quinta-feira, dezembro 23, 2010

Caos aéreo: o prêmio que Lula mereceu

Adelson Elias Vasconcellos

Mesmo que a greve estivesse apenas anunciada, era perceptível desde há alguns dias, que os brasileiros usuários dos aeroportos nacionais, iriam viver momentos difíceis no final do ano, com confusão, atrasos, cancelamentos, desorganização e toda a sorte de desgraça que um apagão aéreo é capaz de proporcionar.

Ontem,. Lula estava desesperado para que o caos de final de ano não se repetisse agora, justo no momento em que ele termina seu reinado. Mas creio que, por tudo o que o seu governo aprontou, desde o primeiro mandato, na aviação brasileira, melhor prêmio Lula não mereceria levar neste apagar das luzes.

Assim, se é um presidente que precisava sofrer com o apagão aéreo este é Lula. Desde a sua vigarista intromissão na Varig, de cuja má ação resultou o fechamento daquela empresa, o sistema foi prô espaço. Não só isso. Vimos ao longo do tempo, o quanto o governo deixou de investir, muito embora o recurso estivesse previsto em orçamento, nas melhorias e capacidade de atendimento à crescente demanda.

Naquilo que se investiu, tirando os puxadinhos que demonstram a pouca atenção que o assunto mereceu, deu-se mais cuidado na ampliação das áreas comerciais dos aeroportos, do que na ampliação da área de atendimento aos passageiros e do sistema de carga.

Além disto, a superposição de funções em diferentes órgãos sobrepostos, levou confusão em uma área onde a disciplina sempre foi excelente. Aliás, o modo PT de governar sempre foi o de criar confusão naquilo que funciona. É a incompetência o grande rótulo que caracteriza que, alguém do PT, fez o que não devia e se intrometeu onde não deveria.

Lula não poderia encerrar seu reinado sem viver estes momentos gloriosos provocados por um governo que jamais deu atenção devida ao sistema aeroportuário. São mais de 300 cadáveres em dois históricos acidentes em que a imagem de Marco Aurélio Top-Top Garcia, de forma imbecil – para não se dizer coisa pior -, comemora uma notícia que aliviaria a culpa do governo Lula no acidente da TAM em São Paulo, é talvez a cena mais ignóbil que este governo poderia deixar do caos aéreo que ele construiu, alimentou, provocou e jamais conseguiu resolver.

Sem dúvida, trata-se de uma medalha de honra ao demérito, Lula encerrar seu reinado em pleno apagão aéreo redivivo. E esta conquista ninguém lhe pode negar nem tirar. Claro que os brasileiros nada tinham que pagar pela desídia federal. Mas a marca há de ficar na cabeça de todos. Afinal, 2014 não está tão longe assim. A conquista da crise aérea, gravem isto, é toda de Lula, e de ninguém mais.

A Zelite e o mensalão: preparem-se,Lula vai dizer que 2 + 2 são 5

Bolívar Lamounier, Exame.com

Uma das “missões a que o presidente Lula pretende se devotar em 2011 é “desmistificar” a história do mensalão. Pelo menos foi isso o que ele prometeu ao ex-deputado José Dirceu, denunciado pelo Procurador-Geral da República como “chefe da organização criminosa” que teria remunerado parlamentares em troca de votos e apoio ao governo.

Como todo brasileiro, tenho enorme curiosidade em saber o que Lula de fato pretende fazer, se vai mesmo voltar a esse assunto e, sobretudo, qual é afinal seu entendimento a respeito do mensalão. Vai dizer que nada houve? Vai reiterar a doutrina Tomás Bastos, segundo a qual o que houve foi o trivial caseiro, aquilo que todo mundo faz? Ou vai fundo na tese que vem recitando ultimamente – a de que foi vítima de uma tentativa de golpe?

Enquanto esperamos as respostas de Sua Excelência, creio ser útil rememorar o episódio e como ele foi interpretado.

Tendo acompanhado os fatos pela televisão e pela imprensa, eu não tenho dúvida de que a crise de 2005-2006 revelou os meandros de um vasto esquema de corrupção e fez descer pelo ralo o papel de guardião da ética que o PT se autoatribuíra.

Quando surgiram, em meados de 2005, as acusações foram previsivelmente rechaçadas por porta-vozes do PT como simples “denuncismo”, “moralismo” ou “udenismo”, mas essa linha de defesa mostrou-se ineficaz frente à maré montante da corrupção que veio à tona.

Se nada acontecera, por que então um grupo de parlamentares petistas foi flagrado chorando pelas câmaras de TV? Por que Duda Mendonça e sua mulher apareceram esbaforidos no Congresso, ansiosos por prestar depoimento, senão para minimizar suas perdas e se livrarem de tão incômoda companhia ? O que foi que uma empresa viu de tão atraente em Silvinho, a ponto de presenteá-lo com um veículo de alto preço, e o que teria distraído Jose Genoíno, à época presidente do partido, a ponto de ele assinar uma promissória sem consciência de que o fazia?

Inviabilizada a estratégia da simples negação, arquitetou-se a da conspiração. Por trás daquele bafafá, haveria supostamente uma conspiração das elites para derrubar Lula e o governo petista. Urdida nos meandros do petismo, a teoria da conspiração das elites foi acolhida até por Marilena Chauí, professora titular da USP, e pelo próprio Luís Inácio, que a mencionou em declaração feita no Uruguai no dia 10.12.2005.

No correr dos meses, a conspiração foi elevada à condição de explicação oficial, senão do governo, certamente do partido.

Mas quem participava de tal conspiração e que interesse teria na derrubada do presidente? Estas indagações permanecem sem resposta, não tendo os que porta-vozes do partido e do governo em nenhum momento ido além de alusões à oposição, à imprensa e às “elites conservadoras”.

Na parte que se refere a Lula, é no mínimo estranho um presidente da República encampar – e portanto, de certo modo, oficializar – um afirmação como essa, manifestamente irresponsável. Se ele chegou mesmo a dar mais que um tostão furado por ela, por que não cumpriu o seu dever, remetendo formalmente o assunto aos órgãos policiais e judiciais competentes?

Tratemos primeiro da conspiração e depois das elites.

Em seu “A Sociedade Aberta e seus Inimigos”, Karl Popper concisamente disseca as chamadas teorias conspiratórias. Explica que elas “…consistem em atribuir a ocorrência de um fato indesejado à ação oculta de algum grupo interessado em que tal fato ocorra”. Uma singeleza intelectual de dar dó, como se vê ; mas o pior, ainda segundo Popper, é que esse gênero de teoria envolve um grave risco : o de algum partido que o leve a sério chegar ao poder e deflagrar uma contraconspiração com o objetivo de eliminar inexistentes conspiradores.

Os suspeitos de sempre – agindo em proveito próprio ou a mando das “elites”, do “capital financeiro” e assemelháveis – em geral incluem os judeus (como no caso Dreyfuss e mais tarde no nazismo ) e a imprensa (esta, em todas as épocas e lugares).

Sobre a “zelite” – conceito a esta altura fundamental na cabeça de Lula e no imaginário petista -, é também mister fazer algumas observações.

À parte o uso em geral mal-intencionado do conceito nas teorias conspiratórias, o termo elite é empregado pelos cientistas sociais em dois outros sentidos principais. Primeiro, o conceito se refere aos ápices de quantas pirâmides queiramos construir com base em critérios de prestígio, ocupação, educação, renda etc. Neste sentido, elites são grupos estatisticamente construídos; num ou noutro caso, pode ser que seus integrantes se conheçam e interajam a ponto de constituírem um grupo real, mas isso só uma pesquisa específica poderá nos dizer.

Nesta acepção um tanto frouxa, todo país sempre “tem” uma ou mais elites, pois as referidas pirâmides existem, basta o pesquisador recortá-las segundo seus objetivos. Seus integrantes são os titulares de cargos elevados no governo, nas universidades, na Igreja e nos sindicatos; os governadores, deputados e senadores; os militares de alta patente; o empresariado de maior peso, celebridades, e ainda os jornalistas e intelectuais mais festejados. Com a chegada do partido ao poder, aumentou muito o número de quadros petistas que devem integrar qualquer listagem da elite ou das elites brasileiras.

No segundo sentido, a elite é um grupo cujos membros se destacam não apenas por seu status (funcional, econômico, político, intelectual etc), mas, sobretudo, por sua exemplaridade. Eles são vistos pela sociedade como modelos de comportamento, personificações do que ela tem de melhor, cidadãos cuja palavra merece ser ouvida.

Assim entendida, a elite é um grupo pouco numeroso, cujos membros chegam a se conhecer, embora este não seja o ponto-chave. O que importa é a exemplaridade, da qual eles quase sempre têm consciência.

Como já se notou, a elite estatística sempre existe, pois afinal é uma mera construção. Uma elite exemplar, ao contrário, pode ou não existir em determinado país e em dado momento. Quando existe, ela chega a influenciar a política pública e até, em certas conjunturas críticas, os destinos do país. Mas nem sempre há políticos, administradores ou intelectuais acatados, vistos como uma reserva moral.

Pois bem. Lembremos agora que, em 2002, Lula elegeu-se por ampla margem de votos, mas o desempenho do PT foi modesto : para a Câmara Federal, ele elegeu apenas 91 dos 513 deputados. O PT e Lula chegaram portanto ao poder com certa dificuldade no quesito governabilidade. Precisavam constituir uma grande aliança, o que também não haveria de ser fácil, dada a rigidez ideológica e o caráter sabidamente arestoso do comportamento petista no Congresso Nacional.

Mas o PT não se fez de rogado. Com a máquina federal nas mãos e uma clara intenção de conservar o poder por bom período, ele logo tratou de montar uma base para Lula no Congresso Nacional, e por esse caminho acabou se envolvendo num rosário de ilicitudes. Disto aliás dá conta o Wikileaks, relatando uma conversa dessa época entre José Dirceu e o embaixador americano.

Presumivelmente devido à sua peculiar presunção ética e ao singular papel que julgam desempenhar no campo social, os dirigentes petistas parecem ter imaginado que desvios de conduta cometidos “pela causa” seriam compreendidos e aceitos sem maiores problemas não só pelos “companheiros”, mas pelo resto da sociedade. E nisto não estavam de todo equivocados.

A evolução dos acontecimentos vem mostrando que Lula e em parte o PT se beneficiam ainda de uma condescendência que a sociedade normalmente não estende a outros líderes e partidos. Em 2005 a sociedade concedeu-lhes o benefício da dúvida e não demandou a aplicação das leis com o rigor que demandaria se fossem outros o presidente e o partido.

Se a corrupção desvendada em 2005-06 tivesse tido o seu epicentro num dos partidos “burgueses”, as consequências com certeza teriam sido outras ; e não por obra do “povão”, pois a própria elite “burguesa” se encarregaria de combatê-los. Nessa hipótese – aí sim -, o presidente da República teria corrido sério risco de impeachment e o PT estaria com certeza entre os primeiros interessados em mobilizar o “clamor das ruas”.

O cenário mencionado teria sido ainda mais grave se o país atravessasse uma conjuntura economicamente adversa. Em 2005, a indignação popular contra a corrupção foi por assim dizer “freada” pelo que ainda restava da aura de pureza ética e sensibilidade social do PT, pela popularidade de Lula e pela conjuntura econômica favorável. Freada também, acrescente-se, pelo comportamento cordato e responsável das oposições; diferentemente de correntes petistas que em determinado momento do governo anterior lançaram a palavra de ordem “Fora FHC”, as oposições em nenhum momento sequer insinuaram o afastamento de Lula.

É pois válido indagar se o Brasil tinha uma elite exemplar na época do mensalão – e se tem alguma atualmente. Neste sentido mais forte do termo, a elite que assustou a professora Chauí era tão inofensiva quanto o saci pererê, a égua sem cabeça e outras entidades que há séculos povoam a imaginação popular.

Intranquilidade para o país quem pode criar é Lula, se inventar de novo uma contraconspiração a fim de extirpar inexistentes conspiradores.

Fingidor revisitado

Dora Kramer - O Estado de São Paulo

Fernando Pessoa em Autopsicografia fez um verso memorável e amplamente conhecido que, se aplicado à realidade brasileira, cabe com perfeição à figura do presidente Luiz Inácio da Silva: "O poeta é um fingidor, finge tão completamente que chega a fingir que é dor a dor que deveras sente."

O que Lula diz não se escreve como atestam as inúmeras declarações desmentidas por atos e palavras dele mesmo. Portanto, não se deve comprar pelo valor vendido a afirmação de que a volta às lides eleitorais em 2014 é uma possibilidade real.

Outro dia mesmo Lula dizia o contrário: que a disputa de uma nova eleição presidencial estava fora de seus planos.

Em outra entrevista, logo depois da reeleição, o presidente anunciava que iria "assar uns coelhinhos" em São Bernardo do Campo quando deixasse o cargo dali a quatro anos.

Um ano e pouco depois afirmava que a candidatura presidencial de 2010 seria fruto de consenso entre o PT e os partidos aliados. Avisava também que não anteciparia a escolha porque isso levaria à "queima" da candidatura na fogueira das intrigas internas e dos ataques da oposição.

Dito isso, no início do ano seguinte, dois antes do ano eleitoral, apelidou Dilma Rousseff de a "mãe do PAC", sacramentou a candidata de forma autocrática e iniciou ali mesmo a campanha que ficaria marcada como a mais longa da história.

O que Lula diz hoje pode ser diferente amanhã, a depender da avaliação referida única e exclusivamente na conveniência dele sem que sejam medidas as consequências no tocante às regras maiores da democracia: o respeito à lei e a observância das oportunidades iguais para as forças políticas representativas da sociedade.

Tanto pode se candidatar a presidente de novo, como pode concluir que não vale a pena o risco de perder a eleição ou de não ter um terceiro período melhor que os dois agora em vias de conclusão. Isso não se saberá pelas palavras de Lula.

Valem muito mais as atitudes. E elas nestes oito últimos anos nos informam que Lula vai pairar como uma sombra sobre o governo Dilma. Se outros personagens, de governo e de oposição, aí incluída a presidente, não souberam marcar suas posições e assumir seus papéis na política, Lula o fará na condição de protagonista.

Seja como pré-candidato a presidente - que parece ser exatamente sua pretensão ao acenar com a possibilidade, a fim de assegurar cobertura permanente da imprensa - seja como ocupante do espaço deixado vazio para que atue como bem lhe convier.

À francesa 1.
Pensando bem, para Ciro Gomes o melhor negócio é ficar fora do ministério. Pelo menos escapa de se explicar, ou precisar pedir desculpas por ter chamado a aliança que elegeu Dilma de "roçado de escândalos".

Ficaria como o prefeito do Rio, Eduardo Paes, e Mangabeira Unger. Um se desculpou por ter cumprido seu dever de deputado de oposição na CPI dos Correios (mensalão), para ser candidato. O outro, para ser ministro pediu perdão por ter escrito que o governo Lula foi o mais corrupto da história.

À francesa 2.
Pensando mais um pouco, a melhor coisa que o presidente do PT, José Eduardo Dutra, poderia fazer é desistir de ser senador na vaga de Antônio Carlos Valadares, o titular que esnobou um ministério tentando valorizar o passe para dar lugar ao suplente Dutra.

O petista evitaria o vexame de ser senador sem votos e ainda deixaria Valadares amargar o gosto de língua queimada.

Ação e reação.
Haverá quem considere uma descortesia o bispo de Limoeiro (CE), d. Manuel Edmilson da Cruz, ter recusado a comenda D. Helder Câmara, oferecida pelo Senado, em protesto contra o recente aumento nos salários dos parlamentares.

Ocorre que a iniciativa das afrontas tem sido do Parlamento, e se a sociedade não deixar isso claro seguirá sendo insultada.

E eles, cavalões, comendo

Carlos Brickmann

O imperador romano Calígula nomeou seu cavalo favorito, Incitatus, para o Senado - naquele tempo, o Congresso só tinha uma Casa. Há quem diga que Calígula nomeou Incitatus para demonstrar seu desprezo pelos senadores da época, um bando de gente sem espinha que só queria os favores do trono; há quem diga que, sem prejuízo de sua opinião sobre os parlamentares, Calígula nomeou Incitatus porque estava doido (o que também era verdade). Incitatus tinha 18 assessores, dispunha de fortuna pessoal (colares de pedras preciosas), usava mantas nas cores reservadas ao imperador. Custava caro, Incitatus; mas até que seu mandato saiu barato, porque besteiras pelo menos não fazia.

Bons tempos, bons tempos. Incitatus se contentava com feno e alfafa, não dava muita importância às honras com que o cumulavam (uma estátua de mármore em tamanho natural, por exemplo, com base em marfim), e ao que se saiba jamais pleiteou cargos na administração nem fraudou o Orçamento. Jamais recebeu sequer os salários referentes ao cargo; ignorava solenemente os múltiplos auxílios, ajudas, verbas, passagens. Nepotismo, nem pensar. Sua ficha era limpa, cândida - como cândida deveria ser a túnica de um candidato sem mancha.

Que os leitores perdoem este colunista pelas divagações históricas de fim de ano, que obviamente nada têm a ver com o presente. E pelas lembranças poéticas. O título deste artigo foi inspirado no Rondó dos Cavalinhos, do grande Manuel Bandeira: "Os cavalinhos correndo/ e nós, cavalões, comendo".

Relembrar é preciso
Deputados e senadores aprovaram a jato o reajuste que os transformou em parlamentares mais bem pagos que os dos EUA, Grã-Bretanha e outros países ricos. Só para que ninguém esqueça, aqui estão seus novos rendimentos:

Salários: R$ 27.723,13 (são 15 por ano); verba indenizatória, para o escritório político em sua base eleitoral: R$ 15 mil mensais; auxílio-moradia, R$ 3.800 mensais. No total, são R$ 641.446,95 por ano, ou R$ 53.453,91 por mês.

Mas ainda há mais coisas:
Reembolso total e ilimitado, para o parlamentar e seus dependentes, de tratamento médico e dentário (a esposa do ministro Édison Lobão, por exemplo, gastou R$ 26 mil para arrumar os dentes, neste ano, por nossa conta). Telefone e correio grátis. Passagens aéreas. Gráfica gratuita. E muitos, muitos assessores.

Etiqueta congressual
Se mandar um e-mail a algum parlamentar, evite chamá-lo de "caro amigo". A boa educação ensina que nem tudo o que é verdade deve ser dito.

O número da sorte
Há quem acredite em coincidências; há quem acredite que coincidências não existem. O fato é que a senadora Serys Slhessarenko, aquela parlamentar petista de ampla biografia que relata o Orçamento de 2011, reservou 171 de reais bilhões para investimentos. Não é 170, nem 172: é um sete um. Parece provocação.

Lula candidato
A declaração de Lula, de que pode ou não ser candidato em 2014, não tem a menor importância: é a única resposta que poderia dar diante de uma pergunta sobre o futuro distante, formulada antes até que sua sucessora tome posse. Depende do que acontecer: há circunstâncias em que Dilma será candidata natural, há circunstâncias em que Lula será candidato natural, há circunstâncias, até, em que Lula e Dilma possam disputar a candidatura. Se o cavalo encilhado passar perto de sua porta, Lula vai montá-lo. Se não passar, não vai - mas precisa estar preparado, o tempo inteiro, para a oportunidade de ser candidato de novo.

Fim dos tempos
Juliana Brizola, neta de Leonel Brizola, fundador do PDT, estuda trocar de partido: insatisfeita, pensa no PSOL, o partido de Luciana Genro, filha do governador petista Tarso Genro. Juliana perdeu as últimas disputas dentro do PDT e se sente isolada no partido. E é melhor, mesmo, sair logo: o deputado federal pedetista Marcos Medrado convidou ACM Neto, neto do cacique baiano Antônio Carlos Magalhães, que fundou o PFL, a entrar no PDT. Medrado diz falar em nome de Carlos Lupi, ministro do Trabalho e presidente nacional do partido. Garantiu a ACM Neto legenda para disputar a Prefeitura de Salvador ou o Governo baiano. Para Juliana Brizola, já irritada, como seria conviver com ACM Neto?

Cada vez aumenta mais
Do ator José de Abreu, que esteve em todas as fotos de Dilma no dia da apuração, em seu twitter: "Dia da posse de Dilma, 1/1/11 dá 4: o renascimento do ‘um’ depois das experiências do ‘dois’ e do ‘três’. Auspicioso, muito auspicioso". Se é Abreu que diz, deve ser mesmo. Só falta alguém explicar para a gente.

Nosso Natal
Um filme engraçadíssimo, A vida de Brian, com o grupo Monty Python, narra a história de um rapaz que nasceu numa manjedoura ao lado da de Jesus. Os Reis Magos erram a porta e fazem suas oferendas a Brian: ouro, incenso e mirra. Os pais de Brian esclarecem logo: da próxima vez, esqueçam o incenso e a mirra e tragam apenas ouro. O filme não traz à lembrança nosso Natal parlamentar?

Herói sem nenhum caráter

Demétrio Magnoli (*)- O Estado de São Paulo

Lula jamais protestou contra o monopólio da imprensa pelo governo cubano e nunca deu um passo à frente para pedir pelo direito à expressão dos dissidentes no Irã. Ele sempre ofereceu respaldo aos arautos da ideia de cerceamento da liberdade de imprensa no Brasil. Mas é incondicional quando se trata de Julian Assange: "Vamos protestar contra aqueles que censuraram o WikiLeaks. Vamos fazer manifestação, porque liberdade de imprensa não tem meia cara, liberdade de imprensa é total e absoluta."

Assange é um estranho herói. No Brasil, o chefe do WikiLeaks converteu-se em ícone da turba de militantes fanáticos do "controle social da mídia" e de blogueiros chapa-branca, que operam como porta-vozes informais de Franklin Martins, o ministro da Verdade Oficial. Até mesmo os governos de Cuba e da Venezuela ensaiaram incensá-lo, antes de emergirem mensagens que os constrangem. Por que os inimigos da imprensa independente adotaram Assange como um dos seus?

A resposta tem duas partes. A primeira: o WikiLeaks não é imprensa - e, num sentido crucial, representa o avesso do jornalismo.

O WikiLeaks publica - ou ameaça publicar, o que dá no mesmo - tudo que cai nas suas mãos. Assange pretende atingir aquilo que julga serem "poderes malignos". No caso de tais alvos, selecionados segundo critérios ideológicos pessoais, não reconhece nenhum direito à confidencialidade. Cinco grandes jornais (The Guardian, El País, The New York Times, Le Monde e Der Spiegel) emprestaram suas etiquetas e sua credibilidade à mais recente série de vazamentos. Nesse episódio, que é diferente dos documentos sobre a guerra no Afeganistão, os cinco veículos rompem um princípio venerável do jornalismo.

A imprensa não publica tudo o que obtém. O jornalismo reconhece o direito à confidencialidade no intercâmbio normal de análises que circulam nas agências de Estado, nas instituições públicas e nas empresas.

A ruptura do princípio constitui exceção, regulada pelo critério do interesse público. Os "Papéis do Pentágono" só foram expostos, em 1971, porque evidenciavam que o governo americano ludibriava sistematicamente a opinião pública, ao fornecer informações falsas sobre o envolvimento militar na Indochina. A mentira, a violação da legalidade, a corrupção não estão cobertas pelo direito à confidencialidade.

Interesse público é um conceito irredutível à noção vulgar de curiosidade pública. Na imensa massa dos vazamentos mais recentes, não há novidades verdadeiras. De fato, não existem notícias - exceto, claro, o escândalo que é o próprio vazamento. A leitura de uma mensagem na qual um diplomata descreve traços do caráter de um estadista pode satisfazer a nossa curiosidade, mas não atende ao critério do interesse público. O jornalismo reconhece na confidencialidade um direito democrático - isto é, um interesse público. O WikiLeaks confunde o interesse público com a vontade de Assange porque não se enxerga como participante do jogo democrático. É apenas natural que tenha conquistado tantos admiradores entre os detratores da democracia.

Há, porém, algo mais que uma afinidade ideológica, de resto precária. A segunda parte da resposta: os inimigos da liberdade de imprensa torcem pelo esmagamento do WikiLeaks por uma ofensiva ilegal de Washington.

No Irã, na China ou em Cuba, um Assange sortudo passaria o resto de seus dias num cárcere. Nos EUA, não há leis que permitam condená-lo. As leis americanas sobre espionagem aplicam-se, talvez, ao soldado Bradley Manning, um técnico de informática, suposto agente original dos vazamentos. Não se aplicam ao veículo que decidiu publicá-los. A democracia é assim: na sua fragilidade aparente encontra-se a fonte de sua força.

O governo Obama estará traindo a democracia se sucumbir à tentação de perseguir Assange por meios ilegais. O WikiLeaks foi abandonado pelos parceiros que asseguravam suas operações na internet. Amazon, Visa, PayPal, Mastercard e American Express tomaram decisões empresariais legítimas ou cederam a pressões de Washington? A promotoria sueca solicita a extradição de Assange para responder a acusações de crimes sexuais. O sistema judiciário da Suécia age segundo as leis do país ou se rebaixa à condição de sucursal da vontade de Washington? Certo número de antiamericanos incorrigíveis asseguram que, nos dois casos, a segunda hipótese é verdadeira. Como de costume, eles não têm indícios materiais para sustentar a acusação. Se estiverem certos, um escândalo devastador, de largas implicações, deixará na sombra toda a coleção de insignificantes revelações do WikiLeaks.

A bandeira da liberdade nunca é desmoralizada pelos que a desprezam, mas apenas pelos que juraram respeitá-la. Assange não representa a liberdade de imprensa ou de expressão, mas unicamente uma heresia anárquica da pós-modernidade. Contudo, nenhuma democracia tem o direito de violar a lei para destruir tal heresia. A mesma ferramenta que hoje calaria uma figura sem princípios servirá, amanhã, para suprimir a liberdade de expor novos Guantánamos e Abu Ghraibs.

"Vamos fazer manifestação, porque liberdade de imprensa não tem meia cara, liberdade de imprensa é total e absoluta." Lula não teve essa ideia quando Hugo Chávez fechou a RCTV, nem quando os Castro negaram visto de viagem à blogueira Yoani Sánchez que lançaria seu livro no Brasil. Não a teve quando José Sarney usou suas conexões privilegiadas no Judiciário para intimidar Alcinéa Cavalcante, uma blogueira do Amapá, ou para obter uma ordem de censura contra O Estado de S. Paulo. Ele quase não disfarça o desejo de presenciar uma ofensiva ilegal dos EUA contra o WikiLeaks. Sob o seu ponto de vista, isso provaria que todos são iguais - e que os inimigos da liberdade de imprensa estão certos.

Alguém notou um sorriso furtivo, o tom de escárnio com que o presidente pronunciou as palavras "total e absoluta"?

(*) Sociólogo e Doutor Em Geografia Humana pela USP.

A superioridade dos piores

Olavo de Carvalho, Mídia Sem Máscara

Praticamente não há manobra política, tática ou estratégica, que não tenha surgido antes como artifício literário.

Já citei várias vezes a máxima de Hugo von Hofmannsthal, profundamente verdadeira, de que nada está na política de um país sem estar primeiro na sua literatura. Uma das decorrências dela é que, sem extenso conhecimento da história cultural e literária, o observador só capta, dos fatos políticos, a forma final ostensiva com que aparecem no noticiário do dia, sem nada enxergar das correntes profundas onde se formaram e onde poderiam, em tempo, ter sido modificados.

Praticamente não há manobra política, tática ou estratégica, que não tenha surgido antes como artifício literário. A razão disso é simples: ninguém pode fazer o que primeiro não imaginou, e explorar as possibilidades do imaginário social, tornando-as pensáveis na linguagem comum, é a função precípua dos artistas da palavra.

Na "direita" brasileira, a obsessão da economia, da administração e do marketing leva muitos pretensos "homens práticos" aos erros mais pueris e desastrosos, que poderiam ter sido evitados com um pouco de cultura literária.

Vou dar-lhes um exemplo chocante. Quando hoje em dia vocês vêem terroristas dando lições de moral, narcotraficantes e sequestradores passando pito em senadores e deputados, travestis vestidos de freiras forçando um padre a lhes dar a comunhão, ou o próprio presidente da República enaltecendo os bandidos das Farc como pessoas honestas, que têm todo o direito de ascender ao poder de Estado, vocês ficam naturalmente desorientados - e não sabem como reagir diante de condutas tão cínicas e descaradas, que vão se multiplicando aos olhos de todos, até o ponto de se impor como práticas normais e legítimas.

É um fenômeno que tende a expandir-se ilimitadamente e que só poderá ser detido à custa de uma trabalhosíssima e quase impossível reeducação de toda a sociedade. Mas poderia ter sido estrangulado na origem, se os liberais e conservadores, em lugar de ficar hipnotizados ante os acontecimentos mais vistosos, se dessem o trabalho de ver como essas coisas nascem e se desenvolvem numa discreta penumbra antes de aparecer estrepitosamente nas manchetes.

Essas e outras táticas abjetamente maliciosas, que já se tornaram parte do nosso cenário quotidiano, apareceram, como em geral todos os componentes do que viria a ser a técnica da "espiral do silêncio", no século 18; e, como não poderia deixar de ser, apareceram primeiro como um recurso de técnica literária.

Seu inventor foi Denis Diderot, um gênio perverso da propaganda revolucionária. Para criá-la, ele se apoiou na velha tradição dramatúrgica do "bobo da corte" - o personagem de baixo nível social que, justamente por sua aparência desprezível, desempenha o papel de fiscal da classe dominante, com a permissão e sob a proteção desta última, à qual serve como espelho amplificador onde ela enxerga seus defeitos e fraquezas.

Tanto na dramaturgia quanto, com frequência, na própria realidade histórica, o bobo da corte foi durante séculos uma peça essencial no aparato perceptivo dos governantes, que através dele podiam tomar consciência de seus pontos cegos, evitando embriagar-se em ilusões perigosas e assegurando um domínio mais firme sobre a realidade das situações.

Diderot descobriu que, com pequenas modificações, o bobo poderia tornar-se um instrumento voltado, não à orientação e correção da classe dominante, mas à sua destruição. Bastava, para isso, acrescentar à inferioridade social do personagem alguns traços de perversidade moral genuína, conservando-o, ao mesmo tempo, no seu papel de fiscal e crítico da moralidade do mundo.

No diálogo O Sobrinho de Rameau, (1761) Diderot criou a figura daquilo que viria depois a chamar-se, nos estudos literários, o "heroi abjeto" (leiam o estudo magistral de Michael André Bernstein, Bitter Carnival: Ressentiment And The Abject Hero, Princeton University Press, 1992). É um tipo declaradamente inferior, não só do ponto de vista social como o velho bobo da corte, mas humano e moral. É um vigarista, um criminoso cínico, um sociopata na mais legítima acepção do termo - mas, por isso mesmo, está na posição perfeita para enxergar a sociedade inteira como um tecido de crimes, projetando nela a sua própria torpeza de alma e interpretando tudo pela ótica corrosiva de um discurso de acusação verdadeiramente infernal.

O exemplo frutificou, mas não somente na literatura. Alastrou-se pela retórica política e se tornou um lugar-comum da propaganda revolucionária. Cinco anos após a morte de Diderot, seu personagem já havia se multiplicado em milhares de criminosos de verdade, grandes e pequenos, que, exaltados pela Revolução, subiam aos púlpitos e às cátedras para verberar, do alto da sua incontestada autoridade moral, os pecados da sociedade.

Quando uma idéia literária se consagra como um topos, um lugar comum da retórica política, já é impossível impedir que as pessoas enxerguem a realidade sob a sua ótica deformante. Os fatos, por mais numerosos e evidentes, já nada podem. Digam eles o que disserem, o automatismo do imaginário os reconstruirá à sua maneira, dando-lhes, de novo e de novo, o sentido fictício que se consagrou no topos.

Fora da França, a transmutação do "heroi abjeto" em arma de combate político foi mais lenta, mas nem por isso menos irreversível. Primeiro veio a crença de que os criminosos são vítimas passivas da sociedade, e não autores dos seus próprios atos. Depois, a transfiguração das pretensas vítimas em símbolos dos valores morais genuínos, que a sociedade hipócrita usurpara. Por fim, o símbolo tornou-se realidade: criminosos, prostitutas e psicopatas já não somente "representavam" o melhor da sociedade, mas o carregavam em si como qualidade pessoal concreta.

Quando, desde os anos 50, o proletariado foi excluído da condição de protagonista maior da mutação revolucionária, e a Escola de Frankfurt consagrou em lugar dele os marginais de toda sorte, estava tudo pronto para que o cinismo dos piores se impusesse como encarnação da respeitabilidade máxima, acusando e humilhando a todos e jogando as pessoas de bem na lata de lixo da "espiral do silêncio".

O recado de Lula para Dilma

Villas-Bôas Corrêa

Sejamos justos: é um desafio que vai além da resistência humana, passar incólume pela consagração nacional da despedida do presidente Lula ao fim do seu segundo mandato.

E o presidente não apenas entregou os pontos, seja não dizendo coisa com coisa ou nas contradições do deslumbramento. Até poucos dias, controlava os nervos e a língua para não bater de frente com a presidente eleita, Dilma Rousseff, que a ele deve a escolha da sua substituta, com a consagração do voto nacional.

Mas, Lula passou a priorizar os próximos lances da sua vida. E deu uma cambalhota na tontura da sua consagração como o líder mais popular do Brasil e do mundo, que ainda tem muitos anos para o fecho de ouro de mais um mandato, o próximo, como presidente. Enquanto espera de olho na folhinha, visitará os cinco continentes e dará voltas pelo país para fiscalizar e cobrar as obras do PAC. Como um fiscal com apoio de 80% da população.

É provável que quando o mar serenar, depois das derradeiras homenagens, o presidente Lula baixe o tom das críticas e a dose de veneno das indiretas para não deixar feridas abertas. E nem terá tempo a perder com a maratona de viagens pelo mundo e da fiscalização doméstica do governo da sua sucessora.

O poder deslumbra e maltrata. Lula acusa as bordoadas do fim do mandato. A sua ordem terminante de que “nenhum centavo será cortado do Programa de Aceleração do Crescimento, o PAC”, e a relatora-geral do Orçamento, a senadora petista Serys Slhessarenko (MT) fechou o seu parecer com a poda de R$ 3,3 milhões nas verbas do programa para 2011. E não está falando para o vento. O ministro da Fazenda, Guido Mantega foi o primeiro a defender a necessidade de redução no ritmo das obras do PAC.

Tal como o motorista de ônibus superlotado pisa no freio para a sacudidela que alivia a apertura dos passageiros em pé, a presidente Dilma ao assumir o governo precisa arrumar a casa. E mostrar que a sua equipe está em condições de disputar o campeonato.

Não é tão simples o desafio. Ao contrário, substituir o presidente mais popular da historia deste país, no primeiro teste para valer e no clima de fofocas e intrigas de Brasília, com um Congresso que começou com o reajuste os subsídios, vantagens e privilégios é um risco que, guardadas as proporções, empata com a ocupação do morro pela polícia do morro do Alemão, antro dos traficantes e bandidos.

Lula está deixando claro como água de mina que será candidato em 2014 e tem o seu quinto mandato como favas contadas. A presidente eleita Dilma Rousseff está devidamente informada, tal como o respeitável público, que o seu mandato é de quatro anos. Nem um minuto a mais.

E até lá, fazendo tudo que o mestre Lula mandar.

Abaixo os Céticos, Viva a Europa

Caio Blinder, Veja online

Foto Phillipe Wojazer/Reuters
Líderes pequenos na grande crise

Gritar Viva Europa parece ser um brado melancólico. A União Européia está frouxa, em particular no seu núcleo duro, a zona do euro. A liderança de plantão (veja foto) está aquém da carga de responsabilidades e desafios. Obviamente nem falo de bufões como o italiano Silvio Berlusconi, mas da dobradinha Angela Merkel/ Nicolas Sarkozy. O motor propulsor do projeto europeu são alemães e franceses, mas a máquina está emperrada em meio à constante tarefa de apagar incêndios econômicos. Alguns desafios e obstáculos no projeto europeu foram subestimados ou deliberadamente ignorados, a destacar a criação de uma união monetária (o euro), sem uma união fiscal.

Obviamente, existe um preço para uma união europeia mais rigorosa, mais ampla e mais eficiente. Exige menos soberania nacional e aumenta o ônus dos sócios ricos, em particular a Alemanha, para segurar o rojão, a fragilidade e as indulgências dos sócios mais pobres ou vulneráveis da periferia, que vão de paísecos como Grécia, Portugal e Irlanda, a outros, como Espanha e Itália, que, se quebrarem, podem levar edifício europeu ao desabamento. E a periferia precisa se comportar muito bem.

Relutantes para pagar a conta, os alemães sabem também como é vital preservar o projeto europeu. O país que renasceu da ignomínia nazista na Segunda Guerra Mundial está consciente que pode ser forte e influente desde que esteja dentro do santuário europeu. A potência alemã deve proteger e não ameaçar. A crise, porém, hoje incomoda sua população, menos inclinada a se sacrificar pelos primos europeus da periferia. Por outro lado, na periferia, existe ressentimento contra a Alemanha.

Isto exige um jogo político ardiloso da primeira-ministra Angela Merkel. Ela tem compromissos domésticos, mas também continentais. E secundada pelo francês Sarkozy (com o qual muitas vezes não está afinada), Merkel precisa liderar o coro de que os líderes europeus farão tudo o que for necessário para assegurar a estabilidade do euro e, por extensão, do projeto continental. Nada disso é fácil em razão da relutância dos alemães para pagar contas e do quadro de inevitável austeridade em vários países europeus que pode trazer instabilidade social e estagnação econômica por um bom tempo.

Existem graves problemas econômicos na Europa, mas, no final das contas, as soluções são políticas. Se o caminho inevitável para salvar o euro for uma união fiscal mais rígida, um grande desafio será vender o projeto em termos políticos. Na expressão da empresa de consultoria e análise de risco Stratfor, uma união mais sólida vai significar decisões sobre taxação e apropriação, ou seja, quem paga quanto e como para quem. E aqui estamos falando de atos políticos, intromissão na soberania nacional e um aprofundamento de iniciativas coletivas. É difícil imaginar uma centralização fiscal sem uma efetiva autoridade política (e militar) igualmente centralizada. E realmente eu não sei dizer de cabeça quem é o presidente-fantasma da União Europeia (na informação inútil, é o belga Herman van Rompuy)

Infelizmente, parece que a Europa não está preparada hoje para passos tão largos, embora, ironicamente, a urgência da crise talvez os apressem. Claro que o resultado podem ser tombos maiores ou passos insuficientes diante dos buracos imensos no meio do caminho. Uma crise não manejável em países mais importantes da zona do euro, Espanha ou Itália, pode ser maior do que as promessas ou mesmo do reforço da rede de proteção para ajudar os sócios do clube europeu em situação dramática. No cenário de déficit e divida na Europa, existe um superávit de céticos se o euro e o projeto europeu vão aguentar o tranco. Para os céticos, a execução ficará a cargo dos alemães, com a paciência exaurida para arcar com tantos pacotes de resgate.

O colapso europeu será uma tragédia e não apenas para os europeus. O mundo precisa de uma Europa forte e integrada, que irradie seus valores e lições históricas. Em países emergentes existem surtos triunfalistas de que a era dos EUA e da Europa já era. É verdade que a União Europeia em muitas situações colide com os primos dos Estados Unidos da América, mas suas convergências são muito maiores do que as divergências. Ainda bem. Está aí um bloco que propaga o melhor modelo para a humanidade. em termos de respeito à democracia, do império da lei, da obediência aos contratos e de um estado, que embora excessivo e oneroso, em especial na Europa, está a serviço do cidadão.

A Europa, em particular, com os esforços de integração no pós-guerra, é um exemplo de repúdio aos conflitos militares e acomodação de diferenças religiosas, étnicas, culturais e ideológicas. Claro que é um projeto imperfeito e que de certa forma peca pela ambição. Em contrapartida, ambição é uma virtude em muitas situações. É um conforto escutar a voz da Europa quando países da Ásia, África e América Latina descambam na violação dos direitos humanos. Muita gente rebate que os europeus com seu passado colonial e barbaridades dentro de casa não têm moral para pontificar e se intrometer. Pelo contrário. A velha Europa errou e aprendeu. Tem muito para dizer e vamos esperar que seu projeto de união sobreviva e se consolide.

Dilma, o contratempo

Guilherme Fiúza, Revista Época

Deu tudo certo no Plano Dilma, com exceção de uma palavra que anda incomodando seus artífices: Dilma.

A prorrogação da DisneyLula em direção ao infinito está funcionando bem. A vitória eleitoral relativamente fácil renovou o oxigênio dessa formidável máquina de ocupação do Estado pelo exército de companheiros.

O PT e seus sócios de vida fácil estão, porém, apreensivos com o futuro do paraíso estatal sem a mística do filho do Brasil.

Inventar Dilma e colocá-la na Presidência foi uma jogada de mestre. O único inconveniente é que agora ela vai ter que governar. Serão quatro anos de exaustiva ginástica para não desmanchar o fetiche do Padre Cícero do ABC.

Esse contratempo vinha sendo bem dissimulado nos três anos que Dilma passou em campanha eleitoral. Agora o PT rasgou a fantasia.

O porta-voz da sinceridade foi o escudeiro Gilberto Carvalho, chefe de gabinete de Lula, escalado para manter a encarnação do chefe no palácio – agora como secretário-geral da presidenta.

Perguntado sobre a possibilidade da volta de Lula ao posto em 2014, ele mandou às favas o teatro em torno do primeiro governo feminino do Brasil:

“Num cenário de a Dilma fazer um governo bom, é evidente que ela vai à reeleição. Se houver dificuldades e ele (Lula) for a solução para a gente ter uma vitória, ele pode voltar.”

É comovente o acesso de franqueza. Até os eufemismos habituais sobre um novo governo promissor, ou mesmo as evasivas sobre a impossibilidade de prever o futuro, sumiram de cena. Sem meias-palavras, o porta-voz do messias já fala abertamente em sua volta, mediante a hipótese de Dilma fazer besteira.

É antropologicamente interessante ver o discurso do triunfalismo feminista girar 180 graus para o pragmatismo fisiológico. Nunca é tarde para se dizer a verdade.

Antes mesmo de largar o osso, Lula é lançado candidato para 2014 pelos companheiros que já cogitam as “dificuldades” do governo Dilma.

O país assistirá a uma batalha interessante daqui para frente: a luta do fisiologismo contra o fisiologismo do B. Como é voraz, essa nova elite nacional.

Manutenção de Adams na Advocacia-Geral da União é gesto de independência de Dilma em relação a Lula

Ricardo Setti, Veja online


Amigos do blog, pode ser excesso de otimismo de minha parte, mas a confirmação no cargo do advogado-geral da União, Luís Inácio Lucena Adams, no próximo governo é mais um sinal de independência que a presidente eleita, Dilma Rousseff, manifesta em relação à sufocante pressão que vem sofrendo, calada, do presidente Lula — que jurou não se intrometer na formação de seu governo mas não faz outra coisa.

Lucena era disparado o candidato preferido de Lula para preencher a vaga existente no Supremo Tribunal Federal desde agosto, quando o ministro Eros Grau se aposentou por ter atingido a idade-limite de 70 anos de idade.

Resolvendo mantê-lo no atual posto, Dilma, obviamente, se voltará para outro nome para o Supremo. Lula certamente tentará interferir também nessa indicação, mas o fato é que Lucena não irá para a mais alta corte do país, como queria o presidente.

Dilma já mantivera distância de Lula na escolha de uma figura importantíssima do primeiro escalão de governo — o ministro da Justiça –, que recaiu sobre o deputado José Eduardo Cardozo (PT-SP). Cardozo não apenas não era o candidato de Lula, como é alguém de que o presidente desgosta. Cheguei até a escrever um post a respeito, no dia 6 passado.

CARDOZO ACUSOU DE “ABUSO DE CONFIANÇA” O COMPADRE DE LULA

Veja se não tenho razão lendo a matéria abaixo, publicada pelo Estadão a respeito, a cargo da repórter Vera Rosa, da sucursal de Brasília do jornal:

“Cardozo supera resistência e é indicado”

“Procurador e secretário-geral do PT, o deputado José Eduardo Martins Cardozo (SP) foi confirmado para o Ministério da Justiça do governo Dilma Rousseff, depois de ter amargado longo período de dificuldades de relacionamento com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva. O motivo para Cardozo nunca ter conseguido chegar à Esplanada na gestão Lula foi o caso CPEM.

O presidente sempre guardou mágoa do deputado por ele ter vasculhado sua vida e por tentar incriminar seu compadre Roberto Teixeira. Tudo ocorreu em 1993, quando Cardozo integrou a comissão especial criada pela Executiva Nacional do PT para investigar denúncias feitas pelo petista Paulo de Tarso Venceslau, ex-secretário de Finanças de São José dos Campos, contra uma empresa chamada CPEM.

A acusação de Venceslau era grave. Segundo ele, Teixeira propunha a prefeituras do PT contratar a CPEM, sem licitação, para que a empresa prestasse assessoria na área de arrecadação de impostos. Em troca, a CPEM contribuiria com campanhas petistas.

Ao lado do então deputado Hélio Bicudo, que deixou o PT após o escândalo do mensalão, em 2005, Cardozo concluiu que tanto o compadre de Lula como Dirceu Teixeira – irmão do advogado – atuaram em nome da CPEM, vendendo seus serviços.

“Tal comportamento não qualificaria nenhum problema ético, se não fôssemos levados a concluir pelas evidências de que Roberto Teixeira não poderia deixar de saber (…) que os contratos firmados pela empresa CPEM apresentavam graves problemas. Atuou, a nosso ver, inclusive com evidente abuso da confiança de que desfrutava no partido em face da notória relação de amizade que mantém com o presidente de honra do PT”, escreveu Cardozo, em referência a Lula, quatro anos depois da investigação.

Ressentimento. Lula foi inocentado da sindicância, mas nunca perdoou Cardozo. No fim, a cúpula do PT decidiu expulsar o Paulo de Tarso Venceslau, sob a alegação de que ele, ao se dirigir à imprensa, empregou adjetivos que desqualificaram Lula e outros dirigentes petistas.

Integrante da corrente Mensagem ao Partido – a segunda maior tendência no mosaico ideológico do petismo -, Cardozo era cotado para ocupar o Ministério da Justiça em fevereiro, quando Tarso Genro deixou a pasta para se candidatar ao governo do Rio Grande do Sul. Tarso indicou Cardozo e Dilma, então ministra da Casa Civil, também defendia sua nomeação. Lula, porém, vetou o nome do deputado.

No ano passado, Cardozo redigiu o Código de Ética do PT. O documento define critérios para atuação de filiados, vedando práticas como caixa 2 nas campanhas.”

A crise dos aeroportos

O Estado de São Paulo

Determinada pela iminência de uma nova e grave crise aérea, que desaconselhava mudanças na estrutura de controle da aviação civil, a decisão da presidente eleita, Dilma Rousseff, de manter esse setor sob a gestão do Ministério da Defesa dá tempo ao novo governo para examinar melhor a questão. A unificação, que chegou a ser anunciada, das administrações dos portos e dos aeroportos num único ministério indicava que, na avaliação da equipe de Dilma, o principal problema dessas áreas é estrutural, daí a proposta de mudança. Mas o problema é outro - de qualidade e eficiência de gestão.

O balanço dos oito anos do governo do PT evidencia a incompetência da administração aeroportuária para utilizar os recursos à sua disposição, o que tornou ainda mais precária do que já era a infraestrutura do setor, que não conseguiu acompanhar o crescimento do mercado. As projeções de contínuo e rápido aumento da demanda nos próximos anos, com alguns momentos de pico em razão da realização de eventos esportivos internacionais, exigem não apenas mais investimentos, mas, sobretudo, que os valores alocados para expandir, modernizar e melhorar os serviços aeroportuários sejam convertidos em obras e serviços em favor dos usuários. Para isso, será necessário modificar profundamente o modelo de gestão dessa área.

A execução do programa de investimentos aeroportuários do governo Lula foi muito ruim. Do total de R$ 6,7 bilhões que a Empresa Brasileira de Infraestrutura Aeroportuária (Infraero) - estatal responsável por 67 aeroportos - teve para investir entre 2003 e 2010, apenas R$ 2,65 bilhões, ou 39,6%, saíram do papel. O pior resultado da Era Lula foi registrado em 2008, quando a Infraero conseguiu executar apenas 17% de seu orçamento de investimentos. Em 2009, o resultado foi um pouco melhor, pois a empresa conseguiu investir 42,9% de seu orçamento de R$ 1,02 bilhão.

Mas a incapacidade gerencial ressurgiu em 2010. Até outubro (último dado disponível no portal do Ministério do Planejamento), de um total de R$ 1,57 bilhão reservado para investir no ano, a empresa tinha investido R$ 358 milhões, ou 22,8%.

Muitos projetos não saíram do papel, como mostrou recentemente a organização não governamental Contas Abertas, que cita, entre outros exemplos, o terminal de cargas do aeroporto de Vitória, no Espírito Santo; a recuperação e o reforço estrutural das pistas do aeroporto de Viracopos, em São Paulo; a construção do complexo logístico do aeroporto Salgado Filho, em Porto Alegre; e a adequação do terminal de passageiros do aeroporto de Juazeiro do Norte, no Ceará.

A Infraero alega que alguns grandes contratos ainda estão em fase de licitação e, tão logo eles sejam assinados, os resultados da execução do orçamento de investimentos de 2010 devem melhorar. Mesmo que isso aconteça, o futuro continua a preocupar. "Apenas a decisão de contratar ou não demora quase um ano", observou o ex-presidente da Infraero Adyr Silva. "Para realizar os projetos, são mais uns 15 meses. Depois, ainda tem o processo licitatório e as licenças ambientais. Em meio a este ciclo, eu pergunto: será que estaremos preparados para a Copa do Mundo em 2014? A questão não fecha."

Além desses problemas, há os administrativo-financeiros. Obras já contratadas foram suspensas pelo Congresso, por recomendação do Tribunal de Contas da União, que detectou indícios de superfaturamento ou outras irregularidades. Algumas obras esbarram em restrições dos órgãos ambientais.

O projeto de Orçamento de 2011 reservou R$ 2,2 bilhões para investimentos da Infraero. Para executar esse orçamento - e sua execução é indispensável para evitar mais agravamento da crise nos aeroportos, alguns dos quais já operam muito acima de sua capacidade -, a empresa terá de fazer, em um ano, 82% de tudo o que fez nos oito anos do governo Lula. Não é impossível fazer isso, desde que a Infraero seja gerida de acordo com padrões de eficiência não observados na gestão Lula - daí a necessidade de grandes mudanças administrativas no setor.

Tribunal proíbe 80% dos funcionários do setor aéreo de entrar em greve

BBC Brasil

Aeroporto Juscelino Kubitschek, em Brasília, é tomado por filas;
dezembro é o mais mais movimentado

O presidente do Tribunal Superior do Trabalho, o ministro Milton de Moura França, concedeu na noite desta quarta-feira uma liminar determinando que 80% dos funcionário do setor aéreo não entrassem em greve.

O objetivo da ação, de acordo com um comunicado do TST é "viabilizar o transporte aéreo em todo o território nacional, no período compreendido entre 23 de dezembro e 2 de 2010 de janeiro de 2011".

O ministro fixou uma multa diária de R$ 100 mil, em caso de descumprimento da ordem.

À tarde, os sindicatos do setor confirmaram que fariam uma paralisaão em aeroportos de todo o país a partir das 6 horas de quinta-feira, após terminarem em impasse as negociações por ajuste salarial com as companhias aéreas.

Tanto os aeronautas (pilotos, comissários e mecânicos de vôo) como os aeroviários (que trabalham em terra, nos aeroportos) anunciaram que iriam aderir à paralisação.

Até o início da madrugada de quinta-feira, os sindicatos não haviam se pronunciado se manteriam ou não a greve. Se ela for implementada e tiver uma adesão relevante, o tráfego aéreo no país pode parar, justamente às vésperas do Natal – época mais movimentada do ano.

Segundo a Agência Nacional de Aviação Civil (Anac), a previsão é de que os aeroportos em dezembro recebem 1,5 milhões de pessoas a mais do que a média do ano.

‘Irresponsabilidade’
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva reconheceu o direito de greve dos trabalhadores, mas ressaltou que a população não pode ser prejudicada.

“Espero que os brasileiros não sejam vítimas da insensatez. O que não pode é uma atitude de irresponsabilidade que leve o povo a sofrer”, afirmou Lula.

“Não acho correto alguém impedir que a pessoa viaje no Natal. Vou conversar com o ministro Nelson Jobim (Defesa) amanhã”, completou, dizendo que tanto os trabalhadores como as companhias poderiam flexibilizar um pouco suas posições.

De acordo com o presidente, Jobim e Paulo Bernardo (Planejamento) estão empenhados em evitar a paralisação.

A Federação Nacional dos Trabalhadores em Aviação Civil (Fentac) – que reúne sindicatos nacionais e regionais - informou que funcionários começarão a fazer piquetes em aeroportos a partir da meia noite e que as paralisações podem inclusive começar antes das 6h de quinta-feira, já que é uma decisão pessoal de cada trabalhador.

Pela manhã, mais de 150 trabalhadores do setor aéreo fizeram uma manifestação no Aeroporto Santos Dumont, no Rio de Janeiro, prejudicando as operações no local.

Segundo a Anac, cerca de 30% dos voos desta quarta-feira no país tiveram atrasos acima de meia hora - a maioria por problemas climáticos.

Os aeronautas defendem 15% de reajuste salarial e os aeroviários, de 13%, enquanto a proposta das companhias aéreas é de 6,85%, considerando a correção pelo Índice Nacional de Preços ao Consumidor (INPC) mais meio ponto porcentual de ganho real.

Medidas pontuais
A presidente da Anac, Solange Vieira, disse não acreditar na possibilidade de um caos aéreo: "Nossa expectativa é a de que não vai haver uma greve geral, mas focos de paralisação controláveis."

A agência informou que está tomando medidas pontuais para lidar com a situação, como reforçar o número de funcionários, ajustar escalas – para concentrar mais trabalhadores nos horários de pico – e monitorar o movimento nos saguões.

Vieira afirmou ainda que o contingente de polícia estadual foi acionado para garantir que os funcionários que não aderirem à greve possam trabalhar.

Tanto a Anac como a Infraero orientaram os passageiros a ligarem para a companhia aérea antes de sair de casa, para confirmar o vôo.

Em caso de atraso ou cancelamento de voos já no aeroporto, o cliente deve procurar a empresa aérea ou um representante da Anac nos aeroportos que tiverem esses postos de atendimento.

As principais companhias aéreas do país afirmaram que pretendem manter sua programação normal para quinta-feira.

A GOL informou que não prevê alterações nos 900 voos previstos. Em comunicado, a TAM afirmou estar confiantes na “conclusão adequada” do processo de negociação com os funcionários.

O Sindicato Nacional das Empresas Aéreas (Snea) criticou a paralisação, dizendo que são “prematuras e inoportunas” e que “as negociações ainda podem evoluir”.

Brasil inzoneiro

Maria Helena Rubinato Rodrigues de Sousa – Blog Noblat

Nós, os brasileiros vivos em dezembro de 2010, somos as privilegiadas testemunhas do surgimento de um mundo bem mais admirável do que jamais sonharam nossos ancestrais.

Igual ao Lula, nunca antes e, certamente, nem depois.

A genial sacada de um relatório gerado no Planalto, com mais de 300 páginas, registrado em cartório e assinado por seus impagáveis e fieis auxiliares, contendo todos os magníficos feitos de seus oito anos de governo, é golpe de mestre.

Os que ficaram, os que saíram por lesão durante o jogo, ou por terem recebido cartão vermelho, todos reunidos na festa, todos coniventes ao assinar o relambório.

Como confessou o genial amante de si mesmo: “se a Imprensa não fala bem de mim, vou sair por aí e falar”.

Agora, no grand finale, ele se superou. Não se limitou a falar: escreveu. E fez mais: exigiu a chancela do cartório. E não se furtou a pedir aos outros que assinassem confirmando tudo que disse que fez e tudo que não disse que fez.

Tinha a mais absoluta convicção da anuência de todos. E sabe, como todos sabemos, que tem muita gente louca para ir lá e assinar também...

Meus mais efusivos cumprimentos a quem teve a brilhante ideia da feitura desse documento.

Dirão os ingratos e invejosos: se a moda pega e, geralmente, o mau exemplo frutifica mais que o bom exemplo, acontecerão duas coisas, ambas definitivas.

Nunca nos livraremos dos cartórios e das assinaturas com firma reconhecida; teremos governadores deixando tijolaços impressos contando tudo de maravilhoso que andaram fazendo por seus Estados.

Já os realistas pensam: os historiadores do futuro não terão trabalho algum. Lerão os relatórios assinados e poderão concluir: foi assim que começou a época de ouro da civilização brasileira. Foi assim que chegaram ao ápice.

Foi desse modo que a Glória se instalou para sempre sobre a cabeça de Luiz Inácio Lula da Silva.

Não temos porque duvidar de que isso é o que acontecerá. Não só pelo documento assinado e cartorizado, como pelo o que nos promete a oposição: ela desistiu de ser oposição.

Entramos numa fase da vida política do país que é, realmente, como diz o Lula, extraordinária: a oposição desiste de se opor.

Todos estarão a favor. Cantaremos a uma só voz, unidos, ombro a ombro.

Deixemos de hipocrisia – como aliás, anda pedindo Sergio Cabral, o Sorridente – Lula não merece que todos nós, cidadãos brasileiros, assinemos também o tal documento? Estou convencida que sim.

Afinal, ele acaba de inaugurar um novo sistema de governo. A Inzoneirocracia. Sem derramamento de sangue, sem revoltas populares, sem golpes militares ou civis, ele conseguiu o impossível: não temos mais oposição. Serão todos a favor.

É um governo forte sem um ditador. De adesão por amor e não na marra. Tudo espontâneo, todos unânimes em reconhecer que do PT para o povo só fluem coisas boas e que, por isso, o certo é aderir. Por amor.

Amor a quê? Ora, isso deixo à imaginação de cada um de vocês

Um ministério de medíocre continuidade

Elio Gaspari, O Globo

Na melhor das hipóteses, Dilma Rousseff compôs um ministério de continuidade buscando talentos no segundo escalão. Na pior, apresentou uma promessa medíocre.

Fez sua campanha prometendo desenvoltura na Educação e na Saúde. Manteve na Educação um titular franqueado por seu "Grande Mestre" e nomeou para a Saúde, credenciado pelo aparelho do PT, um infectologista vindo da pasta da Articulação Política, contaminado pelas febres inerentes ao cargo.

A nobiliarquia ministerial tem 35 marqueses e três duques que realmente contam: Fazenda (com a Receita), Justiça (com a polícia) e a Casa Civil, com o resto.

Dos três, Guido Mantega é aquele que traz melhor desempenho. Pode não ser muita coisa, mas é alguma coisa. Na Justiça, José Eduardo Cardozo prenuncia um comissariado movido pela obsessão de uma reforma política destinada a empurrar o voto de lista e o financiamento público (leia-se "pelo público") das campanhas eleitorais. Por enquanto, o principal objetivo dessa mobilização é erguer uma bandeira sob cuja sombra espera-se criar um arcabouço teórico que justifique a absolvição da quadrilha do mensalão.

Antonio Palocci chegará à Casa Civil com dois sucessos: a estabilização econômica durante o surto de terrorismo financeiro de 2002/2003 e uma espetacular dispensa pelo Supremo Tribunal Federal no caso da quebra do sigilo do caseiro Francenildo.

Irmanados na fé petista, Dilma e Palocci tendem a formar uma poderosa dupla. Não se deve esquecer, contudo, que a futura presidente assumiu de fato a Casa Civil em novembro de 2005, quando enfrentou o último canto daquilo que se denominava ekipekonômica. Diante de um plano de ajuste fiscal de longo prazo, concebido nos ministérios da Fazenda (Palocci) e Planejamento (Paulo Bernardo), ela mostrou a que viera. Detonou o trabalho ("rudimentar") e calou o contraditório: "Esse debate é absolutamente desqualificado, não há autorização do governo para que ele ocorra."

Com esse episódio, fechou um ciclo iniciado nos anos 90, por meio do qual a ekipekonômica emparedava o governo com planos, entrevistas e artigos de notáveis. Na verdade, não foi Dilma Rousseff quem prevaleceu. Ela apenas vocalizou a posição de Nosso Guia e tanto Palocci como Paulo Bernardo entenderam.

A boa notícia, ou pelo menos o depósito de esperanças, está numa trinca da bancada de feminina: Miriam Belchior (Planejamento), Maria do Rosário (Direitos Humanos) e Izabella Teixeira (Meio Ambiente). Elas têm a característica que identificava Dilma Rousseff em 2002, ao ser chamada para o Ministério de Minas e Energia. Acumulam currículos e, no caso das duas primeiras, militância petista.

Foi fácil para Dilma Rousseff compor um ministério que representa a continuidade do projeto de poder de Lula. Fica faltando definir o papel de Nosso Guia a partir de 2 de janeiro, quando retornará ao mundo onde os sinais de trânsito podem estar fechados, portas não abrem sozinhas e, como já percebeu, as pastilhas Valda de Guido Mantega vão para Dilma.

Depois de todo o esforço de composição do ministério, o governo de Dilma Rousseff continua onde sempre esteve: qual o papel de Lula, o pau do circo, que não está em lugar nenhum, mas deu a todos os lugares onde estão?

Saga cearense

Merval Pereira – O Globo

A saga de Ciro Gomes continua se revelando uma das mais patéticas da política nacional. De político renovador que acabou com as oligarquias cearenses, tornou-se símbolo de sua própria oligarquia, e acabou dando a volta ao mundo para acabar novamente em Sobral, que já teve seu irmão como prefeito e, tudo indica, terá um representante seu no ministério do primeiro governo Dilma, com o patrocínio político de seu grupo cearense.

De quase-presidente eleito em 2002, Ciro Gomes está prestes a tornar-se um político sem mandato e sem apoio político de seu próprio partido, o PSB, que entrou em polvorosa quando a presidente eleita o convidou pessoalmente para assumir o ministério da Integração Nacional.

A começar pelo presidente e principal líder do PSB, o governador reeleito em Pernambuco Eduardo Campos, houve reação de todos os lados contra sua indicação.

Campos tinha um candidato pessoal ao ministério e não abriu mão para Ciro.

O PMDB fez questão de revelar seu descontentamento com a volta de Ciro ao primeiro plano do governo do qual se sente sócio.

O vice presidente eleito, Michel Temer, que Ciro chamou de comandante de um agrupamento sem escrúpulos, mandou seu recado: como ministro, Ciro lhe deveria obediência hierárquica, e teria que ter “contenção verbal”.

Ciro ficou conhecido pela virulência de sua fala, o que lhe valeu o apelido de “língua de aluguel” do governo, especialmente quando se referia ao tucano José Serra.

Na eleição presidencial de 2002, houve um momento da campanha em que o então candidato do PPS, Ciro Gomes, apareceu na frente de Lula.

O presidente do Ibope, Carlos Augusto Montenegro, dizia que sua situação era tão confortável que, se Ciro tivesse viajado com a mulher, Patrícia Pillar, e desaparecido da campanha, poderia ter sido eleito.

Em vez disso, prosseguiu na campanha e, entusiasmado pela aprovação popular que colhia naquele momento, deixou-se perder pela boca, o que, aliás, tornou-se seu hábito.

Xingou de burro um eleitor que o questionava num programa de rádio, fez comentários machistas em relação a sua mulher Patrícia Pillar, e se perdeu completamente, não conseguindo nem mesmo ir para o segundo turno.

Nunca ninguém foi tão humilhado publicamente quanto Ciro Gomes na campanha eleitoral deste ano, impedido de apresentar sua candidatura à presidência da República pelo próprio Lula, que o induziu a erro ao sugerir que transferisse seu título eleitoral para São Paulo a fim de disputar o governo daquele estado.

Não conseguiu apoio do PSB, que tinha o empresário Paulo Skaf como candidato, um dos maiores absurdo políticos de nossa história recente, foi bombardeado pelo PT, e acabou não podendo nem mesmo ser candidato a deputado federal.

Vendo o cerco contra sua candidatura à presidência na eleição deste ano se apertar, Ciro voltou a usar sua língua ferina, desta vez contra o próprio governo.

Disse que Lula “viajou na maionese”, estava enganado pensando que era Deus e que tudo podia.

Disse que Serra era mais preparado para exercer a presidência da República do que Dilma.

E caiu em desgraça junto ao PT, ao PMDB e ao próprio PSB, cujo presidente Eduardo Campos conspirou com Lula para inviabilizar a candidatura de Ciro.

A relação conflituosa de Ciro com Lula levou até mesmo a que ele rompesse com seu maior aliado político no Ceará, o senador Tasse Jereissati, que já abandonara o candidato tucano José Serra para apoiá-lo em 2002.

Pois Ciro traiu o acordo branco que tinha com Tasso no Ceará para tentar se aproximar mais de Lula, mas não teve a contrapartida.

O que Lula queria era uma disputa polarizada entre Dilma e Serra, ou entre PT e PSDB, ou, melhor ainda, entre ele e Fernando Henrique.

E Ciro insistia em quebrar essa polarização, alegando que era melhor para os governistas que houvesse mais candidaturas.

Lula mostrou-se certo, do ponto de vista de seu interesse pessoal, na estratégia, tanto que foi a presença de Marina Silva pelo PV que impediu que a disputa se resolvesse já no primeiro turno.

Mas, naquele momento, registrei aqui na coluna que o que menos importava era o que pensa ou diz o deputado Ciro Gomes. “Goste-se ou não da maneira como o deputado federal Ciro Gomes faz política, uma coisa é certa: sua desistência forçada à disputa da Presidência da República é um golpe na democracia”, escrevi então.

Considerava, e ainda considero, que a interferência frontal do presidente Lula para inviabilizar uma candidatura em benefício da que escolhera era uma agressão do ponto de vista democrático à livre escolha do eleitor.

Conchavos de gabinete com o objetivo de transformar em plebiscito uma eleição em dois turnos, concebida justamente para dar ao candidato eleito a garantia de apoio da maioria do eleitorado, reduziram o sentido da eleição.

Ciro foi de diversos partidos, inclusive da Arena no tempo da ditadura, mas teve sucesso político no PSDB, pelo qual chegou a ser ministro da Fazenda na transição do governo Itamar Franco.

Foi chamado às pressas para apagar um incêndio que ameaçava a candidatura presidencial de Fernando Henrique Cardoso.

O então Ministro da Fazenda, Rubens Ricupero, foi flagrado com o microfone aberto em um programa de televisão dizendo coisas como “o que é bom a gente mostra, o que é ruim a gente esconde”.

Ciro Gomes era um jovem político de sucesso que governava o Ceará, e foi uma grande solução política para o momento.

Esse período serviu também para que se tornasse adversário ferrenho tanto do ex-presidente quanto de José Serra, a quem, pela gana que tem, deve atribuir uma atuação decisiva para que não tenha continuado ministro da Fazenda.

Na ocasião, o presidente eleito Fernando Henrique Cardoso ofereceu-lhe o posto de Ministro da Saúde, que Ciro recusou, considerando uma ofensa a oferta.

Anos depois, José Serra, derrotado na disputa para a Prefeitura de São Paulo, ocupou o ministério da Saúde e alavancou sua carreira política, tornando-se candidato a presidente em 2002.

Até hoje medidas adotadas no ministério, como os genéricos, lhe rendem uma visibilidade política importante.

Pois, ironicamente, Ciro hoje tinha como seu sonho de consumo assumir o ministério da Saúde no governo Dilma, o que lhe foi negado liminarmente.

Marx e a picaretagem iluminada

Ipojuca Pontes, Mídia Sem Máscara


Foi paradoxalmente no anarquista Proudhon - tanto o teórico socialista voltado para a crítica da economia quanto no ativista e organizador político - que Marx encontrou respaldo para suas formulações teóricas.

Com o materialismo histórico a tiracolo, Marx se propunha não só a exercer alguma influência sobre os destinos do mundo, mas transformá-lo - o que em sua linguagem revolucionária significava, antes, destruí-lo. Desse modo, tal como partiu anteriormente para liquidar com a filosofia, Marx atirou-se contra o mundo da economia burguesa, com ênfase na demolição da propriedade privada e do sistema capitalista de produção.

Mas, para atuar na esfera diretamente política, o passo que deu a seguir - ou paralelamente - foi o de se instrumentalizar nas palavras de ordem do ideário político dos reformistas sociais franceses e, com mais empenho, nas cantilenas igualitaristas de Rousseau, Saint-Simon, Fourier e Proudhon.

Foram muitas as idealizações dos reformistas sociais franceses do século 18 e 19, mas pelo menos duas delas ganham destaque e unem todos eles, a saber: 1) a predominância da igualdade completa entre os homens, e 2) a construção de uma sociedade modelar justa e livre. Pode-se dizer, a bem da verdade, que na Grécia antiga Platão já propunha algo semelhante na sua "República" (Nova Cultural, São Paulo, 1997). Mas, no mundo moderno, foi só com a luminosidade de "O Contrato Social" (Ediouro, Rio, 1977), de Rousseau, escrito em 1792, que o projeto ganhou sua formulação detalhada. É sabido que Marx, enquanto leitor e teórico, estimava o apelo dessas idéias e que frequentemente recorria a todas elas, em especial às projeções de Rousseau, Saint-Simon e Fourier, embora os enquadrasse na categoria de "socialistas utópicos" - o que, dependendo das circunstâncias, poderia ser entendido como um elogio ou esculacho.

O "Contrato Social" de Rousseau é um somatório de regras administrativas para se chegar à sociedade civil perfeita. Com ele, o pensador iluminista pretende transformar a sociedade existente, considerada injusta, numa nova sociedade perfeitamente igualitária composta por "homens novos". Para construir a sociedade ideal, julga necessário de início que se ame as leis criadas a partir de uma vontade coletiva; estas, por sua vez, coordenadas por elite política sábia, a quem todos se obrigam a obedecer por contrato.

Na nova sociedade projetada por Rousseau, o Estado deve controlar todos os aspectos da vida social e econômica dos seus integrantes, pois acredita plenamente que "A virtude é produto do bom governo e os vícios são muito mais decorrentes de mau governo que próprio dos homens", pois, "os homens são seres sociais por natureza e, na sua unidade, bem conduzidos, serão bons, serão felizes, e essa felicidade fará a felicidade da República". (De passagem, aqui convém esquecer que o "Contrato" de Rousseau foi a bíblia que orientou Robespierre na condução do "bom governo" da Revolução Francesa de 1789, quando nele instalou o regime fraterno do terror).

Já Saint-Simon, em "O Organizador", escrito em 1819, e Fourier, na sua "Teoria dos Quatro Movimentos e dos Destinos Gerais", de 1808, seduzem Marx porque ambos vislumbram de modo bastante imaginoso a criação de sociedades igualitárias. Saint-Simon esboça, preliminarmente e no plano teórico, um entendimento "dialético" da filosofia da história, ao detectar que "no momento em que o sistema feudal e teológico foi definitivamente organizado, já os elementos de um novo sistema social começam a se formar". Nesse novo sistema social a ser formado, a resultante seria a aparição de uma sociedade em que não haveria a exploração do homem pelo homem e em que seriam eliminados, de um só golpe, o clero, a nobreza e os militares. Um conselho composto por sábios e artistas governaria a sociedade igualitária de Saint-Simon e, sob o amparo do saber, "a humanidade viveria feliz".

Já no mítico "Falanstério" de Fourier, não concretizado pela ausência de um capitalista para financiá-lo, há uma acentuada preocupação com a vida sexual dos seus habitantes, que em muito seduziu o ideólogo alemão. Nele, formando uma nova ordem "societária", homens e mulheres trabalhariam em comunidades e fazendas coletivas. A divisão das riquezas estaria subordinada à quantidade e à qualidade de trabalho de cada um - achado que Marx considerou brilhante e logo dele se apropriou. Mas, para Fourier, o ponto principal seria, antes de pensar na criação do "homem novo", estimular a proliferação do "casal progressivo", entendendo-se por essa prática a relação amorosa livre do "vínculo conjugal fixo", a contestar "o sistema opressivo dos amores" vigente na sociedade burguesa.

Mas foi paradoxalmente no anarquista Proudhon - tanto o teórico socialista voltado para a crítica da economia quanto no ativista e organizador político - que Marx encontrou respaldo para suas formulações teóricas. Proudhon não era, simplesmente, um fabricante de sonhos ou um idealizador de sociedades fantásticas. Autodidata, filho de um tanoeiro, tem nas suas projeções críticas, dentro do contexto socialista, o senso possível da realidade. Embora considerado um dos fundadores da sociologia (uma fábrica de fumaça que chama de ciência social), ele desempenhou, de fato, papel importante na organização de associações e movimentos operários franceses, sendo reconhecida sua atuação na revolução de 1848 (quando foi eleito por operários membro da Assembléia Constituinte), além da influência, depois de morto, por força de suas idéias e ação dos seguidores, na Comuna de Paris de 1871 - desempenho este, por motivos óbvios, sonegado perversamente por Marx nas reportagens que formam "As Lutas de Classes na França" e "Guerra Civil na França" (ambos da Global, São Paulo, 1986).

A rejeição, na obra de Proudhon, da heterogestão como sistema comum tanto ao socialismo quanto ao capitalismo, tem plena atualidade e encontra ainda hoje, na crítica do Estado, melhor fundamentação teórica do que as arrogantes parolagens marxistas.

Ademais, Proudhon era dono de uma personalidade mais leal e palatável. Seus métodos de atuação política contrastavam fundamentalmente com os de Marx, e ele soube, como nenhum outro, conduzir a classe operária francesa à posição de destaque no cenário internacional. A um só tempo, Proudhon reconhecia as vantagens da descentralização governamental, operava na criação de instituições financeiras de crédito popular (mutualismo), apontava para o imperativo da autogestão em face das organizações estatais e burocráticas de controle social e, a partir da aplicação da justiça à economia política, teorizava sobre a necessidade de uma democracia operária em oposição à ditadura do proletariado. Marx, para reiterar o óbvio, acompanhou todos os seus passos e tinha no confronto com ele e um seu aliado, Mikhail Bakunin (1814-1876), a razão de ser de sua existência política e teórica (curiosamente, os dois anarquistas que o fizeram cair de quatro).

Talvez pela soma do acima exposto, os estudiosos à procura da gênese do marxismo e isentos das fobias partidárias/ideológicas são concordes em apontar "O que é a propriedade?" como a obra seminal que leva Marx a descobrir as distintas possibilidades do socialismo. Bem examinadas, a crença de Proudhon em que numa sociedade as "forças coletivas" ("forças produtivas", em Marx) criam uma "razão coletiva", de um lado, e a crítica à exploração do trabalho que origina a mais-valia, de outro, seriam mais que suficientes para justificar o entusiasmo de Marx em torno da influente obra. Entusiasmo, de resto, não contido inicialmente e assim expresso por Marx em "A Sagrada Família" (Editora Moraes, São Paulo, 1987):

- "Todos os desenvolvimentos da economia política supõem a propriedade. Esta hipótese de base é considerada pela economia política como fato inatacável... E eis Proudhon que submete a propriedade privada, base da economia política, a exame crítico, ao primeiro exame tanto categórico e impetuoso quanto científico. Ai está o grande progresso científico que ele realizou, um progresso que revoluciona a economia política e torna possível, pela primeira vez, uma verdadeira ciência da economia política. A obra de Proudhon é tão importante para a economia moderna quanto a de Sieyès para a política moderna".

Veremos a seguir a razão pela qual Marx passou a odiar Proudhon.