sexta-feira, março 30, 2012

Ação fascista e ilegal de Maria Rosário já produz vítimas.

Adelson Elias Vasconcellos

 O texto é longo, mas deve ser lido e refletido. Dele, podemos extrair a responsabilidade que as atuais gerações tem em relação ao nosso próprio país, ao futuro que desejamos  construir e a herança de pátria que desejamos entregar aos nossos  filhos e netos. Antes, porém, observem estas duas fotos abaixo. Comento em seguida.


Animais travestidos de pessoas humanas, 
cuspindo seu ódio ignorante contra militares da reserva.



Jamais imaginei que, um dia, assistiria no Brasil cenas que nos remetem à Alemanha nazista de perseguição e ódio. Lá, foram os judeus, os homossexuais e negros.  Aqui, são os militares da reserva. Contudo, o sentimento de ódio é rigorosamente o mesmo. E o doloroso, é vê-lo praticado por aqueles que já nasceram em um país livre, democratizado, próspero, mais justo, mais moderno, já reconciliado com sua própria história. Acreditem, o sentimento nesta hora não é de vergonha tampouco de indignação, mas de profunda tristeza. 

 Quando a civilização é invadida pela estupidez, atinge-se o grau de selvageria, de barbárie. As cenas explícitas de perseguição aos militares da reserva, por jovens que quando nasceram encontraram um país devolvido à democracia, tem uma mentora intelectual: Maria do Rosário. A ela se deve estas agressões e violências. Ela, que pertencia ao grupo que foi derrotado pela ditadura militar, ela que pertencia aos terroristas que sonhavam e ainda sonham com uma ditadura de esquerda, bem ao estilo de Cuba,  é a única culpada para este retrocesso que as fotos esfregam-lhe na cara. Ao contar a história do país do modo vigarista, distorcendo fatos e personagens, Maria Rosário deu salvo conduto e convidou jovens destemperados, ignorantes e pré-históricos a partirem para ações truculentas de agressões gratuitas. Talvez Maria do Rosário, este misto de ignorância e vigarice intelectual, esteja satisfeita com sua obra. Conseguiu incutir em parte da sociedade o ódio, o sentimento de perseguição, a destruição da sua própria história que não foi menos violenta do que a ditadura, já que assassinou dezenas de inocentes, e ainda se esconde por detrás por seu desprezo ao império da lei,  seus crimes e seu ideal totalitário.  

Mais e mais me convenço de que o país está sendo destruído intelectual e moralmente. Estão enterrando valores que construíram um mundo senão perfeito e mais justo, porém menos atrasado, mais decente, mais humano. Não é na justiça que Maria do Rosário colherá a maldade que está plantando. É na sua própria história e acredite, minha senhora, não haverá ideologia que baste para resgatá-la da obrigatória colheita.  

Não haverá condescendência nem perdão para quem, premeditadamente, empurra uma juventude sadia de corpo mas imatura de espírito contra pessoas que sequer conhecem, de quem nada sofreram, e a quem não é justo imputar-lhes culpa por um passado desonroso cujos maiores personagens já morreram. 

Esta ação ignóbil orquestrada e conduzida por Maria do Rosário sob a cumplicidade vergonhosa de uma presidente eleita sob o manto da democracia,  representa a essência suprema do fascismo. Aproveita-se de um povo de maioria essencialmente semianalfabeta,  cuja autodeterminação tem sido espezinhada e cooptada por um governo autoritário que invade direitos dos cidadãos para sua supremacia no poder, para torná-los massa de manobra a servir à sua essência desumana devotada à prática do mal e da intolerância. 


Perseguição nazista aos judeus: 
o Brasil não pode copiar o mau exemplo.



Quem da vingança se serve por ela será julgada. A esquerda brasileira jamais poderá atirar culpas apenas à ditadura militar que matou e torturou, porque ela também tem suas mãos impregnadas de sangue de inocentes e que, pela ação orquestrada em curso, parece não ter saciado o suficiente sua sede. Quer mais, quer continuar a matar, a torturar, a perseguir, a humilhar, a constranger.

Nunca Rui Barbosa foi tão atual quanto em seu discurso de quase cem anos atrás, no Senado Federal quando disse:
*
Sinto vergonha de mim por ter sido educador de parte desse povo, por ter batalhado sempre pela justiça, por compactuar com a honestidade, por primar pela verdade e por ver este povo já chamado varonil enveredar pelo caminho da desonra.


Sinto vergonha de mim por ter feito parte de uma era que lutou pela democracia, pela liberdade de ser e ter que entregar aos meus filhos, simples e abominavelmente, a derrota das virtudes pelos vícios, a ausência da sensatez no julgamento da verdade, a negligência com a família, célula-mater da sociedade, a demasiada preocupação com o “eu” feliz a qualquer custo, buscando a tal “felicidade” em caminhos eivados de desrespeito para com o seu próximo.


Tenho vergonha de mim pela passividade em ouvir, sem despejar meu verbo, a tantas desculpas ditadas pelo orgulho e vaidade, a tanta falta de humildade para reconhecer um erro cometido, a tantos “floreios” para justificar atos criminosos, a tanta relutância em esquecer a antiga posição de sempre “contestar”, voltar atrás e mudar o futuro.


Tenho vergonha de mim pois faço parte de um povo que não reconheço, enveredando por caminhos que não quero percorrer…


Tenho vergonha da minha impotência, da minha falta de garra, das minhas desilusões e do meu cansaço. Não tenho para onde ir pois amo este meu chão, vibro ao ouvir meu Hino e jamais usei a minha Bandeira para enxugar o meu suor ou enrolar meu corpo na pecaminosa manifestação de nacionalidade. Ao lado da vergonha de mim, tenho tanta pena de ti, povo brasileiro!


De tanto ver triunfar as nulidades, de tanto ver prosperar a desonra, de tanto ver crescer a injustiça, de tanto ver agigantarem-se os poderes nas mãos dos maus, o homem chega a desanimar da virtude, a rir-se da honra, a ter vergonha de ser honesto.
*
Há poucos dias, publiquei aqui comentários sobre o mesmo fascismo que empanturra a alma insensível e leviana de Maria do Rosário, que o país precisava desvencilhar-se rapidamente deste sentimento de vendita, desta incompreensível perseguição à miséria moral de reconstruir fatos passados sob uma ótica vigarista de quem cometeu os mesmos atos criminosos e as mesmas insanidades e atrocidades daqueles a quem hoje acusa e quer condenar.

Precisamos mirar á frente o futuro que nos espera e com o qual sonhamos, com a confiança e a certeza de que os erros passados servirão apenas derradeira lição para que o país e o povo não voltem a cometê-los. Ao empunhar esta bandeira estúpida de perseguir o passado, comandando uma marcha de vingança contra militares, quaisquer militares, culpados ou inocentes, Maria do Rosário dá provas da sua infeliz essência de psicopatia. Dementada pelo ódio, tenta pela distorção deste passado, purgar suas próprias culpas além da tentativa de curar suas próprias feridas fruto da frustração de não ter podido ver o Brasil de hoje debaixo da foice e do martelo.

Infelizmente, os ignorantes da história, ou por não tê-la nem vivido e presenciado tampouco conhecido e estudado, são surdos e cegos à razão e, dado o barulho que a estupidez e ódio proclamam com tamanha volúpia e algazarra,  se sedam e se deixam seduzir, conduzir e manobrar pelo mesmo ódio e estupidez hediondos.

Para estes vassalos do mal, resta-lhes a desculpa da ignorância e da orientação distorcida e mentirosa impregnados em sua formação míope, o mesmo não podendo reivindicar estes fascistas travestidos de defensores de direitos humanos, nos quais se alinham Dilma Rousseff, Maria do Rosário, José Dirceu, e tantos outros asseclas adoradores do deus Fidel. Ao alimentarem,  maquiavélica e conscientemente, o surgimento do ódio numa diminuta parte da sociedade, e uma parte ainda jovem e a quem o Estado deveria cuidar e zelar por uma formação decente e honesta, o governo de Dilma Rousseff justifica, mesmo que por vias transversas, que os militares tinham razão em evitar que os grupos de esquerdas vingassem, no solo brasileiro, seus intentos sórdidos de ditadura vermelha. Porque, agora já passados mais de duas décadas e meia  da reconquista do estado de direito democrático e com a sociedade reconciliada consigo mesma,  a tentativa espúria de destruir esta corrente de união para impor ideologias estranhas ao sentimento nacional, tentando recuperar o tempo perdido em busca de uma sociedade subjugada ao fascismo, ao vergalhão dos regimes totalitários, só pode derivar de mentes doentias, dementadas pelo próprio ódio que se tornou alimento de suas almas.

Faz alguns anos que, numa quase  profecia, venho alertando para este retorno ao passado. O povo brasileiro não chegou a conhecer o que vem a ser uma sociedade sob o jugo da utopia de esquerda. Achamos que Cuba ainda se encontra muito distante de nós, e que não corremos risco do Brasil mergulhar nas mesmas trevas. Porém, ao presenciar a maneira infame com que Maria do Rosário vem se portando a frente de uma secretaria de estado, inclusive escusando-se em não condenar Cuba, por exemplo, parece-me que, somente atravessando pela mesma experiência dolorosa que o povo cubano tem suportado há meio século, será possível para a sociedade brasileira parar de flertar, definitivamente,  com aquela tirania. Porque, senhores, é somente na escuridão que damos o real valor e a devida importância para a luz.

Parece que as esquerdas do passado ainda sentem sede de sangue de inocentes. Não estão saciados. Querem–no também no presente. Quem inculta ódio e perseguição contra quem quer seja, jamais poderá posar de democratas  e arrolar para si direitos exclusivos sobre a verdade. Não passa de lixo ideológico, e o da pior espécie, porque ataca a construção das liberdades com que faz uso, e pelas quais jamais moveu um dedo para construí-las, ao contrário, para praticar seu fascismo ideológico, que nega, justamente, este mesmo estado de liberdades e garantias individuais. São lobos em pele de cordeiro, são o esgoto que a História já enterrou juntamente com os muitos milhões de suas vítimas mundo afora, e que agora tentam, a todo custo, ressuscitarem no Brasil, em pleno século 21.

Que a sociedade faça sua escolha: ou a modernidade do século atual, com respeito às leis e à ordem e o retorno ao bom senso e à conciliação, ou o atraso ao estilo medieval, ressuscitando a velha e abominável prática inquisitorial. Até porque, nem Dilma nem Maria do Rosário e seus asseclas têm moral para condenar quem quer que seja. As esquerdas foram responsáveis pelo assassinato de mais de uma centena de brasileiros inocentes, pessoas que nada tinham a ver nem com a ditadura militar tampouco com ações de repressão, e menos ainda com as ambições de totalitarismo comunista. Assim, no dia em que este lado detrás dos muros confessar e assumir seus crimes e as mortes que provocaram, estarão em condições para falar de comissão da verdade e a ela ter assento. Até lá, o melhor que fazem é se calarem com um ponto final  para as suas mentiras e mistificações.

O país tem problemas demais para resolver. Tem carências e deficiências além da conta para atender e minorar. Tem miséria suficiente para trabalhar em debelar e extinguir, e até com que se preocupar em tempo integral. O de que menos precisamos é impregnar a sociedade com ódios e perseguições em nome de um passado contado de forma torta e vigarista. O de que menos carecemos é confronto nas ruas. A única coisa que nos trouxe até aqui, forjando esta imensa nação, foi o sentimento de união em torno de um mesmo idioma, de uma mesma bandeira, de um mesmo ideal de liberdade, de uma mesma fraternidade entre indivíduos diferentes em sua identidade física, mas com igual paixão entre si e que os tornam irmãos sociais. Alimentar, a exemplo do que faz Maria do Rosário,  sob delegação e incentivo da presidente da República, o ódio, a vingança e a perseguição, é colaborar para fracionar a sociedade e tirar-lhe sua própria característica que a torna um povo, é fragilizar nossa identidade como nação, é apostar que a baderna é a semente de construção de um futuro melhor. Pelo contrário: na baderna, na barbárie, na violência, na selvageria  só nos tornamos animais mais irracionais, e como sociedade, nos desintegramos e rompemos os históricos elos que nos unem e nos mantém civilizadamente organizados. Pelo esforço, trabalho e sacrifício de nossos pais e avós, não temos direito de delegar e entregar aos nossos filhos um país com tais correntes rompidas, desarticuladas entre si, desarmonizadas na sua essência. Eles jamais nos perdoarão pela desarmonia e pela ruptura desta sociedade. Até porque, não teremos mais desculpas para oferecer.

Não é sem razão que desconfio destes movimentos de jovens insuflados para a violência, perseguições e pichações. Nenhum deles sofreu na ditadura. Aquilo que lhes afeta diretamente como a corrupção federal, a má qualidade do ensino em seus diferentes níveis, os cortes de verbas para educação e saúde, a péssima remuneração que é paga aos aposentados (um dia os afetará diretamente), os péssimos serviços de transporte coletivo, tudo isso os atinge diretamente. No Chile, na Espanha, na Inglaterra e na França, não se vê estes levantes de jovens lutando por estas bandeiras de atraso, por estas causas com prazo de validade vencido há mais de trinta anos. Eles saem às ruas para falarem de futuro, para cobrar melhor educação. No Brasil, contudo, jovens cooptados miseravelmente pela falsificação da história dos PC de qualquer coisa, que jamais levantaram um dedo em favor da democracia, pelo contrário, e a história os desmente sem riscos, se dedicam a servir de massa de manobra para a baderna, para a perseguição, para o ódio, para o vandalismo, cujo resultado final sempre resulta em prejuízo da própria sociedade em que se acham inseridos. Há quem considere esta meia dúzia de ignorantes e imbecis, representantes legítimos e únicos do real sentimento da juventude brasileira. Mentira:  é vigarice intelectual e informativa das mais cretinas. O que o jovem brasileiro médio mais deseja é educação de qualidade, emprego farto e com perspectivas reais de realização profissional, num país onde o Estado não o assalte com impostos extorsivos e serviços públicos degradantes. Para a meia dúzia de desmiolados, sobra o barulho e as arruaças, em nome apenas do barulho e das arruaças. Nada além disto. Até o nome como este grupelho se identifica diz muito da ideologia política pobre que professam: Levante Popular da Juventude. Nem Moscou em sua fase mais comunista foi tão criativa!

E que fique a lição para todos, especialmente para os que nasceram já com a democracia reconquistada: quando um governo, qualquer governo, insiste em querer contar a história do seu país com uma versão OFICIAL, estejamos certos, o flerte com o totalitarismo é inevitável. Cabe aos governos, pelo menos os democráticos em uma sociedade civilizada e séria, governar o país segundo as leis e um projeto de país. Ou seja, o governo ajuda, com a parte que lhe cabe, a escrever a história, não é sua competência contá-la segundo sua visão que, quase sempre, é totalmente distorcida da realidade.  Tanto é assim que, os muitos PC de qualquer bagunça e com os quais o governo Dilma está impregnado, são partidos cuja bandeira sempre se alinhou com as piores ditaduras do planeta, as comunistas, e pretendiam instalar o mesmo império autoritário e tirano no Brasil. Virem agora posar como  defensores da democracia, não chega a ser apenas piada: é vigarice mesmo, ou me provem quando e em que momento da ditadura militar levantaram bandeiras  pela democracia? Ou ainda, me provem que a Lei de Anistia não nasceu justamente de movimentos populares, vozes representantes da própria sociedade brasileira e que exigiam anistia ampla, geral e irrestrita? Esta, senhores, é a melhor resposta que se pode dar aos canalhas da esquerda e, eles gostem ou não, é toda a verdade que se negam aceitar. Por quê? Porque esfrega aos olhos de todos eles, os grandes crápulas e assassinos que sempre foram e que, de um modo geral, ainda são. E é o mesmo Ruy Barbosa quem nos ensina:  "...a anistia, que é o olvido, a extinção, o cancelamento do passado criminal, não se retrata. Concedida, é irretirável, como é irrenunciável, definitiva, perpétua”. Assim, não será uma Maria do Rosário qualquer quem irá superar tamanha sabedoria. Longe disso, falta-lhe intelecto para tanto.

 O Brasil já suporta intolerância em demasia, para arcar com uma grotesca falsificação da verdade.


Os fascistoides estão nas ruas. Ou: Dilma saiu da VAR-Palmares; precisa agora deixar claro que a VAR-Palmares saiu de Dilma

Reinaldo Azevedo
Veja online

Fogo no estado de direito: embora se queiram a encarnação do bem, 
eles é que estão desrespeitando a democracia e o estado de direito 
(Foto: Fábio Motta/AE)

Ontem, o PC do B, que tem um ministério no governo Dilma Rousseff — e sou justo: Aldo Rebello (Esportes) fez um excelente trabalho quando relator do Código Florestal na Câmara —, levou ao ar trechos do seu programa no horário político gratuito. É uma peça patética, que não resistiria a uma abordagem minimamente objetiva. O programa inteiro vai ao ar hoje.  Segundo a versão tornada pública, o partido está, desde sempre, comprometido com a democracia. Explorou-se até a figura de Luiz Carlos Prestes. Não sei se houve algum entendimento com a família do líder comunista. O fato é que o PC do B que está aí hoje deriva justamente da linha que havia rompido com… Prestes! Assistiu-se a uma soma formidável de mentiras, de retórica oca, de vigarices intelectuais. O pior momento, certamente, é aquele em que o PC do B tenta afetar sua pureza e rigidez ideológicas. Se estivesse agarrado a seu credo original, seria péssimo. Mas isso também é mentira. É hoje um partido fisiológico de esquerda, como qualquer outro, que vai se alimentando de carguinhos e de dinheiro público. O escândalo das ONGs, no ano passado, ilustra bem o que quero dizer. Mas não vou me me perder nesse particular porque o objeto deste texto é outro.

Lembrei o caso do PC do B porque foi o partido que protagonizou a guerrilha do Araguaia. Jamais teve compromisso com a democracia. É de tal sorte admirador da ditadura comunista que, atenção!, até hoje não reconhece o processo de desestalinização da União Soviética. Krushev segue sendo, para eles, um algoz do socialismo. Gostam mesmo é de Stálin e seus métodos. Nota: a URSS acabou, como vocês sabem, mas o amor do PC do B pela tirania permanece. Não obstante, O PARTIDO É LIVRE PARA RECONSTITUIR A HISTÓRIA COMO QUISER. Como o comunismo perdeu a batalha no país, temos democracia e liberdade.

A própria presidente Dilma Rousseff é beneficiária desses valores. Ex-membro de dois grupos terroristas, o Colina (Comando de Libertação Nacional) e a VAR-Palmares (Vanguarda Armada Revolucionária Palmares), também ela, aqui e ali, em seus discursos, reconta o passado como lhe dá na telha e exalta aquela juventude — qual mesmo??? — que teria lutado por democracia. Falso! Tão falso quanto afirmar que ela cumpriu a promessa de construir 1.700 creches em 2011. No livro “Combate nas Trevas”, o historiador comunista Jacob Gorender cita justamente o Colina como um grupo que assumia claramente uma perspectiva terrorista. E o mesmo se diga da VAR-Palmares, que surgiu justamente da fusão daquela primeira organização a que pertenceu Dilma com a VPR (Vanguarda Popular Revolucionária), de Carlos Lamarca. Juntos e em associação com outros, os três grupos mataram dezenas de pessoas que nem sequer tinham ligação com a luta política. Consta que Dilma, pessoalmente, não matou ninguém. Mas pertencia ao comando — inclusive cuidando de parte da grana — de grupos que mataram. Isso é inequívoco. Como é inequívoco que Colina, VPR ou VAR-Palmares jamais quiseram democracia.

Não obstante, Dilma tem a liberdade, que ela não ajudou a construir, de contar a história como lhe dá na telha. Mais: deu força à criação de uma tal Comissão da Verdade que, vejam vocês!, para escândalo de qualquer acadêmico honesto da área (ainda que crítico ferrenho do regime militar), vai definir uma “verdade histórica oficial”, uma verdade de estado. Isso é autoritário em sua própria natureza. Dilma não só mistifica o próprio passado como nomeia pessoas que seguem a sua trilha, a exemplo de Eleonora Menicucci, ministra das Mulheres. Ex-membro do POC (Partido Operário Comunista), também ela — assaltante confessa, no passado, para financiar “a revolução” — afirmou no discurso de posse ter sido uma jovem empenhada na construção da democracia.

A democracia, no Brasil, virou a água benta do pecador compulsivo que entra numa igreja. Todo mundo pode meter a mão lá e se persignar, o que não quer dizer que esteja com a alma e com o passado limpos. Não mesmo! Mas a democracia permite a Dilma, a Eleonora e ao PC do B contar a sua própria versão da história. Não deveria permitir, mas está sendo feito, que essa história distorcida virasse história oficial. Então vamos ao ponto.

Por que o Clube Militar não pode fazer um seminário sobre 1964? O objetivo não era exatamente “comemorar” o golpe, como se está dizendo por aí, mas abordar o período segundo uma ótica, estou certo, que não é exatamente a da esquerda. O Clube Militar é, como o nome diz, um clube, uma entidade associativa. Mais ainda: já vimos que a lei garante aos militares da reserva o direito de se posicionar sobre temas políticos. Não há qualquer restrição. Ademais, ninguém estava lá incentivando o golpismo.

Mas quê… Desde o governo Lula, MAS DE FORMA MAIS ACENTUADA SOB A GESTÃO DILMA, os revanchistas estão tentando criar confusão e trazer o passado a valor presente, mas com uma particularidade: UM DOS LADOS, A ESQUERDA, PODE DIZER DE SEUS ADVERSÁRIOS O QUE BEM ENTENDER, MAS SEUS ADVERSÁRIOS ESTARIAM PROIBIDOS DE DAR A SUA VERSÃO ATÉ SOBRE SI MESMOS. Entenderam qual é o busílis? Não só a “verdade” se tornou monopólio de um dos lados como o próprio direito de se manifestar.

“Ah, mas onde já se viu falar sobre 1964???” Ora… Onde já se viu Dilma e o PC do B afirmarem que queriam democracia? O tema debatido lá nesta quinta, de todo modo,  é irrelevante. Sei do que falo. Esse mesmo Clube Militar promoveu, em setembro de 2010, um debate sobre, pasmem!, “Liberdade de expressão”. Os convidados a falar éramos eu, Merval Pereira, Paulo Uebel (Instituto Millenium) e Rodolgo Machado Moura, representante da Abert (Associação Brasileira de Emissoras de Rádio e Televisão). Ninguém nem sequer tocou em 1964 ou coisa parecida. Atenção! Ao mesmo tempo em que debatíamos ali liberdade de expressão, o Sindicato dos Jornalistas de São Paulo abria suas portas para uma manifestação das centrais sindicais, que pediam “controle da mídia”. Isto mesmo: no Clube Militar, falávamos de liberdade de expressão; no Sindicato dos Jornalistas, defendiam a censura. Pois bem: também naquele caso, adivinhem quem apareceu para protestar… A Juventude Socialista! Contei a história aqui.

Há três dias, hordas sob o comando do MST — evidência omitida pelos jornais — saíram perseguindo pessoas por aí e pichando suas casas e local de trabalho sob o pretexto de pedir a instalação da Comissão da Verdade. Isso é “justiça de rua”, é fascismo. Agora, um bando decide agredir e xingar os militares da reserva, que têm o direito legal de debater o que lhes der na telha. Ninguém estava lá conspirando contra a ordem e pregando golpe de estado. Tais ações estão sendo claramente incentivadas, instigadas e, na prática, apoiadas pelo governo federal. Consta que havia 350 baderneiros por lá. Não será difícil, a persistir esse estado de coisas, encontrar outras 350 dispostas a defender os que estão sendo caçados e cassados ao arrepio da lei.

O que quer Maria do Rosário?
O que quer Dilma Rousseff?
O confronto de rua?

Dilma já tem problemas demais para resolver e está, lentamente, dando comida para alguns monstrinhos que estavam guardados na gaveta. Uma intervenção militar hoje em dia seria, felizmente, impensável! Nem por isso as forças que odeiam a democracia hoje, como a odiavam no passado, estão livres para promover seus “justiçamentos” ao arrepio da lei. Se a instituições estiverem tão corroídas a ponto de não poderem reagir, não tenham dúvida de que a sociedade, um pedaço dela ao menos, reage.

A presidente tem de fazer a escolha entre a democracia e a guerra de todos contra todos. Ela já saiu da VAR-Palmares faz tempo — por isso não permito que seja chamada de “terrorista” aqui. Falta agora demonstrar que a VAR-Palmares também saiu de Dilma. Há hoje um claro incentivo à baderna que emana do Palácio do Planalto. E isso tem de acabar. Em nome da lei e da Constituição!

É com elas que Dilma governa, não com seu passado supostamente glorioso. Até porque ele é controverso. Os familiares das vítimas do Colina e da VAR-Palmares sabem disso muito bem.

A justiça deve valer para os dois lados

Adelson Elias Vasconcellos

Bandido bom é bandido preso, certo?. E isto é válido tanto para o Zé ninguém, quanto para um ministro de estado, ou um magistrado, ou até um senador.  Ninguém, seja pela constituição, sejam pelos valores consagrados em uma democracia, está acima da lei. Ponto.

Dito isto, creio ser hora da gente analisar com um pouco mais de cuidado a tromba d’água que está sendo despejada sobre a cabeça do senador Demóstenes Torres. Primeiro, seus antecedentes na vida pública sempre o recomendaram como um homem de bem.  Por onde passou, nunca se soube de qualquer deslize, falcatruas, mal feitos (que hoje, no governo petista,  virou sinônimo para corrupção), ou qualquer negociata fora dos limites legais. No senado, Demóstenes sempre se comportou como um intransigente defensor da lei.

Isto o isenta de que, ao longo do tempo tenha cometido algum crime? Não, é claro, mesmo que nada se saiba ou se tenha descoberto.

Quando deflagrou-se  esta operação sobre a atividade de Carlinhos Cachoeira, Monte Carlo, o que mais se noticiou – podem procurar na imprensa – foram suas ligações com um grande número de políticos. E parte desta imprensa, devidamente requintada pelo oficialismo petista, passou a cobrar dos demais órgãos que se mantiveram neutros em suas análises, textos de puro denuncismo, ou seja, que também nomeassem os políticos com quem Cachoeira se relacionava. 

A prisão de Cachoeira resultou de um longo processo de investigação centrado a partir de escutas telefônicas, que se dizem todas devidamente autorizadas pela Justiça. Há um advogado famoso, militante petista de carteirinha, o Kakai , que afirma que as escutas referentes ao senador Demóstenes são ilegais, já que ele tem foro privilegiado, e as escutas deveriam, no caso, ter autorização do STF. Errado. Demóstenes não era alvo das investigações, seu nome aparece durante as investigações, portanto, tanto quanto se saiba, as escutas são legais.

Se restar comprovado que Demóstenes agiu de maneira criminosa, seu mandato deve ser cassado e ele deve responder na Justiça pelos crimes que tenha cometido e pagar por eles. Contudo, até lá, primeiro se deve investigar com cautela para não se cometer uma grave e irreparável injustiça contra um homem público com passado limpo e nobre. 

Tudo que vai acima, portanto, é o lugar comum desta história, é o que  manda o bom senso. Porém, há partes neste enredo que não se encaixam. Vamos ver? Se há dezenas de políticos envolvidos neste rolo, por que somente o nome do senador goiano é que vazou até agora? Se as escutas telefônicas, mesmo que autorizadas pela Justiça, são e devem permanecer sob sigilo, por que, dia após dia, semana após semana, desde o estouro da boiada, trechos das escutas, e somente as que dizem respeito ao senador Demóstenes Torres, é que têm sido vazadas para a imprensa? E com qual intenção tais vazamentos dizem respeito a um entre muitos? 

Vejam o caso das licitações viciadas e compras corrompidas de hospitais públicos, como a que recentemente o Fantástico, da Globo, revelou. Vejam com que facilidade um repórter conseguiu detalhes e contato com empresas que “compram” o fornecimento de bens e serviços! Como que um caso destes não foi descoberto pela Polícia Federal, por exemplo? 

E mais: as escutas que estão sendo reveladas agora, já se encontram em poder de Roberto Gurgel, Procurador da República, desde 2009. Pois bem: somente agora, às vésperas de uma eleição, é que alguém lembrou em divulgá-las e,  mesmo assim,  contrariando dispositivo legal quanto a sua confidencialidade? 

O enredo lembra, em certos aspectos ao que aconteceu com o ex-governador Arruda do Distrito Federal, quando já se conhece que ali houve o jogo sujo de bastidores tramado e conduzido pelo PT. Arruda não é flor que se cheire, trata-se, como se viu, de um bandido com mandato público. Deve pagar, no rigor da lei, pelos crimes que cometeu, do mesmo modo como o senador Demóstenes estará sujeito ao mesmo rigor, se restar comprovado, ATENÇÃO, sua culpa. 

O que me parece é que se está fritando de forma premeditada, um nome forte da oposição, alguém que incomodava por sua palavra e postura, os que se acham donos do poder.  Das últimas revelações das escutas, a primeira impressão que tive é a de que Demóstenes teria descontados cheques com Cachoeira, mas há quem insista que se trata de “mesada” paga por pilantra à Demóstenes. Lendo trechos do que foi gravado, isto não está claro. Contudo, independente do que tenha havido, ficam claras duas coisas: o senador, por mais amigo que fosse de Cachoeira, não poderia aproximar-se tanto de um bandido quanto está se vendo. Deveria manter acautelada e prudente distância, para que a proximidade  não o envolvesse.  Segundo, estas revelações, estes vazamentos a conta gotas, narram falas apenas de um dos tantos políticos cujas conversas ou citações foram ouvidos e gravados, e assim mesmo alguém do partido oposicionista e que, por sua atuação no Senado, sempre incomodou o governo. Sinceramente,  isto tudo cheira mal, muito mal. 

Fez bem o advogado do senador goiano pedindo que lhe fosse concedido acesso ao material coletado pela Polícia Federal e entregue ao Ministério Público. Ninguém pode ser acusado de algo que desconhece. Há muito o que ser explicado, seja por parte do senador, cuja honra acaba de ser atingida de maneira fulminante (se justa ou injustamente é o que ainda vai se ver), quanto por parte tanto do Ministério Público e também pela Polícia Federal por vazamentos ilegais de trechos selecionados de escutas telefônicas cobertas por sigilo. Do contrário, se estará facilitando o caminho para a instalação de um Estado policialesco, o que depõe gravemente contra as instituições e valores democráticos do país.

Reafirmo o que disse lá no alto: se comprovada qualquer transgressão por parte do senador Demóstenes no exercício de seu mandato, ele deve responder na Justiça por seus atos. Contudo, e dentro da mesma lógica, devem responder na Justiça também os irresponsáveis que, de forma calculada e ilegal, tem vazado trechos de grampos telefônicos que  deveriam manter-se sob sigilo até o final das investigações. O Brasil até pode parecer uma república de bananas, mas passa da hora de começar a se comportar como nação séria, onde direitos e garantias não sejam violados pelo Estado a todo instante e, principalmente, em anos eleitorais. .  

A incompetência virou elogio

Marco Antonio Villa
O Globo

A falta de uma boa equipe ministerial, a ausência de projetos e o descompromisso com o futuro do país são evidentes.

O governo Dilma Rousseff lembra o petroleiro João Cândido. Foi inaugurado com festa, mas não pôde navegar. De longe, até que tem um bom aspecto. Mas não resiste ao teste. Se for lançado ao mar, afunda. Não há discurso, por mais empolgante que seja, que consiga impedir o naufrágio. A presidente apresenta um ar de uma política bem-intencionada, de uma tia severa e até parece acreditar no que diz. Imagina que seu governo vai bem, que as metas estão cumpridas, que formou uma boa equipe de auxiliares e que sua relação com a base de sustentação política é estritamente republicana. Contudo, os seus primeiros 15 meses de governo foram marcados por escândalos de corrupção, pela subserviência aos tradicionais oligarcas que controlam o Legislativo em Brasília e por uma irritante paralisia administrativa.

Inicialmente, a presidente vendeu a ideia que o Ministério não era dela, mas de Lula. E que era o preço que teria pagado por ser uma neófita na política nacional. Alguns chegaram até a acreditar que ela estaria se afastando do seu tutor político, o que demonstra como é amplo o campo do engodo no Brasil. Foi passando o tempo e nada mudou. Se ocorreram algumas mudanças no Ministério, nenhuma foi por sua iniciativa. Além do que, foi mantida a mesma lógica na designação dos novos ministros.

Confundindo cara feia com energia, a presidente continuou representando o papel de hábil executiva e que via a política com certo desprezo, como se os seus ideais de juventude não estivessem superados. Como sua base não é flor que se cheire, acabou até ganhando a simpatia popular. Contudo, não se afastou deste jardim, numa curiosa relação de amor e ódio. Manteve o método herdado do seu padrinho político, de transformar a ocupação do Estado em instrumento permanente de negociação política. E ainda diz, sem ficar ruborizada, que não é partidária do toma lá dá cá. Dá para acreditar?

O Ministério é notabilizado pela inoperância administrativa. Bom ministro é aquele que não aparece nos jornais com alguma acusação de corrupção. Para este governo, isto basta. Sem ser enfadonho, basta destacar dois casos. Aloizio Mercadante teve passagem pífia pelo Ministério da Ciência e Tecnologia. Se fosse demitido na reforma ministerial – aquela que a presidente anunciou no último trimestre do ano passado e até hoje não realizou -, poucos reclamariam, pois nada fez durante mais de um ano na função. Porém, como um bom exemplo do tempo em que vivemos, acabou promovido para o Ministério da Educação. Ou seja, a incapacidade foi premiada. O mesmo, parece, ocorrerá com Edison Lobão, que deve sair do Ministério de Minas e Energia para a presidência do Senado, com o beneplácito da presidente. O que fez de positivo no seu ministério?

Numa caricata representação de participação política, Dilma patrocinou uma reunião com o empresariado nacional para ouvir o já sabido. Todas as reclamações ou concordâncias já eram conhecidas antes do encontro. Então, para que a reunião? Para manter a aura da Presidência-espetáculo? Para garantir uma fugaz manchete no dia seguinte? Será que ela não sabe que não tem o poder de comunicação do seu tutor político e que tudo será esquecido rapidamente?

Uma das maiores obras da atualidade serve como referência para analisar como o governo trata a coisa pública. Desde quando foi anunciada a transposição de parte das águas do Rio São Francisco, inúmeras vozes sensatas se levantaram para demonstrar o absurdo da proposta. Nada demoveu o governo. Além do que estava próxima a eleição presidencial de 2010. Dilma ganhou de goleada na região por onde a obra passaria – em algumas cidades teve 92% dos votos. Passaria porque, apesar dos bilhões gastos, os canteiros estão abandonados e o pouco que foi realizado está sendo destruído pela falta de conservação.

Enquanto isso, estados como a Bahia estão sofrendo com a maior seca dos últimos 30 anos. E, em vez de incentivar a agricultura seca, a formação de cooperativas, a construção de estradas vicinais e os projetos de conservação da água desenvolvidos por diversas entidades, a presidente optou por derramar bilhões de reais nos cofres das grandes empreiteiras.

A falta de uma boa equipe ministerial, a ausência de projetos e o descompromisso com o futuro do país são evidentes. O pouco – muito pouco – que funciona na máquina estatal é produto de mudanças que tiveram início no final do século XX. A ausência de novas iniciativas é patente. Sem condições de pensar o novo, resta ao governo maldizer os países que estão dando certo em vez de aprender as razões do êxito, reforçando um certo amargor nacional com o sucesso alheio. No passado a culpa era imputada aos Estados Unidos; hoje este papel está reservado à China.

Como em um conto de fadas, a presidente acredita que tudo terá um final feliz. Mas, até agora, o lobo mau está reinando absoluto na floresta. Basta observar os péssimos resultados econômicos do ano passado quando o Brasil foi o país que menos cresceu na América do Sul. E a comparação é com o Paraguai e o Equador e não com a Índia e a China.

Não é descabido imaginar que a presidente foi contaminada pelo “virus brasilienses”. Esta “espécie”, que prolifera com muita facilidade em Brasília, tem uma variante mais perigosa, o “petismus”. A vacina é a democracia combinada com outra forma de governar, buscando a competência, os melhores quadros e alianças programáticas. Mas em um país marcado pela subserviência, a incompetência governamental se transformou em elogio.

Em busca do nada

J.R. Guzzo
Reista Veja

A palavra provavelmente mais correta para descrever a maior parte das atividades do governo brasileiro hoje em dia, em português comum, seria “farsa”. Mas é melhor, por prudência e pela cortesia com que se devem tratar nossas altas autoridades em geral, utilizar alguma coisa mais leve ─ “ficção”, talvez, é o termo que se aconselha, já que não pode ser entendido como ofensa (Deus nos livre de uma coisa dessas), e ao mesmo tempo serve para resumir com bastante clareza a atual conduta do superior comando da nação.

Entre as paredes do caixote de concreto e vidro em que funciona o Palácio do Planalto, é fabricada todos os dias a impressão de que ali se vive numa colmeia de trabalho sem descanso e de operosidade sem precedentes; segundo essa visão, apresentada como fato praticamente indiscutível na propaganda oficial, ainda não foi criado no Brasil o problema que as prodigiosas qualidades de gerência atribuídas à presidente Dilma Rousseff tenham deixado sem solução. Mas um metro para fora do Palácio, na vida real que começa na rua, o mundo dos fatos, indiferente ao que se diz do lado de dentro, mostra o contrário: nada do que o governo manda resolver, ou quase nada, consegue ser resolvido.

Falta de tempo para mostrar serviço de verdade, do tipo que pode ser visto e comprovado, com certeza não é. Já faz mais de nove anos que a presidente Dilma está dentro do governo, no qual dá expediente desde o primeiro dia de mandato de seu antecessor ─ com a função, justamente, de ser a tocadora de obras número 1 da República. Alguma coisa de porte, a esta altura, já tinha de ter aparecido. Mas não aparece.

Tão inúteis quanto a passagem do tempo ou os oceanos de dinheiro que o poder público tem para gastar vêm sendo as demissões em série na equipe ministerial. Em pouco mais de um ano de governo Dilma, já foram para a rua doze ministros, mais os lideres no Senado e na Câmara ─ todos nomeados por ela mesma, é verdade, incluindo-se aí alguns dos mais notórios candidatos a morte súbita que já passaram por um ministério na história deste país. Os resultados disso, pelo que se viu até agora, foram nulos. As demissões, sem dúvida, mostram que a presidente está disposta a valer-se de sua posição no topo da cadeia alimentar de Brasília ─ pode mandar qualquer um embora, e não pode ser mandada embora por ninguém.

O problema, tristemente, é que o exercício repetido de toda essa autoridade não tem sido capaz de gerar nenhum efeito útil para a vida prática do país e do cidadão. Seja porque Dilma está substituindo tão mal quanto nomeou, seja porque os novos ministros vivem paralisados pelo medo de perder o seu emprego, o fato é que nenhuma de todas as trocas feitas até agora resultou num único metro a mais de estrada asfaltada, ou num poste de luz, ou em qualquer coisa que preste.

O que certamente não falta, nesse deserto de resultados, é a construção de miragens. Empreiteiras de obras públicas, por exemplo, fazem aparecer na imprensa fotos da presidente em cima de um carrinho de trem, cercada por um alarmante cordão de puxadores de palmas, numa visita de inspeção à Ferrovia Norte-Sul. Uns tantos minutos depois, todos voltam a seu carro oficial ou helicóptero e deixam para trás a realidade.

A Ferrovia Transnordestina, por exemplo, com 1700 quilômetros de extensão, foi iniciada em 2006 e deveria ter sido entregue em 2010; já estamos em 2012, o custo de 4,5 bilhões de reais pulou para quase 7 bilhões e tudo o que se conseguiu construir, até agora, foram 10% do percurso. O petroleiro João Cândido, que começou a ser construído quatro anos atrás para a Petrobras em Pernambuco, e foi lançado ao mar em 2010 pelo ex-presidente Lula como um prodígio da nova indústria naval brasileira, voltou a terra firme logo após a cerimônia; continua lá até hoje. Entre as mais espetaculares obras do PAC, com todos os seus bilhões em investimentos, inclui-se o “trem-bala” ─ mas a única coisa que se pode dizer com certeza sobre o “trem-bala”, até agora, é que ele não existe.

A presidente Dilma, que sabe muito bem o que é inépcia, tenta há nove anos achar o caminho de saída desse vale de lágrimas; pode continuar tentando pelos próximos cinquenta e não vai encontrar nada. Não vai encontrar porque procura no lugar errado; imagina que a solução está em criar mais repartições públicas, mais regras, mais controles, mais programas e mais tudo o que faça um “estado forte”. É o tipo de ideia que encanta a presidente. Nunca deu certo até hoje. Mas ela continua convencida de que um dia ainda vai dar.


Palpite infeliz

Dora Kramer 
O Estado de S.Paulo

Não há presidente da República que não queira e no mais das vezes consiga influir na eleição dos presidentes da Câmara e do Senado.

O gesto é institucionalmente deformado, mas não há nada de novo na pretensão de Dilma Rousseff de se imiscuir nos assuntos do Congresso tentando emplacar o atual ministro de Minas e Energia, Edison Lobão, no comando do Senado a partir de 2013.

De inédito, contudo, há a forma. Nunca antes neste País se viu uma operação tão atabalhoada. Pela antecedência, pela falta de sutileza e pelo excesso de audácia referida na autoconfiança plena de imprevidência.

Para começo de conversa, há uma incongruência. Dilma busca firmar a imagem de intransigente que não abre mão de suas prerrogativas para ceder às exigências de divisão de poder almejada pelos integrantes de sua coalizão.

Não quer interferências, mas não se peja em interferir no funcionamento do Parlamento, subtraindo dos partidos a autonomia para decidir questões que dizem respeito à instituição, cujo compromisso primeiro é (ou deveria ser) com a sociedade.

Oficialmente não há essa tentativa de ingerência de que se fala. O Palácio do Planalto divulgou uma nota politicamente correta desmentindo "tais referências" que "desrespeitam a independência do Poder Legislativo e afrontam as prerrogativas dos senhores parlamentares". Mui respeitoso o texto.

Só que o mesmo "Palácio" passa recibo no sentido oposto quando ensaia uma operação casada e orienta o secretário executivo do ministério das Minas e Energia, Márcio Zimmermann - homem de confiança da presidente - a se filiar ao PMDB, a fim de liberar o titular (Edison Lobão) para voltar ao Senado como candidato à presidência.

Na prática tiraria a pasta do partido e, em tese, manteria a participação pemedebista no governo. De fachada.

Não fosse apenas o caráter intervencionista da manobra, resta ainda sua natureza rudimentar aliada ao fato de a ação de Dilma resultar na compra de mais uma briga.

A proposta que faz ao PMDB é a de aceitar mais uma vez cumprir o papel de barriga de aluguel, como já ocorreu com a da filiação do ministro da Saúde no governo Lula, José Gomes Temporão (hoje no PSB), com Henrique Meirelles (hoje no PSD) e com o próprio Lobão quando saiu do antigo PFL (DEM) para o PMDB a fim de atender ao mesmo tipo de conveniência.

A presidente tem o direito e o dever de controlar seus ministérios, mas não ao custo de uma intervenção em um Poder autônomo segundo os preceitos da República, como se a delegação recebida nas urnas lhe conferisse credenciais para presidir também o Congresso.

O artista. 
Candidato do PMDB à Prefeitura de São Paulo, Gabriel Chalita firmou pacto de não agressão e promessa de aliança no segundo turno com Fernando Haddad, mas seu objetivo obviamente é chegar na frente do petista.

Isso tomando por base o cenário desenhado pela campanha do pemedebista de que haverá dois turnos devido ao grande número de candidatos, e que José Serra tem vaga garantida.

Chalita aposta no tempo de televisão - para atrair aliados e tirar o melhor proveito de seus atributos, digamos, artísticos - e no discurso voltado para os problemas da cidade. Correria em faixa própria enquanto PT e PSDB travariam uma luta política de caráter nacional.

Na decisão de manter a candidatura pesaram dois fatores: a necessidade do PMDB nacional de voltar a crescer em São Paulo e a inigualável exposição proporcionada por uma campanha eleitoral.

Exemplos levados em conta: Haddad foi ministro da Educação durante oito anos e tem 3% nas pesquisas; Celso Russomanno (PRB) foi candidato ao governo estadual em 2010 e agora aparece com índices entre 17% e 19% para prefeito.

Prova cabal. 
O acordo firmado na ausência de Dilma para a votação da Lei da Copa esclarece a dúvida: a crise realmente viajou.

Trabalhe mais, eles têm de gastar

Carlos Brickmann
Brickmann & Associados Comunicação

1 - Os juízes paulistas passam a receber auxílio-alimentação de R$ 29 diários, com pagamento retroativo a abril de 2006. São R$ 12,5 milhões, só de atrasados.

2 - a Câmara Federal contratou uma empresa de análise de produtos, a SFDK, naturalmente sem concorrência, para analisar o cafezinho consumido por Suas Excelências. Não basta comprar café com selo de pureza: é preciso pagar por uma garantia ao fino paladar parlamentar. No caso, é baratinho; R$ 3.700. 

3 - agora deixa de ser baratinho: os dois candidatos à Presidência da Câmara Federal, Marco Maia (PT gaúcho) e Sandro Mabel (PR goiano) prometem gastar R$ 310 milhões em ampliações e novas construções, para aumentar o conforto oferecido a quem tanto se sacrifica pelo país e que desfruta de tão pouco espaço. A ampliação do Anexo 4 permitirá construir mais gabinetes, garagens, etc.; a nova construção, do Anexo 5, deverá abrigar biblioteca e museu. Nada mais justo: como pode um parlamentar como Tiririca trabalhar longe de uma biblioteca?

4 - também não é baratinho: o Tribunal de Justiça de São Paulo quer construir três torres, para abrigar suas instalações, por R$ 800 milhões. É o preço do estádio de abertura da Copa, para 45 mil pessoas, feito conforme exigiu a FIFA.

5 - o caro leitor lembra, claro, que parlamentares ganham 14º e 15º salários. Mas a Receita tinha esquecido! Desde 1995, quando surgiram os salários a mais, ninguém recolhia impostos sobre eles. A quantia é enorme - e fica maior se lembrarmos que deputados estaduais e vereadores também estavam livres do Leão.

Detalhes curiosos
Um grande jornalista, Ricardo Sérgio Mendes, criou a tese de que um Congresso, quanto mais luxuoso, menos poder tem. O Capitólio americano é um prédio grande, mas antigo; já o Soviete Supremo, que seguia fielmente as ordens do secretário-geral do Partido Comunista Soviético, ficava num prédio suntuoso. A Câmara dos Comuns, inglesa, o mais antigo Parlamento do mundo, não tem poltronas suficientes para todos os congressistas. Se houver mais gente do que cadeiras, alguns parlamentares ficam de pé. 

Já o Congresso brasileiro, nessa nova reforma, receberá 87 novos gabinetes, mais amplos que os atuais; 40 mil m² de garagens subterrâneas; dois restaurantes, novas lanchonetes, prestadores de serviços como agências bancárias e empresas aéreas. Pague e fique quieto.

Saúde para todos eles
O caro leitor sabe perfeitamente que o plano de saúde dos senhores senadores é muito bom: além do atendimento normal, paga despesas sem limite em hospitais de primeira linha. E é não apenas extensivo à família como também vitalício. É, em suma, como gostaríamos que fossem todos os planos de saúde. Mas tem seus concorrentes: o atual ministro das Cidades, Aguinaldo Ribeiro, do PP paraibano, recebeu R$ 137 mil da Assembléia de seu Estado para tratar da saúde em São Paulo. Na época, 2008 e 2009, Aguinaldo Ribeiro era deputado estadual. 

E, sem dúvida, pobre é que Aguinaldo Ribeiro não era, nem é.

Rola pelo ralo
Este caso vem rolando há muito tempo mas só apareceu agora, quando a pouca vergonha ficou grande demais. Irailton Lima de Souza cursa a Faculdade de Ciências Sociais da UFAC, Universidade Federal do Acre, pública e gratuita - isso desde 1991. Exato: há 21 anos, desde que Fernando Collor era presidente da República, desde que Dunga era jogador da Seleção brasileira, Orestes Quércia era governador de São Paulo, Neymar ainda nem tinha nascido, nossa moeda era o cruzeiro e o real surgiria depois de alguns anos. Pois bem: Irailton, que até agora frequentou a Universidade pública às nossas custas, sem conseguir concluí-la, foi indicado para assumir uma diretoria no Ministério da Educação. 

Acredite: Irailton foi indicado para a Diretoria de Integração das Redes de Educação Profissional e Tecnológica do Ministério da Educação, seja lá isso o que for. Irailton, militante do PT de Rio Branco, tem o aval de dois petistas ilustres: o ex-governador do Acre, Binho Marques, e o atual governador Tião Viana.

A Vale e a lei
A Suíça exporta minérios? Não. Terá a Suíça grandes portos marítimos que justifiquem a presença de empresas que dependam de transportes eficientes? Não - aliás, nem tem litoral. Então, por que a Cia. Vale do Rio Doce escolheu a Suíça para sua sede europeia? A explicação é simples: menos impostos.

O Governo suíço ofereceu à Vale isenção de impostos para suas atividades no país. E está multando a empresa em US$ 233 milhões por, segundo a acusação, burlar a isenção que lhe foi oferecida, transferindo para a Suíça os lucros de sua atividade no mundo inteiro sem se dar ao trabalho de pagar os impostos devidos. É coisa brava: as multas do Governo suíço costumam ser embasadas na lei e habitualmente são cobradas dos devedores. Os suíços fazem o possível para tornar o ambiente no país propício para negócios, mas burlar acordos é falta grave.

Temos governo? 
Cuba não deu visto para o repórter José Maria Mayrink, de O Estado de S.Paulo , escalado para cobrir a visita do papa. Mayrink, repórter consagrado, não teve resposta ao pedido de visto. 

E o Governo brasileiro, que acha disso?

carlos@brickmann.com.br 
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Presidente do STJ diz que decisão sobre estupro pode ser revista

André De Souza
O Globo

Ari Pargendler diz que muitos aspectos de uma decisão judicial não são compreendidos

BRASÍLIA - Um dia após a ministra Maria do Rosário, da Secretaria de Direitos Humanos, ter pedido a reversão da decisão do Superior Tribunal de Justiça (STJ) que inocentou um homem da acusação de ter estuprado três meninas de 12 anos de idade, o presidente do STJ, Ari Pargendler, saiu em defesa da Corte, mas destacou que o tribunal pode mudar seu entendimento.

- É um tema complexo. Foi decidido por uma turma do tribunal. É a palavra do tribunal, mas evidentemente cada caso é um caso. O tribunal sempre está aberto para a revisão de seus julgamentos. Talvez isso possa ocorrer.

Questionado se o tribunal foi conservador no caso, ele respondeu dizendo primeiramente que não poderia julgar a decisão do STJ. Mas depois afirmou que o tribunal pode até ter sido inovador.

- Talvez tenha sido até inovador, porque realmente a prática anterior me parece não foi observada no caso.

Segundo Pargendler, muitas vezes é difícil à população compreender todos os aspectos de uma decisão.
- As decisões judiciais são pautadas pela técnica. Às vezes esses aspectos não são compreendidos pela população. Os juízes não criam direito. Eles aplicam a lei.

Já o ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, afirmou que tem posição contrária, mas lembrou que as decisões do tribunal precisam ser respeitadas.

- As decisões do tribunal têm que ser respeitadas, por mais que eventualmente nós possamos discordar. Eu, como estudioso do Direito, tenho uma posição contrária. Mas o tribunal tem essa decisão. Não sei se ela será mantida, não sei se ela é definitiva. Mas aguardemos - disse Cardozo.

Na terça-feira, o STJ decidiu absolver um homem acusado de estupro, sob a alegação de que a presunção de violência no crime de estupro pode ser afastada diante de algumas circunstâncias, pois as meninas se prostituíam antes do crime ocorrer.

Além da ministra Maria do Rosário, a Associação Nacional dos Procuradores da República (ANPR) também criticou na quarta-feira a decisão do STJ, classificando-a como "uma afronta ao princípio da proteção absoluta, garantido pela Constituição brasileira a crianças e adolescentes". A entidade deplorou o entendimento do STJ, em especial em um “momento em que as instituições públicas e privadas preparam-se para combater a exploração sexual infantil durante grandes eventos – como a Copa do Mundo de 2014 e as Olimpíadas de 2016”.

****** COMENTANDO A NOTÍCIA:
Atenção: esta aventada possibilidade de reversão da decisão esdrúxula do STF não se deve a reação da dona Maria do Rosário. Se deve, antes de mais nada, a reação de toda a sociedade que, indignada, está até agora protestando pela estupidez cometida.  

Até porque a forma como Maria do Rosário reagiu, afirmando que pediria a revisão da decisão, é imbecil, até porque ela sequer tem autoridade para tanto.Há caminhos legais para que a decisão seja revista, cabendo à sociedade criticar e seguir os caminhos que a lei dispõe. Tribunal não se guia, ou não deveria ao menos, pelo barulho das ruas.   

Tolices curriculares

O Estado de S.Paulo

Há dois meses, o Conselho Nacional de Educação (CNE) baixou a Resolução n.º 2/12, definindo as novas Diretrizes Curriculares Nacionais para o Ensino Médio, que é considerado desvinculado da realidade social e econômica do País, quando comparado aos programas do ensino fundamental e superior. Elaborada com base num extenso parecer aprovado uma semana antes pelo Ministério da Educação (MEC), a Resolução tem 23 artigos, muitos deles caracterizados por uma retórica vazia.

A Resolução, por exemplo, propõe a incorporação, como conteúdo obrigatório do currículo do ensino médio, "do reconhecimento e atendimento da diversidade e diferentes nuances da desigualdade da exclusão na sociedade brasileira". Também recomenda "a valorização dos direitos humanos, mediante temas relativos a gênero, raça e etnia, religião, orientação sexual, pessoas com deficiência". E enfatiza a importância de "práticas que contribuam para a igualdade e enfrentamento de todas as formas de preconceito, discriminação e violência" e de "atividades intersetoriais de promoção da saúde física e mental, saúde sexual e saúde reprodutiva e prevenção do uso de drogas".

Não são apenas esses os parágrafos da Resolução tautológicos ou ininteligíveis. "O trabalho é conceituado na sua perspectiva ontológica de transformação da natureza, como realização inerente ao ser humano e como mediação no processo de produção de sua existência" - diz o § 1.º do inciso VIII do artigo 5.º da Resolução. "A organização curricular deve oferecer tempos e espaços próprios para estudos e atividades que permitam itinerários formativos opcionais diversificados, a fim de melhor responder à heterogeneidade e pluralidade de condições, múltiplos interesses e aspirações dos estudantes", determina o inciso XI do artigo 14. "O projeto político-pedagógico, na sua concepção e implementação, deve considerar os estudantes e professores como sujeitos históricos e de direitos, participantes ativos e protagonistas na sua diversidade e singularidade" - reza o § 2.º do artigo 15 da Resolução. E vai por aí afora.

Além disso, a Resolução do CNE impõe ao currículo do ensino médio quatro áreas de conhecimento e nove matérias obrigatórias, chamadas de "componentes curriculares com especificidades e saberes próprios e sistematizados", subdivididas em doze disciplinas. O novo currículo vai na contramão dos países desenvolvidos, onde o ensino médio não tem um programa mínimo obrigatório. A diversificação é vista naqueles países como forma de adequar melhor o ensino à realidade cultural, econômica e social dos estudantes.

Não são de estranhar, portanto, as críticas que têm sido feitas à Resolução n.º 2/12. "O Brasil não diversifica e mantém a ideia de que todo mundo tem de fazer a mesma coisa", diz João Batista Araújo e Oliveira, do Instituto Alfa e Beto, depois de classificar o texto da resolução como "erudição boba". "É uma montoeira de matérias. O resultado é que ninguém aprende, só decora. No resto do mundo, há segmentação", afirma o economista Cláudio Moura Castro. "Acredito em soluções mais individualizadas e segmentadas, porque há muitas diferenças", assevera Priscila Cruz, do movimento Todos pela Educação.

Além das altas taxas de evasão, o ensino médio esbarra no despreparo dos alunos - por exemplo, 85% dos estudantes desse ciclo ingressam na 1.ª série da rede pública com um nível de conhecimento equivalente ao da 5.ª série do ensino fundamental. Segundo o MEC, 50,9% dos jovens de 15 a 17 anos não estão matriculados no ensino médio, onde o índice de reprovação é de 13,1%. Dos estudantes que completam as três séries do ciclo, metade obtém média inferior a 4 na prova objetiva do Enem.

Ao justificar a Resolução n.º 2/12, alguns membros do CNE alegaram que ela foi um "resultado de opções" e que "nem todo mundo pensa a escola do mesmo jeito". O que eles não conseguiram explicar é por que, em vez de definir diretrizes mais objetivas e realistas, optaram por um palavrório tolo e sem sentido, e por medidas inócuas, que só poderão aprofundar a crise do mais problemático dos três níveis de ensino.

Menos educação formal, mais insatisfação

Isabel Kopschitz
O Globo

Pesquisa mostra perfil de gerentes do comércio, indústria e prestação de serviços

RIO - Falta a grande parte dos gerentes das áreas de comércio (varejo), indústria e prestação de serviços formação educacional. Esta é uma das principais conclusões da pesquisa feita pelo Grupo CDPV (Centro de Desenvolvimento do Profissional de Vendas), com exclusividade para o Boa Chance. A enquete, que abrange Rio e São Paulo, mostra que 45% deles não têm curso superior e que apenas 8% têm pós-graduação. Outro dado relativo à formação dos gestores é que apenas 25% sabem um segundo idioma - o inglês, na maioria dos casos.

Segundo Diego Maia, presidente do Grupo CDPV, os resultados relativos à escolaridade não surpreendem:

— Percebemos que a grande maioria das companhias permanece promovendo as pessoas pela confiança e pela dedicação, em detrimento da formação. É mais uma prova de que formação não é tudo.

Para Maia, no entanto, é necessário que os gestores tenham consciência de que o mercado muda, as exigências mudam, e é necessário estarem preparados. Saber uma segunda língua, diz, é muito importante, e não deve ser deixado para segundo plano.

— Uma das respostas que recebemos, na pergunta sobre segundo idioma, um gerente dizia que, no negócio dele, o que se precisa saber mesmo é o ‘oxente’, que é o que o povo fala, não inglês. Mas ele não sabe o que o espera em 2014, por exemplo. Muitas vezes, o profissional acaba perdendo oportunidades por ficar acomodado e não ir buscar conhecimento — afirma.

A pesquisa mostra que apenas 18% dos gerentes avaliam que seu gestor é um exemplo a ser seguido, enquanto 26% não estão satisfeitos com o gestor imediato. De acordo com Maia, isso demonstra a dificuldade de formação de líderes no mercado atual. Ele afirma que o dado não está diretamente relacionado às áreas abrangidas pela pesquisa. Para Maia, o gerente tem o desafio de interpretar dois personagens distintos, o que, ressalta, nenhuma escola ensina:

— O gerente fica numa espécie de limbo profissional: é muito cobrado pelos seus superiores, mas não recebe incentivo suficiente. Ao mesmo tempo, tem que se esforçar para estar bem com seus subordinados. E, mesmo que esteja desanimado, não pode deixar isso contaminar a equipe dele.

Maioria acha que maior problema de suas equipes é comportamento
O estudo mostra, também, que 64% dos gerentes acreditam que o maior problema de sua equipe é de origem comportamental, enquanto apenas 36% dizem ser de origem técnica. Do total de gerentes entrevistados, 42% acham que a principal carência de sua equipe é o treinamento, enquanto 33% acham que a deficiência está no quesito pessoas e 25% afirmam que está ligada aos processos internos ou à falta de tecnologia.

— Para os gestores da área de vendas, os resultados são o fator que determina a permanência deles no cargo e seu crescimento na empresa, no âmbito financeiro. Embora a busca por qualificação tenha sido ampliada, a maioria opta por treinamentos corporativos específicos e pontuais, em detrimento dos cursos tradicionais de formação (graduação e pós-graduação) — conta Maia.

Por outro lado, 77% dos gerentes entrevistados estão satisfeitos com as equipes que dirigem e 23% se dizem insatisfeitos. Para testar o estilo de gestão, o CDPV questionou os gerentes sobre em qual competidor apostariam, caso estivessem numa corrida de cavalos, e 69% disseram que apostariam no que treina mais. Vinte e cinco por cento dos gestores apostariam no que fez o melhor treino e apenas 6% responderam que apostariam no mais famoso ou no azarão.

A pesquisa do Grupo CDPV foi feita com 382 gerentes, entre os dias 10 de dezembro de 2011 e 10 de janeiro de 2012. Entre os profissionais pesquisados, 29% trabalham em empresas com mais de 500 funcionários; 38%, em companhias com poucos funcionários (entre 21 e 50) e 13% lideram equipes em empresas com até 20 funcionários. A maior parte dos gestores (73%) são homens e 85% têm entre 26 e 55 anos.

A política dos alvos errados

Rolf Kuntz
O Estado de S. Paulo

É bom exportar produtos básicos, mas é ruim perder oportunidades em mercados desenvolvidos, enquanto se aceita uma relação semicolonial no comércio com a China.

O governo continua atirando furiosamente nos alvos errados. Toma medidas conjunturais para resolver problemas estruturais, como o da indústria, e aposta com entusiasmo em parcerias duvidosas, como a dos Brics – muito mais uma sigla, ainda hoje, do que um grupo de países com amplos interesses comuns. Isso foi comprovado mais uma vez na reunião sobre o câmbio na Organização Mundial do Comércio (OMC), onde a China se aliou aos Estados Unidos e ao Canadá para abafar a discussão proposta pelo Brasil. No plano interno, o ministro da Fazenda, Guido Mantega, anunciou a prorrogação, até junho, do corte do Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI) para bens da linha branca. Além disso, estendeu o benefício aos setores de móveis, pisos e lustres, afetados, como tantos outros, pela concorrência dos importados. Facilidades para este ou aquele segmento continuarão sendo insuficientes para fortalecer a indústria de transformação, porque os seus problemas são muito mais graves que qualquer aperto conjuntural.

A própria conjuntura brasileira parece, à primeira vista, estranhíssima. A economia cresceu 2,7% no ano passado, enquanto a produção de manufaturas aumentou apenas 0,1%. A estagnação se manteve em janeiro, segundo o Índice de Atividade Econômica do Banco Central (IBC-BR) divulgado na segunda-feira: o número de janeiro foi 0,13% menor que o de dezembro, descontadas as variações sazonais. Mas a arrecadação federal continuou crescendo e atingiu no mês passado R$ 71,9 bilhões, o maior valor, em termos reais, para um mês de fevereiro. Descontada a inflação, foi 5,9% superior à de fevereiro do ano passado, quando o impulso dos 7,5% de crescimento econômico de 2010 ainda empurrava os negócios. A receita do IPI do setor manufatureiro foi um fiasco, mas o recolhimento de tributos sobre outras atividades foi um sucesso. O Imposto de Importação rendeu 8,6% mais que um ano antes, em termos reais, e o IPI vinculado às compras externas proporcionou 21,3% mais que em fevereiro de 2011.

A importação rendeu mais impostos, como vinha ocorrendo nos meses anteriores, por causa do aumento das compras, da elevação da alíquota média e também da valorização do real. Todos esses fatores refletem o vigor do mercado interno, sustentado pela expansão da massa de rendimentos e pela ampliação do crédito (confirmada nessa terça-feira pelo Banco Central). É este o dado aparentemente estranho da conjuntura: a produção da indústria vai mal, mas a demanda interna vai bem, graças ao consumo privado e aos gastos do governo. Uma das consequências aparece no comércio externo de mercadorias: em 2012, até 25 de março, o valor exportado foi 6,3% maior que o de um ano antes, mas o importado foi 9% superior ao de igual período de 2011. O superávit comercial foi 41,6% menor.

A estagnação da indústria manufatureira e a erosão do saldo comercial refletem muito mais que um problema de conjuntura. Para mudar o quadro, portanto, o governo terá de ir além das medidas conjunturais, como a redução temporária de impostos e de encargos trabalhistas ou a ampliação, também provisória, da oferta de financiamentos a juros baixos. Também limitadas têm sido as ações protecionistas, como a elevação do imposto sobre veículos com menos de 65% de conteúdo nacional ou a adoção de barreiras não tarifárias. Quanto ao câmbio, obviamente é apenas parte do problema.

Ações defensivas têm sentido quando se trata de preservar indústrias nascentes, de barrar a concorrência desleal ou de conter surtos de importação prejudiciais à produção nacional. A ação do governo tem ido muito além da proteção compatível com as normas internacionais. Além disso, seria grotesco recorrer ao argumento da indústria nascente. Igualmente ridículo é apontar o exemplo argentino como digno de imitação. Nenhum ganho de produtividade resultou do protecionismo praticado pelos vizinhos com apoio do governo brasileiro.

Políticas estruturais dão trabalho, requerem competência administrativa e envolvem às vezes decisões e negociações difíceis. Não é simples, por exemplo, negociar mudanças tributárias com 27 governadores, tentar diminuir a rigidez do orçamento ou trabalhar com metas e prazos para a execução de obras. Também é complicado e eleitoralmente menos rendoso cuidar dos gargalos reais da educação – nos níveis fundamental e médio, muito mais que no ensino superior, privilegiado no governo Lula.

Mas o futuro do país depende muito mais dessas tarefas do que da concessão de benefícios conjunturais a alguns setores. Mais realismo na diplomacia econômica também ajudará. É bom exportar produtos básicos, mas é ruim perder oportunidades em mercados desenvolvidos, enquanto se aceita uma relação semicolonial no comércio com a China. Não há nada conjuntural nessa coleção de erros e deficiências. Nada mudará sem o reconhecimento desse fato.

Em lugar sagrado

Ricardo Galuppo 
Brasil Econômico

É inaceitável a falta de coordenação do poder público em torno de obras que podem fazer toda diferença entre a estagnação e o crescimento do país.

O Brasil precisa – não é segredo – de mais hidrelétricas. Mais energia é condição necessária para um crescimento sustentável, qualquer pessoa sabe disso. Mais energia significa novos empregos, mais renda e menos custos para as empresas e para famílias.

Nada do que foi dito até aqui é novidade – mas agora é possível ter uma noção do impacto desses e de outros investimentos em infraestrutura sobre o PIB.

Conforme mostra a reportagem de Chrystiane Silva publicada na edição desta quarta-feira do “Brasil Econômico”, cada R$ 2 investidos em infraestrutura acrescentam R$ 1 ao PIB. É uma taxa de retorno impressionante – só não vê quem não quer.

É lógico que todos esses benefícios sociais não livram a construção de novas usinas de cuidados indispensáveis. É obrigatório, antes de qualquer outra providência, que se tomem precauções ambientais capazes de impedir que o benefício gerado pela obra não seja anulado pelos problemas trazidos por ela.

Isso é óbvio. Mas é importante reafirmar tais obviedades para deixar claro o seguinte: é inaceitável a falta de coordenação do poder público em torno de obras que podem fazer toda diferença entre a estagnação e o crescimento do país.

Anteontem, para citar apenas o exemplo mais recente, a Justiça Federal em Mato Grosso suspendeu a licença ambiental que autorizava a construção da Hidrelétrica de Teles Pires, na divisa do Mato Grosso com o Pará.

A licença para construção da obra havia sido concedida pelo Ibama depois da análise da documentação apresentada pelo consórcio responsável pela construção e de uma série de audiências públicas realizadas nos municípios que sofrerão impacto com a obra. Tudo foi considerado em ordem.

O problema é que, no entender da Justiça, algumas providências deixaram de ser tomadas.

A juíza que cassou a licença acatou a argumentação do Ministério Público, que entendeu que não foram feitas consultas específicas aos índios Kayabi, Munduruku e Apyaká. A área que será inundada pelo reservatório da usina, entendeu o MP, é considerada sagrada pelos índios.

Além disso, os senhores procuradores apontam o risco de especulação fundiária e aumento do desmatamento.

Os maiores desmatadores da Amazônia – isso também não é segredo – são os índios Caiapós, do Pará. O poder público fecha os olhos para a depredação que eles promovem.

Basta, porém, que uma empresa privada apresente um projeto para a construção de uma obra na floresta para que se venha apontar toda sorte de riscos.

Tenham a santa paciência! Se o risco ambiental é tão grave assim e se o lugar é tão sagrado, por que os senhores procuradores permitiram que se fizesse o inventário que aferiu o potencial hidrelétrico do rio Teles Pires?

Esse levantamento foi concluído em 2006. Depois disso, o governo fez o leilão de concessão em 2010 e, mais uma vez, ninguém se mexeu. Também não houve reação à licença ambiental que autorizou o início das obras, expedida no dia 19 de agosto de 2011.

Foi preciso que fosse contratada mais da metade dos 7 mil empregados que a obra deverá ter no momento de pico e que as obras se iniciassem para que a medida liminar fosse requerida. Pode até não ser. Mas que parece pirraça, parece.

Dilma entre boas intenções e a realidade

Editorial
O Globo

A entrevista da presidente Dilma Rousseff à revista “Veja” foi concedida depois de alguns dias de grande tensão na área política. A afronta que lhe foi feita por Romero Jucá (PMDB-RR), líder do governo no Senado, ao se omitir na rejeição da indicação dela de recondução do diretor-geral da ANTT, agência de transportes terrestres, foi um evidente gesto de rebeldia, e que teve resposta adequada: Jucá caiu do posto de líder, substituído por Eduardo Braga (PMDB-AM).

A presidente aproveitou e ainda substituiu Cândido Vacarrezza por Arlindo Chinaglia, dois petistas, na liderança do governo na Câmara.

Mas a troca do Senado é que tem relação com um grande contencioso entre a presidente Dilma e a chamada base aliada, com tendência a crescer, caso ela, como afirma na entrevista, cumpra a promessa de rejeitar negociações pela cartilha da baixa política, impregnada de fisiologismo.

Literalmente: “Não gosto desse negócio de toma lá dá cá. Não gosto e não vou deixar isso acontecer no meu governo.”

Podem ainda persistir dúvidas. Afinal, nomear o senador Marcelo Crivella (PRB-RJ) para o desnecessário Ministério da Pesca, apenas usado para atender a interesses políticos menores, aponta em direção contrária.

O engenheiro Crivella assumiu o posto não pelos conhecimentos sobre a piscosidade da costa brasileira, mas para o seu partido ajudar o petista Fernando Haddad nas eleições paulistanas, ao não lançar candidato próprio, o deputado Celso Russomano.

Mas temos, agora, um compromisso formal da presidente de renegar o fisiologismo, algo que ficara subentendido em alguns momentos da série de trocas de ministros ocorridas no primeiro ano de governo.

Foi assim, por exemplo, na resistência a devolver a pasta dos Transportes ao esquema do PRB de ordenha de dinheiro público, e na substituição de Orlando Silva por Aldo Rebelo, os dois do PCdoB, no Ministério do Esporte.

A entrevista ocorreu quinta-feira, depois da reunião da presidente com quase três dezenas dos maiores empresários brasileiros. Ela declarou concordar que os impostos são elevados e não deixou de também assumir compromissos: “Temos de baixar nossa carga de impostos. E vamos baixá-la.”

Dilma demonstrou ter consciência que os investimentos privados não deslancham sem melhorar o ambiente de negócios: ou seja, menos impostos e burocracia, entre outros avanços.

Mesmo o programa de substituição de importações na área de petróleo, de inspiração geiseliana, não é intocável, no entender da presidente. Se o mínimo de 65% de nacionalização dos equipamentos exigido no programa do pré-sal começar a prejudicar a produção de petróleo — o que há grande chance de acontecer —, a regra será rompida. Outra opinião sensata da presidente.

E para ser coerente, afastou a possibilidade de, numa ação defensiva em função da crise mundial, erguer elevadas barreiras protecionistas e fechar o país. Lembrou o erro que foi a malfadada reserva de mercado para computadores. Sem dúvida.

O conjunto de boas intenções listadas pela presidente na entrevista, nos campos político e econômico, produziria um bom governo. O problema é colocá-las em prática com a base parlamentar com que conta e as resistências à modernização da economia existentes no PT e aliados. Mas Dilma precisa tentar.

A velha luta entre o talento e a tutela

José Nêumanne (*)
O Estado de S.Paulo

No fundo, a mobilização grosseira e atrevida de segmentos do Partido dos Trabalhadores (PT) e de grupos com interesses na indústria cultural pela derrubada da ministra da Cultura, Ana de Hollanda, é mais um efeito colateral do loteamento de cargos públicos de primeiro escalão por partidos em troca de apoio ao governo no Congresso. De fato, uma coisa nada tem que ver com a outra, mas essas pessoas que redigem manifestos e procuram algum jornalista amigo para lhes dar repercussão pública devem pensar algo como: "Puxa, vida, se o PMDB, o PR, o PRB ou qualquer outra siglazinha ancorada no lago do Palácio do Planalto nomeia e derruba ministros, por que nós não o faríamos?" Por mais absurda que essa conexão possa parecer à primeira vista, ela nunca será mais grotesca do que a cruzada em si.

A primeira motivação para o ataque sistemático, desproporcional e absolutamente inócuo (pelo menos tem sido até agora) atende a uma questão: "Por que ela e não eu?" É claro que deve haver no Brasil milhões de cidadãos e cidadãs que se sentem mais preparados do que a economista Dilma Rousseff para exercer a Presidência da República. Só que a eleita foi ela e a ela cabe nomear, se não todos, porque tem realmente de aceitar indicações das bases para sobreviver politicamente, a maioria dos ministros que a ajudam a governar. Haverá também milhões de brasileiros decentes e bem-intencionados à espera de um convite do Planalto para ocupar uma pasta - da Fazenda à da Pesca. Pode ser que alguns façam como aqueles comunistas de antanho que ficavam no aguardo da prisão de mala e cuia prontas, com escova de dentes, dentifrício e sabonete entre os pijamas, naquele tempo em que nossas prisões ainda permitiam esses luxos. No entanto, quase todos, coitados, esperarão em vão. Pois muitos são candidatos e poucos serão escolhidos, lei darwiniana inventada pelo profeta galileu. Para estes a resposta apenas inverte a questão: "Por que eu e não ela?"

Pois o diabo é que a ministra da Cultura tem, digamos, pedigree para o posto: é filha do professor (da USP) Sérgio Buarque de Hollanda, autor de Raízes do Brasil, obra clássica que ilumina o entendimento histórico e sociológico de nosso país, e de Maria Amélia, Memélia, que virou uma espécie de padroeira do PT de Lula em suas primeiras derrotas para a Presidência. E, convenhamos, a moça é irmã do maior ícone vivo da cultura brasileira, Chico Buarque de Hollanda. Isso basta para justificar a nomeação? Mas é claro que sou o primeiro a responder que não. Só que, ainda assim, quem for capaz de enxergar além do próprio nariz deveria respeitá-la ao menos por esta razão. As cenas de grosseria explícita registradas nessa guerra sem quartel contra a ministra são, para começo de conversa, demonstrações de uma cafajestice na qual o mundo é pródigo e o Brasil, principalmente a patrulha cultural do PT, recordista mundial.

Sou do tempo em que derrotado cumprimentava vencedor pela simples e boa razão de que a civilidade é uma das condições para a permanência do jogo democrático. Juca Ferreira, segundo ministro de Lula e antecessor de Ana, entrou no governo pela porta da cozinha de Gilberto Gil. Sob os auspícios do sonho espanhol de recolonizar o mundo, e não mais apenas a América não imperialista, o artista e seu "maçaneta" espalharam o passa-moleque, conveniente para os grupos que os cortejam e as produtoras multinacionais de conteúdo, de que cultura é um bem coletivo e um meio de aumentar o acesso do membro da comunidade pobre da periferia do Ó é reduzir-lhe o custo com o abatimento do direito do autor. Sob seu patrocínio no MinC, venderam-se o furto fácil da internet aberta (Creative Commons) e a falácia de que produto cultural bom não é o de qualidade, mas o mais barato. E o autor que se "exploda".

Ana assumiu o ministério enfrentando sem estardalhaço, com seu estilo doce e firme, esse esbulho "politicamente correto". O direito do autor e o mercado são conquistas da civilização que estabelecem o único critério pelo qual uma produção artística ou cultural deve ser avaliada: o mérito do talento. O melhor é melhor e vive do que faz. Gil e Juca tentaram inverter essa constatação feita pelos iluministas franceses, propondo substituir a qualidade pela quantidade. E defenderam, ao longo de oito anos, a redução do direito autoral e a submissão do mercado à tirania do lumpesinato. Que Chico Buarque, que nada! O povão quer o funkeiro da Rocinha.

O caso é que há lugar para todos no mercado - o xote pé de serra e o forró de plástico. O povo ouve o que quer e paga pelo que prefere ouvir. Casas lotadas por Chico Buarque no HSBC Brasil não tiram fãs dos shows de Criolo. O mercado garante o moço bonito que virou unanimidade nacional e o poeta de vielas das favelas. Ao Ministério e às Secretarias Estaduais de Cultura não cabe tutelar o lumpemproletariado, mas incentivar orquestras sinfônicas e produções de vanguarda. Além de pegar R$ 1,64 bilhão para bater recorde sem precedentes em investimentos na pasta (furto o valor de artigo do cineasta Cacá Diegues em O Globo de sábado).

Não me lembro de ter lido estes números na entrevista de Juca Ferreira à Folha de S.Paulo em que ele inaugurou no Brasil o choro dos substituídos com um show de grossura e ressentimento explícitos, desconhecendo evidências como o fato de o investimento em Centros de Cultura ter passado de R$ 50 milhões no último ano de Juca/Lula para R$ 62 milhões no primeiro sob Ana/Dilma, com previsão de R$ 114 milhões para 2012.

Como uma forma de desqualificar a ministra, seus solertes detratores, de olho no butim, dizem que ela só não caiu porque Dilma não quer dar o braço a torcer. Quem acredita no mérito e desconfia do uso do lumpesinato reza todo dia para que o braço da presidente prossiga duro de torcer. Esta guerra não é fácil, mas não pode ser comparada com a crise da base aliada.


*Jornalista e escritor, é editorialista do Jornal da Tarde