quinta-feira, setembro 23, 2010

As contas externas serão o maior problema em 2011

O Estado de S.Paulo

O Banco Central (BC) está prevendo para este ano um déficit de US$ 49 bilhões nas transações correntes do balanço de pagamentos e, para o próximo ano, de US$ 60 bilhões. É provável que o déficit em 2010 seja maior (teria de ficar abaixo de US$ 1,55 bilhão, mensalmente). E, quanto a 2011, é necessário lembrar que a conta financeira - que até agora, com US$ 54,5 bilhões, cobriu largamente o déficit de US$ 31,1 bilhões até agosto - pode não compensar o déficit no próximo ano.

O déficit em transações correntes depende do resultado da balança comercial e da conta de serviços e renda, na qual predominam as remessas de lucros e dividendos. Para cobrir esse déficit, conta-se com a entrada de Investimentos Estrangeiros Diretos (IEDs) e com aplicações externas no mercado de ações e em renda fixa.

O resultado da balança comercial no próximo ano vai depender da taxa cambial, e é incerto o efeito da intervenção do Fundo Soberano e da conjuntura internacional, que deverá continuar pouco favorável, sobre o câmbio. As remessas de lucros e dividendos crescem com o estoque de capital estrangeiro. Nos oito primeiros meses do ano, somaram US$ 17,9 bilhões, mais do que o saldo líquido de IEDs (US$ 15,9 bilhões).

Por isso o BC está prevendo, com realismo, um déficit de US$ 60 bilhões. Menos realista, no entanto, é a previsão de que a conta de capital poderá cobrir o déficit das transações correntes. Isso nos leva a analisar como foi possível cobrir o déficit nos oito primeiros meses do ano.

A cobertura saudável se faz com os IEDs, que até agosto cobriram apenas 54,7% do déficit das transações correntes. Para o próximo ano o BC está prevendo uma entrada de IEDs de US$ 45 bilhões (33% a mais do que foi a previsão deste ano). A cobertura suplementar vem dos investimentos em carteira (ações e títulos de renda fixa), que até o final de agosto somaram US$ 34,9 bilhões e cuja previsão para 2011 é de US$ 36 bilhões. Trata-se de operações muito voláteis, que dependem essencialmente da taxa cambial, da remuneração das ações e dos juros oferecidos. Nada permite pensar que as vantagens oferecidas atualmente pelo Brasil, em termos de juros, continuarão. E tudo indica que teremos de liquidar grande parte dessas operações especulativas.

Por fim, há que acrescentar as amortizações de empréstimos de médio e de curto prazos, que somaram até agora US$ 20,7 bilhões e que o BC estima em US$ 30 bilhões no próximo ano - que nos parece uma subestimativa, levando em conta o aumento da dívida externa bruta.

***** COMENTANDO A NOTÍCIA:
Sempre que confrontada sobre o assunto, Dilma tem fugido ao debate e fica se contorcendo, microfone à frente, num linguajar inintelegível, sem conseguir chegar a conclusão alguma. Mas o fato é que, cedo ou tarde, ou por prevenção ou obrigação, o Brasil deverá se defrontar com a questão do déficit externo. Não interessa se ele é razoável ou não, no sentido de ter peso relativo sobre o PIB. O que importa são os prejuízos para o desenvolvimento que seu montante pode estar causando. O que importa ressaltar é que o déficit atual não é um fato episódico. Tem sido constante e com tendência de alta cada vez mais acentuada.

Por isso critico José Serra, presidenciável pela oposição, porque este tema deveria estar presente em sua agenda e sua campanha, sem que o tema fosse induzido pelo noticiário. Não é de hoje que se alerta o governo para o problema que é real. Dilma afirma que aperto fiscal é ideia ultrapassada, quando na verdade o atual equilíbrio tem sido obtido muito mais por contorcionismo contábil do que por política econômica equilibrada. 

Que propostas reais os candidatos  têm apresentados, por exemplo, para requilibrar  as finanças da previdência social? O rombo anunciado é imenso. De onde sairão os recursos para manter em dias os pagamentos dos benefícios? Que reforma se pretende adotar para devolver saúde ao sistema?

Quem quer ser presidente, e se arvora como gestora de grande competência, não pode nem deve fugir de temas importantíssimos para assegurar  tanto a estabilidade atual quanto o ritmo de crescimento do país. E, dentre todas as questões relevantes, por certo, o déficit nas contas externas deveria ser motivo de preocupação para os candidatos. Veja-se a balança comercial externa: tudo bem, ela ainda é superatária. Porém, estes saldos positivos tem sido cada vez menores, e se nada for feito, quanto tempo ainda a manteremos assim? Até aonde, diferentemente dos demais países, o Brasil manterá o discurso de não mexer no câmbio?  Mas qual dos candidatos/as tem tocado nestes  assuntos de forma racional e precisa? 

Não pensem que a máxima futebolística do "time que está ganhando não se mexe", deva vigorar também na gestão pública. Ledo engano. No caso destas questões todas, é justamente para que o país continue ganhando é que será necessário mexer. Sendo assim, nos restam duas alternativas conforme apontei acima: ou se faz de forma preventiva, evitando danos maiores, ou fazemos por obrigação e, neste caso, a pressa sempre será péssima conselheira.