segunda-feira, julho 22, 2013

Vai passar

J.R.Guzzo
Revista VEJA

“Ao povão, nessa fantasia, fica reservado o papel dos barões famintos e napoleões retintos no samba Vai Passar”, de Chico Buarque.”

Nunca se viu até hoje o caso de dois cachorros que tenham trocado, de livre e espontânea vontade, o osso de um pelo osso do outro, ensina Adam Smith. Ninguém como o velho Smith para dizer certas verdades. No caso, ele falava do livre-comércio – uma característica exclusiva do ser humano, assim, como a palavra, a escrita e outras coisas que distinguem  os homens dos animais. O pensador escocês que informou ao mundo, mais de 200 anos atrás, que o capitalismo existia. Explicou como funcionava e demonstrou por que era indispensável para a revolução racional da sociedade, ia direto ao ponto em matéria de economia – mas sua clareza quando transportada para a política. Nenhum partido, em nenhuma democracia  do mundo, entra numa eleição para perder.  Não quer trocar seu osso com ninguém, quando está no governo – e quando está fora não quer trocar nada, e sim tirar o osso de que está dentro. 

O Brasil, é claro, vive segundo essa mesma regra. Mas a história aqui, é muito mais quente, porque o osso em disputa é muito maior. Perder eleição uma lá fora é ruim – mas no fim é apenas isso, uma derrota. Aqui não. Se o PT  perder a eleição presidencial de 2014, seja com a presidente Dilma Rousseff ou com o ex-presidente Lula, vai haver um terremoto na vida pessoal de dezenas de milhares de pessoas, possivelmente muito mais, a começar por seus bolsos. No caso, iriam embora o governo, os anéis e os dedos.

É disso, e só disso, que se trata. Fala-se uma enormidade, e cada vez mais, sobre o “quadro sucessório”; todo mundo “trabalha com a hipótese” de alguma coisa. (É uma das curiosidades da nossa atual linguagem política; aboliu-se o verbo “pensar”.  Hoje o indivíduo não pensa – só “trabalha com a hipótese”).  Mas o está valendo mesmo, no jogo a dinheiro, é a corrida de uma multidão de gente para salvar o próprio couro. Até dois ou  três meses  atrás, esse era um problema inexistentes: o governo tinha a certeza de que Dilma “estava eleita já no primeiro turno“.  Mas a coisa mudou de repente, e o medo de perder invadiu o PT e a base aliada. Já apareceu um “volta, Lula”, tramado no escuro  por ele mesmo, para desmanchar a candidatura de Dilma à reeleição; e os aliados, assim que sentiram o cheirinho de pólvora no ar, voltaram ao bazar de compra e venda de seu apoio. 

As perdas materiais, aí, envolvem gente que não acaba mais. Quantos serão? É difícil saber ao certo. Entram, logo de cara, 39 ministros que pretendem estar no próximo governo, perto de 25.000 funcionários de “confiança” nomeados livremente pela presidente e sua turma – aos quais se deve somar os empregos  que podem dar nas estatais.  Muitos desses cargos são coisa de cachorro grande: a prova mais recente  foi a batalha que o senador Fernando Collor (“aliado”) travou para substituir os ocupantes de dois empregos na Petrobrás por gente sua. Brigou e levou: Dilma, que já não tinha escolhido os dois que estavam lá, também não escolheu os seus substitutos, em mais um belo retrato de como funciona o seu governo. 

Some-se a isso a grossa maioria dos 594 deputados federais  e senadores, e a miudeza política que sobrevive nos subúrbios mais distantes do poder central.  Não se pode esquecer, é claro, todo o mundo multibilionário e opaco dos fundos de pensão gerenciados pelo PT e chefes sindicais – adicione-se a eles, aliás, a nata do mundo sindical petista.  Multiplique-se, enfim, tudo isso  pelo número de parentes, amigos, amantes, sócios, etc. dessa turma, e já estamos falando numa quantidade de gente na casa dos seis algarismos.  O leitor fica convidado a fazer sua conta pessoal.

Falta acrescentar, ainda, os privilégios dos donos do poder, e que valem tanto quanto dinheiro sonante.  Um caso, entre milhares,  ajuda a entender com perfeita clareza por que é indispensável, para o PT e a base aliada, manter o governo em 2014. Trata-se da última obra que o  governador Sérgio Cabral, do Rio de Janeiro,  colocou em sua biografia. Cabral, que h´pa anos vive ajoelhado diante de Lula,  mandou buscar seu cachorro “Juquinha”, em sua casa de praia ma Mangaratiba, num Agusta AW 109 Grand New que faz parte da frota de sete helicópteros do governo estadual, mantidos ao custo estimado de 10 milhões de reais por ano.  República? Está mais para a corte de Maria Antonieta tropical. Ao povão do Rio, nessa fantasia, fica reservado o papel dos barões famintos e napoleões retintos que desfilam no samba “Vai Passar”, de Chico Buarque. 

Talvez esteja aí, no fundo, o problema real da política brasileira de hoje. Se o PT cair fora, quem vai mandar o helicóptero buscar “Juquinha” em Mangaratiba?

Um governo atolado vai desemperrar a economia?

Rolf Kuntz
O Estado de S.Paulo

Tiririca estava errado. No Brasil, sempre dá para piorar, como têm provado com notável diligência a impropriamente chamada classe política e o governo da presidente Dilma Rousseff. Qual a distância, hoje, entre otimismo e pessimismo nas previsões econômicas? A economia brasileira crescerá em média 3,2% ao ano entre 2014 e 2018, segundo a nova bola de cristal operada em parceria pela Fundação Getúlio Vargas (FGV) e pela instituição de pesquisas The Conference Board, o indicador antecedente composto. No discurso oficial, um crescimento inferior a 4% ou 5% ao ano jamais foi admitido, até há pouco tempo, como padrão normal para o Brasil. Poderia ocorrer como consequência de choques externos ou em fases de ajuste muito forte, mas sempre como situação excepcional. Hoje, até uma expansão pouco superior a 3% por vários anos pode parecer improvável, quando se considera a crise de produtividade da economia nacional.

Não há cálculo seguro do potencial de crescimento do País, mas os números estimados vêm caindo nos últimos anos - da faixa de 3,5% a 4% até há pouco tempo para algo entre 2,5% e 3% nas últimas avaliações. O número de 2,5% foi indicado esta semana pela economista Alessandra Ribeiro, da consultoria Tendências, segundo o jornal Valor.

Calcular o produto potencial pode ser muito complicado, mas, apesar disso, economistas e formuladores de políticas têm excelentes motivos para levar em conta esse conceito. A existência de limites tem sido mostrada amplamente pela experiência. Pode-se ultrapassá-los de vez em quando, mas insistir na aventura acaba normalmente em desastre. Inflação e desequilíbrio externo são consequências bem conhecidas e muito frequentes na História do Brasil.

Inflação e desajuste crescente no balanço de pagamentos já estão presentes no cenário brasileiro, apesar do crescimento pífio dos últimos dois anos e meio. Ninguém deveria iludir-se com o recuo de alguns índices desde o mês passado. A redução dos preços dos alimentos tem efeito passageiro na formação dos indicadores, assim como a redução das tarifas de transporte coletivo. Grandes fatores inflacionários, como o desarranjo fiscal, a expansão do crédito e os aumentos salariais acima dos ganhos de produtividade, foram apontados, mais uma vez, na ata da última reunião do Comitê de Política Monetária (Copom), divulgada na quinta-feira, A ata destoou claramente do discurso presidencial do dia anterior.

Os autores do texto, no entanto, apontaram a possibilidade de um arrefecimento da demanda se nada for feito para reverter a tempo a crise de confiança do setor empresarial e das famílias. Por enquanto, "a demanda doméstica tende a se apresentar relativamente robusta, especialmente o consumo das famílias", segundo a ata. Mas os sinais de alerta já estão acesos. O texto contém o suficiente para indicar o risco de uma estagnação mais ampla, mas seus autores poderiam ter ido mais longe. Se o consumo cair, o investimento continuar insuficiente e a indústria continuar em marcha lenta, como ficarão as já estropiadas finanças públicas?

Não há resposta para o problema do crescimento, no Brasil, sem a ação do governo, mas o governo está atolado na própria incompetência gerencial, na indigência de ideias de seus formuladores de políticas e num esquema pegajoso e sufocante de alianças políticas.

No Brasil, dizem especialistas, nenhum presidente pode governar sem acordos, às vezes com parceiros da pior espécie. Pode ser. Em muitos países coalizões são indispensáveis à operação do governo. Alianças, no entanto, são em geral precedidas de algum entendimento a respeito de objetivos e métodos. É o caso, em países da Europa, da formação de gabinetes para enfrentar a crise fiscal e financeira.

A peculiaridade brasileira é outra: programas são secundários e o fundamento das alianças é a partilha dos benefícios do poder. Não se divide o governo como responsabilidade, mas como butim. Esse padrão se fortaleceu com a disposição petista de aparelhar e lotear a máquina federal. Nada mais natural, quando um partido chega ao Palácio do Planalto com um projeto de poder e nenhum projeto real de governo.

Sem alianças em torno de um programa, o governo é forçado a negociar com a base a votação de cada projeto, como se nenhuma ideia geral desse um sentido comum às várias propostas. Não se pode sequer confiar na aprovação da Lei de Diretrizes Orçamentárias, condicionada pelos companheiros à adoção de um impropriamente chamado orçamento impositivo - na prática, uma simples manobra para tornar obrigatória a liberação de verbas para emendas.

A um governo com essas condições de funcionamento - e comandado por uma presidente cada vez mais isolada - cabe a missão de promover a mudanças necessárias para destravar a economia, aumentar seu potencial de crescimento e impor ao País um ritmo de expansão mais parecido com o dos emergentes mais dinâmicos.

Nenhuma tarefa importante será cumprida se a presidente Dilma Rousseff e sua equipe forem incapazes de começar a arrumação das próprias contas. Para isso será necessário desfazer a confusão de incentivos temporários e permanentes, trocar as ações pontuais pelas chamadas políticas horizontais e cortar o vínculo incestuoso entre o Tesouro e os bancos controlados pela União.

Tudo isso deverá ser apenas o começo de uma lista enorme de mudanças. Elevar a eficiência na elaboração e na condução de projetos de infraestrutura será outro desafio tão duro quanto urgente. Sem isso, até como exportador de matérias-primas o País será cada vez menos competitivo.

Que dirão dessa agenda os marqueteiros eleitorais da presidente?

Mexendo no problema errado

Carlos Brickmann
Brickamnn & Associados Comunicação

Não é questão de nacionalidade: um dos maiores médicos do Brasil foi um ucraniano, Noel Nutels, que levou a saúde pública às áreas indígenas da Amazônia. A questão é outra: é que o Governo criou uma enorme polêmica por achar que Saúde é Medicina. E não é: Medicina é a última etapa na luta pela Saúde.

A Saúde começa pela engenharia - saneamento básico. A água potável e os esgotos reduzem o número de doentes (e derrubam a mortalidade infantil). Educação é o segundo passo: quem lava as mãos e cuida da higiene básica, mantém o mosquito da dengue à distância, assegura a limpeza dos animais domésticos e cuida de seu lixo tem mais condições de evitar doenças. Condições de vida são importantes: roupas e calçados minimamente adequados, alimentação suficiente, moradia saudável fazem milagres. Se uma pessoa educada, com acesso a saneamento básico, alimentação e moradia, devidamente vacinada, mesmo assim fica doente, então cabe à Medicina cumprir seu nobre e insubstituível papel de cura.

Em resumo, não adianta trazer grandes especialistas mundiais sem que a população tenha condições adequadas de vida. Tem? Não, não tem. E não falemos de periferias: Guarulhos, na Grande São Paulo, segunda maior cidade do Estado, 13ª do país, com 1,2 milhão de habitantes, onde está o maior aeroporto internacional do país, não trata nem metade dos esgotos que lança no rio Tietê. 

A propósito: sem seringas, termômetro, um medidor de pressão, um medidor de glicemia, alguns remédios, que é que se espera de um médico? Milagres? 

A razão da crise
O presidente da Volkswagen do Brasil, Thomas Schmall, falando em Porto Alegre, mostrou um número significativo, transcrito pelo bom blog de Fernando Albrecht (www.fernandoalbrecht.com.br): um americano com salário médio trabalha dez minutos para comprar um Big Mac; um alemão, 16 minutos; um brasileiro, 42 minutos. 

E é provável que EUA e Alemanha usem carne brasileira. 

Os saltimbancos
1 - O presidente da Câmara Federal, deputado Henrique Alves, quer que Dilma Rousseff reduza o número de ministérios de 39 para 25. OK, a ideia não é ruim. Mas por que 25, e não 23, 27 ou 29? Por nada: ele gosta de 25, pronto. E deve achar que o número de ministérios nada tem a ver com as necessidades do Governo - tanto que cita o número sem qualquer estudo administrativo.

Será que Henrique Alves quer economizar dinheiro público? Não deve ser isso, não: o jantar em que reuniu a bancada do PMDB, dia 16, custou R$ 28.400 à Presidência da Câmara. Foram R$ 355,00 por pessoa, sem bebidas. Um esplêndido restaurante, como o Tatini, de São Paulo, não cobra nem a metade disso.

2 - O prefeito de Paulínia, SP, Édson Moura Jr., do PMDB, tomou posse e anunciou imediatamente o Passe Livre na cidade. A passagem custava R$ 1,00.

Será que o prefeito fez questão de ouvir a voz das ruas? Não deve ser isso, não. Já nomeou a madrasta, Regina de Mattos e Moura, secretária da Promoção Social. Talvez retribuindo a bondade do pai, Édson Moura, candidato à Prefeitura barrado por não ter a ficha limpa. Moura, na véspera da eleição, renunciou à candidatura em favor do filho. Como não havia tempo para registrar o nome do novo candidato, Moura Jr. se elegeu usando o nome do pai. Em seguida nomeia a esposa do pai. Gratidão é uma virtude. Pena que com dinheiro público. 

Trabalhadores do Brasil
O Congresso já está de férias. Pela Constituição, não poderia: descanso, só depois de aprovada a Lei de Diretrizes Orçamentárias. Mas, com aquele ritmo de trabalho escravo imposto a Suas Excelências, não houve tempo sequer para exame do tema na Comissão de Orçamento. Mas como agir para buscar as bases, ouvir seus eleitores? 

Simples: em vez de entrar em férias, Senado e Câmara decidiram que não haverá sessões até 31 de julho. Se não há sessões, como comparecer às sessões? Há gente para quem tudo o que é complexo fica simples.

Bosque finito est
Que o papa Francisco, como dirigente espiritual da maioria da população brasileira, seja recebido com todas as honras e deferências, respeitando-se não apenas sua liderança religiosa e o posto supremo que ocupa, mas também suas inequívocas qualidades pessoais. Que o Governo se empenhe em oferecer-lhe as melhores condições para sua pregação; que os não católicos, mesmo os mais radicais, o tratem no mínimo com a hospitalidade devida aos visitantes. 

Mas a Igreja Católica poderia ter-nos poupado a bobagem de derrubar 334 árvores em Niterói, RJ, para facilitar a realização da missa campal durante a Jornada Mundial da Juventude. Árvores com cem anos de vida não se repõem de uma hora para outra; e mexer com árvores exige autorização da Secretaria Municipal de Ambiente, que não foi sequer solicitada. Se o papa souber, não vai gostar.

Deixa pra lá
O deputado Marcos Feliciano, do PSC paulista, quer que Dilma vete parte da lei que obriga o SUS a atender mulheres que sofreram estupro. Besteira dele: é preciso cuidar das vítimas de acordo com a orientação médica, e Feliciano não é médico. É melhor ignorá-lo: não o ajude a garimpar votos fundamentalistas.

carlos@brickmann.com.br 
www.brickmann.com.br

Novo problema, novo remédio

Henrique Meirelles
Folha de S.Paulo

Na economia, como na medicina, diagnóstico correto é o primeiro passo para tratamento correto. O segundo é que o remédio aplicado deve ser adequado ao problema.

Já mencionei aqui a reação da política econômica à crise de 2008 e relatórios do FMI e de outros órgãos considerando a ação brasileira como modelo de enfrentamento de crise de crédito. O mais importante é entender precisamente qual era o problema, o que (e como) foi feito e aprender com isso.

A quebra do banco Lehman Brothers, nos EUA, levou a um colapso das linhas de crédito internacionais, que eram cerca de 20% do total do crédito no Brasil. Isso gerou crise de liquidez em dólares e reais e dúvidas sobre a solvência de empresas e bancos. A resposta do Banco Central foi liberar liquidez em dólares, em reais e nos mercados futuros de forma rápida e decisiva.

A melhor definição que vi para uma crise de crédito é compará-la a um ataque cardíaco. Se a resposta for rápida, precisa e com equipamento adequado, o ataque pode deixar poucas sequelas ou nenhuma. Caso demore, mais problemas causarão ao coração, às artérias e ao cérebro, gerando danos irreparáveis ao corpo.

O mesmo acontece na economia. Quanto mais dura for a crise, maiores os danos para toda a economia e, portanto, maior a dificuldade de resolver o problema.

No caso do Brasil, em 2008, a economia se recuperou rapidamente, e as empresas retomaram as vendas depois do tombo da produção industrial de 20% em dois meses e da queda anualizada do PIB de 13% no último trimestre. No início de 2010, a economia já estava normalizada, e o BC ajustou os níveis de liquidez.

A resposta com oferta de crédito naquele momento foi adequada, já que a prioridade era restaurá-lo, uma vez que sua contração era exatamente o problema. A resposta fiscal visando a retomada do consumo, em queda livre devido às restrições de crédito, também colaborou para restaurar o dinamismo.

Hoje, examinando o Brasil, é possível diagnosticar que o problema é de custos elevados e baixo investimento. Essa carência importante é acentuada pelas incertezas da economia brasileira e pelo momento global, no qual os EUA consolidam sua recuperação e atraem capitais investidos em outros países.

Portanto, o caminho do Brasil agora é transmitir confiança e credibilidade aos investidores por meio de regras estáveis, trajetória fiscal clara e política monetária firme. Assim, poderemos criar as condições para o aumento dos investimentos, principalmente para elevar a produtividade e reduzir os custos. Dessa maneira estaremos enfrentando de forma efetiva o problema do momento.

Algo parece mudado

Celso Ming 
O Estado de S.Paulo

O Banco Central parece mudado - desta vez, para melhor. Falta saber até que ponto está disposto a enfrentar o jogo contra de outros setores do governo. E até que ponto está disposto a atuar para devolver a inflação à meta, que não são os 6,5% aos quais se refere a presidente Dilma, mas os 4,5% no ano-calendário.

Ao contrário do que aconteceu ao longo de 2012, nas mensagens que vem passando pelos seus documentos e pelas declarações dos seus dirigentes, o Banco Central voltou a dizer coisa com coisa e passou a agir em consequência do que diz.

A partir de agosto de 2011, pode-se distinguir três fases distintas no comportamento da autoridade monetária. A primeira, que durou até janeiro de 2013, foi a de agir em sintonia com as diretrizes da presidente Dilma. Foi o tempo em que a prioridade não foi propriamente conduzir a inflação para dentro da meta, mas cumprir a meta (não declarada) de juros básicos (Selic), de 2% ao ano em termos reais, ou seja, descontada a inflação.

As indicações então passadas pelo Banco Central eram de que a inflação era predominantemente consequência do choque externo (alta das commodities) causado pela queda das safras de grãos nos Estados Unidos e que confluiria mais ou menos espontaneamente para a meta, "ainda que de forma não linear", sem necessidade de rever os juros.

Parecia então seguro de que a área da Fazenda cumpriria a meta combinada na administração das despesas públicas, que era a obtenção de um superávit primário (sobra de arrecadação para pagamento da dívida) equivalente a 3,1% do PIB, ou perto de R$ 159 bilhões.

Logo se viu que, além de não observar sua parte no trato, o Ministério da Fazenda permitiu que o secretário do Tesouro, Arno Augustin, submetesse as contas públicas à chamada contabilidade criativa, que deformou os resultados e os colocou sob suspeita.

A segunda fase, de perplexidade, durou quase três meses, de janeiro a abril deste ano. O presidente do Banco Central, Alexandre Tombini, declarava-se então "pouco confortável" com a mudança de patamar dos preços e com os efeitos de uma política fiscal excessivamente permissiva, que chamou de "expansionista". Mas parou por aí. Seus relatórios ainda sugeriam que a taxa básica de juros permaneceria no nível em que estava, de 7,25% ao ano, "por um período de tempo suficientemente prolongado".

As projeções da inflação com que trabalhava vinham fortemente desalinhadas com as expectativas do mercado, para enorme prejuízo da credibilidade da autoridade monetária. O Relatório de Inflação editado em dezembro trabalhava com uma alta nos preços para o ano seguinte inteiramente irrealista, de 4,80%, quando o mercado financeiro apontava para 5,68%.

Em abril, o Banco Central mudou sua postura e, ainda com alguma oposição de dentro de sua diretoria (2 votos contra), deu início à retomada da elevação dos juros.

Foi também mais sincero no diagnóstico e no prognóstico. Já não atribuiu o avanço da inflação a fatores externos, mas a problemas da economia brasileira: uma política fiscal não suficientemente austera, demanda forte não inteiramente coberta pela produção interna e mercado de trabalho aquecido demais.

As projeções da inflação reveladas no último Relatório também já estão mais alinhadas com as do mercado financeiro e o Banco Central já não esconde que manterá a política no contra-ataque à escalada dos preços. Isso significa que continuará a apertar a política monetária para reconduzir a inflação à meta.

Ao longo do ano, a presidente Dilma havia dado indicações de que preferia deixar a inflação correr mais solta se com isso obtivesse um melhor desempenho do PIB. Se ela não foi inteiramente convencida do contrário pelos estudos dos especialistas e pela própria experiência brasileira, pelo menos parece ter entendido pela força das manifestações ocorridas em junho que não se brinca com a inflação, especialmente quando o objetivo é garantir a recondução à Presidência nas eleições de 2014.

Isso ainda não garante a eliminação da resistência de outros setores do governo que continuam pressionando para aumentar as despesas públicas. Mas sugere que a presidente Dilma tem agora razões especiais para deixar o Banco Central mais livre para defender o real e para voltar a conduzir as expectativas do mercado. A conferir.

O significado de ter Francisco entre nós - agora

Helena Borges e Adriana Dias Lopes
Revista VEJA

Em sua tão aguardada visita ao Brasil, o papa jesuíta de alma franciscana, defensor da humildade e das oportunidades aos pobres, espera que suas atitudes e palavras motivem os jovens do mundo a agir como verdadeiros cristãos

Gregorio Borgia/AP 
Papa Francisco acena para a multidão durante a missa de entronização, no Vaticano  

Na Santa Sé, às vésperas do início da Jornada Mundial da Juventude, o grande encontro católico que o Rio de Janeiro sedia a partir desta terça-feira, 23, o ambiente em torno de seu mais ilustre visitante, o papa Francisco, variava conforme o gabinete. Da parte dos prelados que tocam o dia a dia da Cúria Romana, a sensação é de alívio: Francisco, enfim, vai lhes dar um respiro. Desde que foi escolhido papa, em março, será a primeira vez que ele se ausenta mais do que um dia do Vaticano. 

Mergulhado na cobrança de uma nova postura ética e moral do clero e nos preparativos de uma ampla reforma na Cúria prevista para outubro, Francisco abriu mão das tradicionais férias de verão em Castel Gandolfo e vem trabalhando - e dando trabalho - intensamente. Para esses funcionários, portanto, a semana que ele passará no Rio será relaxante. Já para o pontífice e seus conselheiros, os últimos dias em Roma foram de grande agitação. A expectativa de que as manifestações populares no Brasil não darão trégua, e talvez até recrudesçam, alçou a questão da segurança a primeiríssimo plano. Mas que fique claro: não é porque Francisco se sente ameaçado. Ele até fez pequenas adaptações no plano original, mas resiste em mudar o roteiro que o coloca por mais de uma vez em picadeiros tumultuados - este pontífice gosta de multidões e faz absoluta questão de acolher e ser acolhido pelos fiéis, de preferência bem de perto.

O papa jesuíta de alma franciscana também terá a chance de exercer aqui sua catequese em favor dos pobres. Seu público no Rio são mais de 1 milhão de jovens peregrinos, que na semana passada começavam a ser vistos na cidade fazendo turismo antes de os trabalhos começarem. Sendo esta uma Jornada da Juventude e sendo os jovens os motores das manifestações de rua no Brasil, o pontífice vai aproveitar para transmitir a ambos, devotos católicos e portadores de cartazes indignados, seu apoio a quem protesta contra a corrupção e as más condições da saúde e da educação, bandeiras defendidas pelo paladino da justiça social que sempre foi, desde os tempos de arcebispo em Buenos Aires. Também cobrará da classe política uma mudança de atitude.

O papa é seguidor e arauto dos nobres princípios franciscanos (não escolheu à toa o nome que tem), praticante da ética rigorosa, da simplicidade espartana e do compromisso com os destituídos que são a marca do mais popular dos santos - aquele que trocou uma existência de luxo pela renúncia aos bens materiais. Francisco, como o santo que o inspira, prega uma igreja aberta, devota, atenta aos fiéis. Critica com frequência as desigualdades sociais. Pautou-se por esses altos ideais durante toda a sua vida religiosa e agora os pratica na cúpula vaticana com uma intensidade até perturbadora para prelados desacostumados. Ao se apresentar assim no Rio de Janeiro, estará firmando uma imagem de pontífice popular, carismático e forte - o perfil mais adequado para atrair à Igreja Católica os jovens brasileiros que vêm se desgarrando dela há anos.

Estilo do papa e protestos criam dilema para forças de segurança no Rio

Paula Adamo Idoeta
BBC Brasil 

A escolha do papa Francisco em dispensar o papamóvel blindado na Jornada Mundial da Juventude, em meio à expectativa de protestos durante o evento que começa na próxima terça-feira no Rio de Janeiro, criou um dilema para as autoridades responsáveis pela segurança do pontífice, forçando-as a adaptar suas medidas preventivas, segundo analistas ouvidos pela BBC Brasil.


Quase 18 mil homens farão segurança da Jornada, que traz significativos desafios

"O risco é elevado em situações assim - não tanto de atentados, mas porque, num momento desses, todo o mundo vira tiete, quer se aproximar do papa. E o papa Francisco, por seu estilo, não se prende aos protocolos. Isso pode dar muito trabalho." - Ex-policial federal que participou da proteção do papa João Paulo 2º no Brasil em 1997

Na última quinta-feira, o general José Abreu, coordenador de segurança das Forças Armadas, disse em entrevista coletiva que a escolha do papa será respeitada, mas "não é nada agradável" para a segurança, ante o perigo de algum "ato hostil" na jornada, que deve atrair um público estimado em até 2,5 milhões de pessoas.

O papa deve usar carros fechados para se deslocar por distâncias longas, mas a expectativa é de que um carro aberto - o mesmo usado na Praça São Pedro, no Vaticano – seja usado por ele para circular no Rio de Janeiro em alguns momentos da Jornada.

"(O pontífice) sente que essa é a melhor maneira de se comunicar diretamente com as pessoas", explicou o porta-voz da Santa Sé, Federico Lombardi, agregando que confia "na habilidade das autoridades brasileiras em lidar com a situação".

Ao mesmo tempo, há ao menos sete protestos agendados para o período da Jornada - nenhum diretamente contra o papa, mas um deles contra os gastos públicos na vinda do pontífice.

Riscos e soluções
A combinação de fatores traz grandes desafios aos quase 18 mil agentes (entre membros das Forças Armadas, da Polícia Federal e da PM) que farão a segurança do evento, dizem especialistas.

"O risco é elevado em situações assim - não tanto de atentados, mas porque, num momento desses, todo o mundo vira tiete, quer se aproximar do papa", diz, pedindo anonimato, um ex-policial federal e consultor de segurança que participou da proteção ao papa João Paulo 2º durante sua vinda ao Brasil, em 1997.

"E o papa Francisco, por seu estilo, não se prende aos protocolos. Isso pode dar muito trabalho."

Mas há medidas viáveis para minimizar os riscos: haverá agentes de inteligência à paisana no meio da multidão. E cordões de isolamento ou barreiras de policiais podem ser usados em pontos de grande aglomeração ou para proteger o papa em caso de hostilidades, explicam os analistas.

Para Hugo Tisaka, consultor em segurança, talvez o cordão desagrade os planos do papa, por mantê-lo distante das multidões. Mas ele acha que, se o pontífice decidir ter contato físico direto com seus fiéis, deve fazê-lo apenas em momentos previamente combinados com os agentes de segurança.

"Isso minimiza problemas e permite o planejamento prévio", como, por exemplo, a adoção de mais agentes à paisana em determinados pontos do percurso, explica Tisaka.

Na terça-feira, a Abin (agência brasileira de inteligência) informou que há um "alerta vermelho" para protestos de "grupos de pressão" (espontâneos) e um "alerta laranja" para os movimentos "reivindicatórios" (organizados por categorias profissionais ou sociais), algo que fez o esquema de segurança do papa ser revisto pelas autoridades.

Após manifestações na zona sul do Rio terem resultado em violência e depredação nesta semana, foi anunciado que será proibida a entrada de pessoas usando máscaras na área onde o pontífice rezará a missa de encerramento da Jornada, no dia 28 de julho, no bairro de Guaratiba (zona oeste do Rio).

Os especialistas lembram também que tropas aquarteladas do Exército podem ser mobilizadas se necessário. Além disso, dois helicópteros militares sobrevoarão o papa durante seu percurso no Rio.
'Diálogo'

Analista diz que aproximação com o público 
deve ser previamente combinada com agentes de segurança

A ocorrência de protestos durante a Jornada também exigirá grande integração entre as forças de segurança e muita "capacidade de diálogo", avaliam os analistas.

"Os agentes de segurança têm de lidar, ao mesmo tempo, com uma multidão feliz para ver o papa e outra descontente, protestando", diz o consultor britânico Chris Phillips, que participou da segurança de visitas papais à Grã-Bretanha.

"Muito depende da boa comunicação. Cabe à polícia colocar as pessoas do seu lado, fazer com que elas se sintam ouvidas em seu direito de protestar dentro da lei, fazer com que entendam os riscos de segurança se tiverem de ser revistadas. E não lhes dar nenhuma desculpa para agir de maneira violenta."

Visitas papais trazem sempre um "alto risco", opina Phillips, lembrando que o papa João Paulo 2º passou a usar veículos blindados após sofrer um atentado, em 1981.

"E aglomerações podem conter pessoas mal-intencionadas. Por isso, sempre revistamos as áreas (de trânsito do pontífice) e revistamos todas as pessoas que estão num raio de 100 m, além de fazer uma varredura de locais que possam ser usados por franco-atiradores."

Porta-vozes das Forças Armadas disseram, em entrevista coletiva na quinta-feira, que "como regra geral os peregrinos não serão revistados" - apenas os que tiverem acesso ao palco onde o papa falará.

Mas agregaram que haverá "dispositivos e pessoas especializadas em analisar bagagens, objetos e comportamentos específicos".

Mal-entendido fatal

Merval Pereira
O Globo

O presidente da seção do Rio de Janeiro da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), Felipe Santa Cruz, nega que tenha feito um pacto com o comandante da Polícia Militar para que não fosse usado gás lacrimogêneo ou bombas de dispersão nas manifestações, mas admitiu que fez “algumas ponderações”.

O comandante Erir Ribeiro da Costa Filho atribuiu a esse pretenso acordo com a OAB e movimentos de direitos humanos, como a Anistia Internacional, a perda de controle da situação na noite de quarta-feira no Rio, quando várias lojas foram saqueadas, equipamentos urbanos, depredados, e barricadas de fogo, colocadas ao longo da Avenida Ataulfo de Paiva, no Leblon, durante várias horas por ação de baderneiros, sem que a polícia interviesse.

Segundo Santa Cruz, as ponderações que fez, por conta especialmente do episódio da clínica médica em Laranjeiras invadida no domingo, com doentes terminais passando mal, foi sobre o uso cuidadoso principalmente do gás lacrimogêneo, e “claro que preferíamos a utilização das armas não letais”. E também sobre “o momento da utilização”.

Santa Cruz diz que ponderou com as autoridades que os Black Blocs (bandos de anarquistas que têm a depredação de prédios públicos e bancos como ação política) “saem da manifestação, batem na polícia, recuam, e a polícia, ao jogar gás lacrimogêneo, apenas espalha o movimento”.

Para ele, a OAB “sempre teve uma posição muito firme de que qualquer manifestação que desbordasse em violência, fora da legalidade, deveria ser reprimida pela PM”. Santa Cruz disse que teve o cuidado de ser muito claro na relação com a PM “para evitar que a OAB fique naquela posição clássica, como se ela estivesse dando cobertura a qualquer tipo de ilegalidade. Paguei um preço alto em críticas pelo que aconteceu no Leblon”.

Na terça-feira, diz Santa Cruz, o comandante da Polícia Militar pediu que os advogados ficassem entre os manifestantes e a polícia, “e eu não concordei. Acho um absurdo colocar advogados como escudo”. Houve a determinação, então, para que os advogados acompanhassem de trás as manifestações, relata Santa Cruz.
O presidente da OAB do Rio fez críticas à ação da Polícia Militar: “Depois dessas badernas, nós estamos estranhando que não chega às delegacias no final da noite nenhum desses Black Blocs, ou chegam pouquíssimos”.

Segundo ele, o que tem acontecido é que a PM, “após se omitir, deixar que esses grupos atuem, passa no final da noite recolhendo pessoas, e já recolheu cadeirante, recolheu mendigos. Quando chegam à delegacia, a Polícia Civil, que tem desempenhado um bom papel, não tem condições de fazer a ocorrência dentro da lei”.

Há informações de que a OAB está mandando advogados para as delegacias para soltar os presos, mas Felipe Santa Cruz diz que o que existe é um movimento que nasceu também espontaneamente no Facebook, chamado Habeas Corpus, formado por advogados.

Ele explica que parte do trabalho da Ordem dos Advogados do Brasil tem sido acompanhar tecnicamente nas delegacias os casos de prisão, “e há uma determinação nossa de que toda e qualquer ação ilegal deve ser combatida”.

Santa Cruz diz que a OAB faz o acompanhamento das manifestações desde o seu início, e a preocupação era “garantir a liberdade de manifestação, nunca a defesa desses baderneiros”. Ele ressalta que fazem esse acompanhamento a convite da própria PM, para verificar se as leis estão sendo cumpridas e os direitos humanos, respeitados nos procedimentos policiais nas delegacias.

“Mas basicamente atendendo à população que vem sendo presa sem razão nenhuma. Nós proibimos os advogados de trabalharem em nome da Ordem na defesa dos que são acusados formalmente de baderna. Claro que todos têm direito a advogados, mas devem procurar por conta própria”.

De duas, uma: ou o comandante da PM, Erir da Costa Filho, levou a sério demais as “ponderações” do presidente da OAB do Rio, ou Felipe Santa Cruz transformou em meras “ponderações” o pacto com a Polícia Militar depois do resultado desastroso de sua mediação.

A repressão aos vândalos

O Estado de S.Paulo

Os atos de vandalismo e depredações de que foram cenário os bairros do Leblon e Ipanema, no Rio de Janeiro, na noite de quarta e na madrugada de quinta-feira, foram a repetição ampliada de um fenômeno que se tem repetido nas manifestações que há mais de um mês sacodem o País.

Sempre promovidos por pequenos grupos aguerridos que se infiltram entre os manifestantes, em sua maioria pacíficos, esses atos de violência crescente, que, além dos prejuízos que causam, começam a semear o pânico nas grandes cidades, são hoje um grande desafio para todos que têm responsabilidade na manutenção da ordem pública e na garantia da segurança aos cidadãos.

As cenas do quebra-quebra no Rio, transmitidas pela televisão, chocaram o País e, enquanto as autoridades buscam entender o que realmente se passa, a população começa a exigir uma resposta o mais breve possível.

O secretário de Segurança do Rio, José Mariano Beltrame, afirma que aquelas ações "por vezes colocam a polícia entre a prevaricação e o abuso de autoridade". É verdade. E essa falsa opção entre dois extremos inconvenientes ficou evidente quando, em São Paulo, após alguns excessos cometidos pela polícia nas primeiras manifestações, o governo do Estado resolveu que ela agiria com muito maior tolerância diante dos protestos dos jovens.

A mesma atitude foi adotada em maior ou menor grau em outros Estados e, a partir de então, perdeu-se o indispensável ponto de equilíbrio entre a garantia ao direito democrático às manifestações e o combate aos grupos violentos que delas se aproveitam.

As autoridades têm de manter sempre a polícia sob controle para que ela aja com disciplina e rigor dentro dos estritos limites legais, mas isso não significa tolher a sua ação contra os vândalos. Quando a polícia se omite, a situação tende a fugir ao controle, como já se viu em São Paulo e em outras capitais e se vê agora em maior extensão no Rio.

Ali a tentativa de conter a ação da polícia para evitar excessos levou até mesmo a um esdrúxulo pacto entre a PM, a Anistia Internacional, outras entidades de defesa dos direitos humanos e a OAB-RJ para reduzir ao mínimo a utilização de armas não letais, como gás lacrimogêneo. Pacto que não funcionou, como reconheceu agora o comandante da PM, coronel Erir Ribeiro da Costa Filho.

E não poderia funcionar mesmo. Em primeiro lugar, porque não tem o menor cabimento entidades como aquelas, por respeitáveis que sejam, interferirem dessa forma no comportamento de um órgão do Estado, e da importância da PM.

É obrigação elementar do Estado assegurar que a polícia se comporte ao mesmo tempo com rigor e serenidade. Se ela não agir assim, que isso lhe seja cobrado. Em segundo lugar, e não menos importante, a questão que se põe não é limitar ou não o uso de recursos como o gás lacrimogêneo, mas saber contra quem, e em que circunstâncias, eles podem e devem, sim, ser empregados.

Embora a PM tenha admitido que há cinco anos a disciplina Controle de Distúrbios Civis tenha sido retirada do seu currículo - o que foi certamente um erro -, seus homens não precisam de preparo especial para identificar e reprimir os vândalos que se infiltram nas manifestações. Eles agem encapuzados. Mesmo que não usassem esse "uniforme", seria fácil distingui-los dos outros manifestantes pelos seus próprios atos.

Em estudo que fez sobre as manifestações - no Rio, São Paulo, Recife, Fortaleza, Porto Alegre, Brasília e Belo Horizonte -, o sociólogo Paulo Baía, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), concluiu que os vândalos se dividem em três grupos. Um formado por anarquistas e outros militantes políticos que pregam a ação violenta para atingir seus objetivos; outro integrado por funkeiros e skinheads; e um último constituído de traficantes e bandidos.

Nem a população nem certamente a maioria pacífica dos manifestantes querem que as cidades fiquem entregues a esses grupos. Por isso, a polícia tem, sim, de tratá-los com rigor. É sua obrigação.

O absurdo do vandalismo profissional no Rio

Eliane Lobato
Revista ISTOÉ

Bando criminoso com alvos predefinidos espalha o terror pela zona sul carioca. Governo reage criando uma força especial para prevenir as manifestações violentas e prender responsáveis 

A RECEITA DO CRIME
Barricadas nas ruas, ataques com coquetéis molotov, lojas saqueadas, 
bancos depredados e enfrentamento aberto com os policiais. A ação 
explícita de agitadores profissionais afronta o Estado de Direito

Os atos de vandalismo explícito que se espalharam pelas ruas do Rio de Janeiro nos últimos dias não têm a ver com liberdade de expressão ou direito de manifestação, atributos de qualquer democracia. O que está havendo é crime. Protagonistas de barbaridades como as ocorridas na madrugada da quarta-feira 17 nas ruas de Ipanema e Leblon, quando agências bancárias, lojas e equipamentos públicos foram destruídos e saqueados, precisam ser tratados como parte de um bando criminoso e não como manifestantes em luta por alguma causa. Ainda que se escondam sob palavras de ordem “contra a dominação capitalista”, adotam uma prática que lhes tira qualquer legitimidade. Em junho, quando as manifestações populares eclodiram em todo o País, a população não sabia direito quem era o quê, o que separava o democrático do criminoso, que gigante era esse que tinha acordado. Mas, a essa altura, é preciso diferenciar e identificar aqueles que estão atuando como vândalos profissionais, com alvos a serem destruídos predefinidos, listados nas redes sociais, e que podem comprometer uma política de segurança pública que tem enfrentado o crime organizado depois de décadas. “As ações criminosas estão predominando nas manifestações”, afirma o secretário da Casa Civil, Régis Fichtner. “A polícia está diante de um fenômeno muito recente e precisa reagir a isso.”



































Na sexta-feira 19, o governador Sérgio Cabral assinou decreto criando a Comissão Especial de Investigação de Atos de Vandalismo em Manifestações Públicas e contou que no dia anterior recebera um telefonema da presidenta Dilma Rousseff, manifestando “solidariedade, apoio e estarrecimento” diante do que aconteceu no Leblon. “A gente sabe que há organizações internacionais estimulando o vandalismo e o quebra-quebra”, disse Cabral. “É um aprendizado, pois estas manifestações têm caráter muito diverso de enfrentamentos que já aconteceram no passado.” A nova comissão, formada por membros do Ministério Público, das polícias Civil e Militar e setores de inteligência da Secretaria de Segurança Pública, vai centralizar as investigações sobre os que se infiltram para praticar vandalismo. O objetivo é, também, prevenir os atos violentos e responsabilizar criminalmente os envolvidos. Até agora, a maioria tem pagado fiança e escapado das grades. A delegada-chefe da Polícia Civil, Martha Rocha, explicou que os vândalos são presos por formação de quadrilha, um crime afiançável. “Identificamos pessoas por incitação à violência, só que ninguém pode ficar detido por isso. O crime de dano ao patrimônio depende de representação, ou seja, de que as vítimas se manifestem”, lamentou Martha. Entre as 62 pessoas presas em flagrante desde o dia 10 de junho, 25 eram menores.

 A polícia já sabe que o primeiro grupo que desvirtua as democráticas passea¬tas para o quebra-quebra generalizado está entre o Black Bloc (nome dado à tática internacional de protestar, com máscaras, capuzes e vestes negras) e os anarquistas (corrente política contrária a qualquer autoridade ou estrutura social). Tudo piora quando chegam os bandidos e se infiltram entre os infiltrados. Nesse grupo existe o claro interesse, segundo o serviço de inteligência da Secretaria de Segurança, em desgastar politicamente os responsáveis pelas UPPs, que têm enfrentado o tráfico nos morros cariocas. Eles saqueiam, roubam, depredam e espalham o pânico numa população absolutamente indefesa. O procurador-geral do Estado, Marfan Vieira, suspeita que tenha surgido, nas últimas manifestações, mais uma vertente: militantes de organização paramilitar.


O secretário de Segurança, Mariano Beltrame, vai pedir auxílio internacional para verificar a conexão entre os grupos que agem no Brasil com outros que atuam em outros países. Para o professor e coronel Jorge da Silva, a conexão já está comprovada pelo tipo de operação que adota: uso de máscaras contra gases, do tipo profissional e de coquetel molotov, além de vestimenta negra. Ele aposta que há, aqui, adeptos dos anarquistas, que deixaram de fazer os movimentos de massa que os caracterizavam no nascedouro e passaram a promover o quebra-quebra mundo afora. “Não acreditam em manifestação pacífica e só serão derrotados se forem enfrentados com inteligência, e não com a força”, afirma Silva à ISTOÉ. Hoje professor universitário e doutor em ciências sociais, o coronel Silva foi secretário de Estado de Direitos Humanos, presidente do Instituo de Segurança Pública estadual, coordenador de Segurança, Justiça, Defesa Civil e Cidadania do Rio, e tem seis livros publicados sobre criminologia, violência urbana e segurança pública. Beltrame também é contra a truculência policial, embora ressalte que isso não significa ficar “de mãos atadas” perante os vândalos. “Não há um protocolo no mundo para se atuar em turba ou confusão”, justificou. O prejuízo foi tão grande que o sindicato de lojas, Sindilojas, criou uma parceria com a AgeRio, agência de estímulo do governo do Estado, para oferecer linhas de crédito para os comerciantes afetados. 

Um grupo se destaca nas manifestações em todo o Brasil: o braço brasileiro do Anonymous. Eles surgiram no início dos anos 2000, na Inglaterra, e se articulam na internet, o paraíso do anonimato. Divulgam, em sua página online, que “não incentivam a violência e os atos de vandalismo”, e que consideram as manifestações resultado de “insatisfação popular contida durante muitas décadas de descaso e opressão por parte do Estado Brasileiro.” Mas o movimento já saiu do controle dos hackers que o criaram. A máscara que os identifica – inspirada no revolucionário inglês Guy Fawkes e popularizada pelo filme “V de Vingança” – agora é usada por qualquer um, inclusive por aqueles que nada têm a ver com a filosofia do grupo. Nos camelôs cariocas, por exemplo, são vendidas a R$ 10 (ou menos). Na semana passada, a polícia começou a rastrear a presença do grupo nas redes sociais, depois de constatar que, através do Facebook, os vândalos combinavam os alvos a serem depredados, como agências bancárias e lojas de roupas.



Mascarados serão proibidos de se aproximar dos peregrinos que participarão da Jornada Mundial da Juventude. O Exército e a Marinha, encarregados da segurança do Campus Fidei que receberá o papa Francisco nos dias 27 e 28, estão preparados para enfrentar movimentos contestadores. A “Operação Papa” foi reforçada depois das últimas manifestações de vandalismo no Rio. Ela contará com 13.700 agentes de segurança, entre militares e policiais. 

Colaborou Tamara Menezes
Fotos: Gustavo Miranda, Simone Marinho, Pablo Jacob – Ag. O Globo

Bandidagem expulsa o AfroReggae do Alemão

Leslie Leitão
Veja online

Depois de incendiar uma pousada mantida pela ONG, tráfico mandou o recado: AfroReggae deveria deixar imediatamente os seus domínios

 (Daniel Marenco/Folhapress) 
NÃO SOBROU NADA - 
Os marginais atearam fogo ao prédio do AfroReggae: o coordenador da ONG,
José Junior, acusa o pastor Marcos Pereira de ser o mentor     

Por décadas, a bandidagem mandou e desmandou no emaranhado de favelas cariocas conhecido como Complexo do Alemão. A entrada e a instalação de uma UPP em território tão estratégico para o crime, dois anos atrás, sugeriam que o bando que se esvaiu do morro havia enfim recuado. Na semana passada, porém, ficou evidente que os marginais continuam a fazer valer sua vontade, e da pior forma possível. A vítima da vez foi o AfroReggae, que se consolidou no cenário das ONGs como referência na intermediação de conflitos envolvendo traficantes em áreas da cidade que são verdadeiros barris de pólvora. 

No Alemão, a ONG mantinha uma de suas bases e ainda administrava uma pousada - no passado mesmo, já que o AfroReggae acaba de ser banido do complexo pelos velhos donos do pedaço. Primeiro, eles atearam fogo à tal pousada; depois, como é praxe, veio o recado: a ONG deveria deixar imediatamente os domínios do tráfico. A desobediência, ameaçavam os bandidos, seria punida com a explosão da sede e uma chacina. Na última sexta-feira, o AfroReggae decidiu ir embora.

Black Blocs e a baderna premeditada na Zona Sul

Marcelo Carnaval 
O Globo

Eles não são discretos, se destacam da massa dos manifestantes e estão sempre em grupo. Os Black Blocks, como são chamados (apesar de ser quase um trava-língua), ao contrário de todos, estão sempre reunidos e planejando ações. Na noite de quarta-feira, no Leblon, chegaram de bandeira negra com o símbolo anarquista, vindos do fim da praia.

Não adeptos da cartolina, seu cartaz de protesto era feito no verso de uma placa de trânsito de aviso de fiscalização eletrônica de 70km/h. Preparados para serem revistados no caminho, como aconteceu na manifestação dos sindicatos na semana passada, foram sem mochilas. Sua munição de pedras ia sendo reunida ao longo do caminho, retirada de jardins e principalmente caçambas de entulho que existem em grande quantidade no bairro.

Na noite de quarta, marchavam sempre à frente da passeata, tentando guiá-la para seus objetivos. Saíram da praia para evitar as prisões e a falta de uma área de fuga, como na semana passada, também no Leblon. Deram duas voltas pelo bairro, pois, na primeira, não conseguiram criar um clima de animosidade suficientemente grande para começar a baderna. Na segunda, atingiram seu objetivo.

Depois do ataque a um prédio de escritórios da Rede Globo, partiram arrancando grades, lixeiras e sacos de lixo, arremessando tudo para o meio da rua. Atrás, a massa de manifestantes arrumava a bagunça e cantava que “sem polícia não tem violência”. Quando voltaram para a Rua Aristides Espínola, fizeram uma grande fogueira de lixo em frente a barricada da PM e rolaram uma bola de ferro que serve como fradinho nas esquinas do Leblon. O arremesso de uma bomba de fabricação caseira foi o estopim que faltava para a polícia enviar uma chuva de bombas de gás lacrimogêneo em direção ao grupo e aos manifestantes que estavam atrás. Ato que transformou como mágica grande parte do grupo em arruaceiros, contradizendo tudo o que cantaram no caminho. Uma violência sem a participação da polícia.

Sinceramente, como Lya Luft, eu também gostaria de falar de flores

Tribuna da Imprensa
Acílio Lara Resende, O Tempo

Uma amiga, mestra em ciência política, que já militou anos a fio na política partidária, conhece de perto a antessala do poder, sobretudo a pior delas, a de Brasília. Deixou-a logo após ter ouvido de um velho companheiro de lutas que “não se ganha eleição sem vender ilusão”. Em encontro recente, acompanhado de um delicioso frango ao molho pardo, me disse que estou melhor pessoalmente do que nos artigos que venho publicando neste espaço. Enfim, deu-me a entender que não consigo esconder a fase de descrença que se apossou de mim.

Sinceramente, como Lya Luft, eu também queria falar de flores, mas a fase por que passo (contra nossos representantes e não contra a democracia representativa) não é só de descrença. É, também, de incontida raiva contra alguns integrantes da cúpula governante do meu sofrido e querido país, a começar pela presidente, que aumentou muito minha descrença e ira quando exigiu que fosse chamada de presidenta. Algo miúdo, mas que dá ideia do tamanho da sua soberba.

Logo depois do delicado puxão de orelha, sentei-me à mesa do computador, uma vez mais, para mostrar minha cara neste nobre espaço. E logo me lembrei de que há inúmeras outras figuras, que atualmente militam no governo Dilma, extremamente difíceis de engolir. Destaco, dentre elas, além da presidente, o ministro Aloizio Mercadante, o marqueteiro João Santana e o jornalista Franklin Martins. Esses três – Santo Deus! – formam, com muita propriedade, “o gabinete em crise”…

Mercadante, na ausência de outro, se transformou em ministro plenipotenciário: assumiu, ao lado da pasta da Educação (que deveria exigir dedicação exclusiva), as pastas da Saúde, das Relações Externas e da Casa Civil. Sobre a sucessão de 2014 e o resultado das últimas pesquisas, foi logo profetizando: “Ela – referindo-se à “gerentona” – não só vai se recuperar como nós vamos vencer a eleição. Temos chance de vencer no primeiro turno. Temos que nos preparar para o segundo turno, mas trabalhar para ganhar no primeiro”.

41 MINISTROS
João Santana, o 40º ministro, regiamente remunerado por nós, não é só marqueteiro, mas se transformou, de fato, no principal guru e vidente da presidente. Martins, indicado assessor especial da presidente por Lula, teria sido o autor da genial ideia de uma constituinte exclusiva. Ele é, até prova em contrário, o 41º ministro de um governo sem rumo.

O ministro Aloizio Mercadante (PT-SP), mestre em trapalhadas, em entrevista à “Folha de S.Paulo”, na semana passada, ainda conseguiu desagradar à própria base que, no Congresso Nacional, sustenta (enquanto interessar, claro) o governo ao qual pertence. O senador (da base) Francisco Dornelles (PP-RJ), por exemplo, não deixou por menos: “O Mercadante está cometendo três equívocos. Está falando demais, se metendo na área dos outros e acha que está muito forte”.

Mas a coisa não fica só nisso. O co-presidente Lula, novo articulista do “The New York Times” que rejeita nossa imprensa (como se não fosse o seu maior beneficiário), disse, em artigo recente (quem o redigiu?), que a sociedade brasileira “entrou na era digital, mas a política permaneceu analógica”. E ainda afirma que os manifestantes de rua querem instituições políticas limpas, “sem as distorções de um sistema político anacrônico”. Escreve isso como se não tivesse nada a ver com o país que governou por oito anos. Como se não fosse o maior responsável por esse anacronismo. Quem é, afinal, Luiz Inácio da Silva?  

Joio do trigo

Dora Kramer  
O Estado de S.Paulo

O resultado da reunião da cúpula da segurança pública do Rio de Janeiro, com as autoridades praticamente dizendo que não sabem como lidar com multidões em estado de insatisfação, retratou o despreparo dos governos em geral diante de uma situação que não pode ser considerada nova mais de um mês depois de iniciada.

O do Rio em particular, pois o governador Sérgio Cabral Filho sustentou-se durante muito tempo no êxito das ações do secretário José Mariano Beltrame na retomada de territórios ocupados pelo tráfico de drogas e algum alívio no clima de insegurança.

Trincado esse pilar, afloraram os problemas acumulados no lado B da administração Cabral (guardanapos na cabeça, voo das babás, brigas com bombeiros, médicos e professores, relações estreitas com a construtora Delta) que, assim, entrou em modo de agonia.

Ele é, de longe, o chefe de executivo estadual que perdeu e continua perdendo mais. Não quer dizer que algum outro esteja ganhando esse jogo. Muito menos o federal. No lugar de perder tempo falando em plebiscito que ninguém pediu, poderia chamar os governadores para discutir a sério o problema.

Fato é que não dá mais para se olhar com condescendência o vandalismo que toma conta das manifestações de rua e criminalizar a ação da polícia. Ressalte-se a natureza pacífica dos protestos contra o descaso do poder público, mas não se ignore o caráter belicoso das arruaças que já não podem ser atribuídas a um "pequeno grupo de vândalos".

Uma termina desqualificando a outra. As depredações geram repulsa e medo na população que vê a expressão de suas demandas degenerarem em arrastões de violência. Isso é crime comum e como tal precisa ser combatido. O uso legítimo da força é prerrogativa do Estado e, quando dirigido dentro da lei a quem promove a desordem, não pode ser visto com desaprovação.

Já passou da hora de governantes federais, estaduais e municipais encontrarem uma maneira eficaz de conter a ação da bandidagem sem ferir o direito do público que expressa seu descontentamento dentro das balizas da ordem.

É complicado lidar com o inusitado misturado ao imponderável, mas cabe ao Estado distinguir as coisas e atuar para reprimir os bandidos a fim de assegurar o sagrado direito ao protesto dos manifestantes.

De outro modo, a continuar assim, o cidadão que exige tratamento decente acabará acuado e temeroso. O risco é de as manifestações perderem respaldo da sociedade. Por muito menos, o uso de métodos violentos levou o MST a perder o apoio social de que dispunha nos idos dos anos 90.

O dado concreto é que o arrefecimento da energia positiva que emergiu no Brasil em junho interessa primordialmente aos que são os alvos das demandas. Para eles, quanto mais cedo as ruas voltarem para casa melhor, menos respostas precisarão dar.

Mal contado.
 A presidente Dilma Rousseff voltou a insistir na tese de que os protestos de rua são consequência do sucesso dos projetos de governo no PT. "Quando promovemos a ascensão social, sabíamos que isso era só o começo das exigências", disse ela na reunião do Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social, outra estrutura que só tem tamanho e eficácia zero.

Tal raciocínio não para em pé. Se o governo sabia que as demandas viriam e tem perfeita noção de quais são, por que não agiu antes de modo a atendê-las? Portanto, ou não é verdade que percebeu que o País estava despreparado para absorver as mudanças na sociedade ou percebeu, mas achou mais confortável confiar na passividade coletiva e na mítica da popularidade sustentada em propaganda enganosa.

EUA convidam comissão brasileira a ouvir explicação sobre espionagem

Luiza Damé 
O Globo

Vice-presidente americano, Joe Biden, ligou nesta sexta-feira para Dilma Rousseff

Eles conversaram por 25 minutos e combinaram que, dentro de 15 a 20 dias, representantes do Brasil irão aos EUA

Eliaria Andrade / Agência O Globo 
Manifestantes pedem asilo ao ex-técnico da CIA Edward Snowden no Brasil 

BRASÍLIA - Durante conversa por telefone com o vice-presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, na noite desta sexta-feira, a presidente Dilma Rousseff aceitou o convite para que uma comissão do governo brasileiro vá àquele país ouvir esclarecimentos sobre a denúncia de espionagem dos serviços de inteligência americanos no Brasil. Biden telefonou para Dilma por volta das 19h para dar explicações sobre a denúncia de violação da privacidade de brasileiros e de instituições brasileiras. Eles conversaram por 25 minutos e combinaram que, dentro de 15 a 20 dias, a comissão irá aos Estados Unidos.

Na conversa, a presidente confirmou a visita de Estado no dia 23 de outubro e disse esperar que até lá essa questão esteja superada. A presidente manifestou preocupação com a violação da privacidade de brasileiros e afirmou que espera esclarecimentos não apenas para o governo, mas para a sociedade. Ela também defendeu mudanças de políticas para não haver no futuro risco de violação de privacidade. Dilma disse ainda que, em nome da segurança, não se pode infringir a privacidade dos cidadãos e a soberania de um país.

Biden ligou para dar explicações gerais sobre a espionagem e lamentou a repercussão na sociedade brasileira. Ele disse à presidente que o governo americano dará explicações técnicas e políticas à comissão. O vice reforçou ainda que a relação com o Brasil é importante para os Estados Unidos.

A comissão que irá aos Estados Unidas ainda não foi definida, mas deve ser integrada pelos ministérios da Justiça, de Relações Exteriores, da Justiça, da Defesa e das Comunicações, além do Gabinete de Segurança Institucional.

O Copom destoa de Dilma

O Estado de S.Paulo

A inflação continuará acima da meta em 2013 e o Banco Central (BC) manterá a política de aperto para frear e conduzir a alta de preços ao nível desejado, segundo a ata da última reunião do Comitê de Política Monetária (Copom), divulgada quinta-feira passada. Oito dias antes o comitê havia elevado os juros básicos de 8% para 8,5% ao ano. Em pontos muito importantes, o texto repete a ata da reunião anterior, mencionando inflação elevada e resistente e apresentando uma longa lista de fatores de risco - incluídas as contas públicas - para justificar a "continuidade do ritmo de ajuste das condições monetárias".

Na quarta-feira, numa arenga em reunião do Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social, a presidente havia descrito a inflação brasileira como um fenômeno de "caráter cíclico sazonal". É difícil dizer de onde ela tirou essa espantosa confusão entre sazonalidade e processo inflacionário. Mas um ponto é certo: ela se esqueceu de combinar com os dirigentes do BC o recado otimista sobre os preços e sobre a situação das contas fiscais.

Em seu discurso, a presidente mencionou a inflação nove vezes, num esforço para tranquilizar a opinião pública - ou os formadores de opinião? - e criticar quem fala em descontrole dos preços e das finanças públicas. A ata da reunião do Copom já deveria estar pronta nessa altura.

Talvez por isso, ou porque nenhuma pessoa responsável pudesse levar a sério a peroração presidencial, a ata descreve o balanço do setor público, nos parágrafos 22 e 30, como "em posição expansionista".

Pelo menos desde o ano passado os documentos do BC têm apontado os resultados fiscais como componentes importantes do quadro inflacionário. O desajuste das contas públicas favorece o descompasso entre a demanda e a oferta de bens e serviços. Além disso, a gestão das finanças do governo afeta a avaliação econômica e as expectativas em relação aos preços. Os autores das atas têm repetidamente batido nesses pontos.

Além disso, o documento repete a lista costumeira de fatores inflacionários: a expansão do crédito, a "estreita margem de ociosidade no mercado de trabalho", os aumentos salariais acima dos ganhos de produtividade e os mecanismos remanescentes de indexação. O texto menciona, também, os efeitos de curto prazo da valorização do dólar.

Todos esses fatores são bem conhecidos e têm sido apontados no dia a dia por analistas independentes. Não há, na análise formulada pelo pessoal do Copom, nenhum elemento surpreendente ou fora do comum, com exceção, talvez, de um detalhe.

Ao contrário de altos funcionários do governo e de alguns especialistas do mercado, os economistas do BC parecem imunes ao otimismo gerado, em alguns meios, pelo recuo de alguns indicadores de preços. Esse aparente pessimismo é um bom sinal. A persistente inflação brasileira é um fenômeno bem mais complexo que a oscilação de alguns preços, mesmo alguns muito importantes, como os dos alimentos.

Embora os autores da ata mencionem alguns preços ou grupos de preços, como as cotações das commodities, a maior parte de sua análise se concentra nos fatores determinantes da demanda, como o crédito, a renda dos consumidores e o resultado das contas públicas. Seu critério, portanto, é exatamente oposto ao da presidente: fatores sazonais podem produzir efeitos de curto ou curtíssimo prazo, mas a inflação depende de outras variáveis.

A ata do Copom também chama a atenção para a importância das expectativas. O texto menciona "informações recentes" sobre a retomada do investimento e a continuidade do consumo privado, mas acrescenta uma ressalva: para preservar essa tendência positiva, o governo terá de reverter a perda de confiança dos empresários e das famílias. A piora das expectativas tem sido apontada por pesquisas com executivos e consumidores.

Para mudar esse quadro, a presidente continua apostando numa retórica mal ajambrada e em gestos improvisados, como a proposta de plebiscito e a imposição de serviço obrigatório aos médicos.

Sinal amarelo para a dívida brasileira

Exame.com
Alexa Salomão, Estadão Conteúdo

Depois de cair ao longo da década passada, dívida bruta do governo geral aumentou 6,2% de 2010 para cá

REUTERS/Sergio Moraes 
Notas de real: dívida líquida caiu e dívida bruta cresceu

São Paulo - No Brasil, tornou-se praxe acompanhar o desempenho da dívida líquida (não financeira), que mostra os débitos e os créditos do setor público. A dívida líquida do País caiu cerca de 0,7 ponto porcentual, para 34,8% do Produto Interno Bruto (PIB), em maio. Em dezembro de 2012, estava em 35,2%. Quando se olha para ela, o Brasil está no melhor dos momentos.

O mesmo não pode ser dito sobre a dívida bruta do governo geral, que soma o endividamento (em títulos e bancário), interno e externo, dos governos federal, estaduais e municipais. Depois de cair ao longo da década passada, embicou e aumentou 6,2 pontos porcentuais de 2010 para cá. Em maio, subiu 0,2 ponto porcentual e atingiu o patamar de 59,6% do PIB.

As trajetórias opostas das dívidas criam o efeito conhecido como "boca de jacaré" e contrariam a lógica. O esperado é que as dívidas líquida e bruta sigam a mesma trajetória. Para quem acompanha as finanças públicas, a distorção ocorre porque a dívida bruta registra efeitos colaterais de medidas do governo consideradas polêmicas.

Pouco mais de 16 pontos porcentuais da dívida bruta correspondem à aquisição de reservas internacionais. A primeira vista, esse parece um custo razoável, já que mais reservas fortalecem o caixa do governo para enfrentar momentos de crise e de alta do dólar, como o que ocorre agora. "O problema é que boa parte dos dólares não foi adquirida porque o governo queria elevar as reservas, mas para controlar a taxa de câmbio", diz o economista Felipe Salto, da Tendências Consultoria. "O Brasil tinha reservas suficientes e, se não houvesse a obsessão por depreciar o câmbio, a dívida não estaria em alta."

O questionamento tem uma razão financeira. A compra de dólares para formar reservas resulta numa operação onerosa e só vale a pena se for mesmo por uma causa importante. O processo funciona assim: o Banco Central compra os dólares usando reais. Mais reais no mercado, porém, alimentam a inflação. Para tirar esses reais de circulação, o BC troca a moeda por títulos públicos, com o compromisso de desfazer a troca no futuro. No jargão do mercado, esse processo se chama operação compromissada. Os dólares retirados do mercado são usados para comprar títulos públicos do governo americano, por exemplo, que pagam juros baixos e formam as reservas. Os títulos brasileiros vão pagar juros bem maiores. O diferencial das taxas de juros pesa nas contas públicas. "Temos a acumulação de ativos que rendem pouco (as reservas) e passivos que custam muito caro (operações compromissadas)", diz Salto. 

As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

O fracasso da ‘nova matriz econômica’

Editorial
O Globo

Para se ter uma economia com baixo nível de atividade, inflação alta e resistente, além de perda de dinamismo externo, foi feito um trabalho meticuloso

A prévia da inflação de julho, dada pelo IPCA-15, foi de 0,07% contra 0,38% em junho. Confirma-se, assim, a esperada diminuição da pressão inflacionária neste início de segundo semestre. Em bases anualizadas, o IPCA volta a ficar abaixo do teto da meta (6,5%) —, o que não significa que ele esteja “dentro da meta”, na verdade, de 4,5%, com dois pontos percentuais a mais ou a menos.

Desanuvia-se um pouco o cenário econômico, dentro de sua mediocridade. O ministro Guido Mantega acha que a economia poderá crescer este ano entre 2,5% e 3%. Como ministro da Fazenda é um otimista profissional, chegar aos 2,5% será um resultado muito bom, depois do 0,9% de 2012. O front inflacionário, por sua vez, continua insolúvel, até onde a vista alcança. Na melhor hipótese, fechará o ano nas redondezas dos 6%, talvez um pouco abaixo, se tudo der certo, e não será muito diferente em 2014, quando a presidente Dilma encerrará o mandato sem ter alcançado a meta de 4,5% — já elevada, até para os padrões de economias emergentes.

E há problemas pela frente, devido à contenção artificial de preços administrados — combustíveis, tarifas de transportes, por exemplo. Um dia, mostra a própria experiência brasileira, estes preços terão de ser descomprimidos, por razões fiscais. Com um óbvio efeito na inflação.

No plano das contas externas, há a ameaça de um déficit comercial, o primeiro desde 2000. Existem, por trás desta previsão — impensável há pouco tempo —, efeitos da queda de cotações de commodities, provocada pelo desaquecimento chinês, e da incapacidade brasileira de, por meio da redução consistente do “custo Brasil”, dotar a economia de capacidade de competição em outros segmentos, além das matérias-primas. Ao contrário, a reação tem sido o protecionismo defensivista. Não se irá a qualquer lugar por esta rota — como também mostra a história da economia brasileira, rica em experimentos heterodoxos fracassados.

Todo este quadro pouco animador deriva de um meticuloso projeto — hoje visivelmente fracassado — de desmontagem da política do “tripé” — câmbio flutuante, metas rígidas de inflação e de superávit primário —, substituído por uma “nova matriz econômica”. Sem que esta mudança fosse assumida formalmente.

A operação-desmonte do “tripé”, iniciada a partir do final do primeiro mandato de Lula, foi acelerada com Dilma na Presidência: queda de juros, sem maiores cuidados com a inflação e gastos públicos. O BC foi hábil em aproveitar o agravamento da crise europeia e cortar a Selic. Os exageros nos gastos e o turbinamento excessivo no consumo, somados ao desestímulo ao investidor privado devido a um intervencionismo preocupante do governo, produziram a atual conjuntura de baixo crescimento, inflação alta, escassos investimentos e pouco dinamismo exportador. O BC já começou a agir na luta contra a inflação. Falta o resto.

O poste em curto-circuito

Roberto Pompeu de Toledo
Revista  VEJA

Dilma já se entregou ao obrigatório ritual de encontrar-se com Lula duas vezes desde ló início dos protestos. A relação ameaça assumir caráter patológico, se é que já não assumiu. 

A crise da presidente Dilma Rousseff expõe os limites da teoria do poste.

Não foi o ex-presidente Lula quem inventou o poste. Se a memória não falha, já nos idos de 1974, nas eleições para o Senado que determinaram o início da decadência da ditadura, colou-se o apelido de “postes” nos eleitos ao embalo da súbita e surpreendente onda oposicionista.

O que Lula fez foi exacerbar a teoria e reivindicar sua aplicação como mágica pessoal.

Nenhum poste gosta de ser chamado de poste, e a cortesia manda que os fazedores de postes não os chamem pelo desprestigioso apelido. No entanto, na euforia da vitória do prefeito Fernando Haddad em São Paulo, o ex-presidente disse que “de poste em poste” o Brasil se iluminaria.

No caso da presente crise da presidente — porque a crise que começou nas ruas evoluiu, sim, para uma crise da presidente —, os efeitos perversos da eleição de um poste revelam-se nas seguintes evidências:

1 – O governo está sem rumo. Não é de hoje que a condução errática da economia, a demora em atacar os gargalos na infraestrutura, a nomeação e desnomeação de ministros e a dubiedade no combate à corrupção traem inexperiência que resulta em insegurança e indecisão.

Nas duas últimas semanas, tais sintomas viraram febre com as sucessivas trapalhadas da Constituinte exclusiva e do plebiscito.

A desconhecida Dilma foi-nos apresentada como “gerentona”. Hoje é a gerente que não gerencia uma equipe balofa e incoerente. A dureza na cobrança e a minudência no acompanhamento do trabalho dos auxiliares eram exaltadas como qualidades. Revelaram-se defeitos.

O reflexo condicionado é encobrir as insuficiências pondo a culpa na “articulação política”. A “articulação” e sua irmã gêmea, a “comunicação”, são dois gastos bodes expiatórios. Não há articulação nem comunicação que funcionem se a outra ponta não funciona. A outra ponta é o gabinete presidencial.

2 – Desaba o respeito ao governo. As vaias são o de menos. Pior é o misto de cinismo e traição que rodeia a presidente. A chamada “base aliada” esfarelou-se. Ao vácuo de liderança sucede-se a balbúrdia no Congresso.

Com a esperteza de sempre, deputados investem contra o chamado “foro privilegiado” como se fosse medida moralizadora, quando o mensalão provou que o suposto “privilégio” na verdade lhes rouba o recurso às diversas instâncias do Judiciário e às infinitas chicanas do processo ordinário.

Pior para o governo é a ameaça de se votar o tal “orçamento impositivo”, instituindo o escândalo da liberação obrigatória das já de si escandalosas emendas parlamentares. O desrespeito à presidente propicia a abertura da temporada de caça ao Erário.

3 – O poste foi feito refém. Outros postes, na política brasileira, tiveram melhor sorte. A este não se permite desligar-se do criador. Dilma já se entregou ao obrigatório ritual de encontrar-se com Lula duas vezes desde o início dos protestos. A relação ameaça assumir caráter patológico, se é que já não assumiu.

O ex-presidente não sossega de impor-se como patrono, mestre, guia e protetor. A sucessora se rende à sorte de patrocinada, discípula, guiada e protegida. É quase uma versão da “síndrome de Estocolmo”, pela qual o sequestrado acaba cativado pelo sequestrador.

“Cativado” quer dizer enamorado, mas também prisioneiro. Tem-se uma presidente obrigada à reverência a uma instância superior.

O resultado é a perda da reverência que deveria inspirar.

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Os cães, na política americana, servem para ressaltar o tipo “família”, e portanto bom caráter, de seu possuidor. Richard Nixon, acusado de apropriar-se indevidamente de fundos de campanha, em 1952, reagiu dizendo, num emotivo discurso, que o único presente recebido dos apoiadores fora o cãozinho chamado Checkers, alegria de suas filhas. O episódio passou a ser chamado de “o discurso de Checkers”.

Obama, recém-eleito presidente, abriu debate público sobre que tipo de cão deveria ser dado às filhas. Ganhou o cãozinho batizado de Bo, desde então assíduo figurante nas fotos de família.

No Brasil, a cachorra de Antônio Rogério Magri, ministro de Collor, ficou conhecida ao ser transportada ao veterinário em carro oficial. Agora, como revelado na VEJA da semana passada, o cachorro Juquinha, do governador Sérgio Cabral, entra no rol das celebridades caninas por pegar carona de helicóptero. Cães no Brasil denunciam o caráter não tão bom de seus possuidores.