Adelson Elias Vasconcellos.
O texto em post abaixo, publicado em O Globo, faz uma análise sobre alguns dados retirados da última pesquisa Datafolha, na qual Dilma perdeu pontos para Serra e Marina. Apesar de que ainda venceria no primeiro turno, hoje, a diferença já é bem menor, e se esta queda for uma tendência, há sim, possibilidade de que a eleição presidencial tenha um segundo turno.
Já comentamos em post mais abaixo esta perspectiva. Mas o que gostaria de analisar com o leitor, é a queda que se verificou no segmento da classe média, onde a perda foi de dez pontos.
Reparem neste dado: considerando os diferentes segmentos de renda, Dilma teve uma queda de dez pontos percentuais entre os eleitores que ganham entre cinco e dez salários mínimos. Nesse grupo, Marina passa de 16% para 24%, e José Serra, de 28% para 34%.
Não dá para se dizer que este grupo, pela renda, represente a “elite burguesa”, como gostam os esquerdopatas de definir pessoas com maior escolaridade, renda e patrimônio. Quem tem escolaridade e informação, dificilmente se deixa levar pelo discurso petista. Razão porque, acabam sendo demonizados.
Mas nesta faixa, de cinco a dez salários mínimos, porém, já se concentram pessoas amplamente beneficiadas pela estabilidade econômica do país, e, regra geral, são pessoas que passam a ter melhor acesso à informação. Portanto, acompanham o movimentos dos políticos e governantes com mais rigor. E, goste-se ou não, acabam formando parte considerável da opinião pública que, como bem lembra Pedro Couto, em seu artigo que reproduzimos abaixo, "opinião pública não tem dono".
Ora, se parte da opinião pública, por estar melhor informada sobre os desmandos, lobby, negociatas e fisiologismo praticados no coração do poder, começa a ser influenciada, e a tal ponto que começa a redefinir suas escolhas, é sinal de que aquilo que o Lula entende por opinião pública, ou formadores de opinião, está muito longe da realidade. Formador de opinião o que é afinal? Geralmente, são pessoas de maior gabarito em termos intelectuais, com maior e melhor vivência em suas carreiras, pessoas que se informam diariamente sobre o mundo a sua volta, e que, munidos desta bagagem, tem formação suficiente para proferir análises e emitir suas opiniões sobre tais acontecimentos. Assim, um médico renomado, com ampla vivência na rede pública de saúde, tem melhor capacidade de discernir o certo e o errado nas políticas públicas de saúde, por exemplo. Da mesma forma, um economista, quanto a política econômica.
Portanto, suas análises e opiniões são indispensáveis para formarem um completo quadro sobre a ação dos governantes. Elas influenciam? Claro que sim. Tomo outro exemplo: comentaristas de futebol. Qual torcedor apaixonado dispensa ouvi-los? Quem não se deixa influenciar, muito ou pouco não importa, pelas análises que eles fazem sobre o rendimento dos clubes que amamos e torcemos ao longo de um torneio, ou de um campeonato? Quem muitas vezes numa roda de amigos, falando de futebol, não se valeu da opinião deste ou daquele, para tentar impor sua opinião sobre o grupo? Quem nunca se valeu, para criticar um decisão de um juiz de futebol, da opinião do Arnaldo Cesar Coelho, por exemplo? “O Arnaldo disse que foi pênalti, e que o juiz errou em não marcar!”. Mesmo que alguns discordem, outros são influenciados pela comentário do Arnaldo e acabam coincidindo opiniões. E, neste tópico, alguém poderá dizer que o Arnaldo Cesar Coelho, pelo conhecimento e experiência que tem, não possa ser um formador de opinião?
Ora, formadores de opinião não são inimigos do povo ou dos governantes. São profissionais competentes em suas áreas de atuação e sua competência tem reconhecimento público. Quando criticam ou elogiam, exercem influencia, não há como evitar. Lula ao se declarar “um formador de opinião”, também não está longe da verdade. É reconhecido por boa parcela da população como sendo um bom presidente, gozando de considerável índice de aprovação. Assim, quando fala de política, exercerá sua influência também. Porém, não pode arrolar para si mesmo a exclusividade da opinião sobre este ou aquele tema. Esta opinião será dividida com outras opiniões, contrárias ou não, e a soma de todas, é que fará existir a tal “opinião pública”.
E vejam que interessante: a queda de 10% nesta faixa da população, é possível constatar que, 52% tomaram conhecimento das lambanças ocorridas na Casa Civil, mas apenas 13% é que se consideram realmente bem informadas a respeito. E mesmo assim, já foi suficiente para dar um colorido diferente na corrida presidencial. E isto vem enfatizar uma afirmação que faço há muito tempo: a de que entre 85% a 90% da população não tem acesso à informação. Assim, acabam sendo influenciadas por outros fatores, dos quais um, especificamente, acaba fazendo enorme diferença, que é a maciça propaganda oficial, onde a mentira reina absoluta. Daí porque o modo raivoso como Lula se refere à imprensa independente, cujo erro mortal no seu entendimento, é noticiar de forma independente sobre os atos dos governantes de plantão.
Não compete a Lula fazer análise sobre si mesmo e querem impor a conclusão para toda a sociedade. Se ele se considera um democrata autêntico, tem que considerar que nem todos são iguais, mão tem o mesmo nível de formação e de informação, nem todos dispõem do mesmo grau de cultura. Portanto, as opiniões serão divergentes e, neste caso, compete a Lula respeitá-las, e não tentar agredi-las e desqualificá-las. Ou será que na democracia não se tem direito para discordar, só valendo a opinião de quem é favor? No mesmo sentido, não há porque se indignar de forma raivosa contra os partidos de oposição quando fazem... oposição. Afinal, é a oposição quem legitima a democracia. Nos governos totalitários, simplesmente, não há oposição, ninguém pode discordar. Ou que nome ele terá dado ao que fez o PT antes de chegar ao poder em 2003? Não terá sido oposição, acaso? E alguém chamou isto de golpismo?
Questionado sobre o resultado, o presidente do PT simplesmente se manifestou com absoluto desdém. Compreendo. Não pode transmitir nem exteriorizar a apreensão geral do partido, que é real, sobre os resultados. Mesmo que o cenário seja preocupante, ainda assim, é favorável. Mas, acreditem, em reuniões internas, o braseiro está ardendo.
Para encerrar: Lula jamais poderá reclamar dos partidos de oposição durante o seu governo. Eles existiram apenas no papel, porque, no fundo, e em muitas ocasiões, eles foram bem mais governistas do que o próprio arco de alianças que Lula montou. Deste modo, o que preocupa é o comportamento que Lula e o PT adotarão, caso a eleição, até aqui tida como favas contadas, rume para um segundo turno, ou numa hipótese de fim de mundo, o povo resolva escolher alguém da oposição para sua sucessão. Neste caso, vão fazer o quê, raptar o povo? Ou Lula optará, a exemplo de João Figueiredo, o último ditador militar, em sair pela porta dos fundos do Palácio, para não transmitir a faixa presidencial ao seu sucessor?
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