quarta-feira, julho 17, 2013

Bacias sujas

Sebastião Nery
Tribuna da Imprensa

Agenor Maria foi marinheiro tatuado. Estava no navio Vital de Oliveira, torpedeado em águas da Bahia durante a guerra, salvou-se por milagre (30% dos colegas morreram). Comboiou, no destróier Maranhão, os navios brasileiros que faziam a rota Rio-África durante todo o ano de 1944 e em 45 voltou para São Vicente, no Seridó do Rio Grande do Norte.

Agricultor, elegeu-se vereador pelo PSD, fundou a Cooperativa dos Agricultores de Algodão. em 1962 já era deputado estadual pelo PDC. Em 1966, candidato a deputado federal, teve 13.045 votos, ficou de suplente. Aluísio Alves pediu licença, Agenor assumiu.

No AI-5 de dezembro de 1968, o Congresso foi fechado. Tudo cercado de soldados, Agenor foi saindo dentro do corredor polonês, olhou para trás, viu as duas conchas do edifício do Congresso desenhadas no horizonte imenso de Brasília, jurou:

- Só volto aqui se for para a outra bacia.

AGENOR MARIA                     
Em 1974, uma hora da manhã, na boleia de seu caminhão levando mercadorias de João Pessoa para Currais Novos, o caminhoneiro Agenor Maria passou no posto da cidade de Panamerim. Havia um portador com  carta do deputado Henrique Alves chamando-o a Natal no dia seguinte.

Foi. Queriam que ele saísse candidato a Senador pela oposição, pelo MDB. Aceitou, elegeu-se. No dia da posse, no Senado, em Brasília, olhou de longe o edifício do Congresso, viu as duas conchas de Oscar Niemeyer desenhadas no horizonte azul, lembrou-se do juramento de seis anos antes:

- Nery, voltei mesmo para a outra bacia, para a bacia emborcada.

(Foi senador de 1975 a 1983. Honrou o Rio Grande do Norte e o Senado. Terminado o mandado, foi deputado federal de 1983 a 1987).

CONGRESSO
Falar do Parlamento é uma armadilha. Qualquer tropeço é um tombo. O Congresso é a espinha dorsal da democracia, a alma política da Nação. Mas se ele passa dos limites é preciso discuti-lo. Se necessário, acusá-lo.

A grande crise brasileira é que as duas bacias de Agenor Maria estão sujas. Ou são lavadas ou a democracia pode ser levada de roldão. O cerne da corrupção instalou-se no Congresso. Evidente que não são todos. Tantos  fazem do mandato um sacerdócio. Mas a maioria usa como um pé de cabra.

Os pecados do Governo são majoritariamente cometidos para atender à desvairada gula corrupta de senadores e deputados. Essa escândalo, um escárnio, de 39 ministros, que a Presidente não tem coragem de diminuir ao menos para 30, só existe porque cada ministério é a sacola com que o Planalto compra um partido. Comprado, estão no bolso os parlamentares.

Infelizmente, com as honrosas exceções de sempre, o Congresso tornou-se um mercado persa. Pagou, levou. Por isso as pesquisas do fim de semana dizem que 71% da população  consideram o Congresso “corrupto”.

O pais sabe que atrás de cada senador ou deputado (não esqueçam as bravas exceções) há sempre uma empreiteira, uma empresa que os financiou e cobra o mandato com humilhação e vilania exacerbadas.

REELEIÇÃO
Toda vez que o pais entra em crise, o Congresso fala em reforma política. Que não vem porque não é para valer. É para driblar a Nação.

Falam sempre em dar dinheiro publico para os candidatos comprarem a eleição, em diminuir o numero de partidos, em controlar o financiamento dos candidatos, em fazer listas para os caciques nomearem seus protegidos.

E nada acaba acontecendo. Se a “reforma política” fosse mesmo para valer, a reeleição seria proibida de ponta a ponta, de presidente a vereador.

A reeleição é a matriz de roda a corrupção política no pais.

O presidente. governador, prefeito, já se elegem pensando em como comprarem o próximo mandato. Passam o mandato inteiro armando esquemas com dinheiro publico para financiarem a próxima campanha.

Mas não apenas presidentes, governadores, prefeitos. Senadores, deputados, vereadores, vendem-se ao governo e empresas para se reelegerem. Proposta fantasiosa? Mas, no dia em que não houver reeleição de senador, deputado, vereador, cada um vai tratar de cumprir bem seu mandato para, só duas eleições depois, poderem voltar sem se venderem.

Quero ver um deputado de coragem apresentar essa proposta.

A insustentável herança maldita

Arnaldo Jabor
O Estado de S.Paulo

O que aconteceu com esse governo foi mais um equívoco na história das trapalhadas que a esquerda leninista comete sempre, agora dentro do PT. O fracasso é o grande orgulho dos revolucionários masoquistas. Pelo fracasso constrói-se uma espécie de 'martírio enobrecedor', já que socialismo hoje é impossível. Erraram com tanta obviedade (no mensalão por exemplo ou no escândalo dos 'aloprados'), com tanto desprezo pelas evidências de perigo, tanta subestimação do inimigo, que a única explicação é o desejo de serem flagrados. Sem contar o sentimento de superioridade que se arrogaram sobre nós, os 'alienados burgueses neoliberais'.

Conheço a turminha que está no poder hoje, desde os idos de 1963, e adivinhava o que estava por vir. Conheci muitos, de perto.

Nos meus 20 anos, era impossível não ser 'de esquerda'. Nós queríamos ser como os homens heroicos que conquistaram Cuba, os longos cabelos de Camilo Cienfuegos, o charuto do Guevara, a 'pachanga' dançada na chuva linda do dia em que entraram em Havana, exaustos, barbados, com fuzis na mão e embriagados de vitória.

A genialidade de Marx me fascinava. Um companheiro me disse uma vez: "Marx estudou economia, história e filosofia e, um dia, sentou na mesa e escreveu um programa racional para reorganizar a humanidade". Era a invencível beleza da Razão, o poder das ideias 'justas', que me estimulava a largar qualquer profissão 'burguesa'. Meu avô dizia: "Cuidado, Arnaldinho, os comunistas se acham médiuns, aquilo parece tenda espírita...". Eu não liguei e fui para os 'aparelhos', as reuniões de 'base' e, para meu desespero, me decepcionei.

Em vez do charme infinito dos cubanos, comecei a ver o erro, plantado em duas raízes: ou o erro de uma patética organização estratégica que nunca se completava e, a 'margarida que apareceu' agora com todo esplendor: a Incompetência (com 'i' maiúsculo), a mais granítica, imaculada incompetência que vi na vida. Por quê? Porque a incompetência do comuna típico é o despreparo sem dúvidas, é a burrice alçada à condição de certeza absoluta. É um ridículo silogismo: "Eu sou a favor do bem, logo não posso errar e, logo, não preciso estudar nem pesquisar". Por que essa incompetência larvar, no DNA do comuna? Porque eles não lutam pelo 'governo' de algo; lutam pelo poder de um futuro que não conhecem. O paradoxo é que odeiam o que têm de governar: um país capitalista. Como pode um comuna administrar o capitalismo? O velho stalinista Marcos Stokol confessou outro dia no jornal: "O PT entrou no governo porque queremos mudar o Estado". Todos os erros e burrices que eu via na UNE e nas reuniões do PC eram de arrepiar os cabelos. Eu pensei horrorizado quando vi o PT no poder: vão fornicar tudo. Fornicaram.

E olhem que estou me referindo apenas ao 'rationale' básico, psicológico, de uma 'boa consciência' incompetente que professam. Sem mencionar a roubalheira justificada pela ideologia - "desapropriar os bens da burguesia para nossos fins". A fome de uma porcada magra invadindo o batatal - isso eu não esperava.

Como era fácil viver segundo os escassos 'sentimentos' catalogados pelos comunas: ou o companheiro estava sendo 'aventureiro' ou 'provocador' ou então era 'oportunista, hesitante, pequeno-burguês' ou sectário ou 'obreirista' ou sei lá o quê. Era fácil viver; ignorávamos os ignorantes, os neuróticos, os paranoicos, os psicopatas, os burros e os sempre presentes filhos da p... Nas reuniões e assembleias, surgia sempre a voz rombuda da burrice. Aliás, burrice tem sido muito subestimada nas análises históricas. No entanto, ela é presença obrigatória, a convidada de honra: a burrice sólida, marmórea. Vivíamos assediados por lugares-comuns. O imperialismo era a 'contradição principal' de tudo (vejam o ardor com que condenaram a 'invasão americana' de nossos segredos de Estado há pouco. Quais? Quanto a Delta levou, onde está o Lula?). As discussões intermináveis, os diagnósticos mal lidos da Academia da URSS sempre despencavam, esfarinhavam-se diante do enigma eterno: "O que fazer?". E ninguém sabia.

E veio a sucessão de derrotas. Derrota em 64, derrota em 68, derrota na luta armada, derrotas sem-fim.
Até que surgiu, nos anos 70, uma homem novo: Lula, diante de um mar de metalúrgicos no ABC. Aí, começou a romaria em volta da súbita aparição do messias operário, o ungido. Lula foi envolvido num novelo de ideologias e dogmas dos comunas desempregados, desfigurando de saída o que seria o PT.

Quando comecei a criticar o PT e o Lula, 'petralhas' me acusaram de ser de direita, udenista contra operários. Não era nada disso; era o pavor, o medo de que a velha incompetência administrativa e política do 'janguismo' se repetisse no Brasil, que tinha sido saneado pelo governo de FHC. Não deu outra. O retrocesso foi terrível porque estava tudo pronto para a modernização do País; mas o avião foi detido na hora da decolagem. Hoje, vemos mais uma 'revolução' fracassada; não uma revolução com armas ou com o povo, mas uma revolução feita de malas pretas, de dinheiro subtraído de estatais, da desmoralização das instituições republicanas. Hoje, vemos o final dessa epopeia burra, vemos que a estratégia de Dirceu e seus comparsas era a tomada do poder pelo apodrecimento das instituições burguesas, uma espécie de 'gramscianismo pela corrupção' ou talvez um 'stalinismo de resultados'.

O perigo é que os intelectuais catequizados ainda pensam: "O PT desmoralizado ainda é um mal menor que o inimigo principal - os tucanos neoliberais".

Como escreveu minha filha Juliana Jabor, mestra em antropologia, "ajudado por intelectuais fiéis, Lula poderá se apropriar da situação com seu carisma inabalável, para ocupar a 'função paterna' que está vaga desde o fim do seu governo. Pode ser eleito de novo e a multidão se transformará, aí sim, em 'massa'. O 'movimento' perderá o seu caráter de produção de subjetividades e se transformará numa massa guiada por um líder populista".

Fala sério!

Merval Pereira
O Globo 

Parece brincadeira, mas não é. Depois de o presidente do PT, deputado Rui Falcão, ter tido o cinismo de dizer que não havia militantes petistas nas manifestações dos últimos dias porque todos estão empregados, trabalhando, agora foi a vez de o ex-presidente Lula escrever no artigo distribuído ontem pelo New York Times que os protestos que ocorreram pelo país são reflexos dos sucessos de seu governo nos campos econômico, político e social.

Como se não bastasse a contabilidade criativa com que o governo tenta esconder os fracassos de sua política econômica, temos agora a interpretação criativa para tentar esconder o que o povo foi às ruas exigir: menos corrupção, maior transparência no uso do dinheiro público, prioridades para transportes públicos, saúde e educação, e não para estádios de futebol padrão Fifa .

Trazer a Copa do Mundo para o Brasil, aliás, foi uma das grandes vitórias do governo Lula, e desde o primeiro momento houve o compromisso de que não se gastaria dinheiro público nas obras necessárias, como a construção dos estádios. O que se viu, no entanto, foi um gasto muito superior ao estimado - os gastos com estádios representam R$ 7,5 bilhões dos R$ 28,1 bilhões previstos nas obras da Matriz de Responsabilidades da Copa - com financiamentos pelo BNDES, incluindo aí o estádio do Corinthians, que teve o apadrinhamento decisivo de Lula, corintiano doente.

Embora diga que os protestos não são contra a política, mas uma vontade da juventude de participar mais diretamente dela, o ex-presidente Lula reconhece que mesmo o Partido dos Trabalhadores, que eu ajudei a fundar, e que contribuiu muito para modernizar e democratizar a política no Brasil, precisa de uma profunda renovação. É preciso recuperar suas ligações diárias com os movimentos sociais e oferecer novas soluções para novos problemas, e fazer as duas coisas sem tratar os jovens de forma paternalista .

Na parte de seu artigo mais conectada com a realidade, Lula lembra que as pessoas não querem apenas votar de quatro em quatro anos, (...) querem interagir com os governos locais e nacionais, e tomar parte das decisões de políticas públicas, oferecendo opiniões e decisões que os afetem todos os dias .

Lula diz ser natural que os jovens desejem mais , especialmente aqueles que têm o que seus pais não tiveram. Mas trata de encontrar desculpas para as críticas das ruas, especialmente às questões econômicas que começam a incomodar a nova classe média inventada pelo lulismo, que vê seu poder de compra ser reduzido pela inflação e pelo endividamento.

Ressalta, com razão, que a maioria das pessoas que estava nas ruas não viveu os tempos de hiperinflação. Em tempos de estagflação, Lula diz que hoje as pessoas já não se lembram dos anos 1990, quando a estagnação e o desemprego afetaram nosso país . Ao tentar minimizar os problemas de inflação que temos hoje, traz à lembrança o Plano Real, que acabou com a hiperinflação.

Sem receio de parecer incoerente, Lula admite, sem nunca afirmar explicitamente, que as manifestações têm a ver com o jogo partidário que o PT aprofundou ao chegar ao poder, gerando crises como o mensalão. Eles exigem instituições políticas mais limpas e transparentes, sem as distorções políticas e eleitorais (...) .

Da mesma forma que o presidente do PT, Rui Falcão, no programa Roda viva , também o presidente Lula admite em seu artigo a legitimidade dessas demandas . Lula diz, no entanto, que é impossível contemplá-las rapidamente . Confrontado com o fato de que a principal aliança partidária do PT é com o PMDB, cujos líderes são acusados de malversação do dinheiro público, Falcão disse que a solução do problema está no plebiscito para a reforma política.

Os dois se utilizam dos mesmos argumentos com que já tentaram transformar o mensalão em simples uso de caixa dois eleitoral, que todo partido brasileiro usaria. Também em relação aos parceiros preferenciais, em vez de uma política transparente como as ruas exigem, não há nada a se fazer no momento. Apenas não é culpa do PT.

Baile à fantasia

Dora Kramer  
O Estado de S.Paulo

Quando se iniciaram os protestos de junho a presidente da República tinha certeza absoluta de que a coisa não era com ela. Na primeira semana Dilma Rousseff disse a um senador do PT que a procurou para alertar sobre a gravidade da situação, que não seria atingida. Segundo ela, as manifestações seriam um problema de prefeitos e governadores.

Avaliação errada, como viria a apontar a queda de popularidade e avaliação positiva de governo registrada pelo instituto Datafolha no fim daquele mês e confirmada pela pesquisa CNT realizada já na fase de refluxo (temporário?) das ruas e divulgada ontem.

A presidente tampouco deu ouvidos a tudo o que disse o ex-presidente Lula na reunião que os dois tiveram em São Paulo com o prefeito Fernando Haddad, o marqueteiro João Santana e o presidente do PT, Rui Falcão, assim que ficou evidente que a crise bateria às portas do Palácio do Planalto.

Na ocasião, ficou combinado que Dilma chamaria prefeitos e governadores para um encontro de "aconselhamento" para, em conjunto, decidirem sobre a melhor forma de reagir.

A presidente fez o contrário: convocou governadores para posarem de coadjuvantes naquele pronunciamento em que ela propôs pactos e Constituinte exclusiva mediante plebiscito para a reforma política, encerrando a transmissão pela TV Brasil antes que os chefes de executivos estaduais pudessem falar.

Com a história do plebiscito Dilma tentou transferir a responsabilidade para o Congresso que rejeitou a proposta e deu o troco: aprovou uma série de projetos de criação de despesas, obrigando-a a anunciar veto às medidas de dita "agenda positiva". Demagogia por demagogia, deu empate.

Em tese, porque na prática quem perdeu foi ela. O Congresso estava perdido há tempos. Desmoralizado, desqualificado, desprovido de gordura para queimar. Dilma não: antes de a inflação e a população darem o ar das respectivas graças, chegou a quase 75% de avaliação positiva de seu governo e bateu em 55% das intenções de voto.

Hoje, três ou quatro pesquisas, desacertos em série na economia, explosões de descontentamento e respostas erráticas depois, desceu ao patamar de 30% tanto na avaliação positiva quanto nas intenções de votos.

Segundo a pesquisa CNT, a percepção negativa mais que triplicou: foi de 9% para 29%. Pior: 44% dizem que não votam nela de jeito nenhum. Ou seja, Dilma entrou naquela faixa perigosa em que se cruzam rejeição e aprovação. Quando a primeira caminha para superar a segunda, a chance de recuperação torna-se remota.

É cedo para firmar certeza, mas vislumbra-se aí mais um erro de cálculo da oficina palaciana sobre a convicção de que Dilma Rousseff não apenas será candidata à reeleição como pode levar no primeiro turno.
Confiança esta baseada em boa medida no poder da caneta presidencial e no fato de o repúdio aos políticos alcançar a todos eles. Alcança, mas é de se observar que Marina Silva subiu de 12% para 20% e Eduardo Campos de 3% para 7% em números redondos. Aécio Neves foi de 17% para 15%.

Sem considerar a entrada em cena de improbabilidades como Joaquim Barbosa e possibilidades como José Serra, registre-se que os nomes vistos como "novos", mas ainda assim políticos, estão conseguindo arrebatar o capital antes pertencente à presidente.

Se eles saberão ou poderão manter essa tendência de ganho são outros quinhentos a serem contados daqui em diante. De um jeito melhor se o governo continuar sem norte. De outro pior caso Dilma, PT e companhia recuperem a bússola perdida no baile à fantasia da popularidade desprovida de lastro na confiabilidade de palavras e gestos.

Credibilidade dá trabalho para ser construída. Em compensação, é muito mais difícil de ser destruída.

Os hitlernautas estão chegando

Mauro Santayana
Tribuna da Imprensa

Para quem acha que Dani Shwery, Thismir Maia e Carla Dauden são o máximo que a direita “espontânea” conseguiu preparar para mobilizar seus simpatizantes – no contexto do quadro reivindicatório das manifestações de junho – podemos dizer que entre os servidores do Google e da Microsoft e os mouses dos internautas comuns há muito mais coisas que a nossa vã filosofia possa imaginar.

Uma delas, ficou comprovado, é a espionagem norte-americana na rede, denunciada pelo agora foragido Edward Snowden.

O súbito aparecimento do fenômeno dos hitlernautas é outra – e esse é um fato que merece ser analisado. O hitlernauta, não é, na verdade, uma nova espécie no ciberespaço brasileiro. Ele sempre existiu, embora não fosse conhecido por esse nome. A questão é que, antes, os hitlernautas só podiam ser encontrados no seu habitat natural, em reservas quase sempre protegidas, e normalmente produzidas e consultadas apenas por eles mesmos.

Encontravam-se, assim, ao abrigo do navegante comum, como nos sites neonazistas, integralistas, da extrema-direita católica, ou que correspondem, no Brasil, a “espelhos” de certas “organizações” fascistas internacionais.

Nesses espaços, eles ficaram, por anos, alimentando suas frustrações, preparando-se para sair à luz do dia tão logo houvesse uma ocasião mais segura para se apresentarem ao mundo. A oportunidade surgiu no âmbito das passeatas de junho. Afinal, nessas manifestações, cada um podia carregar a mensagem que desejasse – desde que não fosse símbolo de partidos políticos.

SEM RUMO
Os hitlernautas, além de aparentemente apartidários, são, principalmente, antipartidários. Assim, resolveram engrossar, a seu modo, a procissão, mesmo sem conseguir indicar, com clareza, rumo ou andor que lhes valesse.

É fácil reconhecer o hitlernauta. Nas ruas, é o “careca”; o de cara coberta por um lenço; pela máscara de um movimento “anarquista”; o que leva coquetel molotov de casa; joga pedra na polícia; agride violentamente o militante do PSDB ou do PSTU que estiver carregando uma bandeira; quebra prédios públicos; arranca semáforos; saqueia lojas; põe fogo em carros da imprensa ou invade o Itamaraty.

Na internet, o hitlernauta é ainda mais fácil de ser identificado. É aquele sujeito que acredita (piamente?) que estamos vivendo a penúltima etapa da execução de um Golpe Comunista no Brasil. E que o Fórum de São Paulo é uma espécie de conclave secreto, destinado a dominar o mundo via implantação, no continente, de uma União das Repúblicas Socialistas da América do Sul.

O hitlernauta é o “anônimo” que nos comentários, na internet, tenta convencer os interlocutores, de que as urnas eletrônicas são manipuladas; de que não existe oposição no Brasil, porque o PSDB é uma linha auxiliar do PT na implantação do stalinismo por aqui; que FHC é fabianista, logo, uma espécie de socialista a serviço da entrega do Brasil aos vermelhos; que a ONU é parte de uma conspiração mundial, e o único jeito de consertar o país é acabar com o voto universal, fechar o Congresso, dissolver os partidos, prender, matar, arrebentar e torturar, por meio de um novo golpe militar.

No dia 10 de julho, os hitlernautas saíram às ruas, sozinhos, pela primeira vez. Segundo o portal Terra, fecharam a rua Pamplona, até a esquina com a Consolação, com a Marcha das Famílias contra o Comunismo, convocada nas últimas duas semanas pela internet.

INTERVENÇÃO
O portal IG calculou, em cerca de 100 pessoas, o grupo que se reuniu no vão do MASP e marchou, com bandeiras, pedindo intervenção militar, até as imediações do Comando Militar do Sudeste.

No Rio, a convocação conseguiu juntar, frente à Candelária, trinta e poucos manifestantes, em cena em que se viam mais bandeiras e cartazes sobre as escadas do que pessoas para empunhá-los. Ao ver a foto da “manifestação”, muita gente os ridicularizou na internet.

Os primeiros desfiles das SA na República de Weimar também não reuniam mais que 30 pessoas, que carregavam as mesmas suásticas hoje tatuadas na pele dos skinheads presentes à Marcha das famílias contra o Comunismo, em São Paulo, no dia 10. As pessoas normais, ao vê-los desfilando nos parques, com os seus ridículos uniformes, acharam, na década de 30, que os nazistas eram um bando de palhaços. Eles eram palhaços, mas palhaços que provocaram a maior carnificina da História. Sob seus olhos frios, seus gritos carregados de ódio, milhões de inocentes foram torturados, levados às câmaras de gás, e incinerados, em Auschwitz, Maidanek, Birkenau, Dachau, Sachsenhausen – e em dezenas de outros campos de extermínio montados por ordem de Hitler.

Os hitlernautas não devem ser subestimados. É melhor que a sociedade os conheça. A apologia da quebra do estado de direito é crime e deve ser combatida com os rigores da lei. Cabe ao Ministério Público, com a ajuda da Polícia Federal, identificá-los e denunciá-los à Justiça, para que sejam julgados e punidos, em defesa da democracia.

Ladroeira nova é coisa velha

Carlos Brickmann
Brickmann & Associados Comunicação

Todos surpresos com a denúncia da multinacional alemã Siemens a respeito de acertos para fraudar licitações no Brasil. A imprensa se surpreendeu tanto que deu manchete de primeira página. As notícias merecem primeira página: revelam como superfaturar obras, roubando dinheiro público. Mas não são novidade, não.

Esta coluna desde 2008 vem publicando notícias sobre investigações internacionais, na França e na Suíça, a respeito da multinacional francesa Alstom e suas relações com obras públicas em São Paulo, entre 1995 e 2003, período em que o Estado foi governado por Mário Covas e Geraldo Alckmin, ambos do PSDB. Dúvidas? Veja no Google, "Carlos Brickmann" "Alstom". As propinas citadas atingem US$ 7 milhões. Se alguém prefere não acreditar em jornalistas brasileiros, as notícias também saíram no Wall Street Journal, americano, e na revista alemã Der Spiegel. 

O ótimo repórter Luiz Cláudio Cunha publicou, no Congresso em Foco, em 2012, informações estarrecedoras sobre licitações na CEEE, estatal gaúcha de eletricidade, envolvendo empreiteiras brasileiras de grande porte e empresas multinacionais como Alstom e Brown-Boveri.

A denúncia da Siemens (que admite ter participado dos acertos) só pode surpreender por um motivo: a inação dos responsáveis pela investigação dos fatos que já eram de conhecimento público. Por que as investigações por aqui não andaram, embora as houvesse em outros países? Excelente pergunta. 

Segue-se outra pergunta: quem é que ficou cego, surdo e mudo diante do grande escândalo?

O grande mudo... 
O ex-presidente Lula continua em silêncio, quase 240 dias depois da operação Porto Seguro, que envolveu a funcionária federal Rosemary Noronha. Não falou sobre o caso, não falou sobre as manifestações de rua, não fala sobre as articulações de setores do PT que pretendem lançá-lo candidato à sucessão de Dilma.

...continua mudo
Não são só assuntos públicos que emudecem o ex-presidente. Neste domingo, o sexto neto de Lula foi batizado em Santo André, SP. A história é muito bem narrada pela repórter Bruna Gonçalves, do Diário do Grande ABC: Lula não quis falar com jornalistas. Sentou-se longe dos parentes, conversou apenas com um amigo. 

Em silêncio entrou, em silêncio saiu, pela porta dos fundos da paróquia.

Onde está o dinheiro? 
A Assembléia Legislativa de São Paulo pagava auxílio-moradia para todos os 94 nobres parlamentares - inclusive os que moram na Capital. O Tribunal de Justiça extinguiu o auxílio-moradia, em 9 de maio; oito dias depois, a Assembléia criou o auxílio-hospedagem, que é a mesma coisa, só que pago apenas a quem não mora na Capital, no valor de até R$ 2.850 mensais. E, como ninguém é de ferro, aproveitou para aumentar, discretamente, o valor da Gratificação Especial de Desempenho, que Suas Excelências podem distribuir entre os servidores de seu gabinete. 

Claro, é mais do que se gastava com auxílio-moradia; e amplia as despesas em R$ 4,3 milhões por ano. Não é uma quantia que desequilibre o orçamento do Estado, nem que, se economizada, resolveria outros problemas; mas é um problema de falta total de sensibilidade. É o levar vantagem em tudo.

Notícia boa - 1
Dentro de poucos dias, o papa Francisco deve chegar ao Brasil, para a Jornada Mundial da Juventude. Este colunista não é católico, nem religioso praticante; é totalmente favorável ao Estado laico; e apoia sem restrições qualquer esforço para garantir ao papa as melhores condições possíveis para pregar, orientar e conduzir seus fieis. Não é na estrutura do grande evento que se deve fazer economia. A jornada do papa é um fato internacional, positivo, uma vitrine do Brasil no mundo. 

Se é para economizar, há muitos lugares em que isso deve ser feito.

Notícia boa - 2
Um dos melhores amigos do papa Francisco é um judeu, o rabino Abraham Skorka; ambos dedicaram muito tempo de seus encontros a conversas sobre religião, a partir da origem comum de Judaísmo e Catolicismo, e escreveram juntos um livro notável, Sobre o céu e a terra, em que o tema é abordado com rara profundidade e texto de primeira linha, que prende o leitor e o leva a pensar. 

O livro do cardeal Jorge Mario Bergoglio, papa Francisco, e do rabino Abraham Skorka deve ser lançado amanhã, no Salão Nobre da ARI, Associação Religiosa Israelita do Rio de Janeiro, a partir das 19h (Rua General Severiano, 170). A partir das 20h, sob o título Concordo contigo, ainda que discorde - razões para o diálogo inter-religioso, o rabino Skorka conversa com o padre jesuíta Jesus Hortal, com mediação da jornalista Leila Sterenberg. Oportunidade única.

Chega de boas notícias
O Governo nega, o ministro Mantega explica, o ministro Gilberto Carvalho diz que não é bem assim, a ministra do Planejamento está mais quieta do que Lula desde o caso Rose, mas desde a manifestação das centrais sindicais não dá para negar o fenômeno. Não faz muito tempo, conforme o local, colocava-se um manifestante nas ruas por R$ 30,00, lanche incluído. 

Agora, os manifestantes cobraram R$ 70,00, fora a condução. Quem pode dizer que não há inflação?

carlos@brickmann.com.br 
www.brickmann.com.br

O risco do tiro no pé

Raul Velloso
O Estado de S. Paulo

O setor público é visto pela grande maioria da população brasileira como um péssimo prestador de serviços em geral

Nas recentes manifestações de rua, a grita maior foi contra as passagens de ônibus. Como muitos, penso que o foco da insatisfação é mais embaixo. O setor público é visto pela grande maioria da população brasileira como um péssimo prestador de serviços em geral.

Os serviços são insuficientes porque, no embalo da Constituição Cidadã, se decidiu concentrar os recursos públicos em pagamentos a pessoas, chegando-se, hoje, a uma gigantesca folha de pagamento de benefícios previdenciários e assistenciais, além de salários, que consome 75% do orçamento executado. Estimo que hoje se pendura nessa folha mais de metade da população brasileira, estimulando a destinação de mais benesses a esse mesmo grupo para ter uma posição privilegiada em qualquer disputa eleitoral.

Nesse sentido, é difícil entender por que há tantos ministérios, quando a parte do governo que presta serviços propriamente ditos se refere a apenas 25% do total. Deveria haver um único ministério, cheio de computadores, que cuidasse apenas da gigantesca folha de pagamento, e meia dúzia para fazer o resto. Sobraria mais para os serviços. Outro ponto é que, ao contrário do que se poderia esperar, as manifestações parecem ter mostrado que popularidade não se conquista apenas com distribuição de dinheiro. A população quer, também, maiores e melhores serviços em transportes, saúde, segurança, etc.

Em estudo recente, que pode ser obtido no e-mailraul_velloso@uol.com.br, mostrei com parceiros a importância de investir na infraestrutura de transportes para tirar o Brasil da armadilha de alta inflação e baixo crescimento. O grande drama é que o setor público, além de ter parado há muito tempo de investir nessa área, praticamente desaprendeu a gerir esse tipo de atividade e não consegue fazer concessões eficientes com o setor privado. A este deveria caber, então, o grosso da tarefa de deslanchar os novos investimentos e gerenciar sistemas eficientes de transporte dentro e fora das cidades. Mas o setor público não sabe fazer a sua parte na tarefa e, nos últimos tempos, mostra um forte viés ideológico antiprivado que desafia o bom senso. O que se vê hoje são algumas ilhas de excelência, especialmente no sistema rodoviário do Sudeste, e uma situação de terra arrasada no restante das rodovias e modalidades de transporte.

A forte reação contrária aos reajustes das tarifas de ônibus e dos pedágios é compreensível por ser a resposta possível no momento. Tem o inconveniente de adicionar um fator antiprivado na história, pois há uma clara interferência nos contratos de concessão em vigor, em que existem cláusulas de reajuste bem especificadas. Hoje, esses investimentos já padecem da visão governamental equivocada de que as taxas de retorno dos projetos devem ser as menores imagináveis, o mesmo que as menores tarifas imagináveis. O que precisa ser dito à sociedade é que enquanto não forem mudadas as prioridades orçamentárias é o setor privado que tem de investir. Só que, sem retorno adequado, não há investimento possível.

O governo quer obviamente fugir de novas manifestações. Segundo o “Valor” de 9/7, decidiu não reajustar os pedágios das rodovias federais e examina três possibilidades de reequilíbrio dos contratos: cortar investimentos previstos, subsidiar os usuários repassando recursos às concessionárias ou prorrogar os prazos das concessões. Cortar investimento seria impedir as melhorias por que tanto a sociedade clama. 

Subsidiar usuários seria aumentar gastos correntes, em contradição com o anúncio de corte de até R$ 15 bilhões pelo ministro da Fazenda, e com a necessidade de investir na melhoria dos serviços. Tudo isso é dar um tiro no próprio pé. Penso, assim, que a melhor solução que se apresenta é a prorrogação dos contratos, enquanto o governo não faz o dever de casa. Construir um plano convincente de reestruturação do gasto com melhoria de qualidade que comece pela redução do número de ministérios deveria ser a atual obsessão governamental.


Quando promessas viram dívidas

Gil Castello Branco
O Estado de S. Paulo

Enquanto as concessões não chegam, estamos fabricando dinheiro e maquiando resultados

Faz muito tempo que o que Mantega diz ninguém escreve. Em relação aos investimentos públicos, por exemplo, o ministro desde o ano passado vislumbra perspectivas de crescimento que não se concretizam. Em abril deste ano afirmou que “os investimentos irão bombar em 2014″, sugerindo que o governo “jogou a toalha” em relação a 2013 e vai tentar uma revanche no próximo ano.

Em relação à administração federal direta, os resultados deste ano são pífios. No primeiro semestre de 2013 foram empenhados para investimentos R$ 19 bilhões, montante inferior em 11% ao compromissado em valores correntes no período de janeiro a junho do ano passado. O valor empenhado neste semestre representa só 21% da dotação autorizada para o exercício (R$ 90,2 bilhões).

Se considerarmos somente os valores pagos com o Orçamento da União/2013, excluídos os restos a pagar, foram desembolsados R$ 3,7 bilhões, enquanto no ano passado, no mesmo período, R$ 4,8 bilhões foram pagos. A situação só não é pior graças à quitação dos restos a pagar, que neste ano somaram R$ 16,8 bilhões ante R$ 14,1 bilhões do ano passado.

Em valores constantes, os investimentos deste semestre totalizaram R$ 20,5 bilhões, montante maior em apenas 1% do que as aplicações de 2012. Em relação a 2010, os investimentos recuaram 13%. Assim sendo, andamos de lado, em relação ao ano passado, e para trás, se a referência for 2010.

Vale observar que, dos R$ 20,5 bilhões pagos neste ano, R$ 4,6 bilhões (22,6%) foram destinados a “equipamentos e material permanente”, cuja aquisição é menos complexa do que a realização de obras de infraestrutura. No Ministério da Defesa foi investido R$ 1 bilhão em aeronaves, embarcações, veículos e carros de combate. No Ministério da Educação, quase meio bilhão foi destinado a ônibus escolares. No Ministério do Desenvolvimento Agrário, foram pagos R$ 376,3 milhões em caminhões, escavadeiras, tratores, colhedeiras, etc. A compra direta desses bens – ainda que necessária – não significa que foram desatados alguns nós dos investimentos públicos relacionados à elaboração e à execução de projetos, a desapropriações e indenizações, à obtenção de licenças ambientais e toda a burocracia inerente às obras.

No Ministério dos Transportes ainda são sentidos os efeitos da chamada “faxina”, promovida pela presidente Dilma em 2011, apesar de o grupo alvo da limpeza já ter retornado à Esplanada. Até junho, a pasta investiu R$ 3,9 bilhões, o que representou crescimento real de 0,4% em relação ao mesmo período de 2012. Esse acréscimo diminuto deve ser creditado à Valec, que ampliou as aplicações em R$ 325,3 milhões. O Dnit, ao contrário, reduziu os investimentos em R$ 62,3 milhões, tornando pior o que já estava ruim.

Além disso, quase R$ 1 bilhão dos investimentos da União neste semestre foi efetuado no exterior, já excluídos pagamentos às subsidiárias da Embraer, sem gerar efeitos diretos na indústria brasileira. Paralelamente, estão incluídos nos investimentos itens curiosos tais como instrumentos musicais para universidades, pagamento de IPVA, serviços de cópias e reprodução de documentos, obras de arte e até taxas por excessos de bagagens, que, além de discutíveis quanto à classificação, não geram maiores efeitos na cadeia econômica.

Na realidade, as dificuldades para investir são históricas. Conforme estudo da Associação Contas Abertas, nos últimos 10 anos R$ 160 bilhões deixaram de ser investidos nas áreas de educação, saúde, transportes, cidades e segurança pública, que constituíram as principais reivindicações das manifestações populares. Considerando as dotações autorizadas para investimentos no período de 2003 a 2012, do total de R$ 333,8 bilhões previstos apenas R$ 174,5 bilhões (52,3%) foram aplicados. Em suma, o orçamento é fictício e mal executado.

As promessas do governo também parecem longe da realidade. A presidente Dilma anunciou novos R$ 50 bilhões para obras de mobilidade urbana. Porém, historicamente, os recursos destinados para o setor não são gastos. Nos últimos 11 anos (2002 a 2012), em valores constantes, R$ 6,8 bilhões foram autorizados para mobilidade urbana, porém apenas R$ 1,3 bilhão foi efetivamente pago (19,1%).

De fato, são muitos os entraves para os investimentos da administração pública, a partir do planejamento inadequado. Em 2009, estudo do Banco Mundial constatou que o Brasil apresentava fragilidades em praticamente todas as fases de planejamento e execução. O diagnóstico abrangeu desde a definição do problema a ser resolvido e a seleção preliminar dos projetos que podem contorná-lo até a fase de operação do empreendimento e sua manutenção. A análise do Banco Mundial elencou e avaliou etapas consideradas essenciais, tais como refinamento do projeto inicial, licitação, execução e revisão por auditoria independente, entre outras. Das oito etapas analisadas, em apenas uma delas o Brasil obteve um bom conceito.

As apostas para o crescimento sustentável da economia brasileira estão nas concessões de ferrovias, rodovias, aeroportos e portos, mas existem inúmeras dúvidas se diante das condições impostas haverá interessados e se os cronogramas serão cumpridos.

Enquanto as concessões não chegam, estamos fabricando dinheiro e maquiando resultados. Daqui a 15 dias, quando da divulgação do Resultado do Tesouro Nacional de junho, os investimentos estarão, como sempre, inflados pelos subsídios ao programa Minha Casa, Minha Vida. Além disso, prossegue a “roda da fortuna” por meio do endividamento do Tesouro que transfere recursos para os bancos públicos que antecipam dividendos. O jogo de empurra já responde por um quarto da meta fiscal, apesar de o truque só servir para desmoralizar ainda mais a contabilidade oficial brasileira. Em síntese, a dívida pública cresce, mas os investimentos continuam entre as promessas.

Tempo de anomia

Percival Puggina
 Zero Hora

 O Brasil está à beira da anomia. Em relação aos poderes de Estado, o povo perdeu a fé, a esperança, e a caridade. Isso é anomia, ou seja, desintegração das normas que regem as condutas e garantem a ordem social. O povo chegou ao ponto de saturação e simplesmente não suporta mais tanta improbidade, corrupção, indignidade e incoerência. Já o Estado, diante do que vê nas ruas, dá mostras de completa desorientação. Seria tão simples - não é mesmo? - reger com probidade, dignidade e coerência! Não haveria mensalão, nem mensalinho, nem emendas parlamentares como moedas de troca no balcão do poder, nem jatinhos, nem jatões para assistir missa em Roma, nem Renan presidiria o Senado (quanta desfaçatez!), nem tantos ministérios, nem companheiros nos tribunais, nem tanto abuso de direitos, nem tamanha distância entre o modo de vida dos frequentadores do salões do poder e o modo de vida do povo, nem tanta incoerência entre o piso que se prometeu ao magistério e os vencimentos que a ele se paga. Asseguro-lhes, sob condições singelas, o povo não estaria nas ruas. 

O governo Dilma é um morto-vivo que respira por aparelhos. Aparelhos políticos, tutelados pelo poder. E por uma enxurrada de anúncios bilionários proclamados, para auditórios nervosos, em aparições ectoplasmáticas. Aparições que soam fúnebres, do tipo - "reúne a família que a hora está próxima". São eventos cujas imagens me trazem à lembrança a famosa foto de Tancredo Neves entre seus médicos no Hospital de Base de Brasília. O dinheiro não compra tudo, presidente.

Não se vislumbram saídas. A desatenção às leis da Economia está cobrando sua conta, que, como de hábito, chega mais rápido a quem pode menos. O maldito modelo institucional brasileiro, mal costurado, ficha-suja, nos deixa sem opção por essa via. Quantas vezes votamos, em vão, no mal menor? De fato, o pêndulo que, nos países com boa organização, oscila, periodicamente, segundo as leis da Física e da Política, da direita para a esquerda e da esquerda para a direita, desaprumou no Brasil. E balança, bisonho e sem tino, entre a esquerda e mais à esquerda.

***

Mudando de assunto, sem mudar. A bruma dos séculos envolve fatos e lendas a respeito de Santo Antônio. Conta-se, por exemplo, que certa vez, quando seu pai estava sendo julgado em Portugal, acusado de um assassinato, padre Antônio celebrava missa em Pádua, na Itália. De repente, o santo teria se quedado imóvel perante os fieis e aparecido em Lisboa, onde, não bastasse o prodígio da bilocação, ainda teria ressuscitado o morto para que testemunhasse a inocência do acusado. 

Extraordinário, não? Pois eu conheço um sujeito nada santo que realiza portento bem maior. Ele, com frequência, consegue não estar em lugar algum. Desaparece. Some aos olhos humanos. Falo de Lula. Sempre tão presente nas horas boas, toma chá de sumiço quando a coisa encrenca. Evanesce. E não me digam que é lenda. Não. É milagre mesmo. Milagre sem interferência divina. Coisas que ele faz por conta de não sei quem. Ou melhor, sei. Mas não digo. O homem que dá as cartas e joga de mão na política brasileira, há dez anos, sumiu de novo, como se nada tivesse a ver com o que está acontecendo no país.

Tirem as mãos da internet!

Silvio Figer
Blog do Noblat

Demorou menos do que se imaginava, e o governo brasileiro já envereda por uma agenda política desvirtuada no trato do escândalo da espionagem americana. Não me refiro à mais do que óbvia tática de desviar a atenção do público interno, das manifestações das ruas para um inimigo externo — uma espécie de Guerra das Malvinas à brasileira.

Refiro-me a algo tão menos óbvio quanto mais preocupante: a possibilidade de utilização do episódio para avançar o acalentado projeto de “regular” a mídia. Para tanto nada seria mais apropriado do que utilizar a internet como cabeça de ponte — é aí que se veiculam, de forma livre e irrestrita, jornais, revistas, livros, filmes, e televisão, do mundo inteiro, de hoje, de ontem, e de séculos passados.

Em essência, a mídia de hoje, em grande parte, se apoia na internet. Se começarem a “regular” por aí, o resto cai por efeito-dominó.

Assim é que nem bem avaliamos a gênese, nem a logística, de tão extensa rede de espionagem, e nosso governo já anunciou quatro frentes de ação: duas formais, e duas políticas.

São as formais o pedido de esclarecimentos ao governo americano, e a investigação da possível participação de empresas brasileiras. São as políticas o aprimoramento da legislação para garantir o sigilo de dados na internet, e proposição à ONU de regulação internacional para maior segurança cibernética (leia-se, novamente, internet). E é nestas ações políticas que reside o desvirtuamento: sigilo e regulação não costumam ser indicativos de honestidade de propósitos.

Convém lembrar que a internet não criou a espionagem, que existe desde que o mundo é mundo. E, se observarmos com atenção, verificaremos que se a internet, por um lado, permitiu uma escala de espionagem sem precedentes, por outro, permitiu uma exposição desta rede de espionagem em escala, e velocidade, igualmente sem precedentes.

Quando teria sido possível a apenas poucas pessoas — um jovem idealista, aliado a jornalistas — exporem ao mundo inteiro, simultaneamente, em questão de semanas, com tal riqueza de documentação, operação desta envergadura?

Então, qual o sentido das duas ações políticas? A primeira, que é o sigilo de dados na internet, não é uma questão de legislação, mas sim de tecnologia. Não por acaso empresas de segurança de dados encontram-se entre os gigantes do setor de informática; e hackers do bem se encontram entre os profissionais mais bem remunerados do mercado.

A questão da captura de dados, como espionagem militar ou industrial, ou, por exemplo, fotos e vídeos comprometedores de reputações pessoais, devem ser tratados na esfera da lei penal, ainda que sob um novo capítulo denominado de crimes virtuais.

Afinal, paparazzi e chantagistas de toda ordem, sempre existiram, e seus crimes são exatamente os mesmos do atual escândalo: espionar pessoas — apenas que as armas, em vez de computadores, eram fotos em papel, e filmes em película.

Quanto à segunda ação, que é a proposta de regulação internacional na ONU, qual o propósito? A guerra cibernética é uma realidade noticiada há tempos na mídia internacional, com ações de invasão dos computadores iranianos pelos EUA, acusações de invasões de computadores americanos pela China, e por aí afora.

As potências militares já dispõem, em seus respectivos Pentágonos, de um departamento de guerra cibernética; com o governo americano indo ao ponto de declarar, oficialmente, que atos de guerra cibernética contra seu território, que acarretem danos materiais, equivalem a uma declaração de guerra, ensejando uma resposta militar ao invasor cibernético. E recorrer justamente à ONU, onde o espião tem poder de veto?

Querem ação? Tirem as mãos da internet, e recorram à Corte Internacional de Justiça, em Haia, na Holanda. É ali que se julgam os malfeitos de países.

‘Brasil forma muito mal seus professores’, diz pesquisadora

Antônio Gois  
O Globo

  • Para a doutora em Educação pela Universidade de Harvard, o país erra ao ser pouco específico nas diretrizes curriculares
  • Segundo ela, a total autonomia conferida a profissionais que muitas vezes não dominam o conteúdo também é um problema

Divulgação 
Paula Louzano, especialista em educação. 

RIO - Em comparação com países que obtêm bons resultados na Educação, o Brasil comete um grave erro ao ser pouco claro na definição do currículo da educação básica. Este equívoco é agravado pelo fato de que, por aqui, orientações pouco claras sobre o que e como ensinar acabam caindo nas mãos de professores muitas vezes mal formados, mas com autonomia total para escolher como trabalhar conteúdos em sala de aula.

Este é o diagnóstico de Paula Louzano, professora da USP e doutora em Educação pela Universidade de Harvard, que apresentou há dez dias, no Conselho Nacional de Educação, um estudo comparativo sobre a organização do currículo brasileiro e a de outros oito países: Austrália, Cuba, Chile, Estados Unidos, Finlândia, Portugal, México e Nova Zelândia.

O que distingue o currículo brasileiro daqueles dos países que você pesquisou?
É o grau de especificação pelo governo (nacional, estadual ou municipal) do que deve ser ensinado em comparação com o que é definido pelo professor ou pelas escolas. No âmbito internacional, os países que outorgam maior autonomia a seus professores e escolas são Finlândia e Nova Zelândia. E estes países especificam muito mais o que deve ser ensinado em sala de aula em seus documentos nacionais do que nós fazemos. É verdade que no Brasil alguns estados e municípios definem o que deve ser ensinado em suas orientações curriculares, mas este não é um esforço nacional, e portanto depende da capacidade técnica e dos recursos disponíveis em cada ente federado. Isso gera desigualdade, já que os estados e municípios maiores e mais ricos foram justamente os que conseguiram realizar esta tarefa. Além disso, a nossa legislação determina que devemos ter uma base curricular comum a nível nacional, e este modelo de especificação do currículo pelos entes federados não necessariamente representa isso.

O país com melhores resultados na Educação no mundo é a Finlândia. E, lá, professores e escolas têm alto grau de autonomia na hora de elaborar o plano de aula. Por que lá dá certo e aqui não?
Sim, é fato que a Finlândia é o país que outorga maior autonomia a seus professores e escolas. No entanto, se nos atemos à legislação vigente, há no geral mais autonomia curricular no Brasil que na Finlândia. Nossas diretrizes curriculares nacionais não definem o que deve ser ensinado com o nível de especificação do currículo nacional finlandês. Além disso, o currículo nacional finlandês estabelece o que é considerado um desempenho adequado no final de cada ano, em cada uma das disciplinas. Com esta informação, o professor avalia o desempenho de seus alunos, e por isso não há avaliação externa lá. O professor avalia o aluno, mas o critério é comum.

Vale lembrar que há 20 anos a Finlândia especificava muito mais seu currículo centralmente, e portanto dava menos autonomia aos professores. Naquele momento, o país decidiu que queria investir na construção desta autonomia docente e o fez progressivamente, aumentando o rigor e a qualidade dos cursos de formação inicial de professores e, simultaneamente, diminuindo a especificação curricular e colocando a avaliação na mão do docente. Para ser professor na Finlândia, hoje, é necessário um curso de nove mil horas, com sete anos de duração, sendo que um terço delas corresponde a uma espécie de residência pedagógica: o futuro professor estagia em uma escola onde um professor tutor se responsabiliza junto com a universidade por sua formação.

O Brasil especifica pouco seu currículo e forma muito mal seus professores — hoje 30% das matrículas nos cursos de formação de professores são à distância —, ou seja, esperamos que professores mal formados, que muitas vezes têm pouco domínio do conteúdo ser ensinado, tenham autonomia total.

Na América Latina, Chile e Cuba são os mais citados como modelos na Educação. Como é o currículo nestes países e em que eles diferem do Brasil?
O Chile especifica o que deve ser ensinado a nível nacional e deixa pouco ou quase nenhum espaço para a escola. No entanto, não especifica centralmente como ensinar. Esta é uma decisão dos professores e das escolas.

Em Cuba, o governo define e especifica em detalhes o que e como se deve ensinar em cada uma das disciplinas, incluindo a sequência em que os conteúdos são apresentados e o tempo dedicado a cada um deles.

Estes dois países são unitários, o que deve ser levado em conta, já que o Brasil é federativo. Não digo que isto impede definições nacionais. Austrália, México e Estados Unidos, também federativos, fizeram especificações curriculares nacionais. Mas, nestes países, a especificação tende a ser menor: há mais espaço para outras instâncias intermediárias, como estados e municípios, intervirem.

Você acha que seria adaptável ao Brasil este modelo existente em alguns países, como Cuba, em que os documentos de orientação aos professores não apenas dizem o que ensinar, mas como ensinar?
Não acredito neste modelo de controle total do trabalho docente nem que ele caiba no nosso país. Isto não quer dizer que o que temos seja suficiente.

Devemos nos aproximar do modelo de países como Finlândia, Nova Zelândia e Austrália, ou mesmo Estados Unidos, onde há uma especificação nacional sobre o que ensinar, mas que é flexível e deixa espaço para a diversidade de métodos e caminhos. Por exemplo, a Finlândia determina que o aluno no final do segundo ano deve saber frações simples como metade, um terço e um quarto. Como o professor ensina isso e quando é uma decisão dele.

Mas é importante frisar que estamos longe disso, já que nossas diretrizes curriculares nacionais não fazem nem isso.

A reforma curricular teria impactos imediatos na qualidade do ensino ou seria preciso esperar uma geração de professores formados a partir de uma nova base para colher os frutos?
O currículo por si não garante a melhoria da qualidade da Educação, e sua definição não vai trazer impacto imediato se não vier acompanhada de sua implementação, o que envolve capacitação dos professores para implementá-lo.

Este tem sido o problema nos Estados Unidos. O Common Core (currículo base) estabeleceu habilidades pouco trabalhadas pelos professores antes de sua adoção — como, por exemplo, a complexidade textual. Os profissionais não estavam preparados para ensinar esta habilidade, e não havia material didático. Isto tem dificultado a implementação deste novo currículo. Por melhor que seja um currículo, sem a sua implementação na sala de aula ele não vale nada. Segundo Michael Fullan (pesquisador em Educação da Universidade de Toronto), 25% do sucesso de uma reforma dependem da sua aprovação ou desenho e 75%, de sua implementação.

Apesar de não garantir a melhoria, o currículo é uma base fundamental e um norte para as demais políticas, como a avaliação, os materiais didáticos e a formação dos professores. Como avaliamos nossos alunos com uma prova padronizada se não temos currículo? Isso é um contrassenso e explica por que a avaliação tem se transformado em currículo no Brasil.

No caso brasileiro, já que somos uma federação com tanta diversidade regional e cultural, faz sentido exigir um currículo mínimo para todas as escolas?
Sim, por um tema de equidade e igualdade de oportunidades. Não é possível que alguns brasileiros tenham acesso a um conjunto de conhecimentos acumulados pela sociedade e outros não. E que o local, a família e o grupo social em que uma criança nasça determinem o tipo de conhecimento a que ela vai ter acesso. A diminuição das desigualdades é a força motriz por trás desta política na maioria dos países, e deveria ser ainda mais forte aqui no Brasil, já que somos um dos países mais desiguais do mundo.

A Temer o que é de Temer?

Eliane Cantanhêde
Folha de São Paulo

BRASÍLIA - Poucas vezes um vice trabalhou tanto quanto Michel Temer agora, participando de reuniões com a presidente no Planalto, promovendo conversas com peemedebistas no Palácio do Jaburu e tentando neutralizar a força crescente do líder na Câmara, Eduardo Cunha, sobre o PMDB.

Há dois objetivos nesse ânimo participante de Temer: salvar Dilma e o governo dos seus próprios erros de articulação política e, principalmente, salvar a própria pele --e o nome na chapa da reeleição em 2014.

Faz sentido o socorro político de Temer, já que Ideli Salvatti parece perdida na grande confusão que virou o Congresso, Gleisi Hoffmann tem mais o que fazer tentando arrumar a casa e Aloizio Mercadante não tem boa interlocução nem no PT, imagine-se no resto.

Mas faz mais sentido ainda o instinto de autopreservação de Temer. Maior líder popular do país, Lula não deu um pio em público sobre as manifestações que mudaram o ritmo e, talvez, o rumo das coisas, mas tem falado e articulado um bocado a portas fechadas, quando não faltam críticas ao governo e à sucessora, essa "teimosa". Isso sobra para Temer.

Uma das articulações de Lula é para neutralizar e atrair de volta o governador Eduardo Campos e, assim, reduzir o número de candidaturas, garantir o apoio do PSB ao PT em 2014 e insistir em algo cada vez mais distante no horizonte da sucessão: a vitória petista em primeiro turno.

Campos dizia que só não seria candidato numa hipótese: se Lula fosse. E consta que uma moeda de troca da candidatura pela adesão era a vice, que sairia do PMDB para o PSB.

Além do "cadê o Lula?", pergunta-se em Brasília: "E cadê o Eduardo Campos?". Dizem que os dois andam negociando a mil, donde se deduz que a candidatura Lula ressurgiu das cinzas de Dilma e/ou a cadeira de Temer está balançando.

O fato é que, com a crise, tudo começa quase do zero. Todas de cabelo em pé e todos de barbas de molho.

Lei quer “proteger” cidadãos de funcionários públicos ruins

Marco Prates
Exame.com

Na esteira dos protestos que varreram o país, Câmara deve votar até amanhã lei de defesa dos usuários de serviços públicos. Projeto garante “urbanidade e respeito” aos cidadãos

Stock.XCHNG 
Lei em tramitação garantiria direitos a cidadãos vítimas de 
serviços públicos ruins  e funcionários públicos mal-humorados. 

São Paulo – Sabe a placa, colada em repartições públicas de todo o país, que avisa que desacatar servidor do Estado gera detenção e multa? Pois bem, os cidadãos também poderão gritar os seus direitos, embora sem o mesmo tom de intimidação, já que não há possibilidade de prisão.

Projeto de Lei previsto para ser votado nesta terça ou quarta-feira, antes do “recesso branco” do Legislativo, institui uma espécie de lei de defesa dos usuários de serviços públicos. Um dos itens fala em “urbanidade e respeito no atendimento aos usuários” (veja lista dos direitos básicos ao fim da matéria).

Outro artigo estipula que “os prestadores de serviços públicos responderão pelos danos que seus agentes causarem ao usuário”. Os órgãos, aliás, deverão facilitar e nunca recusar os protocolos de pessoas que se sintam prejudicadas pelo atendimento recebido.

O projeto de lei está tramitando na Câmara desde 2002. Sua votação neste momento - mais do que uma resposta aos clamores populares que tomaram as ruas do país em junho – atendem a uma imposição do Supremo Tribunal Federal (STF).

Há duas semanas, o ministro Dias Toffoli deu 20 dias para que a Casa preenchesse o buraco legal criada por ela própria. Uma emenda constitucional de 1998 previa a criação de lei neste sentido.

Vale para tudo
O texto que será votado, do ex-senador Lúcio Alcântara, trata de todos os “serviços públicos prestados pela administração direta e indireta da União”.

Ou seja, valerá para quem tem que resolver qualquer pendência mesmo em empresas sob regime de concessão.

Pendências comuns tratadas em agências da Receita Federal, do INSS, secretarias de fazenda, Detrans ou em postos de saúde de todo o país estão incluídas. Além das pessoas físicas, os direitos valem para as pessoas jurídicas.

As placas de desacato ao funcionário público, que continuam por toda a parte, podem estar com os dias contados. O artigo que estipula a pena por desacato não está no anteprojeto do novo Código Penal, ainda em elaboração no Congresso. Funcionários públicos que se sentirem desacatados poderão, caso o texto venha a ser aprovado, acionar a justiça por injúria, e não mais por um artigo especial para a categoria.

Já o projeto de defesa dos usuários de serviços públicos ainda poderá ser bastante modificado, já que várias matérias foram apensadas a ele, isto é, tramitam em conjunto. Se não houver modificações, o texto vai à sanção presidencial.

Confira a seguir 10 direitos básicos garantidos aos usuários no projeto:

a) urbanidade e respeito no atendimento aos usuários;

b) atendimento por ordem de chegada, assegurada prioridade a idosos, gestantes, doentes e portadores de deficiência;

c) adequação entre meios e fins, vedada a imposição de exigências, obrigações, restrições e sanções não previstas em lei;

d) igualdade no tratamento, vedado qualquer tipo de discriminação;

e) cumprimento de prazos e normas procedimentais;

f) fixação e observância de horário de normas compatíveis com o bom atendimento do usuário;

g) adoção de medidas de proteção à saúde ou segurança dos usuários;

h) autenticação de documentos pelo próprio agente público, à vista dos originais apresentados pelo usuário, vedada a exigência de reconhecimento de firma, salvo em caso de dúvida de autenticidade;

i) manutenção e instalações limpas, sinalizadas, acessíveis e adequadas ao serviço ou atendimento;

j) observância dos Códigos de Ética aplicáveis às várias categorias de agentes públicos.

O BC e as manobras fiscais

O Estado de S.Paulo

Vai mais longe do que se pensava a criatividade para tornar mais apresentáveis as contas do governo federal, segundo estudo assinado pelo economista Felipe Salto, da consultoria Tendências. As operações de antecipação de dividendos e a contabilidade criativa em operações com entidades controladas pela União, como o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), já são bem conhecidas, mesmo aquelas de concepção mais recente. A grande novidade envolve operações do Banco Central (BC) para rolar títulos do Tesouro no mercado financeiro. Uma das consequências indesejáveis é o aumento do custo. "Estamos tendo uma despesa enorme de juros em troca de nada", disse ao Estado o autor do estudo.
Consultado, o BC recusou comentar o trabalho. Essa recusa em nada melhora a imagem de um governo já conhecido internacionalmente pelas tentativas de maquiar os resultados fiscais em vez de cuidar da saúde de suas finanças.

Segundo Salto, o BC está substituindo o Tesouro na rolagem de uma parte dos papéis federais. Essa é a explicação apontada em seu estudo para uma aparente incongruência: a redução da dívida mobiliária federal enquanto os gastos aumentam e a arrecadação fica abaixo do valor previsto. Nessas condições, a dívida mobiliária deveria ter crescido, mas, ao contrário, os dados oficiais apontam uma redução - de 45,3% para 39,5% do Produto Interno Bruto (PIB) a partir de 2006. "Não faz sentido", comentou o economista.

A resposta para o aparente mistério deve estar, de acordo com sua análise, em outros dados de operações do próprio BC. Naquele mesmo período, a partir de 2006, as operações compromissadas da autoridade monetária passaram de 3,3% do PIB para 15,7%. Essas operações, realizadas por meio da oferta de títulos federais, devem servir, em princípio, para retirar do mercado o excesso de dinheiro. Mas devem estar servindo, segundo a suspeita do economista, para algo mais amplo que a execução da política monetária.

De acordo com o economista, o BC, para realizar essa tarefa, vem atendendo à demanda do mercado por Letras Financeiras do Tesouro (LFTs), corrigidas de acordo com a taxa básica de juros, a Selic, e, portanto, com remuneração pós-fixada. Essa escolha vai na contramão da política oficial de trabalhar preferencialmente com papéis prefixados ou corrigidos por índices de inflação. "Claramente, o BC está substituindo o Tesouro na rolagem da dívida pública mobiliária federal", segundo declaração citada na reportagem.

Se a autoridade monetária tem uma história diferente para contar, deveria contá-la, com urgência e com detalhamento necessário, porque o estudo elaborado pelo economista Felipe Salto parece responder de forma convincente à dúvida suscitada pelos dados oficiais.

Além disso, o aumento da dívida bruta federal, em cinco anos, é um claro indicador do afrouxamento das condições fiscais. Representantes do governo geralmente preferem discutir a evolução da dívida líquida - um dado obviamente inadequado. A emissão de dinheiro para fortalecer o caixa do BNDES, por exemplo, aparece na dívida bruta, mas é mascarado, no cálculo do valor líquido, pela contrapartida de um ativo de liquidez muito discutível.

Responsabilidade fiscal nunca foi o ponto forte do governo da presidente Dilma Rousseff. Seu antecessor encenou alguma preocupação com a solidez das contas públicas, durante algum tempo. Rejeitou, no entanto, uma proposta de seu ministro da Fazenda, Antonio Palocci, de estabelecer um plano de equilíbrio total das contas públicas em poucos anos. Essa recusa foi influenciada, segundo se noticiou na época, pela opinião da ministra-chefe de Casa Civil, Dilma Rousseff, e do presidente do BNDES, Guido Mantega, futuro ministro da Fazenda.

O novo governo, a partir de 2011, manteve com absoluta coerência esse desprezo a qualquer padrão sério de gestão fiscal. Inflação em alta foi uma das consequências. Nenhuma política de juros baixos poderia, portanto, ter dado certo.

Alta do dólar continuará pesando no preço do pão

Nice De Paula 
O Globo

Já a restrição ao trigo argentino tem impacto reduzido


RIO - Com alta acumulada de 15% em 12 meses, o preço do pãozinho deve continuar pressionado pelo dólar nos próximos meses. Já a decisão do governo argentino de restringir a exportação de trigo para controlar o preço do alimento no país já não pesa tanto na inflação do produto no Brasil. Diante da quebra da safra do país vizinho — principal fornecedor de metade das cerca de 10,5 milhões de toneladas de trigo consumidas aqui — o governo autorizou a compra de dois milhões de toneladas de Estados Unidos e Canadá, sem a tarifa de importação de 10% que incide sobre o produto e sobre o transporte. A medida amenizou o custo para os moinhos e supriu a falta do trigo argentino.

— A Argentina é sempre uma surpresa, mas nosso problema hoje não é falta de trigo. A safra russa foi muito boa, os preços no mundo não vão subir. O que está pressionando no Brasil é o câmbio. Estamos comprando trigo em dólar e não há como repassar para o preço da farinha — diz Lawrence Pih, presidente do Moinho Pacífico e conselheiro da Associação Brasileira da Indústria do Trigo (Abitrigo).

Segundo ele, só este ano, a farinha de trigo nos moinhos já subiu quase 30% e para o consumidor, a alta foi de 15,85%, segundo dados do IBGE. O pão francês, que tem 25 % do custo vinculado à farinha ficou 5,39% mais caro até junho, bem mais do que os 3,15% do IPCA. Nos últimos 12 meses, a alta do pãozinho chega a 15,04% contra 6,70% da taxa de inflação. Já o macarrão, que tem cerca de 60% do seu custo oriundo da farinha, subiu 9,76% este ano e 14,63% nos últimos 12 meses.

— E os preços vão continuar subindo a não ser que haja um pacto do governo para que o dólar volte a ficar em torno de R$ 2. A gente está importando hoje e paga na hora. De julho de 2011 até agora, a moeda já subiu 45% e isso impacta toda a cadeia de alimentos — diz Pih.

Ontem a moeda americana fechou a R$ 2,22 na venda. De março até agora, a Companhia Brasileira de Abastecimento (Conab) já vendeu 487 mil toneladas de trigo do estoque regulador para suprir o mercado interno. No último leilão, realizado quinta-feira passada, foram vendidas 101,9 mil toneladas, e o valor ficou 20% acima do da abertura do pregão. Dia 18, serão leiloadas as últimas 6 mil toneladas. A partir de agosto, com a safra nacional, a Conab volta a comprar para recompor seus estoques.

Safra brasileira será maior
Este ano, a safra brasileira do grão deve chegar a 5,7 milhões de toneladas, contra 4,2 milhões de 2012. Ainda assim, o câmbio deve pressionar os preços, já que o trigo é cotado em dólar, e o Brasil é exportador. Isso acontece porque nem todo o trigo tem qualidade para ser usado na produção de pão. Boa parte é destinada à fabricação de massas e biscoitos e, como não há demanda suficiente no mercado interno para este tipo, parte é direcionada ao mercado externo.

USP pede que MP dos Médicos seja retirada de pauta

Veja online

É a primeira vez em que a instituição se manifesta sobre as medidas anunciadas pelo governo. Diretoria da Faculdade de Medicina diz estar profundamente preocupada

(Marcos Santos/USP Imagens) 
Faculdade de Medicina da USP se diz preocupada com as 
propostas anunciadas pelo governo federal na área da saúde

A diretoria da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP), uma das mais importantes do país, recebeu “com profunda preocupação” as propostas na área de saúde anunciadas na semana passada pelo governo federal. A instituição divulgou uma nota nesta segunda-feira em que propõe “a retirada de pauta da MP dos Médicos para o Brasil”. Essa foi a primeira vez que a FMUSP se manifestou em relação às medidas. 

Entre as propostas anunciadas pelo governo brasileiro estão o aumento em dois anos na duração dos cursos de medicina, período no qual os alunos deverão trabalhar na rede pública; o aumento do número de vagas para graduação na área; e a importação de médicos estrangeiros. A FMUSP classificou as propostas como uma “política impositiva, sujeita a vários erros técnicos e políticos e o consequente descrédito dos propositores frente à população”.

Para a diretoria da faculdade, estender a duração do curso de medicina e obrigar os alunos a trabalhar no Sistema Único de Saúde (SUS) durante dois anos atrasará ainda mais a formação do médico, que se dá por completa após a conclusão da residência médica. “Se a questão é a falta de médicos, o adiamento de sua formação irá piorar o quadro atual. Se a questão é distribuição dos médicos por todas as regiões do Brasil, a MP não oferece respostas para a migração desses estudantes com a necessária supervisão desses alunos”, diz a nota.

Risco — 
A faculdade também considerou que importar médicos estrangeiros sem avaliá-los devidamente oferece um “risco à sociedade”. “Sem uma avaliação criteriosa, não há como garantir que esses profissionais tenham condições de atendimento à população.”

“A questão do mau funcionamento da rede pública de saúde não é resultado da falta de médicos e sim de uma política pública de saúde inadequada que vem se agravando ano a ano”, diz a nota. A diretoria da FMUSP considera que a fraca política pública em saúde no Brasil atinge de forma negativa a infraestrutura básica para diagnóstico e tratamento e a possibilidade de um plano de carreira para médicos e outros profissionais de saúde “que os motivem a se fixar em locais distantes dos grandes centros”.

Propostas — Na nota, a FMUSP propõe, além da retirada de pauta da MP dos Médicos, que seja criada uma comissão composta por representantes dos Ministérios da Educação e Saúde e da Comissão de Saúde da Câmara dos Deputados, lideranças das principais escolas médicas do país, das entidades representativas dos profissionais médicos e estudantis. A ideia é que grupo elabore outra proposta, mas dessa vez “factível e viável para a saúde pública do Brasil”.

***** COMENTANDO A NOTÍCIA:
Segue abaixo nota do Lauro Jardim, Veja online, sobre a tramitação da MP do programa “Mais médicos”. 

O governo vem recebendo todos os recados possíveis sobre as dificuldades para a tramitação da MP dos Médicos, que ainda nem chegou ao Congresso.

Henrique Eduardo Alves reconhece que não faltarão obstáculos – vindos da oposição e da base aliada -, mas diz ter uma carta na manga para tentar acalmar os colegas convictos em derrubar o projeto.

Aliás, Henrique Alves quer mexer num dos pontos mais delicados da MP, e adianta:

- A MP não sairá daqui como entrou, sem dúvida. Eu sugiro alterar o trecho que obriga médicos recém-formados a prestar serviço na rede pública. Eu retiraria essa 

obrigatoriedade no caso de profissionais que cursaram universidades particulares. Eles estudaram por conta própria e não têm que dar contrapartida ao Estado.

Depoimento do médico Carlos França sobre a realidade do SUS no Rio de Janeiro

Mário Assis
Tribuna da Imprensa

Faz sucesso na internet esse depoimento corajoso do médico Carlos França, endereçado ao ministro da Saúde, Alexandre Padilha, e à presidente Dilma Rousseff. O médico trabalha num posto médico em Itaipuaçu, no Município de Maricá, uma importante área de turismo no litoral do Rio de Janeiro.

Médico Carlos França, 
mais uma vítima do mau governo Dilma


A VERDADE NUA E CRUA

Carlos França

Sr. Padilha e Sra. Dilma, esta é a minha unidade de saúde UBS Itaipuaçu – Maricá-RJ, há 6 anos governada pelo seu partido. É uma casa adaptada com infiltrações e mofo. Quando chove, cai água nas salas de atendimento, o arquivo médico inunda e os prontuários….Falta de tudo, luvas, remédios básicos, mas sobra dedicação para um salário bruto de R$ 1.200,00.

Sabe Padilha/Dilma, não falta médico que queira fazer saúde pública, isto é mais uma das mentiras de sua ditadura da informação, onde o governo se apoia na premissa “UMA MENTIRA REPETIDA MIL VEZES TORNA-SE  VERDADE”. A minha sala de atendimento não possui ventilador, o de teto é apenas enfeite.

O verão de regiões litorâneas beira os 42 graus, a água potável é disponibilizada à temperatura ambiente (Itaipuaçu do seu governo não possui rede de água e esgoto). Já prescrevi as medicações em qualquer tipo de papel por falta de receituário oficial. Apesar de tudo, trabalho e me esforço bastante.

Em Maricá, a saúde foi devastada pelo atual governo, o aparelho de RX está quebrado há 1 ano. O ecocardiograma e ultra-som foram roubados (SIC Gestor Público), ECG funciona 1 mês e fica 3-4 meses em manutenção. Há 8 meses temos a debandada de especialistas, devido ao salário irrisório sem benefícios legais (férias, décimo terceiro salário, horas extras, insalubridade etc). Perdemos endócrino, cárdio, reumato, oftalmo, neuro, nefro, pneumo, ortopedista etc.

Então, Padilha/Dilma, a saúde pública que os Srs. querem oferecer à população mais humilde é esta? As suas mentiras não vão conseguir se sustentar por tanto tempo… “Não faltam médicos! Falta governo!”

Sou médico do SUS, não fujo a luta… Mas não faço milagres sem infraestrutura.

A INCOMPETÊNCIA DO PADILHA: troca de equipamento atrasa exame de HIV

Lígia Formenti
O Estado de S.Paulo

Coordenações de Aids de Estados e municípios reclamam que aparelhos automáticos foram substituídos por manuais, causando demora nos testes

A espera pelo resultado de um exame de carga viral, essencial para o acompanhamento de portadores de HIV, está aumentando em Estados do País. As dificuldades, relatadas por Coordenações de Aids de Estados e municípios, são reflexo de uma troca de equipamentos organizada pelo Ministério da Saúde. Aparelhos automáticos, com maior capacidade para realização de testes, foram substituídos por manuais.

JF Diório/AE
Demora. Além da redução da capacidade, 
foram registrados também problemas técnicos

No Rio Grande do Sul, Estado com a maior taxa de incidência de aids do País, as queixas de pacientes se multiplicam. "Já enviamos uma carta ao departamento nacional, pedindo a troca dos aparelhos", afirmou o coordenador do programa de aids do Estado, Ricardo Charão. "É algo preocupante, que exige providências rápidas. A demora pode colocar em risco o tratamento de um número significativo de pacientes."

Oito laboratórios no território gaúcho fazem testes de carga viral - um exame indicado para avaliar o estágio da infecção e a eficácia do tratamento. Dois deles receberam máquinas automáticas, capazes de fazer até 1.500 exames mensais. Outros seis receberam aparelhos manuais, com capacidade de fazer 400 análises por mês. O número de casos de aids no Estado é de 39,1 por 100 mil, o dobro da taxa brasileira, que é de 19,6. "Precisamos de pelo menos, outras duas máquinas automáticas", constatou.

Os aparelhos teriam endereço certo: Hospital de Clínicas de Porto Alegre e laboratório da Universidade Federal de Santa Maria. O primeiro, com equipamento antigo, tinha capacidade para fazer 1.500 análises mensais. Depois da troca, faz 400. O laboratório da universidade antes fazia 950 exames e, agora, faz 400.
"Não fomos consultados pelo ministério sobre a troca, feita diretamente com laboratórios. Somente demos conta do problema quando as reclamações para entrega dos exames aumentaram", conta Charão. O Ministério da Saúde, por meio da assessoria de imprensa, reconheceu que coordenações de vários Estados e municípios se queixaram da mudança.

Uma licitação foi feita no fim do ano passado para a troca dos aparelhos. O contrato com a empresa vencedora, a Abbott, previa a instalação de 23 máquinas automatizadas e outras 60, manuais. De acordo com o ministério, a configuração atual permite essa mudança.

Laboratórios com menor demanda ficariam com máquinas manuais e os mais movimentados, com as automatizadas.

"Os equipamentos estavam obsoletos, era necessário alterar. Mas como substituir máquinas automatizadas por manuais? Não precisa ser especialista para ver que isso não daria certo", afirmou Carlos Duarte, representante do movimento de Aids no Conselho Nacional de Saúde. Ele observa que, para máquinas manuais atingirem maior produtividade é necessário aumentar o número de equipes que fazem a leitura dos equipamentos. "Isso envolve custos para as coordenações, o que não é fácil", diz Duarte. Charão afirma também que a contratação de pessoal não é algo que se faz rapidamente.

Charão solicitou informações para coordenações dos demais Estados do País sobre eventuais problemas com a troca de equipamentos. Até agora, três Estados responderam. Paraná e Santa Catarina, informou, relataram também redução da capacidade para fazer exames de carga viral. Em Mato Grosso do Sul, que tem menor demanda, o problema não foi constatado.

O Centro de Referência de DST-Aids de São Paulo informou ao Estado que um remanejamento foi feito e, por enquanto, não foram identificados problemas nos testes.

Assistência. 
Além da redução da capacidade dos exames, Charão afirma que problemas de assistência técnica foram encontrados. "São problemas que surgem num momento ruim, pois a demanda do sistema está aumentando", disse. Ele informou que o Estado está no auge de uma campanha para identificação de soropositivos. "Logo depois do diagnóstico, o teste de carga viral é muito importante, para saber qual o estágio da doença", completou.

***** COMENTANDO A NOTÍCIA:
Reparem bem: este é o ministério que acha que apenas importar médicos é suficiente para resolver o caos da saúde pública no Brasil, quando o problema maior é a falta de estrutura das unidades existentes que, aliás, precisariam ser ampliadas. 

É o mesmo ministério que, numa declaração infeliz do senhor Padilha, com a obrigatoriedade de dois anos de serviço social, para TODOS OS ESTUDANTES DE MEDICINA, pretende “humanizar” os profissionais de saúdem, como se as faculdades de Medicina, ao invés de médicos, estivessem formando veterinários!!!

Pois bem, eis que, o “competente” Padilha teve uma ideia genial: resolveu  “trocar” equipamentos automáticos com maior capacidade de realização de testes por manuais, que, evidente são mais lentos e acabam provocando demora nos testes..

Qual a consequência da medida genial? 

“...A espera pelo resultado de um exame de carga viral, essencial para o acompanhamento de portadores de HIV, está aumentando em Estados do País. As dificuldades, relatadas por Coordenações de Aids de Estados e municípios, são reflexo de uma troca de equipamentos organizada pelo Ministério da Saúde”.

O texto é um atestado da incompetência com que é conduzida a saúde pública no país (não apenas a saúde pública, mas todos os demais serviços públicos). Demonstra o descaso para com a população que, insatisfeita, reclama nas ruas. 

O tal programa lançado, de forma autoritária pelo governo Dilma,  foge das questões mais urgentes que aflige a rede pública, para se converter em mais um lançamento marqueteiro, cujos resultados serão pífios, por  atender a tudo menos o essencial. 

Ninguém seria contra a ideia de importação de médicos, desde que se comprovasse ser esta a necessidade mais urgente. Mas não é: quem atua na área sabe e conhece bem os problemas mais emergenciais (e simplesmente sequer foram convidados para debater tais problemas em busca de soluções), reclama é da falta de estrutura, condições mínimas para que o atendimento fosse mais digno.

No post seguinte, A verdade nua e crua, é um depoimento  do médico Carlos França que, de forma eloquente e corajosa, a exemplo do depoimento que publicamos aqui da doutora Juliana, exibe o quanto  o país segue desgovernado por pessoas desqualificadas.

O retrocesso protagonizado pelo Ministério da Saúde no tratamento dos pacientes com AIDS, conforme se vê acima,  comprova bem que o senhor Alexandre Padilha  está longe de ser uma solução para se converter num entrave à melhoria da qualidade da saúde pública brasileira.