopólio da oferta interna dos capitais de longo prazo e escolhe as empresas que vão desfrutá-los, outros elementos de irracionalidade se instalam na economia. Muitas vezes, eleitos assim designados são as melhores opções de investimento. Transferências de recursos com critérios políticos motivam critérios também políticos de aferição de resultado. E isso já se sabe onde vai parar.

Além disso, nem sempre os financiamentos, sejam de que prazo forem, chegam ao grupo empresarial que deles mais necessita. Ao contrário, muitas vezes a empresa já detém reservas para seus planos de investimento. Mas, uma vez que conta com o beneplácito do governo federal, prefere dar-lhes outra destinação.

Sobre o indulto


Dora Kramer 
O Estado de S.Paulo

Quando assumiu a presidência dos Estados Unidos depois da renúncia de Richard Nixon por causa do caso Watergate, Gerald Ford concedeu perdão presidencial ao antecessor e, assim, evitou punições legais para além da perda do cargo.

Entre nós existe a figura do indulto, prerrogativa exclusiva da presidência da República. Se quiser, a presidente Dilma Rousseff poderá livrar os condenados no processo do mensalão do cumprimento ou determinar a redução das penas.

Estará amparada no artigo 84 da Constituição e, portanto, oficialmente não cometeria afronta alguma à decisão do Supremo Tribunal Federal.

O juízo aí deverá ser o da conveniência, oportunidade e utilidade políticas do perdão.

São variantes importantes porque, a despeito do ato legalmente perfeito, há de ser considerada a repercussão do gesto. Na sociedade e no próprio tribunal que já estará sob a presidência do ministro Joaquim Barbosa, cujo temperamento não sugere uma aceitação sem algum tipo de reação.

Mas seria uma resistência meramente simbólica e, caso se concretizasse, a princípio não teria a concordância da maioria do colegiado, pois a Constituição é clara ao dizer que compete privativamente ao presidente da República "conceder indulto e comutar penas, com audiência, se necessário, dos órgãos instituídos em lei".

Uma vez assinado o indulto, a extinção da pena precisa ser declarada pelo "juiz competente". No caso, o relator do processo, Joaquim Barbosa. Uma formalidade, pois legalmente não teria margem para contestar a decisão presidencial.

O outro caminho a ser tentado pelos condenados poderia ser o da anistia que, além de eliminar a pena, extingue a existência do crime. Os réus voltariam a ter ficha criminal limpa. O fundamento da anistia é o esquecimento.

Diferente do indulto, não é um ato discricionário do Poder Executivo, mas um perdão que depende de lei e, portanto, do Poder Legislativo.

O mesmo Legislativo que em 2006 não deixou Dirceu concluir seu discurso de volta à Câmara quando saiu da Casa Civil, e seis meses depois lhe cassou o mandato por quebra de decoro.

Calendário.
 A previsão de que o julgamento do mensalão termine até o próximo dia 25 é considerada muito otimista por alguns ministros. Uma data tida como mais realista seria a de 9 de novembro, cinco dias antes de o atual presidente Carlos Ayres Britto se aposentar.

Por essa agenda menos acelerada, a fase dos votos poderia ser concluída até a viagem do relator Joaquim Barbosa para a Alemanha, no dia 27, mas as penas só seriam definidas após a volta dele, na semana no dia 4.

A execução das sentenças, no entanto, é impossível de ser prevista porque depende da publicação do acórdão e do exame de todos os embargos, caso defesa ou acusação apontem algum tipo de omissão, obscuridade ou contradição no documento.

No exame dos embargos as partes são ouvidas novamente, mas não há mais sustentação oral. Se forem rejeitados, fica mantido o texto original, mas, se forem aceitos, é elaborado um novo acórdão ao qual outra vez podem ser apresentados embargos.

O caminho até o trânsito em julgado e daí às prisões, como se vê, é longo e vai entrar por 2013 afora.

Talvez mais, a julgar pelo caso do deputado federal Natan Donadon, condenado pelo STF em 2010 a 13 anos de prisão por desvio público e até hoje solto por força de recursos.

Podia ser pior. 
Condenados por corrupção ativa e ainda a serem julgados por formação de quadrilha, Dirceu e Genoino escaparam da denúncia por peculato.

Em 2006 a Procuradoria-Geral da República enquadrou ambos naquele crime, mas a acusação foi recusada em 2007 no STF por unanimidade.


Lewandowski entra para a História como o pior ministro que o Supremo já teve


Carlos Newton
Tribuna da Imprensa

  
Toffoli ainda deu parabéns…

Reportagem de Débora Zampier, da Agência Brasil, mostra que o ministro Ricardo Lewandowski, revisor da Ação Penal 470, resolveu rasgar a fantasia e absolveu todos os 13 réus acusados de formação de quadrilha no Capítulo 2 do processo do mensalão.

Detalhe importantíssimo: o ministro ainda mudou o voto anteriormente dado para absolver parlamentares condenados por ele por formação de quadrilha no Capítulo 6, cujo tema central era o crime de corrupção passiva. Com a mudança, o revisor inocentou todos os réus acusados do crime de formação de quadrilha no processo.

Para dar essa guinada, o ministro distorceu uma tese lançada em outra votação pela ministra Rosa Weber, para quem os réus nem sempre se associam como quadrilha para cometer crimes. Na visão de Weber, manifestada no Capítulo 6, há situações em que os réus fazem apenas uma coparticipação para obter vantagens individuais.

Lewandowski releu grande parte do voto da ministra, para argumentar que só existe quadrilha quando os réus se associam de forma permanente para perturbar a paz social.  Ou seja, não existiria quadrilha formada apenas para um único crime, como um assalto a banco. Para constituir formação de quadrilha, na visão deturpada de Lewandoswi, os criminosos teriam de se unir para sempre, como no casamento religioso…

Ele inovou em matéria de Direito também ao destacar que, na formação de quadrilha,  os acusados devem sobreviver apenas do produto do crime, o que, em sua opinião, não ocorreu em relação aos 13 réus julgados nesse capítulo.

“Imputou-se a alguns réus uma série de crimes, alguns dos quais poderiam ser dispensados, ou talvez não estivessem caracterizados com a precisão técnica que se exige de uma denúncia”, disse o ministro, que fez apenas considerações teóricas e pouco citou o nome dos réus dessa etapa.

CRÍTICAS
Lewandowski ainda criticou o trabalho do Ministério Público Federal, que segundo ele, não está fazendo a diferenciação necessária entre coparticipação de réus e formação de quadrilha nos crimes que envolvem mais de três pessoas.

“O órgão acusatório entende que as penas possam ser tênues ou insatisfatórias para a resposta penal que o Estado deve dar aos ilícitos, aí agrega a formação de quadrilha. Nós, juízes, que trabalhamos na área técnica, precisamos separar o joio do trigo”, argumentou.

O ministro criticou o fato de o Ministério Público ter usado termos diferentes para se referir à quadrilha – como “organização criminosa” e “associação criminosa”. Lewandowski entendeu que não é possível fazer a aproximação semântica entre os termos, afirmando que isso prejudicou a denúncia. “Essa verdadeira miscelânea conceitual, a meu ver, enfraqueceu sobremaneira as imputações assacadas contra os réus, em especial José Dirceu”.

Lewandowski encerrou as considerações alterando o voto no Capítulo 6, no qual tinha condenado vários réus por formação de quadrilha. A alteração resultou em empates em relação a dois réus que tinham placar de 6 votos a 4 pela condenação: o deputado federal Valdemar Costa Neto (PR-SP) e o ex-tesoureiro do PL (atual PR) Jacinto Lamas.

A situação desses réus será definida apenas no final do julgamento, na fase de dosimetria das penas, juntamente com os empates no crime de lavagem de dinheiro imputado aos ex-deputados José Borba (PMPD-PR), Paulo Rocha (PT-PA) e João Magno (PT-MG) e o ex-ministro dos Transportes Anderson Adauto (PL).

A sessão foi encerrada logo após o voto do revisor, e será retomada na próxima segunda-feira (22) com os votos dos ministros Rosa Weber, Luiz Fux, Antonio Dias Toffoli, Cármen Lúcia, Gilmar Mendes, Marco Aurélio Mello, Celso de Mello e o presidente Carlos Ayres Britto.

Para Lewandowski não ser considerado o pior ministro da História do Supremo, sua única esperança agora é o voto de Dias Toffoli,

Gurgel volta a defender imediata prisão dos condenados no mensalão


Vinicius Sassine e Evandro Éboli
O Globo

Advogados apresentarão memoriais para tentar reduzir punições


BRASÍLIA — Uma nova batalha de memoriais entre advogados de defesa e o Ministério Público Federal marcará as sessões que definirão a dosimetria da pena dos condenados pelos ministros do STF. Os advogados já adiantaram que apresentarão argumentos para reduzir os danos de seus clientes e buscar que seja estabelecida a pena mínima de prisão para os condenados.

O procurador-geral da República, Roberto Gurgel, também anunciou nesta quinta-feira que prepara um memorial no qual rebaterá a estratégia das defesas dos réus. No intervalo da sessão de quinta-feira, Gurgel contestou o argumento de que não devem ser presos porque não oferecem perigo à sociedade, e voltou a defender a execução imediata da pena de prisão.

— Essa hipótese de um réu não oferecer riscos existe em torno de pressupostos da prisão preventiva. Defendo a execução imediata da pena (por serem condenações definitivas) — disse o procurador.

Resultado definitivo
Esse ponto de vista deve ser manifestado no memorial que Gurgel entregará aos ministros do STF na próxima semana.

— Não existe nada no ordenamento jurídico em que prisão é só para pessoas perigosas. Prisão é cumprimento de pena por infração da lei, independentemente de periculosidade — continuou Gurgel.

Para o procurador, o julgamento observou as garantias de defesa previstas na Constituição federal, e o resultado a ser proferido pela mais alta Corte do país será, portanto, definitivo. Já os advogados afirmam que não há sequer necessidade da prisão, já que são réus que não ameaçam a sociedade.

— A prisão não é boa nem para rico nem para pobre. É colocar a cabeça desses réus a prêmio. Eles não representam qualquer risco ou ameaça à sociedade. Prender é uma alternativa falida — disse Leonardo Yarachevsky, na defesa de Simone Vasconcelos, ex-diretora da SMP&B e condenada até agora em três imputações.

Leonardo entregou nesta quinta-feira seu memorial em defesa da ré, com dez páginas:

— O que me resta agora é lutar pela pena mínima, comprovar que sua participação foi de menor importância.

O ex-ministro da Justiça José Carlos Dias, que advoga para Kátia Rabello, executiva do Banco Rural, também anunciou que apresentará recursos.

— Se Kátia for cumprir prisão, será a primeira mulher banqueira nessa situação. Ela não oferece nenhum risco, a detenção é uma desnecessidade e uma agressão. Há outras formas de punição — disse Dias.

Maurício de Oliveira Campos Júnior, advogado de Vinicius Samarane, ex-diretor do Rural, também entrará com memorial para tentar diminuir a pena a ser imposta ao cliente:

— Vou citar aspectos peculiares e mostrar o papel secundário de Vinicius nesse caso.

Márcio Thomaz Bastos, ex-ministro da Justiça e advogado de José Roberto Salgado, outro dirigente do Rural, também apresentará novos memoriais.

Possibilidade de indulto
Questionado sobre a possibilidade de os réus do mensalão condenados pelo STF serem beneficiados com um indulto presidencial nos próximos anos, Gurgel disse ser muito cedo para falar em indulto(perdão da pena, concedido após cumprimento de uma parte da pena de reclusão).

— A sociedade brasileira espera que as condenações sejam cumpridas — afirmou Gurgel.

O procurador voltou a defender a perda de mandato imediata para os três parlamentares condenados pelo STF — Valdemar Costa Neto (PR-SP), João Paulo Cunha (PT-SP) e Pedro Henry (PP-MT) — como parte do cumprimento da pena. O procurador contestou o argumento de que, em caso de empate, prevalece uma decisão favorável ao réu. Para ele, esse raciocínio vale para a concessão de habeas corpus, o que não é o caso.

Quatro réus ainda não sabem se serão condenados, em razão do empate em cinco a cinco: os ex-deputados Paulo Rocha (PT-MG), João Magno (PT-MG), Anderson Adauto (PL-MG) e José Borba (PMDB-PR). Com a mudança de voto do revisor Ricardo Lewandowski, outros dois réus entraram na lista dos empates: o deputado Valdemar Costa Neto (PR-SP) e o ex-tesoureiro do PL Jacinto Lamas.

Lewandowski muda voto para livrar mensaleiros


Gabriel Castro e Daniel Jelin
Veja online

Ministro revisor retificou posição anterior e transformou uma condenação por 6 a 4 em um empate por 5 a 5: corte ainda não decidiu como resolver impasse

Ueslei Marcelino/Reuters 
O ministro Ricardo Lewandowski durante 
retomada do julgamento do mensalão, em 18/10/2012

O ministro revisor do processo do mensalão no Supremo Tribunal Federal (STF), Ricardo Lewandowski, anunciou nesta quinta-feira uma modificação no voto que havia apresentado há três semanas e decidiu absolver todos os réus da acusação de formação de quadrilha - não só José Dirceu e outros dez réus, cujas acusações estavam em pauta nesta quinta-feira, mas também outros cinco que o próprio Lewandowski havia considerado culpados pelo crime em etapas anteriores do julgamento.

O principal beneficiado é o deputado federal Valdemar Costa Neto (PR-SP).  Ele havia sido condenado por um placar de 6 a 4, quando a corte analisou a acusação de formação de quadrilha. Com a mudança de Lewandowski, houve empate em 5 a 5. O tribunal, que está incompleto devido à aposentadoria do ministro Cezar Peluso, terá de decidir o critério a ser aplicado neste caso.

"Ultimamente, toda vez que o Ministério Público apresenta uma denúncia em que crimes são praticados por mais de quatro agentes, automaticamente já imputa aos acusados a formação de quadrilha", disse o ministro, justificando sua posição.

Lewandowski citou os votos das ministras Rosa Weber e Cármen Lúcia (e, estranhamente, um artigo de jornal) para anunciar que estava revisando sua interpretação do crime de formação de quadrilha e absolvendo todos os 21 réus acusados deste crime. As ministras Rosa Weber e Cármen Lúcia não esboçaram reação, mas a citação de Lewandowski é espantosa. Naquela "fatia" do julgamento, a ponderação de Weber – seguida por Cármen Lúcia - levava em conta que os deputados do PP e do antigo PL, comprados pelo PT, montaram uma espécie de subquadrilha com o fim único de receber a propina, o que não bastaria para a caracterização do crime de quadrilha. Este tipo penal, na leitura que as ministras fizeram da doutrina e da jurisprudência, exigiria uma associação estável dos criminosos com o fim de cometer uma série indeterminada de delitos.

Mas ao contrário do que sugere Lewandowski, não haverá nenhuma contradição se Rosa Weber – e Cármen Lúcia -, mesmo aferradas àquela interpretação do crime de quadrilha, condenarem Dirceu e cia, uma vez que é justamente neste ponto, o capítulo final do julgamento, que a denúncia aponta uma associação estável – pelo menos até o escândalo estourar - de criminosos montada para a prática organizada e contumaz de delitos em série contra a administração pública, o sistema financeiro e, acima de tudo, a democracia. 

Além de Valdemar Costa Neto, Lewandowski mudou sua posição para absolver o ex-deputado Pedro Corrêa (PP-PE) e os réus Enivaldo Quadrado, João Cláudio Genu e Jacinto Lamas, cujas acusações a corte já havia analisado em setembro. O ministro revisor também anuciou nesta quinta seu voto pela absolvição de José Dirceu, Delúbio Soares, José Genoino, Marcos Valério e mais nove réus acusados no último capítulo do processo. Outros quatro réus já tinham a situação em aberto devido a votações empatadas: o ex-ministro Anderson Adauto (PTB) e os ex-deputados José Borba (PMDB-PR), João Magno (PT-MG) e Paulo Rocha (PT-PA).

Uma corrente defende que, com o empate, o réu seja absolvido automaticamente porque não há maioria para puni-lo. Outra corrente argumenta que o voto do presidente deve ser usado para desempatar o resultado. Neste caso, Valdemar e os outros quatro réus seriam condenados.

No caso de Valdemar, a corte também formou maioria para condená-lo por corrupção passiva e lavagem de dinheiro. Essas decisões permanecem inalteradas por ora.

Os vários tons


Merval Pereira
O Globo

O julgamento do mensalão caminha para seu término sem que existam itens ainda por julgar que possam interferir no resultado final, que já foi dado com a definição pela maioria do STF de que houve desvio de dinheiro público para a compra de apoio político no Congresso e a identificação e condenação dos atores dos crimes, tanto ativos quanto passivos.

A acusação de formação de quadrilha, da qual o ex-ministro José Dirceu seria “o chefe”, que parecia ser a base para a acusação, acabou sendo relegada a plano secundário.

Ainda é mais provável que o núcleo político do PT — Dirceu, Genoino e Delúbio, mais Silvinho Pereira, que está fora do julgamento por ter feito acordo — seja condenado por quadrilha também, mas, mesmo que tal não venha a ocorrer, por desentendimento entre os ministros sobre a definição do crime, nada mudará a essência do esquema criminoso, cuja acusação passará a ser de coautoria criminosa.

A definição de “formação de quadrilha” está sendo debatida no plenário do Supremo em vários outros itens, e há divergências de conceituação.

Elas foram suficientes, até agora, para absolver uns poucos da acusação, mas a condenação de alguns chegou a ter quatro votos pela absolvição.

Mesmo que não veja confirmada no STF sua condição de chefe de quadrilha, Dirceu já foi identificado como aquele que detinha “o domínio do fato”, isto é, quem comandava a ação considerada criminosa pelo Supremo.

Também a absolvição do marqueteiro Duda Mendonça das acusações de evasão de divisas e lavagem de dinheiro não muda a essência da denúncia, embora afaste da campanha presidencial de 2002, na qual Duda Mendonça ajudou a eleger Lula pela primeira vez, a pecha de ter sido financiada com dinheiro do mensalão.

Mas a parte importante do julgamento vem depois de seu término, na definição da dosimetria das penas. Essas questões, que incluem agravantes e atenuantes e até mesmo a definição legal dos crimes, já estão sendo negociadas nos bastidores, através da ação dos advogados que buscam razões para convencer os juízes de que os réus não merecem penas muito graves.

O caso politicamente mais delicado é o de Dirceu, condenado por enquanto por corrupção ativa nove vezes:

na página 103, (item a) da denúncia está dito que “José Dirceu, Delúbio Soares, José Genoino, Silvio Pereira, Marcos Valério etc, em concurso material, estão incursos 3 vezes nas penas do artigo 333 do Código Penal;

na página 112, (item a), a denúncia diz que o crime foi praticado 2 vezes em concurso material;

na página 117, (item a), diz que o crime foi praticado três vezes em concurso material;

e na página 120, (item a) imputa o crime mais uma vez, sempre em concurso material.

O que isso quer dizer? O “concurso material” definido no artigo 69 do Código Penal é quando “o agente, mediante mais de uma ação ou omissão, pratica dois ou mais crimes, idênticos ou não”. Nesse caso, diz o CP, “aplicam-se cumulativamente as penas privativas de liberdade em que haja incorrido”.

Pela denúncia, portanto, o ex-chefe da Casa Civil poderá responder a um mínimo de 18 anos e a um máximo de 108 anos de cadeia. Se pegar a pena mínima de dois anos (a máxima é de 12), terá que cumprir três anos em regime fechado (1/6 da pena) para ter direito à progressão da pena.

Mas o STF não precisa concordar com a denúncia. Na hora da aplicação da pena, a tal da dosimetria, os ministros terão de decidir se entendem que os crimes foram praticados em concurso material, formal ou se é caso de crime continuado.

O Código Penal define, em seu artigo 71, o crime continuado como aquele em que “o agente, mediante mais de uma ação ou omissão, pratica dois ou mais crimes da mesma espécie e, pelas condições de tempo, lugar, maneira de execução e outras semelhantes, devem os subsequentes ser havidos como continuação do primeiro, aplicasse-lhe a pena de um só crime, se idênticas, ou a mais grave, se diversas, aumentada, em qualquer caso, de um sexto a dois terços”.

Se incluído nessa categoria, Dirceu poderá pegar condenação de menos de 8 anos, em regime semiaberto, só dormindo na cadeia.

Talvez mais por isso do que pela eleição paulistana, Dirceu decidiu desistir, pelo menos por enquanto, de convocar as massas em sua defesa contra o STF.

Remendos tributários e a desoneração da folha


Marcos Cintra

Os remendos fiscais continuam guiando as ações da equipe econômica, configurando assim um caminho certo para o País continuar tendo um dos piores sistemas tributários do mundo

O governo federal segue fragilizando a estrutura brasileira de impostos. Os remendos fiscais continuam guiando as ações da equipe econômica, configurando assim um caminho certo para o País continuar tendo um dos piores sistemas tributários do mundo, como periodicamente apura o Fórum Econômico Mundial.

No momento o foco dos remendos tributários tem sido a contribuição previdenciária patronal. Setores deixam de recolher para o INSS os 20% sobre a folha de pagamentos e passam a pagar 1% ou 2% sobre o faturamento. Em duas etapas anteriores foram contemplados 15 segmentos e na terceira fase, anunciada em setembro para ter validade a partir de 2013, esse número chegou a 40.

Desonerar a folha de salários da forma como vem sendo feito implica menor benefício para setores dotados de um parque tecnológico moderno e para as empresas que terceirizam parte expressiva da produção. Outro aspecto relevante é que a medida só vale para produtos específicos. Se uma empresa tem apenas uma parte de sua receita obtida através dos produtos enquadrados na legislação ela terá que apurar a contribuição previdenciária devida sobre duas bases e emitir uma guia para o recolhimento do tributo sobre o faturamento e outra guia para a contribuição sobre a folha de pagamentos. Um terceiro ponto é que o processo de desoneração da folha se concentra na indústria, quando quase 70% dos trabalhadores atuam no setor de serviços.

Portanto, o remendo na contribuição previdenciária patronal terá impacto diferenciado sobre a cadeia produtiva e acentuará a burocracia fiscal. Essa desoneração parcial não configura uma ação neutra sobre a produção, uma vez que provoca efeitos diferenciados sobre o ônus fiscal das empresas, gerando severas distorções nos preços relativos. A medida terá alcance limitado em termos de elevação da competitividade sistêmica da economia brasileira. A formalização de empregos será menor por não abranger plenamente os prestadores de serviços.

Como alternativa aos remendos casuísticos do governo, a Confederação Nacional de Serviços (CNS) prepara um projeto que terá maior alcance em termos de aumento da competitividade do sistema como um todo. A entidade propõe a substituição dos 20% do INSS sobre a folha de pagamentos de todos os setores por uma Contribuição sobre a Movimentação Financeira (CMF) com alíquota de 0,88%.

Simulando o impacto da proposta da CNS em 110 produtos evidencia-se expressiva redução da carga tributária e melhor capacidade de competição das empresas. A atual contribuição previdenciária tem impacto entre 8,8% e 15,8% sobre os preços dessas mercadorias e com a CMF esse peso cairia para entre 1,4% e 3,2%. Estudo recente da Fundação Getulio Vargas (FGV) revela que a proposta tem efeito positivo de 1,33 ponto percentual no PIB, 1,34 ponto percentual no nível de emprego e 1,51 ponto percentual na demanda global. A inflação terá recuo de 0,98 ponto percentual.

Cumpre dizer que o projeto da CNS pode ser o ponto de partida para uma reforma tributária ampla mais à frente, pois simplifica a estrutura fiscal, reduz os custos administrativos para o governo e as empresas e combate a sonegação, melhorando o padrão de incidência tributária.

Brasil ainda não está pronto para o rating A, diz Fitch


Beatriz Souza
Exame.com

País precisa progredir em relação à inflação e fatores macroeconômicos

Agência Brasil
Os cortes nos impostos feitos pelo governo 
são positivos para o crescimento da economia

São Paulo - A diretora sênior para a América Latina da Fitch, Shelly Shetty, afirmou nessa manhã em evento em São Paulo que o Brasil ainda não está pronto para ter seu rating soberano elevado para A.
 “Claramente o Brasil teve um desempenho acima da média nos últimos anos, mas ainda está abaixo quando comparado em fatores macroeconômicos com países que já têm a classificação A”, disse Shelly.

Segundo ela, quando comparado a países como Chile(o país latino-americano melhor colocado na escala Fitch), China e Polônia, o Brasil ainda precisa fazer progressos em relação à estabilização da inflação e de indicadores macroeconômicos.

Ela destacou que a desaceleração da economia vivenciada nos últimos dois anos não afeta negativamente o rating do país. Segundo ela, as perspectivas de crescimento no médio prazo, as melhorias das políticas ficais do governo e a dinâmica da dívida são mais importantes.

Atualmente o Brasil é classificado como BBB, com perspectiva estável. Na mesma categoria estão países como México e Peru. A diretora da Fitch afirmou que, para ter seu ratingelevado para A, quatro fatores são importantes: progressos na balança fiscal e na balança externa, maiores melhorias na dinâmica de crescimento da economia, progressos nas reformas econômicas, e melhorias no mix de políticas ficais e monetárias. 

Dois fatores podem trabalhar contra a elevação do rating: um grande aumento da dívida pública, e a cristalização de contingente liabilities from the financial sector. Segundo Shelly, em relação aos outros países classificados com o triplo B, o Brasil se destaca negativamente no quesito de finanças públicas. 

PIB
Shelly mostrou confiança na economia brasileira voltando a crescer 4% ao ano. Ela destacou que a força estrutural, o crescimento da classe média e do consumo, a expansão de empresas como a Petrobras, e os investimentos do governo vão levar o país de volta ao crescimento em torno de 4%.

A demanda doméstica, inclusive, é um dos fatores principais na desaceleração da economia brasileira nos últimos anos. Para 2013, a expectativa é de que o país comece a se recuperar. Shelly destacou que problemas de estruturais podem impedir que o PIB continue crescendo. No lado positivo, ela ressaltou os cortes nos impostos feitos pelo governo federal – “mas o reflexo dessas políticas leva tempo”, ressaltou.

Ligeiramente grávido


Alexandre Schwartsman 
Valor Econômico

A verdade é que a postura da política fiscal é muito mais expansionista do que o BC admite

No último Relatório de Inflação o Banco Central mudou sua avaliação da postura fiscal: o balanço público teria se deslocado de “uma posição de neutralidade para ligeiramente expansionista”, afirmação que se torna séria candidata ao “Eufemismo do Ano”, prêmio dedicado a todos aqueles que denodadamente se dedicam à nobre tarefa de evitar olhar a realidade de frente.

O mesmo BC divulgou os números consolidados do setor público até agosto, revelando que o superávit primário do governo reduziu-se de 3,6% do Produto Interno Bruto (PIB) no período janeiro a agosto de 2011 para 2,6% do PIB no mesmo período de 2012. Nos 12 meses até agosto o superávit caiu para 2,5% do PIB, bastante abaixo da meta (3,1% do PIB).

Parece que um departamento do BC não conversa com outro, pois as projeções de inflação que amparam as decisões de política monetária pressupõem que o superávit atingirá os 3,1% do PIB não apenas em 2012, mas também em 2013 e 2014. Talvez seja por isto que o BC tem sistematicamente subestimado o comportamento da inflação…

Mas acabei me desviando do que pretendia dizer. A verdade é que a postura da política fiscal é muito mais expansionista do que o BC admite. Em que pese certa frustração da previsão das receitas para o ano, pelo menos até agosto estas superaram o observado em igual período de 2011. A arrecadação de tributos, já corrigidos os efeitos da inflação, cresceu quase R$ 10 bilhões em 2012, aumento real de 1,5%. Já o conjunto das receitas federais (incluindo, entre outros, dividendos) aumentou cerca de R$ 12,5 bilhões no ano, expansão real de quase 2%. À luz disso torna-se difícil atribuir a piora fiscal, pelo menos no que diz respeito ao governo federal, ao mau desempenho das receitas.

Já os gastos federais, excluídas as transferências a Estados e municípios, aumentaram nada menos do que R$ 67,5 bilhões no período, 6,5% acima da inflação. Dentre estes as despesas correntes tiveram o maior impacto: R$ 61,5 bilhões, valor que poderia ser ainda maior se fossem computados, como eram até o ano passado, os subsídios associados ao programa “Minha Casa, Minha Vida”. Tais despesas, agora contabilizados entre os gastos de capital, aumentaram R$ 6,5 bilhões de janeiro a agosto. Vale dizer: o investimento público propriamente dito não desempenhou qualquer papel na expansão do gasto federal, o que ajuda a explicar o estado lastimável da infraestrutura.

A evolução positiva (ainda que modesta) das receitas e o crescimento expressivo do gasto deixam clara a natureza da deterioração fiscal observada no ano. Trata-se da adoção explícita de uma política fiscal expansionista, que se soma à política de estímulo à demanda por parte do Banco Central e às políticas de aumento do crédito impostas aos bancos federais.

Estas considerações, contudo, não esgotam o tema. Muitos têm notado, com razão, que parcela considerável do superávit primário tem sido obtida à custa de artifícios questionáveis.

Este ano observamos mais uma vez a criatividade contábil sendo posta à prova e o papel crescente dos dividendos na formação do superávit (apenas em agosto foram R$ 6 bilhões). Isto é problemático porque muitas vezes os dividendos proveem de operações nada ortodoxas.

Um exemplo claro vem dos empréstimos subsidiados do Tesouro ao BNDES. O Tesouro toma recursos a taxas de mercado e os repassa ao BNDES tipicamente à TJLP, subsídio que não aparece nas contas primárias. O BNDES cobra um spread sobre a TJLP e obtém lucros sobre estes empréstimos, repassando dividendos para o Tesouro, que melhoram o superávit primário.

Todavia, se o spread cobrado pelo BNDES sobre a TJLP for menor que o hiato entre a taxa de juros de mercado e a TJLP (como sói acontecer) o resultado total será negativo: o ganho com os dividendos não cobre o gasto com juros, mas, como a meta é definida em termos do superávit primário, ninguém dá a menor atenção ao tema.

Isto dito, ao removermos dividendos e concessões das receitas obtemos uma medida menos distorcida da postura de política fiscal. Esta revela (ver gráfico) que o superávit primário ajustado é hoje similar ao observado em meados de 2009. Com uma diferença crucial, porém: àquela época a economia operava com uma folga colossal, em particular no mercado de trabalho, onde o desemprego atingia 8,5%; hoje, com o desemprego a 5,5%, a folga desapareceu.

Posto de outra forma, a política fiscal é tão expansionista quanto a observada em 2009. A gravidez fiscal de então nos levou à aceleração inflacionária de 2010-11, apesar do desemprego elevado; por que a “ligeira gravidez”, acanhadamente reconhecida pelo BC, teria resultados distintos nos próximos anos?

Um debate sem sentido


Míriam Leitão  
O Globo

Discussão sem sentido é a que mobilizou o ministro da Fazenda, Guido Mantega, o presidente do Banco Central, Alexandre Tombini, de um lado, e o presidente do Fed, Ben Bernanke, do outro. É evidente que todos têm razão. Tanto as políticas monetárias expansionistas dos EUA têm impacto no mercado de moedas quanto a recuperação americana será melhor para mundo.

Se o Fed nada fizesse para resolver a crise de crédito americana é que o mundo estaria realmente encrencado. Os Estados Unidos ainda são a maior economia do planeta e a que tem o maior déficit comercial, encomenda bens e serviços de países do mundo inteiro. A dosagem das emissões monetárias do banco central americano parece às vezes exagerada, sem dúvida, mas imagine se nada tivesse sido feito pelo Fed desde o começo desta crise?

O que preocupa Ben Bernanke sempre foi o fantasma da depressão, e ele assumiu disposto a entrar para a história como o presidente do Fed que evitou a repetição do evento econômico que assombrou os EUA nos anos 30. Acabou desatento aos riscos de outros desequilíbrios que cobrarão a conta mais tarde.

O ministro Mantega criticou no FMI a política monetária americana. Recentemente, como se sabe, o Fed decidiu pela terceira injeção de recursos na economia através da compra de títulos lastreados em hipotecas, em US$ 40 bilhões por mês. Nas hipotecas está o caroço inicial da crise que desde 2008 tem produzido a desordem que o mundo tem enfrentado.

Bernanke reagiu, dizendo que tudo tem sido feito para elevar o ritmo da economia americana, o que tem reflexo positivo na economia mundial. Para ele não é claro que a política monetária de estímulo da instituição prejudique os países emergentes. Mas a desvalorização do dólar, de fato, aumentou a competitividade dos produtos americanos prejudicando o comércio com outros países.

O Brasil sentiu mais o impacto. O que era superávit virou déficit com os Estados Unidos. No ano passado, chegou a US$ 8 bilhões, e este ano está em US$ 3 bilhões até setembro. Mas o comércio bilateral sofreu também pela falta de iniciativa brasileira para buscar o mercado americano. A proporção das exportações brasileiras que vão para os Estados Unidos despencou. Nem tudo é câmbio. Empresários ouvidos pelo "Valor" dizem que é preciso ter uma política de mais facilidade de negócios e mais acordos entre os dois países. E são presidentes de empresas grandes, como a Embraer e Coteminas.

Tombini rebateu Bernanke dizendo que a política monetária prejudica, sim, as políticas macroeconômicas brasileiras. Segundo ele, a entrada excessiva de capital "dificulta o controle da inflação". Bom, aí fica difícil concordar. Se há um efeito positivo da valorização da moeda local é tornar mais fácil controlar a inflação. Desequilibra o comércio, mas derruba preços de produtos afetados pela cotação do dólar. Ele poderia dizer que essa não é a melhor forma de combater a inflação já que desorganiza a produção, mas o país só não estourou a meta em 2011 porque houve a "ajuda" do dólar baixo. Em alguns setores, chegou a haver deflação, atenuando o impacto da elevação de outros preços.

Segundo Tombini, o impacto inflacionário do fluxo de capitais ocorre porque ele produz "crescimento do crédito". Ora, quem tem feito um enorme esforço para manter alta a oferta de crédito é o próprio governo brasileiro. O BC chegou a liberar compulsório para se criar crédito para compra de automóveis. O Banco Central deveria ver onde tem errado, já que do Ministério da Fazenda não se tem muita esperança de uma autocrítica.

Falta de chuva faz ONS ligar térmicas a óleo e diesel; conta deve encarecer


Agnaldo Brito
Folha de São Paulo

O ONS (Operador Nacional do Sistema Elétrico) determinou hoje o acionamento de termoelétricas movidas a óleo combustível em todo o país para suprir uma carga de 2.100 MW médios que deixarão de ser fornecidas pelas hidrelétricas ao sistema.

A razão para essa decisão está no atraso das chuvas. O ONS só determina o acionamento destas térmicas quando a situação é crítica.

O custo por MWh (megawatt hora) gerado nessas usinas é de R$ 700, muito acima das térmicas a gás natural, que também já foram ligadas para tentar frear a queda dos reservatórios do sistema elétrico brasileiro.

Não deve faltar energia, mas os consumidores devem sentir os efeitos desse custo no ano que vem, quando as distribuidoras responsáveis pelo fornecimento da energia que consumimos receberem o reajuste das tarifas.

No alto verão --quando há abundância de água nos reservatórios--, as hidrelétricas produzem energia a um custo inferior a R$ 50 por MWh, mas isso não está ocorrendo neste momento.

Com o atraso das chuvas, o PLD (Preço de Liquidação das Diferenças) --índice utilizado pelo operador do sistema elétrico para precificar o custo da geração a partir da oferta de energia disponível nas hidrelétricas-- atinge agora níveis superiores a R$ 300 por MWh.

Como aumentou o risco de déficit no sistema, o operador determinou o acionamento das térmicas a óleo combustível. O ONS disse que o sistema de reservatórios de hidrelétricas no Sudeste e Centro-Oeste está 11,5% acima da CAR (Curva de Aversão ao Risco).

Essa "curva de aversão" foi criada para calcular qual é o tamanho do déficit de hidrelétricas no SIN (Sistema Interligado Nacional). Hoje, esse risco não deveria superar 5% no sistema. No Nordeste, a curva está 5,3% acima do nível meta.

Desde setembro, o ONS sentiu a necessidade de ligar as térmicas a óleo, mas retardou a decisão para evitar custos excessivos aos consumidores. Agora, alega que não tem mais como esperar.


Apu Gomes/Folhapress
Ar poluído e seco na região central de São Paulo


À ESPERA DAS CHUVAS
A expectativa agora é pela chegada das chuvas para a recomposição dos reservatórios. No Sudeste e Centro-Oeste, o conjunto de reservatórios das hidrelétricas está com 41,8% de sua capacidade.

No Nordeste, os reservatórios têm neste momento um volume equivalente a 37,4% de sua capacidade. No Sul, as hidrelétricas estão com uma reserva de 38% e, no Norte, de 46%.

Até o final do verão, em março de 2013, as chuvas terão de recompor essas reservas para que o país consiga cruzar o próximo período seco, entre abril e outubro.

Se as chuvas, porém, frustrarem as expectativas, o país terá de manter ligadas as térmicas por mais tempo, o que afetará as tarifas de energia em 2013. Quando isso ocorreu, em 2008, o custo repassado aos consumidores foi de quase R$ 3 bilhões.

Uma situação como essa tem potencial de reduzir os efeitos do corte tarifário que o governo está prometendo para janeiro quando as novas regras do setor elétrico entrar em vigor.

Com a MP 579, em discussão no Congresso Nacional, o governo autorizou a renovação das concessões por mais 20 anos, mas quer em troca uma redução média de 20% na conta de luz dos consumidores brasileiros.

A necessidade de maciça geração térmica pode, se alongado por muito tempo, comprometer esse plano do governo. O país saberá qual o tamanho da conta das térmicas apenas em 2013, após o período das chuvas.

A torcida do ONS é que o céu seja generoso.

Sem reajuste da gasolina, Petrobrás corta até R$ 15 bi em custos


Sergio Torres
Agência Estado

Programa emergencial para tentar reequilibrar as contas da estatal foi anunciado aos funcionários pela presidente Graça Foster

RIO - Um programa emergencial com o objetivo de economizar por ano, a partir de 2013, algo entre R$ 5 bilhões e R$ 15 bilhões foi anunciado ontem ao quadro funcional da Petrobrás pela presidente Graça Foster. Análises internas indicam que houve no ano passado o gasto de R$ 63 bilhões em atividades que poderão vir a sofrer cortes.

Em curso desde junho passado, o Programa de Otimização de Custos Operacionais (Procop)começará a ser aplicado em janeiro. Será uma tentativa de a companhia petrolífera equilibrar as finanças, já que os pedidos feitos ao governo Dilma Rousseff para aumentar o preço dos combustível não serão atendidos tão cedo, segundo Graça. O governo é o principal controlador da Petrobrás.

A fala da presidente foi realizada em auditório, diante de plateia formada por diretores, gerentes e presidentes de subsidiárias, como Transpetro, BR Distribuidora e Petrobrás Biocombustíveis. O sistema interno transmitiu a explanação da presidente em todas as unidades da petroleira. A meta foi disseminar entre os empregados a necessidade urgente de reduzir os gastos.

A prioridade dos cortes acontecerá na Diretoria de Exploração & Produção (E&P), mas também serão atingidas as diretorias de Abastecimento e de Gás e Energia. As diretrizes do Procop a partir de 2013 deverão ser divulgadas até dezembro, segundo a Petrobrás.

O foco da redução de despesas na área de E&P será o segmento de produção de óleo e gás, por meio da redução do consumo de insumos em plataformas e campos; da otimização de recursos empregados na operação e manutenção de plataformas, poços e instalações; e do aprimoramento dos recursos de logística.

Refino
Na Diretoria de Abastecimento, será afetada a área de refino e logística, com a busca do nivelamento da produtividade das refinarias, redução de estoques e menos gastos de manutenção e operação de oleodutos, terminais e navios.

As medidas para a contenção de despesas na Diretoria de Gás e Energia serão a redução do custo operacional dos gasodutos e do consumo de insumos em termelétricas e plantas de fertilizantes, onde também será buscado o gasto mais criterioso dos recursos a elas destinados.

A companhia informou que os R$ 63 bilhões mapeados são de custos fixos, chamados de "gerenciáveis" na nota distribuída. O valor exclui os gastos variáveis, como compras de matéria-prima e derivados, por exemplo. A quantia está dentro dos R$ 199 bilhões empregados em despesas operacionais pela Petrobrás em 2011.

A reação dos especialistas em petróleo de corretoras foi favorável em um primeiro momento, embora tenham considerado o pronunciamento de Graça pouco preciso.

"Acho que esse é um passo até certo ponto esperado nesta nova gestão. Já vinha sendo esperado, demorou a acontecer. A fala da presidente não foi muito esclarecedora, mas há muito setores na empresa em que podem acontecer cortes. Em uma empresa que registrou agora um prejuízo inédito em dez anos é natural que haja um programa de redução de custos", afirmou Ricardo Corrêa (Ativa Corretora), referindo-se ao prejuízo recorde de R$ 1,3 bilhão no segundo trimestre deste ano.

Mais uma prova da precariedade do transporte aéreo


Ricardo Galuppo (*) 
Brasil Econômico

O problema causado pelo acidente com o MD11 da empresa americana Centurion, que fechou o aeroporto de Viracopos por dois dias, é mais uma prova da precariedade do transporte aéreo no país. Não pelo acidente em si.

Eles acontecem de tempos em tempos e esse foi relativamente banal: uma avaria no trem de pouso no momento da aterrissagem. O avião, que estava cheio de produtos eletrônicos e outros artigos, adernou para a esquerda e parou bem no meio da pista. Até aí, um acidente. 

A partir do momento em que se constatou o fato começaram as trapalhadas que demonstram como o Brasil está distante de uma operação que ofereça segurança e conforto aos passageiros e condições de operações mínimas às empresas. 

A grande prejudicada, como se sabe, foi a companhia Azul - que tem em Viracopos o coração de suas operações -, além dos passageiros que adquiriram bilhetes em voos com partida do aeroporto de Campinas. 

O impressionante foi constatar que, no Brasil, onde a utilização dos aeroportos praticamente triplicou nos últimos 10 anos, existe um único equipamento em condição de remover um avião avariado num acidente simples como esse. 

E ele não pertence à Infraero (a autarquia federal que, até dias atrás, era a única responsável pela administração dos aeroportos brasileiros) e, sim, à TAM - empresa privada que tem suas prioridades entre as quais, naturalmente, não está o socorro a aviões de seus concorrentes. 

O consórcio Aeroportos Brasil, que assumiu a administração de Viracopos há menos de dois meses, não teve o tempo hábil para adquirir o equipamento. Nem seria o caso: apenas os aeroportos mais movimentados do mundo possuem seu próprio macaco hidráulico especial, como o utilizado nesse tipo de operação. 

Nos demais casos, existem unidades localizadas em pontos estratégicos que podem ser deslocadas com rapidez em caso de necessidade. Não há estatísticas disponíveis. Mas 46 horas em que Viracopos permaneceu fechado por causa do acidente certamente constituem um recorde mundial para esse tipo de operação.

As autoridades brasileiras, como de praxe, optaram por empurrar a responsabilidade. Na manhã de ontem, a agência reguladora que cuida dos aeroportos, publicou em seu site uma nota onde afirma que "após a apuração dos fatos, a ANAC poderá adotar medidas cabíveis, entre elas multas, restrições operacionais e até a suspensão das atividades da empresa aérea no país". 

Entre as medidas que a agência "poderá" vir a adotar não existe sequer o reconhecimento da responsabilidade do governo. 

Nos últimos anos, a Infraero gastou rios de dinheiro com a reforma de terminais que já nasceram defasados (como os de Congonhas, em São Paulo, e Santos Dumont, no Rio de Janeiro) e com puxadinhos que nada resolveram o problema da superlotação dos terminais. E não investiu um único centavo na melhoria das pistas de pouso e na compra de equipamentos de segurança.

(*) Ricardo Galuppo é publisher do Brasil Econômico

O bloqueio do aeroporto


O Estado de S.Paulo

O estouro de um pneu de um avião cargueiro ao pousar, no último sábado, às 20h40, deixou inoperante, durante praticamente dois dias, o Aeroporto de Viracopos, em Campinas. Os problemas que o acidente desencadeou são mais uma prova de incompetência no gerenciamento dos aeroportos brasileiros. Foram necessárias 46 horas para retirar a aeronave do meio da única pista daquele terminal, determinando o cancelamento de 512 voos, segundo o levantamento feito pela Infraero. Equipamento hidráulico e reboque, enviados de São Paulo, possibilitaram o nivelamento da aeronave, mas somente muitas horas mais tarde ela foi removida da pista, possibilitando que esta voltasse a ser utilizada. Cerca de 70 técnicos foram convocados para essa tarefa. Com isso, em dias de intenso movimento em consequência do feriado prolongado, cerca de 25 mil passageiros, 95% dos quais da Azul Linhas Aéreas, não puderam embarcar, sendo encaminhados pelas companhias para os congestionados aeroportos de Guarulhos e Congonhas para batalhar por uma passagem.

Como reflexo do "apagão", os voos foram totalmente suspensos em São José dos Campos e Uberlândia. A Azul pediu permissão para que seus aviões decolassem de Viracopos, usando apenas metade da pista, mas foi impedida de fazê-lo pela Anac. Depois do ocorrido, a companhia, com 15 aviões presos no terminal, resolveu suspender todos os seus voos durante esta semana. Como se isso não bastasse, houve uma pane temporária, na segunda-feira, no sistema eletrônico de check-in da TAM, no País e no exterior, resultando em novos atrasos.

Não é novidade nenhuma a suspensão de voos por várias horas ou dias no Brasil. O que muda é somente o fato que a determina e onde ela ocorre. Como afirmou Marcus Reis, professor de Gestão de Aviação Civil, o fechamento prolongado de Viracopos, não é só um problema daquele terminal. Os aeroportos brasileiros, apesar de atenderem a um número elevado de voos, não têm equipamentos a postos para esse tipo de emergência. Com infraestrutura precária, um problema mais sério em um grande aeroporto repercute em praticamente todos os outros, uma vez que os voos são concatenados.

Não se pode responsabilizar pelo ocorrido a concessionária - Aeroportos Brasil Viracopos -, que só assumirá efetivamente a administração do aeroporto no início de 2013. O que se verificou resulta da falta de investimentos pela Infraero durante vários anos. Como a de outros aeroportos do País, a capacidade de Viracopos está esgotada. Por ali passaram 7,5 milhões de passageiros em 2011, estimando-se que o número pode chegar a 9 milhões ao fim deste ano. Além disso, é o maior terminal de carga aérea do Brasil, responsável por 18% do volume transportado por essa via, na importação e na exportação. Se o número de passageiros vem se elevando constantemente, o mesmo tende a ocorrer com o transporte de carga, que já superlota os depósitos. Para se ter uma ideia, o avião transportava 67 toneladas de produtos eletrônicos.

Há planos até grandiosos para Viracopos, prevendo-se investimentos de R$ 8,4 bilhões em sua ampliação e modernização, erguendo-se ali uma verdadeira cidade-aeroporto, com hotéis, shopping centers, centro de convenções, etc. Mas a segunda pista, possibilitando pousos e decolagens simultâneas, está prevista para ser concluída somente em 2017. Vai demorar, portanto, no mínimo ainda cinco anos para que Viracopos, inaugurado em 1980 para ser principalmente um terminal de cargas, possa ter uma pista alternativa, de modo a não ficar totalmente bloqueado em caso de acidente. Isto quer dizer que aquele aeroporto, como outros que também recebem grandes volumes de carga, não pode continuar sem equipamentos eficientes para dar uma solução rápida a emergências.

Isso vai demandar, segundo os técnicos, aquisições no País ou no exterior de modernos guindastes e outros equipamentos, que podem custar caro. Mas, se nada for feito, é grande o risco de acidentes parecidos se repetirem.

Cumbica: trem ficará longe de terminais do “puxadão”


Caio do Valle 
Jornal da Tarde

Estação será construída a 300 metros do ‘puxadão’, com uma estrada no meio, e a 2 km das áreas mais movimentadas do aeroporto

SÃO PAULO - Esperado há anos por passageiros e funcionários do Aeroporto de Cumbica, em Guarulhos, o trem que servirá o local não atenderá os principais pontos de embarque aéreo. A estação final da Linha 13-Jade da Companhia Paulista de Trens Metropolitanos (CPTM) será construída na frente do chamado Terminal 4 do aeroporto (o ‘puxadão’), que responde por apenas 1,3% do movimento de viajantes e está a cerca de dois quilômetros dos terminais mais antigos e movimentados, o 1 e o 2.

Alex Silva/AE
Início da construção da Linha 13 ficou para o 
primeiro semestre do próximo ano

Não há integração física entre eles: hoje, os deslocamentos são feitos com ônibus gratuitos. Apesar disso, o governo do Estado colocou a obra em sua lista de prioridades para a Copa de 2014, cuja abertura ocorrerá em São Paulo. Também não está definido, conforme informou a CPTM, como será a ligação entre a estação de trem e o Terminal 4 do aeroporto. Eles deverão ficar a cerca de 300 metros de distância um do outro, com uma estrada de duas pistas no meio.

As informações foram passadas pelo diretor de Planejamento e Projeto da CPTM, Silvestre Eduardo Rocha Ribeiro. "Vamos ficar perto do que chamam de Terminal 4. O deslocamento a partir dali vai ser (responsabilidade) da própria concessionária aeroportuária." A construção desse ramal, que sairá da Estação Engenheiro Goulart, já existente na Linha 12-Safira, na capital, está prevista para começar no primeiro semestre de 2013, faltando quase um ano para o mundial de futebol.

Procurada pela reportagem, a Concessionária Aeroporto Internacional de Guarulhos S.A. divulgou que ainda não definiu como pretende fazer o transporte dos passageiros entre os terminais, uma vez que depende da conclusão do projeto da CPTM, prevista para ser entregue em dezembro. Em grandes aeroportos do mundo, como o Heathrow, em Londres, existem sistemas metroviários subterrâneos ligando cada terminal. No Fiumicino, que atende Roma, a conexão é feita por um monotrilho.

O engenheiro aeronáutico Jorge Leal Medeiros, da Escola Politécnica da Universidade de São Paulo (Poli-USP), diz que "é ruim" a solução de levar a Linha 13 só até o Terminal 4. "É preciso fazer a integração com os terminais maiores, senão haverá incômodo para os passageiros, que precisarão de três modais: metrô, trem e ônibus. É um desconforto a mais."

Os oito trens para compor a frota desse ramal ainda não foram comprados. Mas, caso a linha fique pronta antes da chegada deles, composições de outras linhas poderão ser deslocadas. Rocha Ribeiro diz que ainda está avaliando a possibilidade de incluir bagageiros nesses trens, para facilitar o deslocamento das pessoas com malas, a exemplo do que ocorre na Europa.

Plataforma elevada. 
A Linha 13-Jade, que deve transportar 120 mil passageiros nos dias úteis, custará R$ 1,2 bilhão. A estação que atenderá Cumbica terá plataforma central elevada e será erguida em uma faixa de grama entre o Rio Baquirivu-Guaçu e a Rodovia Hélio Smidt. A parada deverá receber cerca de 20 mil passageiros por dia, conforme aponta uma projeção da Companhia Paulista de Trens Metropolitanos. Esse é o número médio de usuários que embarcam mensalmente no Terminal 4, que hoje oferece voos somente da Webjet.

A Linha 13-Jade, em sua extensão entre a Estação Engenheiro Goulart e o Aeroporto de Cumbica, será construída em via elevada na maior parte do traçado. O bairro residencial Cecap, em Guarulhos, que fica no meio do caminho, também ganhará uma estação. Mas ela deverá ser concluída só depois que o ramal for entregue, uma vez que não é vista como prioridade para a Copa pelo governo do Estado. Embora seja a segunda maior cidade paulista, Guarulhos não tem nenhuma ligação ferroviária.

Incêndios. 
A Concessionária do Aeroporto Internacional de Guarulhos adquiriu um veículo de combate a incêndios. Usado nos principais aeroportos dos Estados Unidos e da Europa, o Panther é um dos aparelhos mais modernos do mundo e custa cerca de R$ 3 milhões. Deve chegar ao Brasil na segunda quinzena de novembro. O veículo é fabricado na Áustria. Opera com visibilidade zero e sob fumaça intensa, além de atingir 80 km/h em 30 segundos. 

Colaborou Nataly Costa

Fundos de pensão garantem controle estatal de aeroporto


Anne Warth e Beatriz Abreu
Agência Estado 

Regras para concessão de Galeão e Confins preveem que Infraero seja minoritária, mas fundos podem compor consórcio

BRASÍLIA - O governo deve manter o modelo de privatização de Guarulhos, Viracopos e Brasília nas concessões dos aeroportos do Galeão (RJ) e Confins (MG), mas deve promover algumas mudanças para evitar que o controle dos empreendimentos fique na mão de empresas sem experiência em administrar grandes aeroportos, principal crítica do resultado do leilão realizado em fevereiro deste ano.
Com a sinalização negativa das operadoras estrangeiras, que não se interessaram em entrar como minoritárias em um negócio ao lado da Infraero, a estatal deve permanecer com uma participação menor que a dos concessionários privados, mas os fundos de pensão das estatais devem voltar à cena. Assim, fica garantida a maioria da União para situações em que isso seja necessário. Por outro lado, como o parceiro privado terá, isoladamente, participação majoritária, a contratação de serviços de terceiros não terá de seguir a lei de licitações.

O presidente da Empresa de Planejamento e Logística (EPL), Bernardo Figueiredo, que chegou a integrar uma missão do governo para conhecer os principais aeroportos da Europa, descartou mudanças radicais no próximo lote de concessões. "Não vejo muito espaço para ter modelos muito diferentes desse. O que eventualmente vai mudar é a diretriz, os termos da concessão, o contrato, o edital e a qualificação de quem entrar", afirmou. "A Infraero se associará a alguém para explorar o aeroporto. A proporção da participação é um critério que você usa no momento em que você vai definir a licitação."

O anúncio da modelagem que será usada para as próximas licitações de aeroportos deve ser feito em meados de novembro, quando o governo também pretende revelar o modelo de concessões que será adotada para os portos.

Barreira
Como a presidente Dilma Rousseff ficou insatisfeita com o resultado das concessões de Guarulhos, Campinas e Brasília, arrematados por grupos de médio porte, o governo deve adotar uma espécie de cláusula de barreira. A exemplo do que fez na minuta do edital do Trem de Alta Velocidade, será exigida maior qualificação dos interessados em participar do leilão. No caso do trem-bala, somente quem tiver experiência de dez anos nesse tipo de atividade poderá concorrer, e nenhuma operadora que tenha sido culpada por acidente com mortes nesse período poderá entrar na disputa.

No leilão de fevereiro, foi exigido que os grupos tivessem sob sua administração aeroportos com movimentação de, no mínimo, cinco milhões de passageiros por ano, para evitar conflitos com o Tribunal de Contas da União (TCU).

A intenção foi aumentar o nível de competitividade da concorrência. Agora, o governo será mais rígido e, além de um tráfego maior, fatores como experiência, tecnologia e atendimento devem ser levados em conta. Ainda assim, a outorga paga pelos concessionários não deve diminuir, disse Figueiredo.

"O modelo anterior não levou em consideração um corte muito rigoroso da qualificação. Se você quer uma qualificação maior, tem que fazer essa exigência no edital", admitiu Figueiredo.

Governo faz 'muito barulho por nada' em concessões


Ana Clara Costa
Veja online

Depois de atrasar em mais de dois meses o anúncio de novos leilões, Planalto decide não mudar nada no modelo de privatização

 (Jonas Oliveira/Placar) 
Confins, em BH, e Galeão, no Rio, 
devem ser próximos aeroportos a serem licitados 

Mercado já duvidava que o Palácio do Planalto conseguisse viabilizar um novo modelo de licitação – principalmente se insistisse no desejo de ampliar os poderes da Infraero nos consórcios

Em pouco mais de dois meses, o Palácio do Planalto mobilizou suas equipes, elaborou projetos e fez uma verdadeira via crucis a investidores em diferentes pontos do planeta. Tudo isso para tentar mudar o modelo de concessão de aeroportos que foi executado no início do ano com os leilões de Guarulhos, Campinas e Brasília. Mesmo assim, após tantas andanças, o governo voltou ao ponto de partida. O novo programa de licitações deverá ser anunciado sem grandes mudanças, como previa a maioria esmagadora dos integrantes do setor de infraestrutura aeroportuária. A máxima entre especialistas e fontes ouvidas pelo site de VEJA é que a presidente Dilma Rousseff não conseguiria "reinventar a roda". E, realmente, não deu. A expectativa é que o Planalto anuncie o pacote de concessões de portos logo após o segundo turno das eleições. Em seguida, será revelado o de aeroportos. Contudo, há os mais pessimistas que acreditam que os editais para os leilões do Galeão, no Rio de Janeiro, e de Confins, em Belo Horizonte, não ficarão prontos antes de 2013.

Ainda que tenha arrecadado nada menos que 24,5 bilhões de reais com o primeiro leilão em fevereiro, o governo irritou-se com o resultado. A presidente, particularmente, "não engoliu" o fato de as principais operadoras aeroportuárias do mundo, como a alemã Fraport e a francesa Aéroports de Paris (ADP), terem ficado fora do grupo das vencedoras no certame. Entre as que ganharam, por outro lado, estão as inexperientes ACSA, da África do Sul, e a Egis, da França. Essa última, que cuidará da operação de Viracopos (o xodó de Dilma Rousseff), tem como destaque em seu portfólio o aeroporto de Larnaca, no Chipre, ilha mediterrânea de apenas 800.000 habitantes.

Perda política – 
Outro pleito contra o modelo de concessão elaborado pela equipe da Secretaria de Aviação Civil (SAC), do ministro Wagner Bittencourt, é político. Com a saída da Infraero do controle dos principais aeroportos do país – Guarulhos, Campinas e Brasília respondem por 30% do tráfego de passageiros –, o Palácio do Planalto foi pressionado por facções mais radicais do Partido dos Trabalhadores, que esbravejavam contra a perda do poder estatal. A situação agravou-se em agosto, quando a presidente Dilma anunciou o PAC das Concessões de rodovias e ferrovias – plano que lhe rendeu o título de sucessora de Fernando Henrique Cardoso na política de privatizações e suscitou duras críticas no seio do PT.

A partir de então, coube à presidente uma tarefa árdua e com um risco de fracasso de elevado: tentar encontrar um modelo que atraísse o setor privado (de quem não se pode dispensar os recursos financeiros), mas o deixasse subjugado aos desmandos do governo. Dilma então enviou a ministra da Casa Civil, Gleisi Hoffmann, à Europa para pilotar uma tentativa desconcertante de negociar a participação minoritária de operadoras de ponta, como a Fraport, em aeroportos brasileiros que continuariam controlados pela Infraero. Um proeminente senador petista afirmou à reportagem do site de VEJA que essa investida estava mais para estratégia política que qualquer outra coisa. "Era preciso mostrar que a decisão de ter a Infraero minoritária era do mercado, não do governo", afirmou, sob condição de anonimato. "Todos sabiam que nenhuma operadora estrangeira de renome aceitaria se submeter a uma estatal".

O modelo inicial, que balizou o leilão do início do ano, prevê participação de 51% do setor privado nos aeroportos – o suficiente para lhes garantir o controle – e 49% da Infraero. A tentativa do governo, ao longo dos últimos meses, foi inverter essa proporção. Chegaram a ser ventiladas hipóteses de uma versão que incluísse uma Parceria Público-Privada (PPP) e também a inclusão da Infrapar, braço de participações da Infraero, como sócio majoritário. Ambas as opções foram prontamente descartadas pelo setor privado.

Segundo reportagem do jornal Folha de S. Paulo, o governo agora vislumbra um modelo que tenha participação de 49% do setor privado, 40% da Infraero e 10% de fundos de pensão. Contudo, fontes ligadas ao setor afirmaram se tratar de um modelo arriscado, devido à alta exposição dos fundos no aeroporto de Guarulhos. "Eles já colocaram tudo que podiam lá. Uma participação importante em outros aeroportos pode significar um problema sério para o retorno desses fundos no futuro", afirmou o diretor de uma das empresas que participou do leilão do aeroporto. O grupo Invepar, que arrematou Cumbica por 12,86 bilhões de reais, é composto pelos fundos de pensão Previ, Petros e Funcef, além da construtora OAS.

A questão do retorno – 
O retorno sobre o investimento, aliás, foi o principal fator que fez com que os consórcios que incluíam as operadoras queridas por Dilma não dessem lances vencedores nos aeroportos concedidos. "É uma questão simples. A conta da projeção de receita menos investimentos não fecha", afirma o executivo. Os três consórcios que arremataram os aeroportos no início do ano pagaram ágios elevados – 373% em Cumbica, 159% em Viracopos e 675% em Brasília –, mas garantiram, na época do leilão, que iriam reaver os valores pagos pela concessão.

O site de VEJA apurou que o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) poderá lançar mão de condições de pagamento mais brandas nas linhas de crédito disponibilizadas aos consórcios, inclusive, com juros menores. Procurado pela reportagem, o banco de fomento afirmou que não comenta especulações de mercado. 

Falta de tempo – 
Por fim, uma questão de ordem prática terminou por sepultar qualquer sonho de mudar radicalmente o programa de licitações: a pressa. Com praticamente um ano e meio faltando para o início da Copa do Mundo, o Palácio do Planalto, se optasse por mudar o modelo, levaria muito mais tempo do que o usual. Um advogado ligado a um dos consórcios vencedores relatou que a proposta de teria de ir a consulta pública; o governo teria de colher as sugestões; avalia-las; e apresentar um novo edital. A partir de então, os consórcios teriam de estudá-lo, formular seus lances, participar do leilão e, se saíssem vencedores, ainda teriam um período de transição até assumirem por completo os complexos aeroportuários. Com isso, grandes obras em importantes terminais – o Galeão, no Rio, e Confins, em Belo Horizonte, são dados como certos no próximo lote de privatização – certamente atrasariam e não estariam prontas até o início do Mundial.

Dilma Rousseff, mais uma vez, resolveu optar pela saída mais eficiente: a de mercado. Contudo, fontes do setor esperam que as exigências técnicas – como a comprovação de experiência na gestão em grandes terminais – aumentem sobremaneira.

Governo afirma que novo modelo para rodovias e ferrovias corrigirá distorções. Será?


Exame.com
Mariana Branco e Yara Aquino, da Agência Brasil

O presidente da EPL destacou que 70% do transporte de carga rodoviária no país são feitos por autônomos ou empresas com até quatro veículos

Iugo Koyama/VEJA
Transporte de minério no pátio ferroviário da Usiminas: 
no total, serão concedidos 7,5 mil quilômetros 
de rodovias e 10 mil quilômetros de ferrovias

Brasília - O Programa de Investimentos em Logística para Rodovias e Ferrovias corrigirá distorções no transporte de cargas no país, entre elas a baixa profissionalização dos caminhoneiros e a subutilização e precariedade da malha ferroviária do país, disse hoje (18) o presidente da Empresa de Planejamento e Logística (EPL), Bernardo Figueiredo. Ele falou sobre durante o Colóquio Infraestrutura para o Desenvolvimento, organizado pelo Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social, órgão de assessoramento da Presidência da República.
O presidente da EPL destacou que 70% do transporte de carga rodoviária no país são feitos por autônomos ou empresas com até quatro veículos. Segundo ele, o baixo nível de profissionalização e a remuneração deficiente não permitem que se melhore a frota de caminhões. "A idade média da frota de caminhões é 18 anos. Nossas mercadorias são transportadas por veículos de 25, 30 anos. Esse é um quadro preocupante", disse.
Figueiredo ressaltou que as linhas de crédito oferecidas nos últimos anos para estimular a aquisição de novos veículos não funcionaram como previsto. "A gente percebe que só as grandes empresas se interessaram. O trabalhador autônomo ficou de fora, pois ele trabalha na informalidade. [O autônomo] não é personalidade econômica que possa acessar uma linha de crédito".
O presidente da EPL disse que o Programa de Investimentos para Rodovias e Ferrovias corrigirá a situação, ao ofertar um crédito apropriado ao perfil dos caminhoneiros autônomos. "O governo está criando uma linha de financiamento em condições absolutamente adequadas, com prazo grande de carência e amortização e taxas de juros muito baratas", disse.
Figueiredo afirmou também que o investimento na malha ferroviária do país, por meio de parceria público-privada, mudará a configuração do transporte de carga. Atualmente, 90% da movimentação de mercadorias no país são via malha rodoviária. O motivo, segundo o presidente da EPL, é a precariedade das ferrovias. "Temos infraestrutura construída há mais de 100 anos. O nível de serviço, tirando nichos modernos como Carajás e Vitória-Minas, é de baixo padrão. Os preços são formados em uma relação de cliente dependente de serviço monopolista", declarou. Segundo ele, o novo modelo condicionará a concessão das ferrovias à modernização e criará um ambiente de competitividade. "[O modelo] vai gerar ganhos tarifários porque o preço será formado em ambiente competitivo", declarou.
Lançado pela presidenta Dilma Rousseff em 15 de agosto, o Programa de Investimentos em Logística para Rodovias e Ferrovias prevê aporte de R$ 133 bilhões em 25 anos. No total, serão concedidos 7,5 mil quilômetros de rodovias e 10 mil quilômetros de ferrovias. Os investimentos, nos próximos 25 anos, somarão R$ 133 bilhões, sendo que R$ 79,5 bilhões nos primeiros cinco anos. Nas rodovias serão aplicados R$ 42 bilhões e nas ferrovias R$ 91 bilhões.