sexta-feira, novembro 26, 2021

Aqui jaz a responsabilidade fiscal

  Editorial

O Estado de São Paulo

De todos os absurdos que o governo de Jair Bolsonaro executou nos últimos anos, chama a atenção em particular a desfaçatez com que regras fiscais consagradas foram rasgadas sem qualquer cerimônia. Com a desculpa de abrir espaço no Orçamento para socorrer a população mais carente, o Executivo apresentou a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) dos Precatórios para acabar com o teto de gastos e institucionalizar o calote nas dívidas já reconhecidas pela Justiça. Não satisfeito, foi além e decidiu ignorar um dos maiores pilares econômicos do País: a Lei de Responsabilidade Fiscal (LRF). 

Segundo o parecer do líder do governo no Senado, Fernando Bezerra Coelho (MDB-PE), relator da PEC, o Auxílio Brasil vai se transformar em uma despesa permanente no Orçamento mesmo sem ter uma fonte de receitas para financiá-lo, algo expressamente proibido pela LRF, que exige compensação para aumento de gastos dessa natureza. Com piso de R$ 400, o benefício vai alcançar 50 milhões de pessoas, quase um quarto da população. 

Os recursos que vão irrigar essa política no próximo ano virão do sublimite ao pagamento dos precatórios e do drible no teto, cuja regra de cálculo foi modificada na tentativa de angariar votos para a reeleição do presidente Jair Bolsonaro. Para 2022, foi aberta uma “folga” de R$ 106,1 bilhões no Orçamento, dos quais R$ 51,1 bilhões serão destinados ao programa, segundo o Ministério da Economia. A partir de 2023, ninguém sabe como essa conta será paga. 

A desculpa oficial é que esse problema é temporário, uma vez que o governo conta com a aprovação da reforma do Imposto de Renda (IR) para obter recursos definitivos para o novo programa. O discurso, reverberado pelo ministro da Economia, Paulo Guedes, e pelo presidente da Câmara, Arthur Lira (PP-AL), é o de que a tributação sobre lucros e dividendos de pessoas jurídicas será a solução para o imbróglio.

Não é o que pensa o presidente do Senado, Rodrigo Pacheco (PSD-MG). Embora a reforma do IR tenha sido aprovada na Câmara, as chances de o texto avançar neste ano são, no mínimo, remotas e, no ano que vem, praticamente impossíveis. O relator, senador Angelo Coronel (PSD-BA), disse ao Estado que sua prioridade é atualizar a tabela do Imposto de Renda de pessoas físicas – algo que, por sinal, pode ser feito por decreto.

Assim, depois de acabar com o Bolsa Família, um programa consolidado e elogiado por especialistas, o governo prossegue no caminho de destruição de políticas públicas, agora sem nem mesmo ter fonte de recursos para o benefício social que pretende ser uma bandeira da gestão de Jair Bolsonaro. Para isso, defende mais um drible fiscal e a interpretação segundo a qual uma PEC prevalece sobre uma lei.

O texto sugerido por Bezerra Coelho na PEC estabelece que os limites e condições para atender ao Auxílio Brasil serão determinados por lei até 31 de dezembro de 2022. Esse projeto, por sua vez, não precisará cumprir limitações legais quanto à criação ou aperfeiçoamento de programa que acarrete aumento de gastos. Na prática, portanto, o Auxílio Brasil ficará fora do escopo da Lei de Responsabilidade Fiscal. De acordo com o senador, a intenção é cumprir a LRF no que for “aplicável”. A votação na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) do Senado ficou para o dia 30 de novembro.

No mercado, a manobra não surpreendeu. A dúvida que remanesce é até onde irão as aventuras populistas do governo. O resultado é bolsa em queda, juros elevados e real desvalorizado. Não bastasse o erro, o Congresso ainda trabalha para fixá-lo de forma permanente na Constituição. 

Em um governo que se diz liberal na economia, a contribuição direta para o descontrole da inflação e do gasto público deveria ser motivo de vergonha. Além de desancorar as expectativas, a PEC dos Precatórios vai retroalimentar uma espiral perversa que deve transformar as dívidas judiciais da União em uma bola de neve para o próximo presidente. É bom lembrar que Dilma Rousseff foi defenestrada da Presidência por ignorar a responsabilidade fiscal com manobras e truques que parecem amadores perto do que o governo atual pretende fazer.


Bolsonaro, mulher menstruada não é lixo

 Antonio Carlos Prado

Revista ISTOÉ

 - AFP/Arquivos 

O presidente Jair Bolsonaro, durante ato público no 

Palácio do Planato, em Brasília, 6 de outubro de 2021 

Do total do eleitorado brasileiro, 52% são mulheres — e isso equivale a 77.076.395 pessoas. Nenhuma delas deve votar no presidente Jair Bolsonaro, que tentará a reeleição no ano que vem.

Bolsonaro não merece voto de mulher.

Ele insistiu, na última quarta-feira, no cercadinho daqueles que o aplaudem no Palácio da Alvorada, que a população feminina em situação de vulnerabilidade não tem direito a receber absorventes de forma gratuita.

Quem trata dessa maneira as mulheres pobres e desvalidas da sorte, trata qualquer outra mulher do mesmo jeito, independentemente de sua situação econômica e social.

Pior ainda: Bolsonaro fez piada, dizendo que as “mulheres começaram a menstruar em seu governo”. E acrescentou que se ele sancionar a lei que visa ao fornecimento de absorventes, e, depois, não tiver dinheiro para bancá-la, estará cometendo crime de responsabilidade. É ridícula essa argumentação: crimes de responsabilidade o presidente comete um atrás do outro, em benefício próprio ou de seus aliados políticos.

Bolsonaro não dá a mínima às condições de vida das mulheres nesse País. É misógino. Desde as revoluções liberais no Brasil, no século 18, formaram-se legítimos núcleos femininos que lutaram pelos direitos civis de mulheres – e uma das principais reivindicações era o direito ao voto, que veio em fevereiro de 1932.

A verdade é que Bolsonaro não está nem aí para os pobres, muito menos, ainda, importa-se com as mulheres, sejam pobres, sejam da classe média, sejam ricas.

É importante, nesse momento, a união de todas as mulheres, até porque já existe tanto preconceito masculino em relação à menstruação, e Bolsonaro reforça essa discriminação. O que está em jogo é a dignidade da mulher. Mulher, pobre ou rica, não é lixo. Portanto, todas as mulheres têm de se unir contra esse presidente machista. Bolsonaro é canseira, menstruação não é sujeira.


O legado tóxico do capitão

 COMENTANDO A NOTÍCIA


No jornal O Estado de São Paulo, o jornalista Willian Waak fez publicar um excelente texto onde afirma que “... 'Qualquer um que vencer em 2022 terá enormes dificuldades de governar” e conclui que “...Nenhum terá sucesso nas condições atuais.”.  Leia a coluna na íntegra aqui

Já faz algum tempo que comentamos neste espaço que, ou Bolsonaro mudava drasticamente os rumos de seu governo e suas atitudes, ou ele deixaria uma herança maldita para quem o sucedesse, obrigando o Brasil a enfrentar enormes dificuldades para encontrar o rumo certo de crescimento e desenvolvimento. E que algumas destas dificuldades perdurariam por alguns anos. 

Agora, encaminhando-se para seu último ano, o que vemos é muito triste. Em busca obsessiva e desesperada para se reeleger, o que temos é uma economia cambaleante, jogando no lixo todo o arcabouço de regras que lhe garantiram  estabilidade e um certo crescimento – bastante alavancado pela economia mundial – desprezando as âncoras que lhe deram sustentação. 

Nossa inflação até acompanha o restante do mundo, mas torna-se mais perniciosa em vista de crises políticas, descrédito quanto a capacidade de aprovar reformas indispensáveis de rumo e de projetos, desmonte dos principais órgãos de controle, dificuldade para manter um relacionamento saudável com a comunidade internacional sem falar, é claro, um diálogo republicano com as nossas próprias instituições. Todos estes aspectos, dentre outros, geram tremenda insegurança perante os agentes econômicos o que provoca excessiva desvalorização da nossa moeda, cuja principal consequência é pesar mais ainda sobre os preços. E, para corrigir esta alta excedente o Banco Central não tem outro instrumento senão elevar, mais e mais, os juros básicos. Inflação e juros altos são inimigos cruéis para a retomada sustentável da economia. Aqui e ali, afora o agronegócio que se beneficia diretamente da desvalorização cambial, e que ainda consegue manter bom ritmo de crescimento, estes ruídos todos. Agravados pela política ambiental ruim e danosa,  podem nos fazer pagar alto preço com adoção de medidas restritivas à nossas exportações, boicote que vem sendo ensaiado tanto pela União Europeia como pelos Estados Unidos e Canadá já há algum tempo.. 

Assim, as colocações que faz Willian Wack em seu excelente texto são oportunas e servem de alerta para que o eleitor  brasileiro não cometa o mesmo erro de eleições passadas, reelegendo governos medíocres. 

Mas o legado ruim de Bolsonaro não se circunscreve apenas na economia. Vai muito mais além. Inicia-se na educação, passando pela cultura, meio ambiente, pelas relações exteriores – hoje somos párias perante o mundo civilizado -,  depois desfila pelos costumes, pelos atritos constantes com os demais poderes, pelos sucessivos confrontos com os textos e regras legais,  pela linguagem tóxica e até pela própria autoridade da função de governar  sendo repassada para o presidente da Câmara de quem se tornou subalterno.  

É claro que o Brasil é muito maior do que seus governantes e políticos em geral. Já passamos por momentos muito ruins, já sofremos o diabo nas mãos de presidentes medíocres e incompetentes, amargando dias nervosos fruto de péssimas escolhas.  Mas já devíamos, pela experiência,  ter aprendido algumas lições.

Recentemente, a ex-presidente Dilma Rousseff, a Medíocre, colocou-nos no centro da pior recessão de nossa história, cuja maior tragédia foi ter provocado 14 milhões de desempregados. Bolsonaro, ao assumir, encontrou instrumentos que lhe permitiriam dar um rumo virtuoso ao país, fruto do governo correto de Michel Temer na área econômica,e  que teve a virtude de colocar juízo nas contas públicas, e deixar pronta para ser votada e aprovada uma reforma da previdência tão necessária quanto urgente. Bolsonaro acabou por desidratá-la, o que nos obrigará em futuro próximo a uma nova reforma. E o fez para beneficiar sua ala de queridinhos, policiais e forças armadas, esquecendo-se   de que foi eleito presidente de TODOS e não apenas de ALGUNS brasileiros.  

Cabia a Bolsonaro tão somente aprovar outras duas reformas também indispensáveis ao país: administrativa e tributária. E foi o próprio quem sabotou a intenção de Paulo Guedes neste sentido. 

Em seu recente turismo pelo mundo árabe, Bolsonaro tentou vender um Brasil que não existe.O objetivo era atrair investimentos para o país. Quem será maluco de investir dinheiro num país que proporciona bilionário calote em decisões judiciais? A insegurança jurídica proporcionada pelo governo afasta qualquer interessado. 

Para corrigir esta rota torta, vai nos custar alguns sacrifícios, alguns até de longo prazo. E, a exemplo do que fora Lula e Dilma, seu pecado maior é achar  que antes dele não havia Brasil, ou que o país estivesse mergulhado nas trevas. Ledo engano. Havia antes, e haverá depois, vida inteligente nesta terra de meu Deus, que saberá nos guiar para fora da escuridão que Bolsonaro tenta nos mergulhar. E, mesmo que ainda reste pouco mais de um ano de mandato, não há a menor perspectiva de que teremos uma mudança brusca de rumo. 

Até porque o desequilíbrio emocional que caracteriza a ação de governar do capitão, está de tal forma entranhado em sua personalidade que não lhe permite tomar consciência de seus erros. Os culpados são sempre os outros. No fundo, ele se considera o suprassumo da genialidade política e de gestão. Não percebeu, ainda,  quais foram as razões que o colocaram na presidência. A facada do Adélio Bispo até pode ter ajudado, mas o sentimento antipetista  que reinava no país era de tal monta que fosse João, José ou Francisco venceria Haddad do mesmo jeito. 

Nesta semana, o capitão produziu uma pérola de cinismo explícito; Afirmou que está “louco para deixar isto aqui”. Uma ova que está. No fundo, ele não quer largar o osso e toda a ostentação que o cargo proporciona a ele e família.  E isto fica ainda mais evidente quando vemos que, desde sua posse, outra coisa não pensa senão reeleger-se,  razão pela qual está em permanente campanha. Diante da crescente rejeição ao seu nome que as pesquisas vem demonstrando, Bolsonaro já está dando um jeito para desculpar-se pelo próprio fracasso. Se está tão de saco cheio da presidência, o melhor que faria seria sequer candidatar-se. Pelo menos o cenário eleitoral assumiria um novo desenho,  colocando na corrida um candidato capaz de eliminar o favoritismo de Lula e que no fundo é o que deseja grande parte dos eleitores. Talvez se assim procedesse, Bolsonaro atenuaria,  um pouco ao menos, o tremendo prejuízo que seu governo deixará ao país. Infelizmente, sua enorme vaidade não permitirá que o capitão tenha este gesto digno.


Reputação em risco: furar o teto pode abalar a credibilidade do Brasil?

 Sergio Vale

Exame.com

O Brasil já sofreu com a desconfiança decorrente do calote dos juros da dívida externa nos anos 1980. agora, com o furo do teto de gastos, será preciso convencer o mercado de que o país é capaz de criar novas regras fiscais e, sobretudo, cumpri-las

 (Jorg Greuel/Getty Images)

Quem ganhar a eleição em 2022 terá a dura tarefa de fazer

 ajustes difíceis em uma conjuntura internacional nada favorável  

O Brasil tem sido terreno de casos já clássicos do que não deve ser feito em política econômica. Aprendemos a duras penas que congelamento de preços não funciona; que confiscar poupança, menos ainda; e que a inflação é um mal em si que precisa ser extirpado no nascedouro. Esses são instrumentos e sintomas de um mal maior com o qual — este, sim — temos tido dificuldade de lidar. Se já temos alguma experiência e entendimento sobre o que fazer ou não depois que a inflação aparece, ainda derrapamos naquilo que gera processos inflacionários graves. No caso, os descaminhos da política fiscal ainda nos assombram.

Aqui também, de certa forma, há muito entendimento consolidado sobre o que fazer. A duras penas conquistamos regras fiscais importantes, especialmente a regra do teto, mas também lá atrás em 2001 tivemos a aprovação da Lei de Responsabilidade Fiscal. Mas esse conhecimento acumulado não foi suficiente para impedir que o regime fiscal desmoronasse nas últimas semanas. De nada adianta dizer que o gasto público em relação ao PIB em 2022 será menor do que no início do governo Bolsonaro, ou que foi apenas um ajuste com objetivos sociais.

O fato é que mais uma regra foi quebrada para se obter um benefício eleitoral, e a dificuldade disso é fazer crer que futuras regras serão seguidas. O problema que esta crise traz é de reputação. O Brasil já viveu isso nos anos 1980, quando não pagou os juros da dívida externa, e a Argentina vivenciou um calote em sua dívida no começo deste século, mesmo com a regra de conversibilidade do peso prevista na Constituição.

O risco do que aconteceu é colocar em dúvida a credibilidade de qualquer regra que venha a surgir no futuro. Eu, particularmente, sempre achei que a regra do teto atual precisava ser reformada, mas não simplesmente mudada pontualmente por algum interesse eleitoral. A próxima mudança de regra exigirá um aperfeiçoamento difícil de conseguir depois de uma das regras fiscais mais rígidas que existem.

Estipular o crescimento do gasto público apenas pela inflação do ano passado era uma resposta agressiva à crise fiscal de 2016, mas com a dívida pública bruta chegando a 85% do PIB no ano que vem a demanda de uma regra fiscal crível será ainda maior. Fazê-la depois do que aconteceu não será simples nem trivial de convencer o mercado.

Por causa disso, o mercado tem ficado mais estressado porque os sinais políticos de 2023 para a frente não parecem ser no sentido de grandes reformas. Diferentemente de 2003, quando Lula virou presidente, as reformas agora demandam um esforço muito maior. A reforma administrativa que precisará ser feita é de quem está na ativa, e será necessário atualizar a reforma da Previdência também, talvez já aumentando a idade mínima para mulheres e incorporando a aposentadoria rural nas mudanças. Difícil ver isso acontecer, especialmente em uma conjuntura internacional pró-gastos públicos, o que torna este período também muito diferente de 2003. Naquela época, a tônica era de ajuste fiscal, e o mundo passava por um forte processo de ajustes de mercado depois da queda do Muro de Berlim, apenas alguns poucos anos antes. Agora, depois da crise de 2008 e da pandemia, a resposta a essas crises é cada vez mais fiscal do que monetária, uma vez que a potência desta diminuiu depois de anos de juros baixos e quantitative easing durante tanto tempo.

Quem ganhar a eleição no ano que vem terá a dura tarefa de fazer ajustes difíceis em uma conjuntura internacional não favorável a isso. O risco de nada acontecer e de regras fiscais frágeis serem sugeridas é muito grande. Mesmo uma eventual terceira via que pudesse trazer uma visão diferente teria a dificuldade de partidos ainda muito fragmentados, uma sociedade polarizada e um Congresso cada vez mais fortalecido depois de o orçamento impositivo começar a valer a partir de 2015. Há um poder crescente do Legislativo que tem aparecido no vácuo político do presidente, mas também pela própria força construída do centrão. O próximo presidente terá um Congresso muito mais vocal, quase parlamentarista em espírito, mas ainda com um presidente com as mãos no Executivo. Isso pode significar que negociar reformas profundas custará mais caro e o presidente terá de compartilhar mais poder ainda do que em outros governos. 

O que fazer? Antes de mais nada, resgatar o equilíbrio macroeconômico, com o Banco Central subindo os juros o que for preciso para quebrar as expectativas de inflação para baixo. Isso será necessário porque, neste momento, a política fiscal está ausente. Mas na sequência, em 2023, o governo terá de vir com mudanças na esfera fiscal relevantes. Cada vez mais será difícil ver reformas que mexam nos gastos. Dependendo do governo que vier, podemos imaginar uma reforma tributária agressiva, que emitirá um sinal de busca mínima de crescimento via produtividade para os próximos anos. Assim, a primeira coisa que um governo iniciante deveria fazer seria deixar a regra do teto como está, sem mexer mais por ora, e anunciar uma reforma tributária em bens e serviços nos moldes da PEC 45 que está na Câmara. Essa reforma tributária poderia ter mais consenso e conversa com os entes da federação e setores potencialmente perdedores no curto prazo. Essa conversa e esse entendimento já deveriam começar a acontecer nos bastidores em 2022, reforçando tanto para estados e municípios quanto para o setor de serviços que essa reforma tem potencial de gerar ganhos para todos no longo prazo. Olhando de hoje, é isso que parece possível de fazer.   


As bravatas e suas consequências

 Editorial

O Estado de São Paulo

Desde que Jair Bolsonaro venceu a eleição, lideranças políticas e da área econômica aguardam ansiosamente o dia em que haverá moderação no discurso do mandatário. Passados quase três anos de sua posse, é possível afirmar com certa segurança que isso não vai acontecer. Dada a realidade dos fatos, com o tempo, auxiliares mudaram de estratégia: passaram a diminuir a importância dos arroubos que o presidente dispara diariamente. Seria o “jeito” do capitão, e, embora sua incontinência verbal não encontre limites, suas palavras poucas vezes se materializariam em atos.

Se essa versão não convence nem mesmo a sociedade civil, não deveria surpreender que tampouco seja aceita pelos investidores. O resultado pode ser visto no leilão de arrendamentos portuários realizado na semana passada pelo Ministério da Infraestrutura. Na licitação, considerada a maior dos últimos 20 anos, o governo ofereceu dois terminais para movimentação de combustíveis no Porto de Santos, o principal do País e o maior da América Latina. Os terrenos se conectam ao sistema de dutos que interligam a região da Alamoa à rede da Transpetro, subsidiária da Petrobras, e se destinam à movimentação, armazenagem e distribuição de granéis líquidos.

Era de esperar uma intensa concorrência pelos arrendamentos, já que essas áreas atendem o Estado de São Paulo, um dos maiores mercados consumidores do País, além das Regiões Sudeste e Centro-Oeste. Paradoxalmente, um deles recebeu uma única proposta, da Petrobras, que já operava a área por meio da Transpetro. O outro não contou com nenhum interessado. Para evitar problemas de abastecimento, a operação deve ser mantida de forma transitória pela empresa até que o governo reavalie as condições da licitação e coloque a área novamente em disputa.


Momento errado para a confusão

  Míriam Leitão

O Globo

Geraldo Magela/Agência Senado

Líder do governo no Senado Federal e relator da PEC 23/2021 (PEC dos Precatórios), senador Fernando Bezerra Coelho (MDB-PE), concede entrevista à imprensa e fala sobre a votação da PEC.

Não existe bom momento para o governo criar mais uma incerteza econômica, mas este é certamente um dos piores. A PEC dos Precatórios, se for confirmada como está, será uma insensatez porque dissolverá limites fiscais. A inflação parcial de novembro que será divulgada hoje manterá o índice acima de 10%. Alguns países da Europa vivem o começo de uma nova onda de Covid, e nos EUA os juros de longo prazo estão subindo, o que fortalece o dólar.

Os governistas abusam do eufemismo. “Espaço fiscal”, “flexibilização da lei de responsabilidade fiscal”, “subteto para os precatórios”. Falemos português claro. O relatório do senador Fernando Bezerra é um ataque triplo ao ordenamento fiscal do país, em nome do qual, é sempre bom que se repita, a ex-presidente Dilma sofreu impeachment. Felizmente alguns senadores tentam ainda um texto alternativo.

A coluna conversou com alguns economistas sobre o contexto econômico do mundo. E o que eles relatam não é tranquilizador. Um deles é o economista-chefe do banco suíço Lombard Odier, Samy Chaar. Ele vive na Suíça e de lá falou sobre a crise global e a inflação.

— Na minha visão, o ano que vem pode ser um pouco melhor, mas o pior momento é agora. O pico é agora. Pelo menos na Europa e nos Estados Unidos. Quando olho para os contêineres, gargalos na produção, semicondutores. Vamos continuar tendo problemas no primeiro semestre, mas estamos vendo o pior momento.

Ele fala do estrangulamento de produção, por falta de componentes, uma das razões da inflação global. Os preços estão em alta no mundo, mas no Brasil sobem mais.

O economista Luiz Roberto Cunha, da PUC-Rio, acha que o IPCA-15 a ser divulgado hoje ficará acima de 1% de novo, levando o acumulado de 12 meses para 10,78%. Em dezembro ele espera pequena queda, no acumulado de 12 meses, porque no ano passado dezembro foi 1,35%. De todo modo, 2021 termina com dois dígitos. Um dos motivos é o dólar.

E quanto ao câmbio, é o seguinte. Ele poderia estar bem mais baixo, na opinião de Roberto Padovani, economista-chefe do BV. Ele alerta para o início de um ciclo que pode levar o dólar ainda mais para cima:

— O câmbio deveria estar em R$ 4,70 e está em R$ 5,60. Entre os motivos, a incerteza fiscal e a perda de reputação por mudar a âncora fiscal. Depois que você perde reputação fica mais difícil reconquistar. Ele está descolado dos fundamentos. O Brasil tem a moeda mais desvalorizada e mais instável, e a bolsa também está descolada dos seus pares. Ficamos para trás.

O governo criou incertezas de todos os tipos e essa PEC dos precatórios tem sido um show de improviso. A proposta já começou errada e a cada tentativa de consertar criam-se mais desequilíbrios. Era um calote, depois agregou-se o furo no teto de gastos e agora foi proposta por Bezerra a suspensão da LRF para despesas sociais. Bem que o ministro Paulo Guedes tinha avisado que queria “licença para gastar”. Terá, se essa PEC for aprovada assim.

E justamente agora está começando, alerta Padovani, uma mudança na direção de para onde vai o capital:

— A variável central (da economia global) é o preço dos títulos americanos de dez anos. A isso estamos expostos. Ele está subindo. O cenário é de uma reprecificação nos juros americanos e, portanto, no preço de todos os outros ativos. Por outro lado, temos Áustria, Grécia e Alemanha com novas medidas de lockdown.

Enquanto isso, o Brasil vive um quadro de inflação alta, juros altos, baixo crescimento e incerteza fiscal. Em outras palavras, Samy Chaar entende que apenas a economia brasileira viverá um ano de estagflação em 2022.

—Vamos ter juros muito altos no Brasil, para lidar com a inflação, e isso vai colocar muita pressão na economia. Uma Selic que pode chegar a 11,5% é um nível muito alto para os padrões internacionais. Essa é a principal diferença entre o Brasil, a Europa, Estados Unidos e outros países. Nos outros países, a inflação é um problema, mas não na mesma dimensão — diz.

No Brasil a maneira atrapalhada com que o governo lida com tudo, da política à economia, tem se refletido no dólar e no nível da inflação. Padovani e Samy Chaar acham que se o mundo crescer fortemente no ano que vem há uma boa chance de o Brasil escapar da recessão. E todos os economistas ouvidos sempre dizem que no ano que vem a inflação cairá.

O recado é: o mundo vive novo momento de incertezas, com inflação elevada e juros em alta. O dinheiro vai procurar lugar seguro. Isso tornará mais difícil para o Brasil sair da crise.


Inflação ameaça o fim de ano feliz

 Editorial

O Estado de São Paulo

Bilhões de reais em vendas estão sendo perdidos pelo comércio neste último trimestre, normalmente o melhor do ano. A mistura de inflação elevada, juros altos e péssimas condições do mercado de trabalho afeta as condições do consumo. Já empobrecidas e com a renda erodida, mês a mês, pelo acelerado aumento de preços, as famílias se retraem, reconsideram os gastos e adiam os planos de compras. Duas das mais importantes datas para os lojistas, a Black Friday e o Natal, devem proporcionar ganhos muito menores que aqueles previstos no começo do ano, quando o País superava os primeiros efeitos da covid-19. Mas a receita do varejo, nestes meses finais, deve ficar R$ 44,7 bilhões abaixo dos R$ 792 bilhões estimados no início de 2021, segundo estudo realizado pela Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC) a pedido do Estado.

Mesmo causando enormes prejuízos, preços mais altos geram maior arrecadação. Graças a isso o Ministério da Economia exibe contas em melhor estado, pelo menos neste momento. Mas o ganho seria maior e muito mais seguro se fosse baseado em mais produção, mais emprego e mais consumo. No entanto, a realidade, fora dos gabinetes ministeriais e presidenciais, continua sem sinais de prosperidade e sem perspectivas de melhora nos próximos meses.

O desempenho insatisfatório das vendas neste último trimestre deve contaminar a economia no começo de 2022. Quando os meses finais são bons para o varejo, a recomposição de estoques no início do ano seguinte movimenta a indústria. Isso ajuda a sustentar algum dinamismo num período de menor movimento. Esse efeito benéfico pode refletir-se no emprego, com renovação de contratos temporários típicos de fim de ano.

Além de afetar o varejo no trimestre final, as condições da economia poderão impedir ou reduzir desdobramentos positivos no começo de 2022. Todos os principais indicadores são ruins. A inflação em 12 meses passou de 10% e deve continuar nesse nível até o fim do ano. Os mais prejudicados, como sempre, são os consumidores de menor renda, com orçamento apertado e sem espaço para remanejamento de gastos. Sem surpresa, o indicador de confiança medido mensalmente pela Fundação Getulio Vargas (FGV) é tanto mais alto quanto maior a faixa de renda, mesmo quando a evolução geral é negativa.

Em novembro, o Índice de Confiança do Consumidor voltou a cair, recuando 1,4 ponto, depois de ter subido 1 ponto em outubro. Com 74,9 pontos, o menor valor desde abril (72,5), esse indicador ficou 7,1 pontos abaixo do nível de um ano antes, quando o Brasil se recuperava da grande crise de 2020. Em todas as faixas de renda o índice é inferior a 100%, fronteira entre otimismo e pessimismo. De novo, a diferença entre os níveis de confiança refletiu a distância entre as faixas de renda (85,3 pontos na mais alta e 63,1 na mais baixa).

“Apesar do avanço da vacinação, de suas consequências favoráveis na redução de casos e mortes e da flexibilização de medidas restritivas, o aumento da incerteza econômica diante da inflação elevada, da política monetária restritiva e do maior endividamento das famílias de baixa renda torna a situação ainda desconfortável e as perspectivas ainda cheias de ameaças”, comentou a Coordenadora das Sondagens da FGV, Viviane Seda Bittencourt.

Dirigida contra a inflação, essa “política monetária restritiva” consiste essencialmente em aumento de juros e encarecimento do crédito. O efeito imediato é doloroso para a família comum e para o empresário. Com a renda já prejudicada pelas condições de emprego e desgastada pela inflação, o consumidor sofre também os efeitos do crédito caro.

No mercado de trabalho o desemprego é o maior infortúnio, mas a situação dos trabalhadores informais é dramática e também se reflete nas vendas e nas perspectivas do varejo. Os desafios são evidentes e inegáveis, mas nenhuma perspectiva de melhora é oferecida pelo poder federal, empenhado na discussão da PEC dos Precatórios (ou do Calote) e na partilha fisiológica do Orçamento de 2022.


Crescimento estrutural do Brasil começa a preocupar, diz Campos Neto

 Larissa Garcia

Folha de São Paulo

BRASÍLIA, DF (FOLHAPRESS) - O presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, afirmou que, embora a média do desempenho da atividade econômica entre 2020 e 2022 deva ser melhor que o previsto, o crescimento estrutural do Brasil começa a preocupar.

"Quando você olha o combinado 2020, 2021 e 2022, a média é melhor [que o previsto], mas começa a preocupar sobre qual é o crescimento estrutural no Brasil e como podemos melhorar isso", afirmou em evento do Bank of America nesta quarta-feira (24).

O titular do BC reafirmou que a autarquia deve revisar para baixo sua projeção para o PIB (Produto Interno Bruto) do próximo ano, hoje em 2,1%. A nova estimativa deve ser publicada no próximo relatório trimestral de inflação, em 16 de dezembro.

Nas últimas semanas, analistas e instituições financeiras revisaram para baixo as expectativas para o crescimento do PIB (Produto Interno Bruto) de 2022. Segundo o boletim Focus desta semana, em que o Banco Central divulga projeções do mercado, economistas esperam crescimento de 0,70%. Há uma semana, a projeção era 0,93%, e há quatro semanas, 1,40%.

Algumas casas de análise já trabalham com PIB negativo para 2022.

Sobre inflação, ele reiterou que o país passou por choques consecutivos, em duas ondas, primeiro no preço de alimentos, com eventos climáticos e mudança na dinâmica do consumo durante a pandemia, além de commodities e, por fim, em 2021, com energia e combustíveis. "Quando combinamos esses fatores tivemos o maior choque da história", frisou.

Campos Neto ressaltou que a alta de preços no país foi mais persistente que o esperado e se disseminou de forma intensa.

As expectativas de inflação vêm crescendo semana a semana, tanto para este ano quanto para 2022 e 2023.

O mercado espera que o índice termine 2021 a 10,12%, bem acima da meta fixada pelo CMN (Conselho Monetário Nacional) em 3,75% --com 1,5 ponto percentual de tolerância para cima e para baixo.

Para 2022 e 2023, as expectativas estão em 4,96% e 3,42%, respectivamente, acima do centro das metas para os períodos, mas ainda dentro do intervalo de tolerância.

Hoje, o Copom (Comitê de Política Monetária) já mira o controle de preços de 2022 e 2023, no chamado horizonte relevante, para quando o BC entende que a política monetária faz efeito, com metas de 3,5% e 3,25%..

O presidente do BC afirmou que o Copom deve discutir na próxima reunião, em 7 e 8 de dezembro, se o foco ainda será levar a inflação de 2022 à meta ou se 2023 ganhará destaque.

Atualmente, a taxa básica de juros (Selic) está em 7,75% ao ano e a sinalização é que haja uma nova alta de 1,5 ponto percentual, para 9,25%. Com os dados recentes de inflação piores que os projetados, alguns economistas esperam que o BC eleve o ritmo, com aumento de 2 pontos.

Sobre o ritmo de alta de juros, ele destacou que o objetivo do BC é calibrar adequadamente para que o aperto não seja maior ou menor que o necessário.

"Em todos os bancos centrais há dois erros que podem ser cometidos. O primeiro é subir muito rápido [os juros] e não ter a percepção de qual é o atraso [de efeito da política monetária], e não poder medir isso especialmente porque, por causa da pandemia, os modelos não funcionam tão bem. Você olha depois e tira essa conclusão. O outro é não fazer o suficiente e começa desancorar as expectativas [de inflação]", disse.

Questionado sobre a eficácia da política monetária, ele afirmou que isso também é debatido dentro do BC e que além da mudança na dinâmica do processo inflacionário, houve mudança estrutural na taxa de juros, com grandes empresas se financiando no mercado de capitais e bancos emprestando mais para companhias menores, por exemplo.

"A tendência é acreditar que temos um instrumento mais poderoso agora porque temos menos subsídio no longo prazo, a curva responde mais a isso", ponderou.


Apesar da pandemia, expectativa de vida do brasileiro aumenta em 2020

 Luci Ribeiro

O Estado de São Paulo

 © Felipe Rau/Estadão - 6/9/21

 Idosos aguardam para receber terceira dose de vacina contra covid-19. 

Apesar da pandemia, expectativa de vida do brasileiro aumentou

BRASÍLIA - A expectativa de vida do brasileiro subiu dois meses em 2020, passando de 76,6 anos em 2019 para 76,8 anos. Os dados foram divulgados nesta quinta-feira, 25, pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). As informações estão na Tábua Completa de Mortalidade de 2020, publicada no Diário Oficial da União (DOU).

O aumento, embora menor do que em relação ao avanço anterior, mantém a tendência de crescimento da taxa por anos consecutivos. Há quase dez anos, em 2011, a esperança de vida do brasileiro era de 74,1 anos. No ano seguinte, passou para 74,6 anos e depois para 74,9 anos. Em 2014, a taxa ficou em 75,2 anos; em 2015, em 75,5 anos; em 2016, 75,8 anos; em 2017, 76 anos; e, em 2018, foi de 76,3 anos.

Os dados serão detalhados pelo IBGE ainda nesta manhã. Especialistas previam queda da expectativa de vida por causa da pandemia, o que ainda não é observado nas estatísticas. A coleta e o cálculo dos dados ainda não contemplam todo o período da crise sanitária no País (o auge das mortes pela covid-19 no Brasil foi no 1º semestre de 2021).

Em 1940, a expectativa de vida do brasileiro ao nascer era muito baixa, de 45,5 anos. Depois disso, com redução da mortalidade infantil e outros avanços da Medicina e do País, o número vem crescendo consistentemente. Em 1980, chegou a 62,5 anos e, no ano 2000, a 69,8. Nas últimas duas décadas, os ganhos foram um pouco mais lentos. Mesmo assim, nunca se registrou decréscimo.

A Tábua de Mortalidade tem periodicidade anual e fornece estimativas da expectativa de vida às idades exatas até os 80 anos. Sua abrangência é nacional e traz resultados por sexo e idade. Os dados são usados como um dos parâmetros para determinar o fator previdenciário, no cálculo das aposentadorias do Regime Geral de Previdência Social.


Governo foi alertado desde fevereiro sobre escassez de questões para o Enem

 Paulo Saldaña

Folha de São Paulo

BRASÍLIA, DF (FOLHAPRESS) - Relatório interno do Inep (Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais) mostra que ao menos desde fevereiro o governo Jair Bolsonaro (sem partido) já tinha alertas sobre a falta de questões prontas para integrar as provas do Enem.

Houve pressão das lideranças do MEC (Ministério da Educação) para eliminação de perguntas que desagradam a linha ideológica de Bolsonaro, mas o primeiro dia do exame de 2021, no último domingo (21), teve uma prova considerada equilibrada.

Por outro lado, não caiu nada, pelo terceiro ano consecutivo, sobre a ditadura militar (1964-1985), período elogiado pelo presidente da República.

O jornal Folha de S.Paulo revelou na semana passada que Bolsonaro chegou a pedir para o ministro da Educação, pastor Milton Ribeiro, questões que tratassem o golpe de 1964 por revolução, em consonância com o revisionismo histórico que ele e seus apoiadores defendem. Servidores ainda denunciam pressões.

Essa escassez de itens, entretanto, foi uma das travas para que a interferência não fosse atendida de modo mais intenso. Não há produção de novas questões desde 2019.

Questionado, o Inep não respondeu.

O Enem é elaborado com base em um modelo matemático, a TRI (Teoria de Resposta ao Item), que exige questões calibradas com relação a parâmetros como o de dificuldade. Antes de serem utilizadas nas provas, elas devem ser respondidas por um grupo similar àquele que normalmente faz o exame (nos chamados pré-testes) para essa calibragem.

Uma "baixa disponibilidade em Banco de Itens (questões de prova)" foi citada como um dos "pontos de atenção" em Relatório Semanal Executivo do Inep produzido na última semana de fevereiro, obtido pela Folha de S.Paulo. O período coincide com a troca na presidência do Inep: o atual mandatário, Danilo Dupas Ribeiro, substituiu Alexandre Lopes no dia 26 daquele mês.

Há receio entre técnicos acerca da viabilidade para o próximo Enem, em 2022, por conta da falta de itens.

O Enem 2021 termina no próximo domingo (28). A edição deste ano ocorre em meio a denúncias de assédio moral a funcionários do Inep, pressões para enquadrar ideologicamente a prova e pedido coletivo de demissão de cargos de chefia. Servidores que participaram da elaboração desta edição temem represálias por causa do conteúdo da prova.

O documento interno do Inep indica preocupação maior com o Enem digital, versão em computador que o instituto aplicou a uma pequena parte dos inscritos nas edições de 2020 --ano de sua criação-- e 2021. A "necessidade de realização de novos pré-testes no ambiente digital e futuras análises estatísticas dos resultados obtidos" também foi colocada como ponto de atenção.

Servidores do Inep relataram à reportagem que a manutenção do Enem digital nesta edição chegou a ser colocada em dúvida ao longo do ano por causa de entraves técnicos. A aplicação acabou mantida por se tratar de uma marca de realização da gestão Bolsonaro --técnicos dizem garantir a comparabilidade dessa prova com a de papel, feita pela maioria dos inscritos.

Na prova impressa, a abstenção foi de 25,5%. Já na aplicação digital, que teve 69 mil inscrições confirmadas, a taxa de faltosos foi de 46,1%. Dessa forma, fizeram a prova 2,3 milhões dos 3,1 milhões inscritos (no total, 26% faltaram).

Membros do governo indicam que a pandemia de Covid-19 e as restrições de circulação comprometeram a produção de novos itens e a realização de pré-testes desde o ano passado.

A dificuldade de acumular questões de qualidade é um drama que acompanha o Enem desde 2009, quando a prova passou a ser realizada no formato atual e foi transformada em vestibular, ainda no governo Lula (PT). O plano de fazer o exame de forma digital, com mais de uma aplicação por ano, já era pensado desde então, mas a fragilidade do Banco Nacional de Itens sempre o travou.

Em 2011, por exemplo, um conjunto de questões adotadas em um pré-teste foi contrabandeado para um simulado de um colégio particular do Ceará. Esses mesmos itens caíram na prova oficial, expondo a escassez.

O problema de falta de itens foi intensificado em 2019, quando uma comissão censurou 66 itens cujo conteúdo foi considerado inadequado --houve casos em que se sugeriu trocar a palavra "ditadura" por "regime".

A revista Piauí mostrou na última semana que foram censurados itens que continham quadrinhos da Mafalda, outro de autoria da cartunista Laerte e questões com citações a Ferreira Gullar, Chico Buarque e Madonna.

Em junho deste ano, a Folha de S.Paulo revelou que uma portaria do Inep estabelecia uma espécie de "tribunal ideológico", com a criação de uma nova instância permanente de análise dos itens das avaliações da educação básica.

O documento, contrário ao posicionamento técnico do próprio Inep, falava em não permitir "questões subjetivas" e pedia atenção a "valores morais".

Após má repercussão, o Inep engavetou o plano. O Ministério Público Federal ainda recomendou que o governo se abstivesse de fazer filtro ideológico na prova.

Ao longo do ano, as tentativas de interferência no Enem incluíram ainda plano para terceirizar a elaboração de questões para compor o Banco Nacional de Itens. O caso veio à tona em agosto e servidores já haviam identificado a intenção ideológica da medida.

Diante da crise no Inep e das denúncias de funcionários, Bolsonaro chegou a dizer, em 15 de novembro, que o Enem começava a ficar a "cara do governo". Após a primeira prova, negou interferência, assim como fez Milton Ribeiro, e afirmou que o exame ainda mantinha "questão de ideologia".

O embate ideológico é a principal marca da gestão Bolsonaro na área da educação. O governo tem aversão a perguntas que tragam, por exemplo, qualquer menção a questões de gênero. Antes de eleito, o presidente já disse ser homofóbico em entrevista gravada.

Para justificar o desejo de alterações no Enem, Bolsonaro e sua equipe têm feito críticas recorrentes a questões que seriam supostamente ideológicas, sem validade para medir o conhecimento técnico. Mas, como mostrou a Folha de S.Paulo no domingo (21), as questões que causaram polêmica foram, sim, eficientes em testar o conhecimento.

****** COMENTANDO A NOTÍCIA:

Eis mais uma prova, dentre tantas, de que o governo Bolsonaro não dá menor importância para a educação. Mas isto não chega a surpreender ninguém. Ignorante como ele é, deve achar a educação um requinte desnecessário. Para ele, como para a maioria dos políticos brasileiros, povo educado se torna mais exigente e não cai em conversa fiada de político safado. Para esta gentalha, quanto mais ignorante, mais o povo se torna massa de manobra e mais fácil ser manipulado.


Início da 3ª década perdida? Rio Bravo prevê retração do PIB e inflação ameaçando teto da meta em 2022

 José de Castro

 Agência Reuters

© Reuters/RICARDO MORAES 

Pessoas caminham entre vendedores ambulantes no centro do Rio de Janeiro

SÃO PAULO (Reuters) - Uma extensa combinação de fatores impõe viés de baixa à já negativa projeção da Rio Bravo para a economia brasileira em 2022, ano que, questiona a casa, pode ser o primeiro da terceira década perdida.

Em relatório de cenário, os economistas da gestora apontam que 2022 "já começou", com uma discussão orçamentária mais difícil, pressões fiscais da classe política e a expectativa em torno das eleições presidenciais.

"Ainda é cedo para apontar um favorito, mas as pesquisas atuais mostram um cenário difícil para o futuro da economia brasileira, com uma disputa centrada no passado, em uma política econômica que já cometeu muitos erros, e no presente, com um governo que teve diversas dificuldades na negociação política e no desenho de propostas de reformas", disse a Rio Bravo em relatório.

"Há exemplos ruins em ambos os lados. A expectativa é que haja uma terceira opção mais razoável, que traga uma perspectiva de maior estabilidade econômica, positiva para os mercados e para o crescimento no longo prazo", completou.

O cenário doméstico "desafiador" no âmbito político-fiscal se junta ao exterior ainda pressionado por descompassos de oferta e demanda que devem perdurar, avaliaram os profissionais da gestora, que, assim, veem a inflação no Brasil "mais pressionada" e perto do teto da meta de 2022 (atualmente em 5%).

"Serão insuficientes os esforços do Banco Central para levar a inflação para o centro da meta no próximo ano", disseram.

Os economistas estimam que o Copom subirá a Selic novamente para dois dígitos, "garantindo, pelo menos, o cumprimento da meta de inflação de 2023". Mas as projeções tanto para a inflação quanto para o juro básico, ponderaram, têm viés para cima, e o cenário depende da situação fiscal e, principalmente, das sinalizações do novo governo.

"Essa perspectiva de risco fiscal elevado, incerteza política em ano eleitoral, inflação alta, juros em dois dígitos, gargalos na cadeia de suprimentos, desaceleração da economia global e a retirada de estímulos monetários em países desenvolvidos constituem uma combinação difícil para o crescimento do Brasil no ano que vem", disseram os economistas no texto, citando que a estimativa de retração de 0,2% do PIB em 2022 também está inclinada para baixo.

A recuperação do mercado de trabalho deve ser mais gradual, dificultando o crescimento via consumo, e os investimentos devem ser postergados, tendo em vista o juro mais elevado e a incerteza eleitoral, previram.

"Esse cenário pode melhorar com as eleições de outubro, mas as pesquisas indicam que, por ora, isso não parece algo fácil de vislumbrar", afirmou a gestora no relatório.

"Apesar de um crescimento próximo de 4,5% em 2021, o Brasil começará o próximo ano, tal como o novo governo em 2023, com grandes desafios: inflação e juros elevados, a necessidade de manutenção da sustentabilidade fiscal e a retomada da agenda para o crescimento de longo prazo", finalizaram.


Inflação e juros mais altos devem retirar R$ 44,7 bi em vendas no comércio

 Márcia De Chiara

O Estado de São Paulo

A diarista Cláudia de Jesus Melo Silva até estava animada. Depois de um ano parada por causa da pandemia, acreditava que com a volta das faxinas conseguiria neste fim de ano trocar a TV por outra maior, de 40 polegadas. Também planejava comprar uma fritadeira elétrica. Mas seus sonhos de consumo foram desfeitos.

Mãe de cinco filhos, ela e o marido, que faz bico de pintura, conseguem tirar cerca de R$ 2 mil por mês. Hoje não sobra praticamente nada para outros gastos além do básico. A conta de luz subiu para mais de R$ 400, antes era R$ 250. A última vez que comprou gás pagou R$ 120. No supermercado, onde deixava R$ 400 por mês, agora não gasta menos de R$ 600, mesmo trocando a carne pelo frango, o arroz pelo macarrão e o pão pelo cuscuz. “Leite quase não compro, tá muito caro, meus filhos tomam chá.”

O aperto inesperado provocado pela disparada da inflação pelo qual a família de Cláudia e milhões de outras passam terá impacto direto nas vendas do varejo no último trimestre. Com Black Friday e Natal, esse é o período mais importante do ano para o comércio. A piora que houve de janeiro para cá em vários indicadores - inflação, juros e renda - deve retirar R$ 44,7 bilhões das vendas do comércio varejista no último trimestre em relação ao cenário mais favorável projetado no começo do ano. É o que revela um estudo feito, a pedido do Estadão, pela Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC) para avaliar quanto a deterioração da economia vai custar para o varejo neste fim de ano.

 © Daniel Teixeira/Estadão 

A diarista Cláudia de Jesus Melo Silva em sua casa, na zona leste 

de São Paulo; plano de comprar uma TV maior ficou para depois.

“A reversão do quadro foi muito rápida: a inflação do jeito que está e o remédio para combatê-la, que é o aumento dos juros, compõem um cenário de quarto trimestre preocupante para o varejo”, afirma o economista-chefe da CNC e responsável pelo estudo, Fabio Bentes.

Em janeiro, quando o mercado esperava inflação de 3,32% para o ano e juros básicos de 3,25%, segundo o Boletim Focus do Banco Central, e o economista projetava juros ao consumidor de 40,8% ao ano e aumento real de 2,4% na massa de rendimentos, a expectativa do comércio era faturar R$ 792 bilhões entre outubro e dezembro. O acréscimo era de 4,4% em relação a igual período de 2020.

Agora, porém, com a projeção de encerrar o ano com inflação beirando dois dígitos (9,80%), Selic a 9,25%, juros do crediário em 44% ao ano e queda real de 1,9% na renda, o economista calcula que a receita do último trimestre recue para R$ 747,3 bilhões, 1,5% menor do que no último trimestre de 2020.

“A disparada da inflação foi o principal fator para a piora das expectativas de vendas no quarto trimestre”, afirma Bentes. Nas suas contas, a inflação responde por quase 70% do que o varejo deve deixar de embolsar no último trimestre.

Ele lembra que o impacto negativo da inflação no consumo já tinha mostrado sua cara em 2015, quando o IPCA, a inflação oficial, fechou o ano em 10,67%. Esse é exatamente o índice de inflação acumulado hoje em 12 meses até outubro. Em 2015, as vendas do último trimestre caíram 6,9%, a maior retração para o período dos últimos tempos.

Marcela Kawauti, economista da Prada Assessoria, destaca que, além da inflação muito alta, o que piora as perspectivas para o consumo neste momento, é a sua composição. “A inflação está muito focada em alimentação, energia e combustíveis, itens básicos, com os quais as pessoas não têm margem de manobra, não há para onde correr”, observa.

Ela acrescenta que o mercado de trabalho não tem ajudado, porque o emprego não voltou para níveis pré-pandemia. Também os programas de transferência de renda têm menor impacto no consumo este ano e o clima de incerteza elevada breca os investimentos que poderiam impulsionar o emprego e os rendimentos.

Depois da inflação, a queda na massa real de rendimentos e a alta dos juros são fatores que devem afetar negativamente, porém com menor intensidade, as compras no fim de ano. O único dado positivo apontado pelo estudo da CNC é o maior fluxo de consumidores esperado nas lojas em relação ao inicialmente previsto. Isso decorre do avanço da vacinação. “A reabertura da economia deve evitar uma queda maior nas vendas”, afirma Bentes.

Apesar do revés esperado para o último trimestre, o economista pondera que o comércio ainda deve fechar o ano com crescimento de vendas comparado com 2020. Nesse caso, jogam a favor a base fraca de comparação, que foi 2020, e o aumento de vendas de 3,8% já registrado entre janeiro e setembro, segundo a pesquisa do comércio do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

Plano de viagem adiado

Todos os anos o cabeleireiro Edgar Godoy, dono de um salão de beleza na zona norte da capital paulista, pega a estrada para passar as festas de fim de ano com os familiares que moram em Mato Grosso do Sul. Em 2020, ele não foi por causa da pandemia. Até seis meses atrás, tinha planos de retomar essa tradição. Mas decidiu cancelar a viagem. “Este ano está inviável, a gente não tem expectativa de ganho”, diz. Na viagem, só de ida, gasta cerca de 100 litros de etanol e o preço do combustível já subiu no ano, até outubro, 45,86%.

 © Felipe Rau/Estadão 

Edgar Godoy em seu salão de beleza, na zona norte da capital paulista;

 viagem para rever a família em Mato Grosso do Sul foi cancelada.

Com a reabertura do salão, em junho, Godoy chegou a ter um bom movimento, que se equiparou com o mesmo mês de 2019, antes da pandemia. Mas, de lá para cá, o faturamento não tem se sustentado. A receita mensal ainda está entre 40% e 45% menor em relação ao mesmo período pré-pandemia. “O pessoal está sem dinheiro e muitos clientes estão desempregados. Outros, de idade avançada, têm medo de vir ao salão.”

A queda no movimento ocorre mesmo sem o cabeleireiro ter aumentado os preços dos serviços prestados. Ele conta que faz dois anos e meio que não reajusta a tabela, apesar das pressões de custos de produtos e energia elétrica, por exemplo.

Na opinião de Godoy, a inflação alta tem sido o principal obstáculo à retomada do movimento normal do salão. “As pessoas têm optado por gastar com o essencial e vir ao salão acaba sendo supérfluo.”

A prova disso é que ele notou uma queda no fluxo de clientes na semana de pagamento. "A impressão que eu tenho é que a clientela primeiro vai às compras no mercado e, se sobrar dinheiro, gasta no salão de beleza."

Além de desistir da viagem, Godoy adiou o plano de reforma no salão e de fazer algum gasto pessoal. “Há tempos que não faço uma comprinha de roupa”, lembra. Atualmente, por causa da conjuntura, o cabeleireiro não tem expectativa de consumo. “Existe a necessidade, mas devido ao custo elevado e ao ganho baixo, a gente acaba meio deixando de lado os planos.”


IPCA-15: os impactos da confusão fiscal criada pelo governo na alta da Inflação

  Míriam Leitão

O Globo 

O IPCA-15 teve alta de 1,17% em novembro, a maior variação para um mês de novembro desde 2002, quando o índice foi de 2,08%. A inflação surpreendeu os economistas durante todo o ano. No início de 2021, esperava-se que chegaria, no máximo, a 7% no acumulado de 12 meses em junho. Agora está em 10,73%. 

Uma notícia boa é a desaceleração do grupo Alimentação e bebidas (de 1,38% em outubro para 0,40% em novembro). Isso é uma tendência, segundo os economistas que tenho falado. Há uma safra boa prevista para 2022 e isto começa a impactar positivamente. Como o milho e a soja podem cair de preço, se reflete na ração, que acaba influenciando no preço do frango e dos suínos.

A inflação de dezembro deve vir um pouco mais baixa, em torno de 0,75%, segundo o professor Luiz Roberto Cunha. E o acumulado de 12 meses será menor já que, no mesmo mês do ano passado, ficou em 1,35%, pois houve reajuste da tarifa de energia, com bandeira vermelha.  Mesmo assim, o ano vai terminar acima de 10%.

Parte da inflação vem exatamente das dúvidas sobre as leis fiscais do país, já que o governo está desobedecendo todas com esta PEC do calote. A confusão fiscal impacta no dólar, que bate na inflação. Este é o canal de transmissão.

Alguns senadores me disseram que estão articulando alternativas ao relatório do senador Fernando Bezerra, que é muito ruim. Estão tentando reduzir os danos diminuindo a liberdade do governo para gastar este dinheiro desta 'folga fiscal', e usar os recursos apenas no que é mais importante: o combate à pobreza com a transferência de renda para os mais pobres.


IPCA-15 sobe 1,17% em novembro e acumula alta de 10,73% em 12 meses

 Isabela Rovaroto

Exame.com

Essa é a maior variação para um mês de novembro desde 2002

  (Busakorn Pongparnit/Getty Images)

Transportes registrou o maior aumento e foi influenciado 

pela alta nos preços da gasolina, de 6,62%

O Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo-15 (IPCA-15), considerado a prévia da inflação oficial, subiu 1,17 por cento em novembro, sobre alta de 1,20 por cento no mês anterior, informou o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). 

Essa é a maior variação para um mês de novembro desde 2002, quando o índice foi de 2,08%. O acumulado no ano foi de 9,57% e, em 12 meses, de 10,73%, acima dos 10,34% registrados nos 12 meses imediatamente anteriores. Em novembro de 2020, a taxa havia sido de 0,81%.

Todos os nove grupos de produtos e serviços pesquisados tiveram alta em novembro.

Grupo

Variação (%)

Impacto (p.p.)

Outubro

Novembro

Outubro

Novembro

Índice Geral

1,20

1,17

1,20

1,17

Alimentação e bebidas

1,38

0,40

0,29

0,08

Habitação

1,87

1,06

0,30

0,17

Artigos de residência

0,53

1,53

0,02

0,06

Vestuário

1,32

1,59

0,05

0,07

Transportes

2,06

2,89

0,43

0,61

Saúde e cuidados pessoais

-0,01

0,80

0,00

0,10

Despesas pessoais

0,77

0,61

0,08

0,06

Educação

0,09

0,01

0,01

0,00

Comunicação

0,34

0,32

0,02

0,02

Fonte: IBGE, Diretoria de Pesquisas, Coordenação de Índices de Preços, Sistema Nacional de Índices de Preços ao Consumidor.  


Transportes registrou o maior aumento entre os grupos, de 2,89% e foi influenciado, principalmente, pela alta nos preços da gasolina, de 6,62%. No ano, o combustível acumula alta de 44,83% e, em 12 meses, de 48,00%. Também houve altas nos preços do óleo diesel (8,23%), do etanol (7,08%) e do gás veicular (2,59%).

O segundo grupo com maior variação foi o de Habitação, com aumento de 1,06%. A maior contribuição foi do gás de botijão (4,34%), cujos preços subiram pelo 18° mês consecutivo, acumulando 51,05% de alta no período iniciado em junho de 2020.

A energia elétrica (0,93%) teve variação menor que a de outubro (3,91%) e contribuiu com 0,05 p.p. no índice do mês. Desde setembro, está em vigor a bandeira tarifária escassez hídrica, que acrescenta R$ 14,20 na conta de luz a cada 100 kWh consumidos.