domingo, janeiro 12, 2020

O racismo está por trás da decisão de Meghan

Afua Hirsch / The New York Times, 
O Estado de S.Paulo

Se a mídia prestasse mais atenção à comunidade negra do Reino Unido, talvez achasse o anúncio do príncipe Harry e sua mulher muito menos surpreendente

  Foto: Gareth Fuller/pool photo via AP 
Príncipe Harry e Meghan Markle no dia do casamento, em 19 de maio de 2018. 

NOVA YORK - A imprensa britânica conseguiu seu aparente objetivo de perseguir Meghan Markle, a duquesa de Sussex, para fora do Reino Unido. O que ela não contava, no entanto, era a perda, junto com ela, do príncipe Harry – um integrante muito amado da realeza e uma parte essencial da marca global da família.

Em um comunicado divulgado nesta semana, os dois disseram que querem “desempenhar um novo papel progressivo” dentro da família real e pretendem abdicar à posição de “membros ‘seniores’, trabalhando para se tornar financeiramente independentes”.

A imprensa britânica reagiu com surpresa à "chocante mudança para o exterior” descrito de várias maneiras como “sísmica”, “egoísta”, “desonesta” e “uma abominável falha de julgamento".

Se a mídia prestasse mais atenção à comunidade negra do Reino Unido, talvez achasse o anúncio muito menos surpreendente. Com um novo primeiro-ministro cujo histórico inclui declarações abertamente racistas, algumas das quais fariam até Donald Trump corar, um projeto como o Brexit, ligado ao nacionalismo nativo e a um desejo de livrar o Reino Unido de um grande número de imigrantes, e um denso aumento da nostalgia imperial, muitos de nós (negros britânicos) também estaríamos pensando em mudar.

Desde a primeira manchete sobre ela ser “(quase) diretamente saída de Compton” (cidade da Califórnia com elevado índice de criminalidade) e ter um DNA “exótico”, o tratamento racista a Meghan tem sido impossível de ignorar. A baronesa Marie Christine von Reibnitz, casada com o píncipe Michael de Kent, usou um broche racista na companhia da duquesa. 

Um apresentador da BBC comparou o bebê recém-nascido do casal a um chimpanzé. Depois, houve a sugestão altamente ridícula de que o consumo de abacate de Meghan é responsável por assassinatos em massa, enquanto seu livro de receitas de caridade era retratado como tendo, de alguma forma, ajudado terroristas.


Normas da realeza que Meghan Markle quebrou 

Aqueles que afirmam que os ataques frequentes contra a duquesa não têm nada a ver com sua cor, encontram dificuldades na hora de explicar tais tentativas de vinculá-la a formas de crime com um viés particularmente racial - terrorismo e atividades de gangues -, além do fato de ela ter sido atacada da maneira mais venenosa por atos que atraíram elogios quando outros membros da realeza os fizeram. 

Sua decisão de editar a Vogue britânica, por exemplo, foi condenada por grande parte da mídia britânica, em contraste com o príncipe Charles, duas vezes convidado para editar a revista Country Life, o príncipe Harry para um programa da BBC e Kate Middleton no Huffington Post, todos discretamente elogiados na época.

  Foto: Simon Dawson/Reuters
Exemplares da revista 'Vogue' britânica à venda em Londres. 

O tratamento recebido por ela provou o que muitos de nós sempre soubemos: não importa quão bonita você seja, com quem se case, que palácios ocupe, instituições de caridade que apoie, como seja fiel, quanto dinheiro você acumula ou que boas ações realiza nesta sociedade, o racismo ainda lhe seguirá.

Na rígida sociedade de classes da Grã-Bretanha, ainda há uma profunda correlação entre privilégio e cor. As relativamente poucas pessoas negras - e menos ainda, se você contar apenas as que têm herança africana - que alcançam um sucesso e prosperidade proeminentes na Grã-Bretanha costumam frequentemente ouvir que devem ser “gratas” ou sair do país se não gostar daqui.

O legado da história do império britânico - uma construção global baseada em uma doutrina da supremacia branca - seu papel pioneiro no comércio de escravos e nas ideologias do racismo que o permitiram, além de políticas de recrutamento de pessoas do Caribe e da África para trabalhos mal pagos e discriminação contra eles na educação e na moradia, está conosco hoje em dia: o escândalo que envolveu a deportação injusta do povo negro britânico nos últimos anos ainda reverbera.

A decisão de Meghan de ingressar na família que é o coração simbólico do establishment responsável por essa conturbada história foi desconcertante para muitos britânicos negros, pois nos perguntávamos se ela apreciava completamente a instituição na qual ingressara.


Pastores brasileiros são detidos em Portugal acusados de tráfico de pessoas

BBC Brasil

 Direito de imagem GETTY IMAGES Image caption
Brasileiros eram obrigados a pagar até 300 euros de aluguel 
para viver nos locais de culto, além de dízimo mensal

Três pastores brasileiros foram detidos nesta quinta-feira (9) em Portugal, acusados de tráfico de pessoas e auxílio à imigração ilegal.

De acordo com o Serviço de Estrangeiros e Fronteiras (SEF), responsável pelas prisões, os líderes evangélicos atraíam cidadãos no Brasil com a promessa de trabalho e legalização da situação migratória no país europeu.

Durante a ação, que incluiu cinco mandados de busca na zona da Grande Lisboa, foram encontrados cerca de 30 brasileiros, que eram alojados pelos pastores nos locais em que ocorriam os cultos — em condições muito precárias, segundo a autoridade imigratória.

Segundo a rede de TV portuguesa RTP, os brasileiros, em sua maioria em situação ilegal no país, tinham de pagar aluguel de até 300 euros (R$ 1.358) para viver nestes locais, além de contribuir com 10% de sua renda mensal para a igreja.

O salário mínimo em Portugal é, atualmente, de 635,31 euros (R$ 2.875).

O esquema foi descoberto após denúncia anônima de um cidadão estrangeiro — nos alojamentos, havia também crianças.

Edite Fonseca Fernandes, inspetora do SEF, afirmou à RTP que os três pastores também são suspeitos de obrigar os imigrantes a trabalharem para a igreja sem remuneração, além de os "enganarem, fazendo-as acreditar que estão tratando de sua situação documental, coisa que de fato não acontece".

Luvas e mamadeiras para coalas: como a Austrália está cuidando de seus animais resgatados

Redação, 
O Estado de S.Paulo

País da Oceania vive uma das maiores crises ambientais de sua história; milhões de animais morreram

  Foto: Christina Simons/The New York Times
Susan Pulis alimenta cangurus em uma casa que funciona 
como um refúgio temporário na ilha de Raymond, na Austrália 

Além das casas destruídas, da destruição das florestas e da tragédia ambiental histórica, a Austrália tem outro desafio: cuidar dos animais afetados pelos incêndios que se alastraram nas últimas semanas. São coalas, cangurus, coelhos, cavalos, além de espécies selvagens e domésticas que requerem cuidados especiais. 

Susan Pulis, que administra um refúgio de animais, tem reunido amigos para cuidar dos animais e levá-los a locais seguros. Uma amiga esvaziou um quarto de sua casa para abrigar cangurus. Putis colocou também os filhotes dos marsupiais em colchas e os deixou na sala de estar de um conhecido. 
"Desde o início dos incêndios, os animais se comportam de maneira muito distinta. Estão muito alterados", conta. É provável que centenas de milhões de animais - muitos dos quais inexistentes em outras regiões - tenham morrido. 

"Levamos muitas espécies que não estavam ameaçadas a estar em perigo de extinção", afirmou Kingsley Dixon, ecologista e botânico da Universidade Curtin em Perth. Os animais que sobreviveram fugindo ou se escondendo podem ainda morrer de desidratação ou de fome, acrescentou Dixon. "É um apocalipse biológico que poucas vezes se viu". 

Não foram só animais selvagens que sofreram. Em Batlow, 460 quilômetros no sudeste de Sydney, corpos carbonizados de ovelhas e vacas se espalhavam por estradas. Tina Moon, uma agricultora na região de Sarsfield, no estado de Victoria, teve que praticar eutanásia em parte do gado que se queimou. Contou que havia salvado sua casa, mas que não tinha ideia de como iria ganhar a vida a partir de agora. 

Um grupo de mulheres que fazem colchas na Holanda fizeram luvas para coalas com patas queimadas. Neozelandesas estão costurando bolsas para os marsupiais bebês e chales para morcegos. Para proteger a fauna da Austrália, resgatistas como Pulis estão lidando com mudanças enormes que ocorreram na natureza em escala pequena.

Eles sozinhos não podem salvar a vida silvestre do país, mas seu trabalho está reforçando a ideia dos cientistas de que uma intervenção será cada vez mais necessária para proteger os animais em um planeta mais quente. 

  Foto: Christina Simons/The New York Times
Pulis e um amigo em uma região duramente afetada pelos incêndios. 
Árvores que serviam de alimento foram destruídas  

Na cidade de Mallacoota, um homem disse que já resgatou nove coalas, para os quais a comunidade está construindo um albergue. Outros deixaram fora de suas casas sementes, água e alimentos para animais famintos e com sede. 

"Sei que isso não nos devolve as propriedades, mas para alguns pode dar um sentido de não se render", afirmou Katharine Catelotti, de Sydney, cuja família perdeu uma cabana em Wollomombi, quase 500 quilômetros ao norte da cidade. Lá, ela e a família estão deixando alimentos fora de casa para animais selvagens e acolheu um pequeno grupo de animais. 

Para Pulis, resgastar animais é simplesmente parte da vida. Em 2013, ela fundou um refúgio na ilha Raymond, próxima da costa, com a intenção de cuidar dos que estavam lesionados e abandonados. Em agosto, ela se mudou para Waterholes, a 48 quilômetros da costa, já que o tamanho das árvores na ilha a impedia de libertar os coalas em um ambiente em que não podiam encontrar alimentos suficientes. 

Sua propriedade em Waterholes, ameaçada por incêndios em duas ocasiões, segue em pé como um oásis em uma região com árvores derrubadas, terra carbonizada e sinais de trânsito derretidos por centenas de quilômetros. "É um holocausto", disse. "Esse é o alimento que eu dava para os coalas", comentou, rodeada de eucaliptos carbonizados cujas folhas serviam de alimentos para os coalas. "Estavam totalmente vivos". / NYT