segunda-feira, maio 16, 2011

O Ministério (medíocre) contra a Educação

Adelson Elias Vasconcellos

Às vezes dá vontade de sugerir ao governo petista inverter letras da sigla que identifica o Ministério da Educação, conhecido como MEC, para MCE – Ministério Contra a Educação. Não bastasse a comunização do ensino que o ministro Haddad se entregou como objetivo maior de sua pasta, não bastassem as dezenas de livros distorcidos da verdade criminalizando de forma vigarista o agronegócio, o capitalismo, dentre outros “temas", que fazem das matérias de Geografia e História uma verdadeira pregação marxista, não bastasse a politização bestial dos sindicatos dos profissionais de ensino, a gente ainda tem de aguentar livros de língua portuguesa fazendo apologia ao erro. Alguns dos textos abaixo descem o sarrafo na autora que, entrevistada, ainda tentou se justificar com um rosário de maus conceitos, demonstração inequívoca da sua estupidez e mediocridade. Mas ela defender sua “obra”, ainda vá lá: cada um tem o direito de acreditar nas teses que melhor lhe parece e apetece, ficando claro que deverá, em contrapartida, responder pelas besteiras que defende diante das críticas que certamente acontecerão. O raio é que o debate no Brasil anda tão vagabundo que, ser contra aos conceitos estúpidos que vigoram no país presentemente, corre-se o risco de ser taxado de "traidor da pátria".

Contudo, o MEC se prestar a defender o método do ensino torto e vigarista? Aí, convenhamos, não dá. Se a apologia ao erro que a “ilustre” escritora entende correta, pudesse ao menos ser compreendida, a pergunta imediata que se impõem é: prá que escola? Fosse assim, elimine-se o problema cortando o ensino do idioma do currículo escolar. Todos terão direito de falar mal e escrever errado e fica tudo bem.

O que esta senhora está longe de ter ciência, e o MEC ao endossar a tese absurda corrobora com sua ignorância, é que o idioma, na sua expressão mais culta, é um patrimônio da nação brasileira. Permitir que se ensine errado é ultrajar este patrimônio, jogá-lo no lugar para onde deveria o MEC enviar o tal livro “Por uma vida melhor”.

Nesta semana, e os textos estão na edição de 12.05 do blog, o Jornal Nacional exibiu uma série de reportagens sobre a Educação no Brasil. Vejam lá: apenas 25% da população brasileira pode ser considerada alfabetizada integral. Mais: apenas 25%, após o ensino médio, conseguem ter conhecimento mediano capaz de interpretar corretamente a leitura de textos simples.

O indecente nesta história, não é apenas o livro ser comprado com dinheiro público e remetido para as escolas. É, sobretudo, taxarem de “preconceito linguístico” aqueles que falam e escrevem certo. Nada mais absurdo: o preconceito aqui, me parece, é justamente contra a cultura, contra a sabedoria, contra o conhecimento. O saber não é apenas uma caixinha de comprimidos que você compra na farmácia mais próxima. Exige esforço e dedicação pessoais, sacrifício do próprio lazer para ser alcançado. Agora, se dona Heloisa Ramos, uma das autoras da "obra", quer preconceito, pois digo: o preconceito é contra a burrice, a ignorância assumida, a irresponsabilidade de se praticar uma apologia ao erro contra um patrimônio da nação, é aplaudir o analfabetismo, o atraso intelectual. Que dona Heloisa queira dormir abraçada à sua estupidez, é um direito que lhe assiste. Escândalo é o MEC endossar tamanha palhaçada, tamanha traição ao idioma pátrio.

Não é a toa que o Brasil se encontra na rabeira em avaliações internacionais de ensino. Não é a toa que 75% da nossa população navega na escuridão do analfabetismo funcional. E não é a toa que gente do governo, repleto de vigaristas comandados pelo PT, se prontifica tanto em trabalhar para que todo este atraso fique do jeito que está. Falam tanto de cidadania mas se esquecem, por pura conveniência, que a cidadania só se realiza e se consuma diante de um povo educado em toda a sua plenitude. Por quê? Povo culto e educado, é povo esclarecido, e não se deixa conduzir por pilantras travestidos de educadores. Não se deixa seduzir pelo vagabundo e bucéfalo discurso de políticos sem moral, sem vergonha e sem caráter.

Povo livre não é apenas aquele que pode ter um carro ou uma TV de LCD na sala. Povo livre não admite e não suporta os maus e indignos serviços públicos que o Estado lhe entrega. Povo livre não é açoitado por uma carga tributária estúpida e escorchante de forma passiva e servil. Povo livre não se deixa contaminar pelos discursos populistas, eivados de mentiras e mistificações. Povo livre é povo que se faz respeitar e impõem aos seus governantes o cumprimento pleno de suas obrigações constitucionais. E um povo livre enterra no lixo da história, educadores malandros que, à cata de exibicionismo, agridem um patrimônio para o qual lhe falta formação competente para entender, defender e valorizar.

E um povo só é livre pelo caminho da educação, educação de qualidade, plena, não distorcida, não alimentada pelo ódio de classes esculpido pelos pseudo-educadores, sepultados na sua própria obsolescência e ignorância.

Além do mais, repudio ao extremo esta coisa tosca de “preconceito linguístico”. Por que, se quando estudante, procurei aprender o correto que me foi passado por excelentes professores? Por que busco falar certo e escrever corretamente serei preconceituoso? Ora, que dona Heloisa vá catar coquinho no meio mato e lambuzar-se com sua indecência. Se preconceito houver nesta lambança é dela mesma contra aqueles que amam sua pátria, idolatram nossos valores mais sagrados, e dentre aqueles que são motivo de orgulho, está por certo o idioma belo que nos foi legado. Se dona Heloisa quer ser caipira, isto é lá problema dela, mas não venha impor sua anticultura, suas aberrações e ignorâncias extremadas aqueles tem pelo ensino correto verdadeira obsessão. Escola foi feita para ensinar o certo. Errado é colocar a educação do país a serviço do populismo mais vagabundo e nas mãos de ignorantes e vigaristas.

Que dona Heloisa e, sobretudo o MEC, tenham um pouco mais de respeito pelo idioma pátrio que nossos antepassados nos legaram. Ninguém lhes outorgou direito de chamuscá-lo com seu lixo cultural. Já nos bastam as vigarices do ENEM, que não passa de um vestibular em escala nacional, rebatisado apenas para iludir. Já chegam as censuras aos livros de Monteiro Lobato, um dos expoentes da nossa cultura. De imbecis e medíocres o país já está cheio. Não precisamos ter outros escrevendo livros didáticos de pura ignorância ou comandando o Ministério da Educação.

Livro didático faz a apologia do erro: exponho a essência da picaretagem teórica e da malvadeza dessa gente

Reinaldo Azevedo

Escrevi, posts abaixo, um primeiro texto sobre um livro de língua portuguesa chamado “Por Uma Vida Melhor”, que faz a apologia do erro, embora uma das autoras tente negar o óbvio. Demonstrarei a fraude intelectual e técnica em que se sustenta a tese daqui a pouco. Começo este texto pelo óbvio: o nome é péssimo. “Por Uma Vida Melhor” pode ser título de livro de medicina, de religião e de auto-ajuda, mas não de língua. Gabriel Chalita, que me lê com enorme prazer secreto, vai pensar: “Esse nome me pertence”, enquanto escreve seu 437º volume sobre filosofia criativa, depois de mandar mais uma carta fofa para o padre Fábio de Melo, aquele que canta e encanta.

Terá certamente uma vida melhor o aluno que dominar o instrumental da norma culta da língua, contra o qual o livro se posiciona abertamente. Assim, esse “instrumento didático” que conta com o endosso do MEC, se algum efeito tiver, será no sentido de piorar a vida do estudante; na melhor das hipóteses, contribui para mantê-lo na ignorância.

Onde está a fraude intelectual do negócio? Sim, é um negócio! Abaixo, segue reproduzida uma página do livro em que os autores defendem porque é perfeitamente aceitável dizer e, fica claro!, escrever:

“Os livro ilustrado mais interessante estão emprestado“.

Leiam. Raramente vi uma vigarice intelectual em estado tão puro. Volto em seguida (se a leitura estiver difícil, clique na imagem que ela será ampliada).


O que vai acima é só uma conversa mole descrevendo por que, para usar a linguagem técnica, o “emissor” conseguiu transmitir uma “mensagem” eficiente. Ocorre que o fenômeno da comunicação e, por conseqüência, da cultura vai, e tem de ir, muito além da simples eficiência. Ora, comunicamo-nos o tempo todo por códigos que não são verbais. Um simples arquear de sobrancelhas diz muito mais, a depender do contexto - como bem sabem todos aqueles que têm filhos adolescentes - do que um discurso articulado em palavras. Nem por isso a escola vai se ocupar agora de decodificar esses sistemas pessoais de comunicação.

Uma coisa é explicar por que uma mensagem fora do padrão formal da língua funciona; outra, diferente, é atestar a sua validade como uma variante da língua. Não dá! Português não é inglês, por exemplo. Na nossa língua, os adjetivos têm flexão de gênero e número, e os verbos, de número. Quem dominar com mais eficiência esse instrumental terá vantagens competitivas vida afora. O que esses mestres estão fazendo, sob o pretexto de respeitar o universo do “educando”, como eles dizem, é contribuir para mantê-lo na ignorância.

Uma das autoras, Heloisa Ramos, concedeu uma entrevista ao iG e demonstrou que tem talento para humorista involuntária. Ela nega que o livro faça a apologia do erro e afirma: “Esse capítulo é mais de introdução do que de ensino. Para que ensinar o que todo mundo já sabe?” Boa pergunta, minha senhora! Pra que ensinar alguém a falar errado se todo mundo já sabe fazê-lo por conta própria, não é mesmo? Sem contar que o erro, convenham, não tem norma, certo? Cada um fica livre para cometê-lo à sua maneira.

Dona Heloísa tenta negar o que seu livro explicita. Acima, nas suas páginas, lê-se com clareza inequívoca: “É importante que o falante de português domine as duas variantes e escolha a que julgar adequada à sua situação de fala”.

Faço a pergunta de sempre de Didi Mocó? “Cuma???” Ao que Mussum emendaria: “Só no forévis do povo!!!” Bons tempos em que falar errado era norma entre os “Os Trapalhões”!

Huuummm… Diga aí, professora: quando é que o erro é mais adequado do que o acerto?

A mestra segue com seu talento para o humorismo na conversa com o iG:

Não queremos ensinar errado, mas deixar claro que cada linguagem é adequada para uma situação. Por exemplo, na hora de estar com os colegas, o estudante fala como prefere, mas, quando vai fazer uma apresentação, ele precisa falar com mais formalidade. Só que esse domínio não se dá do dia para a noite, então a escola tem que ter currículo que ensine de forma gradual” .

Uau! Entendi a preocupação. Fico cá a imaginar os estudantes se martirizando, na conversa com os colegas, preocupados em empregar a norma culta, muitas vezes ensinada com o brilho que sabemos, tendo como instrumento didático um livro como “Por Uma Vida Melhor”… De resto, como diria a doutora, por que contestar o que ninguém afirmou? Quem é que disse que o domínio da norma culta vai se dar do dia pra noite?

Pra que escola?
Escola é lugar de formalização do conhecimento, segundo o padrão culto, sim, senhor! Como teria dito o próprio artista, para que se possa pintar como Picasso aos 70 anos, é preciso saber pintar como Rafael aos 5, entenderam? O leitor sabe que este escriba mesmo mescla a tal norma culta ao uso informal e sem gravata da língua. Para que se chegue a ter um estilo, uma escrita pessoal, é preciso que se tenha o domínio do instrumental técnico.

Ninguém precisa de professor, minha senhora, para se comunicar de modo eficiente com os seus pares. Fosse assim, os analfabetos morreriam à míngua; fosse assim, Brasil afora, a nação estaria esfaimando. Os professores existem justamente para lembrar que a norma culta existe, que ela é importante, que, à diferença de servir à discriminação, é uma corretora de diferenças e de desigualdades.

Nem Paulo Freire…
Lá vou eu mexer com uma das divindades brasileiras - como se divindades humanas me constrangessem… Nem Paulo Freire ousou tanto na estupidez militante. Ele foi o criador de um método de alfabetização de adultos que se pretendia revolucionário. A partir do chamado “universo do educando”, de uma palavra que remetesse a um objeto ou realidade que fizesse parte do seu cotidiano, iniciava-se a alfabetização, que corresponderia, na verdade, a um processo de conscientização política que conduziria à libertação. Libertação do quê? De muita coisa, mas basicamente da tirania do capital.

Tratava-se um “bobajol” formidável, mas se diga uma coisa ao menos em defesa de Paulo Freire: sempre defendeu o uso da norma culta. Naqueles bons tempos, as esquerdas ao menos acreditavam na alfabetização do povo - para fazer revolução, claro!, mas acreditavam.

O neoesquerdismo do miolo mole, na sua fase de apologia do pobrismo, desistiu dessa bobagem. Esses vigaristas intelectuais estão certos de que o povo desenvolveu valores que lhe são próprios, que o distinguem da chamada “cultura da elite”. E deve ser respeitado por isso. A chegada do Apedeuta ao poder, com a sua compulsão de fazer a apologia da ignorância, parece dar razão prática a essa estupidez. Até parece que a complexa equação econômica em que se meteu o petismo, tendo de conservar os fundamentos do governo anterior, foi comandada por prosélitos do analfabetismo. Não foi! Ao contrário! Quem cuidou da operação foram pessoas com sólida formação intelectual.

Dona Heloísa, uma deslumbrada com o “povo”, não sabe quão reacionária está sendo; não tem idéia do autoritarismo que está na base de sua teoria. Não quero usar o exemplo pessoal. Mas sei de gente que se livrou da pobreza extrema apenas porque conseguia dominar determinados códigos de uma cultura que não seria própria àquela faixa de renda.

Pessoas que desrespeitam os pobres fazem de sua pobreza uma cultura alternativa. Gente decente reconhece o valor intrínseco de certas conquistas - como o domínio da norma culta da língua - e luta para que o acesso a esse código seja um direito de todos.

Ouvido, o MEC defendeu a adoção da obra como um dos livros de referência. Alguém aí se surpreendeu? Para encerrar: tentamos saber por que a nossa escola é tão ruim. A vertente esquerdopata-sindical vai acusar a falta de recursos e os baixos salários dos professores. Não ganham bem, mas, dada a realidade brasileira, também não ganham tão pouco. Não importa! Dêem um salário milionário à categoria, e não sairemos do pântano enquanto valores como o que orientam a estupidez acima forem influentes. Um dos fatores que conduziram o ensino brasileiro ao desastre que aí está foi a substituição do conteúdo pelo proselitismo, trabalho conduzido pelas esquerdas “sindicalentas” da educação.

Os livro mais interessante estão emprestado

Augusto Nunes, Veja online

A menção a leituras informa que a frase reproduzida no título do post não foi pinçada de alguma discurseira de Lula. Mas os autores do livro didático “Por uma vida melhor” decerto se inspiraram na oratória indigente do Exterminador do Plural para a escolha de exemplos que ajudem a ensinar aos alunos do curso fundamental que o s no fim das palavras é tão dispensável quanto um apêndice supurado.

Escrever errado está certo e é correto falar errado, sustenta a obra aprovada pelo MEC.

A lição que convida ao extermínio da sinuosa consoante é um dos muitos momentos cafajestes dessa abjeção impressa que louva “a norma popular da língua portuguesa”. Não é preciso aplicar a norma culta a concordâncias, aprendem os estudantes, porque “o fato de haver a palavra os (plural) já indica que se trata de mais de um livro”.

Assim, continuam os exemplos, merece 10 em redação quem escrever “Nós pega o peixe”.

E só podem espantar-se com um medonho “Os menino pega o peixe” os elitistas incorrigíveis. “Muita gente diz o que se deve e o que não se deve falar e escrever tomando as regras estabelecidas para norma culta como padrão de correção de todas as formas linguísticas”, lamenta um trecho da obra. Por isso, o estudante que fala errado com bastante fluência “corre o risco de ser vítima de preconceito linguístico”.

A isso foram reduzidos pelo país de Lula e Dilma os professores que efetivamente educam: não passam de “preconceituosos linguísticos”.

“Não queremos ensinar errado, mas deixar claro que cada linguagem é adequada para uma situação”, alega Heloísa Ramos, uma das autoras da afronta. Em nota oficial, o MEC assumiu sem rubores a condição de cúmplice. “O papel da escola”, avisam os acólitos de Fernando Haddad, ” não é só o de ensinar a forma culta da língua, mas também o de combater o preconceito contra os alunos que falam linguagem popular”.

A professora Heloísa sentiu-se ofendida com a perplexidade provocada pelo assassinato a sangue frio da gramática, da ortografia e da lucidez. “Não há irresponsabilidade de nossa parte”, garantiu.

Há muito mais que isso. O que houve foi um crime hediondo contra a educação, consumado com requintes de cinismo e arrogância. O Brasil vem afundando há oito anos num oceano de estupidez. Mas é a primeira vez que o governo se atreve a usar uma obra supostamente didática para difundi-la.

Poucas manifestações de elitismo são tão perversas quanto conceder aos brasileiros desvalidos o direito de nada aprender até a morte. As lições de idiotia chanceladas pelo MEC prorrogaram o prazo de validade do título: a celebração da ignorância é um insulto aos pobres que estudam.

A Era da Mediocridade já foi longe demais.

Livro didático do MEC tem erro de português

Jornal da Tarde

“Nós pega o peixe” ou “os menino pega o peixe”. Os erros gramaticais são apenas alguns encontrados no livro de língua portuguesa Por uma Vida Melhor, da Coleção Viver, Aprender – adotado pelo Ministério da Educação (MEC) e distribuído pelo Programa Nacional do Livro Didático para a Educação de Jovens e Adultos (PNLD-EJA) a 484.195 alunos de 4.236 escolas.

Na avaliação dos autores do livro, o uso da língua popular, ainda que contendo erros, é válido. Os escritores também ressaltam que, caso deixem a norma culta, os alunos podem sofrer “preconceito linguístico”.

Publicado pela Editora Global, o livro apresenta frases erradas e explicações para cada uma delas, como forma de ensinar a maneira correta de falar e escrever. “Você pode estar se perguntando: ‘Mas eu posso falar ‘os livro’?’ Claro que pode.

Mas fique atento, porque, dependendo da situação, você corre o risco de ser vítima de preconceito linguístico”, diz um dos trechos. “Muita gente diz o que se deve e o que não se deve falar e escrever, tomando as regras estabelecidas para a norma culta como padrão de correção de todas as formas linguísticas.”

Correto e adequado
Em nota divulgada pelo Ministério da Educação, a autora Heloisa Ramos justifica o conteúdo da obra. “O importante é chamar a atenção para o fato de que a ideia de correto e incorreto no uso da língua deve ser substituída pela ideia de uso da língua adequado e inadequado, dependendo da situação comunicativa.”

“Como se aprende isso? Observando, analisando, refletindo e praticando a língua em diferentes situações de comunicação”, acrescenta a autora em seu texto.

Heloisa também afirma que o livro tem como fundamento os “documentos do MEC para o ensino fundamental regular e Educação de Jovens e Adultos(EJA)”. Segundo ela, a obra leva em consideração as matrizes que estruturam o Exame Nacional de Certificação de Jovens e Adultos (Encceja).

Procurada pela reportagem, a Editora Global informou, por intermédio de sua assessoria, que é a responsável pela comercialização e pela produção do livro, mas não pelo seu conteúdo.

O país dos impuros

Demétrio Magnoli - O Globo

A divulgação das estatísticas de cor da pele do Censo 2010 revelou redução da população que se autodeclara branca, de 53,7% em 2000 para 47,7% no ano passado, e aumento paralelo da soma das populações autodeclaradas pardas e pretas, de 44,7% para 50,7%. Paula Miranda-Ribeiro, professora de demografia da UFMG, saudou a mudança: “O Brasil está mais preto, algo mais próximo da realidade. É a chamada desejabilidade social. Historicamente, pretos e pardos eram desvalorizados socialmente, o que fazia com que pretos desejassem ser pardos, e pardos, brancos. Agora, pretos e pardos quiseram se identificar assim.”

A demógrafa embute no diagnóstico duas presunções distintas, mas complementares. A primeira: os censos não refletiam a “realidade”, mas agora, aos poucos, uma verdade étnica começa a se impor. A segunda: nos censos anteriores, pretos se faziam passar por pardos e pardos se faziam passar por brancos, de modo que o Brasil conhecia um processo de ilusório “branqueamento”, finalmente revertido. Tudo se passa como se ela tivesse extraído suas conclusões de uma rigorosa análise da série censitária. De fato, porém, as conclusões derivam de uma doutrina política — e só podem sobreviver às custas do ocultamento da série estatística dos censos.

Não acredite em acadêmicos que têm uma causa: eles mentem em nome dela. Efetivamente, a proporção de “brancos” na população brasileira conhece redução incessante, de censo para censo, desde 1940. Naquele censo, os “brancos” constituíam 63,5% do total, uma proporção que caiu para 61% em 1960 e 54,2% em 1980. A acusação de que os “pardos” se transfiguravam em “brancos” é falsa: a participação desse grupo no total saltou de 21,2% em 1940 para 29,5% em 1960 e 38,8% em 1980. A demógrafa não desconhece tal informação, hoje acessível a qualquer um com acesso à internet. Mas, por razões definidas, ela prefere divulgar uma lenda sobre o “branqueamento”.

A “pardização” da sociedade brasileira não decorre apenas do antigo e crescente processo de miscigenação, mas reflete nítidas atitudes culturais. Um estudo estatístico comparativo dos censos de 1950 e 1980 investigou a reclassificação de cor, em 1980, das pessoas de mais de 30 anos — ou seja, das faixas etárias também recenseadas em 1950. Provou-se que uma significativa migração para a categoria “pardos” envolveu tanto “pretos” quanto “brancos”. Miranda-Ribeiro tem o direito de construir a hipótese de que um estigma racial impelia as pessoas a rejeitarem o rótulo “preto”. Mas, nesse caso, a honestidade obrigaria a formular a hipótese paralela de que um outro estigma racial induzia as pessoas a recusarem o rótulo “branco”. Isso, contudo, destruiria um dogma nuclear do pensamento racial.

Na margem, os dados do último censo mostram um desvio discreto em relação à trajetória histórica. A população autodeclarada “preta”, que retrocedera de 14,6% em 1940 para 5,9% em 1980, cresceu de 6,2% em 2000 para 7,6% em 2010. O movimento de reclassificação talvez seja uma resposta sociológica ao estímulo estatal dos programas de cotas raciais nas universidades e das projetadas preferências raciais no serviço público e no mercado de trabalho. Nessa hipótese, a “valorização étnica” sonhada pelos arautos das políticas de raça se traduziria por um reposicionamento tático de indivíduos que, mesmo se absolutamente indiferentes aos hinos marciais do “orgulho racial”, temem perder oportunidades concretas de ascensão social.

O desvio na margem não altera o sentido geral da narrativa censitária. O Brasil não ficou especialmente “mais preto” no decênio passado, mas insiste — há no mínimo sete décadas — em se enxergar sempre como mais “pardo”. No espelho das identidades, os brasileiros tendem a rejeitar as duas classificações polares, preferindo termos que exprimem a mistura. Na Pesquisa por Amostra de Domicílios de 1976, quando se tabularam as respostas espontâneas, 37,2% dos entrevistados optaram pela categoria de cor “morena” e suas variações diretas e outros 7,6% declararam-se “pardos”. A soma daria quase 45%, ultrapassando a categoria “brancos” (41,9%).

A mensagem censitária enviada pelos brasileiros é: somos impuros, misturados, irredutíveis às classificações inventadas pelo pensamento racial. Repetida agora, a mensagem representa uma derrota para as ONGs que agitam a bandeira das políticas de raça e para o governo que as segue. Eis o motivo pelo qual os acadêmicos que têm uma causa sentem a irrefreável compulsão de reinterpretar criativamente os resultados dos censos, mesmo violando as regras básicas das ciências sociais. É dessa compulsão que nasce a categoria “negros”, fruto da fusão arbitrária das colunas “pardos” e “pretos”.

Censos são ferramentas de políticas de poder baseadas em identidades étnicas e religiosas. Nos EUA, serviram para delimitar as vítimas da segregação racial oficial. Na África do Sul do apartheid, foram usados para produzir divisões no interior da maioria negra da população. No Líbano, sustentam o jogo de conflitos e reconciliações entre as elites muçulmanas e cristãs. Na Nigéria, no Quênia, na Costa do Marfim ajudam os clãs dirigentes a insuflar tóxicas rivalidades étnicas.

Tenho uma ideia para descontaminar nosso censo de fluidos racialistas: substituir a categoria “pardos” pelo popular termo “morenos”. Junto, com o intuito de testar a aceitação do rótulo imposto de cima para baixo pelos adoradores da bipolaridade racial, a categoria “pretos” seria substituída por “negros” ou por “afrodescendentes”. Os resultados decepcionariam os doutrinários da raça e, logo, alguém sensato daria razão a Haddock Lobo que, considerando indignas da condição humana as classificações raciais, rejeitou a inclusão de um item sobre cor ou raça no censo do Rio de Janeiro de 1849. Exatamente por isso, desconfio que minha sugestão não será nem mesmo examinada.

A democracia plugada

Gaudêncio Torquato - O Estado de São Paulo

O dado impacta: já há mais de 2 bilhões de pessoas conectadas às redes sociais eletrônicas, quase um em cada três habitantes do planeta. A cada minuto, milhares de novos internautas ingressam no circuito tecnológico da informação, enquanto a assinatura de telefones celulares já passa da marca dos 5 bilhões. O mundo está plugado.

O fenômeno suscita estudos, debates e análises nas frentes de pesquisas sobre comportamento social, mas um aspecto chama a atenção pela importância que passa a ter para o desenvolvimento político das nações. A questão pode ser posta desta maneira: a Era da Informação Total, caracterizada pela interligação das comunidades mundiais por meio das infovias da web, contribuirá para o aperfeiçoamento da democracia? Ou, se quisermos puxar a questão para o território brasileiro, o que significa a existência no País de 45 milhões de internautas, número que lhe confere posição destacada no mapa mundial das redes? Poderemos contar com a melhoria dos padrões políticos, na hipótese de que parcela acentuada do eleitorado comece a socar os primeiros tijolos de uma democracia participativa plugada na eletrônica?

Vale recordar, de início, que a política, desde eras remotas, acompanha os fios da comunicação. Um ente se agarra ao outro, na extraordinária simbiose que amalgama o poder da palavra e a força das ideias. Na Antiguidade, os ideários fluíam pelo gogó e pelo gestual dos governantes, rito de que são ícones Demóstenes (384-322 a.C.), político que venceu a gagueira forçando-se a falar com seixos na boca e se tornou o maior orador grego, e Cícero (106-43 a.C.), advogado e mestre de civismo, famoso também pelo discurso contra o conspirador Catilina e considerado o maior orador romano. Da ágora, a praça central de Atenas, e do Fórum romano, o discurso político avolumou-se, saindo do Estado-cidade para o Estado-nação e agregando força na esteira dos ciclos históricos da comunicação: a era Gutenberg, no século 15 (criação da imprensa), a Galáxia Marconi (invenção do rádio, em 1896), que impulsionou a escalada de demagogos como Hitler e Mussolini, até chegarmos ao Estado-espetáculo, adornado com as luzes televisivas, a partir dos anos 1960, e com a imagem esbelta de John Kennedy. Nesse ciclo, a estética impõe-se à semântica e os atores políticos passam a incorporar elementos dramáticos ao desempenho, redundando não raro em performances mirabolantes com a finalidade de cativar e mobilizar as massas.

A política no Estado moderno ganha operacionalidade com a implantação do governo representativo pela Constituição francesa de 1791 ("os representantes são o corpo legislativo e o rei") e o corpo social faz-se representar por um grupo de pessoas que passam a agir de acordo com a "vontade geral". O modelo, porém, passou a sofrer questionamentos. A crítica era a de que o sufrágio universal não teria sido capaz de melhorar a condição de vida de milhões de pessoas. Lançava-se ali a semente da representação de grupos específicos, derivando daí a democracia de grupos e facções, de que são exemplo, na atualidade, os Estados Unidos. Aí, o voto enraíza-se nas localidades, servindo de escudo de grupos e setores. É também de Bobbio a crítica de que a democracia não tem cumprido suas promessas, entre elas, a educação para a cidadania, a justiça para todos e a segurança social. Não sem razão, a democracia representativa atravessa tempos continuados de crise, com o desvanecimento de partidos e doutrinas, o arrefecimento das bases, o declínio dos Parlamentos, fatores que, em contraponto, contribuem para fortalecer o Poder Executivo.

É dentro dessa moldura que se encaixa a "civilização eletrônica". No vazio entre o universo político e a esfera social, emergem novos polos de poder, a partir das entidades de intermediação social e, ultimamente, das redes sociais. O portentoso aglomerado que navega na internet é um caleidoscópio do pensamento social, particularmente de segmentos que trafegam no meio da pirâmide (ou do losango, como já se descreve o formato da geometria social brasileira). Encaixa-se na metáfora da pedra jogada no meio do lago, criando marolas que se desdobram até as margens. Não se nega que a "sociedade eletrônica" vive a infância, época das primeiras descobertas e da curiosidade. Banha-se de águas lúdicas. Daí não se poder ainda falar em democracia participativa, eis que milhares de internautas se valem das redes para enviar mensagens pessoais, postar fotos, divulgar vídeos, baixar músicas, instalar aplicativos e até namorar. A matéria política, que aparece a conta-gotas, indica que o revigoramento do espírito público tem muito caminho pela frente. Por enquanto não dá para apostar no "potencial revolucionário" das tecnologias modernas da informação.

Se o engajamento político da sociedade não adere à dinâmica das redes, é porque a esfera representativa também não tem sabido delas se utilizar. O forte da tecnologia eletrônica é a capacidade de gerar interação dos elos do sistema, políticos e eleitores. O que se observa, pelo menos no caso brasileiro, é o uso da web para veiculação unilateral de mensagens, a maioria de caráter autopromocional, a revelar o "chapa-branquismo" de nossa política. Quando o sistema for usado em prol do jogo interativo, poder-se-á acreditar numa base social envolvida com a política. Essa, aliás, parece ter sido a intenção de José Serra ao criar o seu site. O tucano dispõe de tempo livre para fustigar as frentes do governo. O risco é o de ficar confinado à gaiola individualista, que, ao menos até o momento, tem caracterizado a ação dos políticos conectados ao sistema.

Dito isso, vamos à resposta para a questão inicial: as redes sociais podem, sim, vir a melhorar os padrões da política brasileira na medida em que seus participantes façam a lição de casa. A começar pela maneira de entender e operar a tecnologia da informação. Deitar nelas apenas para cochilar de pouco adiantará.

Minha casa,meu tormento

Villas-Bôas Corrêa

Um dos programas mais badalados dos dois mandatos do ex-presidente Lula foi o Minha Casa Minha Vida, que já merece a correção para o Minha Casa Meu tormento.

A demagogia tem este defeito: o seu sucesso é movido a promessas que raramente são cumpridas. O carimbo da demagogia: o presidente, governador ou prefeito, no embalo da campanha, adoça o pedido do voto prometendo mundos e fundos. Eleito e empossado, arma o circo para engambelar o eleitor.

O Minha Casa Minha Vida é mais recente e perfeito exemplo da potoca eleitoreira. E a reação popular pipocou em Salvador, a primeira da série que esta a caminho.

Num protesto pela interrupção há um ano e meio das obras do Loteamento Residencial Bom Sucesso – que hoje parece um deboche – cerca de 500 moradores do bairro Nove Esperança bloquearam a estrada que liga o Centro Industrial de Aratu à capital baiana, provocando grande engarrafamento na Região Metropolitana de Salvador.

Um manifesto porreta, no melhor estilo baiano. O loteamento prometido virou uma potoca. Os manifestantes desfilaram com faixas apelidando de “empurra-empurra” a “enrolação” das autoridades. Aliás, bem documentada: a Caixa Econômica Federal não libera os recursos para a conclusão do loteamento, porque a Companhia de Desenvolvimento Urbano do Estado da Bahia (Conder), que é o órgão estadual que executa as obras, alega que não pode executar as obras porque a CEF retém os recursos.

O projeto original do Loteamento Bom Sucesso – parece gozação – prevê a construção de 510 casas, ruas urbanizadas, áreas de lazer e outros privilégios. Mas, o que resta da enganação é apenas um cenário de abandono. Apenas 120 casas começaram a serem construídas e estão inacabadas, sem instalações elétricas ou hidráulicas. O material abandonado no mato está sendo roubado. È só o que deve estar sendo aproveitado.

A Caixa informou que vai liberar os recursos para concluir a primeira parte do investimento.

O dinheiro e o tempo perdido o gato comeu.]

Dilma renova promessas

Mas, de bravatas estamos fartos. Durou o tempo de piscar o olho, o apoio de cerca de dois mil prefeitos ao presidente da Confederação Nacional dos Municípios, Paulo Ziulkoski, que ameaçou radicalizar, caso o governo e o Congresso não resolvessem seus pleitos: a derrubada do veto do ex-presidente Lula aos royalties do petróleo para todos os estados e a liberação de R$ 1,4 bilhão de restos a pagar para obras iniciadas.

Como de praxe, a presidente Dilma foi aplaudida quando chegou acompanhada de 14 ministros e do vice Michel Temer e prometeu, como estava no programa, a liberação imediata de R$ 520 milhões, além de mais R$ 230 milhões no dia 6 de junho para obras em andamento em estados e municípios.

Outras promessas também foram aplaudidas de pé, como na opera.

A privatização cotidiana

Rolf Kuntz, Estadão.com

O brasileiro terá subido um degrau na vida quando for somente esfolado por um Fisco voraz para sustentar governos incompetentes e perdulários. Sua situação, neste momento, é pior que essa. Ele é espoliado também para sustentar os interesses privados de partidos políticos, parlamentares, aliados do governo e uma porção de lucrativas entidades – fajutas ou não – oficialmente descritas como sem fins lucrativos. Mas não há sinal de upgrade. Por enquanto, o mais provável é o destino oposto, porque é quase certa a oficialização do financiamento público de campanhas. Com isso, a política brasileira continuará tão indecente quanto é hoje e o nariz de palhaço do contribuinte ficará mais ostensivo.

O Fundo Partidário distribuirá este ano R$ 301,5 milhões. Desse total, R$ 265,3 milhões correspondem à dotação orçamentária básica. O resto provém de multas cobradas pela Justiça Eleitoral e destinadas aos partidos, como determina a Lei n.º 9.096, de setembro de 1995. A dotação básica foi inflada com R$ 100 milhões, em janeiro, em manobra da Comissão Mista de Orçamento. Esse acréscimo servirá para cobrir dívidas de campanha do ano passado. A história pode ser escandalosa e, segundo o Estado, a presidente Dilma Rousseff chegou a examinar a possibilidade de um veto e foi dissuadida por auxiliares. Mas a manobra de socorro aos partidos endividados foi facilitada por uma aberração legal, o Fundo Partidário.

Não há justificativa política ou moral para a obrigação, impingida ao contribuinte, de financiar partidos, entidades privadas. Não se trata, nesse caso, de subsídios ou auxílios concedidos com base em considerações de interesse estratégico ou destinados a sustentar serviços essenciais, como aqueles prestados pelas Santas Casas. Falar em promoção da democracia para defender essa mamata é abusar das palavras.

Partidos políticos são legalmente definidos como pessoas jurídicas de direito privado. Cidadãos podem criá-los, fundi-los e extingui-los livremente, segundo o artigo 17 da Constituição Federal. Mas, segundo o mesmo artigo, os partidos “têm direito a recursos do Fundo Partidário e acesso gratuito ao rádio e à televisão, na forma da lei”.

A garantia de dinheiro público a entidades privadas – e vinculadas à defesa de interesses corporativos, econômicos, ideológicos etc. – é uma das aberrações abrigadas na Constituição Federal. Algumas, como a limitação dos juros, no artigo 192, foram corrigidas. Outras, como a divisibilidade dos juízes, implícita no artigo 106, permanecem no texto. Segundo esse artigo, “os Tribunais Regionais Federais compõem-se de, no mínimo, sete juízes”, sendo um quinto recrutado dentre advogados com mais de dez anos de efetiva atividade, etc. Um quinto de 7 é 1,4.

Muito mais importante que essa curiosidade anatômico-aritmética é a confusão entre o público e o privado. A presença dessa geleia política na Constituição não deve ser casual. É característica da história brasileira e manifesta-se na rotina das instituições e dos organismos públicos. As chamadas “verbas compensatórias” servem a interesses particulares de senadores e deputados. São usadas, por exemplo, para o custeio de escritórios e de seus contatos com as bases eleitorais. Por que diabos deve o contribuinte financiar a carreira política de cada parlamentar? Por que não deixar cada um cuidar de suas despesas, com recursos próprios ou, talvez, com auxílio de seus aliados ou de seu partido? Esse custo lançado na conta do pagador de impostos é simplesmente mais um abuso, cometido, como tantos outros, em nome da democracia.

Sindicatos também são entidades privadas e representam interesses privados. Mas são beneficiados pelo imposto sindical, agora dividido também com as centrais, graças ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Pode-se até discutir se o imposto sindical tem algum sentido, mas o uso desse tributo, no Brasil, tem servido principalmente para alimentar distorções na organização trabalhista e para sustentar um peleguismo cada vez mais escancarado. É, novamente, dinheiro cobrado compulsoriamente e usado para distribuir benefícios a particulares – incluídos os grupos políticos aliados aos pelegos.

O empreguismo e a distribuição de postos a aliados são formas tradicionais de privatização não declarada. Seu uso se acentuou nos últimos oito anos. A novidade recente é a disputa entre o PT e os partidos da base, motivada pelo apetite excepcional exibido neste ano pelos petistas.

Pulverizar verbas orçamentárias por meio de emendas para atender a interesses eleitorais e beneficiar entidades amigas – e às vezes fraudulentas – é prática tradicional. Também nesse caso as atenções de suas excelências passam longe do interesse público. Diante de todos esses fatos, a manobra para pagar as dívidas de campanha é quase rotineira

O lobby pela redução dos direitos autorais está por trás da campanha contra Ana de Holanda

João Bosco Rabello, Estadão.com

Creative Commons é uma ONG norte-americana, que se diz sem fins lucrativos, mas defende interesses dos grandes provedores de Internet.

Oficialmente vive de doações das quais não se conhecem balanços oficiais ou relatórios de auditoria. Seu objetivo é promover o licenciamento na Internet para obras protegidas pela legislação brasileira de direitos autorais.

Ela própria explica em seu site que isso significa a redução dos ganhos dos autores. Está lá, ipsis literis, que seu objetivo é “disponibilizar opções flexíveis de licenças que garantem proteção e liberdade para artistas e autores.

“Partindo da idéia de “todos os direitos reservados” do direito autoral tradicional nós a recriamos para transformá-la em alguns direitos reservados”, explica a ONG em seu site.

O texto é insuspeito, pois está no site. Aderir, portanto, à ONG é opção de cada autor. E a maioria dos associados em sociedades representativas de autores, não quer.

Argumentam que a legislação brasileira já lhes garante a proteção e liberdade gentilmente oferecida pela CC. E não estão dispostos a flexibilizar seus direitos.

A nova ministra da Cultura, Ana de Holanda, retirou a CC do site do ministério.

Foi o que bastou para que uma rede de blogueiros e colunistas fizesse desabar sobre sua cabeça os mais duros impropérios em uma campanha pela sua saída do ministério, onde mal chegou.

A lista inclui petistas com influência no governo, como José Dirceu, o que caracteriza que, desde já, Ana de Holanda está sob fogo amigo. E artilharia pesada.

Dias atrás foi o sociólogo Emir Sader que a chamou de autista. Todos querem sua cabeça por resistir à relativização dos direitos autorais – uma daquelas teses produzidas nas conferências do PT.

Porém, a questão central é saber o que justifica a intervenção do Estado em ambiente de comercialização privado. A CC tinha seu logotipo no site oficial do ministério da Cultura desde as gestões de Gilberto Gil e de Juca Ferreira.

Ainda que fosse dever do Estado – e absolutamente não é – ter iniciativa nesse campo, para que uma entidade privada merecesse ser instrumento institucionalizado do ministério da Cultura para qualquer fim, teria de se submeter a processo de licitação.

Do contrário é privilégio comercial.

Houve quem chegasse a classificar a medida da ministra de sorrateira, tirando o logotipo da CC do site do Minc “na calada da noite”. Como se sua inserção no site não tivesse acontecido de repente, não mais que de repente.

Há algumas mentiras que sustentam a campanha contra a ministra e pela CC. A primeira, é fazer os internautas acreditarem que os autores são sórdidos e querem lhes sonegar o direito de acesso às suas obras obras na Internet. A segunda diz que vários autores já disponibilizaram suas obras, entre os quais, o próprio Gilberto Gil.

A terceira quer fazer crer que a oposição à CC é exercida pelos que têm interesses no Ecad – (Escritório Central de Arrecadação de Direito Autoral), classificado como antro de ladroagem.

Quem sonega o acesso dos internautas às obras são os provedores que não se dispõem a pagar os direitos autorais. Gilberto Gil liberou apenas uma música sua a título de incentivo à adesão que ele mesmo não fez. O Ecad é um escritório que presta serviço a sociedades de autores.

Nessa condição, está incumbido de cobrar cerca de 400 mil usuários de música, entre TVs, rádios, cinemas, bares, hotéis e eventos, que ganham com a execução de músicas.

O Ecad é auditado interna e externamente, publica seus balanços anualmente, inclusive pela Internet, e tem suas contas aprovadas em assembléia.

A campanha da CC tenta reviver o Ecad vilão dos anos 70, em pleno regime ditatorial, época em que os artistas eram desorganizados e, portanto, trapaceados por dirigentes desonestos.

Desde a criação da Sombrás, há quase 40 anos, o cenário mudou. Hoje, centenas de milhares de compositores estão reunidos em nove associações de classe, por eles fundadas e dirigidas, e o Ecad é o órgão por eles constituído para arrecadar aquilo que é a sua remuneração.

Quais doadores mantêm a ONG Creative Commons? Uma delas, a Open Society Institute, é bancada pelo megaespeculador George Soros. Entre os patrocinadores com direito a nomear diretores, estão o Google, Mozila Corporation e a Hewlewt-Packard Company. Em anos anteriores, Microsoft, Yahoo, Fundação Rockfeller.

O advogado João Carlos Muller, em entrevista recente ao Globo, lembrou que a Warner cancelou o direito do Google de acesso às obras do Youtube, porque se considerou mal remunerada.

O mesmo Google está sendo impelido a negociar com as empresas de comunicação os conteúdos jornalísticos que faz circular.

Muller compara a blogosfera a auto-pistas por onde trafegam milhões de usuários e cuja regra comercial é de quanto maior o tráfego, maior a remuneração.

Quanto mais barato o tráfego, maior ele será e, por extensão, maior será o lucro dos provedores que ganham muito bem com a publicidade que, na analogia de Muller, são outdoors espalhados por toda essa auto-pista.

Daí a flexibilização do direito autoral. Quanto mais barato ele sair para os provedores, mais acessos às obras, portanto, mais tráfego. Às custas dos autores.

Lembra Pedro Ayres, do Crônicas e Críticas da América Latina, que a legislação brasileira estabelece que ao autor da obra – musical, plástica, dramática, acadêmica ou jornalística -, caberá decidir como liberar o acesso ao que produz.

O direito autoral é combatido historicamente por aqueles que não querem remunerar quem lhes propicia ganhos. Não faz muito tempo, o empresário Paulo Octávio, flagrado no mensalão do governo Arruda, patrocinou um projeto no Senado que dispensava os hotéis do pagamento de direitos autorais das músicas executadas em seus ambientes.

Exatamente ele, não por coincidência notório proprietário de rede de hotéis. Ao tentar impor seu projeto que flexibiliza esse direito, preparatório do ambiente favorável à CC, o ex-ministro Juca Ferreira segue a mesma receita: socializar o lucro do autor. Octávio sabe-se a razão: quer de graça a música em seus hotéis. E Juca?

Lobbies desse porte costumam assustar pela sua abrangência, mas também pela cooptação de perfis físicos e jurídicos de biografias e histórias insuspeitos.

Nesse contexto, o advogado João Carlos Muller, na mesma entrevista ao Globo, desafia a Fundação Getúlio Vargas, um dos principais pólos de defesa da CC, a abrir a lista dos financiadores de seu Centro de Cidadania e Tecnologia.

Diz ele que haveria surpresas interessantíssimas. Sugere que patrocínios externos a núcleos da FGV explicam a defesa pública da CC pela instituição que não tem qualquer razão aparente para entrar nesse debate.

O direito do autor é universal e sagrado e a discussão sobre o pagamento do direito autoral na Internet está posta em termos desonestos, na medida em que a campanha da CC utiliza o usuário internauta como massa de manobra para aumentar os lucros dos provedores.

Faz do autor o vilão da história, tenta derrubar uma ministra recém-nomeada por ter defendido direitos internacionalmente reconhecidos.

Não se trata mais de uma ONG que propõe aos autores adesão a uma proposta de licenciamento de suas obras na rede mundial, mas de impor essa adesão na base da manipulação do conceito esquerda/direita. Quem não defende o que a CC “propõe” é conservador e reacionário e vice-versa.

É uma velha tática que o cineasta Cacá Diegues definiu tempos atrás como “patrulhamento ideológico” e que está posta a serviço da CC por uma rede que multiplica essa campanha de forma insana.

A cascavel e a onça

Sebastião Nery

Rio – Em 1988, Magalhães Pinto, ex-governador de Minas e ex-ministro do Exterior de Costa e Silva, desiludido por haver sonhado que seria o “lider civil” do golpe militar de 1964 e profundamente magoado por ter sido vetado como candidato a presidente da Republica depois do general Geisel, encontrou-se em São Paulo com Renato Costa Lima, líder agrícola, presidente do IBC no governo de Juscelino e ministro da Agricultura do governo de Jango, que o chamou para uma conversa :

- Magalhães, não acredite nessa gente. Eles só quiseram usar você. Eles jamais deixarão que você seja candidato e muito menos Presidente.

- Não esperava ser tratado assim pela Revolução que liderei em Minas.

Renato
Renato Costa Lima lhe contou uma historia de fazendeiro.

- Magalhães, era uma vez um caboclo que estava no meio do mato tirando lenha para seu fogão. De repente, viu uma cascavel enrodilhada junto dele, em cima da pedra, espichando a cabeça bem à altura de seu pescoço. Esfriou, parou, ficou imaginando como livrar-se da situação.

Ouviu barulho na folhagem, sentiu que era um animal grande, esperou, lá vinha uma onça enorme, de olhos iluminados, avançando para cima dele. O caboclo tomou a decisão em um segundo: pegou a cascavel pelo pescoço, deu um pulo com ela e enfiou a cabeça da cascavel atrás da onça. A onça deu varios saltos, sacudiu a floresta com um gemido, estremeceu, caiu. E a cascavel enfiada nela, como um dardo.

Magalhães
Magalhães ouviu a história, sorriu:

- E eu com isso, Renato?

- Você não, Magalhães. Outros, sim. Outros têm muito a ver com essa história.

- Mas, nela, eu sou o que, Renato?

- Você é o caboclo, Magalhães. E não deixe de ser.

Hollanda
O PT é um partido de cascavéis e de onças. Bastou um mês no ministério da Cultura para a brava artista Ana de Hollanda aprender o que é o partido do governo para o qual ela foi convidada pela presidente Dilma.

Antes de tomar posse, a ministra deveria ter lido o belo “Poema Didático” do saudoso poeta Paulo Mendes Campos, que começa assim :

- “Não vou sofrer mais sobre as armações metálicas do mundo”...

É evidente que não é a maioria do partido. Mas, para a maioria do PT que está no governo, ou vive do governo, o governo não passa de “uma armação metálica”, feita apenas de dinheiro, onde apenas o dinheiro conta.

Os que, no governo passado, viviam sugando o ministério da Cultura como sanguessugas vorazes, de repente se desesperaram quando a ministra anunciou que iria propor reformas para gastar melhor o dinheiro da cultura. A solução que logo imaginaram foi fragilizar e derrubar a ministra.

Camarotti
No “Globo”, o Gerson Camarotti resumiu a novela, dando os nomes:

1. - “O Palácio do Planalto já identificou de onde parte, dentro do PT, o forte tiroteio para desestabilizar a ministra da Cultura, Ana de Hollanda. No núcleo do governo, há o reconhecimento de que a situação é delicada, a ministra apresenta um desempenho fraco e não sai da agenda negativa. Ainda assim, a disposição da presidente Dilma é mantê-la”.

2. – “A presidente considera que os fatos levantados até agora não justificam a demissão. A saída de Ana seria uma sinalização de que Dilma errou na escolha do substituto do ex-ministro Juca Ferreira... - É preciso ter postura mais firme da área política do governo para identificar quem está fazendo o fogo amigo,alertou o líder do PT, senador Humberto Costa (PE)”

Sanguessugas
3. - “Petistas promovem ataques públicos, entre eles Marcelo Branco, ex-integrante da coordenação de campanha de Dilma, o ator José de Abreu e o deputado André Vargas (PR), secretário de Comunicação do PT”.

4.-“O governo também identificou forte mobilização do grupo do ex-ministro Juca Ferreira e do sociólogo Emir Sader, que chamou a ministra de “meio-autista” e teve a nomeação para a Casa Rui Barbosa cancelada” :

- “Está na hora de a ministra fazer mais política e mostrar sintonia com o governo. Esse é um governo de continuísmo. A ministra não pode desmobilizar tudo o que foi feito no governo Lula. Não queremos o cargo, Queremos uma política coerente de continuidade” - disse André Vargas.

5. –“O que há na Cultura é um retrocesso. A ministra negou a política cultural do ex-presidente Lula. È uma traição à militância petista e ao eleitorado – criticou José de Abreu, militante petista”. (Todos manjados)

Indignação não basta, é preciso avançar

Washington Novaes - O Estado de São Paulo

É inquietante o panorama. Acumulam-se notícias sobre ameaças de volta de inflação mais forte, por causa de fatores externos (crise econômica nos países industrializados; fuga de capitais especulativos para países com taxas de juros altas, como o nosso; aplicações em commodities, elevando seus preços) e fatores internos (demanda alta de produtos, com ganhos de renda nos setores de menor poder aquisitivo; ampliação de programas sociais, com consequências semelhantes - entre outros). Ao mesmo tempo, cresce a preocupação com as altas de preços de alimentos e o retorno a lutas sindicais pela indexação de salários. Um quadro que, se não for revertido, poderia levar até mesmo à perda das conquistas recentes na redução da miséria e da pobreza.

E neste momento só pode crescer a preocupação com o quadro institucional, os três Poderes da República mergulhados em notícias que levam ou podem levar a população - ou grandes setores - à descrença nas instituições e a reações. E aí se englobam Legislativo, Executivo e Judiciário.

Pode-se começar pelo primeiro. Que reação social pode haver à notícia de que alguns dos nomes mais envolvidos em escândalos passam a integrar o Conselho de Ética do Senado (Agência Estado, 27/4)? Ou às informações de que empresas - algumas delas entre as maiores, definidoras de muitas políticas e obras - contribuíram em 2010 com 76,8% (R$ 293,3 milhões) do Fundo Partidário, que poderia ter recebido, no máximo, R$ 151,1 milhões (Estado, 28/4)? Ou que muitos dos parlamentares que mais defenderam mudanças no Código Florestal, para anistiar desmatadores e ocupantes de áreas interditadas, estão entre aqueles que maiores multas haviam recebido?

Nem é preciso falar em escândalos em torno de viagens e passagens de parlamentares, nepotismo, sessões secretas para aprovar o que o eleitorado condenaria. Mas pode-se lembrar o passe de mágica com que o Senado Federal mudou o conteúdo do projeto da Lei da Ficha Limpa - para livrar a cara de tanta gente - e o mandou para a sanção presidencial sem retornar à Câmara dos Deputados, como exige a legislação. Igual procedimento, também no Senado, suprimiu do projeto da lei da Política Nacional de Resíduos Sólidos a exigência de que a incineração do lixo só poderia ser admitida se não houvesse nenhuma outra possibilidade (redução do lixo, reaproveitamento, reciclagem). E também o mandou direto para a sanção presidencial, sem retorno à Câmara.

Pode-se passar ao Judiciário, no qual o inacreditável acúmulo de processos leva a que só ao fim de muitos anos sejam julgadas questões vitais para a sociedade ou para as pessoas. Como a Lei da Ficha Limpa, criando desnecessária confusão no quadro de candidatos às vésperas das eleições de 2010 - que poderá repetir-se em 2012. Ou que não se tomem providências para apressar o julgamento do processo do "mensalão". Não é preciso falar nas confusões em torno de vencimentos e vantagens nesse âmbito. Mas é preciso dizer que a lentidão, a falta de providências contribuem, juntamente com o descaso do Executivo, para o quadro de superlotação de presídios. Sem falar que o princípio da reeducação do presidiário passou a ser fantasia de outros séculos.

Na área do Executivo, raro é o dia em que o Tribunal de Contas da União ou outro órgão não impugne licitações "fajutas", com sobrepreços evidentes que vão onerar o contribuinte de impostos. Isso vale inclusive para uma das maiores aberrações, que é a inacreditável situação dos aeroportos, às vésperas de Copa do Mundo de 2014, em que indícios indesejáveis de irregularidades também já aparecem no noticiário. Esta semana, este jornal informou que administradores públicos do Estado de São Paulo são acusados de causar prejuízos de R$ 2,6 bilhões aos cofres governamentais. E quem lê as informações sobre o projeto de reforma florestal se abisma ao ver que os órgãos ambientais deixaram que a reserva legal obrigatória nas propriedades se transformasse em mera ficção - nunca ninguém vai ver se existe; quando vai e multa, ela não é paga.

A área de energia continua à espera de que o governo federal promova uma discussão competente sobre a matriz energética - e não continue insistindo em seu projeto de novas usinas nucleares e/ou mega-hidrelétricas na Amazônia, em projetos recheados de furos -, quase se esquecendo das várias energias renováveis. E as cidades não sabem mais o que pensar em matéria de segurança e crime organizado. Nem mesmo o que fazer para evitar que os jovens até 24 anos, as maiores vítimas do desemprego, sejam também as maiores vítimas de homicídios.

Tantas coisas que induzem à descrença nas instituições podem tornar-se muito graves em momentos de incerteza como o que se começa a reviver. Ou de crise mesmo.

A sociedade brasileira, diante dos quadros até aqui sintetizados, vive no que tem sido chamado neste espaço de "retórica da indignação". Indigna-se com os escândalos, com a incompetência, com o descaso diante de suas necessidades. Mas nada faz. Em parte, porque muitas pessoas que se indignam também sonegam impostos, furam filas, subornam o guarda. Em parte porque não sabem o que fazer.

É preciso, então, que a sociedade aprenda a se organizar. A discutir as suas questões - se necessário, com a ajuda de órgãos como o Ministério Público e outros - e seja capaz de transformá-las em propostas, que leve para o campo da política e o terreno eleitoral.

Fora daí não parece haver solução. Fatalmente se irá de espasmo em espasmo, na hora de questões mais graves ou mais escandalosas. Para em seguida retomar o caminho da "retórica da indignação", ineficaz e paralisante.

Mas também é prudente que cada um dos Poderes reveja seu quadro. Que os partidos políticos sejam capazes de formular novas propostas eleitorais.

Não é preciso esperar que o pior aconteça.

A vaidade, a felicidade e a maldade

Percival Puggina

Poucas coisas tão postiças quanto a sabedoria dos intelectos vaidosos. E poucos tão infelizes quanto os que pretendem beber a felicidade no próprio copo, de canudinho, como refresco.

Comecemos pelos primeiros, pelos enfatuados do próprio saber. Para eles, todo espelho é mágico e lhes atira beijos. Lambem seus títulos. Devoram as próprias palavras após pronunciá-las para que nada se perca de seu sabor. E vão engordando de lipídios um orgulho autógeno, encorpado pelas lisonjas alheias e pelas que generosamente dedicam a si mesmos.

De quem falo? Bem, pessoas assim estão em toda parte. Não posso dizer que formam um exército numeroso porque não há exército composto apenas por generais de quatro estrelas. Andam dispersos, portanto. Mas se há um lugar onde, por dever de ofício, se reúnem expoentes de tal conduta, esse lugar é o STF. Chega a ser divertido assisti-los desde a perspectiva pela qual eles mesmos se veem. Aferi-los pela infinita régua com que se medem. Apreciar o esforço que fazem para ostentar sabedoria. As frases lhes saem lustradas, polidas como corneta de desfile. Não que isso seja mau em si, mas chama atenção como parte da grande encenação das vaidades presentes. Imagino que por vezes se saúdem assim: "E sua vaidade como vai, excelência?". E o outro retruca, cortesmente: "Bem, bem, recuperando-se do último voto vencido, mas as perspectivas são boas, obrigado ministro".

Nada mais próprio do que a palavra "corte" para designar aquele colegiado (cuja importância para a democracia e o Estado de Direito - esclareço porque não quero ser mal entendido - ergue-se acima dessas fragilidades humanas). É uma corte. É uma corte onde todos exercem, sobre o Direito a que estamos submetidos, uma soberania irrestrita, que flutua em rapapés e infla os egos à beira do ponto de ruptura.

Se há alguém, ali, cuja vaidade consegue sobressair-se dentre todas, esse é o ministro Marco Aurélio Mello. Imagino o mal-estar que cause entre os demais quando se põe a lecionar-lhes. No plenário ele é o Verbo. Sua excelência sequer fala como as pessoas comuns falam. As palavras lhe saem arquejadas, numa espécie de sopro divino, criador, forma verbal das cintilações do astro rei da constelação. Ante um brilho desses só se chega usando óculos escuros e protetor solar.

Pois bem, quando os ministros sentaram para decidir sobre direitos das "uniões homoafetivas", Marco Aurélio Mello resolveu atacar a Igreja. Foi até a Inquisição, passeou sobre os diferentes doutrinadores a respeito da relação entre a Moral e o Direito - círculos concêntricos, círculos secantes, mínimo ético e por aí passeou, sempre buscando deslegitimar a influência religiosa sobre a moral social e sobre o Direito. Por fim, abraçou-se à tese de uma desembargadora gaúcha, para quem a família formada por homem, mulher e prole é coisa voltada para o patrimônio e causa da infelicidade universal. No viés proposto, família é qualquer outro arranjo possível, enquanto perdurar a felicidade de cada um. Muitos doutrinadores da zorra geral chamam a essa coisa transitória de "família eudemonística" (eudemonia é felicidade em grego).

Pergunto ao senso comum do leitor: mas não é exatamente essa visão egoísta, a busca de uma felicidade que transforma os outros em bens de consumo a causa determinante da infelicidade geral e das desagregações familiares? Pergunto a pais e mães neste dia das mães: pode existir família onde não exista capacidade de renúncia e de sacrifício? Não é esse egoísmo deslavado que arrasta ao abandono e ao desabrigo tantas mães cujos maridos foram buscar "felicidade" em outros ninhos? Os membros de nossa Suprema Corte talvez se bastem com a própria vaidade. Mas nem a vaidade, nem a fruição da felicidade como um refresco tomado em canudinho são capazes de gerar conteúdos válidos para orientar a harmonia social aqui onde nós, os humildes cidadãos, levamos responsavelmente nossa vida, nossos deveres e nossos amores. Foi-lhes dado, senhores, o poder para decidir o que bem entendam. Decidam, mas não ensinem o mal ao povo.

A celebração da ignorância é um insulto aos pobres que estudam

Augusto Nunes, Veja online

“Eu cheguei à Presidência mesmo sem ter um curso superior”, repetiu Lula a frase que nasceu como pedido de desculpas, tornou-se desafio, foi promovida a motivo de orgulho e acabou virando refrão do hino à ignorância. ”Talvez até quando eu deixar a Presidência possa até cursar uma universidade”, disse nesta terça-feira o único chefe de governo do mundo que não sabe escrever e nunca leu um livro.

Desse perigo estão livres os professores universitários. Lula evita livros e cadernos como o Superman evita a kriptonita. Longe do trabalho duro há 30 anos, não estudou porque não quis. Tempo teve de sobra. Vai sobrar mais tempo ainda quando sair do Planalto, mas continua sobrando preguiça. E ele entende que foi formalmente dispensado de aprender qualquer coisa pelos companheiros que sabem juntar sujeito e predicado.

A lastimável formação escolar foi tratada como pecado venial até que o crítico literário Antonio Cândido ensinou que, dependendo do portador, ignorância é virtude. “Essa história de despreparo é bobagem”, decretou há dois anos, entre um ensaio e a leitura de um clássico, o professor que não perdoava sequer cacófatos. ”Lula tem uma poderosa inteligência e uma capacidade extraordinária de absorver qualquer fonte de ensinamento que existe em volta dele ─ viajando pelo país, conversando com o povo, convivendo com os intelectuais”.

Amigo do fenômeno há 20 anos, Antônio Cândido descobriu um doutor de nascença. ”Nunca vi Lula ser um papagaio de ninguém”, garantiu. “Nunca vi Lula repetir o que ouviu. Ele tem uma grande capacidade de reelaborar o que aprende. E isso é muito importante num líder”. O líder passou a reelaborar o que aprende com tal desembaraço que anda dando lições a quem sabe.

Em junho, numa entrevista à RBS, explicou que a ministra Ellen Gracie não conseguiu o emprego no Exterior porque não estudou como deveria. “Mas ela é moça, ainda tem tempo”, consolou-a. Em julho, enquadrou os críticos do programa que provocou o sumiço da miséria, o extermínio da fome e a promoção de todos os pobres a brasileiros da classe média.

“Alguns dizem assim: o Bolsa Família é uma esmola, é assistencialismo, é demagogia e vai por aí afora”, decolou o exterminador de plurais. “Tem gente tão imbecil, tão ignorante, que ainda fala ‘o Bolsa Família é pra deixá as pessoas preguiçosa porque quem recebe não quer mais trabalhá”. Quem discorda do presidente que ignora a existência da fronteira entre o Brasil e a Bolívia, reincidiu, ”é uma pessoa ignorante ou uma pessoa de má-fé ou uma pessoa que não conhece o povo brasileiro”.

Povo é com ele, gabou-se outra vez nesta terça-feira. No meio da aula, recomendou o estudo de português. ”É muito importante para as crianças não falarem menas laranjas, como eu”, exemplificou. Mas não tão importante assim: ”Às vezes, o português correto as pessoas nem entendem. Entendem o menas que eu falo”.

Mesmo os que não se expressam corretamente entendem quem fala menos. Não falta inteligência ao povo. Falta escola. Falta educação. Falta gente letrada com disposição e coragem para corrigir erros cometidos por adultos que nasceram pobres. Lula deixou de dizer menas quando alguém lhe ensinou que a palavra não existe. O exemplo que invocou foi apenas outra esperteza. Poucas manifestações de elitismo são tão perversas quanto conceder a quem nasce pobre o direito de nada aprender até a morte.

Milhões de meninos muito mais pobres do que Lula foi enfrentam carências desoladoras para assimilar conhecimentos. A celebração da ignorância é sobretudo um insulto aos pobres que estudam. É também uma agressão aos homens que sabem. Num Brasil pelo avesso, os que aprenderam português logo terão de pedir licença aos analfabetos para expressar-se corretamente, e os que estudaram em Harvard esconderão o diploma no sótão.

A boa formação intelectual não transforma um governante em bom presidente. Mas quem se orgulha da formação indigente e despreza o conhecimento só se candidata a estadista por não saber o que é isso. Lula será apenas outra má lembrança destes tempos estranhos.

Tocar na banda

Maria Helena Rubinato Rodrigues de Sousa – Blog do Noblat

Quantos são os cantores e compositores no Brasil? Alguém sabe? Já foram cadastrados? Pergunto porque de vez em quando leio ou ouço afirmações como esta: “Cantores e compositores defendem criação de órgão para fiscalizar Ecad”.

Não sou cantora nem compositora, mas sou parte interessada. Meu pai era compositor e a herança maior que me deixou foram duas: curiosidade e músicas que, sem jamegão oficial e sem marqueteiro baiano nem nada, fazem parte do cancioneiro sentimental do brasileiro há mais de 50 anos.

Há quem critique os filhos de músicos por receberem os direitos autorais herdados dos pais.

A esses eu envio daqui uma pergunta: se meu pai fosse confeiteiro de mariolas, eu poderia herdar, sem crítica de vocês, a fábrica de mariolas, não é?

E se ele, com os royalties que recebeu sobre suas músicas, tivesse comprado uma birosca para vender cigarros Iolanda, vocês certamente achariam normal eu gerenciar a birosca, verdade?

Mas ele não era comerciante, nem político. Era um simples compositor de música popular brasileira e preferiu cantar as mariolas e o cigarro Iolanda num samba em que lastimava o fato de que Tocar na Banda, aqui no Brasil, só rendia mesmo duas mariola e um cigarro Iolanda.

Hoje não é bem assim... São muitos os nossos compositores e cantores que vivem nababescamente.

Naturalmente, são autores de músicas exponenciais e que ficarão para todo o sempre.

Seus shows são espetáculos de som e luz como os de Versailles. Um simples ring de box como Frank Sinatra usou em seu Main Event, é impensável, não faria jus ao talento, à voz, nem ao magnífico repertório que apresentam.

O Adoniran não conseguiria lotar o Madison Square Garden, sei eu. Mas suas músicas lotam, há quase seis anos, duas noites por semana, o Bar Brahma, que é o Canecão paulistano. E muitos bares por este Brasil.

Como em todos os locais onde há música ao vivo, uma planilha é preenchida e essa planilha é entregue ao ECAD. Que cobra de acordo com as planilhas que recebe. Se quem preenche a planilha é correto, o ECAD cobra e distribui. Caso contrário...

Menciono tudo isso para lembrar, a quem não é do ramo, que há muito interesse envolvendo o ECAD. As quantias em jogo são fantásticas. E isso abriu um serpentário...

Ana de Holanda foi uma excelente escolha. Talvez precisasse de uma assessoria mais eficiente. Mas é mulher correta e agirá de acordo. Creio que ela não contava é com a desenfreada ambição do PT.

Se vocês olharem de pertinho os olhos deles, sob a luz do sol, verão nitidamente o cifrão refletido lá bem no fundo.

O que eles esquecem, é que de um relógio pro outro, as horas vareiam...

A pirataria dos provedores

João Bosco Rabello, Estadão.com


Não há um pingo de indignação no PT com as diárias indevidas recebidas pela ministra da Cultura Ana de Holanda.

Até porque seria preciso que o partido se mobilizasse na mesma proporção e intensidade em relação a outros ministros, inclusive da legenda, que cometeram o mesmo erro.

O episódio entra aqui, portanto, como combustível para aumentar a pressão pela demissão de Ana.

Que ousou interromper o processo de reforma do direito autoral de seu antecessor, Juca Ferreira, por se basear na redução do direito do autor, único juiz de sua obra.

Esse é o motivo concreto para a mais desproporcional caça a um titular da Cultura já vista, cuja cabeça começou a ser cobrada antes mesmo que pudesse conhecer o orçamento da Pasta.

E qual é o mérito dessa questão? Tente-se imaginar um comerciante que consegue apoio do Estado para anistiá-lo dos seus débitos com os fornecedores dos produtos que vende.

É o sonho de qualquer um: pagar menos, ou nada, para ter seu lucro aumentado, ou de 100%. Um sonho pessoal, egoísta, e inviável no sistema capitalista.

Pois é o que tenta impor a corrente que encontrou na redução do ganho do autor a solução para que os consumidores da Internet acessem as obras artísticas sem qualquer ônus.

O autor é fornecedor, o internauta é consumidor e os provedores da globosfera são os comerciantes. A quem, portanto, cabe o ônus que o consumidor, induzido por essa campanha, debita ao autor.

Tem-se, pois, a união entre o comerciante e o consumidor para que o fornecedor entregue o produto com prejuízo. Uma associação estimulada pelo PT que se socorre do Estado para impô-la goela abaixo do autor.

O capitalista maior aí são os grandes provedores que pretendem custos menores e lucros maiores, conta a ser paga pelo autor. E não só em relação a obras artísticas, mas também com outros conteúdos – literários, científicos jornalísticos.

Quem antes não tinha acesso aos CDs nas lojas do ramo e os comprava no mercado paralelo, consolidando a pirataria, agora torce para que a pirataria se oficialize.

O que teoricamente seria possível já que o principal opositor do câmbio negro – o financiador da mercadoria, aquele que promove campanhas e alertas antes da exibição dos filmes nos cinemas – agora o patrocina.

Mas o Estado não tem poder para determinar que o autor abra mão de seus direitos, o que torna o projeto de Juca Ferreira natimorto, por inconstitucional.

A prevalecer a corrente Juca Ferreira, tem-se, então, o método secular da máfia, que cobrava taxa de segurança para não inviabilizar o comércio.

Não por outra razão, a carta enviada por militantes do PT à presidente Dilma Rousseff, pedindo a cabeça da ministra, tem origem na chamada ala digital do partido, aquela que se acha com poderes ilimitados para cobrar a fatura pela participação na campanha presidencial vitoriosa.

Essa corrente considera que a Internet é soberana e o acesso a ela se impõe acima mesmo dos direitos dos indivíduos, que são protegidos pela Constituição. Em nome das redes sociais, às favas os direitos.

O mais interessante é que a maioria dos petistas que movimentam essa rede é beneficiária de pagamento direto ou indireto pelo trabalho de mobilização que executa.

Muitos estão em ministérios com funções específicas de atuar nas redes sociais, outros estão em blogs que recebem, formal ou informalmente, do governo para se manter (uma conta, esta sim, merecedora de uma CPI para desvendá-la), e outros são personagens do mundo cultural que trocaram a cena artística pelos ganhos de produção que indiretamente auferem dessa operação que, ao fim, conspira contra a criação.

Mas querem que o autor trabalhe de graça.

As críticas feitas à ministra fora do contexto do direito autoral – tais como o congelamento de verbas federais para a cultura, a gestão do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional e outras mencionadas no encontro de São Paulo, carecem de consistência por uma simples razão: a Ana não foi permitido trabalhar até agora.

É uma velha estratégia: inviabiliza-se, pela agitação, que a autoridade estabeleça uma rotina, monte sua equipe e tenha, assim como os presidentes, seu prazo para mostrar serviço. Depois cobra-se pelo que não se deixou que fizesse.

Resta o Ecad (Escritório Central de Arrecadação de Direitos Autorais) agora alvo de uma tentativa de CPI por um deputado do Psol. Um equívoco que serve ainda mais para aumentar a confusão.

O Ecad é entidade privada, que gere recursos e interesses privados e os que lhe outorgaram poder administrativo para arrecadar têm ao seu dispor o Poder Judiciário, ou mesmo a polícia, para reclamar seus direitos.

O que o governo tem a ver com isso? Em nome da inclusão cultural, o PT acha que a intervenção se justifica.

Se Ana de Holanda saísse amanhã do ministério, o PT abortaria a CPI.

Geleia geral

Nelson Motta - O Estado de São Paulo

Num baile de carnaval carioca, Regina Casé foi entrevistada por um repórter de TV e reclamou: "Pô, aqui todo mundo é atriz-modelo-manequim? E as piranhas, onde estão as piranhas ?"

O baile político está parecido. Todo mundo quer dançar com o governo - a esquerda, a direita e o centro -, invertendo a clássica piada dos anos 60 em que o anarquista dizia "Hay gobierno? Soy contra!".

Agora todo mundo quer ser a favor, principalmente de si mesmo. Oficialmente será sempre pela governabilidade, um eufemismo nacional para custo-benefício político. Será que o Brasil vai surpreender o mundo com a novidade da democracia sem oposição?

Quem não quer desenvolvimento econômico com justiça social e sustentabilidade ecológica? Quem pode ser contra o combate à fome, à criminalidade e à inflação? A valorização do funcionalismo público, dos professores e dos policiais? Os investimentos em educação, saúde e infraestrutura, a harmonização entre capital e trabalho?

O óbvio ululante de Nelson Rodrigues é o que une todos os grandes partidos e seus programas. É só uma questão de estilo.

Parece que, no fundo, a grande diferença é que uns querem mais poder para o Estado e outros menos. E todos acham que só a sua turma sabe governar.

Na Itália civilizada e democrática, a razzia que a Operação Mãos Limpas fez na cena política devastou o quadro partidário e abriu um vazio de poder para Berlusconi e sua gangue, que desmoralizaram ou cooptaram os adversários.

O devasso Berlusca está caindo de podre, mas não há alternativas políticas viáveis a ele, por falta de líderes da oposição.

No Brasil hiperpresidencialista e sub-republicano, prefeitos dizem que ser oposição é quase um suicídio administrativo, um atentado contra os interesses da população.

Tanto serve de justificativa cínica para os picaretas como expressão das reais dificuldades dos honestos. O que une os melhores e os piores é a expectativa de poder para o seu grupo.

Mais um pouco e podemos chegar a uma versão 2.0 do PRI mexicano, que ficou 71 anos no poder e era o modelo político que a ditadura sonhava para a Arena que Sarney presidia.

O País dos Bolsonaros

Carlos Brickmann, Brickmann & Associados Comunicação

O deputado Jair Bolsonaro, o próprio, do PP fluminense, usa verba pública para imprimir panfletos contra as garantias dos direitos dos homossexuais. Bolsonaro foi eleito para manifestar sua opinião, é inviolável no exercício do seu mandato, concordemos ou não com o que diz. Mas com dinheiro público?

O humorista Danilo Bolsonaro Gentili não usou dinheiro público nem é contra os gays. Mas usou a exposição que teve por uso de uma concessão pública para fazer piadas no Twitter com as vítimas do nazismo. Qual o motivo para vilipendiar os mortos em campos de concentração? Simples: entre os 55 mil habitantes do bairro planejado de Higienópolis, em São Paulo, 3.500 se manifestaram contra a construção de uma estação do Metrô. Uma pessoa disse que o Metrô traria ao bairro pessoas com as quais não gostaria de conviver. Daí a conclusão de que o bairro inteiro era contra pobres. Como em Higienópolis há muitos judeus (e muitos árabes, muitos japoneses, muitos italianos), Danilo Bolsonaro Gentili resolveu fazer piada sobre as mortes em campos de concentração.

Bolsonaro e Danilo Bolsonaro Gentili não estão sós: aproveitando o espaço oferecido por bolsonaros de bolso, colunistas que lavam as mãos, alguns bolsonaros saíram do armário louvando Hitler e o nazismo - isso quando gangues neonazistas de São Paulo atacam nas ruas homossexuais e nordestinos.

Não é hora de ficar quieto. Para Bolsonaro, Comissão de Ética. Para os demais bolsonaros, o artigo 20 da Lei 7.716, que pune racismo com prisão e multa.

O Bolsonarão
De Bolsonaro, que este colunista não entende por que ainda não foi submetido ao Conselho de Ética, louve-se a amplitude de seus ideais políticos. Já foi do Partido Democrata Cristão, do PPR, PPB, PTB, PFL; e agora é do PP.

O bolsonaro suplicante
Danilo Bolsonaro Gentili, assustado com a reação, pediu desculpas e pôs-se "à disposição da comunidade judaica". Mas já devia estar à disposição da Justiça.

Os outros bolsonaros
Não dá para esquecer Rafinha Bolsonaro Bastos, do mesmo programa de TV em que atua Danilo Bolsonaro Gentili, que publicamente elogia o crime de estupro. Segundo diz, só mulher feia é estuprada e deveria agradecer ao estuprador. Apologia ao crime também é crime.

Em busca do osso
Este colunista poucas vezes viu uma campanha tão violenta (e pouco ética) como a que se move contra a ministra da Cultura, Ana de Hollanda. E é sempre "fogo amigo", movido pelos cumpanhêro, e nada tem a ver com o desempenho ou as idéias da ministra: o que se quer, e isso fica claro a cada reunião, é o cargo dela. Parece até coisa tucana: são os aliados que divulgam histórias como a das diárias indevidamente recebidas, ou mudanças nas linhas traçadas por seu antecessor, Juca Ferreira, onde já se viu mudar coisas do tempo de Lula, que devem ser veneradas e louvadas como se sagradas fossem?

Se Ana está ou não trabalhando bem, isso não importa: o caso é que ela ocupa o cargo que outros querem.

Não gosto, não existe
Em 1870, irritado com o embaixador britânico, o ditador boliviano Mariano Melgarejo o expulsou de maneira peculiar: amarrou-o e colocou-o de costas num burro, a caminho da fronteira. A rainha Victoria determinou à Esquadra britânica que bombardeasse a Bolívia. Não era possível: a Bolívia não tinha litoral. Sua Majestade determinou então que a Bolívia não mais existia e tirou-a do mapa.

O secretário da Segurança de São Paulo, Antônio Ferreira Pinto, resolveu do mesmo jeito o problema do PCC, Primeiro Comando da Capital, grupo criminoso que, da prisão, comanda o crime organizado no Estado: decretou que o PCC já não existe. Segundo diz, só há hoje uns 30 integrantes do PCC.

Talvez fizesse bem ao secretário falar com parentes de presos. Eles sabem.

Assim é se lhe parece
O secretário resolveu também o problema recorrente de bandidos que dinamitam caixas eletrônicos: "É o crime da moda". Há gente, na Polícia e fora dela, pedindo proteção especial para os caixas.

Estão errados: nas grandes cidades européias e americanas, o caixa eletrônico fica na rua. O que é preciso é dar segurança à população. Se a população estiver protegida, os caixas também estarão.

Novo de novo
O PMDB anuncia que está se renovando. Recebe dois políticos que ainda não passaram por lá: o presidente da FIESP, Paulo Skaf, e Gabriel Chalita, uma das poucas pessoas que já escreveram mais livros do que têm de anos de vida. Ambos saíram do PSB. Chalita, antes de passar pelo PSB, foi do PSDB, de seu melhor amigo e guru político, o governador tucano Geraldo Alckmin.