segunda-feira, setembro 13, 2010

Um debate vazio e pobre e o verdadeiro debate que falta.

Adelson Elias Vasconcellos


Por ter outros compromissos no horário do debate RedeTV/Folha, confesso não tê-lo acompanhado. Portanto, vou me valer do apanhado que o Estadão. Claro que a letra fria do conteúdo impresso, não dá a transparência a uma avaliação sobre quem se melhor ou pior. Porém, pelas respostas, pude perceber duas coisas, ambas pesando contra o tucano José Serra: primeiro, o debate foi, ao meu ver, insosso, morno, sem discussão efetivas de propostas. Quando falo em propostas, falo não de meras cartas de intenções. Nisto, há um vazio, como de resto tem sido toda a campanha eleitoral, um verdadeiro deserto. Para mim, proposta é você primeiro identificar o problema de forma clara e objetiva e, depois, dizer o que será feito, de concreto, de viável, para acabar com o problema, ou ao menos minimizá-lo. Para quem vem correndo atrás nas pesquisas, tendo que enfrentar a fabulosa máquina de propaganda oficial e à popularidade de Lula, a linguagem de Serra é insuficiente para superar os obstáculos.

A segunda questão é que, em sendo oposição, Serra deveria ter atacado os pontos frágeis do governo, aqueles para os quais Dilma não teria defesa. E quais seriam tais pontos? Primeiro, desconstruir a tal “revolução na educação” que não passa de piada de muito mau gosto, e isto já em diversas oportunidades provamos aqui. Como desconstruir? Ora, veja-se o caso dos exames de avaliação: na oposição, o PT condenava tais exames, até se utilizava de entidades a ele ligadas, para incentivar o boicote. Exemplo foram as ações, discursos e mobilizações comandadas por Lindemberg Farias, hoje político no Rio, mas que na época estava à frente da UNE. Depois, mostrar que as “novas universidades” não passam de marola e que há uma enorme ociosidade de vagas. Em seguida, mostrar o número absurdo de estudantes que ingressam no ensino fundamental mas que não chegam no ensino médio. Depois, provar com números, que o número de analfabetas no país caiu muito pouco no governo Lula. E arrematar informando que a universalização do ensino fundamental só foi possível graças ao Bolsa Escola, criado no governo FHC, quando praticamente tivemos 98% das crianças, em idade escolar, na faixa de 6 a 14 anos, matriculadas. E isto, sim, é que representou uma revolução.Se quisesse fechar com chave de ouro, poderia, ainda ter completado com o recentemente levantamento dos índices de competitividade, quando, no quesito “educação” o Brasil ocupa as últimas colocações, num ranking de 140 países.

Saindo da educação, e entrando na questão de saneamento, poderia ter demonstrado que, no governo Lula o país até decresceu em número de pessoas a quem é possível contar com saneamento básico em suas casas e que, no governo FHC, com todas as crises enfrentadas, o governo saiu de índice em torno de 40% para perto de 50%.

Na economia, poderia ter lembrado os boicotes a todos os programas advindos do plano Real, e ainda lembrar a todos que FHC assumiu com inflação na casa dos 5.0000 % ao ano, e deixou o governo com 10%. Poderia ter lembrado do caos das contas públicas, e deixou o plano saneado.

Na saúde, poderia ter lembrado o caos da saúde pública e até ter criado uma pegadinha para Dilma, com relação aos investimentos. Dilma, por certo, lembraria da CPMF, acusando a oposição de ter acabado com o imposto. E aí Serra poderia lembrar do volume de recursos que Lula contou de CPMF por quatro anos, do quanto foi desviado na finalidade a aplicação do recurso, e que foi a base aliada à Lula, e não oposição, que derrubou a CPMF, uma vez que a oposição sequer maioria tinha para tanto. Poderia até ter lembrado, não à Dilma, mas ao eleitor, que PROGRAMAS SOCIAIS quem os implantou foi FHC e não Lula, e que a menor queda nos índices de pobreza se deram no período de 1995 a 2002. E que a ascensão dos 25 milhões de brasileiros à classe média não passa de um truque estatístico: mudaram-se as faixas de renda que classificavam quem era pobre, quem era classe média. E quem, de fato, iniciou o processo de aumento real do salário foi FHC, e não Lula, que apenas deu continuidade.

Poderia, até, no terreno da infraestrutura ter confrontado a Dilma e seu PAC mentiroso. Por exemplo, poderia ter apontado que o PAC se tratava de um pacote requentado de obras de governos anteriores, que Lula interrompeu no primeiro mandato, e que retomou com o rótulo de PAC já no segundo mandato, se apresentando como de obras alheias.

Reparem num detalhe: tudo o que acima elenquei, o fiz a partir apenas de dados na memória, fruto de informações coletadas ao longo do tempo. Imagine-se Serra, contando com um exército de assessores, o quanto de conteúdo poderia acrescentar ao que vai acima! Para quem enfrenta a mentira da propaganda (que não é pouca!), a posição inferior nas pesquisas e a popularidade de Lula, convenhamos, ao meu ver, o debate resultou nulo para Serra. Não vai acrescentar nada ao que já tem.

Num determinado momento, Dilma, falando das proezas da Polícia Federal, trouxe a tiracolo (parece que adivinhava quando escrevi ontem sobre isto), a operação da PF no Amapá. Ótimo, só que é a mesma Polícia Federal que não soube desvendar os segredos do mensalão, dos aloprados, das cartilhas (alguém lembra?), que não conseguiu resolver a questão do sigilo (quem tem levantado as verdades tem sido a imprensa), e que4, estando tão perto, não conseguiu resolver, antes que a própria imprensa, a questão trazida à tona pela imprensa quanto ao lobby praticado na Casa Civil.

Poderia, ainda, ter lembrado a intromissão indevida de Lula contra o trabalho do TCU, o abrigo a terroristas e assassinos estrangeiros, a questão da expropriação de uma refinaria da Petrobrás na Bolívia, a benemerência sem limites a países estrangeiros, enquanto há questões mais urgentes dentro do próprio país, poderia abordar com muita profundida a questão fiscal, a perda de competitividade dos produtos brasileiros no mercado internacional, a queda vertiginosa dos saldos da balança comercial, o processo de desindustrialização do país, a falta de ação do governo alimentando organizações criminosas como o MST que tem aumentado a violência no campo com subsídio governamental, e etc.etc.etc.

Poderia falar da falta de transparência do governo Lula em relação aos seus gastos, Poderia falar das tentativas do governo de cercear a liberdade de imprensa, do plano de captura dos direitos humanos, da tentativa de amordaçar o judiciário, de aumentar o peso do Estado para a sociedade sem oferecer nada em troca, e que este aumento só servia para abrigar os amigos no poder, e comprometer o investimento público.

Enfim, assunto para desconstruir tanto o governo Lula quanto a arrogância de Dilma, como se vê, não faltava ao Serra.

Quanto ao desempenho de Dilma, bem, o que dizer? Além da arrogância costumeira e que é dela própria, sua personalidade é exatamente assim, alaém de espancar os números com mentiras absurdas na tentativa de engrandecer um governo com muitas debilidades, não perde a sua incontrolável compulsão à mentira. De tudo e por tudo que disse, eu destacaria um trecho. Vejam a pérola: quando Marina Silva lembrou dos casos de corrupção, Dilma respondeu lembrando os mecanismos criados pelo governo Lula, colocando no Portal da Transparência "todas as despesas do governo". Todos uma OVA, senhora Dilma!!!! Cadê os gastos com cartão corporativo, feitos pela presidência da república, e cujo acesso é negado até para o Tribunal de Contas União, a quem cabe fiscalizar justamente TODOS os gastos públicos? Além de ser contraditória a alegada transparência, o sigilo sobre o gasto com cartões corporativos feitos pela presidência é fruto de um decreto assinado, vejam só, por Lula da Silva, em 2003!!!!

Não tenho ligação com nenhum instituto de pesquisa, não sou marqueteiro político, não sou jornalista ligado a nenhum órgão de imprensa, e não tenho nenhuma filiação partidária. Mas duvido que não sejam as questão acima que afligem a população. Duvido que tais questões, se abordadas por Serra desde o começo da campanha eleitoral, não tivessem maior receptividade de parte do eleitor. Porque sei, e sei porque ouço as pessoas de todos os níveis sócio-econômicos, que tais questões estão presentes no cotidiano do povo brasileiro.

Conclusão: se continuar fugindo destes temas, ele se condena a sair menor, politicamente, nesta eleição, do que em 2002. Alguém precisa dizer a ele, rapidamente, o seguinte: “Cara, você é de oposição. Ataque os pontos fracos do governo Lula que são muitos. Saia de cima do muro!”.

Mas, para as emissoras que ainda pretendam fazer debates para a eleição presidencial, um conselho ou sugestão: que tal equalizar os tempos de exposição dos candidatos? Fica chato quando se dá mais exposição a um do que aos outros. Até porque, o debate, é para TODOS exporem ideias e propostas, e para “algum” tenha o prêmio da torcida da emissora. Que não está dispensada de torcer, não: mas há outras formas de fazê-lo, e aquelas em que sua torcida deve, de forma decorosa, ficar guardada. Neste caso, o debate é um destes momentos de decoro.

Em todo caso, já me preparo para o país vive os próximos quatro anos de muita encrenca. E acreditem: ela tende a começar pela própria base governista. Por quê? Pela simples razão de que o PMDB não terá vendido esta aliança a troco de meia dúzia de cargos no primeiro escalão e uma penca deles de menor expressão. Tampouco o PT, por seu núcleo mais xiita, se contentará em não ver triunfar no país suas propostas mais retrógadas.

Quanto a oposição, bem, esta precisará, urgentemente, rever a si mesma. Não poderá continuar tão passiva, tão leniente, tão sem discurso, tão evasiva, quanto tem sido até aqui, desde 2003. Deverá, de uma vez por todas, assumir com orgulho, o seu legado. Não pode apostar na memória do povo, ou no reconhecimento da imprensa. É ela quem deve cantar seus êxitos e espalhar para que todos ouçam. Quando Lula propôs lá atrás a comparação, ao invés de acuar, deverá ter aceito, desde que cada um comparasse o país que recebeu: FHC, em 1995, e Lula, em 2002. Só nisso, arrancava com grande vantagem.

Agora, precisará agir como oposição e com coragem e firmeza, do contrário, também ela, e não apenas aos petistas, se poderá debitar a culpa pelo retrocesso institucional que o país terá de enfrentar, com bem mais intensidade do que o que já vem enfrentando desde 2003.

Sempre que há debates, tantos os sites dos grandes órgãos de imprensa quanto os blogs, fazem a mesma enquete: “Na sua opinião, qual se saiu melhor no debate?” E aí relacionam os candidatos participantes. No debate de hoje, se houvesse uma alternativa do tipo “O telespectador que não assistiu e achou coisa melhor para fazer do que perder tempo com inutilidades”, acreditem, esta ganharia disparado!!!

A “companheira” Dilma, replicando o discurso do padrinho Lula e todos os seguidores do petismo, sempre que apanhados em flagrante delito, sacam da sua pistola para dar o primeiro tiro: sempre negar. Se as descobertas provocam em reclamação das vítimas, o segundo tiro, é dizerem que “as elites” ou "a oposição"querem dar um golpe no governo democrático. O engraçado, sabe o que é, é que o PT é que vive dando golpe na democracia. Pelo repertório já acumulado de crimes, alguns nas ante-salas da presidência, que sempre diz nada saber, a gente percebe que o Fernando Collor ganhou o impeachment por um minúsculo grão de areia quando comparado ao governo do Lula. Houvesse, de fato, tanto uma oposição comprometida com o país, e uma elite mais participativa e menos submissa, Lula, de há muito, já teria sido empurrado para fora do poder. Em todos os crimes, invariavelmente, o único beneficiado foi ele próprio. E, em todos, se não sabia é ainda mais irresponsável, porquanto, determinou o acobertamento e a impunidade dos amigos do reino. Então, quem é mais golpista, a oposição, a imprensa e as vítimas que denunciam, ou Lula que se esconde atrás da cortina, da mentira, da mistificação, de forma covarde, para continuar golpeando a lei, a ordem e a democracia?

Se o país pretende um dia ser sério, precisará trazer a tona estes tempos em que  teve suas instituições e valores esmigalhados pelo senhor Lula da Silva e sua corte. Mostrar quem foi quem nesta republiqueta instalada no poder. Privatizar novamente o Estado para o país, e não para o partido. Limpar a máquina pública dos incompetentes e vagabundos ali colocados para favorecer o partido, e não a sociedade. Desinfectar o país do ranço retrógrado da ideologia da opressão. Expurgar da vida pública as oligarquias de gigolôs da Nação. E este será o único e verdadeiro  debate que nos faltará para sermos, de fato, uma nação livre, séria e civilizada.

A falta de qualificação e a educação em descompasso com o desenvolvimento

Adelson Elias Vasconcellos

Neste momento em que a economia do país cresce rápido, e isto não é uma questão do aqui e agora, fruto desta ou daquela medida, mas resultado de um longo processo que já soma 16 anos, é comum a gente ler ou ouvir que , empregos há, e muitos, o que falta é gente qualificada para ocupar funções mais técnica, que exigem melhor formação, experiência e conhecimento.

Qual o significado desta “falta de pessoal mais qualificado”, que, alguns empresários, estão a reclamar? É simples: significa que o país não está formando pessoas condizentes com as necessidades do mercado de trabalho, ou em outras palavras, que a educação brasileira está fora de sintonia com o mundo moderno.

Vimos aqui, há poucos dias, que relatório do Fórum Econômico Mundial rebaixou o Brasil em duas posições no ranking dos países mais competitivos. Quando se olha alguns indicadores do relatório, observamos o seguinte: o País saiu-se pior por causa da deficiência de políticas públicas de saúde e educação primária, do mercado de trabalho, além do enfraquecimento das agências reguladoras. Como a carga tributária não se reduziu no período, o problema não foi de falta de recursos, mas de gestão na sua aplicação. Exemplo: aplicou-se menos em saneamento básico e mais em subsídio ao crédito. Apenas sob tal ângulo, para qualquer gestor público, esta parte do texto já sinalizaria de que o país, do ponto de vista de políticas públicas, está na contramão de suas reais necessidades.

Mas o mais doloroso é que vem a seguir. Diz o relatório:

Mas, em 139 países pesquisados, o País está em último lugar quanto ao peso da regulação pelo governo e à extensão e peso da tributação; no 136.º, por desperdício nas despesas do governo e spread na taxa de juros; e no 135.º, no tempo gasto para abrir um negócio. E ficou ainda entre os 15 piores países em rigidez do mercado de trabalho, confiança nos políticos, crime organizado, custo da violência para os negócios, qualidade dos portos e problemas aduaneiros.”

E completa com um alerta, ou pelo menos deveria servir como tal para nossos governantes:

Todavia, a queda do Brasil no ranking geral de competitividade neste ano se deveu a que outros países fizeram mais do que o nosso.”

Reparem que, em todos os indicadores nos quais o Brasil se situa nas últimas colocações, TODAS, sem exceção, são derivadas de ações de governo.

Ora, é claro que o país avançou, mas se o conseguiu, a explicação não está na gestão das administrações públicas de 2003 para cá.

Vejam que o alerta final aponta o dedo exatamente para aquilo em que temos insistentemente cobrado até de analistas econômicos e políticos:.enquanto boa parte dos países em desenvolvimento se valeram da expansão econômica mundial, no período de 2002 a 2008, o Brasil andou muito aquém do que poderia, em velocidade menor e sem praticar as reformas estruturantes que continuam entravando nosso desenvolvimento.

Este período de grande prosperidade nos beneficiou em que sentido? O próprio relatório indica isto quando menciona o baixo custo da política agrícola. Vou mais longe: a enorme competência do agronegócio brasileiro faz a festa de nossa economia, apesar do preconceito que ainda é tratada até pelo governo federal.

Ora, nunca o mundo consumiu tanto alimento como agora, e nisto somos mais competitivos. Nunca a necessidade de minérios foi tanta quanto agora. E nisto somos competitivos. Ou seja, enquanto o mundo consumiu comodities, é inegável que o Brasil tende a se beneficiar. Mas isto, como vimos, é pouco.

São exatamente relatórios deste tipo que explicam, parte do problema de carência de mão de obra qualificada que o país enfrenta. Para suprir esta falta, algumas empresas estão adotando programas de treinamento e formação de empregados nos próprios locais de trabalho. Se é um sinal, por outro, imagine-se que todo este custo poderia ser alocado na expansão de negócios e em gerações de mais empregos.

E, o que vergonhoso, estamos precisando importar pessoas mais qualificadas. Claro que o empresário que investiu na modernização de sua indústria, não pode esperar que o poder público adote melhor qualidade de ensino condizente com as necessidades do mercado interno.

O mais triste que se constata no desenvolvimento atual é que, quem está lucrando, de fato, política e economicamente, é o governo. Economicamente, em razão da carga de impostos que pesa tanto na produção quanto no consumo. E, politicamente, porque se apresenta como indutor do crescimento, quando, na verdade, como vimos, é ele quem trava o desenvolvimento. Ou seja, o país cresce sim, APESAR do governo, e não por causa de sua ação.
Não basta apenas dar continuidade ao programa de estabilidade implantado por Fernando Henrique. É preciso complementá-lo, aperfeiçoá-lo, até corrigir a rota, se necessário. Uma destas questões, por exemplo, é a política cambial. Ora, não é preciso ser um renomado economista para se saber que, a valorização excessiva do real frente ao dólar - em torno de 30%, ou um pouco mais - é perigosa e prejudicial.

E, por fim, as reformas estruturantes que a sociedade tanta reclama e precisa, em oito anos de governo Lula, simplesmente não saíram do lugar. O desenvolvimento de um país, fruto de sua estabilidade nunca é um produto acabado. A economia é dinâmica, a evolução tecnológica é acelerada. Assim, se o governo não se der conta que não bastam recursos volumosos jogados na educação, é preciso muito mais do que isso, como qualificação e modernização por exemplo, dentro de dez anos, continuaremos importando mão de obra pela incapacidade do país em gerar mão de obra necessária ao seu desenvolvimento. O que chega a ser vergonhoso, não é mesmo? Ademais, uma medida urgente a ser feito é o governo abandonar, de vez, a ideologização do ensino. Não é de militantes políticos que precisamos gerar, e sim cidadãos profissionalizados, e se o cidadão for livre, a ele caberá o direito de escolha política que pretenda fazer.

Porém, temo que, em o Brasil sendo governado nos próximos anos por um partido marcantemente de esquerda, devotado a um projeto de poder, e não de país, nossa posição no ranking da competitividade tende a piorar. Porque, se observarmos quais indicadores fizeram com que, nos últimos levantamentos tivéssemos galgado 16 posições acima, foram decorrência das mudanças ocorridas no período governado por FHC, conjugadas ao período de expansão econômica mundial. Como tantas vezes afirmei aqui, tivesse o governo atual aproveitado os bons ventos do período 2002-2008 e, por certo, teríamos muito mais prá comemorar.

S.O.S. Diversidade

Dora Kramer - O Estado de S.Paulo

Passada a eleição, seja qual for o resultado, pessoas, partidos, organizações e instituições vão precisar fazer frente a uma questão política absolutamente relevante atualmente no Brasil: o papel do contraditório.

Educativo, reformador, libertador, vital em qualquer democracia digna do nome, o exercício da discordância anda em baixa. Em vias mesmo de tentativa de extinção, se desenhando como um conceito antiquado, quase à margem da legitimidade.

Há até quem não tenha o menor pudor de manifestar publicamente estranheza pelo fato de existirem pessoas no Brasil - segundo as pesquisas cerca de 5% da população - que não gostam do governo Luiz Inácio da Silva e não se integram à legião de admiradores do presidente.

São tidas como mentalmente deformadas, emocionalmente repulsivas. E, agora que Dilma Rousseff está bem à frente nas pesquisas de intenção de votos, vistas com misericórdia pelos bondosos e tratadas com escárnio pelos ímpios que ficam a se perguntar o que será delas nos próximos anos.

Como se a paz de espírito emanasse do governo e, portanto, a felicidade só existisse para os irmãos de fé.

Individualmente tal pensamento - difundido por toda parte - se resolve na confrontação da realidade: nem todos dependem de governo para viver, pensar e produzir.

Coletivamente o resultado disso é mais preocupante, pois resulta em desequilíbrio ecológico no meio ambiente compartilhado por seres naturalmente plurais. Sem diversidade de opiniões e posições, sem a convivência no contraditório não se exercita a democracia.

Tampouco se faz isso apenas reclamando de que o governo pode tudo, ganha sempre e prepara uma ofensiva para eliminar a oposição da face da terra.

Serve para todos os tipos de governo, mas serve mais para o atual que, se tudo correr como indicam as pesquisas, continuará no poder.

E por que se aplica mais ao governo do PT? Porque ele cansou de demonstrar nestes dois mandatos de Lula que usa de todos os recursos para ganhar disputas. Portanto, não é justo quando se diz que se o governo ganha é por eficácia.

Pode até ser também, mas não só. Ganha principalmente porque não joga na regra, no mano a mano com igualdade (ou quase) de condições e extrapola no abuso da máquina e das infrações à lei.

Muito bem, ocorre que essa é a realidade e com ela a oposição terá de lidar. A menos que faça uma opção definitiva pelo resmungo, pela autoindulgência, pelo adesismo ou pelo ostracismo.

Se quiser manter o estabelecimento funcionando precisará de reformas. Profundas.

Começando por sair da toca e ousar. Parar de querer jogar no certo, com medo de errar. Quem sabe não dá mais certo jogar com vontade de ganhar e fazendo o que acha correto?

Isso só se faz com a clareza de que é preciso ter "lado", posição. Achar que o adversário - principalmente da envergadura do PT - em algum momento dará sombra e água fresca é ilusão à toa.

Coragem é indispensável e sensibilidade para mobilizar a sociedade, nem se fala.

Procurar novos personagens, arejar os partidos, deixar de lado os jargões e chavões do Congresso e da Esplanada dos Ministérios, falar a linguagem de gente normal, tratar as pessoas com franqueza e naturalidade, se aproximar da sociedade.

Antes, porém, é mister uma autocrítica impiedosa, de tirar pedaço e fazer correr sangue.

Tropa.
O ex-governador do Amapá Waldez Góes, preso na sexta-feira pela Polícia Federal acusado de corrupção, é um dos candidatos ao Senado amistoso com o qual Lula pretende presentear Dilma Rousseff, se ela for eleita presidente.

Com qual finalidade? Dominar o que falta ser dominado no Poder Legislativo.

Ao centro.
São boas as notícias de prisões e cassações de pessoas acostumadas à impunidade. Mas até agora essas punições - excetuando-se Anthony Garotinho (RJ) - só alcançaram autoridades de Estados politicamente periféricos.

A Comunização do Brasil

Anatoli Oliynik, Blog Maria Helena R. R. de Souza

Em nenhum lugar no mundo o pensamento de Gramsci foi tão disciplinadamente aplicado como está sendo no Brasil, agora pelo PT, cuja nomenklatura governamental segue com rigor as orientações emanadas dos intelectualóides uspianos que dirigem o Foro de São Paulo e que têm como cartilha os Cadernos do Cárcere, de Gramsci.

Quem não está familiarizado com as ideologias políticas, por certo estará perguntando: Quem foi Gramsci e qual sua relação com o comunismo brasileiro?

Antonio Gramsci (1891-1937), pensador e político foi um dos fundadores do Partido Comunista Italiano em 1921, e o primeiro teórico marxista a defender que a revolução na Europa Ocidental teria que se desviar

muito do rumo seguido pelos bolcheviques russos, capitaneados por Vladimir Illitch Ulianov Lênin (1870-1924) e seguido por Iossif Vissirianovitch Djugatchvili Stalin (1879-1953).

Durante sua prisão na Itália em 1926, que se prolongou até 1935, escreveu inúmeros textos sobre o comunismo os quais começaram a ser publicados por partes na década de 30, e integralmente em 1975, sob o título Cadernos do Cárcere. Esta publicação, difundida em vários continentes, passou a ser o catecismo das esquerdas, que viram nela uma forma muito mais potente de realizar o velho sonho de implantar o totalitarismo, sem que fosse necessário o derramamento de sangue, como ocorreu na Rússia, na China, em Cuba, no Leste Europeu, na Coréia do Norte, no Camboja e no Vietnã do Norte, países que se tornaram vítimas da loucura coletiva detonada por ideólogos mentecaptos.

Gramsci professava que a implantação do comunismo não deve se dar pela força, como aconteceu na Rússia, mas de forma pacífica e sorrateira, infiltrando, lenta e gradualmente, a idéia revolucionária.

A estratégia é utilizar-se de diplomas legais e de ações políticas que sejam docilmente aceitas pelo povo, entorpecendo consciências e massificando a sociedade com uma propaganda subliminar, imperceptível

aos mais incautos que, a priori, representam a grande maioria da população, de modo que, entorpecidos pelo melífluo discurso gramsciano, as consciências já não possam mais perceber o engodo em

que estão sendo envolvidas.

A originalidade da tese de Gramsci reside na substituição da noção de “ditadura do proletariado” por “hegemonia do proletariado” e “ocupação de espaços”, cuja classe, por sua vez, deveria ser, ao mesmo tempo, dirigente e dominante. Defendia que toda tomada de poder só pode ser feita com alianças e que o trabalho da classe revolucionária deve ser primeiramente, político e intelectual.

A doutora Marli Nogueira, juíza do trabalho em Brasília, e estudiosa do assunto, nos dá a seguinte explicação sobre a “hegemonia”: “A hegemonia consiste na criação de uma mentalidade uniforme em torno

de determinadas questões, fazendo com que a população acredite ser correta esta ou aquela medida, este ou aquele critério, esta ou aquela ´análise da situação´, de modo que quando o comunismo tiver tomado o

poder, já não haja qualquer resistência. Isto deve ser feito, segundo ensina Gramsci, a partir de diretrizes indicadas pelo ´intelectual coletivo´ (o partido), que as dissemina pelos ´intelectuais orgânicos´

(ou formadores de opinião), sendo estes constituídos de intelectualóides de toda sorte, como professores – principalmente universitários (porque o jovem é um caldo de cultura excelente para isso), a mídia (jornalistas também intelectualóides) e o mercado editorial (autores de igual espécie), os quais, então, se encarregam

de distribuí-las pela população”.

Quanto à “ocupação de espaços”, pode ser claramente vislumbrada pela nomeação de mais de 20 mil cargos de confiança pelo PT em todo o território brasileiro, cujos detentores desses cargos, militantes

congênitos, têm a missão de fazer a acontecer a “hegemonia”.

Retornando a Gramsci e segundo ele, os principais objetivos de luta pela mudança são conquistar, um após outro, todos os instrumentos de difusão ideológica (escolas, universidades, editoras, meios de comunicação social, artistas, sindicatos etc.), uma vez que, os principais confrontos ocorrem na esfera cultural e não nas fábricas, nas ruas ou nos quartéis. O proletariado precisa transformar-se em

força cultural e política, dirigente dentro de um sistema de alianças, antes de atrever-se a atacar o poder do Estado-burguês. E o partido deve adaptar sua tática a esses preceitos, sem receio de parecer que

não é revolucionário. Isso o povo brasileiro não está percebendo, pois suas mentes já foram entorpecidas pelo governo revolucionário que está no poder.

Desta forma, Gramsci abandonou a generalizada tese marxista de uma crise catastrófica que permitiria, como um relâmpago, uma bem sucedida intervenção de uma vanguarda revolucionária organizada. Ou seja, uma intervenção do Partido. Para ele, nem a mais severa recessão do capitalismo levaria à revolução, como não a induziria nenhuma crise econômica, a menos que, antes, tenha havido uma preparação ideológica.

É exatamente isto que está acontecendo no presente momento aqui no Brasil: A preparação ideológica. E está em fase muito adiantada, diga-se de passagem.

Segundo a doutora Marli Nogueira: “Uma vez superada a opinião que essa mesma sociedade tinha a respeito de várias questões, atinge-se o que Gramsci denominava ´superação do senso-comum´, que outra coisa não é senão a hegemonia de pensamento.

Cada um de nós passa, assim, a ser um ventríloquo a repetir, impensadamente, as opiniões que já vêm prontas do forno ideológico comunista. E quando chegar a hora de dizer ´agora estamos prontos para

ter realmente uma ´democracia´ (que, na verdade, nada mais é do que a ditadura do partido), aceitaremos também qualquer medida que nos leve a esse rumo, seja ela a demolição de instituições, seja ela a abolição da propriedade privada, seja ela o fim mesmo da democracia como sempre a entendemos até então, acreditando que será muito normal que essa ´volta à democracia´ se faça por decretos, leis ou reformas constitucionais”.

Lênin sustentava que a revolução deveria começar pela tomada do Estado para, a partir daí, transformar a sociedade. Gramsci inverteu esses termos: a revolução deveria começar pela transformação da sociedade,

privando a classe dominante da direção da “sociedade civil” e, só então, atacar o poder do Estado. Sem essa prévia “revolução do espírito”, toda e qualquer vitória comunista seria efêmera.

Para tanto, Gramsci definiu a sociedade como “um complexo sistema de relações ideais e culturais” onde a batalha deveria ser travada no plano das idéias religiosas, filosóficas, científicas, artísticas etc.

Por essa razão, a caminhada ao socialismo proposta por Gramsci não passava pelos proletariados de Marx e Lênin e nem pelos camponeses de Mão Tse Tung, e sim pelos intelectuais, pela classe média, pelos

estudantes, pela cultura, pela educação e pelo efeito multiplicador dos meios de comunicação social, buscando, por meio de métodos persuasivos, sugestivos ou compulsivos, mudar a mentalidade,

desvinculando-a do sistema de valores tradicionais, para implantar os valores da ideologia comunista.

Fidel Castro, com certeza, foi o último dinossauro a adotar os métodos de Lênin. Poder-se-á dizer que Fidel é o último dos moicanos às avessas considerando que seus discípulos Lula, Morales, Kirchner,

Vasquez e Zapatero, estão aplicando, com sucesso, as teses do Cadernos do Cárcere, de Antônio Gramsci.

Chávez, o troglodita venezuelano, optou pelo poder força bruta e fraudes eleitorais. No Brasil, por via das dúvidas, mantêm-se ativo e de prontidão o MST e a Via Campesina, como salvaguarda, caso tenham que optar pela revolução cruenta que é a estratégia leninista.

Todos os valores que a civilização ocidental construiu ao longo de milênios vêm sendo sistematicamente derrubados, sob o olhar complacente de todos os brasileiros, os quais, por uma inocência pueril, seja pelo resultado de uma proposital fraqueza do ensino, seja por uma ignorância dos reais intentos das esquerdas, nem mesmo se dão conta de que é a sobrevivência da própria sociedade que está sendo destruída.

Perdidos esses valores, não sobra sequer espaço para a indignação que, em outros tempos, brotaria instantaneamente do simples fato de se tomar conhecimento dos últimos acontecimentos envolvendo escancaradas corrupções em todos os níveis do Estado.

O entorpecimento da razão humana, com o conseqüente distanciamento entre governantes e governados, já atingiu um ponto tal que, se não impossibilitou, pelo menos tornou extremamente difícil qualquer tipo

de reação por parte do povo.

Estando os órgãos responsáveis pela sua defesa – imprensa, associações civis, empresariado, clero, entre outros – totalmente dominados pelo sistema de governo gramsciano que há anos comanda o País, o resultado não poderia ser outro: a absoluta indefensabilidade do povo brasileiro. A este, alternativa não resta senão a de assistir, inerme e inerte, aos abusos e desmandos daqueles que, por dever de ofício, deveriam protegê-lo em todos os sentidos.

A verdade é que os velhos métodos para implantação do socialismo-comunismo foram definitivamente sepultados. Um novo paradigma está sendo adotado, cuja força avassaladora está sendo menosprezada, e o que é pior, nem percebido pelo povo brasileiro.

O Brasil está sendo transformado, pelas esquerdas, num laboratório político do pensamento de Gramsci sob a batuta de Lula, o aluno aplicado, e a tutela do Foro de São Paulo.

Quem quer comprar?

Percival Puggina

Está bem, Fidel. Foste mal entendido. Mas ainda que tivesses sido bem entendido, andaste bem longe do problema de teu país.

Cuba é bem mais do que uma ilha em forma de lagarto, plantada no meio do Caribe. Cuba é um divisor de águas entre democratas e totalitários. Não tem erro. Saiu em defesa de Cuba, começou a falar em educação, saúde e "bloqueio" americano, deu. Não precisa dizer mais nada. O cara abriu a porta do armário e assumiu. O negócio dele é o comunismo da velha guarda. Na melhor das hipóteses, marxismo-leninismo; na pior e mais provável, stalinismo.

Pois eis que Fidel Castro decidiu conceder longa entrevista ao jornalista norte-americano Jeffrey Goldberg. Embora a pauta fosse o ambiente político do Oriente Médio e o tom belicoso das posições de Ahmadinejad, Fidel gosta de falar e outros assuntos entraram na conversa. Não li toda a matéria. Poucas coisas serão tão infrutíferas quanto conhecer a opinião de Fidel a respeito de Ahmadinejad. Convenhamos. Horas tantas, o jornalista faz uma pergunta absolutamente sem sentido e obtém por resposta algo que arrancou manchetes mundo afora. É dessas coisas que acontecem uma vez na vida de cada jornalista sortudo. A pergunta foi sobre se valia a pena exportar o sistema cubano para outros países. Pondere, leitor, o absurdo da indagação: como poderia haver interesse em exportar algo sem qualquer cotação no mercado mundial há mais de três décadas? E Fidel saiu-se com esta: "O modelo cubano não funciona mais nem para nós". Como se percebe, há na frase sinceridade e falsidade. Sincero o reconhecimento. Falsa a sugestão de que, durante certo tempo, o sistema teria funcionado.

De todo modo, até o dia 8 de setembro, quando foi divulgada a observação do líder da revolução cubana, supunha-se que só ele, o líder da revolução cubana ainda levasse fé na própria obra. Dois dias mais tarde, diante da repercussão internacional dessa sapientíssima frase, ele voltou atrás e disse ter sido mal-interpretado. Alegou que afirmara o oposto: o que não funcionaria é o capitalismo. E assim ficamos sabendo que os países capitalistas são um desastre e os socialistas um sucesso de público e renda.

Entenda-se o velho. Aos 84 anos ele já não pode mais voltar atrás. Vendeu a alma a Mefisto e os ponteiros de seu relógio quebraram. Quando fez uma primeira experiência com a sinceridade, deu-se mal. Coisa como para nunca mais. Era preciso retroceder e apelar para o "fui mal entendido". Está bem, Fidel. Foste mal entendido. Mas ainda que tivesses sido bem entendido, andaste bem longe do problema de teu país. Neste último meio século, as dificuldades da antiga Pérola do Caribe, que transformaste num presídio, bem antes de serem econômicas, são políticas! Mais do que a ineficácia de uma economia estatizada, o que faz dó em Cuba é o totalitarismo. É a asfixia de todas as liberdades. São as prisões por delito de opinião. São os julgamentos políticos em rito sumaríssimo. É o paredón. É o aviltamento dos direitos humanos (quem disse que eles se restringem a educação e saúde?). É a perseguição aos homossexuais. São os linchamentos morais. É haver um espião do governo em cada quarteirão de cada cidade do país. É a dissimulação como forma de convívio social. É a falta de algo a que se possa chamar de vida privada. É terem os estrangeiros, em Cuba, direitos que são negados aos cubanos. É serem os cubanos cidadãos de segunda categoria em seu próprio país.

Há meio século - contam-se aí duas gerações - Cuba está submetida aos devaneios totalitários de um fanático que, para maior dos pesares, agrupou adeptos mundo afora. Esses adeptos atuaram na mais inverossímil e resistente montagem publicitária que o mundo já viu, em tudo superior à soviética, que desabou 21 anos atrás. Pois não bastasse a ressonância universal do fracasso, o mundo se encanta quando Fidel declara que o sistema econômico cubano não funciona mais. Mas o problema de Cuba é outro e ele está longe de reconhecer.

O império dos oprimidos

Guilherme Fiuza, O Globo

Quando estourou o escândalo do mensalão, em 2005, o companheiro Delúbio foi logo avisando que aquilo era uma tentativa de golpe da direita contra o governo popular. Agora, com o escândalo da espionagem na Receita Federal, a companheira Dilma alerta que “estão tentando virar a mesa da democracia”. O enredo da esquerda oprimida, como se vê, é inesgotável.

É dura a tarefa de se perpetuar no poder e continuar oprimido. Requer uma formidável ginástica conceitual, quase um presépio de fetiches – o papai pobre, a mamãe heroica, o filho do Brasil, a manjedoura estatal. Foi penoso para o então tesoureiro Delúbio Soares interromper as baforadas no charuto cubano para gritar, empanturrado de verbas públicas privatizadas pelo PT, que precisava de socorro contra a ameaça das elites. Não deve ser fácil passar a vida erguendo barricadas imaginárias.

Dilma Rousseff que o diga. As operações na penumbra para detonar adversários políticos – como o dossiê Ruth Cardoso, montado em seu gabinete na Casa Civil – não lhe deixaram feridas. O famigerado “banco de dados” sobre as despesas pessoais da falecida ex-primeira-dama, que é exemplo de dignidade na política brasileira, parece até que não existiu. Sumiu na poeira da mitologia eleitoral, onde Dilma é apenas a mulher valente que luta pelos pobres.

O caso Lina Vieira também ficou invisível nesse presépio. A ex-secretária da Receita Federal denunciou Dilma por tráfico de influência, afirmando que a então ministra ordenou-lhe tratamento especial a um processo envolvendo a família Sarney. Lina sumiu, e a investigação também. O Brasil deixou para trás um indício grave de interferência política da ministra-chefe da Casa Civil na Receita Federal. Um belo habeas corpus para a conspiração.

O escândalo da invasão do sigilo da filha de José Serra na Receita, portanto, pode ser tudo – menos surpreendente. O roteiro do filme estava pronto, na cara de todos. Já tinha até trailer, com o caso Eduardo Jorge, o vice-presidente do PSDB cujo sigilo fiscal foi igualmente socializado. Há meses o país assiste a esse trailer soturno: como um cidadão de segunda classe, Eduardo Jorge persegue por conta própria a reparação por seus direitos violados, diante de uma Receita Federal impávida, fingindo-se de morta.

O caso Verônica Serra já começava a ser cozinhado no mesmo fogo lento. O secretário da Receita – o diligente substituto de Lina Vieira – chegara a informar que os dados de Verônica tinham sido solicitados por ela mesma. Aí entrou em ação a imprensa, essa entidade que existe para atrapalhar a química entre o governo de esquerda e o povo. E veio à tona a informação inconveniente: não só a procuração apresentada à Receita era falsa, como a essa altura a própria Receita já sabia disso. Sabia, mas não contou para ninguém. Deve ser uma outra concepção de sigilo.

Os percursos do valerioduto entre as estatais brasileiras e o partido do presidente, os bancos de dados extraoficiais, a conduta temperamental de órgãos técnicos capitais como a Receita Federal – para ficar só no universo da máquina pública – compõem uma literatura republicana no mínimo intrigante. Em circunstâncias normais, este seria um governo sob suspeita. Ou talvez, acossado pela vigilância democrática, já tivesse corrigido esses desvios – curando-se da obsessão de submeter o Estado ao cabresto partidário.

Mas as circunstâncias não são normais. Dificilmente haverá um paralelo, em toda a história da democracia, de um governo quase à prova de desgaste, que chega ao fim de um exercício de oito anos com menos de 5% da população a reprová-lo. E em regime de plena liberdade. Esta é a façanha de Lula, legítima, que todos precisam reconhecer – mesmo os que discordam de suas políticas. O problema é o que será feito com essa fortuna de popularidade.

O caminho da mistificação populista, simbolizado pela lavagem cerebral do “nunca antes na história deste país”, provavelmente já estaria abrandado se o cenário da sucessão de Lula fosse outro. A necessidade de inventar Dilma Rousseff, uma militante despreparada, insegura e absolutamente desprovida de magnetismo e propensão ao diálogo, fez recrudescer a blindagem mitológica. A alta vulnerabilidade da candidata ressuscitou os instintos mais autoritários do PT.

O pesadelo de todos os envolvidos no Plano Dilma é que sua fragilidade e mediocridade acabem expostas em praça pública. E que o paraíso do lulismo acima do bem e do mal chegue ao fim, com a inevitável percepção geral dos problemas reais – como a bagunça institucional que avança no setor público, vide o escândalo da Receita, entre outros desmandos.

Resta a Dilma gritar que estão querendo virar a mesa da democracia, evocando os totens do oprimido para manter a hipnose coletiva. O risco para ela e seus companheiros é perder o poder. O risco para o Brasil é perder a liberdade.

Família de Erenice também operou no Ministério de Minas e Energia

Leandro Colon - O Estado de S.Paulo

Escritório de advocacia do irmão da ministra foi contratado sem licitação com aval de outra irmã, que tem cargo de confiança

Uma irmã da ministra da Casa Civil, Erenice Guerra, autorizou o governo a contratar sem licitação o escritório do próprio irmão delas. No centro do contrato está a área de Minas e Energia, um setor que tem a influência de comando de Erenice e da ex-ministra Dilma Rousseff.

Dida Sampaio/AE-13/07/2010

Erenice foi consultora jurídica da pasta no período em que a hoje candidata do PT dirigiu o Ministério de Minas e Energia no governo Lula.

Erenice saiu de lá com Dilma em 2005, mas sua irmã, Maria Euriza Alves Carvalho, entrou como consultora jurídica da Empresa de Pesquisa Energética (EPE), vinculada ao mesmo ministério. No dia 1.º de setembro de 2009, Maria Euriza autorizou a EPE a contratar, sem licitação, o escritório Trajano e Silva Advogados, com sede em Brasília, por um valor de R$ 80 mil. Entre os advogados do escritório está Antônio Alves Carvalho, irmão de Maria Euriza e da ministra Erenice Guerra.

Segundo reportagem da revista Veja desta semana, esse mesmo escritório é usado pelo filho de Erenice, Israel Guerra, para despachar, fazer lobby e cobrar propina de empresários que tentam negociar contratos com o governo. Para oficializar seu serviço, Israel usa uma empresa de consultoria em nome de um irmão e que tem sede na sua própria casa no Distrito Federal.

A contratação sem licitação do escritório do irmão de Erenice pelo governo foi publicada em setembro de 2009 no Diário Oficial da União. Está lá escrito: "Aprovada por Maria Euriza Carvalho - Consultora Jurídica." Até abril deste ano, pelo menos, a irmã da ministra aparecia como consultora da EPE, segundo o Diário Oficial da União.

O escritório foi contratado para representar a EPE numa ação judicial movida por uma empresa que brigava para participar de um leilão da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) naquela época. Segundo o edital de contratação do escritório do irmão de Erenice, o contrato era de seis meses e por um valor global de R$ 80 mil.

"Às pressas". Ontem, o Estado conversou com o advogado Márcio Silva, um dos donos do Trajano e Silva Advogados e amigo dos irmãos Erenice, Maria Euriza e Antônio Carvalho. Márcio Silva, que também representa a campanha presidencial de Dilma Rousseff (PT) na Justiça Eleitoral, confirmou a contratação sem licitação pelo governo. Alegou que a Empresa de Pesquisa Energética (EPE) teve que recorrer a um escritório às pressas em Brasília para resolver uma pendência judicial em 24 horas.

"Foi feito um convite direto porque era o único contato que tinham em Brasília e a EPE tem sede no Rio de Janeiro", explicou. "Você até pode achar que há algo antiético, mas não houve nenhuma ilegalidade", ressaltou. Segundo Márcio Silva, o valor de R$ 80 mil era uma previsão se o processo chegasse ao Supremo Tribunal Federal. Mas, de acordo com ele, o serviço ficou em R$ 25 mil.

A área de energia elétrica faz parte do rol de temas em que o irmão de Erenice atua dentro do escritório. Ao lado do advogado Alan Trajano, Antônio Carvalho cuida de processos ligados à infraestrutura.

Oficialmente, ele se afastou em abril da banca, mas ainda continua prestando consultorias, segundo Márcio Silva. Ontem, o Estado procurou o advogado e sua irmã Maria Euriza, mas os dois não foram localizados para comentar o assunto.

Reportagem da revista Veja desta semana aponta ainda a existência de um esquema de tráfico de influência na Casa Civil e isso levou a oposição a pedir a demissão da ministra Erenice Guerra. Documento obtido pela revista mostra que a empresa de transporte aéreo Via Net Express contratou firma de lobby pertencente a filhos de Erenice, para garantir contratos com os Correios.

Na ocasião, a Casa Civil era chefiada por Dilma Rousseff e Erenice ocupava o posto de secretária executiva, atuando como principal auxiliar da hoje candidata do PT ao Planalto.

Justificativa

MÁRCIO SILVA
REPRESENTANTE DA CAMPANHA DE DILMA NO TSE E EX-SÓCIO DO IRMÃO DE ERENICE
NO ESCRITÓRIO DE ADVOCACIA BENEFICIADO POR CONTRATO NO MINISTÉRIO DE
MINAS E ENERGIA

"Foi feito um convite direto porque era o único contato que tinham em Brasília e a Empresa de Pesquisa Energética tem sede no Rio de Janeiro. Você até pode achar que há algo antiético, mas não houve nenhuma ilegalidade" .

O consumidor tira os empregos

Carlos Alberto Sardenberg, O Globo

Estamos em um supermercado em Key Biscaine, uma das áreas mais ricas dos Estados Unidos, loja com variedade de produtos internacionais, ampla oferta de orgânicos e tudo o mais ecologicamente correto, como é de se esperar nessas regiões. É outra circunstância que chama a atenção do forasteiro: nos caixas, os próprios compradores fazem toda a operação de check out.

Isso mesmo, as pessoas passam os produtos pela leitora ótica e já vão empacotando (muitos guardando em sacolas de pano); tudo checado, o comprador confere o valor na tela da caixa, passa o cartão, digita a confirmação e pronto, vai se embora carregando suas coisas. Ou seja, faz toda a operação sem qualquer contato com um funcionário humano.

O interessante é que, se o comprador quiser, pode passar em um caixa normal. Na verdade, havia ali alguns desses terminais à disposição dos clientes, com filas pequenas, mas pareceu que as pessoas preferiam, na maioria, operar o caixa elas mesmas.

Perguntei aqui e ali qual a vantagem para o consumidor. Imaginem a situação: você, comprador, faz todo o serviço que era do funcionário; claro que você não está treinado para isso, de modo que vai se embaraçar com pacotes e as maquinetas. Logo, dá mais canseira e demora mais. (E de fato, havia muita gente bem lerda.) Os locais responderam que as pessoas acabam aprendendo e se acostumando com o sistema, assim como “todo mundo” já sabe fazer as operações bancárias via internet ou caixa automático. Mesmo assim, pergunto de novo: qual a vantagem de aprender isso no supermercado? De novo, respondem que se trata de ganhar tempo. Assim como acabaram, ou estão acabando as filas nos bancos, dizem que, nos momentos de pico, a pessoa se livra das compras mais rapidamente se ela mesma der conta de toda a tarefa. E algumas contaram que preferem mesmo fazer tudo independentemente, sem qualquer contato com outros humanos.

Para a empresa, o ganho é evidente. Ela transfere boa parte do serviço para os clientes, o que, admitamos, é uma tendência universal.

Além dos supermercados, já são comuns as lojas nos EUA em que, chegando ao caixa com a mercadoria (roupas, por exemplo) que você escolheu sozinho, o funcionário (sim, ainda há um lá) faz apenas uma parte da operação, que é passar o produto na leitora ótica e empacotar.

Você passa o cartão na maquininha, responde às perguntas do visor, assina na tela e recolhe seu cartão. O funcionário, no máximo, diz ok.

Se você quiser, pode entregar o cartão ao funcionário, mas parece que eles não gostam. Comentei isso com uma funcionária e ela, parecendo bem instruída, contou que antes mesmo da crise a loja já começara a reduzir pessoal.

Um dia, comentou, desalentada, não vai ter nenhum emprego aqui, “estarão todos na China ou na Índia”.

Eis por que estamos relatando essas impressões de viagem. A questão mais importante nos Estados Unidos, hoje, tanto na economia quanto na política, é emprego. O país já teve um surto de recuperação, no final de 2009, início de 2010, mas mesmo nesse período as empresas não contrataram pessoas no ritmo necessário para repor as 8,5 milhões de vagas fechadas no auge da crise.

De lá para cá, a situação piorou: a geração de emprego no setor privado perdeu ritmo. A taxa de desemprego permanece em torno dos 10%, o que é mais do que o dobro para a economia americana em situação normal.

Uma explicação está na falta de confiança das companhias. Estas só vão voltar a contratar de verdade quando acreditarem que a recuperação é consistente.

Além disso, há essa outra dificuldade, que aparece naquelas histórias contadas aqui. De fato, diversas medidas mostram que, na primeira onda de recuperação, as companhias americanas exibiram elevada produtividade.

Ou seja, aumentaram a produção empregando menos gente.

Isso confere com o dado de investimento.

Naquele mesmo período, as empresas aplicaram em novos computadores e sistemas de informática. Portanto, além da falta de confiança das empresas, um fator conjuntural, há uma tendência de longo prazo que “economiza” empregos.

Há ressalvas. Primeira delas e a mais importante: está claro que, mesmo nas lojas automatizadas, há todo um trabalho por trás, como o de definição, instalação e operação dos softwares que comandam todo o processo.

Esse é um trabalho de maior nível — e melhores salários — que ficaria nos Estados Unidos.

Estaria, assim, acontecendo com o setor de serviços a mesma coisa que se passou na indústria. Nos aparelhos de iPhone, se lê: desenhado pela Apple na Califórnia, montado na China. As grandes companhias americanas de hoje não são mais as siderúrgicas, nem mesmo aquelas que montam computadores, mas aquelas que “operam nas nuvens”, como a Google.

O problema é a transição, complicada ainda mais neste momento pela circunstância da crise.

A questão mais importante na economia e na política dos EUA é emprego.

Marketing versus política

João Bosco Rabello - O Estado de São Paulo

De todos os erros atribuídos à campanha do PSDB, dois são consensuais entre os políticos que analisam a distância entre José Serra e Dilma Rousseff nas pesquisas. O primeiro, a recusa às prévias, propostas por Aécio Neves, que poderiam ter evitado a longa agonia da escolha do vice da chapa tucana e garantido apoio mais explícito e comprometido do ex-governador de Minas.

O segundo, evitar a comparação entre os governos de Fernando Henrique Cardoso e Lula, anunciada por este último como estratégia para dar à eleição caráter plebiscitário. Acredita-se agora que o PSDB cumpriu a pauta do adversário que desejaria exatamente o contrário: evitar a comparação.

Ao adotar essa linha de campanha, Serra não evitou o confronto direto com Lula, que se antepôs a Dilma todo o tempo, e deixou de capitalizar a bonança econômica que sustenta a popularidade do atual governo, cujos alicerces foram construídos na gestão FHC.

Esses aliados acham que Serra deixou o marketing conduzir a campanha em detrimento da política e, ao inverter essa lógica, isolou-se cada vez mais.

Acham ainda que ele deveria adotar como linha mestra da campanha a clássica síntese de que no governo do PT o que é bom não é novo e o que é novo não é bom.

Mimetismo

Danuza Leão, Folha de São Paulo

Lula está histérico; um recém-chegado ao Brasil que o tenha visto no programa eleitoral acreditaria que o PSDB é que tinha violado o sigilo de altos dirigentes do PT, da filha de Dilma, do seu genro, e não o oposto do que se suspeita.

É muita cara de pau. A maneira como ele se refere aos outros candidatos é baixa, sem nenhum respeito; será que é demais querer para presidente alguém mais educado?

Até agora, Dilma está, segundo as pesquisas, à frente dos outros candidatos, mas a possibilidade de haver um segundo turno tira Lula do sério. Sempre se soube que ele era um mau perdedor, e agora se anuncia também como um (possível) péssimo ganhador.

E alguém acredita na investigação da Polícia Federal? Na quebra do sigilo telefônico da funcionária da Receita? Em alguma coisa que envolva esse governo?

Além de todos os meus medos, agora tenho um novo: de que Lula exploda feito um homem bomba num palco qualquer, com o microfone na mão, tal a raiva e o ódio que não consegue esconder - nem tenta. O presidente não se conforma em ser contrariado, não admite ser derrotado, e sua fúria, quando supõe que isso possa acontecer, é a de um animal com raiva - a doença - em seus piores momentos.

Em suas metáforas, passou da ignorância, até compreensível, à grosseria e à boçalidade.

Já acreditei que o PT fosse o partido da ética, diferente de todos os outros; alguém lembra? E me sinto uma total idiota, por não ter ouvido o que me diziam os mais experientes da política, que um governo Lula se tornaria quase uma ditadura stalinista - e um dos que me disseram isso foi Brizola.

Sou viciada em programa eleitoral, mas na hora do PT, tiro o som. As caras sinistras e os dedos apontando me fazem mal. O mesmo mal que eu sentia quando via Collor (não por acaso, agora aliados).

Para alguns, é mais fácil empunhar uma metralhadora do que um adversário, e Dilma continua se escondendo, não indo aos debates, não falando sobre o assunto. E se ela ganhar?

Lula é bem capaz de dizer, se achando o próprio D. Pedro 1º, "já que é para o bem de todos e felicidade geral da nação, diga ao povo que fico".

O PT sofre de mimetismo. Quase todos os homens usam barba, Erenice é a cara de Dilma, Marta Suplicy e d. Marisa estão parecidíssimas, e os estoques de botox estão se acabando. Menos, gente, menos.

Além da eleição, tenho outra grande preocupação: qual será o destino dos oito pitorescos vestidos verde e amarelo que Marisa Letícia usou nos oito desfiles de 7 de Setembro, para comemorar o Dia da Independência e saudar o povo?

Não deixa de ter sido uma bela contribuição à República, mas como esses vestidos nunca poderão ser usados em nenhuma outra ocasião, aí vai a sugestão: como existe um movimento para transformar a casa tombada dos Paula Machado, na rua São Clemente, em Instituto Lula (para imitar Fernando Henrique), um pequeno espaço poderia ser destinado a esses vestidos, para que as futuras gerações entendam o que foram os anos Lula.

Um museu tipo o de Carmem Miranda; sem tanta graça, é verdade, mas também, a seu modo, histórico.

Mas por que logo no Rio?

Por que não em São Bernardo?

Estudo: Brasil está entre os 10 países mais desiguais do mundo

O economista-chefe do Centro de Políticas Sociais, vinculado à Fundação Getulio Vargas (FGV), Marcelo Côrtes Neri, afirmou que a baixa escolaridade da população brasileira mantém o País entre as dez nações mais desiguais do mundo. "Ainda estamos no top 10 da desigualdade mundial", disse.

Análise publicada pelo economista na mostrou que, desde 1996, há redução do índice de Gini. O indicador, que mede a concentração de renda (quanto mais perto de 1, maior a desigualdade), caiu de 0,6068, naquele ano, para 0,5448, em 2009.

Apesar da queda, o índice brasileiro é superior ao de países como os Estados Unidos (em torno de 0,400) e da Índia (0,300) e está próximo ao de nações mais pobres da América Latina e do Caribe e da África Subsaariana. "Saímos do pódio, mas ainda estamos entre os mais desiguais", afirmou o economista.

Segundo Neri, para diminuir a desigualdade, é preciso que a renda das classes mais baixas continue crescendo, que se mantenham programas sociais focados na população mais pobre e, sobretudo, que o Estado amplie a oferta de educação de mais qualidade e as pessoas permaneçam na escola.

O sociólogo e cientista político Simon Schwartzman, presidente do Instituto de Estudos do Trabalho e Sociedade (Iets), disse que "a educação no Brasil é muito ruim" e que há um "excesso de valorização" da escolaridade, o que explica a grande diferença salarial entre quem tem curso superior e quem não tem nenhuma formação. Para ele, o desempenho educacional "não tem melhorado muito" e, portanto, nos próximos dez anos o quadro de desigualdade permanecerá.

Para o gerente da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, Cimar Azeredo, o Brasil tem "mazelas que não se desfazem de uma década para outra". Ele citou a diferença entre a renda de homens e mulheres, brancos e negros. "O passivo é muito grande. Somos há muito tempo um País desigual".

O estatístico e economista Jorge Abrahão de Castro, diretor de Estudos e Políticas Sociais do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), confirmou que o País ainda vive "as sequelas do passado" demonstradas, por exemplo, na última Pnad, que, além da desigualdade perene, indicou que um em cada cinco brasileiros com 15 anos ou mais tem menos de quatro anos de estudo.

De acordo com a Pnad, o percentual de crianças e adolescentes de 6 a 14 anos na escola em 2009 era de 97,6%. Na avaliação dos especialistas, a permanência dessas crianças na escola resultará em melhoria de renda no futuro.

Para Marcelo Neri, da FGV, a chamada nova classe média brasileira, com mais de 95 milhões de pessoas, é formada por crianças e adolescentes que entraram e permaneceram na escola nos anos 90, quando houve universalização do acesso ao ensino.

Vocês ouviram o que o Lula disse?

Bruno Pontes , Mídia Sem Máscara

O violador do sigilo de Verônica Serra é filiado ao PT. Seus dados foram parar nas mãos de blogueiros a serviço do PT e nas escrivaninhas da campanha de Dilma Rousseff. Outra coisa engraçada é que as vítimas da Receita Federal Petista são ligadas ao PSDB e somente a este partido, que casualmente é o de José Serra.

Quando a imprensa mostrou que o esquema petista de violação de sigilos fiscais vitimou inclusive a filha de José Serra, Lula recomendou cautela aos brasileiros, pois alguns de nós estávamos concluindo que os crimes cometidos pelos petistas têm alguma coisa a ver com os petistas. Por entender que as ilações apressadas ameaçam a segurança nacional, o Estadista Global pontificou:

"É importante a gente não precipitar a desconsideração a uma instituição [Receita] que tem se pautado pela seriedade, pelo sigilo, como se fosse guardiã de todos nós. Vamos saber o que está acontecendo porque não falta gente para tentar causar problema em época eleitoral".

Enquanto Lula fazia seu joguinho de sempre, os jornais traziam à tona mais crimes contra a Constituição cometidos por petistas, crimes que, fossem cometidos por gente do governo FHC, teriam motivado mil e uma passeatas de petistas pedindo a cabeça do presidente tucano.

Serra, então, teve a petulância de denunciar e levar o caso à televisão. Aí o candidato extrapolou. Sabemos que, na democracia petista, todo mundo tem o direito de concordar com o PT. Serra desrespeitou essa regra de convivência social, transtornando o Estadista Global. Indignado, Lula decidiu usar o 7 de Setembro para fazer o que faz melhor: mentir.

"O Brasil já cansou de ver esse filme: um candidato dispara nas pesquisas e aí começam acusações sem provas. Dilma está sofrendo agora o que eu já sofri no passado. Mas o brasileiro está mais maduro e não vai se deixar enganar. Ele sabe que Dilma é honesta e competente".

O violador do sigilo de Verônica Serra é filiado ao PT. Seus dados foram parar nas mãos de blogueiros a serviço do PT e nas escrivaninhas da campanha de Dilma Rousseff. Outra coisa engraçada é que as vítimas da Receita Federal Petista são ligadas ao PSDB e somente a este partido, que casualmente é o de José Serra. Mas Lula espera que os brasileiros estejam maduros e não se deixem enganar pelos fatos.

Quem se chocou com aquele pronunciamento teve um ataque apoplético horas depois, quando Lula apareceu na propaganda noturna de Dilma para referir-se a Serra como "candidato da turma do contra, que torce o nariz contra tudo que o povo brasileiro conquistou nos últimos anos" e acusar o tucano de "partir para os ataques pessoais e para a baixaria". Sem qualquer pudor, continuou: "Tentar atingir, com mentiras e calúnias, uma mulher da qualidade de Dilma Rousseff é praticar um crime contra o Brasil. E, em especial, contra a mulher brasileira". Lula desfez qualquer dúvida de que o projeto de poder do PT inclui a idiotização dos brasileiros até a completa nulidade cerebral.

Brasil avacalhado

Maria Lucia Barbosa, Alerta Total

Como um todo nunca levamos à sério coisas sérias. O brasileiro é um piadista nato e seu humor lhe basta. A informalidade é nosso forte e a moralidade nunca o foi. À massa basta futebol, carnaval, cerveja, celular, TV a cabo e a felicidade comprada em 12 prestações em lojas de departamento.

Valores como honra passam longe da percepção coletiva. Sentimento de pátria ocorre para uns poucos que no exterior se deparam com algum símbolo nacional ou um forró em Nova York, executado para público de Terceiro Mundo. Entretanto, na era Lula/PT, justiça seja feita, se chegou a um grau de avacalhação nunca antes havido nesse país.

No plano urdido pelo principal grupo de poder petista, uma espécie de gabinete da sombra, o Brasil avacalhado é a ante-sala da ditadura do PT, que culminará sob a dominação de Rousseff. E esta é o golem de Lula da Silva, ou seja, a criatura que ele plasmou para lhe obedecer, humana apenas na aparência que a propaganda lhe confere, mas sem intelecto nem personalidade próprias.

Como seu criador ela será uma figuração manejada ideologicamente por certas forças que o homem comum desconhece: o Foro de São Paulo que congrega a esquerda troglodita.

Mergulhado no mundinho fácil do consumo o povo abestalhado, ou abestado como diz o palhaço Tiririca que será eleito triunfalmente, aplaude o paizão Lula e votará na mãezona Rousseff, agora travestida de avó devotada. Tudo é propaganda na ante-sala do Estado Policial petista, cuja última façanha foi devassar o sigilo fiscal da filha, de parentes, de correligionários do candidato do PSDB, José Serra.

Mistura-se ao crime cometido na Receita Federal, órgão subordinado ao Ministério da Fazenda, que por sua vez é subordinado à presidência da República, a mentira descarada, a negação hipócrita dos envolvidos, todos do PT, a intriga que tenta infamar os adversários.

E com maestria o PT faz aquilo que mais entende: transforma a vítima em culpada. O povo, que em sua maioria não sabe o que é Receita Federal, aplaude Lula da Silva enquanto corre solta a canalhice nos órgãos públicos. No Brasil o crime compensa desde que você seja um companheiro.

Não se contentando em atropelar a linguagem, cuspir palavrões, exibir sua costumeira vulgaridade, o paizão pula e berra nos palanques e na TV. Ele é o maior cabo eleitoral de seu golem e mente, mente e mente, porque lhe ensinaram que quanto maior a mentira mais o povo acredita. Descaradamente ele pergunta à platéia embevecida: “Cadê esse tal sigilo que não apareceu até agora?”. E acusa Serra de colocar a família como vítima da devassa fiscal feita pelos beleguins do PT.

Será que Lula da Silva gostaria, por exemplo, que fosse devassado o sigilo fiscal do seu filho Lulinha, aquele que de ex-funcionário de zoológico alcançou rápida e estrondosa ascensão financeira? Ou de outros membros de sua família que estão bem distantes das agruras do proletariado?

Se o PSDB usasse as habituais e abjetas táticas de dossiês para infamar adversários, Serra já estaria preso e incomunicável, mas Lula e seu PT são impunes porque conseguiram em oito anos sem oposição dominar as mais importantes instituições, os grupos de pressão, os partidos políticos.

Lula avacalhou o Congresso e quer mais para Rousseff, elegendo também a maioria dos senadores. Avacalhou a Educação, a Saúde, o Enem, os Correios, a Petrobrás, a Receita Federal. Internacionalmente avacalhou nossa política externa apoiando ditadores, chamando dissidentes cubanos que morrem em greve de fome de criminosos comuns, se envolvendo em casos vergonhosos como o de Honduras, seguindo par e passo com Hugo Chávez e outros déspotas latino-americanos.

Indiferente, o povo abestalhado aplaude o paizão das bolsas-esmola, dos gordos lucros presenteados aos magnatas, da imprensa que, comprada com verbas oficiais repete a palavra e os hipotéticos feitos do dono.

Seis anos de bonança econômica internacional, o fiel cumprimento do Plano Real de Fernando Henrique Cardoso, muita propaganda e falatório do presidente da República, distorção de dados, nenhuma oposição produziram a sensação de que os indivíduos vão bem. Entretanto, o Brasil avacalhado vai mal. E vai piorar.

Que se cuidem os endividados pelo consumo irresponsável, os doentes que morrem nas filas do SUS, os que deixam as escolas como analfabetos funcionais, os que terão suas vidas devassadas com a quebra de sigilos bancários e fiscais, a mídia que será ferozmente censurada.

Sem Poder Judiciário que proteja os cidadãos através da isonomia da lei, sem um Congresso que legisle em prol do bem comum, com a mídia amordaçada pelo futuro ministro da Mentira, à mercê de novos impostos para sustentar a pesada e aparelhada máquina pública, submetida à Constituição à lá Chávez que Rousseff pretende impor, a nação tiririca continuará a aplaudir.

Brasileiro está acostumado a rir de sua própria desgraça e não tem complexo de vira-lata. Tem orgulho de ser vira-lata.

Dois pontos e uma dúvida

Míriam Leitão , O Globo

As duas propostas de oposição foram discutidas no GLOBO nas sabatinas da candidata Marina Silva, do PV, e do candidato José Serra, do PSDB. Elas são diferentes. Serra acha que o país corre risco de desindustrialização. Marina teme o desenvolvimento que não veja a urgência da questão climática. A ausência da candidata Dilma Rousseff é um espantoso desrespeito ao debate democrático.

Em duas horas de conversa com cada um dos candidatos de oposição deu para falar de vários pontos de suas ideias e projetos, mas um fato inevitavelmente dominou a conversa: o escândalo da quebra sequencial de sigilos de contribuintes em geral, e de pessoas ligadas ao candidato José Serra, em particular.

Marina foi até mais direta e assertiva sobre o tema: a sociedade ficou desamparada pelo presidente da República, que, quando vem a público falar do assunto, não defende as vítimas, apenas a sua candidata, disse ela. Pelo fato de ser mulher, Marina tem até mais naturalidade para desmanchar a tese de machismo defendido pelo presidente Lula. De acordo com o tortuoso pensamento, que Lula defendeu em palanque, exigir esclarecimento do assunto é um ataque à mulher. O que o assunto encerra é outro tipo de questão: agressão aos direitos dos cidadãos.

— No primeiro momento foi indignação, e agora o sentimento é de impotência. O secretário, o ministro e o presidente da República esqueceram que temos duas mil pessoas com sigilo violado e ele saiu em defesa de quem não teve o sigilo violado — disse Marina, defendendo em seguida sua tese da “banalização do dolo”.

Serra ao falar do assunto elabora menos e fala mais do fato em si que o atingiu diretamente. Repetiu que avisou ao presidente Lula, quando disse a ele que seria candidato, que informações que constavam apenas das declarações de renda da sua filha estavam circulando por blogs ligados ao governo. Rechaçou a tese presente em algumas declarações de autoridades de que se “quebrou de todo mundo” então “não tem importância”.

A candidata Dilma Rousseff, se tivesse vindo, poderia ter explicado melhor todo esse nebuloso episódio. De preferência, se saísse do script que tem repetido que é se apresentar como vítima no episódio, quando as vítimas são, obviamente, as pessoas espionadas.

José Serra usou a expressão “envelope fechado” para se referir ao pensamento de Dilma Rousseff. O país não a conhece, na opinião dele, e votar nela é como escolher um envelope fechado. Marina acha que Dilma aposentou o eleitor e só se preocupa com o “anfitrião”.

O país, de fato, vive uma anomalia nesta eleição: o mais empenhado dos políticos em campanha não é candidato, está no cargo da Presidência, usa todos os poderes, facilidades e simbologia do cargo para defender uma candidatura. A candidata mais bem posicionada nas pesquisas é pouco conhecida, foge, sempre que pode, de debates, entrevistas e sabatinas. Desta forma, realimenta o problema de ser a interposta pessoa em sua própria candidatura.

Para piorar, Marina passou a maior parte de sua vida política no partido do governo e carrega ainda as marcas dessa ambiguidade de ser e não ser do grupo que controla o governo atualmente; Serra, de oposição, não defende os feitos do seu próprio partido quando estava no poder e ainda usou a foto do presidente Lula em sua campanha. Estão todos amedrontados diante do tamanho da popularidade do presidente e achando que qualquer palavra em falso pode tirar votos.

Marina acha que Dilma e Serra são muito parecidos na visão de mundo, no estilo e na proposta de se oferecerem como gerentes. No que se refere ao assunto que lhe é mais caro, o da sustentabilidade, Marina afirma que os dois representam risco ambiental para o país, a ameaça de um desenvolvimento desatualizado com as exigências do século XXI e a falta de um pensamento estratégico sobre o assunto.

— Por isso me coloquei como candidata, para mostrar que o meio ambiente não é a disputa do verde pelo verde, é uma forma de criar novos negócios, novos materiais, nova base de conhecimento, produzir mais com menos recursos naturais — disse.

Marina acha que nenhum dos dois oponentes entendeu esse mundo novo.

Serra também disse que se apresentou como candidato para preparar o Brasil para o século XXI.

— Hoje, não temos fundamentos sólidos para o desenvolvimento sustentado. Essa eleição vai decidir o que vai acontecer com o país, com a sociedade e a economia neste século. Foi essa percepção que me levou a ser candidato.

Ele acha que o modelo econômico do governo Lula está esgotado. Que ele teve a chance de uma situação extremamente favorável e não aproveitou para criar as bases desse crescimento sustentado.

— No governo anterior, os preços dos produtos de exportação caíram 10%, no governo Lula subiram 110%. É uma situação inédita desde os anos 30. Mas o país está se desindustrializando, está dependendo mais da exportação de matérias-primas e está aumentando o déficit externo.

O “desenvolvimento sustentável”, para Marina, significa incluir a variável ambiental e climática dentro de uma estratégia de crescimento. O “desenvolvimento sustentado”, para Serra, significa ter uma política de juros mais baixos, câmbio mais valorizado, maior poupança interna, menor déficit em transações correntes. São dois pontos. A dúvida é o que realmente pensa Dilma Rousseff. Seus silêncios e suas contradições deixam um vazio no ar.

O "coletivo" e seus chefes estrangeiros

Eduardo Mackenzie (*) , Mídia Sem Máscara

Há idiotas para tudo. Após inventar o "crime" de "homicídio em combate", a esquerda colombiana quer acusar Álvaro Uribe de "traidor".

Quem pode acreditar na pertinência da demanda por "traição à pátria" que o chamado "coletivo de advogados Alvear Restrepo" acaba de registrar contra o Presidente Álvaro Uribe?

Só um grupo de fanáticos sem escrúpulos, e sem respeito pelo país, pode inventar uma acusação mais extravagante e provocadora.

Essa demanda não tem sentido desde o ponto de vista factual, nem legal. É certo que a Corte Suprema Constitucional declarou "inexistente" a ampliação do acordo de cooperação e defesa entre os Governos da Colômbia e Estados Unidos, de outubro de 2009, porém o fez invocando alguns supostos erros técnicos de trâmite, não um assunto de fundo. Uma nova lei será apresentada ao Congresso e restabelecerá a ampliará o acordo.

O jornal El Colombiano de Medellín, deste 6 de setembro, disse muito bem: "Nenhum juiz probo e competente do mundo poderia qualificar a celebração desse convênio com um ato que tenda a menosprezar a integridade territorial da Colômbia, já que o que se procura com ele é combater a guerrilha narco-traficante e terrorista em nosso país. Tampouco se poderia considerar que, ao se permitir a colaboração dos Estados Unidos, quer seja através destes convênios quer seja do Plano Colômbia, se esteja submetendo o país a um domínio estrangeiro. Antes o que vemos é uma manifesta perseguição contra o presidente Uribe, e um ânimo de figuração de vários advogados... que não são juristas. Não há direito!".

O "coletivo de advogados" não é autônomo. É dirigido, na realidade, pela FIDH (Federação Internacional de Direitos Humanos), uma ONG baseada em Paris e controlada por forças políticas. Essa ONG "de direitos humanos", cujo financiamento é muito obscuro, durante oito anos sonhou com a destituição do Presidente Uribe. Agora, ela tem uma só obsessão: montar um processo contra o ex-mandatário colombiano, na Colômbia ou no estrangeiro, para castigá-lo por seu excelente desempenho em defesa do sistema democrático. Para orquestrar essa perseguição, a FIDH enviou a Bogotá há alguns meses um de seus advogados, que chegou pedindo "garantias" de todo tipo. Ele é membro do citado "coletivo".

Ninguém esquece que a FIDH criticou violentamente os milhões de colombianos que em 4 de fevereiro de 2008 expressaram, em imensas manifestações, na Colômbia e no estrangeiro, seu repúdio às FARC. Em troca, a ação sectária pró-FARC em 6 de março de 2008 foi respaldada pela FIDH.

A FIDH vem preparando a operação judicial contra os responsáveis colombianos desde 7 de março de 2008, quando lançou um comunicado no qual apresentou a morte do chefe terrorista Raúl Reyes, ex-número dois das FARC, como um "crime internacional" e como uma "execução extrajudicial".

Nesses dias, essa ONG redigiu uma minuta para iniciar uma demanda em Paris contra o chefe de Estado colombiano, porém deu marcha ré pois viu que não teria êxito. Já havia conhecido um estrondoso fracasso, em outubro de 2007, quando tentou deter na Alemanha e/ou na França, o ex-secretário norte-americano de Defesa, Donald Rumsfeld.

Em seguida, dois responsáveis pela FIDH foram enviados a Quito e ao México para arrecadar apoio diplomático para a nova campanha anti-colombiana. Entraram em contato com familiares das outras 24 pessoas que pereceram no acampamento de Raúl Reyes em 1º de março de 2008, para utilizá-los como massa de manobra.

Meses depois conseguiram a abertura do processo penal de Sucumbíos, onde líderes colombianos foram acusados, como o ministro da Defesa naquele momento, Juan Manuel Santos, o comandante das Forças Militares, general Freddy Padilla de León, o general Mario Montoya, comandante do Exército Nacional e o diretor da Polícia Nacional, general Óscar Naranjo. Eles foram acusados de "crime internacional" e "execução extrajudicial".

Em junho de 2009, o juiz Daniel Méndez, da Corte Suprema de Justiça de Sucumbíos, pediu à Corte Nacional de Justiça a extradição de Santos. Tudo isso fracassou ante o claro rechaço expressado pelo Presidente Álvaro Uribe. Durante a reunião ocorrida em Cancun, em fevereiro de 2010, Uribe disse de frente para seu homólogo equatoriano, Rafael Correa: "Uma nação como a nossa, açoitada por tanto tempo pelo terrorismo, não pode abandonar os que lideraram a batalha contra o terrorismo", arrematou Uribe.

A farsa de Sucumbíos estava planejada para que um fiscal colombiano assinasse ordens de captura contra essas personalidades. Não conseguiu, porém o assunto avança ao ritmo das necessidades do governo de Quito. Quando Rafael Correa finge querer restabelecer relações com a Colômbia, pois necessita comprar energia elétrica a Bogotá, o processo parece esquecido. Quando quer mostrar a outra cara, o processo ressurge intacto.

Em abril passado um juiz anulou parte desse processo por falhas processuais, pois os acusados não haviam sido notificados. Agora, em 3 de setembro de 2010, em Lago Agrio, a Procuradoria equatoriana voltou a acusar o general Montoya, hoje embaixador em Santo Domingo, e a pedir "prisão preventiva" para ele. Esse é o jogo dessa gente: manter a tensão para demolir psicologicamente suas vítimas.

Nunca antes em sua história a República da Colômbia havia visto a liberdade de seu Presidente e de um ex-presidente, e de altos membros das Forças Armadas ameaçada. Entretanto, a mobilização contra essas intimidações parece mínima, pois o principal instrumento destas, o "Coletivo Alvear Restrepo", continua sendo intocável.

Está na hora de as autoridades e a opinião pública colombiana conhecerem a origem e a quantia do financiamento desse "coletivo de advogados", em quais bancos depositam seus dinheiros, qual é sua relação de empregados completa e quais são suas relações exteriores. Um organismo que pretende acusar e julgar um ex-presidente da Colômbia por "traição à pátria", e que mantém na salmoura uma grave acusação contra o Presidente em exercício, deve mostrar, pelo menos, sua legitimidade e sua lealdade à Colômbia. Até hoje o tal "coletivo" não preencheu essas duas condições. Ninguém na Colômbia sabe o quê realmente é esse coletivo, nem quem o dirige exatamente, embora se conheça os nefastos efeitos de seu trabalho. Os iníquos processos contra os militares que deram sua vida em defesa do Palácio da Justiça, em 1985, a onda de obscuras acusações pelos chamados "falsos positivos" contra centenas de militares e policiais, o que mina de fato o moral das tropas que defendem a segurança do país, é em grande parte obra desse curioso organismo.

O processo de Sucumbíos, e a demanda contra o ex-presidente Álvaro Uribe por "traição à pátria", faz parte de uma mesma operação. Esta buscava em 2008 desestabilizar a presidência de Uribe e hoje procura prendê-lo, ele e os altos comandos mencionados, inclusive o novo presidente da Colômbia, Juan Manuel Santos, em uma nova farsa judicial.

A FIDH recebe subsídios do Estado francês e da União Européia, entre outros. Um organismo assim financiado, pode brincar com a estabilidade interna de um país democrático e amigo da França? A Chancelaria colombiana não tem direito a se perguntar e a investigar por quê a FIDH embarcou nessa aventura contra o bom nome e a liberdade e integridade física e moral dos chefes de Estado da Colômbia?

(*) Tradução: Graça Salgueiro