sábado, abril 07, 2018

Lula é preso: ex-presidente se entrega à Polícia Federal. Acabou o circo

Guilherme Venaglia
Veja online

"Não sou um ser humano, sou uma ideia", disse ex-presidente mais cedo diante da multidão

(TV Globo/Reprodução)
Ex-presidente Lula sai de carro que o levaria até a Policia Federal 

O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) deixou o Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, em São Bernardo, neste sábado para se entregar à Polícia Federal. Ele saiu do local a pé e cercada por militantes por volta das 18h41 e entrou em um carro da polícia, que aguardava do lado de fora. Mais cedo, o ex-presidente tentou deixar o sindicato em um veículo com o seu advogado, Cristiano Zanin, mas foi impedido por militantes que bloquearam a saída para impedir sua prisão.

O petista tinha uma ordem de prisão contra ele expedida pelo juiz Sergio Moro desde quinta-feira. O magistrado deu a opção para Lula se apresentar às autoridades até as 17h de sexta, mas Lula continuou no sindicato até este sábado, quando afirmou pela manhã que “cumpriria o mandado”.


Condenação

Lula foi condenado a 12 anos e um mês de prisão pelos crimes de corrupção passiva e lavagem de dinheiro.

Ele foi considerado culpado por ter aceitado a promessa e a reforma de um apartamento tríplex no Guarujá (SP), como contrapartida de vantagens indevidas obtidas pela empreiteira OAS em contratos com a Petrobras. Desde quinta-feira, o ex-presidente estava ao lado de apoiadores no Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, em São Bernardo do Campo, onde foi feita em seu apoio uma vigília de manifestantes de movimentos sociais.

Lula participou pela manhã de uma missa em homenagem à ex-primeira-dama Marisa Letícia Lula da Silva, que faria 68 anos neste sábado. O petista não aceitou a oferta do juiz Moro, responsável pelos processos da Operação Lava Jato, para que comparecesse espontaneamente à Superintendência da Polícia Federal, em Curitiba, onde ficará preso.

Ele tinha até as 17h de sexta como prazo, mas decidiu permanecer no sindicato e negociar, através da sua defesa, como seria cumprido o mandado de prisão. Na noite de sexta-feira, o senador Humberto Costa (PT-PE) afirmou a VEJA que as partes haviam entrado em acordo e que o ex-presidente seria preso após o final da solenidade.

Lula na prisão: o tiro de misericórdia na esquerda latino-americana?

Exame.com
Com informações  AFP

"Com escândalos de corrupção, dirigentes na prisão ou crise econômica como no Brasil e na Venezuela, a esquerda vai custar a se recuperar", diz especialista

(Andressa Anholete/AFP)
Ex-presidente Lula: detenção é duro golpe 
para toda uma geração de líderes na região 

Com seus ambiciosos programas sociais, sua visibilidade internacional e sua história fora do comum, Lula se tornou símbolo de uma vitoriosa esquerda latino-americana. Sua detenção seria um duro golpe para toda uma geração de líderes na região.


Como impacta a esquerda?

“É certamente um choque ver que o homem que promoveu mais do que ninguém o surgimento da ‘nova esquerda’ na América Latina, seja enviado para a prisão”, afirma o professor de Ciência Política William LeoGrande, da Washington University, 20 anos depois do começo da maré vermelha que conquistou 15 países da região.

“Lula é o candidato da esquerda reformista, não revolucionária, mais amigável dos mercados. Essa esquerda mais moderada aparece golpeada, derrotada. Porque apostou em seguir o jogo democrático e agora dá a impressão de que essas regras acabam por prejudicá-la (…) O efeito é que vai radicalizar um pouco mais”, estima Patricio Navia, do Centre pour l’Ouverture et le Développement de l’Amérique Latine (CADAL).

O escândalo da Odebrecht, a crise econômica na Venezuela, ou a condenação do ex-presidente Lula (2003-2010) são “episódios (que) reforçam essa ideia de que a esquerda latino-americana terminou mal”, comentou Francisco Panizza, professor de Política Latino-Americana na London School of Economics (LSE).

“Com escândalos de corrupção, dirigentes na prisão, ou crise econômica como no Brasil e na Venezuela, a esquerda vai custar a se recuperar na região”, considerou Panizza.

Novo mártir?

Com seu carisma e sua multidão de fervorosos militantes, o ex-presidente Lula pode continuar agitando a cena política nacional e regional, mesmo atrás das grades.

“Claramente, para muitos movimentos de esquerda, o que aconteceu no caso de Lula é uma perseguição política para tirá-lo de cena. O problema desse argumento é que não sai dos setores de esquerda”, destaca Panizza.

“Para alguns, continua sendo um herói. Quando Lula foi presidente, a vida e as perspectivas dos pobres, dos mais pobres – ‘brasileiros de cor’ – era melhor do que nunca havia sido, com mais trabalho, salários mais altos, mais programas sociais, desenvolvimento da educação”, afirma Peter Hakim, do “think tank” Interamerican Dialogue, em Washington.

Como primeiro presidente brasileiro procedente da classe operária, Lula pôs em marcha grandes programas sociais, aproveitando anos de crescimento no país, lembra o especialista.

Na quarta-feira, o Supremo Tribunal Federal (STF) lhe negou um habeas corpus que poderia ter-lhe permitido seguir em liberdade até esgotar todas as instâncias judiciais, o que poderia ter durado meses, hipotecando seriamente suas chances de voltar à Presidência, enquanto aparece como favorito nas pesquisas para a eleição presidencial.

“O que a Justiça conseguiu foi transformar a eleição de outubro em um referendo sobre Lula”, disse Navia, que também é professor da New York University.

“Penso que poderia ganhar a presidência (se participasse da eleição de outubro), mas não no patamar e com o respeito que já teve. E não acho que, hoje em dia, tenha muito peso fora do Brasil”, avaliou Hakim.


Fim de um ciclo?

Ao ser questionado sobre se a detenção de Lula seria um golpe mortal para a esquerda na região, Hakim conclui que sim.

“A morte de Fidel, o gigantesco fracasso de Chávez e de Maduro, o caudilhismo de Ortega, os finais tristes dos Kirchner e do PT forçaram a esquerda aos níveis mais baixos que me recordo. É difícil imaginar qualquer ressurgimento”, continua.

Para Hakim, “pode haver outro ciclo, mas é difícil ver o que a esquerda tem a oferecer hoje, a menos que se aproxime dos mercados, da gestão econômica e do governo democrático, como no Chile e no Uruguai e, de certa forma, no Brasil, na era Lula”.

Navia relativiza esse cenário: “Não é o fim da esquerda, mas o fim de uma esquerda, a que combateu a ditadura” e a que aproveitou “o boom dos anos de glória” de exportações de matérias-primas na América Latina, em torno dos anos 2000.

“Enquanto as sociedades da América Latina estiverem marcadas pela pobreza, pela desigualdade e pela exclusão social, sempre haverá um desafio ao status quo por parte da esquerda”, considerou LeoGrande.

Guerra pelo futuro

 J.R. Guzzo
Revista VEJA

A verdadeira disputa, em toda essa história, sempre foi para decidir se continuará a mandar no país o sistema que está mandando hoje.

(Jefferson Botega/Agência RBS)
Presunção de inocência é coisa de milionários -
Dos 700 000 brasileiros hoje na cadeia, quase 300 000 são presos provisórios — 
nada de “instâncias”, nem embargos, nem agravos, nem outras tantas tramoias judiciárias para eles 

O Supremo Tribunal Federal, por um triz, acaba de tirar o Brasil de uma descida perigosa, talvez fatal, em direção à desordem imediata. Já não existe aqui há muito tempo um regime que preencha boa parte, talvez a maioria, dos requisitos necessários para merecer a classificação de “democracia”. Mas, se for feito um pouco mais de esforço para piorar as coisas, todos podem ter uma certeza: a democracia brasileira, mesmo essa droga de democracia que ainda há por aí, vai para o espaço. O ex-presidente Lula, com o apoio em peso de tudo o que existe de mais potente na corrupção brasileira, quis um “salve” do STF para invalidar todas as decisões da Justiça que o condenaram até agora — quis receber, oficialmente, um certificado de indulto. Quase levou. Naturalmente, vai continuar tentando, incentivado pela presença na Suprema Corte de ministros que militam abertamente em favor da impunidade. Aposta na confusão, no desmanche progressivo do governo que ele próprio legou ao país e nas “pesquisas eleitorais”. É, cada vez mais, um tudo ou nada.

Na verdade, o que esteve realmente em jogo no STF foi o desfecho de mais um confronto na guerra aberta que existe hoje para controlar o futuro do Brasil. É algo maior do que Lula, ou mais que uma pura e simples questão de justiça — a punição, como manda a lei, dos crimes de corrupção e lavagem de dinheiro pelos quais ele foi condenado a doze anos de cadeia nos dois níveis do Judiciário que o julgaram até o momento. A verdadeira disputa, em toda essa história, sempre foi para decidir se continuará a mandar no país, e a mandar na vida dos cidadãos, o sistema que está mandando hoje. Você sabe muito bem que sistema é esse — e sabe que Lula é, no momento, a figura mais importante para mantê-lo de pé. Trata-se da vasta federação de gangues partidárias, empreiteiras de obras públicas, altos burocratas do Estado, empresas que recebem favores do governo e mais toda a multidão de parasitas que, de uma forma ou de outra, vive à custa dos impostos que você paga dia e noite, e vai pagar até morrer. Essa gente está destruindo o estado de direito democrático no Brasil — quer dividir o país em duas categorias de cidadãos, os que são obrigados a cumprir a lei e os que estão autorizados a não respeitar lei alguma. É, no fim das contas, o grande combo de aproveitadores do Tesouro Nacional, de um lado, e a população brasileira, de outro. Eles operam em áreas diferentes, e têm caras diferentes, mas no conjunto são a mesma coisa e produzem os mesmos desastres.

É isso, exatamente, o Brasil de Lula — uma criatura deformada que foi sendo construída em torno e em cima de nós durante os últimos quinze anos. Ela transformou a democracia brasileira numa imitação degenerada do que deve ser um regime democrático decente — recolheu tudo o que havia de mais maligno na vida pública nacional até Lula chegar à Presidência da República, somou a isso os vícios novos trazidos ao governo pelo PT e produziu o país que aparece aí à sua frente. Esse Brasil de Lula, que hoje está em guerra para sobreviver, é muitas coisas ao mesmo tempo. É, em primeiro lugar, o país da impunidade — onde se quer assegurar ao rico e ao poderoso, que dispõem de dinheiro ilimitado para pagar advogados caríssimos, o direito de cometer crimes e não cumprir, simplesmente, as penas a que foram condenados.

O princípio jurídico pelo qual têm lutado com tanta ferocidade ministros do STF, bandidos de bolso cheio e es-critórios cinco-estrelas de advocacia penal é o seguinte: qualquer criminoso bem apoiado por defensores espertos, mesmo um assassino de crianças, só poderá receber punição se for condenado na “quarta instância”. Isso quer dizer, segundo eles, que é preciso condenar o sujeito quatro vezes seguidas, durante anos a fio, para que ele pague pelo crime que cometeu. Uma aberração como essa não existe, pura e simplesmente, em nenhum país civilizado do mundo — ali um condenado como Lula vai para a cadeia, e pronto. É claro que esse “princípio legal” é apenas uma trapaça para não punir nunca o delito — mesmo porque, depois de anos e anos à espera de uma decisão, ele “prescreve”, ou deixa de ser delito. Nossos altos magistrados ainda insultam a população que lhes paga o salário (mais benefícios) dizendo que a liberdade até a “quarta instância” é um “direito de todos os brasileiros”. É uma mentira grosseira. Quem tem dinheiro para sustentar anos de processo na Justiça? A “presunção de inocência” é coisa privativa de milionário. Dos 700 000 brasileiros hoje na cadeia, quase 300 000 são presos “provisórios” — nada de “instâncias”, nem embargos, nem agravos, nem outras tramoias judiciárias para eles. Os ministros pró-¬Lula, obviamente, querem que todos se lixem. Seu único interesse, do primeiro ao último minuto, foi salvar a impunidade que abençoa a elite brasileira há 500 anos, e da qual Lula é hoje o senhor de engenho número 1.

O Brasil de Lula é um Brasil sem Lava-Jato — a operação judicial que pela primeira vez em toda a história do país prendeu, processou e condenou a penas de prisão dezenas de marginais de primeiríssima potência. São donos de empreiteiras, arquiduques das diretorias supremas da Petrobras e outras estatais, altos executivos de empresas, políticos ladrões, chefes de partidos e toda a subespécie de delinquentes que vêm da mesma sarjeta. A principal atividade da vida deles é roubar o Estado, ou seja, roubar os impostos que você paga; muitos confessaram seus crimes. Que prova melhor que isso alguém pode esperar? Desde 1500 toda essa manada viveu, prosperou e se multiplicou sem ser incomodada; é óbvio que quer continuar assim para sempre. Lula é o pau que segura esse circo. Mas é claro que não está sozinho: sua impunidade ajudaria a impunidade de uma multidão de fora da lei. Alguém notou que praticamente ninguém, num Congresso Nacional com 513 deputados e 81 senadores, abriu a boca para comentar o julgamento do STF? Alguém notou o silêncio geral dos governadores e prefeitos? Por que seria, não? Porque a grande maioria está no mesmo barco de Lula, torcendo para ele, apavorada com a Lava-Jato e disposta a tudo para continuar não apenas fora da cadeia, mas no desfrute da licença oficial que tem para roubar. E o presidente da República, então? Foi enfiado no cargo diretamente por Lula, que o impôs como vice na chapa de Dilma Rousseff; sua calamidade é a calamidade do PT, que até há pouco gritava “Fora, Temer”. Está sendo acusado de crimes rasteiros, nomeia para o seu ministério políticos que têm certificado público de ladrões do Erário — e, obviamente, gostaria muito que os ministros do STF criassem a doutrina jurídica da punição pós-morte, pela qual o indivíduo só poderia ser punido depois de morrer.

Também esteve em julgamento no STF, lutando para sobreviver, o Brasil da farsa. Nesse país de mentira, Lula é apresentado como tudo aquilo que não é. Os “juristas”, por exemplo, sustentam que o ex-presidente é um cidadão que precisa ser protegido das possíveis arbitrariedades da Justiça, como 200 milhões de outros; mantê-lo fora da cadeia, segundo eles, não é nenhum favor pessoal, Deus nos livre e guarde, mas apenas uma decisão corajosa que garante o direito “de todos”. Os cúmplices, os serviçais e os simples devotos de Lula, por sua vez, afirmam que sua condenação não tem nada a ver com o fato de que, segundo decidiu legalmente a Justiça brasileira, ele é um ladrão, culpado dos crimes de corrupção e lavagem de dinheiro. Lula, de acordo com eles, só está com doze anos de cadeia nas costas porque “é o maior líder de esquerda em todo o mundo”. Sendo assim, “o capitalismo” jamais iria permitir que ele continuasse salvando os pobres do Brasil. E a roubalheira alucinante da Petrobras, mais todo o resto do seu governo? E os seus amigos e sócios no poder que confessaram os próprios crimes de corrupção? E os bilhões em dinheiro roubado que devolveram? Não é por aí, jura o Sistema Lula. O único problema do chefe é ser um homem de esquerda.

Esse Brasil da farsa foi criado por anos seguidos de propaganda em massa, toda ela paga com o seu dinheiro — da mesma forma como é o seu dinheiro, e nenhum outro, que está pagando esses honorários monstruosos aos advogados da turma toda, desde Lula até o ladrãozinho mais meia-boca, desses que levam um Land Rover ou uma cozinha equipada e se dão por satisfeitos. Não tem a ver apenas com o presidente — vai muito além. Trata-se do país do trem-bala que não existe, dos metrôs onde as estações para o aeroporto ou para o estádio, por exemplo, ficam a 1 quilômetro do aeroporto ou do estádio, ou das ferrovias que param no meio do nada — enquanto os trilhos já postos são roubados para ser vendidos a peso. É o país do Maracanã, reconstruído para os Jogos Pan-A¬mericanos, depois para a Olimpíada e hoje abandonado — ou do Museu do Ipiranga, o maior de São Paulo, fechado desde 2013 com a promessa de ser reaberto em 2022. Nesse país nenhuma obra pública é feita levando em conta o interesse do público: ou sua função é beneficiar o construtor e os seus cúmplices nos governos, ou então a obra não é construída. O Brasil da mentira, que briga tanto para sobreviver, é o país do “avanço social”, do “resgate dos pobres” e de outras invenções dos governos Lula e Dilma. Até hoje não se sabe de nenhum rico que tenha ficado pobre em qualquer desses dois reinados. Ao contrário, temos 150 000 milionários (em dólares) por aqui, segundo as últimas contas; nenhum outro país da América Latina tem tantos. Quem ganhou mais dinheiro no país das “conquistas sociais”? Marcelo Odebrecht, o empreiteiro-modelo de Lula, ou o miserável do Bolsa Família? Joesley Batista ou o pobre coitado da fila do ônibus? Quem se deu melhor, por causa dos feitos do ex-presidente: os pobres que “começaram a andar de avião” ou a turma que comprou jatinho? O “trabalhador brasileiro” ou Sérgio Cabral, Eduardo Cunha, Geddel Vieira Lima e tantos outros aliados íntimos do Complexo Lula-PT?

A decisão do STF não faz desaparecer esse Brasil do mal — nada, isoladamente, tem a capacidade de fazer tanto. Mas pôs uma barreira, sem dúvida, ao avanço de todos os que querem, através da desmoralização aberta da lei, impedir que este país se torne uma democracia de verdade.

Publicado em VEJA de 11 de abril de 2018, edição nº 2577

Lula soltou o monstro do ódio

 Diego Escosteguy
Revista ÉPOCA

A insubordinação barulhenta do ex-presidente ao estado democrático de direito estimula seus seguidores a desprezar a Constituição

 (Foto: Reprodução/Facebook)
O ex-presidente Lula 

Uma cascata colou como chiclete no debate público brasileiro nos últimos dias. Nela, o ex-presidente Lula não é um cidadão condenado por corrupção, mas uma liderança popular vítima de uma inominável injustiça - de uma caçada política travestida de processo judicial. Não há, contudo, teoria conspiratória e retórica biliosa que resista a um exame detido dos fatos do caso contra ele. Eis uma afirmação que deveria ser incontroversa, vivêssemos em tempos mais racionais: a (primeira) condenação do ex-presidente obedeceu aos princípios largamente garantistes do nosso estado democrático de direito. Respeitou-se o devido processo legal - toda a ampla gama de garantias constitucionais concedidas a qualquer cidadão acusado criminalmente pelo estado. Ao contrário da vasta maioria da população carcerária brasileira, Lula aproxima-se da prisão após um processo examinado rigorosamente por nove dos mais preparados juízes do Brasil, espalhados por três instâncias - além dos ministros da Suprema Corte.

Sua recusa em aceitar a prisão, submetendo-se serenamente à lei, transforma-o num algoz da justiça brasileira. A insubordinação barulhenta de Lula ao estado democrático de direito estimula seus seguidores - e eles são numerosos - a desprezar igualmente a Constituição, o Judiciário e até mesmo as normas de conduta civilizadas que deveriam nortear o comportamento de qualquer cidadão. E, assim, substitui-se a voz legítima de protesto pelas pedras ilegítimas de ataques. Lula soltou o monstro do ódio. Ele já deixou São Bernardo, destruindo os inimigos que encontra pelo caminho. Por enquanto, com palavras e pedras, nas redes e nas ruas. Para imortalizar-se como vítima política, Lula mostrou-se disposto, e nisso não há surpresa, a sacrificar os outros - aqueles que lutam por ele e aqueles que por ele são combatidos.

Relembremos. Houve um processo público. Respeitou-se o direito à ampla defesa. Ao contraditório. O processo teve uma duração razoável. Lula foi tratado com cordialidade ao ser conduzido coercetivamente pela Polícia Federal a depor, no início da investigação, e também meses depois, quando depôs perante o juiz Sergio Moro. Pôde apresentar, diretamente ou por meio de sua defesa, suas razões, em face da acusação do Ministério Público Federal.

Sucessivos juízes, seja na segunda instância, seja na terceira instância, seja na quarta e última instância, no Supremo, analisaram a fundo recursos do petista, assim como seu pedido preventivo de habeas corpus. A discussão deste tomou duas sessões da Suprema Corte do país, e incluiu ministros indicados ao cargo pelo ex-presidente e por sua sucessora, Dilma Rousseff. Nunca houve, na história recente do Brasil, um caso criminal tão examinado, desde a primeira até a última instância. (O mensalão foi julgado somente numa instância, no Supremo.)

Lula e seus aliados, por mais que repitam o trololó da conspiração das elites, nunca ofereceram qualquer evidência da existência dela. Não poderia ser diferente agora, com a prisão iminente do ex-presidente e a consequente necessidade de emplacar a - eta palavra feia que político adora! - “narrativa” de perseguição política. À turma mais radical do PT, a que sobrou para defender Lula, restou gritar “golpe!” a cada cinco minutos, ao lado de cânticos de guerra que mobilizam, pelo ódio aos imaginários conspiradores, a massa de manobra que está correndo às ruas distribuir pancada em jornalistas. Sobrou até para a presidente da Suprema Corte, cujo apartamento foi alvejado por tintas vermelhas, num ataque do MST.

Não há falsa equivalência neste momento; não há dois lados opostos e igualmente culpados recorrendo à violência e ao ódio. Desde a decretação da prisão de Lula, a violência parte de quem defende o ex-presidente - e, sejamos claros, em função das palavras de ordem proferidas pelo petista ou por lideranças sob o comando dele. O ex-presidente esculacha o Judiciário e a imprensa desde que começou a ter problemas com a polícia. Ou seja, há um tempão. Este grave momento que sobressalta os brasileiros, em que não se sabe quando uma ordem de prisão contra o maior líder popular do Brasil será cumprida, oferece apenas a maior das plataformas para palavras que bordejam a violência verbal sejam amplificadas. O monstro aparece em seguida, nos socos dos militantes contra qualquer um e nas pedras contra jornalistas e prédios públicos.  

Uma conspiração - uma concertação nefasta para incriminar e aprisionar um homem inocente - exigiria a participação, ou cumplicidade, de dezenas de funcionários públicos de carreira. Além dos nove juízes das três instâncias e de seis ministros da Suprema Corte, estariam no barco do complô delegados da Polícia Federal, agentes da Receita, procuradores da República e um sem-número de assessores desses profissionais de carreira, distribuídos em diferentes instituições. No mesmo ajuntamento de canalhas, dezenas de jornalistas que acompanharam de perto o caso. Sério?

Segundo Lula, a razão da conspirata promovida, supõe-se, por essa ampla aliança de brasileiros, muitos dos quais nem sequer se conhecem, residiria no sempre citado “ódio das elites” a ele. Que se manifestaria no também mui repetido desejo de impedir o retorno triunfal ao poder do maior líder popular do Brasil. Quais os fatos apresentados por Lula e sua turma para sustentar os motivos desse complô? São desconhecidos como os comprovantes de aluguel do ex-presidente no apartamento de São Bernardo. (Fato: o imóvel foi comprado pela Odebrecht após operações de lavagem de dinheiro, e descontado da conta de propina do PT junto à empreiteiras.)

As palavras de Lula e de dirigentes do PT, repetidas dia após o dia, em palanques físicos e virtuais, mediante slogans repletos de palavras de ordem mas desprovidos de sentido lógico, chocam-se contra a rocha de fatos, provas e bom direito que constituem o processo contra o ex-presidente. São mísseis políticos que prescindem da verdade factual; estão armados de narrativas e ideologias. É um arsenal de octanagem emocional. Daí sua eficácia perante parcela expressiva da população - perante as pessoas que querem, até mesmo precisam, acreditar atavicamente não somente na inocência de Lula, mas em sua messiânica pureza moral.

É assim há quinze anos, independentemente do acúmulo cotidiano de fatos desfavoráveis e até mesmo criminosos envolvendo o petista. Os mísseis são políticos, essencialmente emocionais; a rocha é jurídica, essencialmente racional. Os mísseis não destroem a rocha, mas mantêm os defensores de Lula engajados na luta. A rocha aguenta o impacto dos mísseis, mas nada pode fazer a não ser existir - nunca convencerá quem não se dispõe a ser convencido, a quem não se entrega ao exercício racional do livre pensar e da análise desapaixonada de verdades factuais.

A principal vítima desses ataques não é o Judiciário. São os brasileiros, obrigados a assistir, impotentes, ao violento espetáculo promovido, com impunidade, pelo algoz da Justiça brasileira. O monstro estará nas ruas ao menos até segunda - até que a Polícia Federal execute finalmente o mandado de prisão contra o pai dele.

O corrupto encarcerado

 Eduardo Gonçalves, Laryssa Borges, Hugo Marques e Gabriel Castro
Reevista VEJA

Derrotado no STF e com uma ordem de prisão expedida pelo juiz Moro, o ex-presidente Lula decide não se entregar à PF — mas seu destino é um só: a cadeia

(Amanda Perobelli/Estadão Conteúdo)
Na trincheira - Lula acena da janela do sindicato na tarde de sexta-feira 

A derrota do ex-presidente Lula no Supremo Tribunal Federal (STF) na madrugada de quinta-feira estava sendo encarada com relativa naturalidade. Por 6 votos a 5, os ministros rejeitaram o habeas-corpus preventivo, com base no qual o petista garantiria sua liberdade, e concordaram que o réu, já condenado em duas instâncias, podia ser preso. A defesa de Lula acreditava que ainda teria alguns dias até que a prisão fosse formalizada. Mas na quinta-feira, enquanto o petista e seus advogados discutiam os últimos recursos que poderiam impetrar para adiar a prisão, uma novidade os pegou de surpresa e mudou o curso das coisas: o juiz Sergio Moro anunciou que Lula tinha até as 17 horas de sexta-feira para se apresentar em Curitiba e começar a cumprir sua pena de doze anos e um mês de prisão. Daí em diante, as atenções se concentraram na sede do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC paulista, um prédio de quatro andares, onde Lula se recolheu na quinta e continuava até a noite de sexta-feira, quando VEJA fechou esta edição.

(Caio Guatelli/VEJA)
Em São Bernardo – Apoiadores de Lula defendem a “resistência” 
do petista na frente do Sindicato dos Metalúrgicos 

A cronologia mostra a surpresa do ex-presidente e sua defesa diante da decisão de Moro. Às 17h30 de quinta-feira, o advogado Cristiano Zanin havia afirmado em entrevista coletiva que não via “risco nenhum de prisão” imediata do seu cliente — confiava que os chamados “embargos dos embargos” ao Tribunal Regional Federal da 4ª Região (TRF4) poderiam adiar a medida. Menos de meia hora depois, Moro ordenou o recolhimento do petista. Antes disso, o PT convocara uma manifestação em desagravo ao líder, programada para as 18 horas da sexta-feira, em São Bernardo do Campo. Lula tinha confirmado presença. As expectativas ruíram com a decisão do juiz.

Assim que tomou conhecimento dela, Lula deixou o instituto que leva seu nome e seguiu para o sindicato, onde aliados começaram a pôr em prática a estratégia arquitetada há algum tempo para transformar a prisão do ex--presidente em um ato político e midiático. A escolha do Sindicato dos Metalúrgicos como base da “resistência” não foi casual. Foi como presidente da instituição que ele foi preso em 1980, durante o regime militar. Agora, pretendia ser preso no local, de forma a reforçar o discurso de que foi vítima de uma “prisão política” e produzir imagens politicamente fortes: as da Polícia Federal entrando em seu berço político para prendê-lo na presença da multidão que o apoia.


(Mauro Pimental/AFP)
Em Curitiba – Diante do prédio da Polícia Federal, manifestantes 
pedem a prisão do ex-presidente: “Lula, cadê você?”

Na Justiça, o último obstáculo para o encarceramento de Lula foi superado na madrugada de quinta-feira. Em sessão do STF que durou onze horas, os ministros decidiram que um condenado em segunda instância podia, sim, começar a cumprir pena imediatamente. A favor dessa tese, votaram os ministros Edson Fachin, Alexandre de Moraes, Luís Roberto Barroso, Luiz Fux, Cármen Lúcia e Rosa Weber — essa última, dona do único voto que permanecia uma incógnita. Rosa Weber é, pessoalmente, contra a prisão antecipada, mas, como ressaltou em seu voto, recusou o habeas-corpus de Lula em respeito ao “princípio da colegialidade”. Ou seja: como o plenário do STF havia decidido aceitar a prisão antecipada em julgamento feito em 2016, a ministra entendeu que o colegiado tinha de ser respeitado. Os demais, que são contra a prisão antecipada, parecem estar contra o “princípio da colegialidade”.

Os cinco ministros que votaram a favor do habeas-corpus de Lula são os seguintes: Gilmar Mendes, Marco Aurélio Mello, Ricardo Lewandowski, Dias Toffoli e o decano Celso de Mello. Alguns deles são completamente contra a antecipação da pena, tal como Rosa Weber, porque entendem que a Constituição exige o trânsito em julgado para que alguém seja declarado culpado. Outros até aceitam uma solução intermediária: que a pena comece a ser cumprida depois de uma decisão do Superior Tribunal de Justiça (STJ), uma espécie de terceira instância do Judiciário. Na sessão, Barroso inclusive fez um alerta: se a ideia é autorizar a prisão depois do STJ, que seja logo após a “primeira decisão terminativa” do tribunal. É uma forma de evitar a interposição interminável de recurso depois de recurso, até que o crime prescreva.


(Adriano Machado/Reuters)
A última chance – Por 6 votos a 5, os ministros do STF
 negaram a Lula a concessão do habeas-corpus preventivo 

Num dos momentos mais tensos da sessão, o ministro Gilmar Mendes, que era firmemente favorável à antecipação da pena em 2016, e agora é firmemente contra, denunciou as pressões sobre o STF, sobretudo da imprensa, a que chamou de “mídia opressiva”, que vem, segundo ele, chantageando os magistrados. Gilmar Mendes não disse nada sobre a pressão descabida provocada pelo comandante do Exército, Eduardo Villas Bôas, que na véspera postara uma mensagem em rede social dizendo que o Exército se alinhava ao lado dos que lutam “contra a impunidade”. Coube ao ministro Celso de Mello responder à pressão do general.

Encerrada a sessão do STF, a defesa de Lula passou a discutir suas estratégias para adiar a prisão por alguns dias. Consumiu a quinta-feira em debates sobre o que fazer, até ser surpreendida pela decisão de Moro. Na sexta-¬feira, recolhido à sede do sindicato dos metalúrgicos, Lula não anunciou se se entregaria ou não até as 17 horas. Deixou que o prazo estourasse, enquanto os militantes se reuniam em torno do sindicato e em outros pontos do país. Até a noite de sexta, houve manifestações em 24 estados e no Distrito Federal em favor da liberdade de Lula. Em cinco estados, também houve manifestações pela sua prisão.


(Cristiano Mariz/.)
Voto decisivo – Rosa Weber: fiel da balança, a ministra 
manteve incógnita sua opinião até o último minuto 

Na verdade, Lula não anunciou sua decisão porque a questão estava longe de ser um consenso. No sindicato, ouviu conselhos sobre o que fazer. Advogados sugeriram ao petista acatar a ordem de Moro, com o argumento de que qualquer coisa que parecesse insubordinação à determinação judicial poderia dificultar recursos futuros. Já amigos e parlamentares, como Lindbergh Farias e Gleisi Hoffmann, pediam “resistência”. Do lado de fora do sindicato, o clima era tenso. Nos carros de som, as palavras de ordem incluíam “Cadeia para Moro” e “Vamos transformar o país em um caldeirão”. Manifestantes lançaram ovos contra jornalistas e um carro da Bandnews teve os vidros quebrados. Na frente do Instituto Lula, ocorreu o incidente mais grave. Um manifestante anti-Lula xingou aos gritos o senador Lindbergh Farias e foi agredido a socos e pontapés por militantes da CUT e um ex-vereador do PT.

Até a noite de sexta-feira, integrantes da cúpula do PT e da Polícia Federal continuavam a negociar os termos para levar Lula à prisão. Quando se concluiu que nem a Polícia Federal iria até o sindicato prender Lula nem Lula iria até a sede da Polícia Federal se entregar, a possibilidade mais forte passou a ser que tudo se resolvesse no sábado. A ideia era que Lula se entregaria depois da missa pelo aniversário de sua mulher, Marisa Letícia, prevista para a manhã de sábado. Ao mesmo tempo que negociava com a polícia, a defesa do ex-¬presidente entrou com um pedido de liminar no STF semelhante ao que já havia sido negado pelo STJ — para que Lula não seja preso antes do julgamento das ações declaratórias de constitucionalidade (ADCs) que discutem a prisão após a condenação em segunda instância. Do lado de fora do sindicato, diante do racha entre advogados favoráveis à imediata apresentação de Lula à polícia e políticos que achavam que ele deveria se manter onde estava, um grupo de manifestantes passou a gritar: “Lula, não ouça seus advogados, ouça a militância!”.

Publicado em VEJA de 11 de abril de 2018, edição nº 2577

As provas contra Lula: 3 mil evidências, 13 casos e R$ 80 milhões em propina

Diego Escosteguy
Revista ÉPOCA

As investigações apontam pagamentos em dinheiro, depósitos bancários e imóveis – para o ex-presidente e para parentes

 (Foto: Wilton Junior/Estadão Conteúdo/AE)
AS PROVAS CONTRA LULA 
ÉPOCA analisou cerca de 3 mil evidências contra o ex-presidente. 
Elas indicam que o petista recebeu mais de R$ 80 milhões do cartel 
do petrolão, em dinheiro, depósitos bancários e imóveis – para si e para parentes 

No fim da tarde de uma segunda-feira recente, o ex-¬presidente Luiz Inácio Lula da Silva subiu ao palco de um evento organizado pelo PT em Brasília. Empunhou sua melhor arma: o microfone. Aos profissionais da imprensa que cobriam o evento, um seminário para discutir os rumos da economia brasileira, o ex-presidente dispensou uma ironia: “Essa imprensa tão democrática, que me trata maravilhosamente bem e, por isso, eu os amo, de coração”. Lula estava a fim de debochar. Não demorou para começar a troça sobre os cinco processos criminais a que responde na Justiça. Disse que há três anos ouve acusações sem o direito de se defender, como se não tivesse advogados. “Eu acho que está chegando a hora de parar com o falatório e mostrar prova. Eu acho que está chegando a hora em que a prova tem de aparecer em cima do papel”, disse, alterado. Lula repetia, mais uma vez, sua tática diante dos casos em que é réu: sempre negar e nunca se explicar. E prosseguiu: “Eu quero que eles mostrem R$ 1 numa conta minha fora desse país ou indevida. Não precisa falar que me deu 100 milhão, 500 milhão, 800 milhão... Prove um. Não estou pedindo dois. Um desvio de conduta quando eu era presidente ou depois da Presidência”. Encerrou o discurso aplaudido, aos gritos de “Brasil urgente, Lula presidente!”.

A alma mais honesta do Brasil, como o ex-presidente já se definiu, sem vestígio de fina ironia, talvez precise consultar seus advogados – ou seus processos. Há, sim, provas abundantes contra Lula, espalhadas em investigações que correm em Brasília e em Curitiba. Estão em processos no Supremo Tribunal Federal, em duas Varas da Justiça Federal em Brasília e na 13ª  Vara Federal em Curitiba, aos cuidados do juiz Sergio Moro. Envolvem uma ampla e formidável gama de crimes: corrupção, lavagem de dinheiro, organização criminosa, crime contra a Administração Pública, fraude em licitações, cartel, tráfico de influência e obstrução da Justiça. O Ministério Público Federal, a Polícia Federal, além de órgãos como a Receita e o Tribunal de Contas da União, com a ajuda prestimosa de investigadores suíços e americanos, produziram, desde o começo da Lava Jato, terabytes de evidências que implicam direta e indiretamente Lula no cometimento de crimes graves. Não é fortuito que, mesmo antes da delação da Odebrecht, Lula já fosse réu em cinco processos – três em Brasília e dois em Curitiba. Também não é fortuito que os procuradores da força-tarefa da Lava Jato, após anos de investigação, acusem Lula de ser o “comandante máximo” da propinocracia que definiu os mandatos presidenciais do petista, desfalcando os cofres públicos em bilhões de reais e arruinando estatais, em especial a Petrobras.

A estratégia de Lula é clara e simples. Transformar processos jurídicos em campanhas políticas – e transformar procuradores, policiais e juízes em atores políticos desejosos de abater o maior líder popular do país. Lula não discute as provas, os fatos ou as questões jurídicas dos crimes que lhe são imputados. Discute narrativas e movimentos políticos. Nesta quarta-feira, dia 10, quando estiver diante de Moro pela primeira vez, depondo no processo em que é réu por corrupção e lavagem de dinheiro, acusado de receber propina da OAS por meio do tríplex em Guarujá, Lula tentará converter um ato processual (um depoimento) num ato político (um comício).

Se não conseguir desviar a atenção, saindo pela tangente política, Lula terá imensa dificuldade para lidar com as provas – sim, com elas. Nesses processos e em algumas investigações ainda iniciais, todos robustecidos pela recente delação da Odebrecht, existem, por baixo, cerca de 3 mil evidências contra Lula. Elas foram analisadas por ÉPOCA. Algumas provas são fracas – palavrórios, diria Lula. Mas a vasta maioria corrobora ou comprova os crimes imputados ao petista pelos procuradores. Dito de outro modo: existe “prova em cima de papel” à beça. Há, como o leitor pode imaginar, toda sorte de evidência: extratos bancários, documentos fiscais, comprovantes de pagamento no Brasil e no exterior, contratos fajutos, notas fiscais frias, e-mails, trocas de mensagens, planilhas, vídeos, fotos, registros de encontros clandestinos, depoimentos incriminadores da maioria dos empresários que pagavam Lula. E isso até o momento. As investigações prosseguem em variadas direções. Aguardem-se, apesar de alguns percalços, delações de homens próximos a Lula, como Antonio Palocci e Léo Pinheiro, da OAS. Renato Duque, ex-executivo da Petrobras, deu um depoimento na sexta-¬feira, dia 5, em que afirma que Lula demonstrava conhecer profundamente os esquemas do petrolão. Existem outras colaborações decisivas em estágio inicial de negociação. Envolvem crimes no BNDES, na Sete Brasil e nos fundos de pensão. Haja prova em cima de papel.

Trata-se até agora de um conjunto probatório, como gostam de dizer os investigadores, para lá de formidável. Individualmente e isoladas, as provas podem – apenas – impressionar. Coletivamente, organizadas em função do que pretendem provar, são destruidoras; em alguns casos, aparentemente irrefutáveis. Nesses, podem ser suficientes para afastar qualquer dúvida razoável e, portanto, convencer juízes a condenar Lula por crimes cometidos, sempre se respeitando o direito ao contraditório e à ampla defesa – e ao direito a recorrer de possíveis condenações, como qualquer brasileiro. Não é possível saber o desfecho de nenhum desses processos.

Ainda assim, os milhares de fatos presentes neles, na forma de provas judiciais, revelam um Lula bem diferente daquele que encanta ao microfone. As provas jogam nova luz sobre a trajetória de Lula desde que assumiu o Planalto. Assoma um político que conheceu três momentos distintos. O primeiro momento deu-se como um presidente da República que decidiu testar os limites do fisiologismo e clientelismo da política brasileira. A partir de 2003, e com mais força em 2004, Lula começou a agir para beneficiar, em atos sucessivos, empreiteiras e grandes grupos empresariais, por meio de homens de confiança em postos--chave no governo. Era, naquele momento, um político cujas campanhas e base aliada eram financiadas, comprovadamente, com dinheiro de propina desses mesmos empresários – entre outros. Era um político que caíra nas graças do cartel de empreiteiras que rapinava a Petrobras e comprava leis no Congresso.

O segundo momento sobreveio entre 2009 e 2010, conforme o tempo dele no poder se aproximava do fim – e, com Dilma Rousseff como sucessora, todos, em tese, continuariam a prosperar. Nesse ponto, assomou um político que, pelo que as provas e depoimentos indicam, passaria a viver às custas das propinas geradas pelo cartel que ajudara a criar. Entre 2009 e 2010, o cartel, em especial Odebrecht e OAS, passou a se movimentar para assegurar que Lula e sua família tivessem uma vida confortável. Faziam isso porque, como já explicaram, deviam propina ao ex-presidente e, não menos importante, pela expectativa de que ele usasse sua influência junto a Dilma Rousseff para manter o dinheiro do governo entrando nas empresas – como fez, de fato, em algumas ocasiões.

Nesse período de final de mandato, houve uma série de operações fraudulentas e clandestinas, comandadas pelo cartel, que resultaram na multiplicação do patrimônio de Lula. Usaram-se laranjas e intrincadas transações financeiras para esconder a origem do dinheiro dos novos bens do ex-presidente. Mas, hoje, esses estratagemas foram descobertos, com fartura de provas, pelos investigadores. Da Odebrecht, Lula ganhou o prédio para abrigar seu instituto, um apartamento em São Bernardo do Campo, onde mora até hoje, e a reforma de um sítio em Atibaia que, todas as provas demonstram, pertence ao petista, e não é somente “frequentado” por ele. Da OAS, ganhou o famoso tríplex em Guarujá, assim como as reformas pedidas por ele – o apartamento só ficou pronto após a Lava Jato, de modo que não houve tempo para que Lula e família se mudassem para lá. A mesma OAS passou a bancar o armazenamento do acervo presidencial do petista. Todas essas operações – todas – foram feitas clandestinamente, para ocultar o vínculo entre Lula e as empreiteiras. Todas foram debitadas do caixa de propinas que Lula mantinha junto às empreiteiras.

Além de dar moradia a Lula, as empreiteiras passaram a bancar o ex-presidente e sua família, além de pessoas próximas. Havia, segundo as provas disponíveis, pagamentos de propina da Odebrecht a um dos filhos do presidente, a um irmão dele, a um sobrinho e a Paulo Okamotto, presidente do Instituto Lula e um dos assessores mais próximos de Lula. Havia pagamentos em dinheiro vivo e, em alguns, casos, por meio de empresas – como a de um filho e a de um sobrinho. Havia, ainda, os pagamentos à empresa de palestras de Lula e ao próprio Instituto Lula. Na maioria dos casos, segundo as evidências, não se tratava de doação ou contratação para palestras, embora essas tenham acontecido em alguns casos. Trata-se de propina disfarçada de doação.  Até que a Lava Jato mudasse tudo, Lula e seus familiares receberam, de acordo com as evidências disponíveis e se obedecendo a um cálculo conservador, cerca de R$ 82 milhões em vantagens indevidas – bens ou pagamentos ilegais.

O terceiro momento de Lula, aquele que as provas revelam com mais nitidez,  precipita-se em março de 2014, quando irrompe a Lava Jato. O petista, que sabia o que fizera e intuía o potencial da operação, preocupou-se. É esse Lula preocupado – quiçá desesperado – que aparece nos processos de obstrução da Justiça. Que, segundo depoimentos e documentos, tenta destruir provas. Tenta, em verdade, destruir a Lava Jato, para por ela não ser destruído. Há semanas, dias antes do discurso de Lula em Brasília, a voz rouca de Léo Pinheiro sacudira Curitiba. Diante do juiz Sergio Moro, Léo Pinheiro expunha segredos guardados por anos. “Eu tive um encontro com o presidente, em junho... bom, isso tem anotado na minha agenda, foram vários encontros.” Era 20 de abril e Léo falava de um encontro mantido há quase três anos, em maio de 2014, quando a Lava Jato começava a preocupar. “O presidente, textualmente, me fez a seguinte pergunta: ‘Léo’, e eu notei até que ele estava um pouco irritado, ‘você fez algum pagamento a João Vaccari no exterior?’. Eu disse: ‘Não, presidente, nunca fiz nenhum pagamento dessas contas que nós temos com Vaccari no exterior’. ‘Como é que você está procedendo os pagamentos para o PT?’. ‘Através do João Vaccari. Estou pagando, estamos fazendo os pagamentos através de orientação do Vaccari, caixa dois e doações diversas que nós fizemos a diretórios e tal’. ‘Você tem algum registro de algum encontro, de conta, de alguma coisa feita com o João Vaccari com você? Se tiver, destrua. Ponto. Acho que quanto a isso não tem dúvida’.”

Lula, como Renato Duque confirmou em depoimento a Moro na sexta-feira, estava se mexendo para descobrir quanto estava sob risco. No depoimento, Duque, que fora indicado pelo PT e pelo próprio Lula à Diretoria de Serviços da Petrobras, destruiu o antigo chefe. Disse, como Léo Pinheiro, que Lula “tinha o pleno conhecimento de tudo, tinha o comando”. Referia-se ao petrolão. Nas últimas semanas, Duque e o ex-ministro Palocci disputavam quem fecharia antes um acordo de delação premiada, em busca de pena menor. Ambos pretendiam entregar informações sobre Lula, pois suas defesas detectaram que a Lava Jato queria mais elementos para cravar que o então presidente não só sabia da existência, como comandava o esquema de corrupção na Petrobras. Palocci recuou duas ou três casas em sua negociação, após a libertação do ex-ministro José Dirceu. Duque aproveitou para avançar. Disse que encontrou Lula pessoalmente três vezes. “Nessas três vezes ficou claro, muito claro para mim, que ele tinha pleno conhecimento de tudo, tinha o comando”, disse Duque. No último encontro, em 2014, segundo Duque, Lula perguntou se ele tinha recebido dinheiro na Suíça da holandesa SBM, fornecedora da Petrobras. Duque diz que negou. Lula, então, perguntou: “Olha, e das sondas? Tem alguma coisa?”. Lula se referia a negócios da Sete Brasil, a estatal criada para turbinar o petrolão. Duque afirma que mentiu a Lula ao dizer que não tinha. Ouviu do então presidente, de saída do cargo: “Olha, presta atenção no que vou te dizer. Se tiver alguma coisa, não pode ter, entendeu? Não pode ter nada no teu nome, entendeu?”.

No ano seguinte, Lula prosseguiu em sua tentativa desesperada de sabotar a Lava Jato. Em maio de 2015, o então senador Delcídio do Amaral foi à sede do Instituto Lula, em São Paulo. Àquela altura, líder do governo no Senado, Delcídio era um interlocutor frequente de Lula sobre a situação precária do governo Dilma no Congresso, mas, principalmente, sobre o avanço da Lava Jato em direção ao coração petista. Na conversa, Lula se disse preocupado com a possibilidade de seu amigo, o pecuarista José Carlos Bumlai, ser engolfado pela operação. Delcídio percebeu que fora convocado para discutir o assunto. Avisou que Bumlai poderia ser preso devido às delações do lobista Fernando Baiano e do ex-diretor da Petrobras Nestor Cerveró. Delcídio também tinha medo disso, pois recebera propina junto com Cerveró. Então, contou a Lula que, quatro meses antes, recebera um pedido de ajuda financeira de Bernardo, filho de Cerveró. Delcídio afirma que Lula determinou que era preciso ajudar Bumlai.

Assim, Delcídio passou a trabalhar. Dias depois, encontrou-se com Maurício, filho de Bumlai, e “transmitiu o recado e as preocupações de Lula”. Maurício topou a empreitada: era preciso bancar as despesas com advogado e sustentar a família para “segurar” a delação de Cerveró e, assim, tentar salvar o pai de Maurício. Nos meses seguintes, Maurício Bumlai entregou R$ 250 mil em espécie a um assessor de Delcídio, em encontros em São Paulo. O dinheiro era levado depois à família Cerveró. Quando, em setembro, ÉPOCA publicou que Cerveró fechara um acordo de delação, Maurício interrompeu os pagamentos. Em novembro de 2015, Delcídio foi preso, por ordem do Supremo, por tentar obstruir a Lava Jato.



Por meio de nota, o Instituto Lula afirma que “não há nenhum” ato ilegal nas delações dos executivos da Odebrecht e que as delações não são provas, mas “informações prestadas por réus confessos que apenas podem dar origem a uma investigação. Por enquanto, o que existe são depoimentos feitos aos procuradores, a acusação, divulgados de forma espetacular”. Sobre a “conta Amigo”, a nota afirma ser “a mais absurda de todas as ilações no depoimento de Marcelo Odebrecht”. “Se for verdadeiro o depoimento, Marcelo Odebrecht teria feito, na verdade, um aprovisionamento em sua contabilidade para eventuais e futuras transferências ou pagamentos. A ser verdadeira, trata-se, como está claro, de uma decisão interna da empresa. Uma ‘conta’ meramente virtual, que nunca se materializou em benefícios diretos ou indiretos para Lula.” Sobre a ajuda da Odebrecht a Luís Cláudio, um dos filhos de Lula, o Instituto Lula afirma que “mesmo considerando real o relato de delatores que precisam de provas, Emílio Odebrecht e Alexandrino Alencar relatam que a ajuda para o filho de Lula iniciar um campeonato de futebol americano foi voluntária e após diversas conversas e análises do projeto”. Sobre a mesada de R$ 5 mil que a Odebrecht pagou por anos a Frei Chico, irmão do ex-presidente, a nota afirma que “não só Lula não pediu, como não foi dito que Lula teria pedido”. Afirma que o principal assessor de Lula, Paulo Okamotto, “negou ter recebido qualquer ‘mesada’ de Alexandrino Alencar”. O Instituto diz que a Odebrecht não inventou Lula como palestrante e que “as palestras eram lícitas e legítimas”.



Militantes agridem jornalistas no sindicato onde Lula está em São Bernardo

Ricardo Galhardo e Paula Reverbel
 O Estado de S.Paulo

Repórteres da 'CBN' e do 'Estado' foram insultados por apoiadores do ex-presidente; líderes tiveram que intervir

Foto: Ricardo Galhardo/Estadão
Repórter é agredido no Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, onde Lula está 

Um grupo de militantes cercou e insultou o repórter Pedro Duran, da rádio 'CBN', do Grupo Globo, no Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, onde o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva se encontra desde quinta-feira, 5. Grades foram atiradas contra o jornalista, que teve que ser protegido pelo deputado federal Carlos Zarattini (PT-SP) e seus seguranças. Duran foi colocado num elevador para se refugiar. Um repórter do Estado também foi agredido por um apoiador de Lula enquanto apurava informações.

Os líderes da CUT e do MTST, Vagner Freitas e Guilherme Boulos, tentaram acalmar os manifestantes, mas o clima é pesado no local. Um grupo de jornalistas está cercado na área da agressão e não consegue sair. 

O repórter chegou com identificação de imprensa da CBN pela porta do estacionamento. Estava rodeado de vários outros jornalistas sem identificação. A multidão começou a gritar palavras de ordem contra a Rede Globo e se deslocou atrás do repórter.

Zarattini conseguiu se colocar no meio antes que eles chegassem ao repórter. Houve empurra-empurra e ele foi levado até a parte de acesso restrito. Seguranças dizem que o removeram do predio.
As agressões a jornalistas têm sido recorrentes nas manifestações contra a prisão de Lula. Houve registros em São Bernardo e em Brasília. Um carro do Correio Braziliense foi apedrejado na capital federal e um fotógrafo do Estado foi atingido por ovos na cidade do ABC paulista. 

Lula e o blefe do ‘me chama que eu vou’

BR18
O Estado de São Paulo

Um dos aspectos reveladores da novela da prisão de Lula é desmentir, dois anos depois, o  discurso do petista de que sua condução coercitiva para depor foi truculenta, pois bastaria ele ser convocado que compareceria de livre e espontânea vontade.

Agora Sergio Moro avisou antes. Publicamente. Deu a Lula 24 horas. Ele não foi.  / V.M.

Cumpra-se a lei

Editorial 
Folha de São Paulo

Como em outros processos, prisão de Lula se inscreve na plena normalidade republicana

Nelson Almeida/AFP
O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva na CUT (Central Única 
dos Trabalhadores), em São Paulo, em janeiro deste ano 

Em meio às previsíveis manifestações de seus partidários mais inconformados, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) preferiu não cumprir o prazo que lhe foi concedido pelo juiz Sergio Moro para apresentar-se à sede da Polícia Federal em Curitiba. 

Sem constituir desobediência a ordem judicial, sua atitude reflete um cálculo político que corresponde mais, nesta altura, à expectativa da militância petista do que ao efeito que possa ter no conjunto da opinião pública. 

Ainda que sejam intensas e díspares as emoções que o fato suscita, a prisão de Lula segue um protocolo republicano que transcende as significações ideológicas e as paixões partidárias de que se tenta revesti-lo, com doses negligenciáveis de provocação.

Não se sustenta, é óbvio, a versão lulista de que tudo se reduz a uma perseguição política contra um líder de origem operária.

Também foram atingidos por decisões judiciais e ordens de prisão, nestes anos de Lava Jato, figuras como Paulo Maluf, Eduardo Cunha, Sérgio Cabral, Marcelo Odebrecht, Valdemar Costa Neto ou Geddel Vieira Lima, a quem não se podem atribuir compromissos históricos com a luta sindical ou a defesa dos excluídos.

Nem mesmo existe beneficiário claro, nos meios políticos mais tradicionais, das ondas de combate à corrupção que produziram, nos últimos anos, desalento e revolta no eleitorado nacional.

Tampouco é o caso de confundir a derrota judicial do ex-presidente —fundamentada em provas consistentes de corrupção, condenações em duas instâncias e habeas corpus negados nos tribunais superiores— com o julgamento dos valores ideológicos que ele representou com destaque indisputado. 

De outro lado, o senso de irrealidade que se configura na atitude dos lulistas encontra paralelo na euforia persecutória, claramente seletiva, de setores que identificam nas bandeiras vermelhas e num fantasmagórico comunismo as únicas origens da indecência nos costumes políticos do país.

A disputa entre liberais e estatistas, entre redistributivismo e competitividade, entre dispêndio e austeridade, se dá —e continuará a dar-se, não importando os candidatos que se apresentem em outubro— num campo distinto do que, agora, ocupa as emoções gerais.

A democracia, o debate, a alternância de poder prosseguem e se aperfeiçoam quando a lei é respeitada e seus infratores, depois de exercerem seu pleno direito de defesa, são punidos.

Afora uma pequena parcela de militantes, tomados pelo inconformismo ou pelo ódio, a sociedade tem maturidade, e se mostra serena, para resolver os seus conflitos e problemas. A corrupção é um deles —e o progresso brasileiro, neste ponto, se confirma mais uma vez.

A força da Lava Jato

Editorial
O Estado de S.Paulo

Ao mandar para a cadeia um homem tão poderoso e influente como o chefão petista, a operação exibe um vigor que deixará preocupados muitos dos que ainda têm contas a acertar com a Justiça

A ordem de prisão contra o ex-presidente Lula da Silva elevou a Lava Jato a um novo patamar. Ao investigar, processar, julgar, condenar e mandar para a cadeia um homem tão poderoso e influente como o chefão petista, a operação exibe um vigor que certamente deixará preocupados muitos dos que ainda têm contas a acertar com a Justiça em razão de envolvimento na rapinagem do Estado. Ao mesmo tempo, a Lava Jato atinge em cheio o coração do maior esquema de corrupção da história do Brasil, pois foi sob o governo de Lula da Silva que o PT e seus associados – ou, mais apropriadamente, cúmplices – estruturaram o assalto à Petrobrás e a outras estatais, transformando todos os contratos públicos em potencial fonte de recursos para os partidos e para seus abonados caciques.

Recorde-se que o processo que resultou na condenação de Lula pode ser considerado marginal quando se levam em conta os bilhões de reais desviados no monumental escândalo da Petrobrás. O petista foi condenado pelo juiz federal Sérgio Moro por ter ocultado a propriedade de uma cobertura triplex num condomínio no Guarujá, recebida como propina paga pela OAS – uma das empreiteiras aquinhoadas com contratos no esquema do petrolão.

Pode-se dizer que o apartamento foi apenas um mimo em agradecimento ao franqueamento da Petrobrás à pilhagem. Mas, a exemplo do que aconteceu com Al Capone, o célebre gângster americano que foi preso não em razão de suas inúmeras atividades criminosas, mas sim por sonegação de impostos, o caso do triplex, que rendeu a ordem de prisão contra Lula, está muito longe de resumir o papel do ex-presidente no petrolão.

Não se pode perder de vista que tanto o esquema de corrupção no Congresso apelidado de mensalão como o que abriu os cofres da Petrobrás aos ladravazes associados ao governo petista faziam parte de um plano muito bem articulado de manutenção do lulopetismo no poder.

No caso do mensalão, o então presidente Lula veio a público, em agosto de 2005, para se dizer “traído” por “práticas inaceitáveis das quais nunca tive conhecimento”, referindo-se à compra de deputados para engrossar o apoio ao governo. Lula se disse “indignado”. Se já era difícil acreditar nas palavras do presidente naquela oportunidade, o estouro do escândalo do petrolão, em 2014, tornou praticamente impossível admitir, mesmo por hipótese, que Lula não soubesse que, sob sua Presidência, a principal empresa brasileira estava entregue a saqueadores, entre os quais, principalmente, o PT. Mais do que isso: à medida que avançavam as investigações da Lava Jato, foi ficando cada vez mais claro que tal esquema só ganhou essa dimensão porque Lula da Silva o viabilizou. O triplex no Guarujá e outras gentilezas pagas por empreiteiros camaradas – propinas que devem render novas e ainda mais pesadas condenações a Lula – foram apenas a gorjeta, pois o grande prêmio que Lula queria era outro: transformar o Estado em propriedade do PT.

Com esse espírito, enquanto durou o mandarinato lulopetista, o céu parecia ser o limite para a tigrada, que tratou de aparelhar todas as instituições para assegurar a tranquilidade dos operadores do grande arranjo liderado por Lula da Silva. Quando a Lava Jato ousou romper essa formidável couraça, expondo ao País a roubalheira e levando os principais responsáveis ao banco dos réus – entre os quais gente muito poderosa do mundo empresarial e político –, não se acreditava que essa ousadia fosse suficiente para atingir o Grande Líder. Mas esse dia, afinal, chegou – e os petistas mal escondem a decepção com os ministros do Supremo Tribunal Federal que, embora tenham sido nomeados por Lula e por Dilma Rousseff, votaram contra os interesses do ex-presidente – mas a favor do interesse público.

O desfecho do caso de Lula mostra que a Lava Jato, malgrado os exageros messiânicos de alguns de seus integrantes, dispõe de força suficiente para atingir o objetivo de fazer criminosos graúdos pagarem pelo que fizeram – mesmo que entre eles esteja aquele que se considera o mais importante brasileiro vivo.

A prisão do demiurgo de Garanhuns

André Vargas, Tábata Viapiana, Rudolfo Lago e Ary Filgueira
Revista ISTOÉ

Lula transforma ordem para se entregar num espetáculo deprimente de afronta à Justiça, ao refugiar-se num QG sindical em São Bernardo do Campo e montar um cordão humano para impedir o acesso da PF ao local. Tudo para adiar o inevitável: a ida para trás das grades

(Crédito: MIGUEL SCHINCARIOL)
OCASO DE UMA ESTRELA
Cercado por militantes, Lula se refugia
 no Sindicato dos Metalúrgicos e zomba da Justiça 

Às 22h de sexta-feira 6, Lula ainda estava entrincheirado na sede do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, em São Bernardo do Campo, usado como bunker de resistência à ordem de prisão expedida na quinta-feira 5, às 17h53, pelo juiz Sergio Moro. O prazo para ele se entregar à Polícia Federal em Curitiba tinha vencido às 17h. Mas Lula tornava a afrontar a Justiça. Ao contrário do que aconteceria com qualquer preso comum no Brasil, Lula passou a ditar as regras de sua própria rendição. Escalou advogados e até o ex-ministro da Justiça, José Eduardo Martins Cardozo, para negociar os termos da prisão já decretada. Até o final da noite, ele se recusava a se entregar e exigia participar no sábado 8 às 9h30 de uma missa em homenagem à sua esposa Marisa Letícia, falecida em fevereiro do ano passado.


(Crédito:Avener Prado)
COMEÇA O ESPETÁCULO 
Manifestantes petistas se aglomeraram em vigília para pedir que Lula resista

O evento religioso seria realizado na própria sede do sindicato. Só depois da missa, o petista cumpriria a determinação judicial – um acinte, por óbvio. O ex-presidente também se recusava a ir para Curitiba, onde a PF havia preparado uma sala especial, com todas as regalias, para que ele pudesse começar a cumprir a pena de 12,1 anos de prisão. Batia o pé para permanecer em São Paulo, numa cela especial do Estado Maior da PF. Um espetáculo deprimente e inconcebível. No final da noite, a Polícia Federal informou que Lula não seria preso na sexta-feira 6.

Suéter à Morales

Durante as mais de 30 horas em que permaneceu refugiado no sindicato, dirigido por ele há 40 anos, Lula envergando um suéter ao estilo bolivariano de Evo Morales usou milhares de militantes como uma espécie de cordão humano para impedir o acesso da PF ao local. Ele chegou por volta das 19h de quinta-feira 5 na entidade. Virou a madrugada no interior do prédio, ao lado de sindicalistas. Dormiu na sala 207, no segundo andar, com banheiro privativo. Acordou às 7h e tomou banho no local. À medida que os trabalhadores chegavam para exigir que ele reagisse à voz de prisão, o petista saía na janela, acenava e mandava beijos.

Aproveitava também para abraçar efusivamente os amigos, como o ex-chefe de gabinete de seu governo, Gilberto Carvalho, que também o estimulou a resistência. Em dado momento, sugeriu que os trabalhadores cercassem o sindicato para impedir a entrada dos policiais. Petistas mais radicais, como a senadora Gleisi Hoffmann, presidente do PT, e o senador Lindbergh Farias, pediam para ele não se render. Gleisi chegou a dizer que a PF teria que prender todos os trabalhadores, se quisesse enviar Lula para trás das grades. Mais um teatro de absurdos, com a conivência da Justiça, que até aquele momento parecia contemporizar.

Teatro dantesco

Foto: Nelson Antoine


Foto: Divulgação
ATAQUE À CARMEN
Apartamento onde a presidente do STF mora virou alvo de petistas



Foto: Avener Prado/Folhapress



Foto: Adriano Machado



Foto: Rogério Gomes
FESTIVAL DE HORRORES
Manifestante pedindo a prisão de Lula é jogado ao chão e sofre traumatismo craniano. No Sindicato do ABC e em várias outras capitais, foram realizados atos a favor do petista condenado por corrupção. Estradas chegaram a ser bloqueadas por manifestantes no Paraná



Foto: Zanone Fraissat 
DE GREVISTA A CORRUPTO 
Lula foi preso pela primeira vez no dia 19 de abril de 1980
 por liderar greves, mas 38 anos depois é detido por corrupção

Como um demiurgo, o petista passou o dia sendo paparicado pelos sindicalistas-companheiros. Às 15h30, lhe serviram o lanchinho da tarde, com pão de mortadela. Para beber, apenas suco. Lá fora, o cliam era de final de Copa do Mundo. Os metalúrgicos recebiam caixas e mais caixas de cerveja, além de carne para um farto churrasco. Mas como todo grande circo armado pelo PT e congêneres, depois do café Lula simulou que estava passando mal. Foi atendido pelo médico Gustavo Johnem, alegando pressão alta. “Ele está muito emocionado, é diabético”, disse o médico, que mandou um enfermeiro ficar de prontidão com um desfibrilador. Fazia parte do enredo, pois as 17h se aproximavam e ele já ensaiava um problema qualquer de saúde para não ser levado preso, algo que tem sido cada vez mais frequentes entre políticos condenados à cadeia. Depois o petista deu início a uma pantomima de idas e vindas, com o lamentável beneplácito da Justiça. Primeiro, disse que iria fazer um pronunciamento. Recuou. Horas depois, voltou a cogitar a possibilidade de descer ao carro de som, instalado defronte ao sindicato, para discursar. Até às 22h, a possibilidade havia sido descartada.

A tropa de choque

  BOLIVARIANOS
Vestido com o casaco que ganhou de Evo Morales,
Lula ainda resistia à prisão ao lado de Boulos, Dilma, Gleisi e Marinho


JUS SPERNIANDIS 
Termo jurídico em latim para rotular quem esperneia para não ser preso f
oi o pano de fundo usado pelos petistas para reagir


IMPICHADA 
A ex-presidente Dilma chega ao Sindicato dos Metalúrgicos e
 aproveita para anunciar sua candidatura ao Senado por Minas Gerais

Desde a noite anterior, a Polícia Federal e a Polícia Militar de São Paulo monitoravam os arredores do sindicato, medindo os ânimos e o risco de confrontos sérios. A tropa de choque da PM aguardava na Rodovia Anchieta, a poucos quilômetros dali. Viaturas da PF estacionaram nas imediações do sindicato com agentes dispostos a entrar no bunker petista a qualquer momento. Os policiais chegaram a planejar como seria o resgate do líder petista. Para executar a prisão, foi aventada a hipótese de uma invasão aérea. Recuaram, no entanto, temendo uma cena de confronto com os milhares de manifestantes ali presentes.

Um helicóptero chegou a fica de prontidão no aeroporto de Congonhas para o caso de Lula se entregar. A ideia era levar o petista de jatinho até o aeroporto Afonso Pena de Curitiba. Lá um novo helicóptero aguardava a chegada do ex-presidente para levá-lo até a sede da PF. Como Lula, até o final da noite de sexta-feira 6, não havia se rendido, os planos foram adiados. Enquanto os protagonistas encenavam mais uma farsa dantesca, os advogados do PT ingressavam com uma série de pedidos de habeas corpus nos tribunais superiores. No início da noite, o ministro Félix Fischer, do Superior Tribunal de Justiça, negou um novo recurso, apresentado na manhã de sexta 6 pela defesa do ex-presidente condenado.
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Violência petista

O clima de confronto, provocado novamente pelo PT, desencadeou uma onda de violência em todo o País. Jornalistas e manifestantes contrários a Lula foram agredido por integrantes de movimentos sociais, como MTST e MST. O caso mais grave ocorreu na frente do Instituto Lula, na quinta 5, quando um homem sofreu traumatismo craniano durante um confronto iniciado em meio a chegada do senador Lindbergh Farias (PT-RJ) ao local. Àquela altura, Lula já havia saído do Instituto que leva o seu nome. A vítima foi empurrada por um petista não identificado e bateu a cabeça na caçamba de um caminhão que passava na rua. Ela teve que ser operada no Hospital São Camilo, situada nas proximidades. O caso foi registrado no 16º distrito Policial como lesão corporal. Segundo o último boletim médico, a situação da pessoa agredida era grave. Na mesma noite, repórteres e fotógrafos encarregados da cobertura da prisão de Lula sofreram agressões. Na sede da CUT, em Brasília, 30 manifestantes depredaram um carro do jornal Correio Braziliense. Um cinegrafista do SBT e um fotógrafo da agência internacional Reuters também foram hostilizados. Em São Bernardo do Campo, um fotógrafo da agência Estadão Conteúdo Nilton Fukuda foi atingido por ovos. A cena foi filmada e foi parar nas redes sociais. O agressor vestia camiseta da CUT. Entidades jornalísticas, como Abert, Abraji, Aner e ANJ, repudiaram as agressões. “Inaceitável”, disse a Abraji em nota.

A ousadia petista chegou a sugerir a paralisação do País em protesto contra a prisão de seu maior líder. No Paraná, mais de 360 trechos de rodovias estaduais e federais foram bloqueados por militantes da CUT e do MST. Mas ficou por isso mesmo. As ações não prosperaram em outras regiões. O atentado mais insolente ocorreu na tarde de sexta-feira 6. Três ônibus da CUT pararam em frente ao prédio onde reside a presidente do Supremo Tribunal Federal, ministra Cármen Lúcia, em Belo Horizonte, e jogaram tinta vermelha nas paredes externas, manchando a fachada. Conforme o coordenador do MST em Minas, Silvio Netto, o protesto foi uma forma de mostrar que os trabalhadores estavam dispostos a lutar. “Cármen Lúcia se tornou a inimiga número um dos mineiros”, disse. Segundo o movimento, cerca de 450 sem-terra participaram da manifestação.
Santificado por quê?


AFETO 
Lula queria uma estátua em sua homenagem em São Bernardo. 
Enquanto protelava o momento de sua prisão, recebeu apoio de admiradores

Cela especial

Se as exigências de Lula forem frustradas e ele for levado para Curitiba, na sede da PF, o petista será acomodado numa sala especial com 15 metros quadrados e banheiro privativo, normalmente utilizada por agentes da PF de outros estados em missões no Paraná. No local, um beliche foi retirado para a colocação de uma mesa e cadeiras. Uma cama simples foi mantida. O cômodo não possui grades, tem janela voltada para o corredor e dispõe de câmeras internas, com monitoramento e guardas na porta por 24h.

Em Curitiba, Lula ficará completamente separado dos demais presos, que ocupam a carceragem no segundo andar. Na sede da PF, estão outros sete investigados da Lava Jato, entre eles o ex-ministro Antonio Palocci e o ex-presidente da OAS Léo Pinheiro. Lá, o petista terá direito a duas horas diárias de banho de sol, em momento distinto dos demais presos. A intenção é realmente evitar que o ex-presidente tenha contato com outros detentos. Outra regalia: o presidiário não precisará usar uniforme, como é usual no sistema prisional, e comerá a mesma marmita servida na carceragem. As visitas dos advogados são autorizadas quase que diariamente. Eles poderão levar livros, roupas, cobertores e alguns alimentos. Tudo será inspecionado por policiais federais antes da entrada na sala especial. As visitas de parentes acontecerão às quartas-feiras. De acordo com o chefe da equipe de custódia e escolta da PF de Curitiba, Jorge Chastalo: “A sala é simples, mas tranquila e agradável, bastante humanizada”. Lula começa a experimentar uma vida de detento, mas com um tratamento bem melhor do que o dispensado aos demais. Uma tradição à brasileira.

A primeira prisão de Lula


 Divulgação

Em 19 de abril de 1980, há exatos 38 anos , Lula, então líder sindical à frente de uma greve de metalúrgicos na região do ABC, foi preso e levado ao Dops, em São Paulo, onde ficou 31 dias detido por ter sido enquadrado na Lei de Segurança Nacional. Era o auge do regime militar. A greve organizada por ele, que presidia o Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, onde desta vez se entrincheirou, tinha como objetivo a reposição salarial e redução de jornada. Ao desafiar os militares, o ex-presidente estava ciente de que poderia ir para prisão a qualquer momento. Chegou a ser orientado a deixar o País, mas não quis. Foi preso no 17º dia da paralisação. Na época, outras 12 pessoas do movimento sindical também foram presas. Lula chegou a ser condenado por “incitação à desobediência coletiva das leis”, mas, pouco tempo depois, o Superior Tribunal Militar (STM) anulou todo o processo. Em depoimento na Comissão Nacional da Verdade, em 2014, Lula afirmou que sua prisão foi uma motivação para a greve continuar. Na cadeia, Lula ficou sob a vigilância do então delegado Romeu Tuma, que nunca maltratou o ex-presidente no cárcere. Pelo contrário, o petista foi liberado até para ir ao enterro da mãe, Eurídice Ferreira de Mello, a dona Lindu.

O sexto presidente brasileiro preso

Na história do País, quatro ex-presidentes da República foram presos após deixar o cargo. Apenas Washington Luís foi detido em pleno exercício do mandato


Lula é o sexto ex-presidente brasileiro a ser preso e o primeiro a cumprir pena por um crime comum. Ao longo da história do País, quatro ex-presidentes foram condenados após deixar o cargo. O marechal Hermes da Fonseca (1855-1923) permaneceu encarcerado por seis meses por decisão do então presidente Epitácio Pessoa. Em 1932, durante a Revolução Constitucionalista, Arthur Bernardes (1875-1955) ficou detido por dois meses. Outras duas prisões de ex-presidentes aconteceram no período de exceção do regime militar. Juscelino Kubitschek (1902-1976) foi detido em 13 de dezembro de 1968, dia de emissão do Ato Institucional Número 5 (AI-5). Passou nove dias em um quartel e um mês em prisão domiciliar.

Jânio Quadros (1917-1992) também foi detido em 1968. Passou 120 dias encarcerado em Corumbá (MS). Apenas Washington Luís (1869-1957), da foto ao lado, foi detido ainda no exercício da função. Deposto pela Revolução de 1930 e forçado a abandonar o Palácio Guanabara, no Rio de Janeiro. Viveu anos no exílio antes de retornar ao País.