sábado, janeiro 28, 2012

Um gás na carreira

Isabel Clemente, Revista Época 

A futura presidente da Petrobras, Maria das Graças Foster, tem uma promoção estranha no currículo – no tempo em que trabalhou com Dilma no Ministério de Minas e Energia
Aos 58 anos, a engenheira Maria das Graças Foster, diretora de Gás da Petrobras, é a Dilma da Dilma. Uma mulher séria, um tanto impaciente, que coleciona elogios e temor devido ao rigor de suas cobranças. Mãe de um casal e avó de uma menina, é capaz de dedicar mais de 14 horas do dia ao trabalho, abrindo mão de férias por anos a fio. Graça, como gosta de ser chamada, foi escolhida para ser a próxima presidente da estatal, em substituição a José Sergio Gabrielli. Quando estiver confirmada no cargo, algo esperado para a próxima semana, ela entrará para o seleto clube das executivas mais influentes do planeta. Será também o auge na carreira da funcionária que entrou há 32 anos na estatal como estagiária e passou por praticamente todas as áreas da empresa, como gás, distribuição, pesquisa e petroquímica.


Maria das Graças Foster 
(Foto: Julio Bittencourt/Valor/Folhapress)



Esse grande salto profissional de Maria das Graças foi possível porque, na década de 1990, ela conheceu a então secretária de Energia do Rio Grande do Sul, Dilma Rousseff. Ficaram amigas. Quando Dilma, em janeiro de 2003, foi nomeada ministra de Minas e Energia no primeiro governo Lula, a atual presidente a chamou para ocupar o cargo de secretária de Petróleo e Gás do ministério, onde ficou por mais de dois anos. Esse período guarda, no entanto, um episódio suspeito. Em 2004, de acordo com documentos oficiais da Petrobras obtidos com exclusividade por ÉPOCA, Maria das Graças ganhou uma nomeação retroativa na empresa. Um memorando datado de 11 de março de 2004 promove a química de petróleo sênior Maria das Graças Pena Silva (nome de solteira da futura presidente da Petrobras), que exercia na empresa o posto de gerente de tecnologia, ao cargo de confiança de gerente da unidade de Gás Natural da CEG Rio. Trata-se da companhia de distribuição de gás do Rio de Janeiro, empresa na qual a Petrobras detém participação via Gaspetro. O que há de mais estranho é que a data da nomeação é anterior à do memorando: 29 de janeiro de 2003. Maria das Graças ocuparia o cargo de outra funcionária, Lecy Pires Colnaghi.

Segundo juristas, esse ato de nomeação retroativa constitui, por si só, uma ilegalidade. “Não existe nomeação retroativa. A única hipótese seria por decisão judicial porque a pessoa tinha direito a um cargo, não tomou posse e teve o direito reconhecido, o que obriga o pagamento retroativo. Do contrário, é um ato ilegal”, diz o procurador da República no Tribunal de Contas da União (TCU) Julio Marcelo de Oliveira. Quem executou a operação foi Djalma Rodrigues de Souza, então gerente executivo de Gás Natural da Petrobras – personagem que mais tarde ficaria conhecido por ser afilhado de Severino Cavalcanti, o folclórico ex-presidente da Câmara dos Deputados que renunciou ao cargo em meio a denúncias de recebimento de propina. Foi para Djalma que Severino reivindicou um cargo de diretor da Petrobras, com a frase que ficou célebre: “Não quero uma diretoria qualquer, e sim uma diretoria que fura poço”.

O cargo que Maria das Graças exercia no ministério de Dilma – secretária de Petróleo e Gás – tinha o código DAS 6, o mais alto da Esplanada. Naquela ocasião, a remuneração de um DAS 6 era de R$ 7.575. Como gerente de tecnologia na Petrobras, Maria das Graças recebia R$ 9.700, aproximadamente. Quando um funcionário é cedido por uma empresa do governo federal a outro órgão ou um ministério, o gasto é todo de quem requisita. A empresa – no caso, a Petrobras – é ressarcida pelo ministério. Segundo normas do Ministério do Planejamento, cabe ao funcionário optar pela fórmula mais vantajosa: ganhar o DAS na íntegra ou receber o mesmo salário da empresa mais um porcentual do DAS. Como Maria das Graças ganhava mais na Petrobras, era interessante para ela manter o salário da estatal e receber mais 60% do salário do cargo comissionado. Quanto maior fosse o salário da estatal, maior seria sua remuneração final. E o salário de gerente da CEG era 50% maior que os vencimentos relativos ao cargo de gerente de tecnologia na Petrobras.

Sobre o episódio, a Petrobras reconhece que existe um documento com datas retroativas, mas atribui tudo a um erro administrativo. A empresa diz que a promoção de Maria das Graças Foster tinha sido acertada antes de ela ser convidada a ir para Brasília e que o processo teria sido concluído apenas em março de 2003. Por esse motivo, diz a empresa, a executiva vinha sendo remunerada desde então pelo valor mais alto. A nomeação para o cargo de gerente da unidade de Gás Natural da CEG Rio saiu com data retroativa, segundo a Petrobras, porque teria ocorrido um erro na hora de aprovar a cessão de Maria das Graças para o Ministério de Minas e Energia. Para que o funcionário cedido mantenha o salário da Petrobras, é necessário, pelas normas da estatal, que a cessão seja aprovada pela diretoria executiva da empresa. Em 2003, isso não foi feito. Um ano depois, quando a cessão de Maria das Graças para o ministério precisou ser renovada, a empresa decidiu pela nomeação retroativa para sanar o problema. Segundo a Petrobras, não houve remuneração indevida a mais nem pagamentos retroativos.

A resposta da Petrobras suscita, porém, outras questões: se havia uma promoção em vista para Maria das Graças, por que foi preciso dar a ela uma nova função, numa empresa coligada da Petrobras, um ano depois? Se a promoção foi concluída em março de 2003, por que a nomeação retroativa tem a data de 29 janeiro de 2003, praticamente coincidente com a nomeação para secretária de Petróleo e Gás, em 31 de janeiro? Foi mais um erro, admite a Petrobras. No mínimo, segundo os procuradores ouvidos por ÉPOCA, o processo todo requer uma apuração. “Essa situação, de nomear retroativamente, caracteriza fraude por falsidade ideológica e improbidade administrativa, inclusive por parte da pessoa beneficiada se tiver recebido vantagem ilícita. Teria de ser investigada”, diz a procuradora regional da República em São Paulo, Janice Ascari.

Todo esse episódio acrescenta uma nota a mais de desassossego à nomeação de Maria das Graças para a presidência da Petrobras. O anúncio de sua escolha para o cargo às vésperas da viagem, na semana passada, do atual presidente José Sergio Gabrielli para o Fórum Econômico de Davos, na Suíça, causou embaraços internos. A notícia soou como uma demissão de Gabrielli, que tinha uma relação conflituosa com a presidente. De Davos, Gabrielli tentou botar panos quentes e defender sua gestão. Ele afirmou que, com Maria das Graças, haverá continuidade na direção da Petrobras porque o governo sempre mandou na empresa. “Não é verdade que saí porque discordei (de Dilma Rousseff)”, disse Gabrielli, um recordista no posto, onde está há mais de seis anos.

SINTONIA 
Dilma Rousseff com a amiga Maria das Graças. 
Empossada, a executiva deve alinhar a estratégia da Petrobras com a do Planalto 
(Foto: Julio Bittencourt/Valor/Folhapress)

A substituição de Gabrielli por Maria das Graças, pela proximidade da futura presidente da Petrobras com a presidente Dilma, deverá significar um alinhamento ainda maior da empresa com o Palácio do Planalto. A presidente Dilma, nos bastidores, queixava-se de atrasos no cronograma de exploração do petróleo da camada pré-sal. Com a chegada de Maria das Graças, esperam-se mudanças na diretoria e nos principais cargos gerenciais. A primeira baixa será o diretor de Exploração, Guilherme Estrella, que já comunicou a seus comandados que deixará o posto. Especula-se também que será criada uma nova diretoria, onde seria colocado o ex-presidente do PT José Eduardo Dutra, um dos coordenadores da campanha presidencial de Dilma em 2010 e presidente da Petrobras entre 2003 e 2005. Apesar da perspectiva de maior interferência do governo, a escolha de Maria das Graças foi bem recebida pelos analistas do setor de petróleo. “Ela é fera, sabe delegar e cobrar. Ganhou notoriedade na defesa da empresa”, diz Jean Paul Prates, especialista da área e ex-secretário de Energia do Rio Grande do Norte.

Maria das Graças tem mestrado em engenharia química e pós-graduação em engenharia nuclear pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (Coppe/UFRJ). Mineira, morou, até os 12 anos, no Morro do Adeus, uma das comunidades do Complexo do Alemão, um conjunto de favelas do Rio de Janeiro. Para financiar seus estudos e ajudar no sustento da família, trabalhou desde jovem. Como a presidente Dilma, Maria das Graças é descrita por muitos assessores como uma mulher difícil e dura no trato. Mas a futura presidente da Petrobras tem também seu lado folião. Ela desfila há vários anos na escola de samba União da Ilha e comparece aos ensaios na quadra como uma boa integrante, informa o presidente da agremiação, Ney Filardi. “Ela está sempre lá, na maior simplicidade, com a família. É tranquila, nunca a vi bebendo. Fico muito lisonjeado com sua presença. Espero que não nos abandone”, diz Filardi. A Dilma da Dilma tem lá também suas diferenças em relação à original.

Fraude no Tribunal do Trabalho continua aumentando. Já está em R$ 17,9 milhões, Só dos funcionários de Furnas, levaram R$ 12,2 milhões.

Carlos Newton, Tribuna da Imprensa

É um nunca-acabar de irregularidades que mostram a podridão do Judiciário. Em Brasília, por exemplo, o Tribunal Regional do Trabalho da 10ª Região descobriu uma nova fraude cometida pela servidora Márcia de Fátima Pereira da Silva e Vieira, que desviava indenizações judiciais a serem pagas pelo tribunal a empresas e a trabalhadores. Com isso, já chega a R$ 17,9 milhões o total surripiado pela diligente funcionária pública.
Reportagem de Guilherme Amado no Correio Braziliense mostra que TRT e a Polícia Federal já sabiam que, apenas em 2011, Márcia havia se apropriado de R$ 5,5 milhões. Agora, são mais R$ 12,2 milhões. Mas ninguém sabe como isso vai acabar, porque na quinta-feira Márcia depôs novamente na Superintendência da PF em Brasília e disse não ter ideia de quanto era o rombo.

A inspeção feita na 2ª Vara de Trabalho, onde Márcia trabalhava, já encontrou pelo menos 104 processos fraudados. Mas a corregedoria do Tribunal ainda não conseguiu encontrar 12 processos, vejam a que ponto chega a esculhambação. Cerca de 30 processos ainda devem ser analisados. Os processos que desapareceram provavelmente terão que ser restaurados, ou seja, o TRT precisará recorrer às partes para pedir cópias das ações e, assim, tentar reconstituí-las.

O presidente e corregedor do TRT-10, desembargador Ricardo Alencar Machado, acredita que o montante possa passar dos R$ 20 milhões. “Se um único processo for uma ação que algum sindicato entrou representando toda a categoria, esse total pode subir muito ainda”, avaliou.

Os R$ 12,4 milhões recém-descobertos eram de um único processo, do sindicato de funcionários de Furnas, que reivindicavam um reajuste salarial que não foi concedido em 1990. Após anos de batalha judicial, não cabiam mais recursos e Furnas já havia sido condenada a pagar o retroativo. À Justiça do Trabalho, faltava apenas decidir quanto seria pago.

A sindicância responsável por apurar a eventual participação de servidores no desvio e a comissão de desembargadores encarregados da mesma tarefa em relação aos juízes ainda não concluíram seus trabalhos.

FRAUDADORA ESTÁ LIVRE, LEVE E SOLTA
Solta por um habeas corpus no início do mês, Márcia foi quinta-feira à Polícia Federal para levar uma lista de bens que podem ser usados no ressarcimento do desvio. Sem aparentar nervosismo, ela defendeu seus parentes que foram acusados pelo Ministério Público Federal.

Além dela, foram denunciados o marido José Aílton da Conceição; a mãe de Márcia, Maria Pereira Braga da Silva; e o irmão Maurício Pereira da Silva.

“Estou arrependida. Vou devolver o que tiver que devolver. Mas quero deixar claro que a minha família não sabia de nada”, afirmou. Márcia, como se isso fosse possível.

Modesta funcionária, ficou rica de repente, tinha vários carros de luxo, mansão, chácara, uma empresa de terraplenagem com máquinas e caminhão, e a família não sabia de nada…

PT ajudou a preparar denúncias de corrupção contra o DEM

Revista Veja

Delator do esquema revela envolvimento do governador do DF, Agnelo Queiroz, e que o cronograma obedeceu à agenda eleitoral do partido do governo

Agnelo Queiroz, governador do Distrito Federal
(Veja)

O delegado aposentado Durval Barbosa delatou, em 2010, o esquema de corrupção que ficou conhecido como "mensalão do DEM". As imagens e informações que ele apresentou provocaram a prisão do então governador de Brasília José Roberto Arruda, a renúncia do vice-governador Paulo Octávio e a cassação de vários parlamentares da legenda. Durval agora revela um lado ainda desconhecido do escândalo: o envolvimento do PT e de petistas importantes na preparação das denúncias. Em reportagem da revista VEJA desta semana, o delegado detalha a participação do atual governador do Distrito Federal, Agnelo Queiroz, na preparação das denúncias. Além disso, ele aponta o envolvimento na trama de José Antônio Dias Toffoli, ex-advogado geral da União e atual ministro do Supremo Tribunal Federal, e acrescenta que o cronograma das denúncias que fulminaram o DEM obedeceu à agenda eleitoral do PT.

Dias Toffoli, ministro do STF

Em longa entrevista a VEJA, Durval (que, é bom lembrar, foi participante ativo do esquema que mais tarde viria a delatar) relata que, em junho de 2009, recebeu a visita de Agnelo Queiroz, então pré-candidato do PT ao governo do DF. Mostrou a ele as célebres imagens de José Eduardo Arruda embolsando 50.000 reais de propina de empresários de Brasília, além de outras gravações, e Agnelo se mostrou excitado: vislumbrou a oportunidade de tirar definitivamente Arruda do páreo eleitoral. O petista saiu da reunião com uma amostra do material e o compromisso de envolver a Procuradoria Geral da República e a Polícia Federal na investigação. Prometeu também ao delegado uma secretaria em seu futuro governo. De maneira semelhante, José Antônio Dias Toffoli teria recebido cópias de gravações em que o então vice-governador Paulo Octávio negocia benefícios a empresários em troca de propina. Procurados pela reportagem da revista, tanto o governador quanto o ministro do STF negam ter recebido vídeos ou áudios de Durval. Queiroz só admite ter assistido às gravações no gabinete do delegado.

Durval também relata que tem sido alvo de ameaças - e que recentemente um emissário de Agnelo Queiroz ofereceu 150.000 reais para que ele não fizesse denúncias contra o governador do DF. O mensageiro, diz Durval, foi o atual chefe de polícia de Brasília, Onofre Moraes. A proposta, diz ele ainda, foi feita ao seu amigo, o jornalista Sérgio Sombra - que a teria registrado. 

Leia abaixo breve trecho da entrevista concedida por Durval a VEJA:

Durval Barbosa - O senhor mostrou ao governador Agnelo Queiroz a fita do então governador José Roberto Arruda recebendo o pacote de dinheiro antes mesmo de entregá-la à polícia? 
Mostrei, no meu computador, em meu gabinete. Foi no primeiro semestre de 2009, um ano antes da campanha eleitoral.

O Agnelo ficou com cópia do material? 
Ele pegou uma cópia de outra fita. Ele pegou a cópia de uma fita do vice-governador Paulo Octávio, mostrando que assessores dele estavam cobrando propina para facilitar negócios no governo. Aí ele falou: "Nossa, essa fita é horrível". Eu falei: "Leva como exemplo para o procurador."

Um amigo do senhor contou que o ministro Dias Toffoli também teve acesso a esse material antes da polícia e do Ministério Público. É verdade? 
Sim. O ministro Dias Toffoli recebeu uma amostra quando ele ainda era advogado-geral da União. Mas isso é outro enredo. (...)

Ele ajudou? 
Depois disso, a Procuradoria da República entrou no caso.

Caixa de Pandora: Senador do DEM diz que Agnelo agiu de maneira criminosa

Veja online

Reportagem de VEJA mostra que governador do DF teve participação no escândalo da Caixa de Pandora, que culminou na prisão do ex-governador José Roberto Arruda em 2010

Senador Demóstenes Torres (DEM)

A edição de VEJA desta semana revela mais um capítulo do episódio conhecido como Caixa de Pandora, escândalo que atingiu o coração da capital federal há dois anos e resultou na prisão do então governador do Distrito Federal, José Roberto Arruda, na renúncia do vice-governador, Paulo Octávio, e na cassação de vários parlamentares. O esquema de desvio de mais de 1 bilhão de reais dos cofres públicos foi delatado por Durval Barbosa.

Em entrevista a VEJA, Barbosa diz que o atual governador do Distrito Federal, Agnelo Queiroz, e o ex-advogado-geral da União e atual ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) José Antônio Dias Toffoli tiveram acesso antecipado a áudios e vídeos que comprometiam adversários políticos. Segundo o delator, o governador recebeu uma amostra do material e se comprometeu a envolver a Procuradoria-Geral da República e a Polícia Federal nas investigações. Em troca, prometeu ao Barbosa uma secretaria em seu governo, caso eleito em 2010.

Em depoimento à polícia na semana passada, Durval discorreu sobre as tentativas de assessores do governo de comprar seu silêncio. Segundo o ex-secretário, o diretor-geral da Polícia Civil, Onofre Moraes, ofereceu 150.000 reais ao jornalista Edson Sombra para que nenhum detalhe do envolvimento de petistas fosse revelado. Sombra é amigo do peito de Durval e diz que a conversa foi gravada. Moraes nega ter oferecido dinheiro.

Repercussão - 
Para o senador Demóstenes Torres (DEM-GO) a situação de Agnelo Queiroz deve se complicar, caso Durval apresente as gravações. “A fita aparecendo, o governador fica em uma situação difícil de se sustentar no cargo porque teria armado tudo em beneficio próprio”, disse. “A participação do petismo para divulgação do material mostra o caráter político e criminoso a partir do governador Agnelo.”

Para o democrata, a Procuradoria-Geral da República deve investigar o caso. Arruda era filiado ao DEM quando o escândalo veio à tona. Na época, foi expulso pelo partido. Para Torres, as novas denúncias não significam que o ex-governador deveria ficar impune, mas revelam que o PT também teve participação no caso.

O presidente do PPS, Roberto Freire, lamentou a história da política brasiliense: “Infelizmente Brasília está com uma elite politica há muito tempo envolvida em escândalos, malfeitorias, e bandalheira.”

Defesa -
Procurado por VEJA, Agnelo disse que se limitou a assistir aos vídeos. Durval Babosa, no entanto, conta uma versão diferente. Para mostrar o arsenal que tinha em mãos, segundo ele, foram entregues a Agnelo dois CDs com áudio de funcionários do então vice-governador negociando benefícios de empresários em troca de propina. Durval ressaltou que as gravações serviriam de prova para que o Ministério Público Federal entrasse no caso.

A chegada dos procuradores federais, no entanto, foi precedida pela participação especial de Dias Toffoli. O delator confirmou que pediu a uma de suas assessoras, Christiane Araújo, que entregasse os áudios ao atual ministro do STF, com quem ela tinha uma relação de muito próxima. Christiane, que cumpriu sua função, mais tarde chegou a trabalhar na campanha da presidente Dilma Rousseff, graças à relação próxima que tinha com o secretário-geral da Presidência, Gilberto Carvalho. Toffoli nega que tenha recebido as fitas.

O inquérito da Operação Caixa de Pandora está em curso no Superior Tribunal de Justiça (STJ).

Antes tarde

Dora Kramer - O Estado de S.Paulo

Muito boa a providência anunciada pela presidente Dilma Rousseff na primeira reunião ministerial de 2012: lá para meados do ano vai começar a acompanhar "de perto" tudo o que acontece no governo.

Cada pasta será obrigada a manter sistemas atualizados de informações "online" para que a Presidência, sob coordenação da Casa Civil, possa monitorar todas as ações, os gastos, o cumprimento das metas e cobrar resultados na hora, sem postergação.

Não obstante seja positiva a demonstração de ativismo, o anúncio não traz novidade alguma a não ser a confissão de que o governo iniciado há nove anos - considerando a continuidade da gestão Luiz Inácio da Silva - não vem cumprindo obrigações básicas.

Não atende aos pressupostos de transparência, eficácia e de intransigência no tocante a desvios e desmandos, visto que acaba de anunciá-los como regras a entrarem em vigor mediante preparação especial de cada um dos 38 ministérios.

Nem com toda boa vontade do mundo é possível aceitar que o objetivo de prestar "melhores serviços à população", conforme explicou o porta-voz, Thomas Traumann, seja, como disse a presidente em seu discurso, "um projeto revolucionário, progressista e indispensável", à reforma do Estado.

Com perdão da constatação acaciana, é o mínimo que se espera do poder público. Onde a revolução? Ao que se saiba, há um sistema de acompanhamento da execução do Orçamento em funcionamento desde 1987. Há portais que deveriam abrigar todas as informações relativas a cada uma das pastas.

Convenhamos, o acompanhamento "online" do que quer que seja não se constituiu exatamente numa inovação. Muito menos pode ser visto como método revolucionário.

Além disso, há (ou deveria haver) a sistemática tradicional de contato permanente da presidente da República com seus auxiliares diretos. Mas o gigantismo e as idiossincrasias talvez atrapalhem o andamento dos trabalhos e favoreçam a inércia agora confessada.

Situação difícil de ser superada sem a proposição de reforma de fato, sem enfrentar embates com aliados, votações difíceis, pressão de lobbies, sem criar atritos com servidores ou quaisquer outros setores, sem perdas nem dores.

Só na base do anúncio da disposição de fazer o que já deveria estar sendo feito há muito tempo.

No triturador. 
Fernando Henrique Cardoso disse à revista inglesa The Economist o mesmo que circula sem reservas no PSDB e adjacências.

Não falou nada de novo além do fato de fazê-lo publicamente em ato de extrema frieza para com José Serra, amigo de 40 anos, o mais próximo quando da morte de Ruth Cardoso.

Aécio Neves é o "candidato óbvio" dos tucanos para 2014? Evidentemente.

Serra cometeu erros na campanha eleitoral? Muitos e enormes, embora não os tenha cometido sozinho.

Está isolado no partido que já presidiu, ajudou a fundar e pelo qual concorreu duas vezes à Presidência da República, foi prefeito e governador de São Paulo? Não resta a menor dúvida.

Dele, seus correligionários só querem hoje que vá ao sacrifício de disputar uma eleição que não deseja, para tentar salvar a Prefeitura do favoritismo que se avizinha para o PT.

Fora isso, os tucanos preferem tê-lo na condição de desistente.

Logo, o momento é pessoalmente difícil para quem tenta se reinserir na cena com ação contundente, e solitária, de oposição (até numa revisão do comportamento como candidato em 2010) - seja para voltar a se candidatar a presidente, seja para dar combate a um governo do qual discorda.

Não obstante seja tido como homem de altas qualidades públicas, atrai ódios internos e externos. Alguns justificados, outros desproporcionais.

As verdades de FH não desvendam mistério, não mudam tendências, sequer consolidam situações, pois nunca se deve desconsiderar o fator mola no fundo do poço. Soam apenas ferinas. E fratricidas na lógica de que um novo caminho só se abre ao custo da interdição de outro. Palavras muito abaixo do padrão de qualidade do autor e representativas de uma atuação partidária que privilegia a exclusão em prejuízo da união.

O ministro, a China e o professor

Vinicius Torres Freire, Folha de S. Paulo

...Não temos empreendedores animados ou instruídos o bastante para inventar tais negócios nem massa crítica tecnológica. Empresas ignoram universidades e vice-versa. Não temos trabalhadores qualificados suficientes. Temos impostos e outros custos altos demais....

O GOVERNO ABRIU na quarta-feira a porteira para a Foxconn receber subsídios e fabricar IPads no Brasil.

Na terça, Aloizio Mercadante deixou de ser ministro de Ciência e Tecnologia para ocupar a pasta da Educação. O que têm a ver Mercadante e Foxconn?

Mercadante foi um dos ministros que negociaram a vinda da Foxconn para o país. Mas não apenas isso.

Em abril de 2011, na visita de Dilma Rousseff à China, a gigante sino-taiwanesa anunciou investimentos de US$ 12 bilhões no Brasil.

Soube-se depois que a Foxconn traria seu "savoir-faire" (know-how, em português corrente), mas o dinheiro deveria vir de sócios, subsídios e empréstimos estatais.

A Foxconn fornece insumos para computadores e eletrônicos, para Intel e Apple. No Brasil, se for mais que uma maquiladora subsidiada, pode formar um aglomerado de fornecedores e pesquisa em torno de si. Bom.

A múlti sino-taiwanesa seria uma empresa "de ponta" tecnológica por aqui (nem tão mais de ponta assim). É muito raro o Brasil inventar, por si só, empresas desse tipo.

Não temos empreendedores animados ou instruídos o bastante para inventar tais negócios nem massa crítica tecnológica. Empresas ignoram universidades e vice-versa. Não temos trabalhadores qualificados suficientes. Temos impostos e outros custos altos demais.

O governo vai dar, pois, à Foxconn condições que nega a montes de empresas no Brasil -no mínimo, impostos menores e infraestrutura. E trabalhador qualificado?

O único programa novo de Dilma Rousseff na área de educação básica é o Pronatec, de incentivo à educação para o trabalho, em especial no ensino médio. Grosso modo, o Pronatec pretende dar bolsas para estudantes, financiar escolas técnicas em Estados e municípios e ampliar em uns 60% a rede de escolas técnicas federais.

Mercadante mencionou o programa, entre outros dos governos petistas, em seu discurso político e sem novidade maior (nem novidade média, mas é cedo ainda, tudo bem). Em 5.300 palavras, 30 páginas, visitou todos os clichês do setor, como a necessidade de "educar para inovar" (nas empresas) e a de formar mais engenheiros. O de sempre.

Disse que quer saltos na educação, em vez de melhorias incrementais. Ok. Como? Por meio de um "pacto nacional pela educação", em primeiro lugar. Uhm. Oh, torpor único do enfado. Isso é conversa. Mas passemos, ainda, pois o ministro acabou de chegar.

Depois desses prolegômenos, a gente espera que o ministro conte algo sobre, por exemplo, currículos mais eficazes ou, nas palavras dele, como "educar para inovar".

Inovação depende de boa educação para o trabalho (não depende, nem de longe, apenas de formar "cientistas de ponta". Quem vai trabalhar nas empresas inovadoras? Quem vai inovar processos no dia a dia, o arroz com feijão da inovação?).

Talvez sejam os oriundos das escolas que o Pronatec, em tese, vai multiplicar. Mas escolas técnicas precisam de professores de matemática, física e química. Mesmo hoje, o deficit de professores nessas áreas é de dezenas de milhares. Se o ensino médio em geral se expandir (e o técnico em particular), de onde virão os professores? Da China?

Isso não é trivial. É quase dramático. Quem liga?

Não adianta trocar o seis pelo meia-dúzia

Carlos Chagas, Tribuna da Imprensa

Depois de mandar demitir na hora o diretor-geral do DNOCS, assim que tomou conhecimento do desafio do líder Henrique Eduardo Alves, do PMDB, não haverá como justificar que a presidente Dilma venha a pedir ao deputado potiguar a indicação do substituto.

Se isso acontecer, como espera o próprio vice-presidente Michel Temer, o governo terá repetido às avessas a máxima de Joseph Stalin, para quem o comunismo dava dois passos à frente e um atrás. No caso da substituição de Elias Fernandes, envolvido em denúncias de corrupção, por outro indicado de Henrique Eduardo Alves, a presidente terá dado um passo à frente e dois atrás.

O simbolismo da exoneração meteórica do diretor-geral do DNOCS está no grito de independência de Dilma diante da ditadura dos partidos que sufocam seu governo. Parece, até prova em contrário, estar terminando o ciclo do loteamento do ministério e penduricalhos, que a presidente precisou engolir ao tomar posse.

Se agora ela cede e conserva o mesmo modelo, não haverá como pensar que o processo mudou. Em especial se o seis for substituído pelo meia-dúzia. Espera-se a nomeação de um técnico, de alguém capacitado a enfrentar as mazelas da seca no Nordeste, mesmo sem vinculação partidária.

Mas se vier um político ligado aos grupos fisiológicos que dominam o PMDB e parte do governo, terá a emenda ficado senão pior, ao menos igual ao soneto. Como o próximo capítulo dessa novela de horror ficou para ser encenado depois do retorno da presidente de Cuba e do Haiti, haverá tempo para meditações.

DUAS AGRESSÕES
Existem dúvidas, entre os líderes dos partidos que apóiam o governo, sobre qual das duas agressões mais despertou a indignação de Dilma Rousseff: se o desafio do líder Henrique Eduardo Alves, de que ela não tinha coragem para demitir o diretor-geral do DNOCS, ou a queixa dos caciques do PMDB, conhecida ontem, sobre a presidente blindar os amigos dela e passar a caneta em outros acusados de malfeitos.

Porque não deixa de ser comentário maldoso, tanto quanto um pouco verdadeiro, sobre Dilma não ter demitido Fernando Pimentel e Fernando Bezerra, ao tempo em que não poupou indicados pelo PMDB. Afinal, os dois ministros foram alvo de denúncias de irregularidades graves, e tiveram fôlego e apoio para defender-se e permanecer no Desenvolvimento Industrial e na Integração Nacional.

VEXAME
De todos os episódios envolvendo o PMDB e sua ânsia fisiológica, surge uma conclusão inevitável: está posta em frangalhos a legenda um dia responsável pela queda da ditadura no país. Nem é preciso fulanizar os atuais comandantes do partido se comparados com Ulisses Guimarães, Tancredo Neves, Teotônio Vilela, os autênticos e tantos outros guerreiros da democracia.

Dirão os céticos que as coisas começaram a mudar quando o partido foi para o poder. Afinal, José Sarney passava mal toda vez que recebia Ulisses Guimarães em seu gabinete, sempre com exigências de nomeações e ocupação de espaços no governo. O problema é que, naqueles idos, o PMDB vinha de estrondosa vitória eleitoral, detendo todos os governos estaduais, menos um, e maioria indiscutível na Câmara e no Senado. Agora, reduzido em sua força, oferece vexame em cima de vexame.

Como ser rico, livre e justo?

Carlos Alberto Sardenberg, O Globo

Os Estados Unidos têm a maior economia do mundo e, em renda per capita, estão entre os dez mais ricos. Considerando apenas os países grandes, os EUA são os mais ricos. Além disso, trata-se de uma democracia. Logo, é esse o modelo a ser copiado, certo?

Mas olhem o momento: uma baita crise financeira e a evidência de que os mais ricos sempre se saem melhor. Na prosperidade, ganham mais, na queda, perdem menos. Além disso, empresas e bancos, na liberdade de mercado, só pensam nos seus lucros, dane-se o povo. Não, esse sistema não serve mais, nem para os americanos.

Passemos, então, para a segunda maior economia do mundo, a China. Crescimento médio anual de 10% ao longo de três décadas! Há empresas privadas, nacionais e estrangeiras, mas as estatais e o governo controlam firmemente os negócios, impondo limites à ganância do mercado. Para os países emergentes, em especial, esse capitalismo de estado seria o modelo ideal para o crescimento rápido e mais equilibrado, certo?

Mas é uma ditadura – e provavelmente o modelo só para de pé nesse ambiente autoritário. O controle do governo gera muitas ineficiências e corrupção, pois os negócios dependem sempre do “apoio” de um governante ou de um dirigente do Partido Comunista. Além disso, além de salários baixos, há muita desigualdade, sim. Em Shangai, o padrão de vida é europeu. No interior, há regiões mais pobres que a África. Não, esse tipo de crescimento não justifica uma ditadura.

Passemos, então, para a Europa, a ocidental, onde se pratica o capitalismo do bem-estar social ou a economia social de mercado. A Alemanha, terceira maior economia do mundo, é o exemplo acabado: democracia, empresas privadas pujantes, mas com forte regulação, e um governo que fornece serviços universais de qualidade. São ricos, livres e têm a proteção do Estado – eis o modelo, certo?

Mas custa muito caro. Isso exige uma carga tributária cada vez mais elevada e, mesmo assim, a dívida dos governos já chegou a níveis insuportáveis. Esse custo e mais o excesso de regulação e de governo retiram competitividade das empresas. Resultado: baixo crescimento, níveis elevados de desemprego, especialmente entre os jovens. As gerações atuais estão protegidas, mas os mais jovens percebem que o futuro não garante a boa vida dos pais. Não, o modelo parece não servir nem para os próprios europeus.

Eis o debate que ocorre mundo afora, inconcluso. Voltaremos ao tema, claro.

Vitória brasileira?
E por falar em modelo, a inflação aqui fechou o ano passado exatamente no teto da margem de tolerância, 6,50% – e isso foi considerado uma vitória do governo.

A meta de inflação no Brasil é de 4,5% – que, em si, já é elevada para os padrões mundiais. Além disso, admite-se que ela seja estourada em até dois pontos para cima, em situações excepcionais e fora do controle do BC.

No caso de 2011, o BC brasileiro sustentou que a disparada da inflação no fim de 2010 e início do ano passado decorria fortemente de um “choque de alimentos” – com seca ou excesso de chuva prejudicando colheitas mundo afora e, assim, provocando uma inflação global.

Pela regra do regime de metas de inflação, se os índices estão acima do ponto, o BC usa sua arma principal, a alta de juros. Isso funciona quando consumo e investimentos estão muito aquecidos.

Mas por que fazer isso quando a culpa pela inflação não está em um excesso de demanda, e sim em desastres climáticos?

Acrescente-se ao quadro que a economia mundial está em queda – e a história parece fechada. O BC não apenas não precisa subir juros, mas pode reduzi-los, como está fazendo, afirmando que a inflação voltará à meta de 4,5% em algum ponto deste ano, certo?

Convém reparar: a inflação bateu no teto com o crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) quase certamente abaixo dos 3%. Em 2010, a inflação havia sido menor (5,91%), com PIB acelerado, a 7,5%. Ou seja, em 2011, tivemos menos crescimento, com mais inflação – e esta é uma combinação ruim em qualquer perspectiva.

Considerando o período 2008/11, a economia brasileira cresceu menos de 4% ao ano. Já a inflação, sempre medida pelo IPCA, registrou média anual de 5,58%, acima da meta. De novo, crescimento baixo com inflação elevada.

Resumo da ópera: inflação de 6,5% pode ser um alívio, não uma vitória.

Olhando para a economia real, é claro que não teria feito a menor diferença se o IPCA tivesse alcançado, digamos, 6,6%. Mas com ou sem variações nas casas depois da vírgula, o fato é que o Brasil continua com capacidade de crescimento limitada e com um nível de inflação perigosa e persistentemente elevado. Ao comemorar os 6,5%, o governo passa uma imagem equivocada.

Gastos com máquina pública crescem mais que investimentos

Wellton Máximo, da Agência Brasil 

Segundo números divulgados há pouco pelo Tesouro Nacional, as despesas de custeio encerraram o ano passado em R$ 140,2 bilhões, alta de 13% em relação a 2010

Mário Rodrigues/VEJA SÃO PAULO
Os investimentos federais, que englobam as obras públicas 
e a compra de equipamentos, 
tiveram alta de apenas 0,8%, somando R$ 47,5 bilhões

Brasília – Os gastos de custeio, para manutenção da máquina pública, voltaram a crescer mais que os investimentos em 2011.

Segundo números divulgados há pouco pelo TesouroNacional, as despesas de custeio encerraram o ano passado em R$ 140,2 bilhões, alta de 13% em relação a 2010.

Os investimentos federais, que englobam as obras públicas e a compra de equipamentos, tiveram alta de apenas 0,8%, somando R$ 47,5 bilhões.

Em 2009 e 2010, os investimentos haviam crescido em ritmo maior que o custeio. Outros tipos de gastos cresceram menos no ano passado.

As despesas com o funcionalismo, por exemplo, somaram R$ 179,3 bilhões em 2011, alta de 7,7%. O percentual é menor que os 9,8% verificados no ano anterior.



EUA rejeitam cargas de suco de laranja brasileiro

Tatiana Freitas, Folha de São Paulo

Os EUA identificaram em cinco cargas de suco de laranja brasileiro teor acima do permitido de um produto usado para combater doenças nas plantações. O fungicida carbendazim é liberado no Brasil, mas não em solo americano.

De 80 navios de suco de laranja testados pela FDA -- responsável por monitorar alimentos e medicamentos no país --, 11 apontaram presença de carbendazim acima do permitido pelos EUA, de 10 partes por bilhão. A agência também divulgou que 29 cargas passaram no teste, sendo duas do Brasil. Os demais resultados ainda devem ser divulgados.

Das 11, cinco cargas eram do Brasil e seis do Canadá, que também importa suco brasileiro. Para as cargas recusadas pela FDA, o importador tem 90 dias para exportar ou destruir o produto. Cada carga representa um navio, que pode transportar entre 15 mil e 40 mil toneladas do produto.

O Brasil é o maior exportador de suco de laranja do mundo e cerca de 15% dos embarques tem como destino os EUA.

TESTES
O governo dos EUA anunciou em 10 de janeiro que iria testar o suco de laranja importado do Brasil para checar a presença do fungicida.

A medida foi formalizada em carta à indústria americana 13 dias após receber o alerta de uma empresa local que detectara níveis baixos do pesticida carbendazim em suco brasileiro.

Silva Junior /Folhapress
Produção de suco de laranja em Araraquara (SP); 
produto é considerado básico pela OMC

Depilação íntima total e irrestrita é novo padrão de sensualidade

Laura Capriglione e Fernanda Reis, Folha de São Paulo

Médicos ainda batem boca, mas as mulheres parecem ter resolvido a polêmica: pelos pubianos, melhor não tê-los. O resultado é que nunca como agora vaginas foram observadas tão de perto e, por que não?, acariciadas.

Uma pesquisa realizada com 2.451 americanas pela Universidade de Indiana e pelo Instituto Kinsey para Estudos sobre Sexo, Gênero e Reprodução mostrou que:

1. Quanto mais jovens as mulheres (18 a 24 anos), maior a prevalência da remoção total ou parcial de pelos pubianos (87,7% das entrevistadas). No grupo com mais de 50 anos, 51,7% declararam não ter arrancado um só fio no mês anterior.

2. Mulheres que removeram todos os seus pelos pubianos pelo menos uma vez nos 30 dias anteriores tinham maior probabilidade de ter observado seus genitais no mesmo período.

3. E em que grupo se encontraram as mulheres mais confiantes em relação a sua imagem genital? Pois é. Entre as que fizeram a depilação íntima total ou parcial.

4. Por fim, as "peladas" reportaram índices de satisfação sexual significantemente maior do que suas colegas "cabeludas".

A mudança no padrão estético, que nos Estados Unidos aconteceu de uma década para cá, motivou a produção de vários estudos científicos. Foram migrantes brasileiras trabalhando como esteticistas que levaram a moda da depilação pubiana, praticada por aqui desde o advento do biquíni cavadão, para o outro lado do Equador.

Mas, mesmo na pátria das caça-pelinhos, os costumes estão mudando. As depiladoras admitem: se antes a moda era manter uma faixinha de pelos no meio (a parte que não apareceria mesmo usando biquíni), agora as meninas pedem a depilação ampla, total e irrestrita.

"A maioria já pede a depilação total", diz Maria Francisca Oliveira, do Salão Care, do Rio. "De 30 anos para menos, então, todas fazem."

Dói? "Dói sim, não vou mentir. E também custa caro --U$ 75 [ou R$ 132] a sessão. Por que elas então fazem? Três explicações: sexo, sexo e sexo", afirma a depiladora paulista Reny Ryan, 58, há 35 anos vivendo em San Francisco, Costa Oeste americana.

O pessoal do contra diz que se trata de mais um sintoma da clássica sujeição feminina aos homens, hoje convertidos à causa da depilação delas (para mostrar que não foi sempre assim, registre-se o furor que causou, em 1985, o nu peludo e cabeludo da atriz Claudia Ohana na "Playboy" nacional).

Se fosse simplesmente sintoma da sujeição feminina aos homens, como explicar que, na pesquisa americana, 86% das bissexuais e 74% das lésbicas se declarem total ou parcialmente depiladas, índices em tudo semelhantes aos 80% das heterossexuais?

Reny conta que, quando começou a depilar nos Estados Unidos, as mulheres chegavam pedindo para fazer sobrancelha e meia perna. "E só. Tive de ir com muito tato para convencer americanas puritanas a tirar toda a roupa e abrir as pernas para mim. É preciso ganhar a confiança, mas aí faço tudo: região pubiana, área anal, tudo."

Editoria de Arte/Folhapress



DESCOBERTA
Para a depiladora, essas mulheres percebem uma parte do corpo que nunca antes tinham visto. "Muitas surpreendem-se com a delicadeza da pele lisa e com sua própria aparência. Saem daqui com a disposição de comprar uma calcinha sexy", diz Reny, autora do livro "Confissões de uma Depiladora Brasileira nos Estados Unidos" (Matrix, 151 págs., R$ 24,90).

Segundo a pesquisa americana, parece haver uma correlação direta entre depilação e sexo oral. Mulheres que não removem pelos pubianos relataram, em 58,7% dos casos, ter recebido sexo oral nas quatro semanas anteriores à pesquisa. O índice subia a 70,8% para as que haviam feito uma remoção parcial e chegava aos 81,6% para aquelas sem pelo nenhum.

A dermatologista Mônica Aribi contraindica a depilação total: "Pelos protegem a região vaginal contra a invasão de bactérias e ajudam a manter a temperatura e o pH ideais para a região".

Cresce, porém, a corrente dos médicos que acham que a depilação --hoje em dia-- pode ser feita sem maiores prejuízos. "Com recursos como os sabonetes íntimos, a depilação não aumenta os riscos de infecção. Pode fazer, sim. Basta querer", diz a ginecologista Rosa Maria Neme, diretora do Centro de Endometriose São Paulo.

Entre as americanas, ainda é esmagadora a prevalência da depilação feita em casa, com a lâmina de barbear --como retratado na "Playboy" de agosto de 1995, com Adriane Galisteu no papel de raspadora e "raspadinha".

REMOÇÃO COM CERA
Os especialistas no assunto (médicos e depiladores) afirmam que a depilação com cera oferece um conforto maior para a mulher, desde que feita em local com alto padrão de higienização, sem reciclagem da cera.

O ginecologista Newton Busso diz que depilações feitas com cera reciclada expõem a mulher ao risco de contrair uma foliculite, inflamação do folículo piloso: "Como a cera é aplicada em uma temperatura alta, ela provoca a abertura do folículo, expondo-o mais a contaminações por bactérias."

Editoria de Arte/Folhapress