domingo, dezembro 03, 2006

Cortar 100 bilhões nos juros? Um sonho

Por Pedro do Coutto, na Tribuna da Imprensa
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Reportagem assinada por Regina Alvarez e Henrique Gomes Batista, "O Globo", de 29 de novembro, anuncia que o governo tem como meta, em 2007, reduzir a despesa com o pagamento de juros para rolar a dívida interna de 179,5 bilhões, como está ocorrendo este ano, para algo em torno de 70 bilhões de reais.
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Absolutamente impossível de ser atingida. Os autores da matéria foram iludidos pela fonte da informação. Basta comparar os números. Está escrito que a administração federal pretende limitar o desembolso com juros na escala de 3,7 por cento do Produto Interno Bruto. Portanto, no limite dos 70 bilhões, já que o PIB brasileiro é de 1 trilhão e 800 bilhões de reais.
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Tal redução corresponderia a um corte de 60 por cento. A taxa paga aos bancos, hoje de 13,75 por cento ao ano, teria que recuar 7 pontos. Mas como? A inflação fecha este exercício, de acordo com o IBGE, em aproximadamente 4 por cento. Tal hipótese significaria diminuir os juros reais de 9,75 para apenas 3 por cento.
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Essa não. A idéia, inclusive, contraria a tendência predominante do aumento da dívida interna. Só na parte mobiliária, portanto títulos em poder da rede bancária, atualmente é de 1 trilhão e 61 bilhões de reais. Mas estão sendo colocados novos papéis, como os jornais noticiaram durante a semana, na escala de 16 bilhões. No governo Lula, o endividamento cresceu 50 por cento em relação à herança recebida de Fernando Henrique Cardoso.
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Se a tendência é para o crescimento, e tanto assim que o governo tenta também reduzir o superávit primário, ela é incompatível com o corte dos juros. Os bancos, com uma taxa mínima, não vão assumir os títulos. Inclusive os bancos internacionais, como vimos na coluna de ontem, detentores de 46,4 por cento da dívida de 1 trilhão e 61 bilhões. Os jornalistas não têm culpa do equívoco que lhes foi passado.
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A reportagem teria que ser publicada assim como foi. Porém, a edição deveria ter adicionado um comentário explicativo da impossibilidade veiculada. De qualquer forma a matéria valeu, porque deu margem a que o assunto fosse discutido e analisado em bases lógicas.
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A redução dos juros é impraticável. Inclusive porque temos que levar em conta a inflação do IBGE. Durante os primeiros quatro anos do governo Luís Inácio da Silva, de acordo com o INPC, sem calcular os montantes, mas somente somando as parcelas, vamos encontrar um total de cerca de 27 por cento.
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Foram 10,3 por cento em 2003; 6,1 em 2004; 5 por cento em 2005; e finalmente agora, em 2006, em torno de 4 pontos. As parcelas conduzem portanto a uma escala de 27 por cento. Com isso, o endividamento real não aumentou 50 por cento, comparando-se o total de hoje com o recebido de FHC. O antecessor de Lula recebeu de Itamar Franco a dívida mobiliária interna em 62 bilhões e a entregou em 670 bilhões de reais. Um crescimento de 11 vezes (1.100 por cento) para uma taxa inflacionária de 72 por cento. Luís Inácio da Silva a elevou para 1 trilhão e 61 bilhões. Cinqüenta por cento, praticamente. Porém descontada a inflação de 27 pontos, o aumento real foi de 23 por cento. Mas o grave é que o endividamento continua avançando.
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A tendência para o alto não foi contida. Nos oitos anos de Fernando Henrique Cardoso, de acordo com o INPC do IBGE, as taxas anuais foram: 22 em 95; 9 por cento em 96; 4,4 em 97; 2,5 em 98; 8,4 por cento em 99; 6,2 no ano 2000; 9,4 em 2001 e por fim 14,7 por cento no exercício de 2002. Ao contrário do que sustentava o ex-ministro Pedro Malan, a inflação não se encontrava contida.
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Muito menos o avanço da dívida interna, embora o presidente da República afirmasse que as privatizações foram feitas para segurar o ritmo inflacionário e conter o endividamento público. Como se vê, nem uma coisa nem outra. O problema da tecnocracia e do economês é este, exatamente este: o gesto não confirma a palavra. Tudo fica no reino encantado do marketing. Influir na realidade, que é o importante, não acontece.
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O processo de concentração de renda prosseguiu - e prossegue -, o empobrecimento do povo também. Enquanto não houver uma ruptura no sistema de distribuição de renda, não haverá solução. Vai permanecer o déficit de habitações, a falta de saneamento, os graves problemas na saúde pública, as deficiências no setor fundamental da educação. Vai continuar a baixa capacidade de arrecadação tributária em cima dos que podem pagar impostos.
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A carga tributária só desaba em cima dos assalariados. Vítimas de tudo. E ainda há quem culpe os aposentados do INSS pelo desequilíbrio financeiro oficial. Como? Se o salário médio dos 24 milhões de aposentados e pensionistas é de 516 reais por mês e se 75 por cento desse total ganham apenas o salário mínimo?
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Enquanto nenhum problema estrutural é resolvido, sequer seriamente enfrentado, a sonegação corre solta. Começa nas esferas estaduais, na área do ICMS, o verdadeiro imposto sobre o consumo no País. As chefias da fiscalização são constituídas à base de indicações políticas. Resultado: baixa arrecadação, altíssima sonegação. E se há sonegação na esfera estadual, ela imediatamente se reflete - é claro - no Imposto de Renda, área federal. Uma coisa leva à outra.
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Dentro deste quadro de imobilismo e perplexidade, aparecem informações apontando um corte impraticável nos juros a serem pagos pelo Tesouro. Não acreditemos. É o máximo que nós, contribuintes, podemos fazer: reagir não levando a sério hipóteses fantasiosas como esta.

Quanta generosidade!

Por André Petry, na Revista Veja
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"Maluf, sendo um homem rico, poderia fazer uma doação financeira ao Incor, não?"
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Sem barulho nem alarde, deu-se na semana passada um dos melhores exemplos da generosidade de uma parcela dos ricos do Brasil. Aconteceu o seguinte: o Instituto do Coração, o Incor, atravessa uma crise financeira dramática, e o ex-prefeito Paulo Maluf, que acaba de eleger-se deputado federal, resolveu escrever um artigo sobre o assunto. No artigo, publicado no jornal Folha de S.Paulo, Maluf diz que o Incor é "um pedaço do Brasil que deu certo", que "nada deve aos maiores hospitais dos Estados Unidos e da Europa", e afirma que o instituto merece ser socorrido – com dinheiro público, é claro. Maluf escreve que a "única solução" é os governos federal e estadual de São Paulo assumirem a dívida que sufoca o Incor.
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No dia seguinte, o jornal publicou uma carta do professor Tomás de Aquino Guimarães, da Universidade de Brasília, comentando o artigo de Maluf. Nela o professor sugeria que, em vez de pedir dinheiro público, Maluf promovesse uma "campanha de arrecadação de doações financeiras" junto a pessoas que, como o próprio Maluf, "fazem parte da elite econômica e política nacional". Era uma boa sugestão. Afinal, Maluf, sendo um homem rico, poderia ele mesmo fazer uma doação financeira ao Incor, não? Na declaração de bens que entregou à Justiça Eleitoral, Maluf informa que seu patrimônio pessoal é de 38,9 milhões de reais. Mesmo que não se considere a fortuna que é suspeito de esconder em contas secretas no exterior, estimada em 200 milhões de dólares, mesmo sem contar essa soma fabulosa, mesmo se admitindo que seu patrimônio não passe mesmo de 38,9 milhões de reais, mesmo assim Maluf é um homem muito rico.
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Se resolvesse fazer uma doaçãozinha ao Incor, Maluf estaria se alinhando a uma prática muito difundida em alguns países, sobretudo nos Estados Unidos, cuja legislação favorece amplamente a filantropia. Quem não se lembra do espanto generalizado quando, em junho passado, o bilionário americano Warren Buffett anunciou que doaria 37 bilhões de dólares para fazer filantropia? Aos 75 anos, ao doar 85% de sua fortuna pessoal, Buffett tornou-se o maior filantropo de todos os tempos. Mas não era nada disso, nada dessa escala monumental, que se estava sugerindo a Paulo Maluf. Não era doar 85% nem mesmo de seu patrimônio declarado. Era apenas uma doaçãozinha financeira. Só para ajudar, mostrar a generosidade dos endinheirados no Brasil. Só isso.
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O bacana da história é que Paulo Maluf respondeu à carta do professor de Brasília. Em sua resposta, também publicada pelo jornal, Maluf começa dizendo que a sugestão do professor é "oportuna" – e qualquer um que a lesse ficaria esperando, depois dessa introdução elogiosa, que Maluf iria anunciar uma doação ou o início de uma campanha de arrecadação. Que nada. Maluf disse que achava "oportuna" a sugestão de doar dinheiro justamente por entender que os governos federal e estadual devem fazê-lo... Sobre ele próprio colocar a mão no bolso e dividir uma parcela ínfima de sua fortuna com o "pedaço do Brasil que deu certo", nem um pio. Por quê? Maluf responde: "Se eu doasse 50.000 reais, isso ia resolver alguma coisa? Ia pagar duas horas de juros dos empréstimos...". A escolha é sua, leitor: Maluf não entendeu a sugestão ou, além de podre de rico, é cínico?

Em busca de um lugar seguro

Ana Maria Tahan
Coisas da Política – Jornal do Brasil

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Alda, agente de turismo, geralmente alegre, estava calada ontem à noite. Pensativa. De repente, levanta o olhar. Está brava. "Telefonei para a TV Record", anuncia. Por quê?, querem saber os amigos. "Não agüento mais ser quase assaltada no mesmo lugar", explica. Com a curiosidade aguçada ao redor, relata que foram três tentativas, todas no acesso da Avenida Perimetral à Leopoldina, Zona Norte do Rio. Os menores infratores se abrigam ali durante o dia. Fazem de caixas de papelão suas casas, sob o viaduto. Dormem. No entardecer, aproveitam o trânsito caótico e lento, quase parado, para identificar as vítimas. Especialmente as mulheres. "O que me deixa indignada é que nunca se vê um carro de polícia por ali", comenta Alda. Ela dirige um EcoSport. Os vidros são protegidos com insulfilm. "Vou trocar por um Fusca", exagera.
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A quilômetros do endereço que transformou a corajosa Alda numa mulher acossada pelo medo, ouvem-se gritos de "pega, pega", correria. O trago relax do fim do expediente no bar do Leme, Zona Sul, foi interrompido pela raiva. Drogado pelo excesso de cola de sapateiro, o adolescente derrubou no chão uma moradora local para roubar o celular. Possessos com a audácia, os clientes do Xodó da Moça bloquearam a área de fuga, acossaram o larápio e o esmurraram a valer. Bateram até a chegada da viatura da PM. O mais alterado agressor não se esqueceu de avisar, dedo em riste, o ladrão: "Vá roubar em outro lugar. Aqui, não. Aqui é um condomínio de portas abertas".
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Marina saiu da faculdade, passou pelo shopping Rio Sul e decidiu seguir a pé até a Praça Princesa Isabel. Sabe que a passagem por ali é perigosa, mas a presença do guarda municipal, na entrada do túnel de acesso de Botafogo a Copacabana, a tranqüilizou. Estava no meio quando dois menores a cercaram. Queriam a mochila. Ela reagiu, segurou a bolsa com o material escolar (e mais nada de valor) com força. Eles a socaram, morderam, puxaram. Miúda, Marina não largava a sacola, gritava por socorro. A corrida do guarda municipal e de um segurança do flat vizinho ao túnel assustou os jovens agressores. Marina escapou ferida, durante dias ficou acovardada em casa, apavorada com a idéia de retomar a rotina. Ao acompanhar a sova dos moradores do Leme no ladrão de celular comentou: "Antes eu teria pena, agora é bem feito. Eles não têm pena da gente".
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Alda, a moradora do Leme, e Marina tiveram mais sorte do que Ana Cristina Giannini Johannpeter, assassinada durante o assalto do Leblon. Sobreviveram à violência para contar sua história. Tornaram-se menos compassivas. Menos passivas. Menos crédulas sobre o futuro. Mais realistas e inconformadas.
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A insegurança nossa de cada dia assusta, deprime, intimida. Acovarda. Irrita. Magoa. E transforma cariocas em brasileiros menos piedosos. Numa cidade em que a violência integra o cotidiano de parcela crescente de habitantes, não dá mais para viver de promessas de projetos de homens públicos. Segurança não é apenas caso de polícia. É de política. Seja no Rio, em São Paulo, em Belo Horizonte ou no menor dos municípios, a falta de soluções verdadeiras, reais, práticas, objetivas para se isolar bandidos e proteger a sociedade é uma infâmia. Criminosos não podem ter a intimidade preservada. Menores ou não, precisam ser expostos à execração pública, identificados, apontados, segregados. Pelo menos por um bom tempo. Garantir um dia-a-dia menos violento para cada um é dos maiores, senão o maior, desafio à espera do presidente Lula e dos governadores que tomam posse em 1º de janeiro. Não dá mais para viver com medo. Não é justo reagir com violência à violência.

Pergunte ao pó

Diogo Mainardi, na Revista Veja
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"Assaltantes tomaram um prédio perto do meu. Isso tudo só aconteceu, de acordo com o teorema da polícia, porque negligenciei a tarefa de cheirar minha cota social de cocaína, para redistribuir renda pelos morros cariocas. Lula? Sim, há Lula nessa história. Ele é um estado mental"
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Cheire pó. Quanto mais, melhor. Há um aumento da criminalidade no Rio de Janeiro. A polícia diz que é porque os ricos passaram a consumir menos drogas. A partir do momento em que os ricos passaram a consumir menos drogas, os traficantes pobres foram obrigados a recorrer a outros meios. Daí o atual aumento de assaltos, seqüestros e assassinatos, segundo a polícia.
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Até outro dia se dizia o contrário. Dizia-se que era o consumo de drogas dos ricos que alimentava a criminalidade dos traficantes pobres. Se os ricos consumissem menos drogas, a criminalidade diminuiria. É complicado saber o que fazer. Se a gente cheira pó, metem bala na nossa cabeça porque a gente cheira pó. Se paramos de cheirar, metem bala porque paramos de cheirar. A única certeza é que os culpados somos sempre nós. E que uma bala atingirá nossa cabeça. É o catch-22 do socialismo moreno.
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Na semana passada, assaltantes tomaram um prédio perto do meu. Fizeram reféns, esvaziaram apartamentos, espancaram moradores. Isso tudo só aconteceu, de acordo com o teorema da polícia, porque negligenciei a tarefa de cheirar minha cota social de cocaína, para redistribuir renda pelos morros cariocas. Os assaltantes enganaram o porteiro fazendo-se passar por oficiais judiciários. Coincidentemente, naquele mesmo dia, num intervalo de dez minutos, dois oficiais judiciários bateram à minha porta, porque fui denunciado por uns comparsas de Lula.
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Lula? Sim, há Lula nessa história. Como em todas as outras. Muita gente reclama porque eu falo demais sobre ele. Está todo mundo cheio do Lula. Ninguém mais quer saber dele. E o segundo mandato ainda nem começou. Nos últimos dias, um leitor publicou até uma carta aberta na internet, pedindo-me a delicadeza de mudar de assunto. Compreendo perfeitamente o sentimento. Lula cansa, aborrece, enauseia. Só que ele é como droga. Se a gente a consome, se dana. Se pára de consumi-la, se dana do mesmo jeito.
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Lula – o meu Lula – já não é mais o presidente Lula. É um estado mental. É o símbolo da nossa incapacidade de pensar direito. É o gremlin que emperra o país. Cedo ou tarde o presidente Lula será esquecido. Até mesmo por mim.
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Nem os lulistas se lembrarão dele. Porque ele é desimportante. Mas seu espírito atarantado continuará entre nós, com outro nome, com outra cara. Euclides da Cunha disse tudo o que era necessário dizer sobre a nossa raça. Lula – o meu Lula – é a mais perfeita síntese euclidiana. Ele representa o "temperamento delirante", o "senso moral deprimido", o "fetichismo bárbaro", a "servidão inconsciente", a "preguiça invencível", o "desequilíbrio incurável", a "fealdade", a "psicose coletiva", a "degenerescência intelectual" que nos impediu de viver "num meio mais adiantado".
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Euclides da Cunha sentenciou: "Ou progredimos, ou desaparecemos". O Brasil o desmentiu: nem progrediu, nem desapareceu. Ficou parado numa "fase remota da evolução". Eu parei. Nós paramos. Lula parou. Para sempre.

A doença infantil da diplomacia

Editorial do Estadão
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Existe, visível a olho nu, uma linha de continuidade entre o padrão de comportamento do presidente Lula no plano interno e a sua compreensão do papel que lhe cabe desempenhar como chefe de Estado na arena internacional. Mas essa coerência não chega a ser propriamente uma virtude, a menos que se considere virtuosa a sua crença de que governar - e fazer política externa - é discursar. Com isso não se pretende subestimar o poder da palavra como argamassa para a construção do entendimento, a formação de maiorias políticas e a pavimentação do caminho para decisões de interesse nacional. Tampouco se trata de desdenhar da força simbólica das situações concebidas para favorecer o enunciado de propósitos, a mobilização pelo verbo. Na era da diplomacia pessoal, seria pueril criticar as viagens ao exterior dos dirigentes nacionais.
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O problema é que a falta de lastro dos eventos a que Lula comparece, combinada com a falta de substância de suas manifestações, nos plenários ou em encontros tête-à-tête, confina a desejada aparição de um líder brasileiro no radar da mídia estrangeira ao que o jargão jornalístico anglo-americano denomina, depreciativamente, photo-op, uma encenação para as lentes sempre volúveis da mídia e que por isso mesmo se esgota em menos tempo do que leva dizer “oportunidade para fotos”. Atente-se para o evento - a rigor, o não-evento - a que o presidente Lula acaba de comparecer em Abuja, na Nigéria, apesar da dolorida torção que o obrigou a se deslocar em cadeira de rodas. Para a sua recuperação, quanto mais não fosse, melhor teria sido que ficasse em repouso no Alvorada, pensando em como destravar a economia sem desandar as finanças públicas.
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Em primeiro lugar, porque a pomposamente intitulada Cúpula África-América do Sul foi a esqualidez que era de prever. Reuniu representantes de 66 países, dos quais, no entanto, apenas 25 chefes de Estado. Da América do Sul, guardaram-se de ir, entre outros, os presidentes da Argentina, Uruguai, Chile e Venezuela. Dos cinco que foram, dois, o do Paraguai e o da Guiana, viajaram de carona no Airbus do brasileiro. Em segundo lugar, e principalmente, porque, na esfera das relações internacionais, perde pontos, nos quesitos atenção e respeito político, o governante - e por extensão o seu país - cuja figura é associada a irrelevâncias, do tipo do ralo café da manhã de Lula com o ditador líbio Muamar Kadafi. O pensamento positivo, de que o presidente é adepto convicto, não tem o poder de mudar esse resultado.
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“Quem faz política sabe que só o fato de reunirmos aqui (na Nigéria) figuras importantes demonstra que o século 21 será muito melhor”, afirmou Lula. Como se diz em linguagem coloquial, só porque ele quer. O reunismo - ou “a mania dos grandes encontros”, nas palavras do presidente do Centro Brasileiro de Relações Internacionais (Cebri), embaixador José Botafogo Gonçalves, na lúcida entrevista publicada ontem neste jornal - é uma espécie de doença infantil da diplomacia. Ocupa os dignitários que, por vaidade ou desfastio, se abalam a participar das conferências de cúpula, porém é um paupérrimo substituto para uma política externa robusta, ainda mais quando lhe falta uma estratégia capaz de se manter em pé porque sintonizada com as realidades do globo. O anverso da moeda é o voluntarismo. No regime militar, o terceiro-mundismo do Itamaraty, movido por uma visão ufanista das coisas, levou o governo Médici a abrir 10 embaixadas na África. “Aí faltou fôlego, não houve continuidade”, lembra Botafogo. “Foi uma energia desperdiçada.”
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Mas o pior é que o presidente Lula, mesmo sem nenhum fôlego nem para chegar aos 5% de crescimento econômico, promete continuidade: pretende criar um “bolsa-família” para os países pobres, isentando 50 deles de tarifas de importação, 34 dos quais africanos. Trata-se de um gesto humanitário. No entanto, diante de uma questão que vem revoltando o mundo civilizado - a catástrofe na região sudanesa de Darfur, cenário de crimes continuados contra a humanidade -, o Brasil se mostra menos humanitário, abstendo-se na ONU de exigir do governo muçulmano de Cartum o elementar: a cessação dos massacres e a punição das autoridades acumpliciadas com os atos de selvageria da milícia Janjaweed que transformaram 2,5 milhões de pessoas em refugiados no seu próprio país. A abstenção foi festejada pelos delegados do Sudão como “reflexo da política do governo Lula em relação à África”. Vale por um epitáfio.

O "apagão" aéreo e moral !

COMENTANDO A NOTÍCIA: Se você está pensando em festejar suas festas de final de ano ou até fazer aquela viagem de férias, e num ou noutro caso, a opção for viajar de avião, pense duas vezes, antes de adquirir as passagens. Você pode estar entrando numa fria e acabar transformando em frustação um momento que era para ser só de diversão. O caos nos aeroportos, acreditem, ainda está longe de acabar. Aliás, o "apagão" aéreo neste final de primeiro mandato de Lula, dão bem a amostra do que foi e do que ainda será o próximo. Dane-se a segurança do cidadão, dane-se a responsabilidade do Estado em prestar serviços de qualidade. O que importa é continuarem mentindo, enganando, assaltando e extorquindo, tudo em nome de uma sede de poder sem limites. Leiam as notas a seguir e reflitam nas mãos de quem o país está entregue.
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Governo omitiu por 48h morte de passageiros da Gol, diz IstoÉ

Enquanto o País aguardava por notícias de sobreviventes, esquadrão da Aeronáutica já descia de rapel no local da queda do Boing 737-800
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SÃO PAULO - O governo já sabia que a queda o Boeing 737-800 da Gol, em 29 de setembro, no Mato Grosso, não tinha deixado sobreviventes mas demorou 48 horas para revelar a informação. Segundo a revista Isto É, enquanto os parentes dos 154 passageiros aguardavam notícias da colisão entre o Boeing e um jato Legacy, a cúpula da Aeronáutica, da Infraero e da Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) já estava certa de que o acidente tinha resultado em tragédia.
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Durante os dois dias em que o País aguardava por notícias de sobreviventes, cinco homens do Para-Sar, o esquadrão de elite da Aeronáutica, desciam de rapel no local da queda, de acordo com a revista. "Os homens desceram de rapel e pernoitaram. Passaram a noite lá, junto (dos corpos), numa operação extremamente complicada", declarou o presidente da Infraero, brigadeiro José Carlos Pereiral, à IstoÉ. Pereiral justificou a demora em confirmar a tragédia dizendo que "é difícil dar a primeira notícia às pessoas", mas acha, no entanto, que uma avaliação sobre o caso talvez se faça necessária futuramente.
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Quase dois meses após o acidente entre o Boeing da Gol e o jato Legacy, as investigações continuam apontando para uma sucessão de falhas que teriam provocado a tragédia. Um relatório final só deve ser divulgado em oito meses, mas já é possível dizer que houve falha de comunicação em Brasília e falta de funcionamento adequado do transponder. Especula-se também que pode ter contribuído para provocar a tragédia é um diálogo impreciso entre a torre de controle de São José dos Campos, local de onde partiu o jato, e os pilotos do Legacy.
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Logo após a tragédia da Gol, como é praxe em casos de acidentes, ontroladores de vôo de Brasília entraram em licença médica.
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Crise nos aeroportos
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Os atrasos de vôos nos principais aeroportos do País começaram no dia 27 de outubro quando os controladores de tráfego aéreo do centro de controle de Brasília - o Cindacta 1 - decidiram iniciar um protesto, a chamada operação-padrão, contra a falta de profissionais.
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Na operação-padrão, os controladores seguem as normas internacionais que determinam que cada operador deve controlar, no máximo, 14 aeronaves simultaneamente.
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Antes da operação, cada controlador chegava a monitorar até 20 aviões ao mesmo tempo. Com isso, o intervalo entre os pousos e decolagens aumentou, provocando uma seqüência de atrasos e cancelamentos de vôos em terminais aéreos de todo o País.
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O colapso no tráfego aéreo ocorreu no dia 2 de novembro, feriado de Finados, quando cerca de 600 vôos sofreram atraso. Milhares de passageiros sofreram com esperas de até 20 horas e os prejuízos chegaram até à rede hoteleira.
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À espera da próxima tragédia
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Quem lê a entrevista de dois controladores de vôos do aeroporto de Brasília concedida à revista ÉPOCA e transcrita em grande parte pelo jornal O Globo em sua edição de hoje pensará dez vezes antes de entrar em um avião. É sério. Não exagero.
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A situação do controle do tráfego áreo brasileiro descrita pelos dois é de apavorar os espíritos mais corajosos. Deus deve ser brasileiro para que tenhamos tão poucos acidentes. Não é só a história da zona cega onde não existe comunicação.
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É tudo mais - equipamentos que não funcionam direito, que são desligados ou que têm sua potência reduzida para que ganhem uma vida útil maior, é a formação apressada dos controladores de vôos, é o regime de trabalho deles; é tudo.
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O governo está obrigado a fazer uma devassa no setor e a tomar providências urgentes para reparar todas as falhas - do contrário será apontado, e com razão, como responsável direto pela próxima tragédia que venha a ocorrer (que Deus nos livre!).
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"Era só o tempo de passar da zona cega"
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"Um dos supervisores falou: ‘Preciso ligar logo, é uma emergência’. Ele estava bem apreensivo. O pessoal no console estava bem diferente, desanimado. Já imaginando que algo havia acontecido, fui ver e entendi a situação. O vôo da Gol havia saído da área de Manaus às 15h35m e deveria entrar na área de Brasília às 15h50m, ou seja, 15 minutos depois. Era só o tempo de passar da zona cega. Deu 17h20m e nada. Vi um dos integrantes da equipe balançando a cabeça, quase chorando. Outros supervisores chegaram a pedir para sair dos consoles em que estavam para tentar auxiliar os dois supervisores. O clima ficou pesado. Gente chorando e pedindo para sair”.
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O trecho acima é de entrevista com um dos controladores de vôo do aeroporto de Brasília publicada na edição deste fim de semana da revista EPOCA e citada pelo Globo Online.

E eles ainda querem aumento de salário !

Deputados utilizam "missão oficial autorizada" para justificar faltas
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Um estudo do jornal Folha de S.Paulo evidenciou um esquema denominado "indústria da falta" na Câmara dos Deputados. A pesquisa, realizada durante as 568 sessões de fevereiro de 2003 a setembro deste ano, aponta que 79% das faltas abonadas foram justificadas por "missão oficial autorizada".
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A justificativa seria como um passe livre para resolver assuntos inadiáveis e de grande importância, como por exemplo, o acompanhamento de uma investigação de CPI em outro Estado. O problema é que não há uma fiscalização para saber se, de fato, o deputado que solicitou o abono tem um compromisso de tal seriedade.
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O sistema funciona quando o líder da bancada manda uma ofício para a Mesa da Câmara requerendo o abono para o deputado solicitante. Nem o líder do partido nem a Mesa se preocupam em verificar se a falta tem um motivo verdadeiro ou não.
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Segundo o líder da bancada do PTB, José Múcio, não cabe a ele fiscalizar o pretexto do deputado faltoso. "Confio na palavra do deputado. O que posso fazer? Mandar uma equipe para acompanhá-lo? Isso não existe", completa. Já a Mesa empurra a responsabilidade, alegando que não há porque duvidar do líder.
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A preocupação por abonar faltas tem três objetivos. O primeiro, talvez mais ameno, é não carregar publicamente a imagem de parlamentar ausente. Depois, é evitar descontos na folha de pagamento por dia não trabalhado. E o pior: se as faltas excederem um terço das sessões do ano, o resultado é a cassação do mandato.

O deputado recordista de ausências é o peemedebista Geddel Vieira Lima, com 228 justificativas por "missão oficial autorizada", o que representa 40% de todas as sessões analisadas do período.
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"Exerço meu mandato como acho que devo e a população do meu Estado me julga. Como vocês já fizeram essa matéria e eu voltei foi reeleito com quase 300 mil votos, a população deve achar que eu estou fazendo certo", se defendeu Lima.
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Redação Terra
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COMENTANDO A NOTÍCIA: Recadinho ao deputado Geddel: você concorreu ao mandato para trabalhar e cumprir as obrigações que lhe são impostas pela Constituição, e não para vagabundear e ainda fazer pouco caso da crítica merecida. Tenha respeito pelo cargo que ocupa, jutifique o salário que o povo lhe paga, trabalhe em favor daqueles que o elegeram, e acredite, você acabará merecendo o respeito que lhe negamos por não merecê-lo, e adquirirá a moral e a vergonha na cara que lhe estão faltando.

E estão esperando o quê ?

PF já tem elementos para indiciar aloprados
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BRASÍLIA - A Polícia Federal já tem elementos para indiciar os dirigentes petistas, chamados de "aloprados" pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que tramaram a compra e divulgação do dossiê Vedoin, destinado a prejudicar candidaturas tucanas. O indiciamento ocorrerá na próxima etapa do inquérito, que foi entregue esta semana à Justiça Federal com pedido de mais prazo para conclusão das investigações.
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O procurador da República, Mário Lúcio Avelar, informou que hoje dará seu parecer sobre o pedido de prorrogação. Certos do indiciamento, à medida que forem sendo convocados para depor, os petistas seguirão uma estratégia comum de defesa instruída por seus advogados.
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A exemplo do que vêm fazendo na CPI dos Sanguessugas, eles negarão envolvimento na compra do dossiê e se recusarão a responder perguntas que produzam provas contra si, um direito constitucional. Mas não serão presos porque os crimes de que são acusados não são considerados de alto teor ofensivo e eles não representam ameaça à ordem pública ou à instrução do inquérito.
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Segundo a PF, as investigações realizadas nos últimos dois meses são suficientes para indiciar os envolvidos pelo critério de convencimento. A materialidade do crime está fartamente provada com a apreensão de R$ 1,75 milhão em poder dos petistas Gedimar Passos e Valdebran Padilha, num hotel de São Paulo, em 15 de setembro passado.
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Os diálogos telefônicos interceptados com autorização judicial e o cruzamento dos telefonemas trocados entre os envolvidos na tramam também confirmam as suspeitas. Mas a PF acha que pode avançar na coleta de provas materiais nessa terceira fase, que priorizará a linha de que o Diretório Estadual do PT de São Paulo é o responsável pela encomenda do dossiê.
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A hipótese da investigação é que o candidato do PT governo paulista, senador Aloizio Mercadante, era o maior interessado no dossiê, que envolvia o tucano José Serra, seu rival na disputa, com a máfia dos sanguessugas. As investigações comprovaram que o seu coordenador de campanha, Hamilton Lacerda, foi quem levou o dinheiro - R$ 1,75 milhão - da compra do dossiê para os petistas Gedimar Passos e Valdebran Padilha, presos num hotel de São Paulo, em 15 de setembro passado.
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Tão logo a Justiça devolva o inquérito, o delegado Diógenes Curado, titular da investigação, irá a São Paulo ouvir o presidente estadual do PT, Paulo Frateschi, o tesoureiro, Antônio dos Santos, e o coordenador financeiro da campanha do senador Aloizio Mercadante ao governo paulista, José Giácomo Baccarin. Ele também fará diligências na transportadora de valores Transbank, que teria transportado parte dos reais apreendidos com a dupla petista.
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No relatório parcial entregue à Justiça, a PF concentra as suspeitas no PT paulista e poupa a direção nacional do partido e o Planalto. Conforme o relatório, a PF não tem dúvida do envolvimento direto de Lacerda na compra do dossiê. Imagens do circuito interno do Hotel Íbis Congonhas mostram o momento em que ele chega com a mala do dinheiro, apreendido a seguir com os petistas.
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Relatórios da área de inteligência da PF dando conta de que ele teria usado fraudulentamente o telefone da promoter Ana Paula Cardoso Vieira para articular a operação. As investigações da PF reuniram indícios de que os petistas cometeram vários crimes na trama, entre os quais fraude financeira, formação de quadrilha e estelionato.
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O delegado Curado acredita que o dinheiro veio de várias fontes, entre as quais caixa 2 do PT e contribuições de doadores privados e até de contraventores do jogo do bicho. A Petrobras ainda não figura no rol de suspeitas de integrar o pool de financiadores do dossiê, mas a PF pediu mais explicações sobre os telefonemas trocados entre Lacerda e diretores da estatal nos dias que antecederam a prisão dos petistas.
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Entre os seis petistas já listados para indiciamento, cinco são subordinados ao presidente licenciado do PT, deputado Ricardo Berzoini, até agora poupado por falta de provas do seu envolvimento. Além de Gedimar, Valdebran e Lacerda, figura na lista de indiciamentos, o ex-chefe do setor de inteligência do PT, Jorge Lorenzetti, acusado de ser o principal articulador da operação. Estão também Expedito Veloso, ex-diretor do Banco do Brasil, e Osvaldo Bargas.

Pró ... o quê mesmo ???!!!

Chega a 30 mil evasão de estudantes do ProUni
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BRASÍLIA - O Ministério da Educação descobriu que 30 mil estudantes que receberam bolsas do programa Universidade para Todos (ProUni) nos últimos dois anos deixaram a universidade. A evasão no programa, calculada pela primeira vez este ano, alcança 15% e é praticamente igual à das universidades públicas, que alcança 30% em quatro anos.
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A partir deste ano, as instituições que participam do programa passaram a ser obrigadas a informar o que acontece com cada um dos seus alunos, inclusive quem deixou o curso e porquê. As razões ainda estão sendo compiladas pelo Instituto Nacional de Estatísticas e Pesquisas em Educação (Inep) e o ministério pretende analisá-las para saber o que pesa mais nessa evasão.
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Uma das hipóteses levantadas pelo ministro da Educação, Fernando Haddad, é que a evasão seja maior em cursos de ensino a distância, justamente por conta do tipo de estrutura do curso. "É uma das causas a serem investigadas. Talvez o ProUni não seja adequado para ensino a distância por conta da necessidade de um computador conectado a internet", explicou. "Como ele é um aluno de renda mais baixa, talvez ele tenha dificuldade em ter esse tipo de acesso".
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Se a hipótese se confirmar, o ministério poderá excluir esse tipo de ensino do ProUni. Apesar de ser uma parte minoritária das vagas oferecidas pelo programa, o ensino a distância permite o acesso de estudantes que moram no interior do País. "Mas por enquanto ainda é uma suposição", disse o ministro.
Haddad explica que, como o percentual de evasão do ProUni é muito semelhante ao das Federais, é provável que algumas das razões sejam as mesmas: abandono por conta de dificuldades para trocar de curso ou de turno, dificuldades com estruturas dos departamentos, decepção com o curso. "Se fosse o dobro, seria mais preocupante. Aí teríamos que, talvez, pensar em algum tipo de auxílio", afirmou.