domingo, maio 06, 2012

Desmistificando o terrorismo ambiental


Adelson Elias Vasconcellos

Há alguns dias, transcrevemos uma entrevista publicada na Veja online, concedida por James Lovelock, hoje com 92 anos, e que praticamente colocou uma pá de cal sobre os alarmes dados por ele e por mais alguns “cientistas” agarrados a uma causa, a da catástrofe do clima, pela qual se prenunciava, assim, algo com antecedência de uns 500 anos, talvez mais, sobre o fim do mundo que conhecemos. 

Baseados em seus estudos, uma corrente de seguidores cegos se espalhou pelo planeta, formando uma seita que previa como inadiável o Apocalipse.   

Nesta entrevista (íntegra aqui), o cientista britânico faz uma espécie de mea culpa sobre suas previsões catastróficas, e acaba admitindo ter errado em seus cálculos e até exagerado na dosagem profética do final dos tempos. Se o leitor já leu e quer relembrar a entrevista ela está no link acima, ou pode ler o resumo publicado pela Folha de São Paulo, transcrito no post anterior. 

Avançando um pouco, também transcrevemos outros dois estudos que constataram que as montanhas nevadas da Ásia ao invés de reduzirem suas geleiras, como se previa por conta do tal "aquecimento", estavam era aumentando isto sim, enquanto nos polos, o tal desmanche das geleiras não está acontecendo conforme o previsto. Ou seja, todo o alarmismo que se criou em torno do superaquecimento, destruição da vida na terra, etc, etc, etc, e bota muitos mais etecétera mais nisso, não passou de alarme falso.     

Por aqui, a partir da discussão sobre o novo Código Florestal, dona Marina Silva e seus miquinhos amestrados, além de entrarem na mesma roubada, também saíram a campo para defenestrar o texto aprovado e condenar o Brasil como vilão das florestas. O que se escreveu de bobagem, seja por ignorância ou má fé mesmo, não teve limites. 

E aqui, o que sempre se disse, é que, infelizmente, a grande maioria, incluam aí boa parte da imprensa, comprou como uma verdade indiscutível algo que sequer verdade é. Uma das maiores aberrações propaladas pelos críticos do código florestal é insistirem no discurso da tal anistia. Tanto o blog, como outros espaços sérios na internet, abriram espaço para que os falastrões se dispusessem a provar em que parte do texto a tal anistia está acolhida. Não há anistia,  não no texto aprovado.

Fosse aprovado o texto dos sonhos da rainha da floresta, e por certo, o Brasil além de destruir sua agricultura, grande parte em poder de pequenos e médios proprietários, acabaria destruindo sua economia, dado que gastaríamos uma fortuna importando alimentos, o que consumiria rapidamente nossas reservas internacionais, além de ver a inflação disparar completamente fora de controle por parte da autoridade econômica, além de inevitáveis desabastecimentos generalizados.

Além da cretinice da anistia inventada, também se afirma com uma empáfia horrorosa, que o novo texto abre brechas para o desmatamento indiscriminado. Novamente, se conta como verdade algo que não está no texto aprovado, e que sequer ele prevê ou permite.

Já disse e vou reafirmar: não há país no mundo que tenha e mantenha intactos, a exemplo do Brasil, praticamente 70% de sua cobertura vegetal intactos. Como também não há legislação ambiental mais dura e protetora do que a nossa. 

Pois bem, logo após a aprovação do novo Código, alguém criou nas redes sociais um movimento chamado “Veta Dilma”, em que se pede que a presidente simplesmente desconheça aquilo que foi amplamente debatido pela sociedade, ambientalistas e produtores rurais, além de ser sido aprovado em três sessões do Congresso Nacional. Ou seja, apesar  do Brasil ser um país democrata, querem que a sua presidente tome uma atitude absolutamente autoritária, própria de republiqueta de quinta categoria, dessas que se espalham aos montes pela América latrina.

Da mesma forma, levantou-se um movimento de protesto que até ganhou adeptos pelo mundo afora, contra a construção de usinas hidrelétricas, da qual Belo Monte é a grande protagonista da história. 

O texto que vocês irão ler abaixo, desmonta mais uma vez a farsa desta tropa de ativistas, ambientalistas e outros personagens do gênero, em que expõem uma falsa ideia na cabeça e não há bom senso, fato, verdade concreta e provada, que os faça se convencerem de seu erro. Parece que o grande tesão desta gente é saber que o mundo vai acabar, que a vida humana no planeta vai se extinguir. E isto alimenta suas fantasias, seus delírios, seus pontos “gês”. E, como James Lovelock mesmo confessa, muitos destes pseudo cientistas, apostadores crentes sobre o final dos tempos,  sabem de seu erro, sabem de sua estupidez, mas não dão o braço a torcer com medo de perder os financiamentos que suas inverdades conquistaram mundo afora. 

Pois bem, o texto abaixo traz-nos uma verdade que vai machucar estes profetas: o Brasil, vejam só, liderou a geração de energia limpa em 2011. Conforme se constatará, atualmente o país produz 86% de energia renovável, número que pode chegar a 88% em 2020, enquanto no mundo o percentual é de apenas 8%. 

Há poucos dias atrás, comentando sobre o novo código e as mentiras que os ativistas espalham sobre ele, demonstramos que, enquanto reduzimos a área plantada nos últimos 20 anos, o volume de alimentos produzidos pelos produtores rurais brasileiros simplesmente triplicou. E, não fosse esta conquista, e muito provavelmente, estaríamos ainda importando alimentos e pagando os olhos da cara. Não só deixamos de importar, mas passamos a exportar para o mundo todo, graças ao que o país acumulou as reservas internacionais que sustentam sua estabilidade econômica, garantindo conquistas sociais e econômicas que, pela bíblias professada por Marina Silva, o Brasil jamais sonharia em alcançar e conquistar. 

E, nesta semana, uma atriz global, em evento organizado por petistas, para petistas, com plateia e claque petistas, a mestre de cerimônias, a atriz global Camila Pitanga, resolveu quebrar o protocolo pedindo à presidente Dilma, que estava presente, que vetasse o novo código florestal. Provavelmente esta moça que, além de linda, é boa atriz, jamais tenha plantado um pé de tomate, ou de alface, ou mesmo de feijão. Provavelmente, talvez nem precise ir ao supermercado mais próximo para comprar estes alimentos, talvez o façam por ela. E isto, senhores, faz uma enorme diferença. Esta moça, levada pelo frenesi “Veta Dilma”,  talvez até imagine que feijão, alface, tomate, assim como arroz, café, batata, mandioca, etc., não precisem ser plantados, eles nascem nas gôndolas dos mercados, já aparecem limpos, frescos e embalados, pronto para consumo humano, como saídos de um forno elétrico.  Esta moça precisaria passar uns dias no campo para aprender com quantos calos se colhe um pé de alface. Aprender a rezar para os deuses da floresta mandarem sol e chuva, na quantidade e no tempo certos, para que a colheita seja generosa. Com isso, quem sabe, deixaria de recitar barbaridades em público, numa demonstração inequívoca de absoluta ignorância sobre o que está reclamando. Como seria conveniente,  que ao invés de recomendar uma atitude autoritária para a presidente do país, que apanhasse uma cópia do demonizado código florestal e se desse ao trabalho de ler, com o mesmo interesse com que lê os roteiros das peças que encena. Informar-se é o caminho mais curto para alguém não cair no ridículo de falar sobre o não sabe e não conhece. Assim, deixaria de ser papagaio de pirata e não cairia na armadilha que os ativistas da florestas espalharam pelo país. 

Camila Pitanga tem direito a expressar sua opinião? Sim, claro, mesmo que esta opinião esteja desprovida de melhor informação. Contudo, deveria saber que, dada a sua exposição na mídia, inclusive pelo seu trabalho de atriz da Rede Globo, suas opiniões deveriam guardar certo recato, porque podem desorientar os menos avisados. E, especialmente em relação ao Código Florestal, a pergunta se impõe: que experiência e formação lhe autorizam a se posicionar contrária a um código de leis, legitima e democraticamente, aprovado por um Congresso escolhido pelo povo brasileiro?  Duvido que esta moça, se acampasse em qualquer uma das 5,6 milhões de propriedades rurais brasileiras por uns trinta dias, manteria sua opinião.    

Por outro lado, sobre os povos indígenas é preciso também comentar alguma coisa. Se diz que a agricultura prejudica e extermina estes povos. Para estes ativistas,  é bom apanharem  os números oficiais do IBGE para conhecer melhor a situação dos nossos índios: exagerando, o Brasil abriga em 13% de seu território, cerca de 800 mil índios espalhados em mais de 230 etnias, sendo que deste total, 86% vivem nos centros urbanos ou próximos a eles, estando portanto aculturados. E reparem: eles representam apenas 0,4% da nossa população, e tem a seu dispor 13% do território brasileiro. E ainda querem mais. E o interessante nesta reivindicação, é que sempre escolhem áreas onde o homem branco já construiu benfeitorias, e deu aproveitamento econômico com inúmeras plantações. Índio não quer terra nua e crua onde ele tenha que trabalhar. Quer o produto pronto e acabado. Assim é muito fácil...

Segue o texto sobre a excelência do país na produção de energias renováveis. Quem sabe com tais informações e estudos, as pessoas deem um basta nesta babaquice de aquecimento global e todo o ranço mistificado que segue junto. 

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Brasil liderou geração de energia limpa em 2011

Agência Senado

É o que diz o Coordenador Do Fórum De Meio Ambiente Do Setor Elétrico, Marcelo Moraes, o país produz 86% de energia renovável, atualmente

 Foto: Divulgação

 O coordenador do Fórum de Meio Ambiente do Setor Elétrico, Marcelo Moraes, afirmou, nesta quinta-feira (3), durante audiência pública para discutir o “Uso Sustentável da Energia”, que, em 2011, o Brasil foi o país que gerou mais energia limpa.

Segundo acrescentou, atualmente o país produz 86% de energia renovável, número que pode chegar a 88% em 2020, como previu, enquanto no mundo o percentual é de apenas 8%. Em sua opinião, o Brasil tem feito um ótimo trabalho no setor energético e elétrico e está na frente de outras nações.

De acordo com Moraes, é preciso investir no potencial hidráulico e pensar em reservas estratégicas, não só para a produção de energia, mas para o uso diversificado da água, com garantia de sua preservação. Ele acredita que a utilização responsável do recurso hídrico pode contribuir para o crescimento da Região Norte, que possui grande potencial dessa fonte energética.

Moraes participa de audiência pública, promovida pela Comissão de Meio Ambiente, Defesa do Consumidor e Fiscalização e Controle (CMA), para debater temas em foco na Rio+20, Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável que será realizada no Rio de Janeiro em junho deste ano.

Os últimos a saberem


Felipe Moura Brasil
Mídia Sem Máscara 

É assim um país petista, onde o sentimentalismo é a base do conhecimento, da moral e até das leis.

Outro dia o climatologista Ricardo Augusto Felício deu uma divertida entrevista no Programa do Jô, mostrando a fraude do "aquecimento global" - aquele que, quando a Terra esfria, vira "mudança climática". O Facebook ficou em polvorosa. Puxa vida! Estávamos sendo enganados? Pois é.

Outro dia, também, o físico James Lovelock, o pai da fraude global, admitiu que estava "errado", que "nada está acontecendo", que era tudo alarmismo, inclusive os dois livros dele. Agora ele vai escrever outro, corrigindo a si mesmo, assim pode faturar com os três. Puxa vida! Estávamos sendo enganados? Pois é.
Poucas coisas foram tão desmoralizadas nas últimas décadas quanto as mentiras apocalípticas dos "aquecimentistas" e seus garotos-propaganda (Al Gore, Tim Flannery, Leonardo DiCaprio e cia.). Mas o brasileiro, mesmo alfabetizado, é sempre o último a saber, porque ainda se deixa orientar pela TV e os jornais.

Agora a 3ª Turma do STJ reconheceu o direito de uma mulher de 38 anos receber uma indenização de R$ 200 mil de seu pai. O "crime" dele: "abandono afetivo". Isso mesmo: não bastasse a Lei da Palmada, os filhos ainda podem processar os pais por não lhes dar a devida atenção. No fim das contas, é mais um incentivo ao aborto.

No caso das cotas, é evidente que, ao facilitar a entrada de um aluno intelectualmente despreparado na universidade, também serão facilitadas suas aprovações durante o curso. Em resumo: "Seu tataravô foi escravo? Ok. Tome o diploma e o bisturi. Pode operar os outros, doutor (desde que os outros não sejam eu)".

Nossos juízes estão promovendo a desconfiança generalizada entre pais e filhos, entre brancos e negros (sem falar em gays e heteros, cristãos e ateus, maridos e esposas, índios/sem-terra e fazendeiros).

É assim um país petista, onde o sentimentalismo é a base do conhecimento, da moral e até das leis: uma guerra de todos contra todos, "vítimas" contra vítimas, mediada pelo estado e revelada com 20, 30, 40 anos de atraso, com sorte, no Programa do Jô.

Puxa vida! Estamos sendo enganados? Pois é.




Guru verde renega catastrofismo climático


Reinaldo José Lopes
Editor De "Ciência + Saúde"
Folha de São Paulo

Depois de prever que o aquecimento global mataria bilhões de pessoas e reduziria a humanidade a um punhado de refugiados no Ártico, o cientista britânico James Lovelock, 92, admitiu que exagerou no catastrofismo.

Criador da hipótese Gaia, segundo a qual a Terra se comportaria como um imenso organismo vivo, Lovelock é um dos gurus do movimento ambientalista.

Também escreveu uma série de best-sellers sobre o futuro apocalipse climático, como "A Vingança de Gaia", de 2006. 

Em entrevista ao site da rede americana MSNBC, Lovelock disse que o comportamento do clima da Terra desde o ano 2000 contrariou suas previsões mais pessimistas, e que serão necessários mais estudos para entender o futuro do planeta.

"O problema é que não sabemos o que o clima está fazendo, embora achássemos que sabíamos 20 anos atrás. Isso levou à publicação de alguns livros alarmistas, inclusive os meus", disse Lovelock, um dos pioneiros do estudo da química atmosférica.

"O clima continua fazendo os seus truques de sempre. Não tem nada de muito emocionante acontecendo agora. Deveríamos estar a meio caminho de fritarmos", mas não é isso o que está ocorrendo, reconheceu o pesquisador.

ESQUISITO
Para Lovelock, é estranho que a temperatura global da Terra não tenha passado por algum aumento nos últimos 12 anos, enquanto os níveis atmosféricos de CO2 (gás carbônico ou dióxido de carbono), principal gás que esquenta o planeta, continuam subindo e batendo recordes.

Lovelock declarou ainda que outros ativistas antiaquecimento global, como o ex-vice-presidente americano Al Gore, também forçaram a mão no catastrofismo.

Gore não se manifestou sobre a entrevista de Lovelock. As declarações também não repercutiram entre os principais climatologistas do mundo, em parte porque quase ninguém, entre os que estão na vanguarda das pesquisas sobre o clima, têm opiniões tão extremas quanto as que ele defendia.

"Fico feliz que ele tenha mudado de ideia, mas Lovelock simplesmente não lia mais a literatura científica sobre o clima", disse o físico americano Joseph Romm, do site "Climate Progress".

Para ficar só no exemplo mais simples, a maioria das simulações do clima do futuro indica que a temperatura global deve ficar mais de dois graus Celsius mais quente até o fim deste século.

Esse aumento pode causar secas, inundações e aumento (de 1 m) no nível do mar. Mas não deve chegar perto dos cinco graus Celsius propostos por Lovelock.

***** COMENTANDO A NOTÍCIA:

Leia a entrevista completa publicada no blog clicando aqui.


Meu Brasil brasileiro


Marco Antonio Villa  
O Estado de S.Paulo

O Brasil é um país, no mínimo, estranho. Em 1992, depois de grande mobilização nacional e de uma comissão parlamentar mista de inquérito (CPMI) acompanhada diariamente pela população, o então presidente Fernando Collor de Mello teve o seu mandato cassado. Foi o primeiro presidente da República que teve aprovado um processo de impeachment no País. De acordo com os congressistas, o presidente foi deposto por ter cometidos crimes de responsabilidade. Collor foi acusado de ter articulado com o seu antigo tesoureiro de campanha, Paulo César Farias, um grande esquema de corrupção que teria arrecado mais de US$ 1 bilhão. Acabou absolvido pelo Supremo Tribunal Federal por falta de provas. Passados 20 anos, o mesmo Fernando Collor, agora como senador por Alagoas, foi indicado por seu partido, o PTB, para compor a CPMI que se propõe a investigar as ações de Carlinhos Cachoeira. Deixou a posição de caça e passou a ser um dos caçadores.

Quem mudou: Collor ou o Brasil? Provavelmente nenhum dos dois. Algo está profundamente errado quando um país não consegue, depois de duas décadas, enfrentar a corrupção. Hoje, diferentemente de 1992, as denúncias de corrupção são muito mais graves. Estão nas entranhas do Estado, em todos os níveis, e em todos os Poderes. Não se trata - o que já era grave - simplesmente de um esquema de corrupção organizado por um grupo marginal do poder, recém-chegado ao primeiro plano da política nacional.

Ao longo dos anos a corrupção foi sendo aperfeiçoada. Até adquiriu status de algo natural, quase que indispensável para governar. Como cabe tudo na definição de presidencialismo de coalizão, não deve causar admiração considerar que a corrupção é indispensável para a governabilidade, garante estabilidade, permite até que o País possa crescer - poderia dizer algum analista de ocasião, da turma das Polianas que infestam o Brasil.

Parodiando Karl Marx, corruptos de todo o Brasil, uni-vos! Essa poderia ser a consigna de algum partido já existente ou a ser fundado. Afinal, a nossa democracia está em crise, mas não é por falta de partidos. É uma constatação óbvia de que o Brasil não tem memória. O jornalista Ivan Lessa escreveu que a cada 15 anos o Brasil esquecia o que tinha acontecido nos últimos 15. Lessa é um otimista incorrigível. O esquecimento é muito - mas muito - mais rápido. É a cada 15 dias. Caso contrário não seria possível imaginar que Fernando Collor estivesse no Senado, presidisse comissões e até indicasse diretores de empresas estatais, como no caso da BR Distribuidora. E mais: que fosse indicado como membro permanente de uma CPMI que visa a apurar atos de corrupção. Indo por esse caminho, não vai causar nenhuma estranheza se o Congresso Nacional revogar o impeachment de 1992 e até fizer uma sessão de desagravo ao ex-presidente. Como estamos no Brasil, é bom não duvidar dessa possibilidade.

Em 1992 muitos imaginavam que o Brasil poderia ser passado a limpo. Ocorreram inúmeros atos públicos, passeatas; manifestos foram redigidos exigindo ética na política. Até surgiu uma "geração de caras-pintadas". Parecia - só parecia - que, após a promulgação da Constituição de 1988 e a primeira eleição direta presidencial - depois de 29 anos -, a tríade estava completa com a queda do presidente acusado de sérios desvios antirrepublicanos. O novo Brasil estaria nascendo e a corrupção, vista como intrínseca à política brasileira, seria considerada algo do passado.

Não é necessário fazer nenhum balanço exaustivo para constatar o óbvio. A derrota - de goleada - dos valores éticos e morais republicanos foi acachapante. Nos últimos 20 anos tivemos inúmeras CPIs. Ficamos indignados ouvindo depoimentos em Brasília com confissões públicas de corrupção. Um publicitário, Duda Mendonça, chegou mesmo a confessar - sem que lhe tivesse sido perguntado - na CPMI do Mensalão que havia recebido numa conta no exterior o pagamento pelos serviços prestados à campanha do então candidato Luiz Inácio Lula da Silva. A bombástica revelação foi recebida por alguns até com naturalidade. O que configurava um crime de responsabilidade, de acordo com a Constituição, além de outros delitos, não gerou, por consequência, nenhum efeito. E, vale recordar, com a concordância bovina - para lembrar Nelson Rodrigues - da oposição.

A aceitação de que política é assim mesmo foi levando à desmoralização da democracia e de seus fundamentos. Hoje vivemos um simulacro de democracia. Ninguém quer falar que o rei está nu. Democracia virou simplesmente sinônimo de realização de eleições, despolitizadas, desinteressadas e com um considerável índice de abstenção (mesmo com o voto obrigatório). Aqui, até as eleições acabaram possibilitando expandir a corrupção.

Na política tradicional, a bandeira da ética é empunhada de forma oportunista, de um grupo contra o outro. Na próxima CPI os papéis podem estar invertidos, sem nenhum problema. É um querendo "pegar" o outro. E muitas vezes o feitiço pode virar contra o feiticeiro.

E as condenações? Quem está cumprindo pena? Quem teve os bens, obtidos ilegalmente, confiscados? Nada. O que vale é o espetáculo, e não o resultado.

O Brasil conseguiu um verdadeiro milagre: descolou a política da economia. O País continua caminhando, com velocidade reduzida, por causa da má gestão política. Mas vai avançando. E por iniciativa dos simples cidadãos que desenvolvem seus negócios e constroem dignamente sua vida. Depois, muito depois, vão chegar o Estado e sua burocracia. Aparentemente para ajudar, mas, como de hábito, para tirar "alguma casquinha", para dizer o mínimo. E a vida segue.

Não vai causar admiração se, em 2032, Demóstenes Torres for indicado pelo seu partido para fazer parte de uma CPI para apurar denúncias de corrupção. É o meu Brasil brasileiro, terra de samba e pandeiro.

(*) Historiador; é Professor da Universidade Federal de São Carlos (UFSCAR)

O assalto – só por uns dias


Carlos Alberto Sardenberg
O Globo

A queda real dos juros depende de uma mudança de comportamento

Bancos ganham dinheiro, mas muito dinheiro com o cheque especial. E contam para isso com a falta de educação financeira do brasileiro e uma certa tolerância com taxas elevadas, que deve ser ainda herança da superinflação.

Em circunstâncias normais, ninguém toparia pagar uma taxa de juros de 185% ao ano, sabendo, como todo mundo sabe, que a inflação roda na casa dos 5% a 6%. Reparem bem: 185% ao ano! Imagine o que você diria se o gerente do banco oferecesse essa taxa para um empréstimo pessoal. Agressão seria quase legítima defesa.

Acrescente que pessoas bem informadas deveriam saber que os bancos pagam 9% pelo dinheiro. Isso mesmo, tomam a 9% e emprestam a 185%. Não faz sentido.

Mas um número imenso de brasileiros paga essa taxa, efetivamente. Em março, por exemplo, a taxa média de juros caiu, menos a do cheque especial. As pessoas continuaram sacando no vermelho, normalmente, mesmo sabendo disso. Sim, é possível que o cliente comum não conheça exatamente o tamanho da taxa, os 185% ao ano. Mas certamente sabe que é um absurdo.

Como topam pagar?

Porque é só um diazinho, não é mesmo? Vá lá, uns três ou quatro dias. O salário vai cair na conta na próxima terça, hoje ainda é quinta, o saldo já era, mas tem aquele jantar… Cheque especial é para isso mesmo, certo? Resultado: você entra e paga os juros mais escorchantes do mundo por cinco dias.

Agora multiplique os cinco dias por milhões de clientes e entenderá por que os bancos adoram o cheque especial e fazem o possível para atrair o freguês. Lembra aquelas propagandas que oferecem cinco dias sem juros no cheque especial? Pois é, da próxima vez verifique quanto vai pagar no sexto dia no vermelho.

No movimento de redução de juros, forçado pelo governo, todos os bancos anunciaram queda nas taxas para o cheque especial. Atenção, porém. Há pisos e tetos, estes ainda escorchantes. E quem consegue os níveis mais baixos?

Conforme têm mostrado as reportagens do “Globo”, a taxa mínima vai para os clientes que mantêm um bom saldo em conta-corrente, fazem aplicações, pagam taxas de administração, têm seguro, talvez um plano de capitalização e que, por isso mesmo, nunca usam o especial.

Para o cliente que está sempre ali apertado, todo mês faltando alguns dias no fim do salário, ou seja, para quem precisa do especial, a taxa vai lá para cima. Se você está nesse caso, vá ao banco tentar saber os seus juros.

Na avaliação geral dessa história, será preciso observar as taxas médias efetivamente aplicadas.

A queda real e duradora das taxas depende de uma mudança de comportamento. Os brasileiros não podem aceitar esses juros, nem que seja por um dia. Sim, muitas pessoas enfrentam dificuldades inesperadas – uma doença, perda de emprego, batida de carro -, mas a maioria utiliza o cheque especial porque não consegue suspender ou ao menos adiar um jantar, um vestido novo. Isso dá para mudar.

Quando a tentação vier, pense nisso: 185% ao ano!

NO VAREJO E NO ATACADO
São contratos de milhões de reais, a soma passando do bilhão nesses negócios do grupo Cachoeira com as diversas instâncias de governo. Naturalmente, as negociações em torno disso envolvem empresários, parlamentares e funcionários do governo.

Pois não é que Cachoeira recorreu à mesma teia de contatos para um, digamos, varejinho? Mobilizou dois senadores, um deputado federal, um ex-prefeito e um secretário de Estado, em pelo menos sete telefonemas, para colocar sua prima num emprego no governo de Minas, com salário de dois mil reais. E ainda tiveram que afastar o funcionário que estava lá, para abrir a vaga.

O senador Aécio Neves, que patrocinou o emprego a pedido do senador Demóstenes Torres, este agindo a pedido de Cachoeira, não viu nada de mais na nomeação. Qual o problema? O senador Demóstenes, na época, era um paladino da ética, seu pedido era qualificado. Depois, quando soube que o padrinho era o Cachoeira e que Demóstenes era o outro, Aécio sentiu-se traído.

É, pode ser. O governo está aí mesmo para empregar o pessoal dos correligionários, certo?

Mas se mobilizam tudo isso por um emprego de dois mil, com quem seria preciso falar para o contrato de uma superobra?

O truque dos juros


O Estado de S.Paulo

O velho ditado que diz que se pode levar um cavalo até a beira do rio, mas não se pode forçá-lo a beber água, parece aplicar-se à redução dos juros cobrados pela rede bancária dos seus clientes. Depois de o governo ter determinado aos bancos estatais que baixassem os "spreads" nas várias modalidades de crédito ao consumidor, com o objetivo expresso de estimular a demanda, os bancos privados, com indisfarçável relutância, foram aderindo ao esquema um a um, tendo anunciado publicamente as taxas mínimas que passariam a praticar, de acordo com uma tabela progressiva, sem dar ênfase, naturalmente, às taxas máximas.

O que se verifica, como constatou reportagem de O Globo (24/4), é que as taxas mais baixas, se e quando são concedidas, estão sujeitas a uma série de condições ou "pegadinhas" - o que significa que as coisas na vida real não se passam "como está na propaganda", como disse um cliente. Tudo depende do perfil do tomador. Num banco, por exemplo, a taxa de juros no crédito pessoal varia de 1,99% a 5,93% ao mês e a de crédito consignado (desconto em folha), em que não há praticamente risco, vai de 0,99% a 4,70% ao mês. Variações semelhantes se verificam nos bancos sob o controle do governo, que deveriam ser os porta-bandeiras da redução do crédito.

A Caixa Econômica Federal (CEF) divulgou um panfleto no qual diz que o cheque especial tem taxas a partir de 1,35% ao mês, mas poucos privilegiados fazem jus a isso. Numa agência da CEF na zona sul de São Paulo, a gerente informou, por exemplo, que a taxa do cheque especial para os correntistas que recebem o salário por meio da instituição pode cair de 4,45% para 3,5% ao mês.

A desculpa mais comum é de que os juros baixos são reservados para os clientes que já têm um relacionamento antigo com o banco, de preferência aqueles que recebem salário pela instituição, especialmente aposentados ou pensionistas. E os bancos privados, em geral, não reduziram os juros do cheque especial e do cartão de crédito, que são justamente as duas modalidades em que as taxas são mais elevadas, e que apresentam maior nível de inadimplência.

No banco privado que fez essa redução, as taxas caíram para a faixa de 4% a 8% ao mês, um patamar elevado. No Banco do Brasil (BB), os juros no cheque especial passaram a variar entre 1,38% e 8,31%, uma mínima muito baixa e uma máxima muito alta, mas o banco oferece uma saída para os endividados. Se o saldo devedor for de mais de 50% do limite, pode ser transformado em crédito direto ao consumidor, a ser pago em 24 parcelas, a uma taxa menor. Na verdade, os juros não caíram. No BB, a taxa para financiamento de veículos "varia muito de um automóvel para outro", disse um gerente do banco.

Num grande banco privado, a compra de carro pode ser financiada a partir de 0,97% ao mês, mas essa taxa só é aplicada a empréstimos pagáveis em quatro parcelas. Houve queda de juros no crédito pessoal e no crédito direto para a compra de outros bens que não veículos, mas isso só vale para novas operações e está na estrita dependência da ficha cadastral de cada um. Um cliente foi ao banco para verificar se os juros sobre sua operação de leasing tinham caído, mas saiu decepcionado. Juro de operação já feita não muda.

Em outro grande banco, a taxa mínima para a compra de veículos é de 0,9%, mas só é válida para bons clientes que tenham conta há mais de um ano na instituição. Um gerente do banco informou que a queda das taxas de juros foi restrita a empréstimos consignados a aposentados e pensionistas, desde que recebam pelo banco, o que hoje é um refrão no meio bancário.

Constata-se que a tese de que quanto menores forem os juros cobrados, menor será o nível de inadimplência, não convence os bancos. Muito preocupados com o calote, que tem afetado os seus lucros, eles preferem trabalhar de acordo com critérios tradicionais de avaliação de crédito. A divulgação de taxas mínimas, que evidenciam uma grande variação em relação aos níveis máximos, foi uma forma de driblar as pressões do governo para a redução dos "spreads", funcionando, ao mesmo tempo, como um instrumento de marketing.

Ilusão agrária


Xico Graziano (*)
O Estado de S.Paulo

Reflexão para o Dia do Trabalho: o trabalhador rural prefere um pedaço de terra para cultivar ou um bom emprego com salário fixo? A pergunta remete a um velho dilema da reforma agrária, resvalando na qualidade dos assentamentos rurais. Entenda o porquê.

Quem primeiro levantou a questão, há quase 50 anos, foi o historiador Caio Prado Júnior. Em seu livro A Revolução Brasileira (Brasiliense, 1966), ele criticou os comunistas que justificavam a reforma agrária a partir da Revolução Francesa (1789-1799), quando os camponeses tomaram as terras feudais. Ao se transformarem em agricultores livres, porém, eles fortaleceram a base do capitalismo, não do socialismo. Ironia da História.

A polêmica fundamentava-se no fato de que, no Brasil, a realidade era distinta daquela vivida no Velho Mundo. Aqui, a maioria dos trabalhadores rurais estava empregada na exploração latifundiária - do açúcar, do café, do cacau -, ou seja, eram assalariados, não camponeses puros. O foco das suas reivindicações, portanto, mirava a melhoria das condições de emprego e salário. Não a terra.

A discussão acabou amordaçada pelo golpe militar de 1964. Passaram-se os anos do chamado "milagre econômico". Esquecida por uns tempos, a reforma agrária voltou à agenda nacional após a redemocratização, trazendo uma importante diferença: havia-se transformado em proposta de política social, não de desenvolvimento econômico. Com respaldo da Teologia da Libertação, tornou-se um dogma. Ninguém a contestava.

Vieram as invasões de terras e o distributivismo agrário se impôs. Desgraçadamente, todavia, fraquejou naquilo que deveria ser a sua maior proeza: garantir qualidade de vida aos beneficiários. Arregimentando os excluídos das grandes cidades, apenas mudou a pobreza de lugar. Verdadeiras favelas surgiram espalhadas pelos campos.

Curiosamente, sempre o governo, e nunca o modelo, acabou sendo culpado pelo fracasso dos assentamentos rurais. Esse é o ponto central. Ao contrário de antigamente, quando a conquista da terra abria facilmente a porta da vitória, na sociedade atual a produção agrícola pode levar não à felicidade, mas ao martírio do lavrador. Antes, uma enxada e vontade de trabalhar garantiam o progresso familiar; hoje, os requisitos da tecnologia e os mercados competitivos exigem qualificação, e esta segrega contra a simplicidade.

A prova cabal da complexidade da produção rural pode ser buscada nas difíceis condições de existência dos milhões de pequenos agricultores brasileiros. Filhos e netos dos sitiantes tradicionais, eles sofrem na dura labuta para tirar o sustento dos filhos e viver com dignidade. Pragas e doenças atacam suas lavouras e ameaçam suas criações, a conta dos insumos nunca fecha, a seca rouba produtividade, o banco bate-lhes à porta.

Basta conversar com os agricultores familiares - os verdadeiros trabalhadores com terra do Brasil - para descobrir os seus desafios. Ganhar dinheiro na roça não está para qualquer um. Ainda mais sendo pequeno produtor. Isolado, então, nem pensar. A integração na cadeia produtiva - a parceria com a agroindústria, dentro da cooperativa e na turma do bairro - é exigência básica para vencer as barreiras da comercialização. Senão, produz e não acha quem lhe pague pela venda.

O pecado capital da reforma agrária, ao se pretender contemporânea, foi achar que poderia transformar desempregados urbanos em prósperos agricultores. Utopia urbana, não vingou. Os poucos assentamentos rurais vitoriosos advieram de locais onde os produtores já de antemão cultivavam, como ocupantes ou parceiros, as áreas desapropriadas. Assemelhados aos camponeses europeus, esses conheciam, nos calos da mão, o cio da terra. Bastou regularizar as suas posses para se tornarem viáveis. Fora disso, somente a tutela do Estado, com ônus exagerado para a sociedade, mantém a ilusão agrária.

Façam as contas. Cada família assentada custa ao redor de R$ 100 mil, incluindo o pagamento da terra e o custo operacional nos primeiros três anos. Isso equivale a pagar um salário mínimo durante 13 anos a cada uma das famílias beneficiadas. Qual lógica, econômica ou social, justifica tal dispêndio?

Alternativas de política pública poderiam ser executadas se, em lugar do acesso à terra, fosse o emprego o objetivo maior. Projetos de hortas comunitárias direcionadas para a merenda escolar, por exemplo, gerariam milhares de empregos nas periferias das cidades, aliviando as prefeituras dos gastos na compra de alimentos processados. Tais cinturões verdes, se incluídos nas políticas fundiárias, não tencionariam transformar ninguém em sitiante, dono de terra. Mas apenas, e tão fundamentalmente, oferecer um emprego a quem precisa. Baratearia ainda o lanche das crianças.

A horticultura irrigada garante, no mínimo, três postos de trabalho para cada hectare cultivado. Em comparação com a reforma agrária clássica, que gera dois empregos para cada 30 hectares, a capacidade de absorção de mão de obra nesse eventual novo modelo de política agrária seria 45 vezes maior. Basta mudar o enfoque, da terra para o emprego, para vislumbrar excelentes possibilidades. Urge pensar nelas.

O distributivismo agrário, impulsionado pelas invasões de terras, passou a representar uma ideia atrasada e ineficaz, remédio vencido contra a pobreza. Não resolve oferecer um lote de terra a gente inábil que, distante e desorientada, abocanha as verbas iniciais do Incra, compra um carro velho e se manda de volta à procura de emprego.

Erradas não estão as pessoas. Fora do tempo, e do lugar, encontra-se o atual modelo de reforma agrária, que mira no passado e recria a miséria. Qualificação para o trabalho, isso, sim, abre a janela do futuro.

(*) Agrônomo, foi secretário do Meio Ambiente do Estado de São Paulo

Sempre enganando os bobos


Percival Puggina 
Mídia Sem Máscara

Acho curioso o modo como por vezes são levados os debates. Se eu criticar os Estados Unidos pela guerra no Iraque ou pelo que acontece na prisão de Guantánamo, ninguém na face da terra vai me cobrar uma crítica ao regime cubano. Ninguém. Todos aceitarão que exerço um direito natural de opinião. Mas se disser qualquer coisa sobre a miséria, o totalitarismo e a opressão que pesa sobre a sociedade cubana imediatamente se forma fila para cobrar posição sobre abusos praticados pelos EUA. Entenderam? Junto à intelectualidade brasileira, para falar mal do comunismo tem que pagar pedágio.

Será o comunismo, como proclamam, uma utopia, uma ideia generosa? Seus 100 milhões de cadáveres devem ficar se revirando na cova. Foi um ideal alheio que lhes custou bem caro! Infelizmente mal conduzido, amenizam alguns cocmpanheiros. Que tremendo azar! Uma ideia tão generosa e não produziu um caso medíocre que possa ser exibido sem passar vergonha.Durante um século varreu com totalitarismos boa parte da Ásia e da África, criou revoluções na América Ibérica, instalou-se em Cuba e não consegue apresentar à História um único, solitário e singular estadista. Que falta de sorte! Tão generoso, tão ideal, tão utópico, e nenhuma coisa parecida como democracia para botar no currículo. E há quem creia que ainda pode dar certo.

Quanto ao sistema econômico que ficou conhecido como capitalismo (que não é sistema político nem ideologia), eu afirmo que seu maior erro foi aceitar conviver com uma designação deplorável. Contudo, chamem-no assim, se quiserem, embora, a exemplo de João Paulo II, eu prefira denominá-lo "economia de empresa". Suas vantagens sobre um modelo de economia centralizada, estatizada, são irrefutáveis na teoria e certificadas pela prática dos povos. É um sistema que não foi concebido por qualquer intelectual. É um sistema em construção na história, muito compatível, também por isso, com a democracia. Promove a liberdade dos indivíduos e a criatividade humana. Reconhece a importância do mercado. A maior parte dos países que adotam esse sistema atribui ao Estado, em sua política e em seu ordenamento jurídico, a tarefa de zelar pelo respeito às regras do jogo em proteção ao bem comum.

Aliás, quem quiser organizar as coisas desconhecendo a autonomia do econômico, submetendo-o a determinações que contrariem o que é da natureza dessa atividade (lembram dos tabelamentos de preços?) vai se dar mal. Vai gerar escassez, câmbio negro, fome. Digam o que disserem os arautos do fracasso do sistema de economia de empresa em vista da crise que afeta alguns países, os embaraços deste momento só se resolverão com atividade empresarial, comércio, pessoas comprando, indústrias produzindo, pesquisa e investimento gerando, expandindo e multiplicando a atividade produtiva.

Outro dia, nas redes sociais, alguém acusou o capitalismo de haver matado milhões. E não deixava por menos. Dezenas de milhões! O sistema? Onde? O capitalismo pode não resolver muitos casos de pobreza. Mas essa pobreza sempre terá sido endêmica, cultural, estrutural, de causa política. Não se conhecem sociedades abastadas que tenham empobrecido com as liberdades econômicas. Tampouco confundamos economia livre, de empresa, com colonialismo ou mercantilismo. Qualquer economia que queira prosperar e realizar desenvolvimento social sustentável vai precisar do empreendedorismo dos empreendedores, da geração de riqueza e de renda, e de coisas tão desejáveis quanto produção e consumo, compra e venda, lucro, salário e poupança interna.

Quem quiser atraso vá visitar os países que ainda convivem com economias centralizadas: Coreia do Norte e Cuba, onde só o armamento da polícia e das forças armadas não é sucata. Ali se planta com a mão e se mata lagarta com o pé. E o povo vive da mão para a boca, prisioneiro do "ideal" generoso que alguns insistem em impingir aos demais.

O Brasil vem sendo governado por socialistas e comunistas há mais de uma década. Embora não ocultem, no plano da política, as intenções totalitárias que caracterizam sua trajetória, num sentido geral vêm respeitando os fundamentos do sistema econômico no qual ainda engatinhamos. E, algo que muito os agrada, vão extraindo dividendo político de seus resultados. Mas procedem com indisfarçável esquizofrenia. Agem de um modo, falam de outro e vão enganando os bobos.

O supremo e as cotas


Por Rodrigo Constantino (*)
Opinião & Notícia

Somos ou não todos brasileiros sob as mesmas leis? 

(Reprodução/Internet)
STF reconheceu constitucionalidade das cotas raciais nas universidades 

Passou a ser constitucional a reserva de vagas em vestibulares para negros e pardos após a decisão do Supremo Tribunal Federal no último dia 26. Uma decisão que deve ser lamentada por dois motivos: 1) ela representa um perigoso ativismo judicial que usurpa poderes legislativos do Congresso; 2) o regime de cotas cria um apartheid em um país miscigenado como o Brasil.

Sobre o primeiro ponto, é preciso lembrar que a função precípua da Suprema Corte é a de guardiã da Constituição. Não cabe ao STF alterar a nossa Carta Magna, e sim verificar se as leis estão de acordo ou não com ela. Até a última vez que verifiquei, nossa Constituição de 1988 deixava claro, ao menos no papel, a igualdade perante as leis. Não é preciso tanta reflexão assim para compreender que, ao privilegiar um aluno por conta de sua cor de pele, o regime de cotas está claramente ferindo esta igualdade.

Alguns ministros chegaram a mencionar esta obviedade, só que elogiando esta usurpação do Poder Legislativo. Celebrar o ativismo judicial é um enorme risco para a liberdade, para o império das leis. Hoje, alguns podem aplaudir a mudança imposta pelo seleto grupo de ministros, rasgando a Lei maior da nação. Mas nada garante que amanhã esses mesmos ministros ou outros não irão ferir novamente a Constituição em algo que gera desaprovação destas mesmas pessoas. É o convite ao arbítrio. Para alterar a Constituição, existe o devido processo legal que passa pelo Congresso, e isso não deve ser ignorado.

Sobre o segundo ponto, não entra em minha cabeça que a melhor forma de se combater o racismo é segregar o País em raças. O governo não consegue oferecer boa educação básica, e tenta então arrombar a porta dos fundos das universidades com o regime de cotas. Mas nenhum ministro levantou a principal questão: é legítimo prejudicar o aluno pobre branco para conceder a vaga ao aluno pobre negro? O índio que foi arrastado pelos seguranças durante seu protesto ontem ilustra o risco das cotas: quando se privilegia uma “raça”, outros se sentem preteridos, com razão.

Esta segregação racial é abjeta, especialmente em um país predominantemente pardo. O ministro Luiz Fux chegou a declarar: “Viva a nação afrodescendente”. Eu pensava que vivia na nação de todos os brasileiros, mas descobri que existe mais de uma nação aqui, e que uma delas é composta por “afrodescendentes”. Somos ou não todos brasileiros sob as mesmas leis? A decisão do STF foi por unanimidade. Resta citar Nelson Rodrigues: “Toda unanimidade é burra”.

(*) Diretor do Instituto Liberal

Eu sou neguinha, eu sou neguinha.


Gustavo Nogy 
Mídia Sem Máscara

Acabar com o racismo passa por não admitir a ideia de raça, e não por fazer uma raça prevalecer sobre outras.

O BRASIL TEM DE ACERTAR uma certa conta com os negros, é o que dizem. Eu acho muito bem. Calote é coisa feia, estou de acordo. Só uma coisinha: o Brasil, me desculpem, não sou eu. Não conheço tal sujeito e, ao que me consta, ninguém conhece. Brasil é o nome (feio) que se dá a certo território cujos habitantes (índios, negros, morenos, brancos, amarelos) falam determinada língua e cantam (pessimamente) determinado hino. Brasil, como toda nação, é uma entidade ficcional que, por convenção (e não só, mas também porque é melhor não mexer com o tal do “detentor do monopólio da força”) nós aceitamos como coisa real. Como se houvesse braços e pernas no Brasil. Como se houvesse coração e vísceras. Como se houvesse cérebro, razão e vontade. No Brasil.

Quando se fala, portanto, que o Brasil tem de pagar a conta de um grupo qualquer de pessoas (habitantes aqui do Brasil mas que, estranhamente, nesse caso, é como se não fossem Brasil, senão eles próprios teriam de arcar também com os custos), o que, de fato, isso quer dizer é, simplesmente: você, eu, o João, o José, a Maria teremos todos de pagar a conta. Compulsoriamente. Os impostos vão subir, os encargos e as taxas, e é assim que o Brasil, aspas, salda suas dívidas (enquanto contrai outras): forçando-nos a pagá-las por “ele”. Ah, Brasil, seu espertão.

O interessante é que as mesmas pessoas tão dispostas a aceitar que o Brasil (na prática, nós todos, cercados aqui dentro) tem uma certa dívida a ser quitada com tais ou quais grupos não me parecem tão dispostas a aceitar uma solução muito mais razoável e benemérita: adotar um universitário negro (ou índio, ou branco, ou amarelo, ou ministro do supremo). Mecenato. Todo mundo há de ter um vizinho menos favorecido por tal entidade chamada Brasil. Pois bem: assumam a educação desse pobrezinho. Ao menos uma parcela da educação. 20%. Que acham?

Agora, divida por dívida, a África negra tem uma dívida com os negros. Os europeus compravam os negros já escravizados por negros doutras tribos. Se se considerar esse tipo de raciocínio - temos uma dívida com esses ou aqueles - a dívida remontará aos faraós (negros, também). No mais, o Brasil?... Quem, exatamente, chamamos de Brasil? Os portugueses colonizadores dos quais eu, particularmente, não descendo? Que os portugueses - lá em Portugal - assumam a conta, pois. Mas isso não se pode fazer, não é mesmo? Dirão: “Oras, mas você descende sim - considerando essa nação tão miscigenada - dos portugas”. É mesmo? Pois também descendo dos negros, então (não adoram alegar isso: que todo mundo é um tanto negro no Brasil?); logo, quero minha parte em dinheiro. Mas também quero indenização da senhora Alemanha porque meus ascendentes húngaros ("polacos", quando chegaram) tiveram de sair para qualquer lugar por conta do nazismo, e chegaram aqui exilados e pobres como Jó. E essa brincadeira não tem fim.

Acabar com o racismo passa por não admitir a ideia de raça, e não por fazer uma raça prevalecer sobre outras. Se os negros querem porque querem afirmar o orgulho pela sua raça, nada mais justo que todos os outros - de índios a caucasianos - assumam o orgulho pelas suas. E daí prevalecerá o mais forte.

Belo trabalho o do supremo (me recuso, motivos óbvios, à maiúscula): em uma semana o estado considera que os mais desprotegidos dos seus cidadãos não devem receber amparo e segurança jurídica precisamente por não serem aptos ao exercício pleno de suas faculdades e, em contrapartida, cerca de proteções outros membros crescidinhos, organizados e fortes o suficiente para fazer valer seus valores de cultura e raça. Sinal dos tempos.

Sapato 42 para pé 37


Percival Puggina
Zero Hora

Gosto de analogias. E foi essa que me ocorreu quando li, em ZH, que sobram vagas para cotistas na UFRGS. Pode? No Brasil pode. Calça e sai andando. 

Aliás, com as tais de cotas, criou-se uma inadequação nas duas pontas do fio em que se enreda e desequilibra a sociedade brasileira. Quem assistisse às sessões nas quais o STF se manifestou pela constitucionalidade das cotas no vestibular da UnB poderia imaginar que a Lei Áurea, decorridos 124 anos, ganhava um upgrade decisivo e definitivo. Era como se a desigualdade social causada pelos séculos de escravidão estivesse sendo resolvida por dez homens e uma sentença. Não, não estou exagerando. Quem exagerou na retórica e na cena foram os ministros. Com a adoção de cotas, reiteradamente proclamada como transitória para não ser inconstitucional (palavras dos próprios, seguindo o relator), servia-se, enfim, "justice sociale à la suprême" no cardápio da universidade brasileira. Tudo provisório porque, graças a essa breve degustação, o Brasil logo apresentaria ao mundo uma fisionomia mais simétrica. Não fosse provisório, seria inconstitucional, claro... Retórica de fancaria, enganosa, mas ao gosto da tese e da turma. 

É bom que saibamos: hoje, constitucional é o que a maioria do STF tem por justo. Ou por necessário. Ou por conveniente. Ou por correspondente ao clamor das ruas. Ou por imperioso ensinar às ruas. A escolha de qualquer desses critérios depende do caso e da opção de cada ministro. Basta, depois, para explicar o inexplicável, pinçar os dóceis princípios constitucionais e manipulá-los como massinha de moldar. Não subestimem a situação aplicando-lhe certas ideias que andam por aí a respeito de insegurança jurídica. A coisa é bem mais grave. Querem uma evidência? Os canais de tevê das duas casas do Congresso perdem audiência. É no canal do STF que acontece a real action, onde estão as novas celebridades, e onde as grandes questões se decidem. Que parlamento, que nada! E não esqueçam: o sistema de indicação dos ministros do Supremo foi concebido quando a reeleição presidencial era vedada. Em tese, a cada quatro anos mudariam os critérios de escolha. Hoje, oito dos onze membros da corte foram recrutados pela corrente política que encilhou o poder há mais de uma década. 

Por outro lado, enquanto sobra sapato na ponta da universidade, a ponta do ensino fundamental anda de pé no chão. Para cada beneficiário de cotas raciais em atos de formatura do Ensino Superior, centenas de crianças com produção de melanina semelhante à do formando estão recebendo uma educação inicial de péssima qualidade. É equivocado afirmar que se cristalizam assim as injustiças sociais. Assim elas se reproduzem! Multiplicam-se, celeremente, na falta de planejamento familiar e numa realidade socioeducacional que só é vista de julho a setembro, em ano de eleição. 

O STF deu mais uma prova de que a justiça discrimina. Se duvidar, pergunte às ruas. No subsolo do Brasil, nas senzalas do século 21, quem não faz discriminações, raciais ou sociais, leitor, é a injustiça. Ali, brancos, pretos e pardos são irmãos na miséria. Porque ocupam a franja do tecido social, dispõem do mesmo ensino público de péssima qualidade, abandonado pelo caminho por milhões de crianças, analfabetas funcionais, que ficam sem o molde da chave que abriria a porta dos salários dignos e dos méritos acadêmicos. Não fosse bastante, ainda serviram como cobaias para experiências pedagógicas tão fajutas e ruinosas quanto ideológicas e renitentes.

Que tal o dólar a R$ 3,50?


Carlos Alberto Sardenberg
O Estado de S. Paulo

No setor público, os salários são definidos pela capacidade política de influência

Não há números exatos, mas lojistas brasileiros não têm dúvidas: estão perdendo vendas para o comércio de Miami e Nova York. Os sinais são evidentes e o primeiro deles é a atual dedicação do governo americano em facilitar a concessão de vistos para brasileiros. O outro está nas contas externas brasileiras.

No primeiro trimestre deste ano, gastamos US$ 5,4 bilhões lá fora, um salto de 13% sobre o mesmo período de 2011. É verdade que o volume de gastos vem diminuindo na comparação mensal: US$ 2 bilhões em janeiro, ante US$ 1,6 bilhão em março. Isso coincide com a alta do dólar, de modo que essa pode ser uma explicação. Mas quanto precisa subir o dólar para eliminar a vantagem de comprar lá fora?

Fiz algumas comparações com preços de roupas, calçados e aparelhos eletrônicos. Em todos os casos, o dólar precisaria ir muito além. Por exemplo: encontrei um modelo de tênis muito conhecido no mundo, para praticar tênis, fabricado no Vietnã, sendo oferecido no Brasil por R$ 299, na promoção. Curiosamente, o modelo também está em promoção nos Estados Unidos, onde sai por US$ 85 – ou R$ 161, com o dólar já a R$ 1,90. Ainda assim, a metade do preço brasileiro.

Para que o preço local se equilibrasse como americano, seria necessário um dólar a R$ 3,50. Ora, nem os mais entusiastas defensores da desvalorização do real acreditam que seja razoável chegar a essa cotação.

O dólar chegou a esse nível, perto dos R$ 4, no período pós- Real, apenas numa ocasião: em setembro de 2002, véspera da primeira vitória eleitoral de Lula, quando se imaginava que ele fosse desmontar a política econômica de FHC, pilar da estabilidade. Naquele momento, as exportações brasileiras estavam na casa dos US$ 60 bilhões/ano e as reservas internacionais nem chegavam a US$ 20 bilhões.

Hoje, com a estabilidade macroeconômica completando 18 anos, as exportações passam dos US$ 250 bilhões e as reservas, dos US$ 350 bilhões.

Ou seja, no preço brasileiro local tem muito mais do que um real valorizado – tem todo o custo Brasil.
Com imposto? Na semana passada, a polícia deu uma batida num shopping popular em Belo Horizonte. Pegou todo mundo sem nota fiscal de venda e de compra. A Rádio CBN entrevistou um dos lojistas, quase todos ex-camelôs, para os quais, aliás, fora instalado o shopping. Ele disse o que se sabe: num mercado popular, se for pagar imposto, não dá.

Para a classe média, dá para pagar bem menos imposto: nos Estados Unidos.

Perderam a noção. Por falar nisso, eis um caso de custo Brasil, custo governo.

O trabalhador brasileiro ganhou, em março, R$ 1.728,40. Trata-se de uma média, é claro, de todos os rendimentos do trabalho formal ou informal, no setor público ou privado. É uma medida do IBGE e revela um ganho real, descontada a inflação, de 5,6% sobre o vencimento de um ano atrás. Na verdade, trata-se do valor mais alto para um mês de março, desde 2002.

Mas o Senado Federal tem coisa melhor, muito melhor. Vagas para policial da casa – segurança -, sem necessidade de curso superior, com salário de R$ 13 mil.

Quem ganha esse salário no setor privado?

Todo domingo, este jornal publica, no classificado Empregos, uma tabela geral de salários. São valores médios, obtidos em pesquisa com empresas de diversos portes e setores, sem vantagens, adicionais, prêmios, etc. – como são os R$ 13 mil dos seguranças do Senado, de modo que a comparação faz sentido. Sem contar que o Senado costuma ser generoso nas vantagens pessoais.

Em todas as áreas do setor privado (Administração, Recursos Humanos, Marketing/Vendas, Contabilidade, Tecnologia da Informação, Indústria de Transformação e Logística), só gerentes empatam ou passam dos R$ 13 mil. E nem todos. Em Marketing, por exemplo, um gerente de produtos ganha na média R$ 11 mil.

Na categoria dos engenheiros, sem cargos de chefia, os salários mais altos chegam a R$ 12 mil. E isso para engenheiro de obras sênior, com diploma, claro, e muitos anos de experiência.

Em toda a tabela, os salários mais altos estão na casa dos R$ 17,5 mil, remuneração de gerentes industriais e de Tecnologia da Informação.

De novo, são valores médios. Logo, é claro que tem gente ganhando mais do que isso em muitas empresas. São, entretanto,os pontos altos, não definem a regra. Há advogados que ganham mais de milhão por mês, por exemplo, defendendo os “melhores” bandidos nacionais. Mas um advogado sênior “normal”, digamos assim, numa boa empresa, ganha em média R$ 10 mil por mês.

Quando os servidores públicos, especialmente aqueles das carreiras mais bem remuneradas, reivindicam aumentos salariais, costumam se comparar com estrelas do setor privado. Não faz sentido.
Resumindo, o setor público paga bem. Um consultor legislativo, de novo no Senado, começa ganhando R$ 23 mil, com plena estabilidade. Não arranja isso no setor privado, a menos que seja um fora de série.

Alguns dirão: é o setor privado que paga mal.

Errado: os salários são definidos pela capacidade, formação, pelo desempenho, entrega de resultados e pela oferta e demanda de mão de obra. E sempre considerando custos e margens. A empresa paga o que pode pagar, considerando o que vende e o que fatura. (Aliás, neste momento, salários estão em alta no Brasil justamente porque a taxa de desemprego está em baixa histórica.)

Já no setor público, os salários são definidos pela capacidade política de influência. Quanto mais perto dos gabinetes de Brasília, maior o salário.

Na mesma ocasião em que o Senado oferecia R$ 13 mil para seus seguranças, a prefeitura do Rio de Janeiro abria vagas para professor de matemática e espanhol. Salário: R$ 3,4 mil.

João Ubaldo e a cartilha do PT


Sebastião Nery
Tribuna da Imprensa

Francisco Leite Chaves, o François, presidente do Diretório da Faculdade de Direito da União dos Estudantes e do Sindicato dos Bancários da Paraíba, foi na década de 50 um dos mais ativos dirigentes nas lutas da nossa União Nacional dos Estudantes, com sua oratória vibrante e coerente.

Formado em Direito e transferido pelo Banco do Brasil para Londrina, no Paraná, preso no golpe de 64, continuou lá sua militância política. Em 74, fui a Londrina para o comício de lançamento de sua campanha para senador pelo MDB.

No aeroporto, uma charanga animava a chegada dos convidados. Quando o vi, saudei-o: “Senador François!” Ele me abraçou e disse no ouvido:

- Nada dessa história de François! Isso era na Paraíba e no Rio. Aqui sou o Leite Chaves. François aqui no Paraná é cabeleireiro e veado!

Brilhante senador, depois procurador-geral da Justiça Militar no governo Sarney, foi ele que reabriu o processo do assassinato de Rubens Paiva.

LOURINHO
Em 81, Brizola instalava em São Paulo o diretório estadual do PDT. Foi à tribuna um rapaz alourado, de cabelo baixo:

- Nós, os negros…

Brizola levou um susto:

- O companheiro lourinho fala em nome de quê?

- Sou o representante do movimento negro.

- Lá na Bahia do Caó (Carlos Alberto de Oliveira, negro, jornalista baiano, deputado pelo Rio) o companheiro seria o representante dos gringos.

O “lourinho” falou, bem, e continuou representando os negros paulistas.

MORENINHO
Paulo Guerra era governador de Pernambuco, Joaquim Guerra, o filho, candidato a deputado (elegeu-se, Arena, bom deputado). Houve festa da padroeira em Bom Conselho, Joaquim Guerra foi lá. Depois da festa religiosa, o baile. Joaquim Guerra, bem moreno, queimado de sol, solteiro, foi dançar com a filha do prefeito. O prefeito viu, chamou a mulher:

- Quem é aquele negrinho que está dançando com a menina?

- Não tem nenhum negrinho aqui.

- Aquele ali, dançando com nossa filha.

- Fale baixo, homem, não diga besteira. É o filho do governador.

- Moreninho jeitoso!

CARTILHA
Na escola, aprendemos que o Brasil é um país continental, múltiplo, multirracial, multicultural, multi tanta coisa.

Pois em 2005, na Secretaria Nacional dos Direitos Humanos, embora dirigida pelo jornalista mineiro Nilmario Miranda, veterano lutador das causas populares e das melhores figuras do governo, fizeram uma Cartillha do “Politicamente Correto”, de palavras proibidas.

Impressas com dinheiro público, milhares delas foram distribuídas nas repartições públicas, nas escolas, com o que se deve e não se deve dizer. Foi a volta da Santa Inquisição! Um Index vernacular. Uma censura medieval, de QI de calango, de quem tem minhoca na cabeça.

Queriam proibir “veado, negro, preto, mulato, escuro, baianada, palhaço, comunista, funcionário” etc.

JOÃO UBALDO
João Ubaldo Ribeiro, mestre da língua e da liberdade, jeitoso moreninho baiano, imediatamente jogou na Internet um grito perplexo, indignado, contra a Cartilha do PT:

1. “Estamos ingressando numa era totalitária, em que o governo dá o primeiro passo para instituir uma nova língua e baixar normas sobre as palavras que devemos usar? Palavras veneráveis, como “beata”, em qualquer sentido, deverão ser banidas? Será criada uma política da linguagem? Que autoridade tem essa Secretaria para emitir essas opiniões, que por enquanto podem ser apenas opiniões, mas nada impede, na ditadura mal disfarçada em que vivemos, que uma Medida Provisória venha a ser baixada?”

2. “Os escritores e jornalistas terão seus livros e textos examinados, para que se expurguem termos ou expressões condenadas? Contar piadas será tido como conduta anti-social e discriminatória? O governo é o dono da língua? As palavras “negro”, “preto”, “escuro”, e semelhantes, serão vedadas, sem qualquer contexto julgado negativo? As nuvens de chuva por acaso são brancas e alguém está insultando os negros quando diz que há nuvens negras no horizonte (e há)? Tratar-se-á como injúria ou difamação chamar de comunista alguém que até o seja, mas não se considere como tal?”

3. “Não podemos aceitar esse delírio totalitário, autoritário, (ele, sim!), asnático, deletério e potencialmente destrutivo. Não sei mais o que dizer sobre esse descalabro, escândalo, esse sinal de atraso monstruoso, que de agora em diante não deverei mais poder chamar de palhaçada, para não insultar os palhaços”.

O PT, que rasgou seu programa, naquela hora criou a Cartilha de uma nova Inquisição. Espera-se que hoje os petistas estejam arrependidos.

Em março, governo teve o maior gasto da história com pagamento de juros da dívida


Fernando Nakagawa e Adriana Fernandes
Agência Estado

Gastos com juros nas contas do setor público somaram R$ 21,037 bilhões no mês passado, de acordo com o Banco Central

BRASÍLIA - Os gastos com juros nas contas do setor público em março somaram R$ 21,037 bilhões, o maior valor da história. Essa quantia corroeu toda a economia que o governo tinha feito anteriormente, o que resultou em um déficit nominal de R$ 10,595 bilhões no mês. O dado foi divulgado pelo Banco Central, nesta sexta-feira, 27, e mostra que o esforço para o pagamento de juros da dívida, o chamado superávit primário, foi insuficiente para pagar a dívida junto aos detentores de títulos brasileiros. 

"Apesar de recorde, tivemos um patamar muito semelhante ao visto um ano antes. É só um pouco acima de 2011", minimizou o chefe do departamento econômico do Banco Central, Tulio Maciel. "Mesmo sendo o pior desempenho para o mês, o número indica um aspecto bastante favorável: estamos em mesmo patamar do ano passado", disse, ao lembrar que março de 2012 teve um dia a mais que em 2011 e que o estoque da dívida bruta seguiu em elevação e acumula crescimento de 11% no ano. "Isso evidencia que o custo da dívida diminuiu. Diminuiu porque a taxa Selic caiu e a inflação também", explicou, ao comentar que o quadro econômico sinaliza que a tendência é de queda dos gastos com juros da dívida ao longo do ano.

Segundo o BC, a maior parte do déficit no mês passado foi gerada pelo Governo Central, que respondeu por R$ 10,336 bilhões. Já os governos regionais (Estados e municípios) terminaram março quase no zero a zero, com déficit nominal R$ 48 milhões. Empresas estatais responderam por fatia de R$ 211 milhões em março. Nesse valor não estão a Petrobrás e a Eletrobras. Na comparação com março de 2011, o resultado do mês passado apresenta elevação já que naquele mês o setor público havia registrado déficit nominal de R$ 6,949 bilhões.

No acumulado do primeiro trimestre de 2012, o setor público registrou déficit nominal de R$ 12,995 bilhões, equivalente a 1,27% do Produto Interno Bruto (PIB). O porcentual sinaliza melhora na comparação com igual período de 2011, quando as contas públicas amargavam saldo negativo equivalente a 2,05% do PIB.

No acumulado em 12 meses até março, o déficit nominal do setor público consolidado alcançou R$ 101,275 bilhões, equivalente a 2,41% do PIB.

Juros
Os gastos com juros nas contas do setor público em março foram maiores do que as verificadas no mesmo mês do ano passado, quando atingiram R$ 20,549 bilhões. No acumulado do ano, os gastos com juros nas contas do setor público subiram para R$ 58,968 bilhões, o equivalente a 5,78% do PIB.

Os dados do Banco Central mostram, no entanto, um recuo nessas despesas no primeiro trimestre do ano. No ano passado, as despesas com juros acumuladas estavam em 6,13% do PIB (R$ 58,945 bilhões). Em 12 meses, os gastos com juros caíram para 5,64% do PIB ate março, ou R$ 236,696 bilhões. Até fevereiro, essas despesas estavam mais altas e eram equivalentes a 5,67% do PIB.

Dilma e o fantasma da Delta


Guilherme Fiuza
Revista Época

A presidente corre o risco de tropeçar de repente num saco de dinheiro que atravessa o governo rumo ao PAC

Dilma Rousseff pediu a sua assessoria um pente-fino nos contratos da construtora Delta com o governo federal. A presidente da República quer saber se há irregularidade em alguma dessas obras. O Brasil assiste embevecido a mais uma cartada moralizadora da gerente. Mas o ideal seria ela pedir a sua assessoria, antes do pente-fino, uns óculos de grau. Se Dilma não enxergou o que a Delta andou fazendo com seu governo, está correndo perigo: pode tropeçar a qualquer momento num desses sacos de dinheiro que atravessam seu caminho, rumo às obras superfaturadas do PAC.

Como todos sabem, até porque Lula cansou de avisar, Dilma é a mãe do PAC. Por uma dessas coincidências da vida, a Delta é a empreiteira campeã do PAC. Segundo a Controladoria-Geral da União (CGU), as irregularidades nas obras tocadas pela Delta vêm desde 2007. A mãe do PAC teve pelo menos cinco anos para enxergar com quem seu filho estava se metendo. E a Delta era a principal companhia do menino, andando com ele Brasil afora num variado roteiro de traquinagens. Mas as mães de hoje em dia são muito ocupadas, não têm tempo para as crianças.

Felizmente, sempre tem uma babá, uma vizinha, uma amiga atenta para abrir os olhos dessas mães distraídas. Dilma teve essa sorte, em setembro de 2010. A CGU, que vive controlando a vida alheia – uma espécie de bisbilhoteira do bem –, deu o serviço completo: contou a Dilma e Lula (a mãe e o padrasto) que o PAC vinha sendo desencaminhado pela Delta. Superfaturamento, fraudes em licitações, pagamento de propinas e variadas modalidades de desvio de dinheiro público – inclusive com criminosa adulteração de materiais em obras de infraestrutura – estavam entre as molecagens da empreiteira com o filho prodígio da então candidata a presidente.

De posse do relatório da CGU, expondo a farra da Delta nas obras do PAC, o que fez Dilma Rousseff? Eleita presidente, assinou mais 31 contratos com a Delta.

Talvez seja bom explicar de novo, para os leitores distraídos como a mãe do PAC: depois da comunicação à administração federal sobre as irregularidades da Delta, a empreiteira recebeu quase R$ 1 bilhão do governo Dilma. Agora, a presidente anuncia publicamente que passará um pente-fino nesses contratos, e a plateia aplaude a faxina. Não só aplaude, como dá novo recorde de aprovação a esse mesmo governo Dilma (64% no Datafolha), destacando o quesito moralização. Infelizmente, pente-fino não pega conto do vigário.

Mas o show tem de continuar. E, já que o público está gostando, a presidente se espalha no picadeiro. Depois da farra da Delta, que teve seu filé-mignon no famigerado Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (Dnit), Dilma diz que quer saber se a faxina no órgão favoreceu Carlinhos Cachoeira. Tradução: depois de ter de demitir apadrinhados de seus aliados porque a imprensa revelou suas negociatas, Dilma quer ver se ainda dá para convencer a plateia de que o escândalo foi plantado pelo bicheiro. É claro que dá: se Lula repete por aí que o mensalão não existiu (e não foi internado por causa disso), por que não buzinar a versão de que o caso Dnit foi uma criação de Cachoeira?

Pelo que revelam as escutas telefônicas da Polícia Federal, o bicheiro operava com a Delta na corrupção de agentes públicos. Dilma e o PT são candidatos a vítimas desse esquema – daí Lula ter forçado a CPI do Cachoeira. O problema na montagem dessa literatura é que a Delta, mesmo depois da revelação do esquema e da prisão do bicheiro, continua recebendo dinheiro do governo Dilma – R$ 133 milhões só em 2012, e através do Dnit…

A atribulada mãe do PAC não notou a Delta, não percebeu Cachoeira, engordou o milionário esquema deles no Dnit durante anos por pura distração – e agora vai moralizar tudo isso com seu pente-fino mágico. Na próxima rodada das pesquisas de opinião, o vigilante povo brasileiro saberá reconhecer mais essa faxina da mulher destemida, dando-lhe novo recorde de aprovação.

Nesse ritmo, a CPI do Cachoeira acabará concluindo que até o escândalo do mensalão foi provocado pelo bicheiro (essa tese já existe). E Dilma conquistará para o PT o monopólio da inocência.

Roubar pode, só não pode embolsar o roubo


Mary Zaidan
Blog Noblat  

Peixe morre pela boca. Só não é assim quando o peixe é petista e goza de algum prestígio junto ao dono do partido, o ex Lula. Os absurdos ditos ficam por não ditos. Pior, são tidos como normais e não como absurdos.

A pérola da semana veio do deputado João Paulo Cunha (PT-SP), que, ao apontar diferenças entre o mensalão e o caso do contraventor Carlos Cachoeira, considerou menor o crime de roubar quando o fruto do roubo não vai para o bolso do ladrão. "Não há entre todos os réus do mensalão um acusado de apropriação particular do recurso", garantiu, com peculiar soberba, em entrevista ao site Consultor Jurídico. Como se isso alterasse a tipificação do crime pelo qual ele e outros 35 são acusados.

E foi ainda mais longe ao citar a Land Rover de Silvio José Pereira, o Silvinho, único da turma que teria embolsado propina. Ao que parece, se o carro de luxo fosse para o partido, tudo bem. Crime eleitoral, um "erro que o PT corrigiu".

Político experiente, exercendo seu terceiro mandato na Câmara dos Deputados, casa que presidiu de 2003 a 2005, Cunha deveria saber que certas coisas podem ser pensadas, nunca ditas. Outras nem mesmo poderiam ser pensadas.

Mas como tudo é dito com a deliberada intenção de minimizar o mensalão, tudo bem. Insiste-se na tecla de que o pagamento periódico a aliados não passou de caixa 2, um pecado que todo mundo comete. O refrão, lançado por Lula na inesquecível entrevista de Paris, tem de ser repetido, repetido mais uma vez e de novo. Assim, quem sabe, vira verdade. Esse foi o papel de Cunha.

Em 2006, Cunha quase foi cassado. Perdeu na Comissão de Ética, ganhou no plenário. Não quer, de forma alguma, que volte à tona o saque em espécie que sua mulher fez no Banco Rural do Brasília Shopping. Muito menos a singela desculpa que deu à época: ela foi ao banco pagar uma conta de TV a cabo.

Mentiu lá e mente agora. Afinal, já deu certo e pode dar de novo.

A poupança e as metas de Dilma


O Estado de S.Paulo

Mudar as regras da caderneta de poupança, a mais antiga e mais democrática forma de aplicação financeira, foi uma rara demonstração de coragem política da presidente Dilma Rousseff. A mudança era necessária, sabia-se há muito tempo, mas o governo sempre dava um jeito de empurrar a decisão para um dia indeterminado. Com as alterações anunciadas na quinta-feira, fica aberto, finalmente, o espaço necessário para a redução da Selic, a taxa básica de juros, até níveis mais civilizados. O lance é duplamente estratégico, porque facilita a gestão da dívida pública e, ao mesmo tempo, reforça a política presidencial de redução do custo do crédito. Mas reforça, ao mesmo tempo, a imagem de um Banco Central (BC) cada vez mais submisso ao Palácio do Planalto e a um roteiro traçado na cúpula do Executivo. Nada mais razoável que a dúvida: o BC terá trocado a meta de inflação pela meta de juros? A Selic continuará caindo se as condições da inflação o permitirem, disse o ministro da Fazenda, Guido Mantega. A avaliação dessas condições, tudo indica, já foi feita.

Sem entrar nessa questão, a presidente da República e o ministro da Fazenda têm bons argumentos técnicos para defender a alteração nas regras da poupança. Primeiro ponto: a Selic remunera os títulos da dívida pública. Se ficasse abaixo do rendimento da poupança, investidores deixariam os fundos, migrariam para as cadernetas e o Tesouro teria dificuldade para refinanciar sua dívida. Segundo ponto: uma liberdade maior para manejar a taxa básica deve dar ao governo mais força para pressionar os bancos a baixar seus juros. Esta é, pelo menos, a expectativa indicada pelas autoridades, embora não devam ter ilusões: será necessário um jogo mais duro para levar os bancos privados a baratear o crédito mais significativamente do que foi feito até agora.

Este segundo ponto é especialmente importante para a presidente Dilma Rousseff. Em discurso na posse do novo ministro do Trabalho, horas antes do anúncio da alteração das cadernetas, ela voltou a indicar três grandes obstáculos ao crescimento econômico do País: o câmbio valorizado, os juros altos e os impostos.

O câmbio é hoje mais favorável do que há alguns meses. Isso é reconhecido em Brasília, embora o ministro da Fazenda continue denunciando uma guerra cambial promovida, segundo ele, pelas autoridades do mundo rico. Medidas tomadas pelo governo, disse ele, empurraram o dólar de R$ 1,75 para a R$ 1,92 e - mais importante - frearam a valorização do real. Boa parte da alta do dólar foi realmente causada por fatos diferentes daqueles mencionados pelo ministro, mas o detalhe relevante, neste momento, é a melhora das condições cambiais. E quanto aos outros obstáculos?

O governo tem-se empenhado principalmente na campanha pela redução dos juros. O Banco do Brasil e a Caixa Econômica foram mobilizados para cortar suas taxas e impor alguma concorrência aos bancos privados. Os banqueiros responderam com o barateamento de algumas linhas. A mudança foi principalmente cosmética, embora haja, de fato, muito espaço para redução da margem dos bancos.

O governo está certo quanto à necessidade de corte dos juros, mas seu discurso falha em relação a um ponto: se o custo do crédito for reduzido mais amplamente, neste momento, a indústria brasileira ainda terá dificuldade para aumentar a produção. Não basta, agora, estimular a demanda com mais crédito, porque o produtor nacional tem enorme dificuldade para competir com o estrangeiro. Sem mexer mais seriamente numa porção de outros custos, o governo dificilmente mudará as condições desse jogo. Investir sai muito caro para a indústria brasileira não só pelo custo do capital, mas também por causa dos impostos e isto é só uma pequena parte do problema.

Nenhuma iniciativa do governo federal para mexer nos impostos e em vários outros custos especificamente brasileiros tem efeito mais que epidérmico. A presidente Dilma Rousseff não manifestou, até hoje, a mínima disposição de atacar de modo mais consequente os problemas da produção. Falta levar a outras áreas a coragem demonstrada na alteração da poupança.

A surpreendente história da palavra poupança


Sérgio Rodrigues
Veja online



A palavra da semana, poupança, nasceu no século 19, a princípio com sentido negativo, o de sovinice, e só um pouco mais tarde como nome de uma prática valorizada, a da parcimônia. Se a poupança é um termo oitocentista de origem clara, o verbo poupar (“juntar dinheiro, gastar moderadamente, evitar que se desgaste”), do qual se fez o substantivo, tem cerca de sete séculos e uma história bem mais animada.

A etimologia tradicionalmente aceita de poupar é surpreendente, além de ligeiramente polêmica: filólogos de prestígio como Antenor Nascentes e José Pedro Machado não tiveram dúvida em situar sua origem no latimpalpare, isto é, “apalpar, tocar com delicadeza, acariciar”.

E o que poderia ter o ato de poupar em comum com o de apalpar? Nada além de uma metáfora: basicamente a ideia de, como se diz hoje, pegar leve, ou seja, tocar (o bolso) com delicadeza. Nas palavras de Antenor Nascentes, a pessoa que controla bem seus gastos tem “cautelas de quem apalpa”.

Hmm, será? Nascentes e Machado têm crédito, mas etimologia não é ciência exata. Que a explicação soa um tantinho forçada, soa, mas isso não quer dizer que o seja. O Houaiss lembra que outro filólogo, Antônio Geraldo da Cunha, preferiu considerar a ligação entre poupar epalpare como apenas “provável”, sem no entanto apresentar uma tese alternativa. Talvez seja o caso, portanto, de poupar o ceticismo.

Você tem nomofobia? Tem certeza?


Hugo Souza
Opinião & Notícia

Cerca de 18% dos brasileiros são dependentes do celular. Falta do aparelho pode acarretar até verdadeiras crises de abstinência. 

(Reprodução)
A nomofobia começa com a angústia 
ante a ideia de perder o celular

No início de abril correu o mundo uma história que parecia saída de um desses sites de notícias falsas, esses que juntam assuntos e personagens em destaque na mídia com elementos do imaginário popular para criar as histórias mais mirabolantes que, não obstante, muitas vezes soam reais, tendo em vista os tempos que correm de mitigação da fronteira entre o razoável e o absurdo na circulação de informações.

A história em questão, entretanto, foi tragicamente real: um adolescente chinês de 17 anos da província de Anhui, uma das mais pobres da China, vendeu um dos seus rins por US$ 3,5 mil para comprar um iPhone e um iPad. O garoto confessou para a mãe a bobagem que fez porque não teve como explicar onde havia arranjado dinheiro para se equipar com a parafernália da Apple. Cinco pessoas foram indiciadas pelo crime e o jovem, identificado como Wang, arranjou uma insuficiência renal.

Mas não, a insuficiência renal fruto do extremo a que chegou o jovem Wang não é uma doença da era digital. A nomofobia, sim. Nomofobia? Isso mesmo. É um mal que pode afligir nada menos do que 18% dos brasileiros. Você pode ser um portador.

Afinal, o que é nomofobia?
Nomofobia é uma “doença digital” que começa com a angústia ante a ideia de perder o telefone celular ou de ser incapaz de ficar sem ele por mais de um dia e termina com as pessoas se sentindo rejeitadas quando o telefone toca pouco e passam mesmo por crises de abstinência quando estão sem o aparelho.
É claro que a nomofobia (do inglês “no mobile phobia”) não tem origem no celular propriamente dito, mas sim em outros transtornos mentais, como ansiedade e depressão. Não obstante, os números que surgem a todo dia dão conta de uma verdadeira epidemia global.

Segundo uma pesquisa realizada em março na França pela empresa Mingle, aproximadamente 22% dos franceses dizem ser “impossível” ficar por mais de um dia sem usar o celular. Entre jovens com idades entre 15 e 19 anos a proporção chega a 35%. E foi uma empresa francesa de pesquisa, a Ipsos, que realizou uma pesquisa com mil brasileiros e constatou que 18% de nós somos dependentes de celular.

Mas é no Reino Unido onde a situação parece mais alarmante. Uma pesquisa realizada pela empresa de soluções de segurança SecurEnvoy revelou que 66% dos britânicos se dizem “muito angustiados” com a ideia de perder seu celular. A proporção chega a 76% nos jovens entre 18 e 24 anos de idade.

Da tecnofobia à tecnofilia
Outras “patologias” da era da iParafernália são dois opostos que definitivamente não se atraem: a tecnofobia e a tecnofilia.

A tecnofobia é algo que os acadêmicos definem como uma, digamos, “vertente” que vê as inovações tecnológicas de toda sorte como algo ruim, em um processo de desumanização da sociedade ante as máquinas cada vez mais poderosas, menores e presentes em todos os aspectos e momentos da vida humana.

Trocando em miúdos, a tecnofobia pode ser observada “em campo” naqueles que não têm telefone celular ou que têm, a contragosto, mas estão sempre prestes a atirá-los pela janela sempre que não conseguem acessar uma de suas funções, ou mesmo em gente que sua frio diante de um velho — sim, velho — caixa eletrônico.

Já a tecnofilia é, na melhor das hipóteses, a adesão acrítica aos avanços tecnológicos e a crença de que estes avanços são a chave para uma vida melhor; na pior, é uma espécie de atração tresloucada pela tecnologia, ou melhor, pela tecnologia de última geração.

Novamente trocando em miúdos, trata-se daquele sujeito que acampa na porta da loja da Apple para ser o primeiro a comprar as últimas versões do iPhone e do iPad, ou mesmo em um jovem oriental de uma província remota e miserável que está disposto a quase tudo para ter em mãos os aparelhos da moda.

Caro leitor, você está mais para um tecnofóbico ou para um tecnófilo?