segunda-feira, outubro 09, 2006

Comentando o debate na Band

Na semana passada, contido na pesquisa DATAFOLHA, a primeira do segundo turno, um dado chama a atenção: Alckimin está herdando boa parte dos votos consagrados à senadora Heloísa Helena no primeiro turno, havendo empate nos votos dados à Cristovam Buarque.

Isto representa dizer que, boa parcela dos votos que Heloísa Helena recebeu no primeiro turno, foram muito mais em protesto à Lula e a campanha insípida de Alckimin do que por alguma conotação programática. Há sem dúvida uma grande parcela da população brasileira, mesmo aquela beneficiada pelo programa social de Lula chamado “Bolsa Família”, que não se conforma e não concorda com o conteúdo do governo Lula. Primeiro, porque muitos já eram beneficiados da ampla rede de proteção implantada por Fernando Henrique. Aliás, rede que permitia avanços sociais expressivos e que Lula abandonou, razão pela qual seu bolsa família é eleitoreiro por excelência.

Segundo, porque consagra aquilo que sempre se disse em relação aos brasileiros pobres: sua grande maioria é feita por gente decente, que quer a dignidade do emprego, e não a esmola paternalista. Ser pobre não significa não ter escrúpulos. A pobreza aqui é a condição econômica, e não a pobreza do espírito.

Terceiro, Lula recebeu o país preparado para crescer. Mas sua eleição se deu sob o manto de implementar reformas no plano econômico que o discurso de 25 anos sempre defendeu. Não fez. Outra promessa, a de estabelecer o valor da ética na administração pública, vê-se ficou também só no discurso. E até pelo contrário. O que já era ruim, ficou pior. Os serviços públicos pioraram, as reformas não aconteceram, e a mentira virou sinônimo de Lula. E a mentira é algo que o povo brasileiro não perdoa para seu presidente, ele até a compreende nos políticos tradicionais. Acostumou-se a elas, mas para o primeiro mandatário é indesculpável.

Acredito que tais informações tenham servido de norte para o comportamento de Alckimin no debate de ontem, na Band. Sabe-se que 30% do eleitorado será petista ferrenho mesmo que vejam Lula de arma em punho atirando em alguém. Outro terço, será sempre liberal e democrata, for formação e por convicção. Há um terço sobrando, e foi para este eleitorado que Alckimin deu o tom. E vale repetir aqui o que já afirmamos diversas vezes: há uma grande parcela da população brasileira que até não se manifesta, mas que se mantém indignada por um governo que teima em vender um país que não existe. O Governo Lula, apenas naquilo que copiou e manteve do governo FHC conseguiu safar-se, no restante foi de uma incompetência dolorosa. E no debate da Band Lula deixou patente isto, por mais que se esforçasse em dizer ou provar o contrário. O Governo Lula existe apenas na publicidade, o Brasil real foi abandonado e sucateado como na área da Saúde.

Lula e o PT subestimaram Alckimin. Achavam que poderiam enrolar e sair-se bem. Enganaram-se. E mais uma vez cometeram a insanidade de plantar terrorismo eleitoral. Não tivesse Lula, leviana e irresponsavelmente afirmado em palanques na Bahia, Rio, Pernambuco e em emissoras de rádio que Alckimin eleito faria privatizações da Petrobrás, Caixa Econômica, Banco do Brasil e Correio, além de desempregar servidores públicos e reduzir-lhes salários, talvez não tivesse alimentado o tucano com a munição e a fúria de ontem. Ao tentar enrolar, Lula piorou e a tal ponto que, desafiado, apequenou-se e fugiu do assunto.

Houve vencedor ? Sim, Alckimin ganhará a simpatia de boa parcela dos simpatizantes de Heloisa Helena pela atitude de protesto ao governo Lula. Se nos próximos debates puder ser claro nas propostas para melhorar a vida dos brasileiros, atingirá outra camada da população ansiosa por mudanças que agreguem melhor qualidade de vida aos brasileiros. O programa na televisão deverá contemplar esta exigência.

Houve perdedor ? Lula, por certo. Percebeu que tem pela frente um adversário disposto a vencer a eleição, que além da formação e da inteligência, tem capacidade de argumentação dado seu alto grau de informação (essencial para qualquer debate). Mostrou-se fraco e enrolador, evasivo e dissimulado. Aprendeu que ele, Lula, precisará muito mais para derrotar ao tucano.

E o eleitor ? Para aqueles indecisos que se inclinavam para definir seu voto, por certo, o debate faz deste eleitor alguém que ainda aguardará o restante da campanha: a não ser os petistas convictos, e liberais de carteirinha, os demais por certo sabem que há dois, e não apenas um candidato na corrida presidencial. O restante da campanha exigirá de ambos novas posturas, novas costuras políticas, e a definição de propostas claras para atender aos graves problemas que afligem o povo brasileiro. Se Lula, pela contundência de Alckimin, tentar resvalar para o terreno do terrorismo eleitoral, tática aliás que já vem adotando desde 02 de outubro, abandonando a linha que agora se exige que é a propositiva, tenderá a cometer um erro estratégico que lhe custará a reeleição.

O resultado do debate na Band foi a de ter dado o pontapé inicial da campanha do segundo turno. A estratégia é mostrar ao eleitor quem tem as melhores propostas. Não basta o discurso do continuísmo, porque por certo há muita coisa que precisava ser corrigida, e muitas reformas que exigem prioridade. Alckimin, neste particular, leva enorme vantagem sobre Lula: sua atuação como governador foi consistente. Já Lula, precisará mostrar um Brasil mais real e menos ufanista. Em resumo: a corrida está aberta, apesar de que Lula com uso intenso que fez da máquina federal e dos recursos do Tesouro, sua vantagem inicial é pequena demais para quem já se proclamava eleito 30 dias antes do primeiro voto no primeiro turno. As próximas pesquisas deverão demonstrar ainda mais este equilíbrio com Alckimin, e no primeiro round desta luta, que foi o debate na Band, Lula foi quase a nocaute. Precisará mudar sua estratégia. E, por que não dizer, precisará aprender a conviver com o contraditório, sempre presente nas democracias, e a abandonar a mentira como arma política de sedução do eleitorado.
Além disto, acredito que o formato proposto pela Band deveria ser copiado pelas demais emissoras. Houve sim uma liberdade para que os candidatos atuassem com amplitude, e pudessem marcar e registrar seus estilos. Cada um pode escolher seus temas, seus enfoques e suas proposições como melhor lhes aprouvessem. E isto foi enriquecedor. Apesar dos ataques terem sido a tônica maior, e até se compreende, acreditamos que o formato permite uma troca de idéias que não deixa os debatedores engessados e sem o direito de escolher temas livres e de interesse maior. Não compete aos departamentos de jornalismo das emissoras de televisão quererem condicionar quais assuntos sejam de interesse do eleitor ou mesmo dos candidatos. Quanto mais amplo o debate melhor avaliação permitirá para o eleitor fazer sua escolha. Que Record, SBT ou Globo possam mirar-se no formato apresentado pela Band. Nós eleitores agradeceremos muito.

Imagens do debate na Band