segunda-feira, fevereiro 18, 2008

Que tal olhar o que há de errado aqui mesmo?

Por J.R. Guzzo, Vida Real, Revista EXAME

A crise mundial é uma boa oportunidade para o governo se voltar mais para os problemas que são de produção genuinamente nacional--os verdadeiros responsáveis pelo atraso do crescimento do país--e menos para os erros lá de fora

A desordem mundial provocada pelo desastre financeiro no mercado americano de hipotecas pode ser uma excelente oportunidade para o Brasil. A tendência, nessas horas de neurastenia, é sair à procura das desgraças que a economia brasileira pode sofrer com a crise. Provavelmente é muito mais útil, no caso, aproveitar o momento e olhar um pouco mais para o que há de errado com o próprio Brasil e menos para os erros cometidos lá fora. Em primeiro lugar, ninguém sabe, nem por alto, o que vai realmente acontecer lá fora. Quanto ao que pode acontecer aqui dentro, é certo que esse temporal encontra o país em condições de resistência muito melhores do que as que tinha em outras ocasiões; é certo, também, que o Brasil não é uma fortaleza imune aos problemas do mundo mau que existe por aí, como imaginavam os governos militares nas crises econômicas ocorridas em sua época. É o que se pode declarar no momento -- e nada, ou quase nada, a mais. Em segundo lugar, não adianta coisa nenhuma, como fez o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, dizer que "não é possível" que o preço da baderna financeira americana seja pago por países que nada fizeram para provocá-la. É possível, sim -- e, se isso tiver de acontecer, vai acontecer. O que realmente ajudaria na prática, neste momento, seria tomar consciência de um fato essencial: as depredações causadas pela crise do subprime não provocaram nenhum dos problemas imediatos que mais prejudicam o bem-estar dos brasileiros ou atrasam o crescimento do país. Esses problemas são de produção genuinamente nacional -- e em relação a eles, diferentemente do que ocorre em Wall Street, o governo pode agir. Se não age, ou age mal, ou demora demais para agir, a culpa não é de ninguém a não ser dele mesmo.

Eis aí, justamente agora, o caso do PAC, uma demonstração clássica de como funciona a alma do governo em relação às necessidades brasileiras na área de infra-estrutura -- um dos itens mais urgentes no rol de calamidades nacionais à espera de solução. Há poucos dias, com a presença em peso do governo, a ministra Dilma Rousseff, acumulando o papel dos quatro evangelistas, anunciou a boa-nova: o PAC está bombando. Com gráficos, fotos e distribuição de selos verdes, amarelos e vermelhos para indicar obras que estão no prazo ou adiantadas, perigando atrasar ou em atraso, a ministra da Casa Civil deu conta do sucesso do governo em seus esforços para melhorar as coisas. Mais uma vez, porém, o que se teve foi muito vento e pouco pastel. Fala-se, para demonstrar a profunda disposição do governo em resolver de vez a questão da infra-estrutura, nos "18 bilhões de reais" que o Orçamento de 2008 reserva para o PAC. E o que significa, mesmo, essa soma? É menos que o lucro da Petrobras no ano passado, levando-se em conta que nos nove primeiros meses de 2007 a empresa lucrou 16,5 bilhões de reais -- ou o equivalente ao que o governo do estado de São Paulo deve investir neste ano.

Quando se desce às obras, individualmente, a distância entre desejos e realidades não fica menor. Tome-se, por exemplo, a usina de Belo Monte, no rio Xingu. Tudo o que existe de concreto na usina de Belo Monte é o rio Xingu, cujas águas continuam a correr como correm há milhares de anos, indiferentes aos selos da ministra Dilma. Não houve até agora nem a licitação para as obras -- e assim mesmo essa licitação, oficialmente prevista para 2009, foi adiada, de junho para outubro. Ninguém é capaz de garantir quando a obra será realmente iniciada; imagine-se, então, quando será terminada. Nenhum problema: Dilma cravou um belo selo verde na usina de Belo Monte. Dá para entender. Todo mundo que já lidou com marcas coloridas em gráficos de desempenho -- em empresas, clubes ou qualquer outro lugar onde se colocam marcas coloridas em gráficos de desempenho -- sabe a tentação que é carregar a mão no verde. Gráficos são apresentados para a apreciação de chefes, e chefes, sabidamente, não gostam de marcas amarelas ou, Deus nos livre, de marcas vermelhas. Não deu outra. A apresentação foi uma floresta de selos verdes: houve só 2% -- isso mesmo, 2% -- de vermelho, porcentagem de eleição na Albânia comunista.

Tanto quanto a situação miserável da infra-estrutura brasileira, a crise do papelório americano não é responsável pelo mosquito da febre amarela nem pela irritação do ministro da Saúde com os brasileiros que têm pressa em se vacinar. Não são os banqueiros envolvidos nessa vigarice, nem o Fed, os culpados pelo tráfico aberto de cargos públicos ora em curso no Brasil. Não foram eles que nomearam o senador Edison Lobão ministro de Minas e Energia. Não é por sua culpa que o rodoanel, obra essencial para São Paulo e de responsabilidade do governo do estado, está sendo construído há 18 anos -- e só tem 20% do trabalho concluído. Nesse ritmo, levará 90 anos para ficar pronto.

Essas, como diria Noel Rosa, são nossas coisas, são coisas nossas.

Rendimento do trabalhador está estagnado desde 2003

Já afirmei várias vezes que o governo de Lula tinha OBRIGAÇÃO de ser melhor do que o de FHC. Isto aliás deveria ser uma imposição natural, muito mais por méritos do ex-presidente, do que propriamente por méritos de Lula. O tucano recebeu um país despedaçado, enfrentou turbulências internacionais que muito mais prejudicaram os países emergentes do que as nações mais ricas. Inflação fora de controle, desemprego em alta, desequilíbrio fiscal permanente, instituições em frangalhos, país sem rumo e sem prumo. Pois bem, Lula recebeu o país arrumado, com a economia equilibrada e pronta para dar seu salto de qualidade, e num período de bonança da economia mundial como jamais vista nos últimos 50 anos.

Assim, se o país estava pronto para decolar, pergunta-se por que não o fez ! Quando o governo atual comemora por exemplo fantásticos superávits comerciais no comércio internacional questiono sempre quais atos do governo permitiram isto. Não há resposta, e pela simples razão de que os superávits foram conquistados muito mais pelo que o mundo nos proporcionou do que por ações concretos partidos do poder do Estado.

No que este governo poderia ter avançado, até pelo contrário, andou para trás. E não retrocedeu mais uma, porque a parte do país que trabalha e produz foi muito mais competente do que a incompetência federal. Nos aspectos de “conquistas sociais” Lula deveria agradecer publicamente ao trabalho que FHC lhe deixou pronto, pois não teria ido tão longe em popularidade não houvesse recebido a herança do governo anterior.

No plano institucional, contudo, o país desde 2003 tem andado para trás. No plano ético, então, chega a ser assombroso o quanto o Brasil regrediu com o governo Lula.

Apesar de toda a publicidade oficial arrotar ao contrário, estamos a cada dia perdendo espaço e competitividade em escala mundiais.

Já demonstramos aqui que os avanços dos indicadores sociais foram muito mais consistentes no período de FHC do que no período Lula. Neste artigo segue outra comprovação do quanto Lula e seus ministros mentem e enganam a população. A questão é, a renda do trabalhador aumentou ou cresceu mais com Lula ou FHC ?

Segue artigo do Fabiano Klostermann .Após a leitura, que o leitor tire suas próprias conclusões. Mas não se enganem: pelo país que um e outro receberam, e até pela situação da conjuntura internacional, não se tenha dúvida que fazer um governo melhor era uma obrigação pra o governo de Lula. E, apesar disto, o que se vê é que quanto muito esforço e boa vontade, o quadro é de alguns poucos avanços em pontos específicos onde a casa já estava arrumada, e piora onde o trabalho a ser feito demonstrou a incompetência e a falta de projetos do atual governo.
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O mercado de trabalho da região metropolitana de São Paulo está sendo afetado por um fenômeno que levou à estagnação do rendimento médio real dos trabalhadores a partir de 2004. Para analistas, as possíveis causas incluem a particularidade do tipo de crescimento apresentado pelo Brasil no período, o alto contingente de desempregados e a maturidade do mercado paulistano.
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Segundo dados da pesquisa de emprego e desemprego (PED) da Fundação Seade e Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese), o comportamento do mercado em São Paulo difere dos demais pesquisados, que apresentaram recuperação a partir do mesmo ano.

A PED 2007 mostrou que a região metropolitana da maior cidade do País foi a única entre as pesquisadas que não teve alta no nível do rendimento médio real, apresentando baixa de 0,2% entre 2006 e 2007, para R$ 1.140. As demais apresentaram ganhos: Recife (alta de 1,5%, para R$ 658), Belo Horizonte (alta de 4%, para R$ 987), Porto Alegre (alta de 2,5%, para R$ 1.028), Salvador (alta de 4,3%, para R$ 822) e o Distrito Federal (alta de 5,7%, para R$ 1.521).

Em 1998, um trabalhador assalariado na capital paulista ganhava, em média, R$ 1.626, contra os R$ 1.202 de hoje. O valor mais baixo da série foi registrado em 2003, quando o rendimento desta categoria atingiu média de R$ 1.188. De lá para cá, o salário do paulistano teve aumento de apenas 1,18%.

O comportamento difere do apresentado pelo rendimento dos assalariados de Belo Horizonte, por exemplo. Na capital mineira, o salário médio estava em R$ 1.036 em 1998, caiu até R$ 890 em 2005, mas passou a se recuperar e fechou 2007 bem próximo do valor do início da série histórica: R$ 1.024, ou seja, um aumento de 15,05% desde o ponto mais baixo registrado pela PED.
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Ocupação de capacidade instalada
De acordo com o diretor técnico do Dieese, Clemente Ganz Lúcio, o crescimento apresentado pelo Brasil de 2004 para cá aconteceu principalmente com a ocupação de capacidade instalada. "Esses cargos são na maioria de auxiliares e assistentes, postos cuja remuneração paga está abaixo da média de mercado. A inclusão dessas pessoas puxa a remuneração média para baixo", afirmou. "O fenômeno é ainda mais explícito em São Paulo pelo alto número de indústrias já instaladas."
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Para o coordenador de análise da Fundação Seade, Alexandre Loloian, os grandes investimentos, que atraem mão-de-obra mais qualificada e com maiores salários, ainda são recentes e não se pode avaliar seus efeitos. "Esses novos empreendimentos, que exigem engenheiros e especialistas, começaram de um ano e meio para cá. Ainda não temos como saber as mudanças que vão provocar no mercado de trabalho", explicou.

A opinião é compartilhada pelo assessor econômico da Federação do Comércio de São Paulo (Fecomercio-SP), Guilherme Dietze. Segundo ele, o aumento na geração de empregos ainda acontece principalmente nos níveis salariais mais baixos.

"O Brasil está crescendo, outros Estados estão crescendo, e para São Paulo estão vindo os postos de trabalho com qualificação mais baixa, que, por conseqüência, baixam a média salarial", disse.

Para Alexandre Loloian, há ainda outro fenômeno em curso na capital paulista: a desmobilização de empresas, que buscam custos menores em outras cidades. "Pode parecer algo bom, descentralizando a produção, mas essas empresas não vão para longe e acabam se mudando para um raio de 100 km da capital, que é o grande mercado consumidor".

Para ele, essa mudança acaba "migrando" boa parte dos empregos com bons salários para cidades do interior. "Nessas localidades, as empresas tem custos menores com transporte e até com a alimentação de seus funcionários".
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Rotatividade e desempregados
Loloian e Lúcio também citam a alta rotatividade dos empregados para explicar a estagnação dos rendimentos. Segundo eles, o pouco tempo de permanência de uma pessoa em determinado emprego impede que tanto ela quanto a empresa estabeleçam "vínculos", sejam para fins de carreira como para melhoria salarial.

"É uma característica perversa do nosso mercado de trabalho. Impede que a pessoa avance enquanto profissional. Ainda há o mercado ofertante, com um grande estoque de desempregados, que não têm mais a escolaridade baixa como no passado. Então, eles atuam com uma pressão em quem está empregado. E as empresas sabem jogar com isso", explicou o coordenador de análise da Seade.

Ainda segundo ele, outro fenômeno é a substituição de funcionários com nível salarial mais elevado por outros que vão ganhar menos. "Segundo informações da Rais (Relação Anual de Informações Sociais), a maioria dos empregos criados em São Paulo é para ganhar até dois salários mínimos. Isso é um sinal claro dessa substituição".

O assessor da Fecomercio-SP disse que a substituição não é um processo ainda identificado, mas concorda que a redução de custos acontece. "A tendência sempre é a redução de custos. Isso nas empresas é um fato", explicou.

De acordo com o diretor técnico do Dieese, Clemente Ganz Lúcio, outra característica do mercado paulista é a predominância do setor de comércio e serviços, que correspondem, segundo ele, a 70% dos empregos gerados. "Essas atividades tradicionalmente pagam menos que a indústria", disse.
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"Pólo"
Outra possível causa para a estagnação é a migração de pessoas com baixa qualificação para a cidade. Segundo a professora e coordenadora do grupo de pesquisa Economia, Trabalho e Tecnologia da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), Anita Kon, a capital paulista ainda é considerada um "pólo de crescimento" e por isso recebe muitos trabalhadores de outras partes do País.

"Nem sempre o aumento do nível de emprego corresponde ao aumento da força de trabalho - isso é típico de regiões pólo. O País cresceu muito pouco e nesses pólos se concentram as maiores dificuldades, porque neles está o maior número de desempregados", afirmou. Para ela, a combinação gera uma inevitável queda da renda média dos trabalhadores. "Em locais com excesso de trabalhadores e com poucos empregos, a tendência é o salário cair".

Trapalhadas do governo Lula - custam caro

Carlos Alberto Sardenberg

O governo é ruim

Está certo que produtores europeus querem barrar a entrada da carne bovina brasileira no rico mercado da Europa. Mas é certo também que há culpa brasileira - do governo federal, em especial - nos episódios que levaram a Comissão Européia a suspender as importações do Brasil.
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Resumindo a história: fazendeiros europeus temem a competição porque produzem uma carne cara. Assim, fazem pressão contra as importações, dizendo que a carne brasileira é barata porque produzida sem controles de qualidade.
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Não é verdade. Há carne ruim no Brasil, há relaxamento na fiscalização sanitária e no controle das fronteiras, mas há também fazendas com métodos e tecnologia de ponta. O mundo todo sabe disso, inclusive na Europa, onde muita gente quer é aumentar a compra da carne brasileira, mais barata e de primeira. Um quilo de contra-filé, que sai no Brasil a menos de dez reais, custa mais de R$ 60 na Itália e mais de R$ 80 na Inglaterra. Metade disso é imposto, mas mesmo assim está caríssimo. Pesa no bolso, é um argumento poderoso a favor da importação.
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No balanço das pressões, a Comissão Européia fica como que obrigada a impor exigências variadas aos exportadores brasileiros - controle sanitário do gado, rastreamento, certificação de origem – justamente para driblar a acusação de que a carne brasileira é barata porque sem cuidados com a qualidade.
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Por isso, e até com boa disposição, a Comissão negociou durante anos com o governo brasileiro, enviou inúmeras missões veterinárias, apresentou relatórios, deu prazo para cumprimento de exigências.
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Ora, o que deveria fazer o governo brasileiro? Negociar bem as exigências de controle e depois cuidar de cumpri-las. Produtores queixam-se de erros nos dois momentos. De um lado, reclamam que o governo aceitou uma cláusula de rastreabilidade (maneira de certificar a origem do boi) muito difícil de efetivar.

E, de outro, não fez o esforço necessário para cumpri-la, tudo culminando no episódio da certificação das fazendas aptas a exportar para a Europa. Não é que os europeus queriam uma lista com apenas 300 fazendas, como se diz por aqui. A Comissão Européia havia dado prazo para o governo brasileiro entregar a primeira lista e acreditavam os funcionários europeus que não haveria tempo nem condições para fiscalizar um número muito grande de fazendas. Quando receberam a lista brasileira, com 2.861 fazendas certificadas, desconfiaram.
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O que fez o Ministério da Agricultura? Recebeu as listas dos governos estaduais, carimbou e mandou para Bruxelas. E, conforme informações recebidas por fazendeiros brasileiros do primeiro time, os europeus desconfiaram das listas excessivas de alguns estados (como os de Minas, Goiás e Mato Grosso) e não teriam nada a opor, por exemplo, às fazendas de Santa Catarina e do Rio Grande do Sul.
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Ou seja, o Ministério da Agricultura, para evitar brigas políticas, não quis ou não pode arbitrar entre as listas dos estados. Passou a bola para a Comissão Européia, que melou todo o jogo e suspendeu todas as importações do Brasil e marcou novas inspeções. Ou seja, os europeus não quiseram, pelo menos agora, escolher de uma lista da qual desconfiam.
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Digamos que estão, eles, europeus, fazendo malandragem. Mas o governo brasileiro ofereceu a oportunidade. Aceitou uma regra, não conseguiu cumprir e tentou driblar os europeus. Agora, voltam as negociações e vêm os europeus verificar se a lista vale.
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Enquanto isso, o Brasil perde alguns meses de exportação. O nome disso é má gestão, incapacidade administrativa – situação que não é rara no governo Lula. Vai desde grandes mancadas, como essa com a carne, a pequenas trapalhadas.
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Tradução errada
Para ficar no noticiário da semana, pegue-se o caso Salvatore Cacciolla, preso em Mônaco, esperando a decisão da Justiça local sobre o pedido de extradição do governo brasileiro. Lembram-se que o ministro da Justiça, Tarso Genro, viajou às pressas para Mônaco, com o objetivo de apresentar o pedido pessoalmente na Corte?
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Pois então, deu umas boas fotos e declarações graves do ministro, e nada. O que funcionaria mesmo seria entregar ao juiz do Mônaco todo o processo da Justiça brasileira, contendo a condenação de Cacciolla, mas traduzido para o francês. Pois então, o governo providenciou a tradução – mas o juiz monegasco parece que não entendeu nada. Encomendou uma outra, ao pessoal dele.
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Anuncia e reanuncia
Nas obras do PAC, o governo adotou um método infalível para acertar o cronograma. Está atrasado? Mudem-se os prazos.
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Em 27 de maio do ano passado, o presidente da Valec Construções e Ferrovias, José Francisco das Neves, disse que o trem bala Rio/S.Paulo estaria com as obras licitadas ainda no final de 2007 ou início de 2008. Nada feito.
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Mas a promessa foi revalidada e ampliada. Agora, o projeto do trem bala está incluído no PAC, com previsão de US$ 11 bilhões de investimentos privados. Novos prazos, dados pelo ministro dos Transportes, Alfredo Nascimento: modelagem do projeto em agosto deste ano e publicação do edital de licitação em março de 2009. Mais ainda: o sistema terá uma segunda perna (S.Paulo/Campinas), de modo a ligar os aeroportos do Galeão, Guarulhos e Viracopos.
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Conclusão: o projeto continua no papel, mas cresceu – o que torna mais vistosa a previsão de investimentos do PAC – e continua no prazo, no novo prazo.
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Finalmente, entrou em vigor a proibição de venda de bebida alcoólica nos bares e restaurantes à beira de estradas federais. Rende declarações solenes das autoridades, promessas de rigorosa fiscalização.
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Ora, a Polícia Rodoviária não dá conta nem do que já tem que fiscalizar – como blitz para aplicar bafômetro pelo país afora. Vão agora os policiais sair procurando latinhas de cerveja embaixo dos balcões?
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Publicado em O Estado de S. Paulo, 04 de fevereiro de 2008

Os circos armados de Brasília

Adelson Elias Vasconcellos

Em visita à base brasileira na Antártida, o presidente que nos desgoverna declarou que não teme a CPI dos Cartões, e que ela talvez até ajude a melhorar o controle dos gastos.

Primeiro, que Lula não é doido de dizer que sente algum temor em relação à CPI, assim tão publicamente. O mesmo ele fez em todas as demais CPI’s, e o que se viu foi a base governista no congresso fazendo um enorme esforço para que se não se investigasse nada “comprometedor”, e que não se chegasse a nenhum resultado ao final dos trabalhos. Foi assim no Mensalão, foi assim na dos Correios, foi assim em todas as demais CPI’s que este desgoverno conseguiu abortar, foi assim também na da Crise Aérea, e vai ser assim na das ONG’s e na dos Cartões. Petista de carteirinha só aceita investigar o governo dos outros, nunca o seu próprio.

E, por mais razões políticas que as oposições levantem para justificar a instalação das CPI’s, a realidade é que estamos diante de fatos concretos que justifiquem investigações, se apontem responsabilidades e se recomende ao Ministério Público a instalação de inquéritos que possam levar os responsáveis pela prática de crimes contra o Erário a responder na Justiça, não pelos “erros” como os petistas insistem e teimam em se qualificar, mas pelos crimes de assalto aos cofres do Tesouro.

Inadmissível é as oposições aceitarem a armação do circo mistificador da “investigação parcial”, aceitando que as CPI’s não “prejudiquem” ao presidente Lula. Ora, e no caso específico das ONG’s e dos cartões, tem-se fortes indícios de que, seja o presidente ou mesmo seus familiares, cometeram qualquer deslize legal, por que não investigar ? Imaginem se o PT fosse oposição diante do quadro atual, eles iriam “poupar” alguém de ser investigado ? Nunca ! Exemplo disto encontramos em Sarney, Collor e no próprio governo de FHC. O PT jamais aceitou “negociar” investigação sobre os governos alheios. Até pelo contrário. Sempre fez questão de se negar a votar, sempre praticou o jogo imundo e cretino da “obstrução”, sempre colocou sua “tchiurma” nas ruas para fazer arruaças, e atropelar o estado de direito democrático. Prova evidente é o MST e seus congêneres.

Seja em relação aos cartões corporativos, seja em relação às ONG’s, sempre dissemos que era urgente a instalação não apenas de CPI’s, mas da intervenção dos Tribunais de Contas em conjunto com o Ministério Público, porque o que se encontra nesse submundo é suficiente para, em qualquer país democrático e sério, onde o regime da lei se impõem aos interesses corporativos de alguns, já se teria ido a fundo nos dois assuntos. E, acreditem, especificamente em relação aos cartões, há sólidas razões para a instalação de queixa crime contra Lula.

Mais: as CPI’ se justificam a partir de dados concretos de fraudes. O fato que temos é que o abuso no uso dos cartões, inclusive no repasse e descontrole das verbas públicas doadas para as ONG’s, são ações cometidas sob a égide do governo Lula, não no de FHC, que inclusive resumiu bem ao declarar que sequer CPI precisariam ser instaladas, uma vez que seus números estão em poder do governo atual. E foi bem explícito ao afirmar que os vestidos de sua esposa eram pagos com o dinheiro de seu próprio bolso...

Assim, é um absurdo as atuais oposições aceitarem o jogo sujo do PT de “acomodarem” as investigações à perfumaria, fugindo daquilo que é essencial que são os abusivos e desmedidos gastos da Presidência da República. É lá que está o principal foco do abuso, do descritério e na prática criminosa de tornar privado gastos pessoais. Aliás, ministros do Supremo já declararam não haver na Constituição nenhuma vírgula a referendar que gastos públicos sejam acobertados em nome da “segurança nacional”.

Portanto, o circo armado pelas lideranças políticas da oposição no Congresso é um duplo erro que pode custar caro às próprias oposições no futuro: de um lado, qualquer acordo com os governistas é furtar da sociedade a prestação de contas obrigatória que os entes públicos devem prestar sobre o modo como usam e abusam do dinheiro que arrecadam desta própria sociedade. De outro lado, ao aceitar “investigações parciais”, é admitir que ambos os lados têm crimes para esconder. O absurdo é que o período de FHC nada tem ou teve a esconder, e o fato concreto que justifica a instalação da CPI existe apenas sobre o governo atual. Não ir a fundo é tornar-se tão criminoso quanto os larápios governistas, pela conivência que se embute no “acordo” investigativo.

Nosso arquivo ai está para demonstrar o quanto alertávamos para a urgente e indispensável instalação de CPI’s sobre os temas ONG’s e cartões. Os números são incontestáveis e indicam claramente que, sob o manto aparente da transparência, se escondiam falcatruas capazes de enxovalhar qualquer governo. Assim, os circos que o Congresso está armando devem ser condenados à veemência. A sociedade brasileira não pode aceitar que nossos governantes continuem delinqüindo de forma impune ad eternum.

As duas principais revistas semanais, Veja e Isto É, abordam bem a que ponto de degradação é capaz de descer nossa classe política, aí incluindo o governo de plantão. Nos posts seguintes vamos reproduzir as duas matérias. Na Veja, a matéria aborda bem as trapaças montadas para que se acabe não investigando coisa alguma, pelo menos que possam apontar os verdadeiros embusteiros e delinqüentes instalados no poder. Na Isto É, um pouco mais daquilo que Lula não deseja que seja mostrado ao público, ou seja, o uso indevido de verbas públicas para gozo privado e ilegal. Apesar da revista Isto É ainda confundir-se com os cartões usados pelo governo de São Paulo e os que usa o Governo Federal, a matéria vale para demonstrar de que forma o governo Lula trata os assuntos que lhe diz respeito no campo das investigações. E pouco importa que Lula não seja mais candidato em 2010. Se desde que assumiu em 2003 acobertou trapaças e delas inclusive teve relação direta e pessoal, tal deve ser mostrado ao povo brasileiro, independentemente dos erros e acertos de sua gestão. Precisamos parar com esta palhaçada à brasileira de “se poupar fulano ou beltrano” de seus crimes quando investidos de cargos públicos. Somente assim estaremos construindo uma sociedade justa de fato e de direito. Ninguém, nem sequer Lula, acha-se acima da lei.

A fábula da CPI

Acordo com a oposição limita as investigações sobre os gastos milionários do governo em despesas sigilosas

Alexandre Oltramari e Otávio Cabral, Revista VEJA
Os gastos com cartões corporativos do governo viraram motivo de piada em todos os lugares do Brasil, principalmente no Congresso Nacional, onde deve começar a funcionar ainda nesta semana uma CPI para investigar o caso. Fato 1: descobriu-se que os gastos com cartões aumentaram significativamente nos últimos anos. Fato 2: soube-se que boa parte desses gastos, 11,6 milhões de reais, foi feita por ecônomos da Presidência da República que cuidam das despesas institucionais do presidente Lula e de seus familiares. Fato 3: por questões de segurança, ninguém pode saber como, quando, onde e nem em que esse dinheiro foi aplicado. Fato 4: apesar do sigilo, está mais do que evidente que os cartões corporativos têm sido usados sem controle, inclusive para pagar despesas estranhas ao serviço público, com claros indícios de abusos. Conclusão: numa aparente demonstração de que nada tem a esconder, o governo apoiou a proposta da oposição de criar uma CPI para investigar os cartões. As assinaturas foram rapidamente colhidas, e a comissão só não foi instalada na semana passada porque houve um erro técnico no requerimento. Tudo certo? Não. O aparente empenho de parlamentares do governo e da oposição era apenas uma piada de faz-de-conta. Nos bastidores, combinou-se que as investigações vão apenas até o ponto em que não causem constrangimentos a ninguém. Será, portanto, uma CPI tão inconseqüente quanto as piadas e as charges sobre o assunto que ilustram estas páginas.
O acordo que viabilizou a criação da CPI maneta nasceu de uma conjunção de interesses comuns e se viabilizou debaixo de uma intensa troca de ameaças. Desde o início da crise, governo e oposição tentam chegar a um consenso sobre a melhor forma de apurar o caso. Na semana passada, o ponto de equilíbrio apareceu depois de uma conversa entre o ministro das Relações Institucionais, José Múcio Monteiro, e o presidente do PSDB, Sérgio Guerra. Ambos são pernambucanos e amigos de longa data, além de já terem sido aliados políticos no governo de Fernando Henrique Cardoso. Os dois concordaram que uma CPI ampla, incluindo a gestão FHC, como propôs o governo, e com poderes para acessar irrestritamente todos os documentos, poderia provocar situações de constrangimento para os dois presidentes, ainda que não existam sequer suspeitas de irregularidades envolvendo-os. Mesmo assim, milhares de servidores tiveram acesso aos cartões corporativos, e não seria surpresa se aparecessem despesas extravagantes com comida, roupas ou objetos pessoais de alguém ligado à família do atual ou do ex-presidente. Poderia ser somente um ato voluntarioso do servidor, mas não deixaria de constranger. Para evitar essa situação, combinaram que as investigações não atingiriam os gastos presidenciais. O espetáculo teria como protagonistas apenas funcionários públicos subalternos e ministros já enrolados no caso, como Orlando Silva, do Esporte, que hospedou a família no Copacabana Palace e utilizou o cartão para pagar a despesa, e Matilde Ribeiro, demitida depois de ter apresentado o cartão em um free shop. Ao final, seria uma CPI propositiva, que disciplinaria o uso dos cartões corporativos daqui em diante. O acordo foi selado em uma reunião entre o deputado tucano Carlos Sampaio, autor do requerimento de criação da comissão, e o líder do governo no Senado, Romero Jucá.

Havia, porém, um problema a ser resolvido. Esse tipo de acordo nem sempre resiste a uma nova revelação, ao ímpeto de um parlamentar descompromissado, ao atropelo dos fatos. Para evitar imprevistos, o governo decidiu nomear o presidente e o relator da CPI – respectivamente o senador Neuto De Conto (PMDB-SC) e o deputado Luiz Sérgio (PT-RJ) –, os dois cargos mais importantes, o que, em tese, lhe confere o controle absoluto dos passos da comissão. A oposição, porém, desconfiou das intenções oficiais, e tucanos que desconheciam o acordo ameaçaram se rebelar contra o compromisso de não investigar as despesas presidenciais. Foi quando surgiu o segundo ingrediente decisivo em busca da cumplicidade. Lideranças petistas espalharam que os arquivos do Palácio guardavam grande quantidade de munição contra os tucanos. Em uma reunião na presidência do Senado, Roseana Sarney, líder do governo no Congresso, foi explícita ao revelar que um motorista à disposição do ex-presidente Fernando Henrique teria gastado 45.000 reais com o cartão corporativo do governo em apenas um mês. Instada a provar o que dizia, a senadora revelou ter obtido a informação no Palácio do Planalto. Não foi só ela. Os recados, em tom de ameaça, foram transmitidos também pelo senador Romero Jucá. Ele garantiu que o governo dispõe de informações sobre gastos do ex-presidente FHC com vinhos caros, comidas finas, fraldas, óculos e até detalhes sobre a contratação supostamente irregular de uma chef de cozinha. As informações constam de um levantamento feito pela Casa Civil em que estão listados cerca de sessenta itens classificados como "despesas exóticas" do gabinete do presidente no governo passado.

São essas despesas secretas difundidas como ameaça pelas lideranças petistas contra os tucanos que, paradoxalmente, o governo petista quer manter sob sigilo. A principal preocupação do Palácio do Planalto é a divulgação dos gastos de um grupo de vinte servidores responsáveis pelo pagamento das despesas de Lula e de seus familiares. Para não esclarecer as dúvidas que existem, o governo argumenta que as despesas são sigilosas e que a divulgação colocaria em risco a segurança do presidente e de sua família. Ao todo, os pagamentos secretos realizados pelos dez ecônomos da Presidência mais gastadores somam 11,6 milhões de reais desde o início do governo, em 2003. Contrariando a principal utilidade dos cartões, que é facilitar a fiscalização dos gastos por meio de suas faturas, os assessores de Lula sacaram 1,7 milhão de reais em dinheiro vivo, dificultando seu rastreamento. Esses gastos, por isso, se tornaram uma imensa caixa-preta do governo. "Os cartões nunca foram usados para pagar despesas pessoais do presidente e de sua família. Há despesas realizadas para a manutenção da segurança do presidente e de sua família, o que é bem diferente", garante o ministro da Comunicação Social, Franklin Martins. Pode não ser bem assim.

VEJA teve acesso à prestação de contas de uma pequena parte das despesas bancadas pelos cartões de crédito corporativos que estão sob a responsabilidade dos dez ecônomos que atendem o presidente. Os dados estão arquivados na Secretaria de Administração da Presidência da República. São 42 pagamentos, realizados por quatro servidores palacianos entre 2003 e 2005, que somam 307 030,66 reais. De fato, como alega o Planalto, há gastos cuja divulgação pode colocar em risco a segurança do presidente. Um dos pagamentos, feito a uma locadora numa viagem de Lula a Manaus em abril de 2004, revela a quantidade de veículos blindados que integra uma comitiva presidencial. Outra fatura, paga em uma viagem de Lula a São Paulo em junho de 2006, mostra o número exato de seguranças do presidente que tomaram café-da-manhã e jantaram num hotel.

Mas as prestações de conta também revelam despesas que, justamente por ser secretas, podem ser interpretadas como exóticas – não se saberá isso até que se revelem as circunstâncias desses gastos, que podem muito bem ser perfeitamente justificáveis. Nos meses de setembro e dezembro de 2003, o ecônomo Clever Pereira Fialho, número 1 no ranking dos gastos palacianos, pagou 142.392,30 reais a uma locadora de veículos, a Full Time. Ele justificou o gasto como "diárias de veículos para atender viagens de familiares do presidente". Em 2004, a servidora Maria Emília Évora, oitava no ranking dos gastadores do Planalto, apresentou uma nota fiscal no valor de 52,30 reais. A despesa se refere ao creme para mãos Neutrogena, a um protetor labial da marca Nivea e a um gel para pálpebras sensíveis. Em sua prestação de contas, Maria Emília relatou que a despesa foi feita para "atender necessidades da primeira-dama, dona Marisa". Comprou-se, também, uma pomada antibiótica para o presidente. Um creme hidratante para a primeira-dama durante uma viagem oficial e um remédio de emergência para o presidente são despesas que nem mesmo na mais estóica das administrações podem ser consideradas luxo. A revelação desses gastos se justifica quando eles são tomados como amostragem do que é feito com o dinheiro público e quando se discute a razão de serem classificados como sigilosos.

As explicações para esses gastos dadas pelo governo são muito objetivas. A assessoria da Presidência esclareceu que, embora a legislação determine que familiares do presidente têm direito apenas à segurança, é autorizada a locação de carros, caso isso se faça necessário. Explicou também que, eventualmente, as compras de medicamentos para o presidente com os cartões corporativos são autorizadas quando não há o item em estoque na farmácia do serviço médico do Palácio do Planalto. Sobre os cosméticos, a assessoria informa que a compra, na verdade, foi solicitada pelo coordenador de saúde da Presidência, o médico Júnio Mário Pereira Gama, para atender a necessidades do presidente Lula, e não da primeira-dama.

Ainda assim, os gastos dos assessores palacianos, quando são secretos, têm potencial para causar embaraços. Um dos pagamentos aos quais VEJA teve acesso se refere a uma viagem de Lula a São Paulo no dia 29 de junho de 2004. A viagem ocorreu no Sucatão, o Boeing presidencial substituído três anos atrás pelo Aerolula. Havia 78 pessoas a bordo. Dois tipos de refeição foram servidos na viagem. O jantar dos viajantes foi comprado pela ecônoma Maria Emília Évora da empresa Gate Gourmet, do Rio de Janeiro – e pago em dinheiro vivo. Com caviar no cardápio, o jantar servido na cabine presidencial, ocupada por Lula e mais onze passageiros, custou 385 reais por pessoa. Já a refeição das outras 66 pessoas, entre tripulação e comitiva, ficou em 126 reais por cabeça. Sobre essas despesas, o Planalto informa que existe uma companhia contratada por licitação pública, desde 2000, com o objetivo de fornecer alimentação ao presidente e a sua comitiva. Apesar disso, explica, podem ocorrer gastos eventuais com o serviço sempre que o presidente viajar para um local onde a empresa contratada não tiver uma filial capaz de suprir as necessidades do avião presidencial. Também nesse caso não há estoicismo que justifique condenar o fato de um presidente da República se servir e aos convidados íntimos de um prato com caviar a 385 reais por cabeça durante uma viagem de trabalho.

O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso considerou arbitrária a decisão de investigar os gastos com cartão corporativo e contas do tipo B a partir de 1998, período em que ocupou a Presidência. Segundo ele, não há fato determinado que justifique a investigação por uma CPI. "Em primeiro lugar, não tenho nenhum problema. Mas, do ponto de vista da Constituição, é preciso haver um fato determinado", afirmou. Apesar de condenar a investigação, FHC diz não temê-la: "Essas coisas não passam diretamente pelo presidente. Certamente não tinha questionamento nem pelo TCU, nem pela imprensa nem por nenhum deputado". As questões centrais a ser travadas em torno dos gastos das altas autoridades são as mesmas que dizem respeito a todos os gastos do dinheiro público. A saber, quais são os limites? Quais são as regras? Quem controla os gastos? Quais são as punições para quem transgride? Quando essas questões tiverem respostas transparentes, a crise dos cartões desaparecerá tão rapidamente quanto surgiu.

Os gastos que LULA quer esconder

Apesar da blindagem do Planalto, principalmente em torno da família do presidente, documentos obtidos por ISTOÉ mostram novas despesas suspeitas pagas pelo governo.

Por Hugo Marques e Sérgio Pardellas, Revista ISTO É

Certamente não há brasileiro com mais de 40 anos que não tenha ouvido falar em Lei de Segurança Nacional. Era a sustentação jurídica usada pela ditadura militar para silenciar seus críticos e manter o País sob um regime de exceção. Na última semana, a “segurança nacional” voltou a ser invocada, desta vez por um político que chegou a ser vítima do arbítrio: o presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Sob esse argumento, a Presidência da República iniciou uma operação de blindagem, que visa manter inacessíveis os gastos feitos com o dinheiro público para cobrir despesas do presidente, da primeira-dama e de seus filhos. O primeiro passo para a blindagem foi a retirada do Portal da Transparência – um site onde o governo relacionava seus gastos – de todos os pagamentos realizados pelos ecônomos responsáveis pelas despesas pessoais da família de Lula. Há três anos, havia 37 ecônomos registrados no Portal da Transparência como responsáveis pelos gastos da Secretaria de Administração da Presidência, unidade que engloba os gastos da família Lula da Silva. Na quinta-feira 14, os ecônomos registrados na Secretaria de Administração da Presidência eram apenas cinco. Somente 4,8% das despesas presidenciais estavam disponíveis para consulta pública.

A decisão de omitir o destino dado a boa parte dos impostos pagos pela sociedade veio depois da revelação feita por ISTOÉ de que cartões corporativos do governo foram usados para sacar em dinheiro vivo R$ 5,8 milhões apenas para as despesas de Lula, dona Marisa e suas equipes. Mas o que o presidente procura esconder é mais do que isso. Na verdade, pelo que se sabe até agora, muitos dos gastos realizados com os cartões corporativos seguem os mesmos padrões de má utilização dos recursos por servidores do governo demonstrados em vários exemplos a que ISTOÉ teve acesso, na semana passada, a partir de dados catalogados pelo Siaf (Sistema Integrado de Administração Financeira). Em 9 de julho de 2007, a Secretaria de Administração da Presidência da República pagou R$ 6.840 à Oficina Zen Massagem Expressa Ltda., para a contratação de serviços de massagem e reflexologia. Entre julho e dezembro do ano passado, a Escola de Aperfeiçoamento de Sargentos do Exército gastou R$ 2,7 mil na Chocolates Kemper’s Haus, em Santo Ângelo, no Rio Grande do Sul. Em dezembro de 2005, o Centro Federal de Educação Tecnológica de Minas Gerais consumiu R$ 6,2 mil na Cervejaria Divinópolis Ltda. Um ano antes, o Centro de Instrução Almirante Alexandrino, da Marinha, pagou R$ 6,1 mil à Perfumaria Diamantino, no Rio de Janeiro. O Centro de Instrução Almirante Alexandrino justificou o gasto dizendo que mantém no Estado uma escola de “taifeiros barbeiros”, por isso a necessidade da compra de loções e cremes.

Em julho de 2005, a Finep, do Ministério de Ciência e Tecnologia, gastou R$ 6,6 mil na Trinidad Tabacaria, também no Rio de Janeiro. Em dezembro último, um servidor da gerência regional do Ministério da Fazenda em Minas Gerais entrou na Pastelaria Marília de Dirceu e gastou R$ 1,3 mil na rubrica “prevenção à corrupção e transparência das ações do governo”. “Não cabe à ISTOÉ investigar esse tipo de coisa”, reagiu o chefe do setor financeiro do Ministério da Fazenda em Minas, Alexandre Camilo. “Só entrego as informações se o Ministério Público requisitar”, completou. Em dezembro de 2004, a Superintendência da Polícia Federal em São Paulo pagou R$ 600 à clínica de estética By Kimberly, que, em sua página na internet, se apresenta como especializada em “levantar bumbum e seios”. Na ação de governo que justifica o gasto está escrito: “0,9 kg. – Aguardando Descrição no Siaf”. A dona da clínica, Valdeleide Nascimento, chorou ao ser procurada por ISTOÉ. “Nunca realizei qualquer tratamento que necessite de aplicação de substâncias como botox ou silicone”, diz Valdeleide. Ela não explica, porém, 0,9 kg de que a Polícia Federal comprou na sua clínica. No mesmo mês, em plena sexta-feira, o Grupamento de Fuzileiros Navais gastou R$ 120 no estabelecimento Sorvetes Tetéia, no Pólo Moda de Brasília, famoso por concentrar o maior número de costureiras da capital federal.

Além de tirar as informações da internet, uma outra frente comandada pelo Planalto para blindar as despesas da família Lula da Silva atua no Congresso. O objetivo é restringir o campo de investigações da futura CPI dos Cartões Corporativos. Na quinta-feira 14, pela segunda semana consecutiva, o presidente do Senado, Garibaldi Alves Filho (PMDB-RN), alegou problemas formais e devolveu o requerimento de instalação da CPI. Primeiro, por uma rasura feita pelo líder do governo, Romero Jucá (PMDB-RR). Depois, por um problema formal na folha de assinaturas da oposição. As assinaturas terão de ser recolhidas novamente esta semana. Resolvidos os entraves de Garibaldi, o Congresso entrará numa discussão, na qual o governo terá maioria, sobre a amplitude da investigação. “O governo quer criar a CPI do Mané”, critica o senador Demóstenes Torres (DEM-GO). “Só se investiga o gasto do Mané, que passa longe do poder central.”

GASTOS SUSPEITOS

CERVEJA O Centro Federal de Educação Tecnológica de Minas Gerais gastou R$ 6,2 mil na Cervejaria Divinópolis Ltda., em Divinópolis (MG), em dezembro de 2005, para “funcionamento da educação profissional”.

CHOCOLATE A Escola de Aperfeiçoamento de Sargentos do Exército gastou R$ 2,7 mil em julho e dezembro do ano passado na empresa Chocolate Kemper’s Haus, em Santo Ângelo (RS). O Centro Técnico Aeroespacial gastou R$ 535 na Chocolates Garoto, em 2004.

PASTÉIS A Gerência Regional do Ministério da Fazenda gastou R$ 1,3 mil na Pastelaria Marília de Dirceu Ltda., em Belo Horizonte, em dezembro de 2007. A rubrica que justificou o gasto é: “Prevenção à Corrupção e Transparência das Ações de Governo”.

TABACO Em julho de 2005, a Finep gastou R$ 6,6 mil na Trinidad Tabacaria, no Rio de Janeiro. A ação que justificou o gasto foi “Fomento à Pesquisa e ao Desenvolvimento de Conhecimento Científico”.

PERFUMES O Centro de Instrução Almirante Alexandrino, da Marinha, gastou R$ 6,1 mil em novembro de 2004, na Perfumaria Diamantino, no Rio de Janeiro. Na ação que justifica o gasto está escrito: “A classificar”.

SORVETES Em dezembro de 2004, o Grupamento de Fuzileiros Navais gastou R$ 120 na Sorvetes Tetéia Ltda., no Pólo Modas de Brasília. A justificativa para os gastos foi “administração de unidade”.

Uma das maiores preocupações de Lula é blindar de todas as formas sua filha Lurian Cordeiro da Silva, em Florianópolis (SC). Ela não apenas será alvo da CPI dos Cartões, mas da CPI das ONGs, que retomará seus trabalhos esta semana. O PSDB e o DEM já começaram a rastrear as contas bancárias da ONG Rede 13. Criada para arrecadar dinheiro para o programa Fome Zero, a ONG fechou suas portas em 2003, mesmo ano em que foi aberta, deixando dívidas na praça. A CPI dos Bingos, porém, levantou suspeitas de que a entidade serviria de elo entre os donos de bingos no Estado e campanhas do PT. Entre junho e setembro de 2005, dois seguranças de Lurian, Jadir José Duarte e João Roberto Fernandes Júnior, fizeram compras em um camelódromo no bairro de Campinas, município de São José (SC). A primeira compra, registrada no cartão de Jadir José, no valor de R$ 200, foi realizada em 30 de junho na loja Lamar Esportes. O segundo pagamento, no valor de R$ 40, foi feito em 28 de setembro de 2007 pelo ecônomo João Roberto num estabelecimento de artigos femininos e bijuterias. As lojas estão localizadas em um tradicional shopping popular conhecido como “Camelão”. Vendedores do local dizem que é comum ver Lurian fazer compras acompanhada dos seguranças.

O genro do presidente Lula e marido de Lurian, Marcelo Sato, admite que a primeira-filha é freguesa do camelódromo. “Claro que a gente já esteve lá. Todos têm o direito de ir lá. E é claro que a Lurian vai com um punhado de seguranças”, reconhece. “Mas não se pode fazer ilações de que estão comprando estes artigos para a Lurian com os cartões.” Ele afirma que nunca se beneficiou de dinheiro dos cartões da Presidência. “Eu nunca vi um cartão corporativo desses na minha vida”, diz Sato.

Outro estabelecimento bastante freqüentado pelos ordenadores de despesas de Lurian é a Panificadora e Confeitaria Praia do Meio, na rua Desembargador Pedro Silva, em Florianópolis. Em três compras diferentes, nos dias 29 de maio, 12 de junho e 13 de dezembro do ano passado, os seguranças de Lurian gastaram R$ 842,77, valor suficiente para comprar 2,7 mil pães franceses. “Passamos dificuldades e não temos nem dinheiro para pagar advogado para nos defender das acusações”, lamenta Sato.

Na semana passada, ISTOÉ também teve acesso a uma lista da Casa Civil que identifica os ecônomos e respectivos chefes que atendem o presidente no Palácio da Alvorada, na Granja do Torto e no escritório em São Paulo. O documento mostra que um dos mais antigos seguranças de Lula, José Carlos Espinoza, é o superior imediato de Rosemary Noronha, ecônoma responsável por custear as despesas de Lula e família em São Paulo.

Os gastos de Rosemary não aparecem no portal. Três ecônomos cuidam das despesas do Palácio da Alvorada e da Granja do Torto: João Henrique Souza, Luiz Alves Rabelo e Luiz da Cruz Soares. O portal agora registra apenas R$ 50 mil de gastos de Luiz Rabelo e Luiz Soares nos últimos cinco anos. É possível acompanhar os gastos de João Henrique até o ano passado – R$ 114 mil. Este ano, não há nada registrado. Na conta do coronel Rui Chagas Mesquita, ajudante de ordens oficial de Lula, o cartão exibe gastos de módicos R$ 6 mil. Apesar de tantos gastos estranhos aos serviços públicos, por enquanto Lula parece ter ganho a batalha da blindagem de sua família no Legislativo. A Câmara e o Senado não demonstram disposição em abrir as contas nem do atual nem do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso. As manobras de setores do governo na tentativa de evitar que as investigações respinguem no Palácio do Planalto, por ora, surtem efeito.

Lula quer blindar sua filha Lurian Cordeiro da Silva, que será alvo da CPI dos Cartões e também da CPI das ONG’s

Almas gêmeas

Durante o Segundo Reinado (1831-1889) dizia-se que nada era mais parecido com um “saquarema” do que um “luzia” no poder. Saquarema eram os chamados conservadores, defensores da centralização política; luzias, os liberais, favoráveis à descentralização. Separados no acessório, eles concordavam no essencial: a manutenção do regime escravocrata. Tal simbiose política fazia sentido, pois os dois eram facções da mesma classe, os grandes latifundiários. Mais de um século e meio depois, os principais partidos brasileiros, PT e PSDB, sem terem a mesma base social, estão cada vez mais parecidos. Além do programa econômico, eles vêm comungando o uso de velhas práticas fisiológicas. Veja-se o escândalo do Mensalão, a compra de apoio político ao governo petista no Congresso que estourou em 2005; tempos depois, descobriu- se que a gênese desse esquema nascera na montagem do caixa 2 para a campanha do PSDB em Minas, em 1998. Agora, quando vieram à tona abusos com cartões de crédito corporativos federais – R$ 78 milhões desde a posse de Lula (2003) –, revela- se que os gastos de cartões do governo paulista atingiram R$ 108 milhões só em 2007.

O constrangimento não poupou nem Fernando Henrique Cardoso, que, como ex-presidente, tem direito a fazer pagamentos com cartões corporativos através de funcionários da União. Descobriu-se que os gastos do cartão de Eduardo Maximiano Sacilloto Filho, segurança de FHC, atingiram a soma de R$ 14.792 no ano passado. Em apenas um dia de agosto, Sacilloto encheu quatro tanques de gasolina num posto em São Paulo. “As minhas contas não estão comigo, estão com o atual governo. Eles não precisam nem de CPI para investigar. Basta olhar os documentos que têm em mãos”, declarou FHC. Os dados são, no mínimo, passíveis de questionamento.

A reação do governo Lula às revelações dos abusos foi desastrosa, chegando a impor um sigilo sobre os gastos da Presidência, sob a alegação de “segurança nacional”. O governador Serra, pelo menos, reagiu de modo mais cauteloso. Embora garantindo que não havia nenhuma irregularidade no uso dos cartões estaduais, mandou suspender os saques em dinheiro para fazer um balanço da situação. Ele também criou uma comissão especial para cuidar do assunto, presidida pelo secretário da Justiça, Luiz Antonio Marrey, e determinou a divulgação de todos os dados dos gastos pela internet. Com isso, esvaziou o movimento para a criação de uma CPI na Assembléia Legislativa.

CLÁUDIO CAMARGO