sexta-feira, setembro 07, 2012

Trabalhadores traídos


Adelson Elias Vasconcellos

Só mesmo alguém muito desinformado, alienado total da realidade econômica brasileira, ou imbuído de tremenda má intenção, poderá negar que a agropecuária nacional é o esteio do nosso desenvolvimento.

Esqueçam programas sociais, esqueçam geração de empregos de terceira categoria, esqueçam os pacotinhos federais de pouca expressão. O única setor da nossa economia que consegue enfrentar o mal trato que recebe do governo, da imprensa podre, e da opinião pública manipulada, é a agropecuária.

Sai do campo a estabilidade econômica, as reservas internacionais que pagam os desperdícios dos governantes, o aparelhamento do estado e os recursos desviados para paraísos fiscais. Sai do campo o controle da inflação, com a comida abundante, com qualidade e preço baixo, que enriquece a mesa dos brasileiros, melhoram a qualidade de vida de todos nós, e paga esta corte faraônica de estúpidos que além de desgovernarem o país implantaram sofisticado esquema criminoso no Estado.

E, apesar de todas estas riquezas e benefícios, tem sido o agricultor de qualquer porte o mais destratado e difamado no país.  Enquanto eles trabalham de sol a sol para trazerem e gerarem riquezas para esta população de quase 194 milhões de pessoas,  aqueles de quem deveriam esperar e receber respeito e consideração, são apunhalados miseravelmente e tratados como se fossem lixo, escória, bando de vagabundos. No entanto, há quase duas décadas, são estes trabalhadores, mais do que qualquer outra categoria, cujo trabalho incansável, moderno, avançado, dedicado, paga o sustento dos vagabundos assentados no poder, entre benefícios indecentes e palácios refrigerados blindados com vidros refulgentes.

Cada vez que leio o imbróglio que vem sendo criado pelo governo Dilma em relação ao Código Florestal, fico imaginando o que esta senhora pensa sobre a atividade laboral dos agropecuaristas brasileiros ao deliciar-se e banquetear-se com as alfaces, couves, rabanetes, tomates, cenouras, repolhos, batatas, ou naqueles assados muito bem regados com molhos temperados ao ponto com cebolas, alhos, manjeronas e manjericões, folhas de louro e cominhos, ou mesmo apreciar uma boa pizza bem regada a orégano, com esvoaçantes mussarelas ... 

É bem provável que passada a campanha e vencida a eleição, ela deve supor que tudo isto e muito mais sejam produzidos nas gôndolas dos  mercados e mercadinhos. Não imagina o trabalho que dá arar e revirar a terra, lançar as sementes ao solo, rezar para que faça chuva e sol na medida e tempo certos para que as colheitas sejam generosas e os preços finais reponham o custo e remunerem o trabalho exausto e áspero. 

Tem sido tamanha sua imperial intransigência que somos levados a imaginar que esta senhora presidente não tem mesmo a menor noção da atividade agropastoril brasileira. Como também, não tem o menor conhecimento do trabalho que há não apenas para, depois da colheita, armazenar e depois transportar pelas estradas do inferno, toda a produção. Deve imaginar, quem sabe, que junto aos pés de alface brotem notinhas de cem reais para o deleite dos produtores e que, num passe de mágica, dali saem voando sorridentes rumo aos mercados e mercadinhos.. 

É impressionante como o Brasil, atrasado em conhecimentos e desinformado sobre os meios de produção, consegue ser tão ingrato com aqueles que o mantém minimamente organizado e produtivo. E não é uma produção qualquer. Trata-se de uma produção em tão excelente escala e tecnologicamente tão avançada, que o mundo inteiro compra do Brasil o alimento farto e barato que enfeitam as mesas pelo planeta. 

E, contudo, apesar de nestas quase duas décadas, haver triplicado sua produção, sem avançar um metro quadrado que fosse de novas áreas cultivadas, agora se quer reduzir ainda mais o pouco espaço que lhe é concedido para realizar seu trabalho de primeiro mundo. E, contudo, também e ainda, coloca para negociar o novo código uma destrambelhada a sentenciar de forma arrogante e grosseira : ou é do jeito que quer, ou nada feito, e nós vamos acabar com vocês. Traduzindo a linguagem em português bem claro a maneira estúpida e buliçosa com que a negociadora do Planalto, que nunca fez nada na vida de útil e produtivo, se pôs no caminho dos verdadeiros trabalhadores, brasileiros úteis à sociedade, portanto,  para chantageá-los, constrangê-los e, em última análise, traí-los. 

Se o Brasil pode ostentar e dar-se ao luxo de exibir tão generosa balança de exportações, da qual resultam reservas internacionais em quantidade suficiente que nos permite atravessar as atuais marés de crises internacionais sem solavancos, isto se deve, UNICAMENTE, aos trabalhadores e produtores do campo. Se o PT pode se assanhar em aparelhar o Estado, torrar dinheiro público a mãos cheias sem se preocupar com o nenhum resultado que a gastança provoca e, mesmo assim, não quebra a banca, isto se deve à riqueza saída do campo. Se pode encher os bolsos, com bolsa-familia, da gente pobre e abandonada pelo próprio Estado, mercê serviços públicos degradantes, com doações generosas para as quais se cobra apenas a fidelidade do voto na urna mais próxima, isto é fruto do trabalho protagonizado pelo meio rural. 

Se este governo pode ostentar a construção de palacetes de luxo, nos quais se instalam  o fausto inútil da luxúria, do atraso e da demência e cujas vozes proferem discursos ardilosos, falsos como notas de R$ 3,00, cheios de demagogias, entupidos de mentiras, tentando reescrever suas biografias mistificadas,  gente que sempre deu as costas ao país nos momentos mais duros da nossa história recente e que vem agora posar de salvadores da pátria, isto tudo somente lhes é permitido porque os trabalhadores do campo são capazes de, mesmo traídos e ignorados, explorados e espezinhados, sustentar esta fauna e flora estatal de macambúzios trastes inúteis. Gentinha ordinária, verdadeiros párias e gigolôs que rebarbam em banquetes e solenidades de puro tédio, onde a mentira é o idioma padrão, onde a falácia e os factoides são construídos e arquitetados numa imensa linha de produção de pura ficção e demência delirante.

Portanto, amigos leitores, quando vocês entrarem num mercado e se detiverem em frente aos balcões de frutas, legumes e verduras, ou dos balcões frigorificados de carnes, fiambres e queijos, procurem lembrar de quem é capaz de produzir tudo aquilo que ali está, recebendo muitas vezes preços aviltantes, e o desprezo patético dos governantes. 

Ao levar à boca uma simples folinha de alface, procurem imaginar a corrente de trabalhadores que se perfilaram para fazer chegar à sua mesa aquela folinha tenra e saborosa que lhe saciará e lhe fornecerá  as energias necessárias para a manutenção do corpo sadio e forte.  E, antes que um desses profetas da floresta virgem desembarque sua estupidez latente, preguiçosa e imbecil sobre os “ruralistas endemoniados”,   lembrem-se disto: quantos desses profetas seriam capazes de acordarem antes do sol nascer, trabalharem no cabo da enxada de um sol a pino durante 12 horas, e ao deitarem, pedirem aos céus por chuva e calor no tempo certo para a colheita não acabar com sua vida de trabalhador. 

Assim, que Dilma Rousseff deixe de lado sua intransigência ignorante e autoritária, e dialogue de forma civilizada com os produtores rurais sem lhes colocar a corda no pescoço, dando-lhe ao menos a chance de continuarem sua lida diária. Esta gente merece nosso carinho, respeito e, se mais não lhes pudermos alcançar, que ao menos não lhes neguemos a oportunidade de continuarem sendo útil a si mesmos e a todos nós. Pelo menos esta gente tão “chata”, que apenas pede a chance de poder trabalhar, não faz greve e não invade prédios públicos. Não cobra hora extra nem aposentadoria integral. Não cobra  vantagens adicionais de tempo de serviço muito menos FGTS. Não recebem 13º salário, nem férias remuneradas. Seu ambiente de trabalho não dispõe de ar refrigerado, tampouco de poltronas com rodinhas e forradas com couro de finíssimo acabamento, deslizando às vezes patéticas por sobre assoalho acarpetado e macio. 

Seu suor tem o cheiro da terra, do pasto, do leite, e seus trajes são simples e sem adornos, sem etiquetas de fino trato, em mãos grossas, calejadas pelo duro trabalho no campo. Portanto, presidente, em seu gabinete palaciano, ao tratar do Código Florestal, lembre-se: nas páginas cheias de artigos e parágrafos, normas e regulamentos,  desfilam naquelas linhas perfiladas milhões de trabalhadores honestos que esperam não serem traídos por seu trabalho cotidiano e incansável. Não os traia, presidente, não os traia. O Brasil é o único país do mundo que pode, ao mesmo tempo, autoproteger suas matas e florestas em praticamente 60% de sua cobertura original, sem deixar de ser celeiro do mundo. Não traia esta gente boa, presidente, porque ela não merece. O Brasil deve muito, mas muito mesmo de seu progresso e desenvolvimento ao trabalho deles, PRODUTORES RURAIS, com muita honra e pouco brilho.  Saiba reconhecer isto na hora de exigir regras e vetar espaços para eles  seguirem trabalhando, sob chuva ou sol, sob frio ou calor, mas sempre trabalhando. 

Desigualdade social em queda? Mentira...


Paulo Schueler
Tribuna da Imprensa

A divulgação do relatório “Estado das cidades da América Latina e do Caribe – 2012″ deixou claro: a redução da desigualdade é o principal desafio na América Latina.

No caso do Brasil, o problema é ainda pior: sexta economia do mundo, o Brasil é o quarto país mais desigual da América Latina, ela mesma a mais desigual do mundo. Afirma o Programa das Nações Unidas para os Assentamentos Humanos (ONU-Habitat) que, na região, somos uma sociedade menos desigual apenas que Guatemala (78º economia do mundo), Honduras (98º) e Colômbia (27º).

Outro dado assustador é que 124 milhões de pessoas vivem sob condições precárias nas cidades latino-americanas, sendo 28% delas (37 milhões) no Brasil. E “puxamos para baixo” o resultado da região, pois a média no Brasil é de 29% enquanto na latino-americana é de 25%.

SUBAVALIAÇÃO
Pior do que contribuir para a vergonha de todos nossos vizinhos é saber que o relatório da ONU “subnotifica” a desigualdade brasileira. O jornalista Clóvis Rossi deu a senha, em coluna publicada na Folha de S. Paulo, na qual afirma:

“O único metro usado para medir a desigualdade chama-se índice de Gini… Acontece que o índice mede apenas a diferença entre salários. Não consegue captar a desigualdade mais obscena que é entre o rendimento do capital e o do trabalho”.

O que isso significa? Que nosso já vergonhoso quarto pior índice na América Latina não leva em conta os dados de renda relativos aos ganhos com geração e pagamento de lucros, juros e aluguéis. Respondam rápido: que país da região passa por uma espécie de bolha imobiliária?

E o que tem as taxas de juros mais elevada? Em qual deles está a principal bolsa de valores, com as maiores companhias? Brasil-il-il!

Sigamos adiante, pela estrutura tributária do Brasil: de quem o governo mais retira rendimento para se manter? É mais que sabido que possuímos uma estrutura regressiva, pela qual a maior parte da arrecadação é proveniente dos impostos sobre o consumo e a produção.

Proporcionalmente, os pobres pagam mais imposto que os ricos, quem apenas trabalha paga mais do que quem investe na bolsa ou compra títulos da dívida pública, o que traz elevação da desigualdade. Segundo o IPEA, um órgão do próprio governo, pessoas com renda de até dois salários mínimos são responsáveis por 54% da arrecadação do Estado.

Já as com renda superior a 30 salários mínimos contribuem com apenas 29%.

O quadro torna-se ainda pior quando lembramos que a estrutura de gastos do Estado privilegia as despesas financeiras, os juros e amortizações da dívida pública – justamente onde há ganho de capital.

NÚMEROS REDONDOS
Voltando a Clóvis Rossi, para termos os números redondos: “No ano passado, o governo federal dedicou 5,72% do PIB ao pagamento de juros de sua dívida. Já o Bolsa Família, o programa de ajuda aos mais pobres, consumiu magro 0,4% do PIB. Resumo da história: para 13.330.714 famílias cadastradas no Bolsa Família, vai 0,4% do PIB. Para um número infinitamente menor, mas cujo tamanho exato se desconhece, a doação, digamos assim, é 13 vezes maior”.

Tantos números não deixam margem para dúvida: a política econômica levada a cabo pelo PT não resultou em redução da desigualdade; pelo contrário: faz, a cada dia, elevar-se o abismo entre pobres e ricos.

Se levarmos em conta as propostas que o governo tem na gaveta, à espera apenas das eleições de outubro, como a retirada de direitos trabalhistas e uma nova reforma da previdência, não precisamos nem esperar: os futuros relatórios da ONU trarão o Brasil em posição mais vergonhosa…

Falta de juízo e compostura


O Estado de S.Paulo

Os petistas ajuizados, que certamente compõem a grande maioria do partido, estão precisando urgentemente chamar à ordem seu presidente nacional, o iracundo Rui Falcão. É bem verdade que os destemperos do deputado estadual paulista que comanda nacionalmente o PT deixaram há muito tempo de surpreender seus correligionários ou os jornalistas. Notório ferrabrás, Rui Falcão foi o primeiro a acatar a palavra de ordem de Lula e a sair por aí esbravejando contra a "farsa do mensalão". Sua conhecida subserviência a José Dirceu ajuda a compreender esse comportamento. Mas agora Falcão extrapolou os limites do tolerável: acusou os ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) de serem "instrumento de poder" a serviço de uma oposição "conservadora, suja e reacionária".

É claro que o destempero do presidente do PT tem a ver com os rumos que está tomando o julgamento, no STF, da Ação Penal 470 - o processo do mensalão. Contrariando as expectativas dos petistas mais otimistas, aqueles que comemoraram prematuramente com champanhe o voto do ministro revisor Ricardo Lewandowski pela absolvição do companheiro João Paulo Cunha, os demais votos prolatados pelos ministros da Suprema Corte, por ampla maioria condenando os envolvidos no escândalo, indicam claramente que, no que depender desse julgamento, o partido contempla perspectivas sombrias. Mas nada justifica que seu comandante perca as estribeiras e a compostura.

Vociferando no ato público realizado na última segunda-feira em Osasco para lançar o substituto do condenado João Paulo Cunha na cabeça de chapa petista que concorre à prefeitura da cidade, Rui Falcão denunciou uma conspiração para "destruir" o PT. Verbis, como diriam os ministros do STF: "Essa elite suja, reacionária, não tolera que um operário tenha mudado o País, que uma mulher dê continuidade a esse projeto, mostrando que o preconceito que atingia as mulheres não sobrevive mais".
Por cumprir seus desígnios malignos, explicou Falcão, a "elite suja" e os oposicionistas "lançam mão de instrumentos de poder de que ainda dispõem: a mídia conservadora e o Judiciário". E, depois da acusação, a bravata: "Não mexam com o PT, porque quando o PT é provocado, ele cresce, reage". Ou seja: a reação dos petistas à condenação de vários companheiros poderá abalar as estruturas da República.

Mesmo levando em consideração que os despautérios foram proferidos num ambiente partidário impregnado de natural sentimento de dor e frustração pela "queda" de um companheiro proeminente, os termos da manifestação do presidente do PT são condenáveis sob todos os aspectos. Rui Falcão disse com todas as letras que o Poder Judiciário, neste caso representado por seu tribunal maior, se submete ao papel de "instrumento" da oposição; que cada um dos ministros que até agora declararam voto de condenação aos réus petistas está a serviço de uma "elite conservadora, suja e reacionária".

É o caso de perguntar: afinal, o que o PT está esperando do STF no julgamento da Ação Penal 470? Será que o fato de 8 dos 11 ministros que integram a Corte terem sido nomeados de 2003 para cá, pelos presidentes Lula e Dilma, levou os petistas a imaginar que a absolvição da companheirada e de seus cúmplices eram favas contadas? Certamente Lula tem grande responsabilidade por esse estado de espírito, considerando que depois de, num primeiro momento, ter-se declarado "traído" pelos mensaleiros e afirmado que o PT deveria "pedir desculpas à nação" pelos malfeitos, passou a propagar a tese da "farsa" urdida por seus "inimigos", na tentativa, que tudo indica resultará frustrada, de evitar que recaia sobre seu governo, com o aval da Suprema Corte, o estigma da improbidade.

Diante das inevitáveis consequências negativas de seu destempero, não é impossível que Rui Falcão venha a público para se desdizer, fazer reparos ao trabalho dos jornalistas ou até mesmo, o que será absolutamente surpreendente, desculpar-se. Em qualquer das hipóteses, trata-se de um grave caso de falta de juízo e compostura.

Paralímpico? Haja bobagem e submissão!


Pasquale Cipro Neto
Folha de São Paulo

O meu querido amigo, vizinho, filho e irmão Márcio Ribeiro me pergunta, com o seu falar italianado e com influência do linguajar da Casa Verde, bairro paulistano em que passou boa parte da vida: "Ma que história é essa de 'paralímpico'? Emburreci, emburrecemos todos?". E não foi só o Márcio. Vários leitores escreveram diretamente para o jornal ou para mim para pedir explicações.

Não, meu caro Márcio, não emburreceste. Nem tu nem os leitores que se manifestaram. E, é bom que se diga logo, a Folha não embarcou nessa canoa furadésima, furadíssima.

Parece que o Comitê Paralímpico Brasileiro adotou a forma "paralímpico" para se aproximar da grafia do nome do comitê internacional ("paralympic"). Por sinal, o de Portugal também emprega essa aberração --o deles se chama "Comité Paralímpico de Portugal" (com acento agudo mesmo em "comité").

É bom lembrar que o "par(a)-" da legítima forma portuguesa "paraolímpico" vem do grego, em que, de acordo com o "Houaiss", tem o sentido de "junto; ao lado de; ao longo de; para além de". Na nossa língua, ainda de acordo com o "Houaiss", esse prefixo ocorre com o sentido de "proximidade" ("paratireoide", "parágrafo"), de "oposição" ("paradoxo"), de "para além de" ("parapsicologia"), de "distúrbio" ("paraplegia", "paralexia") ou de "semelhança" ("parastêmone"). Os jogos são paraolímpicos porque são disputados à semelhança dos olímpicos.

Talvez seja desnecessário lembrar que esse "par(a)-" nada tem que ver com o "para" de "paraquedas" ou "para-raios", que é do verbo "parar" (não esqueçamos que o infame "Des/Acordo Ortográfico" eliminou o acento agudo da forma verbal "para").

Pois bem. A formação de "paraolímpico" é semelhante à de termos como "gastroenterologista", "gastroenterite", "hidroelétrico/a", "socioeconômico", das quais existem formas variantes, em que se suprime a vogal/fonema final do primeiro elemento (mas nunca a vogal/fonema inicial do segundo elemento): "gastrenterologia", "gastrenterite", "hidrelétrico/a", "socieconômico". O uso não registra preferência por um determinado tipo de processo: se tomarmos a dupla "hidroelétrico/hidrelétrico", por exemplo, veremos que a mais usada sem dúvida é a segunda; se tomarmos "socioeconômico/socieconômico", veremos que a vitória é da primeira.

O fato é que em português poderíamos perfeitamente ter também a forma "parolímpico", mas nunca "paralímpico", que, pelo jeito, não passa de macaquice, explicitação do invencível complexo de vira-lata (como dizia o grande Nélson Rodrigues). Pelo que sei, em inglês... Bem, dane-se o inglês. Danem-se os Estados Unidos, a Inglaterra e a língua inglesa.

Alta fonte de uma das nossas mais importantes emissoras de rádio me disse que o Comitê Paralímpico Brasileiro fez pressão para que a emissora adotasse a bobagem, digo, a forma americanoide, anglicoide ou seja lá o que for. A farsa é tão grande que, em algumas emissoras de rádio e de TV, os repórteres (que seguem ordens superiores) se esforçam para pronunciar a aberração, mas os atletas paraolímpicos logo se encarregam de pôr as coisas nos devidos lugares, já que, quando entrevistados, dão de ombros para a bobagem recém-pronunciada pelo entrevistador e dizem "paraolímpico", "paraolimpíada/s".

Eu gostaria também de trocar duas palavras sobre "brasuca/brazuca" e sobre o barulho causado pelo "porque" da presidente Dilma, mas o espaço acabou. Trato disso na semana que vem.

É isso.

***** COMENTANDO A NOTÍCIA:
Portanto, moçada, deixemos que os ignorantes digam suas "egonorâncias". Adotemos o que é certo, e valorizemos nosso idioma: doravante, digam E ADOTEM A FORMA CORRETA, sem medo de serem felizes: é "PARAOLÍMPICOS" e "PARAOLIMPÍADAS". 

Vai passar


Manoel Alberto Rebêlo dos Santos e Luiz Fernando Ribeiro de Carvalho (*) 
Blog do Noblat

A sociedade brasileira não será mais a mesma após o julgamento do mensalão. Satisfeita ou não, ela responderá à pulsão anímica resultante de fatores que movem o imaginário popular. O Judiciário e a percepção pelo povo de sua atuação também mudarão.

O primeiro impacto é a inédita presença de cabeças coroadas entre os réus da ação penal. Na triste tradição brasileira, o processo criminal só funciona para punir aqueles que, mesmo em liberdade, já formavam o gigantesco exército da exclusão.

Independentemente dos resultados, tais poderosos aparecem como acusados, aqui de crimes tão ultrajantes que a presunção de inocência, secular garantia constitucional, já não parece socorrê-los, como demonstra o andar da carruagem pelos votos até agora colhidos no julgamento.

Todos se recordam de que o ex-presidente Lula se disse traído pelos mentores do mensalão, de cuja própria existência, em manobra camaleônica, viria depois a duvidar. Ora, ninguém é traído em sua boa-fé por uma miragem.

A sabedoria popular não absorve o ilusionismo, mesmo que o povo, pela manipulação dos governantes, ainda não tenha chegado a degraus elevados de educação política.

Percebe-se a ligação entre aquela traição e o episódio vivido pelo ex-deputado Roberto Jefferson, ao bradar na CPI seus temores em relação ao chefe da Casa Civil da Presidência da República, José Dirceu, na ocasião notório aspirante à sucessão presidencial: “Sai daí, Zé, sai daí para não prejudicar o presidente da República, que está inocente (...) tenho medo de vossa excelência, porque desperta em mim os instintos mais primitivos.”

Nesse quadro, já referido como de tenebrosas transações, o país poderá ter vivido uma quadra recente com o Legislativo parcialmente reduzido a um balcão de negócios, movimentado por vivandeiras do meio político, banqueiros, empresários e publicitários, além dos necessários coadjuvantes.

O importante é que as instituições vêm cumprindo seu papel, provavelmente um processo dessa natureza não poderia ser imaginado em alguns países vizinhos. Aqui o quadro é diverso, pois o STF decidirá com independência, em veredicto preponderantemente jurídico, embora não se possa desconhecer algum componente político próprio do julgamento em cortes constitucionais.

Os resultados serão apontados com toda a liberdade à nação, que tem recebido da imprensa admirável trabalho de informação.

Sem dúvida, ganharão a democracia e a República que, rompendo o dique das tenebrosas transações, vão respirar fortalecidas, pois essa página infeliz da nossa história não deverá tornar-se passagem desbotada na memória das novas gerações (em recriação livre), o estandarte do sanatório geral vai passar, a democracia brasileira já amadureceu para tanto.

O espírito dos versos de Chico Buarque e Francis Hime pode ficar tranquilo.

(*) Manoel Alberto Rebêlo dos Santos é presidente do Tribunal de Justiça do Estado do Rio de Janeiro
Luiz Fernando Ribeiro de Carvalho é presidente da Comissão Mista de Comunicação Institucional do tribunal

O 'novo modelo'


Ilan Goldfajn (*)
O Estado de São Paulo

Há um novo modelo econômico se delineando? O brasileiro gosta de pensar que estamos sempre diante de um novo modelo, prestes a romper com o passado e mudar tudo. Para o bem, obviamente. A verdade é que as mudanças tendem a ser mais contínuas. O novo modelo é uma sequência do velho, fruto dos esforços presentes e passados e da realidade global.

Há várias incertezas, como sempre. Mas será possível desenhar tendências para a economia brasileira que formem um conjunto coerente? Para responder, algumas diretrizes.

É necessário investir mais para continuar crescendo. Não será possível continuar crescendo apenas incorporando mão de obra à produção. Na última década o emprego esteve em alta seguida e as empresas enfrentaram escassez de mão de obra. O desemprego chegou a recorde de baixa. Agora há necessidade de acumular mais capital para manter esses empregos e crescer mais. O investimento hoje está em torno de 19% do PIB, índice internacionalmente baixo. Os sintomas desse fenômeno estão visíveis a olho nu: falta de infraestrutura, produtividade limitada, custo alto da mão de obra e perda de mercado no mundo.

O investimento só não é baixo quando comparado à poupança que o financia. O governo despoupa, a nova classe média é consumidora e o Brasil tem dependido da poupança externa para investir. Acredito que o governo esteja empenhado em realocar seus gastos em mais investimento e menos gastos correntes (em pessoal, por exemplo), o que é equivalente a poupar mais. Mas há desafios de implementação, como demonstram as atuais greves no setor público e a dificuldade do governo em elevar os investimentos federais.

O aumento do investimento privado é essencial. As parcerias público-privadas e o anúncio recente de leilões de novas concessões na infraestrutura - rodovias, ferrovias, aeroportos, portos - são uma solução. Mas o setor privado vai precisar de retornos adequados para aumentar os investimentos. Os custos de produção estão muito elevados e representam um verdadeiro gargalo.

Há várias iniciativas para reduzir os custos. Está ficando claro que parte relevante da redução dos custos envolve, em certa medida, o governo abdicar de suas receitas. O pacote para reduzir o custo da energia no Brasil precisa da desoneração dos diversos impostos e contribuições. A redução do custo da mão de obra requer algum alívio no imposto da folha de pagamentos. Os investimentos da Petrobrás vão precisar de preços dos combustíveis alinhados com o resto do mundo, o que pode exigir desonerações adicionais de imposto na gasolina e no diesel.

Essas medidas no final vão desembocar na redução da carga tributária, que hoje representa em torno de 35% do PIB e é muito elevada para um país em desenvolvimento. Parece a solução ideal. A redução da carga tributária tem tudo para reduzir os custos de produção e estimular o investimento privado, essencial para crescer mais no médio prazo.

Mas "falta combinar com os russos", como diria Garrincha. Nesse "novo modelo" as contas fiscais fecham? As contas do governo comportam uma queda mais significativa da receita?

Por melhores que sejam os esforços de contenção dos gastos primários, não me parece estarmos diante de uma economia de recursos de tal magnitude que financie o "novo modelo", que requeira tamanha redução de custos a ponto de impulsionar o investimento privado e o crescimento no Brasil.

Mas não é só de gastos primários que as contas fiscais dependem. Resta saber se os juros serão menores no futuro e se abrem espaço fiscal para a queda da carga tributária. Ao contrário da meta de primário, o déficit nominal do governo inclui a conta de juros. Um gasto permanente menor de juros pode levar a um déficit nominal menor e permitir uma dinâmica da dívida mais favorável, abrindo espaço fiscal.

Não sou daqueles que creem na queda sustentável dos juros básicos da economia (Selic) por simples decisão do governo. Mas tenho acreditado na convergência dos juros para padrões internacionais no médio prazo no País, desde a conquista da estabilidade macroeconômica e a consequente queda do risco Brasil. A tendência tem sido de queda dos juros, apesar de mais lenta que o desejado. Para a frente, o crescimento mais moderado dos gastos do governo e do crédito no País pode permitir uma queda mais sustentada da taxa de juros (evitando a volta dos juros aos dois dígitos, mesmo após a retomada da economia).

Esse ponto não é trivial, nem assegurado. O elevado crescimento dos gastos públicos teve até hoje como contrapartida uma alta carga tributária, mas também juros mais altos. Se os gastos crescerem mais devagar (ou forem realocados para investimento), a consequente queda dos juros pode permitir uma carga tributária menor. A cada 1% de queda permanente na Selic, estimamos ser possível reduzir a carga tributária em 0,5% do PIB, sem piorar as contas públicas (déficit nominal).

Mas existem dúvidas, riscos e desafios. Em primeiro lugar, pode ser que estejamos enganados quanto à velocidade de convergência dos juros da Selic para patamares internacionais e, infelizmente, a demora seja maior. A inflação já parou de cair e pode voltar a subir, exigindo juros maiores. Esperamos que seja para um patamar menor do que no passado, continuando a longa tendência de queda. Mas não é certo.

Em segundo lugar, o espaço da queda de juros, se vier, deve ser utilizado para aumentar o investimento público ou para incentivar o investimento privado. A tentação de aumentar os gastos públicos ou incentivar o consumo privado (com deduções) pode tornar inviável a sustentabilidade da queda de juros, desequilibrar as contas públicas e acarretar o aumento da inflação. O "novo modelo" deixaria de existir.

O fato de existir um "novo modelo" com juros menores, menor carga tributária, mais investimento e um crescimento sustentável é alvissareiro, mas atingi-lo é um desafio.

* Economista-chefe do Itaú Unibanco e sócio do Itaú BBA

Lula, os dragões e o poder dos fracos


Roberto DaMatta
Revista Época

Um imperador chinês adorava dragões. Colecionava suas imagens e os reverenciava. Os dragões, que ocupavam o lugar mais alto na hierarquia dos animais na China e eram associados ao próprio imperador–apalavra dragão em chinês produz o som do trovão –, ficaram felizes quando, nas montanhas onde viviam exilados, souberamque ele os admirava. Rompendo o confinamento, eles resolveramvisitá-lo. Desajeitados, rastejaram, galoparam e voarampara o palácio imperial. Foram recebidos com insultos. O imperador até tentou encarar a visita comouma cortesia.Mas, quando se viu diante daqueles bichos escamosos e fedorentos, que, enquanto falavam, provocavam labaredas que queimavamplantações, deixou de lado a admiração que sentia e os expulsou do palácio.

Ouvi essa história de um cientista político chinês, durante uma palestra numa universidade americana. Como se sabe, disse com ironia o colega chinês, todo mundo ama e admira a democracia desde que ela, como os dragões, permaneça nas montanhas. Quando a democracia chega cuspindo o fogo da liberdade – comseu poder de reduzir ricos e pobres, fracos e fortes à igualdade perante seus poderes –, há em toda parte uma forte reação. Hoje, os dragões são bons símbolos das confusões permanentes da competição eleitoral e da igualdade de todos perante as leis, porque a vida numa democracia liberal é tão complexa e difícil quanto a desses seres que, de repente, podem botar fogo pela boca.

Como domesticar os dragões no caso de países como o brasil? Aqui, eles correspondem não ao ideal de democracia, mas a outra idealização: a enorme diferença entre o que se diz e o que se faz com nossos companheiros e com nosso partido quando chegamos ao poder. Aí está o mensalão, armado por aficionados desses monstros, que não me deixa mentir. O dragão pergunta: será que o voto deve ter o mesmo valor para todos? Se sabemos a solução para os problemas do Brasil, não seria legítimo comprar votos e políticos, e até mesmo partidos inteiros – para permanecer no poder resolvendo, a nosso modo, os problemas do povo brasileiro? Não se trata de tomar partido, trata-se de condescender com a desonestidade como um meio para permanecer no poder.

Lula, sem sombra de dúvida, foi o político simbolicamente mais forte da história do brasil. Ele não precisava adorar dragões, porque dentro dele conviviam o dragão da miséria, da fome, do abandono e da pobreza, com todos os seus terríveis coadjuvantes. Jamais se viu um presidente ou líder político com tanto poder de aglutinação simbólica como lula. Ele atraía os ricos pela culpa e pelas novas oportunidades de ganhar dinheiro com – e não contra – os trabalhadores sindicalizados; era amado pelos subordinados e ressentidos; era incensado pelos intelectuais – sobretudo os chegados a um despotismozinho inocente –, porque, como Platão, supunham que ele poderia ser educado ou convertido; era idolatrado pelos fanáticos pelo poder porque, com Lula, algo novo ocorreria com seus donos. E, finalmente, Lula dragava na sua figura os cristãos porque, nascido no centro da opressão, ele sofreu, mas não desistiu.

Sua fala repleta de erros crassos de português e de imagens simplórias não era, como pensavam os letrados, um demérito. Era o mais sincero testemunho de sua origem popular, porque essa fala confirmava o “pobre” iletrado (e explorado) no papel do presidente que pode tudo. Lula foi premiado com a Presidência por suas virtudes e por algo que a teoria política burguesa dos Hobbes, Rousseaus, Lockes e Mills jamais perceberam: aquilo que alguns antropólogos chamaram de “poder dos fracos”. O poder dos miseráveis nas sociedades intransigentemente desiguais, como a nossa, que tem a ilegítima legitimidade de transformar o assalto à mão armada em distribuição de renda. Esse poder dos fracos é o velho poder das ciganas que vivem miseravelmente no presente, mas predizem o futuro. Lula foi a imagem da redenção do Brasil pelo Brasil.

Nem a Revolução Francesa, nem a Russa, nem a Americana tiveram um ator com tais atributos. Pois Lula é a metáfora viva do que uma democracia pode fazer e do que só pode ser feito numa democracia construída por meio de uma imprensa livre e da competição eleitoral. nas revoluções que romperam as realezas e inauguraram a democracia como uma forma de vida, esse dragão feio, imperfeito, inclassificável – porque é ave, réptil e é também um mamífero –, não há nenhum líder como lula. A Revolução Gloriosa e a Francesa foram feitas por pensadores burgueses. Nem mesmo Mandela, negro e advogado, se iguala a ele. Nenhum deles veio tão de baixo – nem mesmo na Revolução Americana, onde se fundou a primeira sociedade civicamente igualitária do planeta, como tão bem percebeu um deslumbrado Alexis de Tocqueville.

Medir o que Lula representa simbolicamente é mais fácil hoje porque o tempo e a vida – e, mais que isso, a presença do petismo nas engrenagens paradoxais do poder – revelaram, logo no primeiro governo, a impossibilidade de seguir à risca o projeto ideológico de permanência, hoje em julgamento pelo Superior tribunal Federal. Lula perdeu parte de sua atração ideológica quando se filiou ao projeto brasileiro perene de manter nossas desigualdades confiando ao Estado (não à sociedade) seu projeto de revolução. E tome roubo e recursos públicos, e tome funcionalismo acima das leis.

Está Lula hoje, como um ex-presidente profissional que sabe como ninguém jogar com a dramaticidade de sua trajetória e com os anseios messiânicos do povo brasileiro, ainda desejoso de ter um dragão que tudo resolva? É certo que Lula tem um papel ímpar no processo político nacional. Mas também é seguro que ele não goza mais aquela ausência de verniz que o cobria como um presidente messias – um pobre governando os pobres. A aura de pureza e de inocência dos fracos e destituídos desmanchou-se diante da fieira de roubalheiras que é parte de sua era.

As eleições são o teste. Veremos se Lula continua com o mesmo poder de transferir carisma ou se o desfrute do poder concreto tem mesmo a capacidade destrutiva de transformar dragões em lagartos. Quem viver verá. E quem viver também verá se ainda precisamos de messias populistas que são pais (e mães) do povo – ou se começamos a exigir um estilo de governo mais impessoal, menos mendaz, mais democrático, que gerencia em nome do povo o que só a ele pertence.

Uma crise fora de padrão


Rolf Kuntz  
O Estado de S.Paulo

Há algo fora do padrão na economia brasileira, observam dois economistas do HSBC. É a erosão das contas externas, em tempo de baixo crescimento econômico. O superávit comercial ficou em US$ 12,1 bilhões até a terceira semana de agosto, resultado 34,3% menor que o de um ano antes, pelo critério das médias diárias. Historicamente, uma longa fase de crescimento fraco resultava em melhora do saldo comercial e do balanço de pagamentos. Desta vez, ocorre o oposto. As importações têm sido o lado mais dinâmico do comércio exterior brasileiro, desde a saída da crise, em 2010. A tendência foi mantida no ano passado, quando a economia de novo perdeu impulso e cresceu apenas 2,7%, e estendeu-se pela maior parte de 2012. Esse quadro aparentemente estranho tem sido pouco discutido pelos especialistas e isso valoriza o comentário dos economistas Constantin Jancsó e Marjorie Hernandez, divulgado esta semana pelo banco. Mas como explicar a aparente mudança de padrão? O mistério parece dissolver-se quando se olha um pouco além do cenário de curto prazo.

Os dois especialistas apontam vários fatores: redução de preços das commodities, menor demanda dos parceiros comerciais brasileiros e "até problemas de competitividade". Acentuam, no entanto, os dois primeiros, exemplificados pela menor cotação do minério de ferro e pela queda das vendas à Argentina. São, sem dúvida, explicações relevantes. Não há como desconhecer a estagnação no mundo rico, a desaceleração na China e o efeito conjunto do enfraquecimento econômico e do protecionismo, no caso argentino. A indústria do Brasil tem sido seriamente prejudicada pelas barreiras erguidas pelo maior parceiro no Mercosul. Mas por que não explorar mais amplamente o terceiro fator, os problemas de competitividade? Isso pode fazer muita diferença na discussão do quadro brasileiro.

Para começar, vale a pena chamar a atenção para um detalhe. O quadro de baixo crescimento, desta vez, difere daquele geralmente observado na experiência brasileira. Em outros tempos, o governo arrochava a economia interna, em episódios de grave desajuste, para cortar o excesso de demanda. Isso comprimia os salários, diminuía as importações, estimulava as exportações e reforçava as contas externas. A história incluía, normalmente, uma desvalorização cambial para realinhamento dos preços. Experiências desse tipo ocorreram muitas vezes, quando o Brasil era cliente assíduo do Fundo Monetário Internacional. É outro o quadro observado nos últimos anos.

As importações já cresciam mais velozmente que as exportações em 2008, antes do agravamento da crise externa. Fechado o ano, o valor exportado foi 23,2% superior ao de 2007. O importado foi 43,4% maior. A breve recessão freou temporariamente essa tendência, mas o descompasso logo reapareceu. Primeira diferença importante: ao contrário do observado em outras crises, o governo jamais recorreu, desde o terceiro trimestre de 2008, a um arrocho efetivo do consumo. Apesar dos juros altos, a demanda dos consumidores foi estimulada por incentivos fiscais e pela constante expansão da oferta de crédito. O gasto público expandiu-se continuamente, o endividamento das famílias aumentou e só em raros momentos, mesmo neste ano, o consumo privado fraquejou. Não houve, portanto, nenhuma política de aperto como ocorreu em outras crises.

Mas a produção da indústria fraquejou, apesar da boa demanda interna. A empresa brasileira perdeu mercado tanto no exterior quanto no País. A invasão do mercado nacional pelos concorrentes estrangeiros foi amplamente mostrada por estatísticas da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo e da Confederação Nacional da Indústria.

Isso leva a uma segunda qualificação. A redução dos preços das commodities seria menos importante para o saldo comercial brasileiro se o País fosse menos dependente das exportações de produtos básicos e semielaborados. Da mesma forma, os problemas do comércio com a Argentina, embora relevantes, seriam mais suportáveis se a indústria brasileira ocupasse mais espaços em outros mercados. Essa questão é independente da crise global. Tem raízes na diplomacia comercial do governo petista e na ineficiência geral da economia brasileira, agravada ano após ano. Não é problema conjuntural.

A maior parte das políticas adotadas a partir de 2008 foi desenhada para questões de conjuntura. Agora, a presidente Dilma Rousseff parece haver admitido, afinal, a existência de problemas bem mais graves e complicados que os de curto prazo. O anunciado plano de transportes, com participação do setor privado, tem objetivos bem mais amplos. Falta o governo mostrar competência para administrá-lo.

Disputa partidária


Merval Pereira
O Globo

Deve-se atribuir a nota oficial da Presidente Dilma Rousseff em defesa de Lula e com críticas indiretas ao ex-presidente tucano Fernando Henrique ao abalo interno que o julgamento do mensalão está produzindo nas entranhas do PT. Está certo também quem disse que Fernando Henrique “pediu” um posicionamento da presidente, ao tentar colocá-la em contraponto a Lula, sobretudo em questões de moralidade pública. 

Mesmo que atos e alguns gestos seus sejam interpretáveis nesse sentido, é ingenuidade querer provocar uma divisão entre o criador e a criatura mais explícita do que ela pode ser dentro de um quadro político em que a presidente, por mais popular que seja, não tem o controle do PT e nem está a caminho de tê-lo, pela simples razão de que não é uma especialista em política partidária para querer entrar nesse embate com seu protetor. 

É de conhecimento generalizado a ocorrência frequente de desentendimentos entre aquele que assumiu o poder e o que foi responsável pela sua ascensão, mas é preciso que aquele tenha planos políticos que impliquem suplantar o protetor, o que não é o caso de Dilma Rousseff, por circunstâncias várias. 

Se o ex-presidente Lula estiver em condições físicas de tentar voltar à Presidência em 2014, e quiser fazê-lo, será desnecessária qualquer tentativa de resistência por parte de Dilma, pois a vaga é de Lula, mesmo que não naturalmente, pelo menos por seu prestígio dentro do próprio partido. 

Não é razoável pensar que a presidente Dilma, diante de uma situação dessas, pense em trocar de legenda para tentar a reeleição fora do PT, por mais que esse seja seu direito natural. 

A situação partidária da presidente é curiosa: embora popular, não tem um apoio dentro do PT, cuja ala majoritária demonstra saudosismo em relação ao período em que Lula era o presidente. 

Mas é a melhor alternativa do partido para a eleição de 2014, se Lula não quiser ou não puder se candidatar novamente. 

Ela certamente terá problemas com o partido caso o ex-ministro José Dirceu saia incólume politicamente do julgamento do mensalão, o que parece improvável pelo rumo que ele está tomando, mas sempre é possível. 

Dirceu já manifestou o desejo de se candidatar à presidência do PT em caso de absolvição, e trabalharia dentro do PT e no Congresso para ser anistiado em sua cassação. 

Seria sem dúvida uma sombra para o governo de Dilma, com maior capacidade de mobilização dos chamados movimentos sociais. 

Poderia atuar em relação ao governo Dilma como o deputado federal Ulysses Guimarães do PMDB no governo de José Sarney, sendo o porta-voz do PT com capacidade de vetos até mesmo na escolha de ministros. 

Seria ingenuidade, ou precipitação, entender as gentilezas da presidente Dilma com o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso como gestos calculados de uma aproximação com os tucanos em caso de necessidade futura. Foram gestos republicanos, que bastam em si mesmo. 

As diferenças entre a presidente Dilma e o ex-presidente Lula não são tão profundas a esse ponto, e ela não me parece uma política disposta a gestos ousados como seria o rompimento com seu criador Lula, por mais discordâncias que tenham. 

A nota oficial da presidente Dilma, portanto, foi mais uma demonstração exagerada de lealdade pessoal a Lula do que uma jogada política para o PT, embora tenha agradado os militantes do partido, agastados com sua proximidade com o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso. 

O PSDB, por seu turno, continua cometendo o mesmo erro de sempre, evitando embates diretos com uma presidente popular. A nota oficial do partido, em defesa de Fernando Henrique Cardoso, peca mais uma vez pelo uso da ironia ao dizer que “compreendem” a posição da presidente Dilma, que não poderia admitir que demitira 7 ministros no seu primeiro ano de governo por suspeita de corrupção. 

Ou que ela não tinha como enfrentar as críticas ao peso da “herança moral” negativa, no momento em que o mensalão está sendo escancarado ao grande público e até mesmo a imprensa internacional classifica o julgamento como sendo também o da “era Lula”. 

Desse ponto de vista, e provavelmente por não precisar mais de se eleger, o ex-presidente tucano é sempre o mais perspicaz crítico do governo petista. 

Essa disputa entre Lula e Fernando Henrique é partidária, e não de governo. Os dois são os grandes líderes do dois maiores partidos do país, e o tempo é de eleição. 

Ela tem muito de visões de mundo diferentes, mas também tem um toque pessoal. Fernando Henrique sabe que suas críticas atingem Lula na alma, e tira proveito político dessa fraqueza de um adversário que é mais forte do que se sente diante do intelectual feito político que um dia já apoiou.

Um (a) por todos


Dora Kramer 
O Estado de S.Paulo

Ao molde do tempo em que sindicatos eram sindicatos, no PT funciona assim: mexeu com um, mexeu com a categoria. E se esse "um" é tido como o garantidor da sobrevivência, por mais razão mobilize-se a elite da tropa.

Em palavras breves, sem pretensão analítica profunda, podemos resumir assim a reação da presidente Dilma Rousseff em defesa do ex-presidente Lula contra as críticas feitas em artigo pelo antecessor Fernando Henrique Cardoso.

O contra-ataque poderia ser visto como uma tentativa de interditar a liberdade de opinião. Só por aqui e numa perspectiva autoritária é que se vê a exposição de um raciocínio como ofensa pessoal.

Embora perfeitamente adequada à ocasião, essa seria uma interpretação incompleta em face do real objetivo da nota da presidente para rebater o artigo "herança pesada" em que FH diz o óbvio sobre o legado de retrocesso moral e ético deixado por Lula.

Tão óbvio que há dele provas cabais. A demissão de sete ministros no primeiro ano do governo de Dilma dá testemunho substancioso a respeito.

Fosse pouco, o Supremo Tribunal Federal há um mês conta essa história três vezes por semana em todos os detalhes com transmissão direta pela televisão, fundamentação jurídica e posicionamentos contundentes.

A essa autonomia recebida pela sociedade como um legítimo resgate da legalidade, o presidente do PT dá o nome de "golpe".

Voltemos, porém, a Dilma e sua manifestação nesse momento de profunda consternação que se abate sobre o PT e da mais aguda desmoralização ao desmonte da farsa anunciado por Lula.

O que fez a presidente? Nada demais. Divulgou uma nota em termos absolutamente razoáveis sob a concepção dela dos fatos, para defender a "herança bendita" que recebeu de Lula.

Claro que não cita o ponto principal abordado por FH, "o estilo bombástico de governar que esconde males morais e prejuízos materiais para o futuro da nação".

Fala sobre o crescimento da economia - sem desta vez associá-lo à reconstrução da credibilidade do País consolidada pelo autor que contraditava -, sobre justiça social e sobre o reconhecimento de seu criador no cenário internacional.

Não é a verdade toda, mas ainda assim, verdades.

A presidente não incorreu em impropriedade, não desrespeitou leis, nada fez de excepcional além de resguardar o patrimônio político do grupo hoje por ela representado.

Fez, como petista, o que os correligionários de Fernando Henrique não fizeram quando o PT vendeu - e a sociedade comprou - a tese de que recebia uma "herança maldita".

Dilma demarcou terreno e deu uma lição aos tucanos, FH aí incluído, que viveram a ilusão de enxergar nos gestos de boa educação da presidente algo além de um movimento que agregaria novos valores - e por consequência novos eleitores - ao projeto de poder do PT.

Reciclar. 
Foi-se o tempo em que motoristas falavam e, se fosse o caso, incriminavam em comissões parlamentares de inquérito. Um ex-motorista da Delta ficou calado ontem na CPI do Cachoeira, assim como a ex-mulher do bicheiro. Agora só falta uma secretária calar para negar a velha escrita sobre fontes de comprovação de denúncias em CPIs.

Isso posto, é evidente que esse silêncio é uma espécie de defeito da qualidade das investigações parlamentares: a partir do momento que aquele tipo de depoimento começou a gerar consequências - muitas vezes nefastas para o denunciado largado à própria sorte (ou azar) depois do relevante serviço prestado -, mesmo as testemunhas ficam reticentes.

De onde estaria na hora de se revisar os métodos e os conceitos para adaptar as comissões de inquérito aos novos tempos. Enquanto os investigados aperfeiçoaram seus procedimentos, as CPIs continuam obedecendo a uma dinâmica ultrapassada.

Quando a forma antiga se alia ao propósito da maioria de postergar para não investigar, seus integrantes fazem papel de bobos da corte.

Batalhas verbais


João Pereira Coutinho (*)
Folha de S. Paulo

Primeira lição: não existem grandes escritores que não sejam grandes leitores também

NO DIA em que terminei de escrever a minha tese de doutorado, enviei o manuscrito para um colega. E pedi uma opinião sincera.

Três dias volvidos, ele respondeu: "Você vai ser fuzilado pela banca".

O problema estava na qualidade do texto. A tese estava bem escrita. Pior: bem escrita e totalmente compreensível.

Eu tinha cometido uma heresia nas ciências sociais: escrever uma tese de doutorado com o propósito honesto de ser lido e compreendido. Sugestão dele para evitar o desastre: reescrever o texto e transformar cada parágrafo em paralelepípedo.

Lembro essa história agora por dois motivos. Primeiro, porque Barton Swaim escreve na "Weekly Standard" sobre a qualidade da prosa acadêmica. Qualidade atroz, entenda-se. Por que motivo a Fauna universitária faz um esforço tão tortuoso para ser tortuosa?

Swaim arrisca três hipóteses. Para começar, as humanidades vivem o complexo de inferioridade que as atormenta desde o século 18, quando as ciências naturais deram o seu salto cosmológico. A impenetrabilidade dos textos humanísticos é uma forma de simular "profundidade".

Depois, existe o problema das influências. Das más influências. O aluno escreve mal porque o supervisor e os seus pares escrevem pior. E porque as revistas da especialidade só publicam esses horrores.

Por fim, a hipótese mais provável: a obscuridade obscurece. Quando nada temos de relevante para dizer, só há uma forma de esconder o vazio: com a babugem das palavras.

Admito que essas hipóteses sejam válidas. Mas se lembro o meu calvário acadêmico é por outra razão: a Morgan Library de Nova York dedica exposição ao escritor Winston Churchill até 23 de setembro. E foi Churchill quem me infetou com o vírus da clareza e da legibilidade.

Sim, eu sei: quando falamos de Churchill, surge a imagem clichê do velho premiê inglês com o seu charuto. O prêmio Nobel da Literatura que ele recebeu em 1953 é visto apenas como prêmio político, uma homenagem ao herói da 2ª Guerra.

Lamento discordar. Churchill merece o Nobel da Literatura como ninguém. Ele é o único escritor do século 20 que mudou o século com a força das palavras. Basta ler os seus livros e discursos para entender a proeza. Uma proeza que, obviamente, começa por ser o resultado de uma vida inteira de leitura.

Primeira lição: não existem grandes escritores que não sejam grandes leitores também. E Churchill era um grande leitor. Biografias apressadas dirão que o rapaz foi aluno relapso e uma nulidade em francês ou matemática.

Essas biografias esquecem-se de acrescentar o resto: a paixão pela História. Ainda na juventude, e nas primeiras campanhas militares, foram os volumes de Macaulay sobre a história de Inglaterra ou a monumental obra de Edward Gibbon sobre a Roma Antiga que acompanharam e formaram o soldado (e jornalista) Winston.

Ler esses primeiros textos de Churchill é sentir, em cada frase, a cadência e a elegância dos mestres da língua inglesa.

Mas Macaulay ou Gibbon não lhe forneceram só os instrumentos técnicos do "métier". Legaram-lhe, sobretudo, uma visão poderosa e inspiradora sobre a grandeza da civilização ocidental -uma grandeza ancorada na liberdade individual e na dignidade da pessoa humana.

Armado com tais certezas, Churchill teve a oportunidade de as testar. Primeiro, na denúncia solitária da Alemanha nazista na década de 1930. E, depois, no confronto direto com Hitler, fazendo com que os ingleses acreditassem no inacreditável: a possibilidade de resistir -e vencer.

Hoje, quando olhamos para trás, dizemos que a Inglaterra ganhou a guerra com o apoio americano e o incomensurável sacrifício soviético. Verdade.

Mas os ingleses ganharam a guerra porque acreditaram também nas palavras de Churchill. Palavras simples sobre a importância da liberdade, da honra e do sacrifício.

Como disse Isaiah Berlin em retrato magistral, a proeza maior de Churchill não foi política ou militar. Foi ter recrutado a língua e a história inglesas para a frente de combate. Elas foram tão importantes como as armas. Brindo a ele.

E, mais modestamente, brindo a mim, que derrotei a banca sem mudar uma vírgula. Cada um trava as batalhas que merece.

(*) João Pereira Coutinho - escritor português, é doutor em Ciência Política. É colunista do "Correio da Manhã", o maior diário português. Reuniu seus artigos para o Brasil no livro "Avenida Paulista" (Record). 

Na porta do Céu


Roberto DaMatta  
O Estado de S.Paulo

Da hoje talvez esquecida obra do psicólogo existencial Rollo May (1909- 1994), ficou em mim a marca de dois dos seus livros. O do famoso Amor e Vontade (de 1969); e deCoragem para Criar (de 1975) que li na Universidade de Cambridge, Inglaterra, quando visitava brevemente o seu Centro para Estudos Latino-Americanos, em 1978, e lá terminava o meu livro Carnavais, Malandros e Heróis, no qual tentei revelar o Brasil pelo seu avesso conflitivo, dilemático e hierárquico por meio de instituições tidas como inocentes como o carnaval, o você sabe com quem está falando e os seus heróis - alguns vistos como santos, outros como bandidos, quase todos como malandros. Era preciso alguma coragem para escrever sobre o Brasil sem falar em classes sociais, usar o estruturalismo de Dumont e Lévi-Strauss (tido como a miséria da razão) e citar o reacionário Alexis de Tocqueville e não o revolucionário Karl Marx.

Num desses livros, Rollo May conta o drama do jovem pesquisador que morreu e, chegando à porta do Paraíso, é julgado por São Pedro. No solene rito territorial que vai decidir sua futura vida eterna no Céu ou no Inferno (lembro que Rollo nasceu em Ada, Ohio, e que para os calvinistas não há o razoável e passageiro Purgatório com suas indulgências), o jovem decide que o melhor caminho é confessar e vai logo dizendo que tinha falsificado os dados de sua tese de doutorado em Psicologia Experimental. O calejado porteiro celestial olha para aquela alma, transparente na sua patética autoconfissão, e profere: "Não, meu jovem. O que pesa na sua vida não foi essa banal falsificação. Falsificar e enganar são dimensões constitutivas dos mortais. Esse é um pecado que não levamos muito a sério aqui em cima. O seu grande pecado, aquele que pode efetivamente condená-lo, é que você foi enviado para um teatro de horrores e para um vale de lágrimas e, no seu trabalho, você o reduziu a um mero circo de cavalinhos. Sua tarefa era compreender as tremendas contradições que são parte da vida emocional emoldurada pela razão e você reduziu tudo a um problema de estímulo e resposta!". Hoje, São Pedro certamente mencionaria a neurociência, esse novo reducionismo ocidental.

Tenho sido perseguido por essa passagem e talvez seja por isso que hoje, velho e um tanto cansado dos teóricos que pululam nas universidades, eu prefira ler literatura onde ninguém precisa falsificar coisa alguma, porque tudo já está falsificado, satisfazendo de sobra aquilo que buscamos. A falsificação convincente, com início, meio e fim, que tanto leva a admirar a temeridade do ladrão, a ousadia e a natural mendacidade dos políticos, quanto a bravura sisuda de um deslindador profissional de mentiras, como é o caso dos juízes os quais, com a intrepidez de Teseu, entram no labirinto do monstruoso Minotauro e, confiantes no tênue (mas mágico) fio de Ariadne não se perdem no dédalo das mentiras, as quais destroem, estabelecendo no ritual do julgamento (esse ato público de regeneração moral) o fim das falsidades.

* * * *

Essa parábola do julgamento do jovem cientista tem sido o meu emblema neste histórico e crucial ajuizamento do mensalão. Tenho assistido com assiduidade e interesse à atuação dos magistrados e dos defensores e me orgulhado de seus desempenhos. O drama da Justiça ao vivo, num caso tão importante quanto complicado e delicado para a vida democrática do nosso país, é muito semelhante à entrada no Céu ou o risco de deslindar confusões e decidir o caminho nas encruzilhadas.

Espantou-me como a maioria dos magistrados buscou com zelo e lucidez os fios mágicos - dentro daquilo que os juristas chamam de "contraditório" - para realizar um percurso em busca de uma verdade com duas caras: a da promotoria e a da defesa. Sem, diga-se de passagem, esquecer o direito dos réus. Tudo na ausência da autoridade de um poder final ou divino, exceto aquelas manifestações de onipotência humana que fazem parte de todo confronto público em que o foco é a divergência e por isso mesmo prevalece a regra da lei.

Esse espetáculo de civilidade deve ser não apenas louvado, mas visto por todos, sobretudo pelos lulo-petistas que estão no governo e nele ocupam cargos da mais alta responsabilidade.

Outro dia, um velho e querido amigo petista reclamou comigo da "politização" do caso. Mas como poderia ser de outro modo se tudo o que era do PT (e da chamada "esquerda" em geral) - do café da manhã aos desfiles carnavalescos e os jogos de futebol, sem esquecer o amor e o sexo - era (ou deveria ser) politizado? E como não ter desdobramentos políticos se o caso começa precisamente motivado por uma perspectiva da política e do poder? O que não se pode fazer é psicologizar o mensalão. Porque nesse caso seria bem pior e o julgamento entraria no terreno das compulsões e esquizofrenias nas quais a mão esquerda ignora a mão direita e deseja decepá-la, como é corrente no caso dos que escolhem o extremo como rotina e método. Ademais, se o caso fosse lido por psicólogos, alguns acabariam num hospício.

Por outro lado, essa politização está contida pelas etiquetas legais e pelos procedimentos jurídicos. Ninguém deseja destruir ninguém e muito menos um partido com a importância do PT. Agora, julgar aquilo que surgiu como engodo coletivo e como um plano para evitar o jogo liberal e igualitário de ganhar para depois perder e, em seguida, ganhar novamente, como sendo um evento trivial seria não somente leviandade, mas uma fuga dos desafios que a democracia demanda da sociedade brasileira.

Por isso, não há como fugir dessas duras viagens pelos labirintos das verdades e das mentiras. Por mais que isso aflija os que estão no mais alto poder e os que lá estiveram e se sentiram como deuses; ou fantasiaram o mundo como um circo de cavalinhos e pensaram que todos eram otários.

Cadê Você?


Valmir Fonseca
Alerta Total

Procura – se, desesperadamente, o cidadão de respeito.

Cadê você que tem vergonha na cara, que fica indignado com a injustiça, que deplora o mau caráter, que clama por honestidade e por dignidade?

Cadê você que ama a Pátria, que abre o peito para entoar o Hino Nacional, que se ufana ao ver a Bandeira ser hasteada e tremular no seu mastro?

Cadê você que julga que o mérito é o diferencial das pessoas, e que os mais capazes e dedicados deveriam subir com dignidade nas escalas do sucesso humano?

Cadê você que tem um mínimo de capacidade de julgamento, e que ao constatar que foi enganado não tem ânimo, nem coragem, nem hombridade ou se mulher, a fibra feminina de dar um basta na hipocrisia e na mentira?

Cadê você, rico ou pobre, mal ou bem nascido, que durante a sua vida pautou sua conduta na correção, respeitou a quem merecia, e acreditou que seguindo o bem e afastando o mal poderia ter uma vida justa?

Cadê você, pai que busca preservar e ensinar aos seus filhos a conduta exemplar, os bons costumes, e que os valores e atitudes dignas ainda não foram expurgados?

Cadê você?

Cadê você que está tão sorumbático, que assiste a tantas patifarias e que calado dá a impressão de que aplaude aos cretinos e suas cretinices?

Cadê você que parece aceitar o lixo humano como o seu mestre?

Cadê você que no seu silêncio tornou - se conivente por sua inexplicável ausência de reação?

Cadê você que se tornou amorfo e semimorto moralmente, e que beneficiado por isenções periódicas de IPI, paga as duras prestações, eletrodomésticos, carrinhos de parcos recursos tecnológicos, mas de altíssimos preços, e que maravilhado com as esmolas, é capaz de calar – se diante de qualquer vilania.

Cadê você que não ficou inebriado com a desculpa de que eles são infames, mas que concedem a você bolsas, benesses, e, portanto estão acima do seu reles julgamento moral?

Cadê você? Cidadão de boa conduta, pai exemplar e dedicado, trabalhador honesto, que assiste a um festival de embromação na televisão, que vivencia impassível à promessa de que no futuro seremos autônomos em petróleo, em etanol, etc?

Cadê você que não acredita que a nossa inflação mensal persiste no 0, 0000 e qualquer coisa?

Cadê você, branco, amarelo, mestiço, azul ou vermelho, que será atropelado pelas cotas raciais no ingresso nas universidades?

Cadê você, que gosta de futebol, mas que nitidamente já concluiu que o esporte bretão é o circo que alegra os sem destino e pobres de espírito?

Cadê você que vive nas sombras, que tem receio de aparecer, que está sendo esmagado pelo “politicamente correto”, desvãos morais incutidos na sociedade, paulatinamente, e que consagraram a família gay como um dos segmentos nobres da nossa sociedade.

Cadê você, incógnito na multidão da estrumeira colossal que conspurca o imenso Brasil?

Cadê você, verdadeiro zero à esquerda, escondido na sua calada insatisfação, que sabe que no julgamento do Mensalão existe um sujeito não tão oculto que não foi arrolado entre os acusados?

Cadê você? Você não está sozinho, milhares de brasileiros deploram a impunidade, acreditam nos direitos e cumprem os seus deveres.

Cadê você?

Junte – se a nós, nas praças, nas ruas e em alto e bom som brade o seu repúdio, denuncie o quanto você deplora os rumos caóticos, não apenas econômicos, mas da falta de princípios que assolam esta Nação.

Cadê você que estava em greve de silêncio, que calado seguia fielmente a cartilha da omissão e da conivência?

Rompa com os grevistas e mãos a obra.

Na Semana da Pátria, você será muito bem vindo irmão brasileiro.

A alternativa da CNS para desonerar a folha


Marcos Cintra (*)
247

Um funcionário custa para uma empresa mais de 100% de sua remuneração, sendo 36% de tributos e o restante referente aos encargos trabalhistas

Uma Comissão Tripartite formada por membros do governo, representantes de trabalhadores e entidades empresariais vai acompanhar o andamento da desoneração da folha de pagamentos iniciada em 2011. Há um ano quatro setores deixaram de recolher os 20% da contribuição previdenciária sobre essa base e passaram a pagar um percentual sobre a receita bruta para o INSS. Em abril de 2012 a medida passou a valer para mais onze segmentos. O principal objetivo anunciado pelo governo com essa ação é ampliar a competitividade da indústria.

Reduzir a carga de impostos sobre a folha de salários é uma das necessidades mais urgentes para a economia brasileira. Um funcionário custa para uma empresa mais de 100% de sua remuneração, sendo 36% de tributos e o restante referente aos encargos trabalhistas. É uma das maiores cargas sobre a mão de obra no mundo.

A desoneração da folha de salários como o governo está fazendo tem alcance limitado frente ao seu principal objetivo. Utilizar a receita bruta como base alternativa limita os benefícios para setores industriais dotados de um parque tecnológico moderno e para empresas que terceirizam parte expressiva da produção. Outro ponto importante é que o processo se concentra sobre setores da indústria, quando quase 70% dos trabalhadores atuam no segmento de serviços. Assim, a almejada elevação da competitividade sistêmica para a economia brasileira terá resultado pífio.

Insistir em transferir o ônus da folha de pagamentos para a receita das empresas continuará impondo elevado custo sobre a produção do País. Como alternativa a Confederação Nacional de Serviços (CNS) vai iniciar um movimento em prol da utilização da transação financeira nos bancos. Estudos revelam que essa base tributária é capaz de proporcionar maior competitividade para o setor produtivo, uma vez que ela reduz o custo de manutenção de empregos e o desembolso exigido pela burocrática estrutura tributária brasileira.

A CNS propõe a substituição dos 20% do INSS sobre a folha de pagamentos para todos os setores da economia por uma Contribuição sobre a Movimentação Financeira (CMF). Bastaria uma alíquota de 0,63% sobre cada transação na conta corrente bancária para arrecadar a mesma receita do tributo a ser extinto.

Uma simulação considerando 110 produtos mostra que a redução da carga tributária seria significativa com a CMF. O atual INSS patronal tem impacto entre 8,9% e 15,4% sobre os preços dessas mercadorias e serviços e no caso de sua substituição pela CMF esse peso cairia para entre 1,1% e 2,5%.

A proposta apresentada pela CNS precisa ser analisada pelos membros da Comissão Tripartite. Confrontar as duas propostas é necessário. Se a ideia é melhorar a competitividade das empresas no País, a substituição do INSS patronal por uma CMF tem alcance muito maior que o limitado processo de desoneração baseado na receita bruta.

(*) Marcos Cintra é doutor em Economia pela Universidade Harvard (EUA), professor titular e vice-presidente da Fundação Getúlio Vargas

A prorrogação do anabolizante tributário


Ricardo Galuppo (*)
Brasil Econômico

A redução de impostos sobre os automóveis, eletrodomésticos e outros produtos de cadeias industriais complexas tem sido utilizada pelo governo desde 2009 como uma espécie de anabolizante da economia.

Toda vez que o PIB empaca, a Fazenda reduz o IPI sobre esses produtos por tempo determinado e o mantém baixo até que a medida produza os efeitos desejados. O tributo reduzido puxa os preços para baixo, a clientela se anima e corre para adquirir a mercadoria desejada.

Isso aquece as vendas e faz a economia, como um todo, embicar para o alto. Nessa hora, o governo diz que tudo está normal e que a medida, tomada num momento excepcional, já não é mais necessária.

A alíquota normal volta a vigorar e, como efeito direto, puxa os preços para cima e funciona como uma espécie de breque de mão na economia. O PIB para, o governo se assusta e, como medida capaz de resolver os problemas, reduz a taxação mais uma vez.

E tudo começa novamente. Desta vez, pelo menos, o governo entendeu que a economia ainda precisa acumular músculos e decidiu prorrogar até o fim do ano (até 31 de outubro para carros) a redução do IPI, inicialmente prevista para terminar amanhã.

A redução tem exposto o caráter hediondo da lógica tributária do Estado brasileiro. Em primeiro lugar, ainda que haja toneladas delas por todo lado, essa é a prova suficiente de que os impostos estão pela hora da morte e que o próprio governo reconhece seu efeito paralisante sobre o mercado.

O hábito governamental de utilizar a redução de impostos como arma de estímulo à economia é a confirmação de que, se o Brasil tivesse tributos civilizados, seria possível para as empresas e o consumidor planejar melhor suas vidas.

Não seria preciso esperar a inevitável redução temporária para ir às compras. Em segundo lugar, a redução expõe um lado perverso do modelo fiscal: o consumidor não tem para onde correr.

Conforme levantamento da Anfavea (a associação das montadoras brasileira), tudo o que o governo deixou de arrecadar com o IPI mais baixo foi compensado pelo aumento da arrecadação de outros tributos - como o ICMS, o IPVA, o PIS e o Cofins.

Segundo os cálculos da entidade, a arrecadação que a alta de mais de 33% nas vendas de carros acarretou supera a renúncia fiscal do governo - que foi superior a R$ 20 milhões por dia desde que a medida entrou em vigor.

Ao anunciar a prorrogação da redução, o governo dá uma boa e uma péssima notícia. A boa, naturalmente, é a de que os impostos sobre carros, fogões e geladeiras, embora ainda sejam altos na comparação com a de qualquer país evoluído, ficarão abaixo do normal pelos próximos quatro meses.

A ruim é a de que, daqui a pouco, tudo voltará ao que era antes e a economia, mesmo antes de voltar ao crescimento pleno, andará para trás novamente. É lamentável, mas é o que vai acontecer.


(*) Ricardo Galuppo é Publisher do Brasil Econômico

Agronegócio, o setor moderno


O Estado de S.Paulo

Com o maior parque industrial da América Latina e um dos maiores do Hemisfério Sul, o Brasil tem no agronegócio o setor mais dinâmico de sua economia e o principal fator de segurança de suas contas externas. O vigor dessa atividade explica a liderança do Centro-Oeste no crescimento econômico nacional, com expansão de 5,9% nos 12 meses terminados em maio, de acordo com o Índice de Atividade do Banco Central (IBC-Br), calculado mensalmente. Mas convém examinar mais que um dado conjuntural para avaliar a importância dos negócios ligados à agropecuária, a principal fonte de prosperidade em amplas áreas do Brasil.

O amplo conjunto formado pela agropecuária e pela agroindústria começou a destacar-se nos anos 80 - a década perdida. Dívida externa, inflação elevada e enormes desequilíbrios macroeconômicos tornaram aquele período um dos mais duros da história republicana. No meio da crise, no entanto, um setor manteve um notável padrão de crescimento e de transformação. A produção rural havia aumentado com regularidade, graças a alguns acertos e apesar de muitos erros cometidos pelo governo - os mais grotescos, sem dúvida, por meio do controle de preços no Plano Cruzado, em 1986-87.

A crise prolongada interrompeu os programas de investimento e de modernização da indústria iniciados na década anterior, mas a agropecuária venceu os obstáculos, impulsionada pelas oportunidades abertas no Cerrado, pela mudança tecnológica favorecida pelo trabalho da Embrapa e de outras instituições de pesquisa e pelo empenho de empreendedores dispostos a buscar mercados no exterior.

A transformação mais veloz foi a das produções destinadas à exportação, mas acabou contaminando os demais segmentos da agropecuária. Uma das consequências mais notáveis foi a alteração dos preços relativos, com o barateamento da comida. Já no começo dos anos 90 os técnicos responsáveis pelos principais índices de inflação mudaram a composição de seus cálculos, para reduzir o peso da alimentação no orçamento familiar.

A maior parte da agropecuária estava preparada para competir em todos os mercados e, portanto, para enfrentar a abertura da economia no começo dos anos 90. A lavoura mais abalada foi a do algodão, até porque o mercado nacional foi inundado por produto subsidiado. Mas o segmento se recuperou e as lavouras foram modernizadas.

Também a indústria se modernizou, com a adoção de novos processos produtivos, novas tecnologias e estratégias mais adequadas à competição global. Mas a produtividade geral do País continuou baixa. Completado o primeiro ciclo de reformas da era do real, no começo deste século, as inovações de grande alcance foram interrompidas. Milhões de consumidores entraram no mercado, mas pouco se fez para ampliar a capacidade de oferta da indústria, prejudicada por custos institucionais e outros fatores de ineficiência.

O agronegócio, também afetado pelas más condições da infraestrutura e por outras desvantagens brasileiras, continuou competitivo graças a novos investimentos e à eficiência acumulada num longo período. Neste ano, até julho, o valor exportado pelo setor, US$ 53,7 bilhões, foi 4,1% maior que o de um ano antes, enquanto a receita comercial da maior parte da indústria diminuiu. Nesse período, as vendas da agroindústria garantiram 41,1% do total faturado no comércio exterior. O saldo comercial do setor, US$ 44,5 bilhões, foi mais que o quádruplo do superávit geral da balança de mercadorias, US$ 9,9 bilhões.

O saldo comercial do agronegócio cresceu 574,1% entre 1992 e 2011 e continuou positivo mesmo entre 1995 e 2000, quando o conjunto do comércio foi deficitário. O total exportado aumentou 615,3% naquele período, mas com participação decrescente dos manufaturados nos últimos anos. A contribuição do agronegócio teria sido muito diferente se tivessem sido aplicadas as políticas pregadas pelo PT até há poucos anos. Haveria muito menos comida na mesa dos brasileiros e muito menos dólares no saldo comercial.

A agenda abandonada


Alexandre Schwartsman
Folha de São Paulo

Não podemos dizer que o resultado do PIB do segundo trimestre (aumento de 0,4% na comparação com o primeiro trimestre deste ano e 0,5% contra o segundo trimestre de 2011) tenha sido surpreendente. Ainda assim, decepcionou.

Mesmo que se materialize a reação mais vigorosa esperada para o segundo semestre, dificilmente a expansão do produto superará 1,5% neste ano, o pior resultado desde 2009, ano comprometido pela crise financeira.

É tentador imaginar que também agora o fraco desempenho do país possa ser atribuído à crise externa, cujos efeitos sobre mercados financeiros, assim como sobre o comércio internacional, têm sido mais que claros.

Tentador, porém equivocado.

Ao contrário do ocorrido àquela época, não há sinais de uma queda sincronizada da atividade. Na América Latina, região cujo comportamento tende a ser afetado por fatores comuns (por exemplo, os preços de commodities), não há como deixar de notar as diferenças.

Enquanto o PIB brasileiro cresceu 0,5% sobre o mesmo período do ano passado, o Chile mostrou expansão de 5,5%; o México, 4,7%; o Peru, 6,1% e a Colômbia, 4,7% (no primeiro trimestre).

Essa evidência não é, diga-se, a palavra final sobre o assunto, mas sugere que se busquem as raízes do anêmico desempenho pátrio em razões locais, nem tanto na crise internacional. Mas quais?

A reação imediata, por conta de uma longa experiência de crises, é atribuir a culpa à fraca demanda, mas, se a demanda interna não tem um desempenho sensacional, também não parece ser a fonte última da desaceleração.

Certos fatos, acredito, indicam que o problema pode estar ligado à oferta, isto é, à nossa capacidade de crescimento sustentado.

Caso seja verdade, trata-se de situação, se não inédita, ao menos rara na história econômica brasileira recente. Não consigo me lembrar, do alto dos meus quase 50 anos, de nada semelhante, à exceção do racionamento de 2001, quando as limitações na oferta de energia forçaram a redução do ritmo de crescimento.

Quem, todavia, olha com mais cuidado para os desenvolvimentos do lado do mercado de trabalho começa a notar fatos reveladores.

Apesar da baixa expansão do PIB no primeiro semestre de 2012 (0,6%), o emprego nas seis regiões metropolitanas cresceu 2%, ampliando o paradoxo de 2011, quando, a despeito do crescimento ter ficado na casa de 2,7%, o emprego continuou a crescer a um ritmo superior ao da população, levando a uma queda expressiva da taxa de desemprego (de 6,7% para 6%).

Dado o baixo crescimento da produtividade, mesmo taxas modestas de crescimento levam à redução persistente do desemprego, sugerindo que a oferta de mão de obra, seja em quantidade, seja em qualificação, se configura como o principal obstáculo ao crescimento, secundada pelo fraquíssimo desempenho do investimento, em particular em infraestrutura.

O sintoma mais claro disso é o aumento dos salários (ao redor de 11% relativamente ao ano passado), muito superior a qualquer estimativa honesta do crescimento da produtividade.

Posto de outra forma, não há como manter o ritmo dos últimos anos simplesmente porque não temos a mesma disponibilidade de mão de obra e também porque, à medida que empregamos trabalhadores com menor capacitação e experiência, é de se esperar que a produtividade se desacelere.

Caso essa hipótese seja verdadeira, duas são as conclusões. Em primeiro lugar, que políticas de expansão da demanda não conseguirão acelerar o crescimento sem agravar desequilíbrios macroeconômicos, em particular a inflação, que já vem se acelerando e assim continuará.

E, finalmente, que, se quisermos acelerar o crescimento do PIB, são necessárias políticas que favoreçam o aumento da produtividade.

A nota triste é que deveriam ter sido adotadas anos atrás para que seus efeitos se manifestassem agora, mas essa agenda, antes perdida, foi então abandonada e, de novo, corremos hoje atrás do prejuízo.