domingo, setembro 23, 2007

Os apagões de Lula

Adelson Elias Vasconcellos, Comentando a Notícia

Primeiro, foi o apagão moral. A coisa começou com Waldomiro Diniz e se espalhou por toda a administração federal, contaminando o outrora partido da ética e dos bons costumes. A sucessão não de escândalos, porque escândalos é quando a porcaria surge à tona, mas a sucessão de assalto aos cofres públicos, marcam inexoravelmente o governo do senhor pela corrupção. E isto não apenas aqui se está pela primeira vez, mas é o resultado da pesquisa feita pelo Instituto Ipsos, publicada no Estadão de domingo último.

O mensalão foi um acontecimento que deixou claro a que veio Lula e seus amestrados: o assalto ao Estado brasileiro, em busca da realização suprema de um projeto de poder. Tanto que é assim, que durante todo o primeiro mandato o governo não realizou um projeto de governo sequer. E naquilo que tentou, resultou em escândalo, corrupção sistematizada.

Mas houve uma ação de governo que, pelo menos até quanto se saiba, a corrupção ficou de fora, dando lugar à incompetência. No campo da política externa, jamais o Brasil andou tão submisso a países medíocres e ridículos. Não os países em si, mas seus governantes. E este é o caso da Bolívia, Argentina e Venezuela.

Não precisamos rememorar os fatos que envolveram e ainda envolvem a questão do gás boliviano. Este caso foi apenas um dentre tantos que fazem parte do pacote do apagão da nossa política externa. E fruto dele, e logo em seguida vamos falar, o Brasil já vive, ou revive os tormentos do apagão de energia.

Antes da energia, veio o apagão aéreo, com 353 mortes, o apagão da infra-estrutura, onde morrem por ano cerca de 50 mil brasileiros, o apagão na segurança com 28,5 mortes por grupo de 100 mil habitantes, o apagão na educação, onde o resultado do ENEM demonstrou que nosso ensino hoje é pior do que era há 12 anos atrás, veio o apagão da saúde com centenas de mortes de pessoas que não conseguem ser atendidas pelos hospitais, em lastimável estado de sucateamento.

Portanto, no Ministério da Decência, o único que Lula jamais criará, por desconhecer o que significa isto, adverte: viver no Brasil do Governo Lula é prejudicial à saúde, à vida e ao bolso.

Doloroso constatar que, em apenas quatro anos e meio, Lula conseguiu transformar o país do futuro em país do atraso. E se a economia vai bem, devemos agradecer à economia que nos empurrando, mesmo que o governo faça enorme esforço para ficar parado ou voltar no tempo.

Lula é inteligente até certo ponto. Ele sabe que mexer na economia é correr um perigoso risco de por tudo a perder. Como ele vive e usufrui de uma estabilidade que não foi arquitetada e implantada por ele, deixa o barco correr solto.

Voltemos à questão do gás e do apagão aéreo. Várias vezes avisamos que o apagão previsto para 2011 já está acontecendo aqui e agora. Cuiabá que o diga. Diante da atitude submissa do governo Lula para com a Bolívia, agora o vizinho resolveu jantar seu “amigo” petista, e cumpre de fornecimento do jeito que lhe dá na telha, apesar do preço do gás já haver disparado. Está faltando energia na Grande Cuiabá. A moderna usina termelétrica, a gás, inúmeras vezes paralisou suas atividades por falta de gás. Razão tinha o general Ernesto Geisel quando se negou em firmar um acordo com os bolivianos. Além de não serem de confiança, Geisel sempre questionava:”E quando eles resolverem cortar o fornecimento o que nós vamos fazer, enviar o Exército para abrir os dutos?”.

A reportagem é Hudson Corrêa para a Folha de São Paulo:

Falta de gás boliviano faz Cuiabá decretar emergência

Queda constante de energia afeta abastecimento de água

A suspensão pelo governo boliviano do fornecimento de gás à usina termelétrica Governador Mário Covas, em Cuiabá (MT), deixou "vulnerável a distribuição de energia" na cidade, segundo a Cemat (Centrais Elétricas Mato-grossenses). Desde o início do mês, a Bolívia mantém a suspensão.

O prefeito de Cuiabá, Wilson Santos (PSDB), decretou ontem situação de emergência devido "às constantes oscilações e queda de energia elétrica", que, segundo ele, prejudicam o abastecimento de água ao danificar máquinas da companhia de saneamento.

O decreto também foi motivado pela dificuldade na captação de água, devido à seca.

A Bolívia suspendeu a entrega de gás afirmando estar com produção insuficiente, além de precisar atender à demanda da Petrobras por 30 milhões de metros cúbicos diariamente.

No último dia 12, houve interrupção no fornecimento de energia para 39.521 dos 850 mil consumidores em Mato Grosso. Foram atingidos 35 bairros de Cuiabá e da cidade vizinha de Várzea Grande, além de localidades nos municípios de Acorizal, Jangada, Chapada dos Guimarães, Nossa Senhora do Livramento e Rosário Oeste.

A interrupção foi causada por defeito em um transformador na subestação da Eletronorte em Cuiabá, informou a Cemat. "Porém, o fornecimento de energia não teria sido interrompido se a usina [a gás] estivesse funcionando", acrescentou a empresa.

A Cemat diz que devido ao forte calor em Mato Grosso o consumo de energia das 13h às 20h aumentou 11,6%, passando de 814 MW, em setembro do ano passado, para 909 MW.

Mato Grosso recebe energia do SIN (Sistema Interligado Nacional), produzida em outros Estados, e conta com hidrelétricas e pequenas termelétricas. Mas, para a Cemat, sem a usina Governador Mário Covas, o sistema "está rodando sem estepe" para emergência.

Até então o governador de Mato Grosso, Blairo Maggi (PR), afirmava que a usina não era fundamental para o abastecimento do Estado. Ontem, a reportagem não conseguiu nova avaliação dele. A direção da Pantanal Energia, que opera a usina Governador Mário Covas, não telefonou de volta.

Colaborou Fabiano Maisonnave , em Caracas.


Ontem, vimos muitas faces do apagão da saúde pública, como de certo, acredito que sobre o apagão aéreo, dispensa-se maiores comentários. Já o apagão de energia, que vem sendo anunciado há muito tempo, as evidências vão se tornando mais e mais visíveis. E, se ela instalar-se, o tributo deve ser consagrado inteiramente ao senhor Lula. Por quê? Porque o apagão jogou o governo FHC no chão em 2001, e ele não sentou à porta do Planalto e chorou. Rapidamente, reuniu uma equipe e lhe outorgou e delegou autoridade para agir. Tanto que, ao transmitir a faixa presidencial a Lula dois anos depois, o país já vivia às claras. Portanto, mesmo que queira, e vai tentar estejam certos, culpar administrações passadas, Lula se dignidade e caráter tivesse, faria o mesmo que seu antecessor. Mas quem disse que Lula sabe o que significa dignidade e caráter? Razão pela qual, ele próprio, é o apagão em pessoa. Mergulhado na ignorância, se dá ao ridículo de gabar-se dela. E quer condenar o país a seguir o mesmo roteiro.

O entulho a remover

Augusto Nunes, Jornal do Brasil

"O brasileiro tem complexo de vira-lata", diagnosticou Nelson Rodrigues em 1958, espantado com o medonho pessimismo coletivo despertado pelo embarque da Seleção rumo à Copa da Suécia. O grande cronista avisou que, além de rever craques de finíssima linhagem, o mundo seria apresentado a dois gênios: Pelé e Garrincha. Eram duas lendas em seu começo.

"Vamos ganhar a Copa", profetizou. Ninguém acreditou. Consumada a derrota para o Uruguai em 1950, os brasileiros decidiram que o país do futebol nunca existira. Éramos uma nação de perdedores vocacionais, ficou estabelecido naquela trágica tarde. O apito que encerrou o drama no Maracanã também anunciou o advento da era da depressão.

Duraria oito anos até ser enterrada num gramado na Suécia. Morrera no instante em que o capitão Bellini ergueu sobre a cabeça a mais cobiçada das taças. E então tudo mudou. Ao complexo de vira-lata sobreveio a síndrome do cavalo de raça. Extasiadas com a Seleção, multidões em transe passaram a promover carnavais temporões.

Os voleios de Maria Esther Bueno, os arremessos de Wlamir Marques, os socos de Eder Jofre, a coroação do rei Pelé - todo dia era dia de festa. O pessimista irremissível virou um otimista delirante. Na segunda metade da era JK, o brasileiro foi tão feliz quanto o presidente. E sabia disso.

No começo do governo, o país estava condenado a perder todas. No fim dos anos 60, tomara forma a pátria dos campeões em tudo. Fossem quais fossem a modalidade, os concorrentes, o tipo da competição, o formato do troféu, o brasileiro inscrito na disputa que tratasse de vencê-la.

Só mereciam aplausos o primeiro lugar, a medalha de ouro, o topo do pódio. Abaixo disso era o nada. A onda de megalomania alcançou altitudes inverossímeis a partir dos anos 70. Heróis nacionais a caminho da estátua eram reduzidos a traidores da pátria por um segundo lugar.

Recordistas mundiais tinham de superar a cada prova a marca anterior. Foi-se JK, Jânio e Jango passaram, a democracia sofreu um desmaio de 20 anos, voltou a caminhar com as pernas bambas - mas a lira do delírio continuou a soar até a virada do século, quando o brasileiro recuperou o juízo.

Descobriu que a fantasia da potência esportiva camuflava o anão olímpico. Tornou-se mais tolerante com os campeões, e passou a reverenciá-los também nos maus momentos. Aprendeu a festejar medalhas de bronze, a aplaudir a bravura de quem não ficou entre os três primeiros. Tudo somado, pode ser o prenúncio da era da sensatez.

Chegou a hora de percorrer o caminho, jamais traçado com exatidão, que conduz ao primeiro mundo esportivo. Qual deve ser o papel do governo? E da universidade, das empresas, dos clubes? Também chegou a hora de remover o entulho do atraso. Ali se amontoam dirigentes corruptos, cartolas gatunos, traficantes de passes, punguistas de gravata, fraudadores de verbas ou velocistas lotéricos. Nenhum deles é atleta. Mas vivem ganhando.

Cabôco Perguntadô
Em 2003, o ministro da Justiça, Márcio Thomaz Bastos, prometeu que o governo construiria, nos três anos seguintes, quatro presídios de segurança máxima. Até agora, só ficou pronto o de Catanduvas, transformado num hotel-com-grades pelo hóspede e gerente Fernandinho Beira-Mar. O Cabôco têm duas perguntas a fazer. Quando é que o governo federal vai retomar o controle de Catanduvas e fazer daquilo uma cadeia de verdade? E que fim levaram os três presídios da promessa?

Craque em geografia
De passagem por Madri, o presidente Lula incorporou o banqueiro durão. "Vou dizer ao meu amigo Bush que não vamos admitir que a crise dos Estados Unidos atravesse o Atlântico e venha nos perturbar", disparou o tresoitão. A bala explodiu na testa da geografia: não há nenhum oceano entre os dois países. A menos que a turma do PAC tenha materializado em segredo a transposição das águas do Atlântico, a crise poderá viajar para o Brasil por terra. De carro, se estiver sem tempo. De bicicleta, se estiver em forma.

Cacciola sonha com o Senado
Animado com o desfecho da missa negra celebrada para devolver a paz à alma penada do presidente Renan Calheiros, o banqueiro-bandido Salvatore Cacciola vai propor ao governo brasileiro um acordo que considera "bom para todos". Ele topa voltar imediatamente, e por conta própria, desde que a continuação do processo judicial seja condicionada à aprovação do Senado (em votação secreta). Cacciola dá como certo o apoio dos 40 de Renan. E conta com pelo menos dois votos do bloco dos abstencionistas de araque.

Como no bordel das normalistas
O bloco dos tucanos favoráveis à eternização da CPMF é uma versão parlamentar do bordel das normalistas, fantasia recriada com freqüência nos contos de Dalton Trevisan. Como as meninas devassas, os marmanjos do PSDB fazem coisas de ruborizar pedófilo sem remover do rosto o sorriso de aeromoça bem-nascida e virtuosa. Eles sabem que o tributo inventado para bancar - por pouco tempo - investimentos na área da saúde hoje financia a gastança federal. Mas também sabem que o preço é bom.

Yolhesman Crisbelles
A taça da semana vai para o senador Aloizio Mercadante, pela resposta-padrão aos milhares de mensagens de eleitores indignados com o líder dos abstencionistas amigos de Renan Calheiros. Trecho:

Fiz o difícil e o necessário. Eu não era simplesmente um parlamentar, mas um juiz diante de uma decisão que poderia tirar da vida pública por mais de 10 anos um senador eleito com 80% dos votos.

Pare com isso, senador. Conte logo que fez o que o chefe Lula mandou fazer.

Dois espelhos partidos

Gaudêncio Torquato (*) , Estadão

Falta um conselheiro Lafayette no Congresso Nacional. O jurisconsulto mineiro (1834-1917), famoso por suas tiradas, irritando-se, um dia, com os constantes apartes do senador Diogo Velho, brandiu a expressão usada por Aulo Pérsio no Senado romano: “Sacer locus, puer, extra mingite.” Encafifado, o senador Diogo valeu-se do barão de Cotegipe, ao seu lado, que cochichou a tradução: “O lugar é sagrado, menino, vá urinar lá fora.” Nunca mais foi incomodado pelo paraibano de Pilar, na Paraíba, conhecido como visconde de Cavalcanti. Nessa época de figuras proeminentes, o senador Rui Barbosa se prestava ao dever de mostrar aos pares que, entre março e outubro de 1896, ganhara na advocacia 680:000$. A honestidade era posta às claras. Hoje, as Casas Legislativas são referências depreciadas. Os grandes embates cedem lugar a uma linguagem tatibitate, centrada na defesa ou no ataque de atores, ou no repique da agenda ditada pelo Executivo. Ao Congresso falta autoridade. E sobra desleixo no cumprimento de preceitos que regem os Poderes, entre os quais a independência e a harmonia, nos termos da Carta Magna. Por ser cada vez mais rala a aura de grandeza que circunda os políticos, a instituição é a menos admirada pelos brasileiros, com 2% de credibilidade.

A constatação poderia ser uma obviedade, não fosse o fato de que é o Poder Executivo que mais desmoraliza o Poder Legislativo. Torna-se patente que o presidencialismo, sob o mando lulista, faz gato e sapato do Senado e da Câmara, transformando-os em extensões do Planalto. Nenhum governante, desde os militares, fez uso da instituição de modo tão instrumental quanto o atual. Se a democracia passa por momentos de declínio nos quadrantes mundiais, em face de crises econômicas que baixam sua qualidade, no Brasil a corrosão democrática sofre maior impacto em função da identidade salvacionista assumida pelo presidente da República, que desnivelou a régua dos Poderes. O papel do Parlamento se estreitou. Nem o Senado representa bem os Estados nem a Câmara, os anseios do povo. São dois espelhos partidos. E, ao se apropriar da estabilidade econômica alcançada pelo País, cuja paternidade o tucanato não soube defender, o lulismo passou a refazer a História e a interferir de modo inusitado na esfera parlamentar.

Para jogar nos cofres quase R$ 40 bilhões gerados pela alíquota de 0,38% cobrada da CPMF, o governo chega ao cúmulo de revogar três medidas provisórias (MPs), jogando no lixo critérios da relevância e urgência, que fundamentam o uso do instrumento. A confusão jurídica e a perplexidade aumentam diante da insinuação de que as revogações das MPs podem não ser definitivas. Bastaria autorizar o rolo compressor governista a rejeitar, mais adiante, as revogações. Num dia, Lula usa a prerrogativa excepcional para legislar; no outro, vale-se da mesma arma para anular medidas anteriores (urgentes e relevantes); e, num terceiro movimento, pode manobrar para repor a instância inicial ou reapresentá-la com modificação. Um samba do crioulo doido. O artifício pode até ser legal, mas é imoral. A Câmara vira bagaço de laranja. Por trás da manobra está uma verbinha apreciável para encompridar o cobertor do “pai dos pobres”.

O custo subiu às alturas. Os aliados cobraram liberação de emendas e cargos federais. Sempre foi assim, diz-se. Mas, convenhamos, a situação, agora, é vergonhosa. Assiste-se a um estupro da moralidade. Como o País passa por momentos de extrema competitividade política, inflaciona-se o preço do apoio parlamentar. Dessa forma, a administração petista engendra a maior desconstrução do ideário político que já se viu no País. Há outro aspecto. A desconfiança nos políticos beneficia o mandatário-mor. As lealdades da massa convergem para quem lhes ofereça mais agrado e simbolize força para resolver problemas. Quem se der ao trabalho de examinar a planilha da governança desenhada pela administração constata que, ao lado das MPs, o lulismo usa todas as ferramentas com força legislativa, como projetos de lei do Executivo em regime de urgência, instruções normativas (que se multiplicam na Esplanada dos Ministérios), portarias e atos declaratórios sobre os mais diversos temas. É um arsenal nunca visto. Se quiserem resgatar a dignidade, Senado e Câmara terão de dar um basta ao imperialismo do Planalto, a partir de um dique para barrar as medidas provisórias, estabelecendo uma agenda própria, que vá além de coisas como voto aberto e extinção da figura do suplente de senador sem voto. Sem uma reforma política em profundidade, a mixórdia continuará.

Se o governo arrebenta as paredes do edifício político, cimenta a base organizada com massa argentária. Controla passos de entidades como MST e centrais sindicais. Uma obra de engenharia que custa milhões. No caso das centrais, o preço é uma legalização que abre caminho para polpudos recursos provenientes do Imposto Sindical. Aliás, recente aferição feita pelo Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea do Brasil mostra que 45% da cúpula do governo é sindicalizada. Eis aí mais uma faceta do projeto de poder do lulismo. Um cala-a-boca no sistema de “porta-vozes do caos” faz parte da armação. A ferocidade leonina da CUT virou miau de gato de estimação. O cutismo frui as delícias do poder. A UNE já não grita alto - nem mesmo tomou partido no affaire Renan Calheiros - porque está sob o domínio do PCdoB, partido a que pertence um irmão do presidente do Senado.

Não é de admirar, portanto, que nossa mais alta autoridade, poderosa, garanta ao primeiro-ministro espanhol, José Luis Zapatero, que pedirá a Bush para “resolver o problema da crise” e não “deixá-la atravessar o Atlântico e chegar ao Brasil”. Com tanto poder, dá-se o direito de abrir as portas do Senado e da Câmara quando e como quiser. E exigir das duas Casas que andem a reboque do Executivo. A isso, o conselheiro Lafayette certamente teria respondido com o bom e velho latim.

(*) Gaudêncio Torquato, jornalista, é professor titular da USP e consultor político

Receita de rabada nacional

por Ralph J. Hofmann, site Diego Casagrande

Esta rabada nacional não deve ser confundida com a tradicional receita Teuto-Austro-Húngara conhecida por Ochsen Schwanz Zuppe, que se traduz como Sopa de Rabo de Boi.

Trata-se de rabada de rato. O ingrediente principal é de rabos um ou mais ratões que podem ser facilmente obtidos em uma das casas do congresso. Basta verificar qual o doador de rabo mais lustroso, com o olhar mais íntegro e impoluto. Se estiver falando as palavras integridade, democracia ou nacional com um soluço na voz dirija-se para a parte de trás do mesmo. Verá que está com o rabo preso por grilhões. Neste momento basta decepar o rabo antes e depois dos grilhões e levar para a cozinha. Não se preocupe com o doador. Imediatamente crescerá outro rabo nele e este rabo também ficará preso, possivelmente a alguma agremiação política cujo poder esteja ascendendo.

Remova os pelos do rabo sapecando-o numa chama viva e corte-o em pedacinhos. A seguir frite-o nos óleo das mãos de um empreiteiro e na chama mais quente que puder encontrar. Esta chama poderá dar um leve sabor de enxofre ao produto final. O óleo de mãos de empreiteiro sabidamente dá um paladar extremamente rico, luxuoso.

A seguir verta na panela dois litros de águas revoltas e deixe apurar até restar apenas um litro na panela.

Para temperar adicione pérolas do raciocínio que poderão ser obtidas junto à Filósofa Maria Helena Chauí ou a Aloizio Mercadante.

Adicione uma pitada de lágrimas de crocodilo, que são regularmente vertidas pelo presidente Lula, que darão a salinidade adequada ao prato.

Sirva em prato fundo acompanhado do pão que o diabo amassou.

Pela fartura de rabos que se encontra no local de origem deste prato, é uma excelente escolha para congressos do PT e reuniões do Fórum de São Paulo, pois contém todos os ingredientes favoritos dos comensais.

Curto-circuito no governo

O Estado de São Paulo
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O risco de novo apagão dentro de poucos anos é cada vez mais evidente. A economia, segundo o governo, crescerá em torno de 5% ao ano pelo menos até 2010. O setor privado está batalhando para que se cumpra a previsão. Só se poderá manter esse ritmo de crescimento se a oferta de eletricidade aumentar rapidamente, mas a política energética vai mal. Os projetos das hidrelétricas estão emperrados e o governo tem dificuldades com o Programa de Aceleração do Crescimento (PAC). A geração de energia por termoelétricas será crucial para o abastecimento e isso dependerá do suprimento de gás. O próprio governo, por suas disputas internas, tem dificultado a adoção das medidas necessárias para isso.

Essas disputas começaram em 2003, no início do primeiro mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Seu próximo capítulo deve ser a recomposição da diretoria da Petrobrás, segundo reportagem do jornal Valor. Segundo o relato, a ministra Dilma Rousseff, chefe da Casa Civil da Presidência, tem divergências com a diretoria da Petrobrás desde quando comandava o Ministério de Minas e Energia, no começo da gestão petista.

Internamente, a política proposta pela ministra para o setor elétrico foi desde o início contestada pelo diretor de Gás e Energia da Petrobrás, Ildo Sauer, um aliado do presidente Lula. As opiniões de Sauer foram respaldadas por Sérgio Gabrielli, presidente da empresa a partir de julho de 2005.

De acordo com o modelo adotado pelo Ministério de Minas e Energia, a Petrobrás deveria fornecer gás natural para as termoelétricas por meio de contratos firmes. A estatal teria de abastecer as usinas sob seu controle e as independentes. Todas deveriam estar em condições de ser acionadas quando as hidrelétricas tivessem de reduzir sua operação por insuficiência de água.

A Petrobrás falhou mais de uma vez. Isso foi verificado pela Aneel por meio de testes. Termoelétricas simplesmente não puderam responder à convocação porque não dispunham de gás. Segundo fontes citadas na reportagem, a estatal vendeu o mesmo gás mais de uma vez - para as centrais termoelétricas e para consumidores industriais - fazendo uma espécie de overbooking. O Comitê de Monitoramento do Setor Elétrico, criado pelo Ministério, foi incapaz de corrigir a situação.

A estatal acabou aceitando um termo de compromisso para garantir o abastecimento das usinas. Não o cumpriu inicialmente e foi multada pela Aneel. Nos últimos testes, o resultado foi melhor e desde o fim de agosto a empresa parece estar cumprindo seus compromissos.

Mas quem pode garantir o cumprimento da função atribuída à Petrobrás na política de energia elétrica definida pelo governo? Seria muito otimismo considerar superadas as divergências entre a ministra Dilma Rousseff, ainda influente na fixação de rumos para o Ministério de Minas e Energia, e a chefia da Petrobrás. A substituição de Ildo Sauer na diretoria de Gás e Energia por uma pessoa de confiança da ministra poderá, talvez, eliminar o problema.

A Petrobrás, no entanto, não é facilmente controlável pelo Executivo. É muito grande e muito poderosa e nem sempre é fácil conciliar suas duas vocações - a de empresa voltada para o lucro e para a satisfação de acionistas, como qualquer companhia privada, e a de instrumento da política oficial.

O padrão de comportamento do presidente Lula também não permite muita segurança quanto à eliminação de conflitos. Ele pode até demonstrar desagrado diante dos desencontros de seus auxiliares, mas em geral se omite quando é necessário usar a autoridade e definir um rumo. A dificuldade é ainda maior quando se trata de administrar conflitos entre dois companheiros habitualmente prestigiados, como a ministra-chefe da Casa Civil e o presidente da Petrobrás.

Os perigos da indefinição política são conhecidos. No dia 11 de setembro, o Operador Nacional do Sistema Elétrico apresentou um plano para diminuir o risco de racionamento de energia até 2011. A ampliação do uso das termoelétricas e o aumento do intercâmbio de energia térmica entre regiões são dois dos pontos mais importantes da estratégia. Sem a consolidação da política do gás, nenhuma dessas medidas estará assegurada.

Festival de incoerência

Villas-Bôas Corrêa, Jornal do Brasil
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No transe de impopularidade que ataca o Congresso, numa das mais graves crises éticas dos últimos tempos, é de uma inconveniência suicida o festival de incoerência em que se engalfinham o presidente Lula, o PT e a equipe oficial de um lado, e a oposição, na crescente agressividade a misturar desespero e a frustração de sucessivas derrotas.

Uma dose de tolerância não justifica, mas ameniza a cobrança à desarmonia entre os improvisos presidenciais e as arengas dos distantes anos de liderança sindical e de militância no Partido dos Trabalhadores, sua cria de estimação.

Um pouco de moderação não faz mal a ninguém. Na afobação de engatilhar a desculpa antes de mergulhar na exaltada urgência para arrancar do Congresso a aprovação da CPMF até 2011, quando se despedirá do segundo mandato no primeiro dia de janeiro, não lhe ocorreu nada mais consistente do que bater no peito as pancadas do arrependimento oportunista com o auto-elogio ao seu temperamento, sempre pronto a reconhecer erros e mudar de rumo.

Francamente, no caso não apenas é muito pouco e soa como o falsete da insinceridade. Lula e o PT não se limitaram a discordar do tributo sobre o cheque que desviou bilhões para a gastança oficial nos dois mandatos do seu odiado antecessor. Mas sustentaram uma áspera ofensiva, brandindo os argumentos que considerava definitivo e irrefutáveis. Na hora de virar a casaca passa como bichano sobre a fogueira como uma louvação à flexibilidade de suas convicções.

Não é mais defensável a fúria oposicionista, de costas para as suas convicções nos saudosos tempos de décadas nas fofas comodidades do lado de lá. Para os eloqüentes líderes do DEM, do PSDB e de aliados, bastaria, com sobras, explorar a desconfortável posição do adversário. E bater de rijo nos pontos fracos da pouca confiabilidade para gastar R$ 35 bilhões este ano e R$ 40 bilhões no próximo ano eleitoral, de uma máquina administrativa com tantos pontos vulneráveis no balaio de êxitos comprovados pelos resultados estatísticos.

Na crônica de todos os dias, as denúncias dos desacertos rebatem nos sucessos. Na mobilização do esquema em tempo integral, para garantir a aprovação nas duas Casas do Congresso, sem medir despesas nem regatear favores na distribuição de fatias do bolo oficial, de diretoria da Petrobras a autarquias e cargos em penca, o presidente abriu a guarda no desmentido à austeridade na aplicação do dinheiro público.

No mesmo dia, os naipes desafinados cruzam as notas de redução da pobreza em 27,7% nos cinco anos dos dois mandatos de Lula contra 24,3% nos oito anos de Fernando Henrique.

E, na malha rodoviária com largos trechos intransitáveis, os índices de acidentes com vítimas disparam para as alturas de uma tragédia a cada dia. A operação tapa-buraco foi um fracasso e um desperdício de milhões.

Nas duas últimas legislaturas recordistas em escândalos, o Congresso não emite sinais alentadores de que se tenha dado conta do descalabro que ameaça a estabilidade do regime democrático e afunda mais e mais no pântano do desapreço popular. Os estudantes, com sintomático atraso, começam a sair à rua nos ensaios das manifestações de protesto dos caras-pintadas. Um bom sinal.

E o Senado provoca a indignação popular, entalado com a batata quente da insensibilidade do galante presidente, senador Renan Calheiros, para o constrangimento que a sua teimosia cria para o plenário.

Recomenda-se uma dose dupla de otimismo para enfrentar as tormentas da intranqüilidade.

Mas como engolir esta garapa que não passa na garganta e ameaça o estômago com a úlcera de mau agouro?

Conversa vai, conversa vem...

Maria Helena Rubinato Rodrigues de Sousa, Blog do Noblat

Conversa vai, conversa vem... e resolvi que ia me oferecer um bom presente. Ou melhor, que ia me presentear dando um presente aos leitores.

A idéia surgiu ao ouvir nos jornais da TV de ontem à noite notícias sobre a apreciação, pelo Tribunal de Contas da União, de um relatório de obras públicas com indícios de irregularidades graves, que poderão ter as verbas bloqueadas no Orçamento da União de 2008.

De um total de 231 obras apreciadas, 77 têm indícios sólidos de irregularidades graves. O TCU recomenda a paralisação dessas obras. Sem ressalvas, apenas 52. Com irregularidades não paralisadoras, 101. Com irregularidades saneadas, 1.

Evidentemente, deve haver algum engano. Muito em breve ouviremos as explicações que tudo elucidará. Não pensem que escolhi o texto a seguir com alguma segunda intenção. Longe disso. Apenas me ocorreu que continuamos às voltas com problemas administrativos...

Sou do tempo em que estudávamos análise léxica e sintática em textos clássicos. Por pouco não tomávamos raiva dos textos, pois nada é mais chato que esse exercício. Mas o que vos ofereço hoje é de tal modo inteligente, que posso afirmar que sempre foi um dos favoritos da classe. Tem o mesmo vigor e atualidade do ano em que foi escrito, 1655. Isso mesmo, tem 352 anos. Gostei da idéia de colocar no blog esta jóia que merece ser lida e relida. Com vocês, o ‘Sermão do Bom Ladrão’, do Padre Antonio Vieira:

“Este sermão, que hoje se prega na Misericórdia de Lisboa, e não se prega na Capela Real, parecia-me a mim que lá se havia de pregar, e não aqui. Daquela pauta havia de ser, e não desta. E por quê? Porque o texto em que se funda o mesmo sermão, todo pertence à majestade daquele lugar, e nada à piedade deste. Uma das coisas que diz o texto é que foram sentenciados em Jerusalém dois ladrões, e ambos condenados, ambos executados, ambos crucificados e mortos, sem lhes valer procurador nem embargos (...). Pediu o Bom Ladrão a Cristo que se lembrasse dele no seu reino: Domine, memento mei, cum veneris in regnum tuum. E a lembrança que o Senhor teve dele foi que ambos se vissem juntos no Paraíso: Hodie mecum eris in Paradiso. Esta é a lembrança que devem ter todos os reis, e a que eu quisera lhes persuadissem os que são ouvidos de mais perto. Que se lembrem não só de levar os ladrões ao Paraíso, senão de os levar consigo: Mecum. Nem os reis podem ir ao paraíso sem levar consigo os ladrões, nem os ladrões podem ir ao inferno sem levar consigo os reis. Isto é o que hei de pregar. Ave Maria”.

E por aí segue o extraordinário pregador, até o trecho que mais me encanta, que é onde ele comenta notícia enviada da Índia por São Francisco Xavier para El Rei D. João III, mais de cem anos antes deste sermão. O missionário dá contas dos desmandos praticados pelos governadores e administradores que representavam o rei naquela riquíssima colônia. Vieira comenta assim as notícias enviadas por São Francisco Xavier:

“Tanto que lá chegam, começam a furtar pelo modo indicativo, porque a primeira informação que pedem aos práticos é que lhes apontem e mostrem os caminhos por onde podem abarcar tudo. Furtam pelo modo imperativo, porque, como têm o mero e misto império, todo ele aplicam despoticamente às execuções da rapina. Furtam pelo modo mandativo, porque aceitam quanto lhes mandam, e, para que mandem todos, os que não mandam não são aceitos. Furtam pelo modo optativo, porque desejam quanto lhes parece bem e, gabando as coisas desejadas aos donos delas, por cortesia, sem vontade, as fazem suas. Furtam pelo modo conjuntivo, porque ajuntam o seu pouco cabedal com o daqueles que manejam muito, e basta só que ajuntem a sua graça, para serem quando menos meeiros na ganância. Furtam pelo modo potencial, porque, sem pretexto nem cerimônia, usam de potência. Furtam pelo modo permissivo, porque permitem que outros furtem, e estes compram as permissões. Furtam pelo modo infinitivo, porque não tem o fim o furtar com o fim do governo, e sempre lá deixam raízes em que se vão continuando os furtos. Estes mesmos modos conjugam por todas as pessoas, porque a primeira pessoa do verbo é a sua, as segundas os seus criados, e as terceiras quantas para isso têm indústria e consciência. Furtam juntamente por todos os tempos, porque do presente — que é o seu tempo — colhem quanto dá de si o triênio; e para incluírem no presente o pretérito e futuro, do pretérito desenterram crimes, de que vendem os perdões, e dívidas esquecidas, de que se pagam inteiramente, e do futuro empenham as rendas e antecipam os contratos, com que tudo o caído e não caído lhes vem a cair nas mãos. Finalmente, nos mesmos tempos, não lhes escapam os imperfeitos, perfeitos, plus quam perfeitos, e quaisquer outros, porque furtam, furtaram, furtavam, furtariam e haveriam de furtar mais, se mais houvesse. Em suma, que o resumo de toda esta rapante conjugação vem a ser o supino do mesmo verbo: a furtar para furtar. E quando eles têm conjugado assim toda a voz ativa, e as miseráveis províncias suportado toda a passiva, eles, como se tiveram feito grandes serviços, tornam carregados de despojos e ricos, e elas ficam roubadas e consumidas”.

Creio na vida eterna e fico a imaginar o Padre Antonio Vieira sentado numa nuvem, rindo á bandeiras despregadas ao ver que, se lhe fosse dado descer, não ficaria deslocado. E que poderia continuar com sua carreira de pregador emérito.

Espero que tenham gostado do presente.

Os homens do presidente

Karla Correia , Jornal do Brasil

Assim que assumiu seu segundo mandato na presidência da República, Luiz Inácio Lula da Silva promoveu um verdadeiro espetáculo do crescimento em seu gabinete. Lula possui, hoje, nada menos que 109 assessores diretos ao custo de R$ 7,3 milhões por ano - se contabilizada apenas a despesa com salários desse quadro. E ainda existem outros 40 postos vagos na estrutura do gabinete presidencial. Um inchaço de 77% em relação a seu antecessor, Fernando Henrique, que já exagerava ao contar com uma equipe de 84 assessores.

Em comparação a esses números, o staff do presidente norte-americano, George Bush soa espartano. O mandatário dos EUA conta com apenas 32 assistentes, em seu gabinete na Casa Branca.

Os 109 homens e mulheres do presidente, organizados em 10 sessões diferentes do gabinete pessoal da Presidência da República, se dividem em tarefas que vão desde preparar o expediente de Lula até encaminhar e responder a correspondência, passando pela elaboração da agenda presidencial "em consonância com as metas e prioridades do governo", como determina o decreto nº 6.188, publicado em 17 de agosto no Diário Oficial da União (DOU). À exceção do chefe do gabinete pessoal do presidente Lula, posição ocupada por Gilberto Carvalho, todos os cargos são de livre provimento - preenchidos sem necessidade de concurso ou qualquer tipo de processo de seleção.

O ritual em torno do presidente é de uma sofisticação digna da corte francesa nos tempos de Maria Antonieta. Quando Lula ganha um presente no Palácio do Planalto ou em viagem ao exterior, por exemplo, um funcionário da Ajudância-de-Ordens é encarregado de receber o objeto. Outro, da Diretoria de Documentação Histórica, se dedica a guardá-lo.

O cuidado com a agenda presidencial é uma atividade tão complexa que mereceu, no segundo mandato, um departamento à parte. O Gabinete-Adjunto de Agenda, chefiado por Cezar Alvarez, conta com 12 assessores dedicados única e exclusivamente a planejar a agenda de Lula, garantir sua execução, comunicar os eventos que contarão com a presença do presidente ao Gabinete de Segurança Institucional, coordenar o chamado grupo de agenda futura, responsável pelo planejamento estratégico da agenda presidencial no médio e longo prazo "de forma pró-ativa e integrada, buscando, dentro e fora do governo, propostas que permitam a sua confecção", como reza o mesmo decreto.

Tal como o Gabinete-Adjunto de Agenda, o Gabinete-Adjunto de Informações em Apoio à Decisão é fruto do desdobramento do gabinete pessoal de Lula que acrescentou 30 funcionários à equipe de assessoramento presidencial. O novo órgão é encarregado de, entre outros afazeres, acompanhar o andamento dos compromissos públicos de Lula e de suas decisões - algo como fiscalizar a execução do trabalho dos ministros - monitorar o andamento de suas decisões e preparar informações para sua complicada agenda. Um Gabinete-Adjunto de Gestão e Atendimento cuida dos assuntos pessoais do presidente, gerencia o gabinete pessoal e coordena o recebimento e resposta de correspondências pessoais e sociais de Lula. Note-se bem que a resposta às cartas recebidas de populares fica aos cuidados da Diretoria de Documentação Histórica . E a correspondência oficial está sob a responsabilidade da Diretoria de Gestão Interna, que, aliás, é quem comanda esse emaranhado de assessores.

No primeiro mandato, a maioria dessas funções era desempenhada pela secretaria particular de Lula, composta por um secretário e três assessores.

Miséria crônica

Editorial da Folha de São Paulo

Redução de pobreza não se traduz sempre em queda na desigualdade, como comprova análise de dados sobre Nordeste

MISÉRIA não é simples de definir, menos ainda de quantificar. Organizações renomadas no estudo da questão, como a Fundação Getúlio Vargas (FGV) e o Instituto de Estudos do Trabalho e Sociedade (Iets), usam linhas de corte divergentes -respectivamente, R$ 125 e R$ 266,15 de renda domiciliar per capita mensal. Com base nos dados da última Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad 2006), ambas apontam redução da parcela de miseráveis na população do país: -14% (FGV) e -10,6% (Iets).

Para a FGV, são 19,3% de brasileiros nessa condição limítrofe, ou 36,2 milhões de pessoas -a menor parcela desde 1992. Para o Iets, contam-se 26,9% (49 milhões de miseráveis). Nos dois casos, de um ano a outro quase 6 milhões de pessoas teriam deixado o contingente arbitrariamente definido, mas não há motivo para júbilo em verificar que um quinto ou um quarto do país ainda sobrevive com valores pífios.

Tampouco há surpresa em verificar que o Nordeste é a parte mais afetada do Brasil, em que pese a importância do programa Bolsa Família por ali. Na região, 36,6% dos habitantes são miseráveis, segundo a FGV. Os Estados de Alagoas e Maranhão encabeçam o lamentável ranking, com mais de 44% de miseráveis. Figuram também entre os que menos diminuíram a taxa de miséria no período 2005-2006, respectivamente -11,3% e -9,7%.

Há aí um paradoxo. O Maranhão foi o Estado com maior aumento na renda média, 33,7%, seguido por Alagoas, com 29,4%. O corolário é óbvio: o aporte de renda não foi apropriado prioritariamente pelos mais pobres. Ou seja, aumentou a desigualdade na região, como atestado pela clássica medida do índice de Gini, que subiu de 0,557 a 0,565 no Nordeste, enquanto caía na média do país (de 0,543 a 0,540).

Não é trivial explicar a tendência quando se considera que a expansão do emprego também foi mais intensa no mercado de trabalho nordestino. Uma possibilidade está na baixa escolarização da mão-de-obra. Numa economia em crescimento, tendem a valorizar-se mais os salários dos trabalhadores com melhor qualificação.

Se tal hipótese for comprovada, mais uma vez ficarão evidenciadas as limitações de programas como o Bolsa Família. Sem investimento paralelo em educação, saúde, saneamento e infra-estrutura, a porta de saída da miséria continuará fechada para legiões de brasileiros.

O custo do rolo compressor

Editorial do Estadão

Para que serve a avantajada maioria que o governo Lula desfruta na Câmara dos Deputados, com a batelada de partidos que compõem o chamado “governo de coalizão”, se em cada votação de projeto de interesse do governo o Planalto tem que despender sempre novo esforço para “apascentar” sua base aliada, significando tal “esforço” a distribuição de (mais) cargos e verbas a seus diletos parlamentares? Se dispõe de um batalhão de partidos - PMDB, PT, PR, PP, PSB, PDT, PTB, PV, PC do B, PSC, PMN, PRB, PTC, PHS e PT do B -, o que já representa uma multidão de 379 deputados federais (ou mais de 73% da Câmara), como se explica que em cada votação o Planalto precise “negociar” com os “seus”, pontualmente, e até pescar alguns votinhos nas hostes dos partidos adversários, para garantir sua vitória?

Na votação que aprovou em primeiro turno, na Câmara dos Deputados, a prorrogação até 2011 da Contribuição Provisória sobre Movimentação Financeira (CPMF), o governo obteve 338 votos (com sobra de 30 votos, portanto), contra 117 e 2 abstenções (houve 52 ausências). Mas o “rolo compressor” governamental teve um alto custo. Foram nomeados quatro diretores do Banco do Nordeste para atender a reivindicações do PP, do PR, do PSB e do PTB. A presidência do Porto de Santos teve que ser entregue a um apadrinhado de deputados do PSB. Entre segunda e quarta-feira o governo liberou R$ 68,8 milhões referentes ao orçamento de 2006 e R$ 37,9 milhões do orçamento deste ano - R$ 106,7 milhões, no total - para “pagar” os votos de que precisava.

Na tentativa de conter a voracidade de sua pantagruélica “base aliada”, notadamente do PMDB - onde se localizaram os maiores focos da rebeldia, que só pôde ser controlada com afagos (quer dizer, cargos e verbas) -, o próprio presidente Lula pôs-se a campo, enfrentando a barganha generalizada. Disse ele: “Quem é parceiro é parceiro para comer no prato cheio e é parceiro para ficar olhando o prato vazio junto, é parceiro nos bons e nos maus momentos.” Eis um autêntico wishful thinking presidencial! Pois na verdade os “parceiros” da coalizão, que costumam comer nos pratos cheios antes de votar projetos importantes do governo - e, além do prato principal, jamais dispensam couvert, entrada e sobremesa -, só olham o prato esvaziado no curto tempo de espera pela próxima iguaria, sempre calculando o potencial do banquete arrecadatório - que, no caso da CPMF, por exemplo, chega à bagatela dos R$ 39 bilhões...

A propósito, já que nenhum partido e “nenhum ser humano” seria capaz de governar o País, hoje, sem poder contar com os recursos da CPMF (o partido de Lula não está conseguindo nem contando com esses recursos), como considera o presidente, aí dando a entender que todos os demais impostos não bastam para sustentar a máquina pública federal - apesar dos recordes mensais de arrecadação -, a vitória folgada na Câmara não sugere, nem de longe, ocorrência semelhante no Senado, onde a “base” é bem mais precária e ainda há o fator Renan Calheiros, que a esta altura representa uma boa complicação para o governo, especialmente depois de a Comissão de Constituição e Justiça ter aprovado o fim do voto secreto - sem dúvida sua maior arma de defesa nos processos em que é réu por quebra de decoro parlamentar.
As relações do governo com as Casas legislativas federais, seja com a Câmara, que demanda um altíssimo custo de “manutenção”, seja com a precária maioria no Senado, que exige um esforço de articulação política especial para obter 49 votos em uma Casa legislativa com apenas 81 integrantes, revelam que no ambiente parlamentar brasileiro já se tornou totalmente fora de moda a prática do convencimento por meio de argumentos lógicos, a tentativa de persuasão pela via da demonstração do que seja de maior interesse público - e, acredite-se, houve tempo em que partidos políticos e parlamentares dessa maneira atuavam. Em lugar disso, hoje só prevalece a barganha, o toma-lá, dá-cá rasteiro, que transforma a instituição parlamentar, um dos esteios fundamentais da Democracia, em rotineiro balcão de negócios.
Infelizmente, Lula estava sendo premonitório quando, muito antes de chegar ao Planalto, falou na maioria de 300 picaretas que atuavam na Câmara. “Nenhum ser humano” consegue governar este país sem uma maioria tão folgada como aquela.

Ministro da Justiça a turismo

Alexandre Carauta , Jornal do Brasil

Tarso Genro pode relaxar. Há poucos lugares mais generosos para seguir o conselho da colega Marta Suplicy. Se voltar de mãos vazias, terá o consolo daquele mar, daquele cassino, daquele céu sobre o Mediterrâneo. Tornam compreensível o empenho em cuidar pessoalmente da extradição de Salvatore Cacciola. Mônaco dispensa pretextos.

Entre uma audiência e outra, o ministro ganhará as delícias da alta-roda. Poderá, quem sabe, arriscar a sorte no cassino mais charmoso do mundo, cenário de intrigas internacionais. Hollywood adora, principalmente depois de Grace Kelly ter virado Grace de Mônaco. Gostou tanto de filmar Ladrão de Casaca no principado, em 1954, que resolveu ficar. Trocou Hitchcok e Cary Grant pelo príncipe Rainier, com quem teve três filhos, Caroline, Albert e Stéphanie, e lá morou até o trágico acidente de carro, há 25 anos.

Outros enredos cinematográficos e trágicos haveriam de reforçar o glamour do paraíso fiscal. Como a morte do banqueiro Edmund Safra, num incêncio que devastou a sua cobertura, em 1999.

Talvez seja mais fácil convencer o diretor-geral de Justiça, Philippe Narminau, da necessária extradição do que resistir ao apelo de Monte Carlo. Algumas fichas e um drinque só para ver o luxo passar são obrigatórios.

Mônaco transborda luxo. Nas vitrines, na roleta cercada de braceletes, nos hotéis, nos esportivos riscando o rochedo, nos iates cativos. Não é o luxo das revistas de celebridades. É um luxo Riviera. Com sorte, o esquerdista Tarso viverá a diferença.

Se a agenda permitir, será bem-vinda a caminhada pelo festejado circuito de Fórmula 1. "Como os carros correm nessa rua tão estreita?", poderá surpreender-se o ministro. E se o espanto secar a garganta, bares à beira da pista tratarão de refrescá-la. Há opções simpáticas para renovar as baterias, e lembrar: ali Senna virou rei. Seis vitórias, seis banhos de champanhe na realeza. Senna podia. Tarso Genro provavelmente encontrará mais dificuldade para quebrar resistências protocolares.

Caso a nobre missão fracasse, sobrarão compensações. Desde dividir o azul com o monegasco (um dos adjetivos pátrios mais curiosos) até deslumbrar-se com as maravilhas do Museu Oceanográfico, xodó de Jacques Cousteau, e testar o fôlego até o castelo no alto do morro.

Se sobrar tempo, uma escapulida a Sant Paul de Vence ajudará a entender por que Cacciola deixou o escudo italiano para curtir o lado francês da Riviera. A exemplo de Mônaco e seus dois quilômetros quadrados, Saint Paul é a elegância concentrada. Os pequenos caminhos abertos na pedra escondem sofisticadas galerias. Um banquete de arte em bandeja medieval.

Roteiro chique Paisagem
Genro chega hoje a Paris, de onde sai segunda-feira às 7h30 e segue para o Aeroporto Internacional de Nice, num vôo que dura uma hora e 35 minutos. De lá, um sobrevôo de seis minutos de helicóptero - a 95 euros por pessoa - com uma paisagem privilegiada: a Côte D'Azur, costa da Riviera francesa, entre os Alpes e o Mar Mediterrâneo.

Café da manhã
Ao chegar ao principado, o ministro da Justiça pode tomar o café da manhã e se recuperar da viagem no Café de Paris, na Praça do Cassino de Monte Carlo. Lá, ao contrário do Brasil, as apostas não só são permitidas por lei como também um dos principais atrativos para turistas.

Passeio
Até as 15h, no trajeto até o Palácio da Justiça, em Monaco Ville, a comitiva pode apreciar o Palácio do Príncipe Rainier, o Museu Oceanográfico e ainda almoçar num dos suntuosos restaurantes com vista para a marina, especializados em culinária mediterrânea.