Adelson Elias Vasconcellos
Um editorial do Estadão (vide abaixo) traz como título um alerta e ao mesmo tempo faz uma recomendação: O BNDES terá de ser mais rigoroso nas aplicações.
Colocação correta. Vimos ontem num artigo da jornalista Mirian Leitão para o Globo, a descrição do mundo obscuro em se encontram mergulhado BNDES e Petrobrás. Aliás, bancos públicos e estatais, regra geral, comportam-se de maneira totalmente fora do controle da sociedade. Atenção: não é pelo fato de serem estatais que as leis não se aplicam a uma e a outra. Pelo contrário: justamente por serem quem são, a transparência deveria permear as tomadas de decisões do BNDES e Petrobrás.
No caso específico do BNDES, então, os órgãos de controle da administração federal deveriam acompanhar e cobrar maior transparência na concessão de financiamentos. Por utilizar recurso público, os critérios deveriam seguir critérios rigorosos para sua aprovação, e não apenas para acarinhar os amigos do reino.
Uma das empresas que mais foi agraciada com financiamento do BNDES ao grupo JBS, a holding controladora do Frigorífico Friboi, hoje considerado quiçá a maior processadora de carnes do mundo.
Foi a partir da aquisição de plantas frigoríficas espalhadas mundo afora, sempre bancada com os generosos recursos justamente do BNDES, que o grupo se consolidou. E, coincidência das coincidências, esta porteira se abriu de maneira hospitaleira a partir de 2005, no primeiro mandato do ex-presidente Lula. Para que se tenha um a pequena ideia desta “colaboração”, o FRIBOI já recebeu em curtíssimo espaço de tempo o montante de R$ 8,1 bilhões em empréstimo e subscrição de debêntures, estas concedidas a partir do momento em que o grupo atingiu o limite de sua capacidade de endividamento, tornando-se credora e ao mesmo tempo sócio do grupo JBS.
Ao longo dos últimos anos, o BNDES ajudou o Friboi a comprar empresas no Brasil e no exterior. Mas pecuaristas se queixam de que o excesso de concentração prejudica a atividade e reduz as margens de lucro dos fazendeiros. Mas não vou entrar neste detalhe por ora. É tema para outro momento.
É claro que o BNDES também concedeu diversos financiamentos para diferentes empresas, porém, nenhum se compara em volume e risco ao que o Grupo JBS se beneficiou.
Ora, se os financiamentos se deram para o crescimento do grupo, sua expansão mundial para aquisição de outros frigoríficos para elevar sua capacidade de processamento ao ponto de se tornar líder mundial em seu segmento, se os critérios para a concessão se deram por motivos técnicos, atendendo os limites que a capacidade econômica-financeira do grupo permitia aprovar, nada a ver. A expansão de empresas ou a instalação de novas plantas é missão do próprio banco, apoiando o crescimento do país para geração de empregos e renda. Se nos atermos aos empresários brasileiros, dada a combinação perversa de inúmeros fatores que compõem o chamado Custo Brasil, é natural a busca por financiamentos em razão da escassez de recursos próprios parta bancar novos empreendimentos ou expansão e ampliação dos já existentes.
Contudo, o caixa do BNDES não cai do céu, tampouco se presta a benemerência e filantropia. Daí a importância de seus técnicos e diretores em seguir critérios rigorosos para a concessão de financiamentos, uma vez que seus recursos provém do Tesouro Nacional, ou seja, são fruto de endividamento que mais tarde serão resgatadas pelos investidores mediante remuneração atrativa e compensadora.
Mas no caso do FRIBOI creio ser necessária uma reavaliação não dos critérios, mas das reais necessidades do grupo em tomar novos empréstimos dado que recursos próprios parece não faltar aos seus diretores conforme veremos a seguir, para aplicação em outros fins que não sejam a expansão ou até a manutenção de sua atividade fim.
Seguem, em sequência, duas notícias editadas pelo jornal digital Brasil 247, sobre o aumento do patrimônio pessoal de dois de seus principais acionistas. Voltaremos em seguida para comentar.
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Junior, do JBS Friboi, compra iate de luxo para passeios em Miami
Sócio do BNDES, José Batista Junior, do Grupo JBS FRIBOI, adquire por US$ 15 milhões iate de 140 pés; se o banco estatal decidisse vender sua participação no grupo, perderia mais de R$ 2 bilhões
Foto: Edição/247
Goiás 247 – Sócio do BNDES, o empresário goiano José Batista Junior comprou por US$ 15 milhões um iate de 140 pés exclusivamente para zarpar pelas ondas que cercam Miami, conforme revela o jornalista Lauro Jardim na coluna Radar, da revista Veja. Júnior integra o Conselho de Administração do JBS-Friboi, o maior frigorífico no setor de carne bovina do mundo e líder de mercado no Brasil e na Argentina.
De acordo com o jornal Valor, se o banco decidisse vender a participação no grupo, perderia R$ 2,21 bilhões. Perdas do BNDESPar, braço de participações do BNDES, com o investimento direto nos maiores frigoríficos do Brasil chegam a R$ 2,56 bilhões. Trata-se do valor do prejuízo caso decidisse vender, a preços de mercado, as ações de JBS, Marfrig e BRF-Brasil Foods.
Mais de R$ 8,1 bilhões, cerca de 85% do total, estão alocados no capital da JBS. O quinhão do BNDES na companhia está avaliado em apenas R$ 5,88 bilhões. Em entrevista recente, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso afirmou que o BNDES tem feito transferência de renda para cima, tornando ainda mais ricos os empresários com bom trânsito no banco.
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Joesley, também do JBS Friboi, compra apê de luxo em NY
Sócio do BNDES, Joesley Batista, do grupo JBS FRIBOI, adquire por US$ 15 milhões apartamento na Olympic Tower, se o banco estatal decidisse vender sua participação no grupo, perderia mais de R$ 2 bilhões
Goiás 247 – Talvez seja competição entre dois irmãos prósperos, que foram escolhidos pelo BNDES para receber aportes bilionários. Na mesma semana em que Lauro Jardim noticiou, em Veja, a compra de um iate de US$ 15 milhões por José Batista Júnior, para passeios em Miami, Guilherme Barros publicou, na Istoé Dinheiro, que Joesley Batista também está desembolsando US$ 15 milhões para fazer uma comprinha nos Estados Unidos.
Como os gostos são distintos, Joesley preferiu um apartamento na Olympic Tower, em Nova York. Trata-se de um dos endereços mais caros do mundo, com vista para o Central Park.
Nesta semana, o jornal Valor publicou um estudo apontando que os investimentos bilionários do BNDES no grupo JBS Friboi já se desvalorizaram em R$ 2,2 bilhões.
****** COMENTANDO A NOTÍCIA:
Ora, se os dois principais sócios do Grupo podem se dar ao luxo de adquirirem iate de luxo em Miami e apartamento também de luxo, em Nova Iorque, é sinal de que ou o dinheiro do BNDES está desviado para outros fins, ou o grupo JBS está muito resolvido financeiramente para poder dispensar a concessão de novos financiamentos.
É vital para a credibilidade da própria instituição, auditar de perto o modo como os recursos concedidos estão sendo aplicados. O que não pode é um banco estatal conceder empréstimos com dinheiro público para a iniciativa privada e ver parte destes recursos sendo empregados para aumento de patrimônio pessoal de seus diretores. Isto configura crime, até porque, ao contrário do que informa o 247, estes dois sócios não são acionistas do BNDES coisíssima nenhuma. O BNDES é que se tornou acionista em pouco mais de um terço do capital do grupo. E por mais esta razão, o BNDES deve fiscalizar o destino que está sendo dado ao dinheiro cuja liberação foi aprovada para sua aplicação em atividade empresarial.
Com a palavra o senhor Luciano Coutinho que, como um diligente administrador público, já deve ter procurado saber a origem dos recursos aplicados em patrimônio dos diretores do FRIBOI. Até porque a bolsa BNDES, como ficou conhecida, tem um enorme custo para o Tesouro, uma vez que seus financiamentos são concedidos a juros subsidiados.
Para encerrar: o grupo JBS tem sido um dos maiores doadores de dinheiro para o PT, principalmente na campanha de reeleição de Lula e, em 2010, para a campanha de Dilma Rousseff. É de se esperar que o favorecimento de um lado não esteja intimamente ligados ao favorecimento de outro. Aliás, já tem parlamentar denunciando o esquema amigo conforme denunciou o deputado federal Ernandes Amorim (PTB):
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A política pública em prática do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (Bndes) é do “cinismo”, afronta ao mercado livre, com fomento explícito e comemorado ao cartel de frigoríficos, em detrimento dos pequenos e médios que estão indo à bancarrota. O desabafo é do deputado federal Ernandes Amorim (PTB), ao repercutir lucro líquido de quase R$ 100 milhões, no primeiro trimestre deste ano, do grupo JBS Friboi, após intervenção do banco oficial.
O parlamentar diz ter requerido vários pedidos de investigações de favorecimento do Bndes ao cartel de frigoríficos no país, liderado pelo JBS Friboi, hoje maior empresa de carnes do mundo graças “aos mimos” do banco, mas esbarra em obstáculos. “Não sei se pelo apoio dado a caixa de campanha do partido do presidente Lula, conforme denunciado pela mídia nacional, no patrocínio inclusive de um filme sobre a história do presidente, só sei que a coisa não anda. E o que se vê, a cada dia, é o dinheiro do trabalhador favorecendo um grupo antes falido, que com as injeções contínuas em épocas certas, domina o mercado de carne e já parte para investimentos até na usina de Belo Monte, e os pequenos e grandes ficam reféns desse cartel”, reclama Amorim.
A “mágica” é simples, de acordo com o parlamentar. Recentemente o JBS Friboi colocou à venda um pacote de dois milhões de debêntures no valor de R$ 3,48 bilhões, e como não houve interesse do mercado, o BNDES comprou 99,9 % dos papéis através da BndesPar, empresa de participações do banco. Nessa “brincadeirinha” o Bndes já “torrou” dos recursos do trabalhador ao menos R$ 7,5 bilhões só com a Friboi, estima Amorim.
Esse “afago” do Bndes, segundo Amorim, tem sido criticado também pela Associação Brasileira de Frigoríficos (Abrafrigo), que vê como “exagero” a intervenção do banco. “Porque esse interesse de investir maciçamente em apenas uma empresa. Existem várias no mercado, os pequenos e médios, pois os ditos grandes já foram engolidos pelo Friboi após as benesses do Bndes. É esse grupo sozinho que dita às regras do mercado, preço do boi e da carne e limita as opções de venda dos criadores. É essa a política pública do Bndes que temos questionado, mas parece que estão todos anestesiados. Não podemos nos render a isso e, o pior, sendo custeado e promovido pelo governo com recursos que originariamente deveriam ser empregados em outros empreendimentos”, afirma o parlamentar.



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