As dificuldades passadas por quem depende de hospitais públicos
O vídeo, ao final, tem a exata duração de 21 minutos e meio, mas valem pela pálida ideia que apresentam ao país em que seu povo está largado à própria sorte. Trata-se da edição do programa da Rede Globo, Profissão Repórter (excelente, sempre!), apresentado por Caco Barcelos e uma equipe de jovens jornalistas, os quais sob seu comando, apresentam sempre assuntos de interesse coletivo, relevantes e tocando em temas atuais. O de ontem, (clique aqui) aborrdou o estado precário dos hopspitais públicos do interior de São Paulo, Nordeste e Brasília. Mas poderia se dizer que abordaram o que é comum em toda a rede pública: a precariedade e o descaso.
Há momentos em que ficamos entre dois sentimentos: o de dor, por aqueles que não conseguiram, a tempo, obter atendimento aos seus familiares, que acabaram morrendo, e de revolta, por se assistir o quadro de pouco caso, de abandono a que se relegou a população que paga impostos e que espera, em contrapartida, receber dos seus governantes um mínimo de atendimento.
Quando vemos o governo preparando-se para torrar cerca de R$ 100 bilhões em projetos de puro delírio, apenas para marcar “terreno” de sua presença no poder, mas que, em absoluto, resolverão as mais urgentes carências de sua população, não há como não se indignar. Quando a bandalheira em que se transformou o Congresso Nacional, onde um aumento de poucos reais para o salário mínimo são protagonizados, discutidos e debatidos mediante uma lenga-lenga interminável, sem deixar de mostrar um Judiciário pleiteando mais de 50% de aumento para seus já gordos vencimentos, com o próprio Congresso Nacional achando coisa mais natural a sua pretensão de equiparar seus 16 mil aos quase 30 mil reais dos juízes, sem considerar os abusivos, indecentes e imorais privilégios de que já gozam para trabalharem apenas dois dias na semana, sinceramente, não é apenas indignação o que se pode sentir: é revolta mesmo.
É inimaginável por parte destes “beneficiados” dos gordos salários e privilégios, sustentados que são por uma população cuja maioria sequer sabe o que os seus impostos alimentam em se tratando de imoralidade pública, saber a situação que sua miopia e falta de solidariedade e respeito para com quem os sustentam, o drama que o povo está condenado a penar para conseguir uma vaga na rede pública. Depois, com a maior desfaçatez, se alega faltarem recursos para dar dignidade à rede pública de saúde. Com efeito: tão mal aplicados os recursos públicos, e no montante em que são "desviados", e por quem sequer merece respeito, há de faltar para o básico.
Seja quem for o futuro ministro da saúde, terá por obrigação primeira assistir ao vídeo da reportagem. Recomendaria que, após sua nomeação, a Rede Globo enviasse um CD com o programa gravado para que o futuro ministro possa identificar, com pleno conhecimento, que não será com o ressurgimento da CPMF que o problema da saúde pública brasileira se resolverá. Seria um engano monstruoso partir deste diagnóstico. O problema está muito mais na falta de gestão, na falta de responsabilidade e até de compromisso dos próprios agentes de saúde para com a população. Falta planejamento, falta investimento, falta, enfim, competência.
Não há nenhuma justificativa para a saúde pública encontrar-se em estado terminal, afligida pela falência múltipla de suas funções mais comezinhas, mais elementares. Quando um governo se propõe torrar R$ 100 bilhões de reais em aventuras surrealistas do tipo trem bala, frota nuclear, usinas nucleares, caças militares escolhidos entre os mais caros do mundo e que até hoje ninguém se arriscou em comprar uma única unidade pela insegurança do próprio projeto, é de se imaginar que este governo já deva ter atendido plenamente as áreas mais fundamentais de qualquer governo em relação ao seu próprio povo,. Infelizmente, não é este o caso brasileiro.
Portanto, não se venha alegar falta de recursos como pretensamente o atual e futuro governos o fazem, ou querer justificar o abandono da saúde pública, com qualquer outra desculpa. Recursos há, sim, o que não há é prioridade, e diria até, o que não há é respeito com aqueles que sustentam um estado pobre de capacidade em eleger prioridades, mas rico,muito rico em aplicar os recursos de que dispõem em fantasias mirabolantes e inúteis.
E que se note: o programa da Globo não chegou ao Rio de Janeiro, onde o quadro é ainda mais assustador e constrangedor.
E sabem por que esta situação horrorosa só tem piorado ao longo do tempo? Porque o Judiciário jamais responsabilizou criminalmente os principais responsáveis pelo descaso e abandono. No dia em que isto começar a ser praticado, acreditem, ministros e secretários da saúde – estes em nível estadual – adotarão outra postura além de ficarem eternamente pedindo mais dinheiro. Sairão de seus gabinetes refrigerados com o propósito de exercitar suas funções com maior rigor profissional e responsabilidade. Está passando da hora de, tanto a saúde quanto a educação, serem comandados por pessoas de nível técnico reconhecido. Quem lida com educação e saúde não pode transformar estas áreas em currais políticos ou centros de experiências. O erro aqui custa a vida das pessoas, donde que bruxos, feiticeiros e políticos são os menos indicados para comandá-las, em todos os seus níveis.
Quem tiver estômago suficientemente forte que assista ao vídeo. Reparem que há pessoas que, nem com mandado judicial em mãos, conseguem atendimento, fato este que os cariocas conhecem bem. Observem pessoas deitadas debaixo de macas, em condições sub-humanas. Atentem para os corredores entupidos de pacientes que mais esperam a morte chegar do que atendimento capaz de lhes restituir a saúde ou minorar-lhe as dores e padecimentos. E depois respondam ao final: pode o senhor Lula da Silva jactar seu governo como social, ou o mais social de todos os tempos?
Como tenho afirmado, um governo deve ser julgado não pelo discurso tampouco pela propaganda que faz de si mesmo, e sim pelos resultados que seus atos produzem. Neste campo, tanto a saúde quanto os péssimos indicadores da educação, são uma resposta definitiva. E a situação dramática exige uma ação pronta, decidida, prioritária. Se a educação produz resultados ao longo dos anos, a prioridade na saúde pública não oferece espaço para espera: é a luta entre a vida e a morte, e o que é pior, morte por total abandono oficial. Crime injustificável, imprescritível, imperdoável, inafiançável.
Quanto a velha e surrada resposta de algumas autoridades de que “a crise era muito maior quando eu cheguei”, é a pior de todas: quem assume um cargo, aceita os encargos. Assim, ali foi posto não para justificar os erros do passado, mas, sim, para resolver os problemas do presente, e evitar que eles se repitam no futuro.
Segue o vídeo com o programa da Rede Globo, comandado por Caco Barcellos.
A briga judicial por uma vaga na UTI. Jovem passou por cinco hospitais paulistanos antes de morrer. Nossos repórteres tentam mostrar a emergência do maior hospital do Nordeste.
Caco Barcellos acompanha o drama de quem precisa da Justiça para obter uma vaga na UTI em Brasília.
Raphael Prado faz o percurso de Laura, uma jovem de 23 anos que morreu após passar por cinco hospitais e não ser atendida em tempo hábil para o tratamento de uma trombose.
Paula Akemi e Gabriela Lian tentam mostrar como é a emergência do maior hospital de Nordeste, no Recife.





