terça-feira, abril 30, 2019

O samba só teve uma rainha, e ela foi Beth Carvalho

Julio Maria
O Estado de S. Paulo

A mulher da zona sul que veio ao mundo para unir morro e asfalto

O samba teve uma rainha apenas e ela foi Beth Carvalho. Com toda reverência a entidades inquestionáveis dessa monarquia, como Clementina de Jesus e Dona Ivone Lara, Beth, para além do que aquele timbre de voz absurdamente único podia fazer, teve uma posição estratégica primordial para que o samba descesse os morros e ganhasse os palácios.

Foto: ARQUIVO ESTADÃO
Beth ao lado de Nelson Cavaquinho em 1981 

Assim que surgiu com mais força, no final dos anos 1970, depois de ensaiar um começo mais inclinado à MPB, a garota branca da zona sul do Rio, filha de um ideólogo comunista, não era vista com bons olhos pelas alas menos progressistas das rodas do Rio. Afinal, o que queria a branquinha bem-nascida se infiltrando nas quadras? “Eu nunca senti preconceito”, dizia Beth, protegida por uma verdade espontânea e desconcertante de quem duvidava de seus propósitos. “E o samba não admite mentira, meu filho”, ela me disse em uma das muitas entrevistas marcantes que fizemos.

O trabalho deu a Beth sua glorificação. Ela só tinha 19 anos quando defendeu Andançano 3.º Festival Internacional da Canção, de 1968, a música de Paulinho Tapajós, Danilo Caymmi e Edmundo Souto, com ajuda vocal do Golden Boys. Saiu com o terceiro lugar, mas colocou a canção em sua história para sempre. Desde então, o samba sugou suas inspirações e lá foi ela, se consolidando disco após disco, um por ano, trazendo de vários autores 1.800 Colinas, Saco de Feijão, Olho por Olho, Coisinha do Pai, Firme e Forte, Vou Festejar, Acreditar, Mas Quem Disse Que Eu te Esqueço.

A “grande madrinha” gostava de dizer os nomes dos afilhados. Eram grupos e sambistas que não acabavam mais, incluindo gente da velha-guarda esquecida que fazia Beth sentir nas veias a missão de resgatá-la com luxo e circunstância. Em 1972, fez isso por Nelson Cavaquinho e descobriu Folhas Secas. Bom para Nelson, sensacional para Beth. 

O produtor daquele disco era Cesar Camargo Mariano, marido de Elis Regina. E então, dá para imaginar o que aconteceu: Cesar levou a fita da música gravada para casa, antes de o disco sair e Elis ouviu. A gaúcha também estava terminando um disco e saiu correndo, mandando Cesar fazer logo o arranjo (o núcleo da banda de Beth também era o mesmo da de Elis). Elis conseguiu chegar na frente e lançou sua Folhas Secas. Beth ficou uma fera e passou mais de dez anos sem falar com Cesar Camargo Mariano. A história, no entanto, ficaria com a gravação de Beth. Foi ela quem imortalizou definitivamente o samba, com o violão tocado pelo próprio Nelson Cavaquinho na gravação.

Os anos 1980 chegaram e o samba mudou. O partido-alto pós-Era dos Festivais ganhou força e, sobretudo na zona oeste do Rio, uma turma vinha para tremer o chão. Beth passou a ser frequentadora assídua da quadra Cacique de Ramos e, na roda, a sentar-se ao lado de uns meninos cheios de talento que ninguém conhecia. Zeca Pagodinho, Arlindo Cruz, Sombrinha, Almir Guineto, Jorge Aragão.


Alguns formariam o grupo Fundo de Quintal, que seria mostrado ao planeta em um disco de 1978 que Beth batalhou em sua gravadora para fazer: De Pé no Chão. Um estouro que venderia mais de 500 mil cópias.

Na última entrevista que fizemos, antes do show que apresentou deitada em uma chaise longue no Tom Brasil, em São Paulo, ano passado, Beth reagiu como uma menina descobrindo o mundo quando o assunto era o timbre de sua voz. “Você acha mesmo ele tão bonito assim?” “Sim, Beth, entrevistar você vale a pena só para ouvir esse timbre.” Nunca valeu tanto a pena quebrar o decoro jornalístico. 

Foi para comemorar 40 anos de carreira que a sambista subiu ao palco pela última vez, deitada em uma chaise longue. “Não tem o Na Cama com Madonna? Aqui é o Na Cama com Beth Carvalho”, disse. Beth cantando O Show Tem Que Continuar, com a voz vacilante pela dor que deveria sentir naquelas noites, foi a prova maior de amor à música que um artista brasileiro deu sobre um palco.

Seu diafragma comprimido pela posição espremia as notas e era possível ouvir a dor em gemidos. O primeiro samba ela cantou sentada, o segundo seria esforço demais. Beth pediu licença e se deitou para seguir até o fim, com o pé gingando no ritmo.

Aquilo virou uma celebração com uma plateia atônita e colada nas cadeiras. Muita gente chorava. Veio então O Show Tem Que Continuar, o fim, e o instinto falou mais alto. Beth estava se despedindo, ordenando que não parassem de sambar nem para enxugar as lágrimas, e é só isso o que devemos fazer por ela.





Beth Carvalho, a Madrinha do Samba, morre no Rio aos 72 anos

Por G1 Rio

Artista estava internada desde 8 de janeiro; causa da morte não foi divulgada. Com mais de 50 anos de carreira, ela é um dos maiores nomes da história do gênero.


Foto: Divulgação / Washington Possato
Beth Carvalho 

A cantora e compositora Beth Carvalho, conhecida como a Madrinha do Samba e um dos maiores nomes da história do gênero, morreu no Rio, nesta terça-feira (30), aos 72 anos. Ela estava internada no Hospital Pró-Cardíaco, em Botafogo, Zona Sul da cidade, desde o início de 2019. A causa da morte ainda não foi divulgada.

Com mais de 50 anos de carreira e dezenas de discos gravados, Beth Carvalho é um dos maiores nomes do samba e considerada madrinha de artistas como Zeca Pagodinho, Arlindo Cruz e Jorge Aragão – daí o apelido "Madrinha do Samba".

Um problema na coluna já afligia a cantora havia algum tempo. Em 2009, Beth Carvalho chegou a cancelar sua apresentação no show de réveillon, na Praia de Copacabana, por causa de fortes dores. Em 2012, a cantora se submeteu a uma cirurgia na coluna. No ano seguinte, Beth foi homenageada pela escola de samba Acadêmicos do Tatuapé, no carnaval de São Paulo, mas não participou do desfile já por motivos de saúde. Lu Carvalho, sobrinha de Beth, foi quem representou a tia na ocasião.

Show histórico
Em 2018, com a mobilidade cada vez mais reduzida pelos efeitos do problema na coluna, Beth fez um show histórico. Ao lado do grupo fundo de Quintal, ela mostrou sua força ao cantar deitada seus sucessos no show “Beth Carvalho encontra Fundo de Quintal – 40 anos de pé no chão”.

Foto: Mauro Ferreira
Beth Carvalho canta deitada em show no Rio de Janeiro 

Durante sua internação no início de 2019, Beth teve que reduzir a quantidade de visitas. A informação foi compartilhada por sua filha, Luana, após um vídeo mostrar a cantora debilitada cantando deitada na cama do hospital.

Vida e obra
Elizabeth Santos Leal de Carvalho nasceu no Rio, em 5 de maio de 1946. De acordo com o site oficial da artista, seu contato com a música foi incentivado pela família, ainda na infância. Aos 8 anos, apareceram o gosto pela dança e o primeiro violão, que ela ganhou dos avós. Após a prisão do pai no período da ditadura, em 1964, Beth passou a ministrar aulas de música.

Em 1965, gravou o seu primeiro compacto simples, com a música “Por quem morreu de amor”, de Roberto Menescal e Ronaldo Bôscoli. Seu grande sucesso, “Andança”, é o título de seu primeiro LP, lançado em 1969.

Beth participou de quase todos os festivais de música da época. Em 1968, conquistou a terceira posição no Festival Internacional da Canção (FIC), justamente com “Andança”.

A partir de 1973, passou a lançar um disco por ano e emplacou vários sucessos como “1.800 Colinas”, “Saco de Feijão”, “Olho por Olho”, “Coisinha do Pai”, “Firme e Forte” e “Vou Festejar”. Também gravou composições de Cartola, como “As rosas não falam”, e “Folhas Secas”, de Nelson Cavaquinho.

 A cantora era apaixonada pela Mangueira, sua escola de samba do coração, e pelo bloco Cacique de Ramos, onde conheceu muitos de seus apadrinhados.

“Beth é inquieta. Não espera que as coisas lhe cheguem, vai mesmo buscar. Pagodeira, ela conhece a fertilidade dos compositores do povo e, mais do que isso, conhece os lugares onde estão, onde vivem, onde cantam, como cantam e como tocam”, diz a biografia publicada em seu site oficial.

Em 1979, Beth se casou com o jogador de futebol Edson de Souza Barbosa e, dois anos depois, deu à luz sua única filha, Luana Carvalho.

A cantora já fez inúmeras apresentações em cidades ao redor do mundo, subiu ao palco do Carnegie Hall, em Nova York, e até teve sua música representada no espaço sideral. Em 97, “Coisinha do pai” foi programada pela engenheira brasileira da NASA, Jacqueline Lyra, para “despertar” um robô em Marte.

Morre aos 72 anos a cantora e compositora Beth Carvalho

Em junho de 2002, recebeu das mãos de Dona Zica, viúva de Cartola, o Troféu Eletrobrás de Música Popular Brasileira, no Teatro Rival do Rio de Janeiro. Seu 26º disco, “Pagode de mesa 2” (2000), concorreu ao Grammy Latino na categoria melhor disco de samba.

Em 2004, ela gravou seu primeiro DVD, “Beth Carvalho, a Madrinha do Samba”, que lhe rendeu um DVD de Platina. O CD, que teve lançamento simultâneo ao DVD, recebeu Disco de Ouro e foi também indicado ao Grammy Latino de 2005, na categoria “Melhor Álbum de Samba”.

Beth Carvalho foi homenageada na edição 2009 do Grammy Latino, em Las Vegas. Na ocasião, a cantora foi a primeira sambista a receber um dos reconhecimentos mais importantes do Grammy, o prêmio Lifetime Achievement Awards.

Confrontos aumentam em Caracas e blindado atropela manifestantes que tentam invadir base militar

O Globo e agências internacionais

Ministro da Defesa diz que tentativa de golpe 'insignificante' na Venezuela foi 'parcialmente derrotada'; coronel foi baleado

Foto: CARLOS GARCIA RAWLINS / REUTERS
Manifestantes em apoio a Juan Guaidó entram em confronto 
com militares, que respondem avançando contra protesto 

CARACAS — Enquanto blindados da Guarda Nacional Bolivariana reprimiam manifestantes diante da base militar de La Carlota, em Altamira, o ministro da Defesa da Venezuela, Vladimir Padrino López, anunciava pela TV uma tentativa de golpe de Estado "insignificante" na Venezuela , que segundo ele foi "parcialmente derrotada".

Imagens da TV Reuters mostraram pelo menos quatro veículos blindados, um deles em chamas, avançando contra pessoas em frente à base, que fica em um bairro de classe média alta de Caracas,  onde de manhã cedo o  líder opositor da Venezuela Juan Guaidó anunciou "o fim definitivo da usurpação" do poder pelo presidente Nicolás Maduro. Guaidó conclamou os venezuelanos a ir às ruas em apoio ao movimento, e depois falou a uma multidão reunida na principal praça de Altamira.

Segundo Padrino, o coronel Yerzon Jiménez Báez foi baleado no pescoço na rodovia Francisco Fajardo, onde ocorreram os confrontos, e será operado. Pelo menos seis manifestantes ficaram feridos e foram levados à policlínica Metropolitana, uma delas baleada, segundo o site Efecto Cocuyo. Um jovem manifestante também teria sido ferido com um tiro no pescoço e foi levado a um hospital particular.

Falando ao vivo da sede do Batalhão de Caracas, o ministro da Defesa afirmou que um grupo reduzido de militares e policiais decidiu sequestrar alguns veículos, armamentos e munições, depois de o autoproclamado presidente interino, Juan Guaidó , anunciar, ao lado de soldados, o início da operação para depor Nicolás Maduro. Na TV, Padrino assegurou que 80% dos militares retornaram a suas unidades. O metrô de Caracas teve as operações suspensas por medida de segurança.

 — Este ato de violência foi derrotado. Quase todo esse grupo de uniformizados com armas deixou o distribuidor e foi para a praça Altamira, repetindo 2002  — afirmou Padrino, terminando o pronunciamento com a expressão "Chávez vive!". —  Não se chega a Miraflores pela violência. É uma oposição golpista e selvagem. 

O líder opositor da Venezuela Juan Guaidó — que em janeiro se proclamou presidente interino com o apoio da Assembleia Nacional de maioria opositora —  publicou no início da manhã desta terça-feira em suas redes sociais um vídeo, gravado próximo à base militar de La Carlota, anunciando "o fim definitivo da usurpação" do poder pelo presidente Nicolás Maduro.

Blindados chavistas avançam contra opositores em Caracas; siga a situação na Venezuela

O Estado de São Paulo

Líder opositor venezuelano publicou vídeo nas redes sociais convocando população às ruas contra líder chavista

O autoproclamado presidente interino da Venezuela, Juan Guaidó, afirmou nesta terça-feira, 30, que militares o apoiam em movimento para acabar com a "usurpação do poder" no país e convocou todos para as ruas do país para pressionar o presidente Nicolás Maduro.

Leopoldo López, outra figura-chave da oposição Venezuela, também está nas ruas ao lado de Guaidó. López cumpria prisão domiciliar e disse ter sido solto após os soldados que vigiavam sua casa deixarem de reconhecer a liderança do chavista.

Veja imagens ao vivo da Venezuela, transmitidas por um canal opositor a Maduro:



Em entrevista à Rádio Eldorado, o deputado opositor venezuelano Richard Blanco, que acompanha o líder opositor Juan Guaidó em Caracas, sugeriu que militares cubanos, russos, o movimento xiita libanês Hezbollah e a guerrilha colombiana Exército de Libertação Nacional (ELN) estão em Caracas e apoiam Nicolás Maduro.

Blanco afirma que muitos militares venezuelanos apoiam a convocação de Guaidó, que mobiliza a população a tomar as ruas do país em 1º de Maio, mas ele não sabe precisar, no entanto, quantos mudaram de lado e desertaram. 

O líder opositor Juan Guaidó anunciou em um pronunciamento diante da Base Aérea de La Carlota, uma das mais importantes da Venezuela, que obteve o apoio dos militares para "pôr um fim à usurpação", em referência a derrubada do presidente Nicolás Maduro.

Ele estava acompanhado de seu padrinho político, Leopoldo López, que fugiu da prisão domiciliar com auxílio de agentes do Sebin, o serviço secreto venezuelano.

López e Guaidó convocaram manifestações de rua para respaldar sua movimentação contra o governo. Pelo menos 3 mil pessoas se dirigiram aos arredores da base e foram reprimidos por soldados leais a Maduro. Houve confronto e blindados chavistas arremeteram contra a multidão.

O ministro da Defesa Vladimir Padrino disse que a tentativa de golpe foi debelada em todos os regimentos militares. O homem forte do chavismo, Diosdado Cabello, convocou militantes chavistas e milícias civis armadas a defender o Palácio de Miraflores. Algumas centenas de pessoas apareceram. 

Há relatos de que o principal general que teria se aliado a Guaidó seria José Ornellas Ferreira, chefe de gabinete das Forças Armadas, além de alguns agentes do Sebin. Se isso for confirmado, representaria um ganho importante para Guaidó, que até agora reuniu apoio de soldados de baixa patente e alguns oficiais da reserva e adidos militares.  

Os Estados Unidos e países sul-americanos, entre eles o Brasil, apoiaram a iniciativa de Guaidó. México e Bolívia criticaram a medida. 

Há registros de protestos nas cidades de Maracaibo e San Cristóbal, no oeste da Venezuela, além de Caracas segundo a agência France Presse. Em virtude da falta de luz crônica em parte do país, é difícil obter relatos sobre cidades mais afastadas do interior. 

Crise na Venezuela: o que levou o país ao colapso econômico e à maior crise de sua história

Felipe Corazza e Lígia Mesquita*
Da BBC News Brasil 

Direito de imagem AFP Image caption
O líder oposicionista Juan Guaidó se proclamou 
o novo presidente interino da Venezuela

A situação na Venezuela vem ganhando contornos de tragédia há alguns anos, mas as condições políticas e sociais se deterioraram sensivelmente nos últimos meses no país, onde a tensão cresce diante da possibilidade de uma intervenção internacional.

Nesta terça-feira, 30 de abril, o líder da oposição venezuelana, Juan Guaidó, anunciou a "fase final" de sua tentativa de pôr fim ao governo do presidente Nicolás Maduro.

Em um vídeo divulgado nas redes sociais, Guaidó aparece junto de outro líder da oposição, Leopoldo López, que cumpria prisão domiciliar, e de homens de uniforme, que seriam forças de segurança que teriam passado a apoiar a oposição.

O vídeo parece ter sido gravado ao amanhecer na base aérea de La Carlota, na capital, Caracas. "Nossas Forças Armadas, hoje valentes soldados, valentes patriotas, valentes homens apegados à constituição, acudiram nosso chamado, nos encontramos nas ruas da Venezuela", disse Guaidó.

O governo de Maduro, por sua vez, chamou o episódio de "pequena tentativa de golpe".

Guaidó declarou-se presidente interino da Venezuela em 23 de janeiro. Na época, ele havia acabado de tomar posse como presidente da Assembleia Nacional, o Parlamento venezuelano e último órgão estatal sob controle da oposição.

Desde o início do ano, intensificaram-se os protestos pela saída de Maduro, que, por sua vez, arregimenta apoiadores em torno de grandes manifestações para demonstrar que tem apoio popular.

A oposição venezuelana está conclamando a população do país a protestar contra Maduro e em apoio ao movimento lançado por Guaidó e López. O governo, por sua vez, está convocando protestos a seu favor.

"Os convido imediatamente a cobrir as ruas da Venezuela. O 1º de maio começou hoje", disse Guaidó.

"Todos os venezuelanos que querem a liberdade devem vir para cá (a base aérea de La Carlota), interromper a ordem, se juntar a nós e encorajar nossos soldados a se unirem ao nosso povo. Bom dia, Venezuela, vamos fazer isso juntos", falou López.

As imagens recentes mostram um país abalado pela pobreza e pela hiperinflação, enquanto a instalação de um governo paralelo ao do presidente eleito, Nicolás Maduro, intensificou a crise política interna e externa de uma nação cada vez mais isolada diplomaticamente.

Mais de 50 países, entre eles Estados Unidos, Brasil, França, Espanha, Argentina, Canadá, Chile, Colômbia, Dinamarca, Equador e Peru, reconheceram Guaidó como novo mandatário venezuelano. Já Bolívia, China, Cuba, Irã, México e Rússia declaram apoio a Maduro.

 Direito de imagem EPA Image caption
Milhares de venezuelanos têm saído às ruas
 para protestar contra o governo de Maduro

O presidente americano, Donald Trump, já disse que uma intervenção militar na Venezuela não está descartada. Maduro retrucou acusando Trump de ser um "supremacista branco" que buscava desestabilizar seu país.

Por sua vez, a Organização das Nações Unidas (ONU) pediu para que haja "diálogo" no país para evitar um "desastre". Mas o pedido de encontro com Trump feito por representantes de Maduro foi rechaçado.

Diante da tentativa da oposição de fazer com que ajuda humanitária chegasse ao país por meio das fronteiras com Brasil e Colômbia, Maduro ordenou que fossem fechados os acessos nas divisas entre os países, o que gerou conflitos nestes locais entre militares venezuelanos e manifestantes.

Após o fracasso da operação, Guaidó pediu aos países aliados que mantivessem "todas as opções na mesa", mas o Grupo de Lima, bloco de 13 países do continente americano, recusou o uso da força para retirar Maduro do poder.

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Com alta dependência de importações, 
a Venezuela vive um grande desabastecimento

Fome e êxodo

A crise venezuelana não começou agora. A fome fez os venezuelanos perderem, em média, 11 quilos no ano passado. A violência esvazia as ruas das grandes cidades quando anoitece. E a situação provocou um êxodo em massa para países vizinhos.

A Venezuela vive a maior recessão de sua história: são 12 trimestres seguidos de retração econômica, segundo anunciou em julho a Assembleia Nacional.

A dimensão do colapso pode ser vista nos números do Produto Interno Bruto. Entre 2013 e 2017, o PIB venezuelano teve uma queda de 37%. O Fundo Monetário Internacional prevê que, neste ano, caia mais 15%.

A situação foi explorada também na campanha eleitoral brasileira.

Candidatos e eleitores de oposição ao Partido dos Trabalhadores, que historicamente apoiou os governos de Hugo Chávez e Nicolás Maduro, tentaram usar o fracasso venezuelano como alerta do que poderia ocorrer no Brasil com a eleição de Fernando Haddad.

Os petistas, por sua vez, lembraram que Chávez era um militar e é com apoio e participação direta das Forças Armadas que Maduro vinha governando.


As origens do colapso a Venezuela, país com as maiores reservas de petróleo do mundo

Em agosto, a Organização Internacional para as Migrações, ligada à ONU, disse que o aumento do número de pessoas deixando a Venezuela por causa do colapso econômico hiperinflacionário faz o momento de crise estar próximo ao dos refugiados e migrantes que atravessam o Mediterrâneo rumo à Europa.

Em novembro, a ONU informou que 3 milhões de venezuelanos deixaram o país nos últimos anos. Mas como a situação na Venezuela chegou a esse ponto?

A BBC News Brasil faz aqui um resumo de como a Venezuela entrou em colapso.

 Direito de imagem REUTERS Image caption
Em Caracas, manifestante da oposição culpa o presidente Maduro
 por ajudar países aliados enquanto os venezuelanos morrem de fome

1 - Crise do petróleo

A Venezuela tem as maiores reservas de petróleo do mundo - e o recurso é praticamente a única fonte de receita externa do país.

Após a Primeira Guerra Mundial, sucessivos governantes venezuelanos deixaram o desenvolvimento agrícola e industrial de lado para focar em petróleo, que hoje responde por 96% das exportações - uma dependência quase total.

A aposta no petróleo foi segura durante anos e deu bons resultados nos momentos em que o preço do barril estava alto. Entre 2004 e 2015, nos governos de Hugo Chávez e no início do de Nicolás Maduro - eleito em 2013 após a morte de seu padrinho político, no mesmo ano - , o país recebeu 750 bilhões de dólares provenientes da venda de petróleo.

O governo chavista aproveitou essa chuva dos chamados "petrodólares" para financiar de programas sociais a importações de praticamente tudo que era consumido no país.

Mas, em 2014, o preço do petróleo desabou. Em parte devido à recusa de Irã e Arábia Saudita - outros dois dos grandes produtores - em assinar um compromisso para reduzir a produção. Outros fatores foram a desaceleração da economia chinesa e o crescimento, nos EUA, do mercado de produção de óleo e gás pelo método "fracking" - o fraturamento hidráulico de rochas.

No início daquele ano, depois de ter alcançado um pico de US$ 138,54 em 2008, o preço do barril de petróleo era negociado a cerca de US$ 100 dólares e caiu pela metade no fim do ano, mantendo essa queda significativa até este ano, quando voltou a atingir o patamar de US$ 80.

Além de receber menos dinheiro por seu principal produto, a Venezuela também teve uma queda significativa na produção. Quando Chávez assumiu pela primeira vez o país, em 1999, a produção era de mais de 3 milhões de barris por dia. Hoje, é de cerca de 1,5 milhão, segundo a Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep) - é o pior nível em 33 anos.

 Direito de imagem GUILLERMO OLMO / BBC MUNDO Image caption
Venezuelanos protestam por conta da pobreza no país com cartazes 
dizendo que o salário não lhes permite comer e que não há luz, água e/ou gás

Essa queda de produção aconteceu principalmente pela má gestão da PDVSA, a Petróleos de Venezuela, estatal que gere a exploração do recurso no país com exclusividade. Em 2007, Chávez ordenou que todas as empresas estrangeiras cedessem a maior parte do controle de suas atividades de exploração ao Estado venzuelanos. Companhias com o a Exxon não aceitaram, tiveram seus bens confiscados e batalhas jurídicas por indenizações se desenrolam até os dias atuais.

Na PDVSA, Não houve investimento em infraestrutura e a empresa sofre com má gestão e alto grau de corrupção. Para se ter uma ideia, desde agosto de 2017, a Justiça venezuelana processou 90 ex-funcionários da petroleira por corrupção. Em setembro, o Ministério Público de lá mandou prender 9 diretores.

O Departamento de Justiça dos EUA também conduziu uma investigação com base em Miami que revelou um esquema de lavagem de dinheiro da PDVSA que desviou US$ 1,2 bilhão, entre 2014 e 2015 . A operação chamada Fuga de Dinheiro contou com a cooperação de Reino Unido, Espanha, Itália e Malta. Dois suspeitos foram presos.

Outra coisa que ajudou a prejudicar as finanças da PDVSA foi a criação, ainda no governo Chávez, da Petrocaribe, uma iniciativa na qual a Venezuela se comprometia a fornecer petróleo a preços muito mais baixos para países caribenhos aliados ao chavismo, com longos prazos para pagamento. Era como emprestar dinheiro com retorno a perder de vista. Com o aprofundamento da crise, a iniciativa começou a minguar e países como Jamaica e República Dominicana passaram a buscar outros contratos para seu abastecimento.

2 - Dependência das importações, controle cambial e sanções

Com o foco voltado para o petróleo e usando parte do dinheiro arrecadado com as exportações do combustível para sustentar programas sociais, o chavismo não se preocupou com o desenvolvimento agrícola e industrial do país. O governo não investiu nem na própria indústria do petróleo - levando à queda na produção de barris.

Chávez tomou uma série de medidas que acabaram emperrando o desenvolvimento da indústria local: nacionalizou as indústrias de cimento e aço, entre outras, e expropriou centenas de empresas e de propriedades rurais.

O setor privado foi levado a substituir a produção própria pelas importações mais baratas, subsidiadas pelo governo. Além disso, o governo adotou uma política de controle de preços, segurando artificialmente a inflação, o que ajudou ainda mais a acabar com a indústria local.

A Venezuela passou a depender mais e mais de importações - de alimentos e medicamentos até pneus e peças de reposição para o sistema de metrô das grandes cidades. Nos dois últimos anos, com menos dinheiro para importação, a questão do desabastecimento - e, consequentemente, da fome - se agravou. Falta até papel higiênico nos supermercados.

 Direito de imagem EPA Image caption
Ponte que liga San Antonio del Táchira, na Venezuela, a Villa Del Rosario, 
do lado colombiano, se tornou símbolo do êxodo de venezuelanos;

O governo também implantou uma política cambial para segurar o valor do bolívar, a moeda local, controlando a compra de dólares pela população, o que gerou um mercado paralelo da venda da divisa americana.

Com o controle cambial veio um aumento significativo da corrupção, com desvio de dólares para o mercado paralelo, onde a moeda valia até 12 vezes o preço do câmbio oficial. O governo tentou manobras diversas para tentar conter a escalada do paralelo - como a criação de bandas cambiais distintas que seriam aplicadas em diferentes situações. Mas não houve resultado concreto e o câmbio ilegal continuou a corroer o já combalido sistema econômico.

"Chávez capitalizou um descontentamento social que existia desde governos passados, com uma desigualdade social acentuada, e o início de seu governo marcado pelo peso elevado que deu ao Estado e pelo aspecto populista. Isso se caracterizou por um repúdio à propriedade privada e a um menor papel do mercado, o que resultou num estrito controle de preços e transações cambiais", afirma à BBC New Brasil o economista Luis Arturo Bárcenas, da consultoria venezuelana Ecoanalítica.

"Ele satanizou o livre-mercado. O Estado passou a ser um grande aparato produtivo e centralizador. Então, isso vem de um forte subsídio cambial, onde artificialmente se deu um valor à moeda local maior que as estrangeiras. Isso acabou tornando muito mais barato para os produtores locais importarem do que produzir internamente."

O Estado também viu seus gastos públicos aumentarem para conseguir manter os programas sociais. A dívida externa também aumentou em cinco vezes, com estimativa do FMI de bater os US$ 159 bilhões neste ano – este montante inclui títulos de dívida pública emitidos pelo governo e pela PDVSA e créditos com China e Rússia. Em 2015, a dívida era de US$ 31 bilhões, segundo estimativas do FMI.

Já bastante fragilizada, a economia sofreu um importante golpe em agosto do ano passado, quando os EUA impuseram sanções ao país e a alguns de seus cidadãos. O governo Trump proibiu a realização de transações com títulos da dívida venezuelana e a compra de bônus da estatal petroleira PDVSA. 

Em maio deste ano, após a polêmica reeleição de Maduro, as sanções foram aprofundadas com a limitação da venda de dívida e ativos públicos do governo venezuelano em território americano.

Como a maior parte do sistema financeiro mundial tem atividades nos Estados Unidos, as sanções dificultam muito que novos empréstimos sejam feitos à Venezuela e que o país consiga vender novos ativos e renegociar suas dívidas. Por outro lado, seus efeitos são questionados, pois o país já estava isolado antes disso – organizações como o FMI já não davam dinheiro à Venezuela havia anos.

Críticos afirmam que as sanções têm conseguido apenas que Maduro se aferre mais ao poder, além de terem intensificado a escassez de produtos básicos – uma vez que, sem acesso a dólares, o país tem mais dificuldade em importar bens.

Os EUA continuam, no entanto, sendo um dos principais importadores de petróleo venezuelano – a PDVSA tem, inclusive, uma filial em solo americano, a Citgo. Segundo analistas, o governo Trump não anuncia sanções a esse setor em específico porque isso aprofundaria a crise no país, o que aumentaria a pressão sobre os EUA e seus vizinhos. Há também quem cite o fato de que parar de comprar o produto venezuelano levaria a um aumento dos preços da gasolina nas bombas americanas.

 Direito de imagem REUTERS Image caption
A reeleição de Maduro, em 2018, foi contestada dentro e fora da Venezuela; 
a oposição nao reconhece a vitória e alega uso da máquina estatal para conseguir votos

3 - Hiperinflação

Ao tentar supervalorizar a moeda venezuelana, o governo provocou distorções de valores que, além de causarem a crise de desabastecimento, contribuíram para um cenário de hiperinflação.

Além disso, com a queda do preço do petróleo e uma redução no fluxo de divisas, o governo passou a imprimir mais dinheiro para cobrir o rombo nas contas públicas e isso foi gerando cada vez mais inflação.

A previsão do Fundo Monetário Internacional é que neste ano a inflação na Venezuela chegue a 1 milhão % (Isso significa você multiplicar por 10 mil o preço de um produto). Por dia, o FMI estima em 4% o valor da inflação no país vizinho.

A hiperinflação fez com que faltassem até cédulas de dinheiro circulando, já que as pessoas passaram a precisar de muito mais dinheiro para comprar qualquer coisa. Para tomar um café ou comprar um papel higiênico, por exemplo, aqueles que não usam cartão de débito do banco, passaram a ter de carregar pilhas de cédulas de bolívar - quando conseguiam sacar dinheiro.

"Com a escassez de divisas produtoras, recorremos muito mais a financiamentos e imprimimos muito dinheiro, com o Estado gastando sem gerar mais recursos", diz o economista Bárcenas.

 Direito de imagem REUTERS Image caption
A pilha de bolívares necessária para comprar um papel higiênico; 
o governo de Maduro cortou alguns zeros da moeda para tentar conter a desvalorização

Com a deterioração da situação, o chavismo adotou uma espécie de controle artificial da inflação: obrigava os comerciantes a adotarem um preço abaixo do que eles gastavam para produzir, porque precisavam importar os insumos. Então, indústrias e comerciantes começaram a quebrar.

A hiperinflação provocou uma pulverização da renda e a pobreza aumentou. Em 2017, o índice de pessoas na linha da pobreza no país de 30 milhões de habitantes chegou a 87%, um aumento de 40 pontos percentuais em três anos, segundo levantamento da Universidade Católica Andrés Bello.

Vale lembrar que na era Chávez, a pobreza na Venezuela havia caído em mais de 20%, de acordo com a Cepal (Comissão Econômica para América Latina e Caribe), e o país passou a registrar a menor desigualdade entre ricos e pobres entre países latino-americanos, de acordo com relatório da ONU.

4 - Crise política

A Venezuela vive uma intensa crise política, que também não começou agora, com o início do segundo mandato de Nicolás Maduro e a autoproclamação do líder oposicionista Juan Guaidó como presidente interino.

O país está dividido entre os chavistas e os opositores, que esperam o fim dos 19 anos de poder do grupo que atualmente se reúne em torno do Partido Socialista Unido da Venezuela (PSUV). Nos últimos anos, a independência entre os Poderes se reduziu na prática, o que contribuiu ainda mais para a situação crítica atual.

Em 2009, em seu segundo mandato, Chávez conseguiu, por meio de um referendo com voto popular, aprovação para alterar a Constituição e mudar a regra de reeleição para presidente. Desde então, os presidentes venezuelanos passaram a poder concorrer a reeleições sem limites.

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Quando Maduro convocou uma Assembleia Constituinte, a Venezuela foi tomada
 por uma onda de protestos violentos em 2017; mais de 100 pessoas morreram

O chavismo, projeto de poder que se consolidou a partir da primeira eleição de Hugo Chávez, tem como elementos centrais uma atuação muito maior do Estado e a defesa de medidas que ampliam a participação social na política - um exemplo é a organização de "comunas" nos bairros mais carentes das principais cidades, órgãos que se articulam, por sua vez, com o Legislativo local para apresentar demandas e controlar o fluxo de entrada de alguns programas sociais.

Também é caracterizado por uma política "anti-imperialista", defendendo a integração dos povos sul-americanos para combater a influência dos Estados Unidos na região. No chavismo, o mandatário tem seu poder baseado num forte militarismo.

Depois da morte de Chávez, em 2013, Nicolás Maduro, que era seu vice-presidente e também do PSUV, já foi eleito e reeleito presidente com a promessa de dar continuidade às políticas do antecessor.

Só que Maduro herdou a Venezuela já entrando em colapso econômico e tomou medidas que contribuíram mais para a crise.

No início de 2014, o país foi foi tomado por uma onda de protestos contra Maduro. A repressão do Estado foi violenta. Entre fevereiro e junho, 43 pessoas morreram.

O líder oposicionista Leopoldo López estava em prisão domiciliar, após ter sido considerado culpado por incitar a violência durante protestos contra o governo em 2014 – agora, López deixou a prisão supostamente com apoio de um grupo de militares que teriam declarado lealdade a Guaidó.

Em 2015, o chavismo perdeu o controle do Parlamento e isso fez com que a situação do país se agravasse, já que Maduro acusa constantemente os oposicionistas de tentarem tirá-lo do poder por meio de um golpe.

Após a derrota, ele decidiu convocar uma Assembleia Nacional Constituinte - na prática, uma manobra para esvaziar totalmente o poder do Legislativo comandado pelos opositores e criar uma instância paralela de decisão.

E essa instância paralela funciona com ajuda do Judiciário, que é acusado pela oposição de ser totalmente chavista, já que o governo indicou a maioria dos juízes - Chávez aumentou o número de integrantes do Tribunal Supremo de Justiça (TSE), equivalente ao STF no Brasil, para compor uma maioria com seus indicados.

Em março de 2017, o TSJ assumiu funções do Legislativo, acusando o Parlamento de desobediência. A ação foi denunciada como golpe pela oposição e, dois dias depois, o tribunal voltou atrás.

A acusação é, portanto, de que não há independência entre os Poderes Executivo, Legislativo e Judiciário na Venezuela.

"Na Venezuela, o Judiciário é politizado e muito forte. Ele se transformou em um anexo do Executivo", diz à BBC News Brasil Rafael Vila, professor da faculdade de relações internacionais da USP (Universidade de São Paulo).

Em maio de 2017, após Maduro convocar a Assembleia Constituinte, dizendo que ela irá renovar o Estado e redigir uma nova Constiuição, a Venezuela viu mais uma vez uma onda de protestos violentos tomar o país. Mais de 120 pessoas morreram e 2 mil ficaram feridas.

Um ano depois, para agravar a crise, Maduro foi reeleito com 68% dos votos numa eleição contestada dentro e fora do país. O mandatário foi reconduzido ao cargo num pleito que teve 54% de abstenção.

Na ocasião, o candidato derrotado da oposição, Henri Falcón, disse que não reconhecia a eleição e acusou Maduro de usar o Estado para coagir os mais pobres a votarem.

Falcón acusou o governo de influenciar a votação através do Carnê da Pátria, documento que permite que os venezuelanos recolham benefícios do governo e usem os serviços públicos. Maduro prometeu que quem votasse no dia do pleito teria direito a um benefício extra concedido pelo governo.

A oposição acusou o governo de compra de votos e a maior parte dos oposicionistas boicotou o pleito. O governo afirmou que as eleições foram "livres e justas". Com muitos candidatos não governistas impossibilitados de concorrer ou presos, a oposição disse que o pleito não tem legitimidade e que há indícios para desconfiar de fraude eleitoral.

Toda essa instabilidade política contribuiu para agravar a crise venezuelana.

Após a reeleição de Maduro, a OEA (Organização dos Estados Americanos) pediu a suspensão da Venezuela da entidade. O Brasil, além de EUA, Canadá, Argentina, Peru e México, entre outros, foi um dos países que pediu a suspensão da Venezuela da organização continental, alegando desrespeito à Carta Democrática Interamericana e ilegitimidade da reeleição de Maduro.

Os dois únicos países suspensos da OEA até hoje foram Cuba, em 62, quando Fidel Castro se aliou à então União Soviética, e Honduras, em 2009, após o golpe de Estado que desititiu o presidente Manuel Zelaya.

A Venezuela já havia se adiantado a esse processo e pedido seu desligamento da OEA em 2017, alegando que a organização estaria dominada pelas "forças imperiais" americanas. Esse fato, no entanto, não impede que o processo de suspensão continue e que o país sinta seus efeitos diplomáticos. A suspensão significaria que todas as nações americanas confirmaram que a Venezuela não segue mais a ordem democrática.

Em abril deste ano, a OEA aceitou a nomeação do representante designado pela Assembleia Nacional da Venezuela, presidida por Guaidó, Gustavo Tarré, "até que novas eleições sejam realizadas com a nomeação de um governo democraticamente eleito".

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As forças de segurança do Estado venezuelano 
reprimiram os protestos que tomaram o país em 2014 e 2017

5 - Poder militar e controle da imprensa

Um outro ponto que contribuiu para a crise venezuelana foi a forte presença do Exército na gestão do Estado.

Após o oposicionista Guaidó se autodeclarar presidente interino do país, no final de janeiro, o ministro da Defesa, Vladimir Padrino, disse que as Forças Armadas continuavam ao lado de Maduro. "Força Armada Nacional Bolivariana a meu comando, máxima união, máxima disciplina, que vamos vencer. Leais sempre, traidores nunca", declarou.

Já no vídeo publicado neste 30 de abril, Guaidó celebrou que soldados tenham se juntado à oposição: 

"As Forças Armadas Nacionais tomaram a decisão certa, elas têm o apoio do povo de Venezuela, e o apoio da nossa constituição. Elas vão estar do lado certo da história".

Em resposta, o ministro da Informação venezuelano, Jorge Rodríguez, postou no Twitter que o governo estava enfrentando um pequeno grupo de "traidores militares" que, segundo ele, estavam tentando promover um golpe.

Em 25 anos, a Venezuela sofreu três tentativas de golpe de Estado pelos militares. Uma delas foi deflagrada por um grupo do qual o então coronel Chávez era líder, em 1992.

Preso após a tentativa de golpe militar, ele foi solto anos depois e conseguiu se eleger em 1998.

Chávez trouxe as Forças Armadas para seu governo. Ele nomeou vários generais para cargos em estatais, substituindo funcionários técnicos especializados.

Uma das empresas que teve parte de seu corpo técnico substituído por militares foi a petroleira PDVSA, o que, segundo especialistas, explica em parte o fato dela não ter investido em melhorias, não ter se desenvolvido.

O chavismo também colocou militares para atuarem como ministros. Um terço do gabinete de Maduro é composto por militares e ex-militares.

Pela Constituição venezuelana, as Forças Armadas deveriam ser apolíticas. Mas o ministro da Defesa, general Vladimir Padrino, escreve em seus despachos "Chávez vive, a pátria continua. Independência e pátria socialista".

Durante a crise de abastecimento iniciada em 2016, Maduro também passou o controle da produção, importação e distribuição de alimentos para o Exército. Há graves acusações de corrupção envolvendo o controle dos militares desse setor chave na crise.

Outro fator que contribuiu para a crise venezuelana é o estrito controle da imprensa. Veículos considerados de oposição foram comprados por chavistas, enquanto outros foram fechados (caso da emissora RCTV, que teve sua concessão não renovada).

Em outros casos, o chavismo sufocou o suprimento de papel-jornal para veículos de linha editorial opositora - o governo venezuelano controla, por meio de uma corporação estatal, a importação e a distribuição do insumo.

* Esta reportagem foi publicada inicialmente em 22 de outubro de 2018 e atualizada em 30 de abril de 2019





Chavismo reconhece que dissidentes do serviço secreto permitiram fuga de Leopoldo López

Redação, 
O Estado de S.Paulo

Opositor venezuelano diz que agentes que monitoravam sua prisão domiciliar declararam lealdade a Juan Guaidó

O número dois do governo chavista Diosdado Cabello reconheceu na tarde desta terça-feira, 30, que o líder opositor Leopoldo López deixou a prisão domiciliar em Caracas com o auxílio de agentes do serviço secreto, o Sebin, que aderiram à oposição na tentativa de golpe na Venezuela.

De acordo com Diosdado, citado pelo portal noticioso Efecto Cocuyo, houve um adiamento proposital na troca da guarda para que López deixasse a casa. 

EFE/Rayner Pe
O opositor venezuelano Leopoldo Lopez 

O autodeclarado presidente interino Juan Guaidó deu uma versão similar para a fuga de López ao jornal digital Alberto News. Segundo ele, os agentes que mantinham seu padrinho político em prisão domiciliar reconheceram o governo interino. 

López, também segundo o  Alberto News foi além e disse que esses agentes reconheceram um decreto da Assembleia Nacional, controlada pela oposição, que anulava a prisão do líder do partido Voluntad Popular, condenado pelo chavismo a 14 anos de prisão por liderar protestos de 2014 contra o presidente Nicolás Maduro.

  Foto: EFE/Rayner Pe 
Militares leais a Guaidó reagem a lançamento
 de bombas de gás de autoridades chavistas  

A Venezuela amanheceu hoje sob uma tentativa da oposição e setores das Forças Armadas de derrubar Maduro. Guaidó, López e outros líderes opositores se reuniram na Base Aérea de La Carlota, em Caracas, onde obtiveram apoio de parte da guarnição. A oposição pediu que a população tome as ruas do país contra Maduro. 

Guaidó diz que há apoio em outros quartéis, mas ainda não há confirmação independente dessa declaração. O governo diz que a tentativa de golpe será debelada e convocou a população para defender o Palácio de Miraflores. 

O metrô de Caracas foi fechado por autoridades chavistas para dificultar a circulação de pessoas na cidade. 


Guaidó liberta líder opositor da prisão e convoca militares e o povo contra Maduro

Francesco Manetto
El Pais

Presidente interino grava mensagem ao lado de López e de homens das Forças Armadas. Maduro diz que está desmobilizando "um pequeno grupo de militares" traidores que quer promover um golpe de Estado

Cercado de militares, Juan Guaidó grava mensagem
 com Leopoldo López, na manhã desta terça-feira

O líder oposicionista da Venezuela Leopoldo López, que estava em prisão domiciliar após ser condenado a 13 anos de prisão, foi solto em uma ação promovida por Juan Guaidó, reconhecido como presidente interino do país pela Assembleia Nacional e por mais de 50 países. Há suspeitas de que Guaidó tenha tido o apoio de segmentos das Forças Armadas. "O momento é agora", disse o autodeclarado presidente em uma mensagem em vídeo postada em suas redes sociais, na qual aparece próximo a Leopoldo López e cercado por homens armados. Ele convocou os venezuelanos a saírem às ruas. "Neste momento estou me encontrando com as principais unidades militares de nosso Exército, iniciando a fase final da Operação Liberdade", disse Guaidó em um tuíte posterior.

"Hoje, corajosos soldados, patriotas, bravos homens ligados à Constituição, atenderam ao nosso chamado. Definitivamente, nos encontramos nas ruas da Venezuela ", proclamou Guaidó. "Hoje, o medo é superado. Hoje, como presidente encarregado da Venezuela, legítimo comandante em chefe das Forças Armadas, convoco todos os soldados e toda a família militar para nos acompanhar nesse feito. No quadro da luta não violenta que fizemos em todos os momentos ", enfatizou o líder do Voluntad Popular, o mesmo partido de Leopoldo López, que explicou que recebeu sua libertação após um perdão a todos os presos políticos oferecido Guaidó, decisão que não foi contestada pelos membros do Sebin que o vigiavam.

A ofensiva de Guaidó foi rapidamente apoiada pelos Estados Unidos e pelos países aliados a ele, como a Colômbia, bem como pelo Secretário-Geral da Organização dos Estados Americanos (OEA). A Espanha, que liderou o reconhecimento de Guaidó como presidente interino na Europa, assegurou que o político venezuelano é legítimo para liderar a transição na Venezuela, mas rejeitou qualquer ofensiva militar. No Brasil, o chanceler Ernesto Araújo reafirmou o apoio ao presidente interino e disse esperar que o Exército participe do processo de transição democrática do país. O México, a única potência na América Latina que não reconheceu Guaidó, insistiu em uma saída dialogada para a crise venezuelana.

O governo de Maduro respondeu aos opositores mobilizando de imediato as Forças de Ações Especiais (FAES) e a Guarda Nacional para bloquear o acesso à base aérea de La Carlota. "Nervos de Aço!" Falei com os Comandantes de todos os REDI e ZODI do País, que manifestaram sua total lealdade ao Povo, à Constituição e à Pátria. Chamo a máxima mobilização popular para garantir a vitória da Paz. Nós vamos ganhar! ", tuitou o presidente horas após a ofensiva. Mais cedo, poucos minutos após o apelo de Guaidó, Jorge Rodríguez, o ministro da Informação do regime chavista, informou pelo Twitter que eles estão "confrontando e desmobilizando um pequeno grupo de militares traidores que se posicionaram (...) para promover um golpe de Estado contra a Constituição e a paz da República". O ministro da Defesa, Vladimir Padrino, também disse no Twitter que "todas as unidades militares instaladas nas oito regiões de defesa integral relatam normalidade em seus quartéis e bases militares".

A operação de Guaidó foi lançada na véspera da grande mobilização que havia convocado para esta quarta-feira, 1º de maio. O objetivo do Presidente do Parlamento, que há três meses desafiou o sucessor de Hugo Chávez, cujo mandato ele considera ilegítimo, consiste em marchar em direção ao Palácio de Miraflores, sede do Governo. O número dois do chavismo, Diosdado Cabello, apelou aos simpatizantes e aos chamados coletivos, grupos de paramilitares armados, para se mobilizarem e protegerem Maduro. "Convidamos todas as pessoas, os motorizados, os coletivos e os milicianos a irem a Miraflores para defender a revolução", insistiu.

No vídeo, publicado por volta das seis da manhã na Venezuela (sete horas no horário de Brasília), Guaidó pede a mobilização dos cidadãos da Venezuela contra o regime de Nicolás Maduro. Luis Florido, deputado da Assembleia Nacional do Estado de Lara, está com Guaidó. Por telefone, ele afirmou: "Estamos esperando que o povo venezuelano se aproxime e se manifeste", e acrescentou que a missão agora é a "restituição da Constituição que foi violada", relata Verónica Fuigueroa. 

Por volta das sete horas da manhã, horário local, um grupo jogou gás lacrimogêneo contra Guaidó, segundo Florido. O deputado diz que os homens uniformizados que acompanham o presidente interino não repelem os atentados. O ex-prefeito de Caracas Antonio Ledezma disse ao telefone que "há um bombardeio de gás lacrimogêneo como nunca antes, há pessoas resistindo, há pessoas que aceitaram o chamado para restaurar o Estado de Direito". Segundo ele, não se trata de um golpe de Estado porque "quem usurpa o poder é Maduro".

O presidente interino assegurou que muitos soldados já se juntaram a ele: "Para todos aqueles que estão nos ouvindo, chegou a hora, hoje todos nós queremos construir o futuro de nossos filhos". Guaidó já havia convocado uma grande marcha para esta quarta-feira, 1º de maio. "Neste momento, nós chamamos os funcionários públicos para a reconstrução da soberania. Hoje corajosos soldados patrióticos, bravos homens ligados à Constituição, vieram ao nosso chamado, e nós definitivamente nos encontramos nas ruas (...) Hoje as Forças Armadas estão do lado do povo, do lado da Constituição ", afirmou. Guaidó enviou esta mensagem da base aérea de La Carlota, onde convidou à "cessação definitiva da usurpação" de poder pelo regime chavista. Luis Almagro, presidente da OEA, apoiou a iniciativa de Guaidó e de seus seguidores através de sua conta no Twitter: "Saudamos a adesão dos militares à Constituição. (...) É necessário apoiar plenamente o processo de transição democrática de forma pacífica ".

López também falou em suas redes sociais sobre sua libertação pelas forças de segurança leais a Guaidó e, em linha com o líder venezuelano, pediu protestos. "Todo mundo à mobilização, é hora de conquistar a liberdade, força e fé", observou ele. 

López (Caracas, 29 de abril de 1971) foi preso em fevereiro de 2014 e condenado em setembro de 2015 a cumprir uma sentença de mais de 13 anos de prisão sob a acusação de conspiração para cometer um crime, instigação e destruição de propriedade pública. Ele ficou confinado até julho de 2018, quando conseguiu prisão domiciliar, graça as um processo de negociação pelo ex-presidente do Governo espanhol, José Luis Rodríguez Zapatero.

Após primeiro sinal de apoio militar a Guaidó, há guerra civil no horizonte

Roberto Godoy
O Estado de S.Paulo

Dúvida agora é se os militares que continuam apoiando Nicolás Maduro são articulados e têm poder para prender organizadores do movimento contra o chavismo

O movimento militar que ocorre nesta terça-feira, 30, na Venezuela deixa clara a divisão existente nas Forças Armadas do país e é o primeiro sinal de que agora o líder opositor autoproclamado presidente venezuelano, Juan Guaidó, tem apoio de uma parte significativa dos militares. 



Foto: Twitter/JuanGuaidó
O líder opositor e autoproclamado presidente interino da Venezuela, 
Juan Guaidó, anunciou nesta terça-feira, 30, que conta com o apoio 
de um grupo de militares para restaurar a democracia e
 "acabar com a usurpação de poder" - 

Mais cedo, Guaidó anunciou que conta com o apoio de um grupo de militares para restaurar a democracia e "acabar com a usurpação de poder" - como os antichavistas se referem ao governo de Nicolás Maduro -, em um vídeo gravado de uma base aérea de Caracas e publicado nas redes sociais. 
A dúvida agora é se os militares que continuam apoiando Maduro são suficientemente articulados, têm poder suficiente para sair e colocar os organizadores dessa movimentação na cadeia.


Guaidó diz ter apoio de militares contra Maduro

A Inteligência brasileira ainda avalia quem são os militares que apoiam Guaidó para entender a dimensão deste levante. Recentemente, Maduro nomeou diversos generais na Venezuela, mas são oficiais que não possuem tropas e, por isso, têm pouco poder de mobilização dos militares de menor patente. 

Um fato importante de ter em mente é que o número de militares dissidentes do chavismo que cruzam as fronteiras para Colômbia e Brasil tem aumentado. Segundo autoridades de imigração colombianas, cerca de 1.400 militares da Venezuela desertaram para a Colômbia neste ano. Na Colômbia, esses desertores são recebidos por colombianos e, também, americanos.

O Exército brasileiro disse que mais de 60 integrantes das Forças Armadas venezuelanas migraram para o Brasil desde que Maduro fechou a fronteira em 23 de fevereiro para frustrar um esforço da oposição para levar alimentos e remédios para o país. 


Milícias chavistas

De qualquer maneira, é preciso lembrar das milícias que ainda apoiam Maduro. Últimos levantamentos de grupos de Inteligência mostram que esse grupo também tem diminuído, mas ainda é representativo. Na época do ex-presidente Hugo Chávez, morto em 2013, as milícias chegaram a quase 1 milhão de integrantes. Agora, o número aproximado é de 200 mil milicianos. Se Guaidó assumir de fato o poder, terá que lidar, no mínimo, com uma guerrilha ativa.

Qualquer que seja o resultado do levante desta terça, com Maduro se mantendo no poder por mais tempo ou Guaidó assumindo de fato a presidência venezuelana, a situação caminha para uma guerra civil, cedo ou tarde.  

A posição brasileira continua a mesma do início da crise política venezuelana: não intervenção. O compromisso do País continua sendo preservar o território e o espaço aéreo nacionais. O que pode ocorrer agora é uma ordem de "desdobrar tropas", ou seja, levar mais soldados para a região de fronteira, estritamente para proteção. 

Venezuela: cercado de militares, Guaidó anuncia operação para depor Maduro

Janaína Figueiredo
O Globo

Ao lado de Leopoldo López, seu padrinho político, opositor chama cidadãos às ruas; governo diz que reprime tentativa de golpe de 'grupo reduzido'

  Foto: CARLOS GARCIA RAWLINS / REUTERS
Opositor Juan Guaidó fala a apoiadores em Caracas após anunciar
 operação com apoio de militares contra o governo de Nicolás Maduro 

CARACAS — O líder opositor da Venezuela Juan Guaidó — que em janeiro se proclamou presidente interino com o apoio da Assembleia Nacional de maioria opositora —  publicou no início da manhã desta terça-feira em suas redes sociais um vídeo, gravado próximo à base militar de La Carlota, em Altamira, bairro de classe média alta de Caracas, no qual anuncia "o fim definitivo da usurpação" do poder pelo presidente Nicolás Maduro. 

No vídeo postado às 5h47 locais (6h47 no Brasil), Guaidó aparece cercado de militares, afirma que "hoje valentes soldados acudiram a nosso chamado" e conclama a população a ir às ruas. "Povo da Venezuela, começou o fim da usurpação. Neste momento, me encontro com as principais unidades militares da nossa Força Armada, dando início à fase final da Operação Liberdade", escreveu o líder opositor em sua conta no Twitter.

Horas depois, por volta de 10h30 locais (11h30 em Brasília), Guaidó foi até a praça Altamira, a poucas quadras da base de La Carlota, e, falando em um megafone do alto de uma caminhonete, dirigiu-se à população.

— A maioria das pessoas está na rua exigindo mudanças. O povo precisa de uma mudança de Constituição e de governo — afirmou. — Chamem a todas as pessoas para que venham para cá, que vamos resistir e ser bem-sucedidos. Chamem a todos para que venham para Altamira e a Operação Liberdade. O chamado é para os poucos militares que, por perseguição, por medo, não terminam de dar o passo. Resistiremos a partir daqui.

O governo, que garante não haver mobilização militar em favor da oposição além de um "reduzido grupo de traidores", denunciou uma tentativa de golpe de Estado e convocou cidadãos ao Palácio de Miraflores para a defesa do regime. Interlocutores da oposição disseram ao GLOBO que "está em marcha um golpe de Estado e a fase final da Operação Liberdade". Maduro afirmou que o comando militar permanece leal ao governo .

Até o início da tarde, não estava claro o tamanho da adesão dos militares e da população ao movimento opositor. Em postagem no Twitter, a analista militar venezuelana Rocío San Miguel afirmou que "se desconhece o alcance que poderia ter na Força Armada o apoio a Guaidó e a Maduro. Não há sinais de fraturas em unidades com poder de fogo". Em entrevista ao GLOBO, Carlos Romero, da Universidade Central da Venezuela, disse que Maduro mantinha o controle da situação .

  Foto: Manaure Quintero 30-04-2019 / REUTERS 
Líder opositor venezuelano, Juan Guaidó cumprimenta militares em Caracas 

Com Leopoldo López

No vídeo que postou no início da manhã, Guaidó aparece ao lado do líder do seu partido, o Vontade Popular (VP), Leopoldo López, que até então estava em prisão domiciliar.

— O 1º de maio  começou hoje, o final definitivo da usurpação começou hoje — declara o líder opositor no vídeo, postado pouco antes das 6h da manhã (7h no Brasil), quando muitos venezuelanos ainda dormiam.

Operação de 'fim definitivo' de governo de Maduro reprime tentativa de golpe

No Twitter, Leopoldo López, detido desde fevereiro de 2014, relatou ter sido solto por militares rebeldes. Segundo o portal Tal Cual, que cita Guaidó, para López sair da prisão domiciliar foi decretada "uma anistia para presos políticos civis e militares".

"Fui liberado por militares seguindo a ordem da Constituição e do presidente Guaidó. Estou na base de La Carlota. É hora de conquistar a liberdade e a fé", contou López.

Centenas de pessoas se reuniram perto da base de La Carlota, em Altamira, na zona de classe alta de Caracas, em resposta ao chamado de Guaidó. A movimentação é menor que a registrada nos protestos convocados anteriormente pela oposição. Forças do governo lançaram bombas de gás lacrimogêneo contra manifestantes. A deputada opositora Gaby Arellano denunciou que o regime derrubou a internet em todo o país nesta terça-feira.

Também no Twitter, Guaidó reforçou o pedido de mobilização nas ruas até que a Força Armada Nacional e os opositores "consolidassem o fim da usurpação", que, segundo ele, "já é irreversível". O líder opositor destacou que os militares "tomaram a decisão correta" e que gozam do apoio do povo venezuelano e da Constituição do país. "Estão partindo as forças para conseguir o fim da usurpação", anunciou Guaidó.

Em entrevista ao GLOBO, a analista venezuelana Argelia Ríos disse que não se esperava uma ação como esta para esta terça-feira, até porque nunca se definiu exatamente o que era a Operação Liberdade, que vinha sendo convocada pela oposição para o Dia do Trabalhador. A sensação, segundo ela, é que Guaidó antecipou em um dia essa operação para criar um "efeito surpresa".

— A situação é confusa. Há um rebelião militar, mas não se sabe até onde ela vai chegar.

Governo diz que reprime pequeno grupo de traidores

Também pelo Twitter, o ministro da Comunicação de Maduro, Jorge Rodríguez, informou que as forças do governo "estão enfrentando e desativando um reduzido grupo de tropas militares traidoras que se posicionaram no Distribuidor Altamira — local simbólico para a oposição — para promover um golpe de Estado contra a Constituição e a paz da República".

"Convocamos o povo a se manter em alerta máximo para, junto à gloriosa Força Armada Nacional Bolivariana, derrotar a tentativa de golpe e preservar a paz. Venceremos", escreveu Rodríguez, o primeiro representante do chavismo a se pronunciar.

O ministro da Defesa de Maduro, general Vladimir Padrino López, destacou que os militares permanecem "firmemente em defesa da Constituição nacional e das autoridades legítimas". Segundo ele, todas as unidades militares do país "reportam normalidade" em suas bases. Maduro compartilhou as postagens do ministro.

"Nós rechaçamos este movimento golpista que visa a encher o país de violência", destacou Padrino López, que chamou os rebeldes de "covardes". "Os líderes políticos que se colocaram à frente deste movimento subversivo empregaram tropas e policiais com armas de guerra em uma via pública da cidade, para criar terror".

Número 2 do chavismo, o presidente da Assembleia Nacional Constituinte controlada pelo governo, Diosdado Cabello, reforçou que "não há registro de manifestações em nenhum estabelecimento militar do país". Ele atribuiu a tentativa de golpe a um "minúsculo grupo" da Guarda Nacional Bolivariana e da Sebin, a agência de inteligência venezuelana.

Desde que se autoproclamou presidente, em 23 de janeiro, Guaidó trabalhou para arregimentar membros das forças militares da Venezuela, principal pilar de sustentação de Maduro no poder. Em fevereiro, ele organizou uma operação de ajuda internacional nas fronteiras de Colômbia e Brasil, na esperança de que os soldados deixassem passar as mercadorias e desertassem em apoio à oposição, mas isso não ocorreu.