sexta-feira, março 01, 2013

O farsante


Adelson Elias Vasconcellos

Não se precisa recorrer muito ao passado distante para se demonstrar que PT e democracia são dois entes contrários entre si. Um não suporta o outro. Já provamos aqui que, na oposição, o PT, comandado por Lula e Dirceu, sempre SABOTOU qualquer governo democrático. Sempre se manteve distante do processo de redemocratização do Brasil. Hoje, seu discurso é um verdadeiro atentado aos fatos históricos. Posam de democratas, carregando em seu espírito seu totalitarismo, seu espírito mau caráter, seu ódio à verdade, ao regime de liberdades, principalmente, à que diz respeito à expressão e pensamento. Querem que todos se rastejem aos seus pés borrados de lama e imoralidade, como se fossem vaquinhas de presépio, doeis, cordatas, cegamente obedientes à sua sordidez.

Também o passado comprova o quanto Lula é mau caráter. Mas, nos últimos dias, o “cara” tem caprichado no figurino, exibindo para quem quiser ver, sua podridão moral e política.

Às vezes, impõe-se perguntar: afinal, o que deseja o PT, além do poder? Que valores defende? Que regime sonha impor ao país?

Lula tem-se na conta de um grande líder.  Quer ser visto como tal e quer ser tratado como estadista. Nem liderança se impõe à força, tampouco se considera estadista que para coinstruir, destrói tudo à sua volta. 

O estadista, já afirmei em outras ocasiões, é aquele que faz o melhor pelo seu país, por acreditar no resultado final, independente do preço político que sua ação irá lhe custar. Governante merreca só discursa por conveniência, e só age para corromper e cooptar. Lula está longe do perfil de estadista, pode-se afirmar, até e sem medo de errar, que veste o perfil totalmente oposto ao de Lincoln.  Antes que outros lhe reconheçam valores sadios, ele os quer impor no pensamento dos outros, deseja forçar a imagem que gostaria de ter, quer ser visto como ele próprio se vê.  Talvez aí resida este ódio tão rombudo que destila de sua fala, de suas manifestações esquizofrênicas. Apesar de ainda novo na idade, Lula age com se vivesse em total senilidade. Criticar o “cara” nestes tempos tão estranhos, tornou-se pecado mortal, por mais justa e concreta que seja a crítica. 

Dizer que FHC deveria calar-se já seria ridículo, para quem jamais se calou para ofender, mentir, distorcer, caluniar, reescrever a história ao contrário dos fatos e, principalmente, para quem se acha dono da presidência da república. Comparar-se a Lincoln, como fez hoje, é ofender a história de um verdadeiro estadista, tentando igualá-lo com um mequetrefe. Mas o cretinismo de Lula jamais teve limites. Não satisfeito com seu obscurantismo, ignorância e má fé, o ex-presidente sustentou que mídia tradicional nunca defendeu eleições diretas para presidente; ao abrir comemorações de 30 anos da Central Única dos Trabalhadores, Lula defendeu uma mídia própria dos "do andar de baixo". De fato, em termos de baixeza, Lula tem muito a ensinar. Quanto a defesa das eleições diretas, Lula deveria voltar ao tempo do Colégio eleitoral que elegeu Tancredo Neves, passo inicial para a redemocratização do país, quando seu partido, por sua ordem, expulsou três parlamentares do partido por terem votado em Tancredo.   Além disso, impediu que os parlamentares de seu partido, que haviam participado da Constituinte, assinassem a carta magna do país. Assim, é de se perguntar: quem está difamando, quem está usando de má fé, quem está tentando ignorar a própria história do país? Quem senão o mau caráter petista durante seus dois mandatos tentou, em diferentes ocasiões, calar a imprensa independente? Nem Lula tampouco os petistas, neste particular, jamais estenderia a mão ou tiveram uma iniciativa por mínima que fosse pela restauração da democracia brasileira. 

Desde que se tornou um líder político, Lula jamais estendeu a mão, quando foi oposição, em favor do país. No poder, tentou de diferentes formas emplacar um autoritarismo vesgo e retrógrado. Jamais se cansou de constranger às instituições democráticas em nome de seu projeto político pessoal, que jamais mirou o benefício do Brasil.

A atuação de Lula e seus miquinhos amestrados está perfeitamente registrada. Contra fatos não há nem argumentos e mentiras que os contestem. Lula pode se pintar de ouro, da cabeça aos pés, mas jamais conseguirá esconder a lama de que é revestido, nem ocultar a estupidez de sua moral distorcida.  Pode ser até que consiga, junto com sua gangue de pivetes e delinquentes, emplacar um regime totalitário por aqui, sonho de seus sonhos. Mas é certo que a História que não o poupará do julgamento de seus atos, palavras e pensamentos. E, mesmo que um dia ainda queira retornar à presidência e consiga seu intento, e conforme sempre lembramos aqui, a que se ter em conta que Hitler chegou ao poder na Alemanha nazista também carregado nos braços do povo. Nem por isso deixou de ser reconhecido como o canalha  monstruoso e tirânico que sempre foi.  Pena que Lula não tenha aprendido a lição. “Aconselhar” a outro ex-presidente, que calasse a boca, seria saudável se, ao seu turno, Lula se comprometesse em não dizer mais as merdas que diz, principalmente, em revelar sua face mais grotesca de sua personalidade mitomaníaca. Seria uma troca interessante para todos nós. Quanto à Lincoln, bem melhor que Lula se esquivasse da comparação ridícula: enquanto o Lincoln americano, o legítimo, se empenhou em abolir a escravidão, o nosso, o de Garanhuns, clone portanto, se empenhou em reacender o confisco sobre os salários da moçada que ganha pouco. Apenas, por aí, já seria extrema vigarice a comparação, quanto mais se esta comparação quiser confrontar o espírito democrático de um e de outro. Lula não sabe o que seja democracia, seus valores, seus princípios. Por tudo que fez e diz, fica claro que baba de ódio contra o regime democrático, onde não apenas os cidadãos são livres para se expressar, mas, principalmente, para discordar do capitão do mato.  E uma pequena lição histórica para o “Lincoln” de Garanhuns: naquele tempo, meu senhor, não havia telex e sim telegrafia, ok? 

Assim, muito antes de encarnar a notável figura de um libertador, Lula, o farsante, a cada dia se parece muito mais com um fascista. 

Grandeza de caráter não é para qualquer um. Você não precisa ter um anel de grau, ou reunir um patrimônio bilionário. Requer, antes de tudo, uma grande dose de humildade, precisa ver-se como mais um na multidão, com a diferença de que se olha para esta multidão com olhos serenos de que somos iguais a todos eles, carregando individualidades que nos tornam únicos, nunca maiores. Lula não se vê assim, coloca-se sempre num patamar acima da própria humanidade a que pertence. Esquece de sua essência, de sua falibilidade, de que nada seria não tivesse se apoiado em tantos que cruzaram em seu caminho e que lhe estenderam a mão. Dilma, ao negar o óbvio, de que a modernização e estabilidade econômicas, além da estruturação de programas sociais, foram obras alheias, comete o mesmo erro. Para crescer, dona Dilma, não é preciso descer tanto...

Nau à deriva


Adelson Elias Vasconcellos

Dona Dilma Rousseff, do alto do palanque eleitoral do qual, diga-se, jamais arredou pé, afirmou n festa promovido pelo PT para comemorar seus dez anos no poder federal,  que os governos seu e de Lula não receberam herança nenhuma do antecessor, que tudo que está aí foi construído por eles, Lula e Dilma. 

É claro que o ex-presidente FHC sentiu-se ofendido com a afirmação mentirosa e canalha. Mas, peraí: quem, senão os próprios tucanos se iludiu esperando dos petistas algum ato digno?  

Ora, ainda com FHC no Planalto, pode-se conhecer muito bem a essência dos petistas. Sabe-se que na oposição, não só trataram de sabotar os adversários, como ainda sempre deram um jeito de difamá-los. Não se espere de um governo petista um ato digno de reconhecimento das virtudes dos governos ao quais sejam oposição. É parte de sua estratégia poder, demonizar as virtudes alheias, para terem, mais adiante, motivos para justificarem seus erros. 

Quando Dilma assumiu e acenou alguns agrados aos tucanos, em carta e até em discursos, fazia parte da estratégia agradar o ego dos adversários para  que sua atuação na oposição fosse mais contida, mais serena. Quem caiu no estratagema o fez porque quis, sabendo que, mais  adiante,  o agrado custaria caro. 

O arquivo do blog está repleto de artigos em que demonstramos que os principais programas virtuosos do PT tem sua origem senão toda a sua estrutura construída no governo FHC. O Bolsa Família é bem um exemplo. A sensível melhora dos principais indicadores sociais começaram a partir de 1995, e não de 2003, como o PT tenta mentir.

A estabilidade econômica teve seus pilares construídos com o Plano Real, contra o qual o PT se indispôs e no youtube há diferentes vídeos do próprio Lula confessando ter errado a sua crítica. Também há vídeos em que o Lula classifica de eleitoreiros os programas sociais que, mais tarde, iriam resultar no seu bolsa família.

E o que se dizer do PAC que é uma versão piorada do Avança Brasil? Em qualquer direção que se vá, iremos constatar que o PT transforma em seus, os programas alheios,  demoniza as virtudes dos adversários e torna virtudes imaculadas seus mais graves defeitos!!!

Melhor do que ninguém, FHC conhece bem o DNA petista. Portanto, não deveria sentir-se espantado com a declaração de Dilma. São inescrupulosos por excelência, independente de estarem no poder ou na oposição. Ou citem um único governo de 1985 a 2002, para o qual os petistas tenham prestado uma colaboração que fosse ou que não tenham tentado sabotar com todas as suas forças? Sequer participaram do Colégio Eleitoral que elegeu Tancredo Neves e pôs fim à 21 anos de ditadura militar, como se negaram também até em assinar  a atual constituição do país. 

Há alguns atrás, o próprio FHC reconheceu o erro de não ter capitalizado politicamente  a rede de programas sociais – eram doze – implementados e desenvolvidos   pelo Comunidade Solidária, à época, comandada por Dona Ruth Cardoso, esposa do ex-presidente. 

Se a gente confrontar bem os governos petistas com o que fizeram comunistas, nazistas e fascistas,  sua principal virtude, razão quiçá de sua popularidade, centra-se na máquina de propaganda, empregada sem freios para vender aos olhos externos virtudes que não existem, exaltar feitos imaginários, e negar qualquer distorção ou incompetência. A essência de governantes autoritários e com a qual se sustentam no poder, é o uso da mentira como arma política. Os governos Lula e Dilma, apoiados por fabulosa e milionária máquina publicitária comandada por marqueteiro de extrema competência,  elevaram a mentira à categoria de pensamento, de um valor permanente para se mostrarem à grande massa os fundadores de um novo tempo de glórias. Construíram no imaginário um Brasil que não existe, de norte a sul feito de fantasias e mistificações. 

Houve tempo em que afirmamos que, cedo ou tarde, a máscara cairia, e ao menos no mundo exterior, livres da influência publicitária, enxergaria a verdadeira essência destes governos populistas repletos de falsas impressões. Desde que a crise financeira de 2008, quando o Brasil parou de ser financiado pelo desenvolvimento econômico alheio, pouco a pouco a fumaça que escondia nossa realidade, que mantinha oculto do exterior nossas mazelas, foi sendo desanuviada e exibindo não um projeto de país, mas um projeto totalitário de poder. 

Talvez por não perceberem que a direção dos ventos tomara novo rumo, tanto Lula quanto Dilma continuaram insistindo em não assumirem seus erros, suas má escolhas, em quererem demonstrar uma capacidade que  nunca tiveram. Para o mundinho velho de guerra lá fora, hoje se sabe em que bases o Brasil construiu sua estabilidade, em que ponto inicial nossos indicadores sociais sofreram uma verdadeira revolução positiva. 

Dilma, levada mais por sua estúpida arrogância, tenta a qualquer custo desconstruir as virtudes,  na economia e no social, erguidas no período 1995/2002. Tanto que Mantega  tenta desmontar o tripé no qual a estabilidade econômica se encontra assentada. Infelizmente, o resultado até aqui tem sido péssimo, a ver os indicadores da área negativos. Dilma tentou emplacar,  por decreto,  o fim da miséria. Antes do programa ser lançado há duas semanas atrás, o plano de marketing já estava pronto. Ou seja, primeiro se monta a mentira através de propaganda maravilhosa tanto quanto mistificada. Só depois, o principal, que são os programas e as ações que o irão  embalar, em si, é que vão para as ruas e os resultados virtuosos já aparecem relacionados e bem dispostos no material publicitário. São governos de pura fantasia, falsos como notas de R$ 3,00, e não deveriam, deste modo, iludir aos mais bem informados. 

O Brasil mantém uma incrível estatística de ter dois terços de sua população semialfabetizada e, portanto, longe da boa informação. É neste campo que o PT, usando este exército de incautos, atua a seu favor. 

Quando percebeu que o mensalão e os indicadores econômicos ruins poderiam afetar sua imagem, e antes que a oposição fizesse bom uso disto,   o PT se apressou em mudar o foco da discussão nacional, lançando, com quase dois anos de antecedência,  o processo eleitoral para a sucessão de Dilma. E o pior é que colou: hoje a oposição continua discutindo seu rumo, seus prováveis candidatos, esquecendo-se de exercer seu papel, como se viu na ação do embaixador venezuelano e no complô armado contra a visita de Yoani Sanchez  pelo  Planalto e com gente do governo, políticos do PT, PC do B e o embaixador de Cuba. 

O Brasil, no fundo, virou uma geleia geral. Quem quiser investir por aqui não sabe sequer quais regras do jogo em que se fiar, tamanha as alterações de última hora dos marcos regulatória. O que ontem era regra, amanhã  já não é mais. 

As estatísticas oficiais da economia já viraram zorra total. Não se sabe em quais números confiar, tamanha as maquiagens empregadas para mascarar a realidade. 

Assim, as oposições não podem continuar iludidas com o PT que temos aí. Se necessário, eles vendem a mãe e o resto da família para se manter no poder, única e verdadeira obsessão que os alimenta. Esperar coisa melhor  é insistir na estratégia que tem tornado a oposição cada dia mais irrelevante, e até se poderia dizer: a própria representatividade política se tornou ordinária, desprezível, inútil. O Congresso, e provas não faltam, se tornou um mero ajudante de ordens (de luxo!) do Executivo, é um poder sem poder, sem vontade própria, sem autonomia, sem direção a não ser  satisfazer os caprichos do Executivo, por piores e mais desprezíveis que tais caprichos possam ser, ou ainda, por mais que atentem ao verdadeiro interesse público .  

Aécio Neves, provável candidato oposicionista à Dilma, diz que botará o bloco na rua em maio, antes seria logo após o Carnaval.  Deveria tê-lo feito tão logo as urnas de 2010 foram fechadas.  Lamento informar,  mas o mineiro está chegando com um atraso de pelo menos dois anos e meio e o que é pior: com um discurso vazio, desbotado  e distante da realidade do atual cenário político. 

A oposição acha que ao  reconquistar o poder federal, se fortalecerá nacionalmente. Infelizmente, a estratégia vai na direção oposta. Vai errar de novo e vai continuar oposição, e cada dia mais debilitada.  Enquanto insistir em desconsiderar as estratégias empregadas pelas  esquerdas, enquanto teimar nesta inútil e burra opção pela tal “oposição responsável”, enquanto bater na mesma tecla de simplesmente ignorar os graves erros petistas, apontando-os e condenando-os  para se firmar junto à opinião pública, vai continuar juntando cacos e  acumulando derrotas. Não se vê, nem do lado governista, tampouco por parte das oposições, ninguém pensando no país,  nas suas carências e necessidades. Só se fala no poder, pelo poder. Nossa nau segue desgovernada, sem rota definida, sofrendo  de espasmos e improvisos. Quem sabe até 2014 não apareça alguém com um discurso diferente, com um plano de ação diferente. O mundo gira, senhores, todos buscam progresso, trabalham por ele, criando caminhos alternativos para se desenvolverem.  Por aqui, entretanto, insistimos nesta luta esganiçada de poder, enquanto o país vai ficando para trás e perdendo o bonde da história. Vale reprisar os avisos anteriores: desfila à nossa frente, um inigualável período da história em que se multiplicam as oportunidades de promovermos um salto de qualidade no nosso desenvolvimento. Infelizmente, estamos desperdiçando uma a uma estas oportunidades. As futuras gerações, estejamos certos, não nos perdoarão pela cegueira e pela preguiça de agora. E tão cedo tais oportunidades não repetirão, não mesmo. 

Passa da hora de por um “basta” ao estelionato eleitoral petista e ao descarado roubo das virtudes e obras alheias. Não me filio a partido algum. Sou apenas um brasileiro sonhando com alguém na presidência pensando e agindo em favor do país, e não, exclusivamente,  em si mesmo e seu partido. Simples assim. Mais do que herança que dizem os petistas não haver recebido, o que deve nos preocupar é a herança que eles irão nos deixar.  Para exterminar a maldição da utopia  esquerdista , precisaremos de muitos governos para desinfetar o Brasil. E isto não se faz entre sorrisos e foguetório, será um processo doloroso. 

De Dilma para Dilma, nova herança maldita?


Rolf Kuntz
O Estado de S.Paulo

Candidata à reeleição, a presidente Dilma Rousseff poderá legar uma herança maldita a si mesma se continuar apostando na maquiagem da economia e cometer o erro do autoengano. Ela pode ter desprezado outros sinais, mas fará algo bom para seu governo, e para o País, se levar a sério o alerta disparado pela pesquisa mensal de emprego do Ministério do Trabalho. Foram criados em janeiro 28.900 postos de trabalho com carteira assinada, de acordo com o primeiro levantamento. Esse número - diferença entre admissões e demissões - é muito menor que o de um ano antes por qualquer das comparações possíveis. É 75,7% inferior ao dado preliminar de janeiro de 2011 e fica 84% abaixo do corrigido com as informações enviadas fora do prazo.

Ainda ontem dois outros dados bem ruins foram divulgados. O IPCA-15, indicador de inflação fechado no meio do mês, subiu 0,68% em fevereiro. Foi um resultado melhor que o do mês anterior, 0,88%, mas ainda muito alto e, além disso, atenuado pela redução da conta de eletricidade. Também na manhã de ontem o Banco Central (BC) publicou as contas externas de janeiro, indicando uma piora nas transações correntes: o déficit acumulado em 12 meses chegou a US$ 58,57 bilhões e subiu de 2,4% para 2,58% do produto interno bruto (PIB). Esse déficit ainda foi financiado com folga pelo investimento estrangeiro direto, mas a tendência, a julgar pela experiência brasileira, é preocupante por mais de um motivo.

Mais preocupantes que esses números tem sido a reação das autoridades às más notícias. A inflação tem resistido nos últimos tempos, mas deverá recuar no segundo semestre, disse na quinta-feira o presidente do BC, Alexandre Tombini. A boa safra e o crescimento menor da massa de salários, a seu ver, devem contribuir para uma desaceleração dos preços. Na sexta-feira, o diretor do Departamento de Emprego e Salário do Ministério do Trabalho, Rodolfo Torelly, também realizou seu ato de fé. Já em 2o12 o menor dinamismo do mercado de trabalho havia sido notado, disse ele, mas deverá haver recuperação nos próximos meses, acrescentou. As medidas econômicas tomadas pelo governo "vão surtir efeito ainda no primeiro semestre", garantiu. O secretário do Tesouro, Arno Augustín, também participou do coro do otimismo. Medidas como a redução da conta de energia, o corte de juros, a desoneração da folha de salários e o lançamento do plano de transportes devem permitir um 2013 parecido com 2010, "um ano de recuperação".

Neste momento, no entanto, a recuperação prevista pelo governo é um crescimento na faixa de 3% a 3,5%, com inflação anual próxima de 5,5%. Para isso ainda será necessária, é claro, uma boa acomodação. A alta do IPCA-15 acumulada em 12 meses ainda ficou em 6,18%, com índice de difusão de 71% (proporção de bens e serviços com elevação de preços). Além disso, a conta de luz ficou 13,45% mais barata, por iniciativa do governo, e isso retirou 0,45 ponto porcentual do resultado geral. Medidas como essa podem frear o avanço dos indicadores, mas de nenhum modo se confundem com política anti-inflacionária. Podem ser positivas para o consumidor e beneficiar a produção e o consumo, mas a inflação é determinada por outros fatores, como a expansão do crédito, o gasto público e, como consequência, o descompasso entre a demanda e a oferta de bens e serviços.

Fora do governo ninguém pode dizer com certeza se haverá algum esforço para controlar esses fatores, embora o ministro da Fazenda e o presidente do BC admitam a hipótese de uma elevação dos juros. Nenhum deles indica, no entanto, quando essa intervenção poderá ocorrer e, além disso, ambos parecem dispostos a tolerar por vários meses uma inflação bem acima da meta oficial de 4,5%.

O BC poderá agir depois de conhecer os números de fevereiro e de março, segundo uma interpretação corrente no mercado, mas conversas desse tipo ainda são meras especulações.

Se as condições de emprego continuarem piorando, os consumidores poderão ser levados a uma atitude mais cautelosa. Nesse caso, a pressão da demanda será atenuada e os preços tenderão a se acomodar. Então, o BC poderá evitar uma nova elevação, embora pequena, dos juros básicos. A política monetária continuará, portanto, cumprindo uma das determinações mais firmes da presidente Dilma Rousseff e os empresários mais preocupados com os juros e o câmbio do que com a eficiência produtiva poderão aplaudi-la por mais tempo.

Mas mesmo essa hipótese é um tanto mal ajambrada. Atenuar a pressão inflacionária pela piora das condições do emprego, enquanto o governo continua gastando muito, investindo mal e concedendo incentivos errados e ineficientes a uma indústria emperrada, está longe de ser um caminho promissor. Além disso, a piora das contas externas vem sendo causada em boa parte pela deterioração do saldo comercial. Até a terceira semana de fevereiro o País acumulou um déficit de US$ 4,6 bilhões na conta de mercadorias, com exportações 7,3% menores que as de um ano antes e importações 12,5% maiores, pelas médias diárias. Mas esse resultado ainda é maior do que seria se as compras da Petrobrás fossem contabilizadas com menor atraso.

Apesar de todo o falatório do governo e das desonerações parciais, a indústria continua com baixo poder de competição e esse é o dado mais importante para a avaliação das perspectivas de crescimento em médio prazo. A política econômica permanece mal definida, os estímulos são remendos mal costurados e há pouca segurança para investir. O investimento encolheu em 2012 e terá de aumentar muito além das previsões correntes para o País crescer no ritmo de seus vizinhos mais dinâmicos.

A balança comercial tem sido tão maquiada quanto a inflação (atenuada pela contenção política de vários preços) e as contas públicas. Já no meio de seu mandato, a presidente Dilma Rousseff tem pouco tempo para limpar a cara da economia nacional, mudar o jogo e cuidar do legado para o próximo governo.

Exemplos


Merval Pereira
O Globo

Fazer oposição ao governo popular que chegou para nos redimir só pode ser coisa de direitistas raivosos, de reacionários a serviço dos piores interesses. Ao contrário, basta que alguém adira ao governo petista para se transformar imediatamente em pessoa respeitável, sobre quem nada pode ser dito sem que uma crítica signifique tentativa de desestabilizar o tal governo popular.

Reputações são lavadas em segundos, passados são esquecidos, muitos se tornam esquerdistas tardiamente. Quantos parentes de presos políticos que nunca levantaram um dedo para repudiar a ditadura agora posam de esquerdistas em defesa da memória de seus queridos e aproveitam para tirar um benefício do governo?

Por que Fernando Henrique deveria “no mínimo ficar quieto”, se, tanto quanto ele, os ex-presidentes que nos restam atuam politicamente com intensidade? E por que Fernando Henrique deveria deixar Dilma trabalhar em paz se ele é o principal nome da oposição e, como o nome diz, tem como função principal se opor ao que está aí no governo?

O que fazia o PT quando estava na oposição? Deixava Fernando Henrique governar com tranquilidade ou tentava por todos os meios boicotar sua administração? Logo no início do governo Lula, quando ele assumiu surpreendentemente como tarefa de seu governo prosseguir a reforma da Previdência, conversei com o então presidente da Câmara, deputado João Paulo Cunha ─ hoje condenado pela participação no mensalão ─ e perguntei a ele por que o PT se batera tanto contra a reforma quando o PSDB estava no governo se agora se mostrava favorável a ela.

Ele, candidamente, respondeu: “Luta política”. Simples assim. A “luta política” justificava tudo, até mesmo trabalhar contra medidas que eles consideravam acertadas. Enquanto ainda era presidente, Lula reclamava da ação de Fernando Henrique, dizendo que ele tinha que aprender a ser ex-presidente. Houve momento em que petista graduado disse que o ex-presidente tucano deveria ir para a casa “cuidar dos netinhos”.

Lula prontificava-se a fazer isso, ao mesmo tempo em que prometia voltar a fazer churrascos para os amigos, sem se meter em política. Ensinaria a Fernando Henrique o que é ser um ex-presidente. Sabemos muito bem o que ele fez desde o primeiro momento em que deixou a Presidência. Faz questão de demonstrar sempre que quem está no comando é ele, a ponto de, na reunião do PT para comemorar os dez anos de poder do partido, ter feito discurso em que tratou a presidente Dilma Rousseff como se fosse um oposicionista. Como ele sempre é o centro de suas próprias falas, Lula fez brincadeira com sua conhecida vaidade. Disse que gostava tanto dele mesmo que sempre votou em si próprio para presidente da República, e que, quando não pôde mais fazê-lo, votou num “poste”.

O “poste” em questão estava ali a seu lado, era a presidente da República, que foi classificada assim durante a campanha eleitoral pelos críticos de sua escolha. Para aliviar o ambiente, Lula deu um fecho generoso à sua piada de mau gosto, dizendo que o “poste” Dilma estava iluminando o Brasil.

Todas essas atitudes de Lula fora do poder podem ser perfeitamente aceitáveis para seus correligionários e eleitores, que costumam não ver seus defeitos. Mas não é possível que críticas aos governos petistas, ou mesmo à sua pessoa, sejam consideradas demonstrações de reacionarismo político, ou tentativa de boicotar as ações do governo popular que chegou para redimir o país, sem dever nada a ninguém, sem ter herdado nada, tendo construído tudo. Lula alimenta essa bobajada.

O autismo da política de comércio exterior


Editorial
O Globo

Impressiona a passividade da diplomacia comercial brasileira, presa a um Mercosul em processo de chavinização, enquanto o mundo assina acordos bilaterais

Consta que a política externa de viés terceiro-mundista seguida pelo governo Lula teria sido uma contrapartida à militância petista pela acertada adoção de uma terapia clássica, monetária e fiscal, para manter a estabilização da economia. No campo comercial, o terceiro-mundismo se materializou na rejeição radical à proposta americana da Alca (Aliança de Livre Comércio das Américas) e aposta cega na Rodada de Doha, de liberalização do comércio mundial.

O Brasil perdeu a aposta — com a contribuição dos “aliados estratégicos” Argentina, China e Índia —, e precisaria compensar o tempo perdido, pelo fato de o mundo ter acelerado a assinatura de acordos comerciais bilaterais.

Mas tampouco fez isso. Ficou paralisado pelo vírus do terceiro-mundismo, refém da crise política e institucional da Argentina, cada vez mais protecionista contra as exportações brasileiras, e deixou-se levar pela onda de chavinização do Mercosul. Tudo conspira a favor da paralisia da diplomacia comercial, engessada pelo viés ideológico anacrônico do “diálogo Sul-Sul”, algo que, no início do governo Dilma, parecia ser exorcizado. Ilusão, pois esta política externa se mostra tão forte quanto nos primeiros tempos de Lula.

É emblemático que a presidente Dilma tenha voado para Malabo, capital da Guiné Equatorial, típica ditadura africana, onde transcorreu a 3ª Cúpula de Chefes de Estado e de Governo da América do Sul-África (ASA). Se Lula conviveu sem problemas com o “irmão” Kadafi e Mobuto, literalmente dono do Zaire, Dilma aparece ao lado de Teodoro Obiang, cujo filho, Teodorin, abandonou às pressas o carnaval baiano, depois de ter a prisão decretada pela Justiça francesa, devido à lavagem de dinheiro e desvio de recursos públicos de outros países.

Enquanto isso, Estados Unidos e União Europeia (UE), responsáveis por um terço das trocas comerciais no planeta, decidem acelerar as negociações para a assinatura de um acordo transatlântico. A produção somada das duas partes representa 47% do PIB mundial.

Dilma, na viagem, ressaltou que o comércio entre a América do Sul e a África, em 2011, de US$ 39 bilhões, representou um crescimento de 447% em dez anos. Mas por que não explorar também os maiores mercados do mundo, como o americano?

Se o acordo dos EUA com a UE for assinado, será um razoável baque para o Brasil, que tem uma pauta de exportação agropecuária concorrente da americana. Fechado o acordo, o Brasil perderá muito espaço na UE. E nenhum dólar africano compensará o prejuízo.

Ao lado disso, outro bloco recém-formado no continente, a Aliança do Pacífico (Chile, México, Peru, Colômbia) tende a se fortalecer por ter uma postura nada ideológica, flexível. Sendo que o México já faz parte do Nafta, com os americanos e canadenses. Impressiona a passividade da diplomacia comercial brasileira. Deve enxergar uma realidade própria, só vista por ela.

A César o que é de César


Alexandre Schwartsman
Folha de S. Paulo

O BC colhe aquilo que plantou e só hipocrisia pode justificar manifestar qualquer surpresa

Depois de meses em negação, atribuindo o aumento da inflação a um mal definido “choque internacional de oferta” (que teve o mau gosto de afetar apenas o Brasil, poupando países como Chile, Peru ou Colômbia), o Banco Central parece ter finalmente acordado para o problema.

Se não ainda para lidar com ele, ao menos para buscar novas desculpas sobre como -depois de reiteradas juras acerca da convergência da inflação à sua meta- esta teima em acelerar.

Agora a depreciação da moeda no ano passado tem sido repetidamente citada por fontes governamentais entre as explicações para a alta inflacionária, tomando o lugar antes reservado ao infame “choque internacional de oferta”.

Para ser sincero, sim, é claro que um real mais fraco (ou, de forma equivalente, um dólar mais caro) se reflete na inflação.

Há bens que podem ser importados e exportados sem grandes custos; assim, seus preços costumam seguir os preços internacionais de produtos similares, convertidos em moeda nacional pela taxa de câmbio. Nesse sentido, não há dúvida de que a desvalorização da moeda tem efeito sobre os preços desses bens e, portanto, se traduz em inflação mais alta.

Ainda, porém, que possamos concordar acerca do efeito inflacionário da depreciação, não é possível aceitá-la como desculpa para o lamentável desempenho do BC no que diz respeito a seu mandato de estabilidade de preços por um simples motivo: porque foi ele quem engendrou a fraqueza do real à qual hoje atribui a culpa pela inflação mais alta.

Uma simples vista d’olhos nas suas ações, na gestão da política monetária, na intervenção no mercado de câmbio ou por meio de medidas regulatórias, mostra, além de qualquer dúvida razoável, que o BC buscou, de forma consciente, produzir um encarecimento do dólar.

Mesmo em face de uma elevação de preços internacionais das commodities, que, em condições normais, produziria -como o fez em outras economias da região- uma moeda mais forte, o BC tomou medidas em várias frentes para manter o dólar acima de R$ 2,00.

Não é sequer necessário ler as intenções do BC nas entrelinhas de suas ações, pois em mais de uma ocasião integrantes da diretoria do órgão vieram a público afirmar seu compromisso com uma taxa de câmbio acima daquele valor, assim como assegurar que agiriam para que “o Brasil não seja uma praça de desvalorização de outras moedas”.

Obviamente essa atitude gerou um impacto sobre a inflação muito maior do que no caso dos países que deixaram suas moedas se fortalecerem em resposta aos preços mais altos das commodities.

Posto de outra forma, se houve efeito da desvalorização cambial sobre a inflação no Brasil (e tudo indica que sim), ele também tem que ser debitado na conta da autoridade monetária, que, ao final da história, estimulou precisamente aquele movimento, pelo menos até perceber tardiamente que sua política era inconsistente com a prometida convergência da inflação à meta. O BC colhe agora aquilo que plantou e só hipocrisia pode justificar manifestar qualquer surpresa a respeito.

Hoje, porém, o problema adquiriu outra dimensão. Não se trata mais de fazer a inflação recuar para a vizinhança de 4,5%, mas sim de evitar que rompa o limite superior de tolerância (6,5%).

Ainda creio se tratar de uma possibilidade remota neste ano em face da intervenção pontual sobre alguns preços, assim como a possibilidade de moderar pressões no curto prazo pelo uso mais ativo das desonerações tributárias.

Esses artifícios, porém, têm vida curta, como exaustivamente demonstrado pela experiência histórica. A verdade é que as várias inconsistências da política econômica estão cobrando seu preço na forma de tensões inflacionárias crescentemente difíceis de esconder.

Se o BC quer lidar com o problema, deveria começar assumindo sua responsabilidade na criação da desordem que ele próprio ajudou a fomentar.


Confusões inexplicáveis


Miriam Leitão
O Globo

É muita trapalhada, em muitas frentes, ao mesmo tempo. A Petrobras comprou uma refinaria por um preço muito acima do razoável e teve que lançar parte do dinheiro a prejuízo; o BNDES toma decisões inexplicáveis de alocação de recursos públicos e tem prejuízo; balanços dos bancos públicos saem com meias verdades. Quando tudo dá errado, o Tesouro usa o seu, o meu, o nosso dinheiro.

O resultado de toda essa confusão será mais confusão, porque o governo escolheu o caminho dos ajustes que encomendam mais desajustes. Um encontro de contas honesto, que admitisse todas as perdas com as decisões controvertidas — por equívoco ou coisa pior — revelaria o tamanho real do rombo que o governo nos últimos anos foi criando para o país. Quem crê que as contas sempre têm que ser pagas sente uma compreensível preocupação com as notícias que diariamente aparecem nos jornais sobre as operações perigosas dos vários tentáculos do governo.

É o caso de Pasadena, o estranho episódio da refina- ria que foi comprada de uma trading belga, em 2005, e um ano depois vendida para a Petrobras por um preço várias vezes maior e que já fez a estatal lançar à prejuízo meio bilhão de reais no último balanço. Ou os belgas são muito astutos, ou as decisões na Petrobras foram tomadas por pessoas sem qualquer noção de valor, ou são todos os envolvidos bem espertos.

O “Estado de S.Paulo” revelou ontem que o Ministério Público apresentou ao Tribunal de Contas da União representação contra a Petrobras. Os números são eloquentes: em 2005, a trading belga Astra/Transcor comprou a refinaria de petróleo Pasadena por US$ 42,5 milhões. Um ano depois, vendeu 50% da refinaria para Petrobras por US$ 360 milhões. Depois disso, as sócias se desentenderam e para encerrar a briga a estatal brasileira pagou mais US$ 820,5 milhões à empresa belga. E agora, no balanço do quarto trimestre, a Petrobras lançou a prejuízo R$ 464 milhões. Ou seja, esse valor é o prejuízo até o momento do impressionante negócio feito pela empresa.

No balanço do BNDES, foram registrados R$ 3,32 bilhões de perdas com empréstimos ou capitalizações que fracassaram. Uma dessas perdas foi a tentativa frustrada do BNDES de fazer uma gigante de leite, a LBR-Lácteos, no qual entrou com 30% do capital e que está em processo de recuperação judicial. Só nesse erro o banco perdeu R$ 865 milhões. Há casos discutíveis em várias áreas, em que o banco tem entrado de forma atrapalhada e sem prestar contas à sociedade, com estratégias discutíveis e prejuízos indiscutíveis. O lucro do banco só não caiu muito porque o Conselho Monetário Nacional permitiu que ele não registrasse a perda de valor das ações transferidas pelo Tesouro.

Nunca é demais lembrar que houve ainda o caso da Caixa, que comprou 49% das ações do Panamericano por R$ 800 milhões, para logo depois descobrir que ele tinha um rombo de R$ 4,3 bilhões. Depois disso, a Caixa teve que pôr mais dinheiro no Panamericano.

O caso da refinaria Abreu e Lima construída pela Petrobras é outro que precisa de boas e bem contadas explicações porque os custos de construção deram saltos ornamentais. No início, seria de US$ 2,5 bilhões e está caminhando para US$ 20 bilhões. E o único ganhador com isso será o petróleo venezuelano, já que ela foi desenhada para refinar apenas o petróleo do país vizinho.

O Tesouro se prepara para fazer mais uma capitalização no BNDES que pode chegar a R$ 8 bilhões. Isso depois de ter transferido a títulos de empréstimos R$ 350 bilhões desde 2008 para o banco. A fonte tradicional de financiamento do banco é o FAT (Fundo de Amparo ao Trabalhador), que só conseguiu fechar suas contas no positivo porque o Tesouro injetou R$ 5 bilhões.

Esses são alguns dos casos estranhos. Não são os únicos.

Esvaziamento da indústria


Celso Ming  
O Estado de S.Paulo

Amanhã saem as Contas Nacionais (evolução do PIB) do quarto trimestre de 2012. Uma das coisas que se verificarão é que a participação da indústria de transformação na renda nacional terá caído de 14,6%, em 2011, para alguma coisa em torno dos 13% em 2012. Segue-se que, se o governo persegue forte crescimento do PIB, cada vez menos poderá contar com a indústria de transformação para isso.

Em outras palavras, no ponto em que estamos, o avanço mais significativo do PIB não se obtém com empurrão ao consumo de bens industriais - seja pelo estímulo ao crédito, seja pela redução de impostos sobre produtos de consumo durável. Será obtido, sim, se o governo puxar pelo avanço dos serviços, o que, evidentemente, não pretende. E, se for verdade que o setor de serviços começa a perder dinamismo, como sugere o ministro da Fazenda, Guido Mantega, ficará inevitável um desempenho também mais limitado do PIB.

Caso se confirme o crescimento da produção (e da renda) da indústria de transformação na ordem de 3% em 2013, como ainda ontem reafirmou o presidente da Fiesp, Paulo Skaf, a contribuição desse avanço para o do PIB do ano deve ser inferior a 0,4 ponto porcentual.

Isso não quer dizer que a indústria nacional não deve ser estimulada com agressiva redução de custos e com aumento de escala de produção. É necessário que uma economia como a brasileira tenha um setor industrial forte.

O problema é que as políticas do governo nesse sentido são tímidas e contraditórias. Não conseguem caminhar, por exemplo, na desoneração dos encargos trabalhistas. Primeiro, puxa o câmbio para dar mais competitividade à indústria, mas, no meio do caminho, se arrepende e volta atrás. Além disso, até agora, o governo não se empenhou em abrir o mercado externo. As políticas protecionistas e de defesa comercial, quando eficazes, limitam-se apenas a criar mais reserva de mercado interno. As negociações destinadas à obtenção de acordos de livre comércio praticamente pararam. E a política de boa vizinhança e de tolerância com a Argentina derrubaram o mercado do Mercosul para a indústria. Em relação a 2011, as exportações para o Mercosul em 2012 caíram 18% e, para a Argentina, 20%.

As causas do esvaziamento da indústria vêm sendo objeto de intensas discussões. O livro O futuro da indústria no Brasil, com textos organizados por Edmar Bacha e Monica Baumgarten de Bolle, é valiosa contribuição para isso.

De todo modo, fica demonstrado que decisões estratégicas de política econômica tiveram por resultado a intensificação do esvaziamento da indústria. Esse esvaziamento não deve ser entendido como "desindustrialização" - conforme vai sendo repetido por aí. Não é o caso, na medida em que não há transferência física de fábricas e de linhas de produção para outros países, a exemplo do que ocorre nos Estados Unidos e na Europa. 

O investimento em infraestrutura que começa a ser atacado com mais determinação pelo governo Dilma ajudará a reduzir os custos da indústria - e, portanto, a fortalecê-la. Mas seu impacto somente será observado a longo prazo. 

A bolsa é para a escola


Carlos Alberto Sardenberg
O Globo

Tentação perversa: como o programa funciona imediatamente, assim que a família recebe o primeiro cartão eletrônico, há um estímulo para que os políticos se empenhem em distribuir mais bolsas. É voto na veia

Os programas tipo Bolsa Família nasceram no âmbito do Banco Mundial — e aqui no Brasil com o trabalho de Cristovam Buarque — com base numa teoria precisa.

O primeiro ponto foi a análise, em diversos países, dos programas que entregavam bens e serviços diretamente às famílias pobres (alimentos, roupas, remédios, material escolar, instrumentos de trabalho etc). O governo comprava e distribuía.

Já viu. Havia problemas de eficiência e de corrupção. Estudos mostraram que, do dinheiro aplicado na América Latina, a metade se perdia na burocracia e na roubalheira.

Melhor mandar o dinheiro direto para as famílias. Mas isso bastaria? A resposta foi não, com base na seguinte avaliação: as famílias não conseguem escapar da pobreza porque suas crianças não frequentam a escolas. E não frequentam porque precisam trabalhar (na lavoura ou nas cidades, caso dos meninos) e cuidar dos outros irmãos, caso das meninas. Apostando que crianças com educação básica têm mais oportunidade de conseguir empregos bons, a ideia é clara: é preciso pagar para as famílias manterem as crianças na escola. Daí o nome oficial do programa no Banco Mundial: Transferência de Renda com Condicionalidade. O cartão de saque do dinheiro contra o boletim escolar.

Parece óbvio, mas houve forte debate. Muita gente dizia que pais e mães gastariam o dinheiro em cachaça, cigarros, jogos e coisas para eles mesmos, usando os filhos apenas como fonte de renda. O bom-senso sugeria o contrário. As pessoas não são idiotas nem perversas, sabem do que precisam.

Havia também uma crítica política, curiosamente partindo da esquerda. Dizia que distribuir dinheiro era puro assistencialismo, esmola e, pior, prática eleitoreira dos coronéis para manter o povo pobre e ignorante. Mas essa é outra das teses que a esquerda no poder jogou no lixo.

O fato é que se começou com programas experimentais na América Central, com patrocínio do Banco Mundial, e funcionou muito bem. Nos anos 90, a ideia se espalhava pela América Latina. No Brasil, com o nome de Bolsa Escola (designação introduzida por Cristovam Buarque) apareceu em 1994, em Campinas, e logo depois em Brasília (com Buarque governador). Foi ampliado para nível nacional no governo FHC, em projeto liderado por Ruth Cardoso. Surgiram ainda por aqui programas paralelos, como vale-transporte e bolsa gás. Lula juntou tudo no Bolsa Família, que passou a ampliar.

Não se trata, pois, de dar dinheiro aos pobres. Se fosse apenas isso, seria mesmo caridade pública sem efeitos no combate duradouro à pobreza. Trata-se de colocar e manter as crianças na escola, ou seja, abrir a oportunidade para esses meninos e meninas escaparem da pobreza.

No México, aliás, o programa chama-se Oportunidades e o dinheiro entregue à família aumenta na medida em que a criança progride na escola. Vai até a universidade. Há também uma poupança depositada na conta de crianças, que podem sacar o dinheiro quando se formam no ensino médio.

Em muitos lugares, há limitação no número de bolsas por família, com dois objetivos: estimular o controle da natalidade (ou reduzir o número de filhos) e desestimular a acomodação dos pais. Também se introduziram outras condicionalidades, como a frequência das mães nos postos de saúde, especialmente para o acompanhamento pré-natal e parto, e das crianças, para as vacinas. Ao boletim escolar acrescenta-se a carteirinha do ambulatório.

Resumindo, o programa funciona no curto prazo — ao dar um alívio imediato às famílias mais pobres — e no médio e longo prazos, com a escola.

Mas há uma tentação perversa. Como o programa funciona imediatamente, assim que a família recebe o primeiro cartão eletrônico, há um estimulo para que os políticos se empenhem em distribuir cada vez mais bolsas. É voto na veia. Ao mesmo tempo, esse viés populista desestimula a cobrança da condicionalidade. Pela regra, se as crianças desaparecem da escola ou não progridem, a bolsa deve ser cancelada. Mas isso pode tirar votos, logo, é melhor afrouxar os controles.

Resumindo: há o risco, sim, de um belo programa social se transformar numa prática populista. Quando os governantes começam a se orgulhar do crescente número de bolsas distribuídas e nem se lembram de mostrar os resultados escolares e índices de saúde, a proposta já virou eleitoral.

E quer saber? Ter todos os pobres recebendo dinheiro do governo não significa que acabou a pobreza. É o contrário, é sinal de que a economia não consegue gerar educação, emprego e renda para essa gente. O fim da pobreza depende de dois outros indicadores: crianças e jovens nas escolas e qualidade do ensino.

O Brasil fora das cadeias produtivas globais


Rubens Barbosa
O Estado de S. Paulo

A fragmentação da produção e a exclusão das negociações externas começam a afetar o comércio externo brasileiro de manufaturas pela perda de sua competitividade

Nem o governo nem o setor privado parecem perceber as transformações que ocorrem no comércio internacional, com profundas repercussões no Brasil. E os novos desafios são, em geral, minimizados pelos formuladores de decisão nos ministérios da área econômica e no Itamaraty.

O governo declara ter uma “política comercial cautelosa” por não querer abrir mão de seu projeto nacional de desenvolvimento e por julgar que, tendo uma indústria diversificada, o Brasil não se deve engajar nos acordos de cadeias produtivas, que levariam a alguma especialização no contexto produtivo.

O processo de globalização vem sofrendo modificações aceleradas, com a tendência de concentração da produção de manufaturas em poucos países e a fragmentação da produção de bens industriais. Nos últimos 20 anos, o comércio das cadeias produtivas (supply chain trade) vem crescendo gradualmente. Trata-se do intercâmbio de bens, investimentos, serviços e tecnologia associado às redes internacionais de produção; que combinam a inovação dos países desenvolvidos com salários baixos dos países em desenvolvimento.

No comércio das cadeias de suprimento, o investimento produtivo dos países desenvolvidos só vai ocorrer desde que certas regras e reformas que garantem a proteção dos bens tangíveis e intangíveis das empresas sejam adotadas pelos países emergentes e em desenvolvimento e caso haja integração da cadeia produtiva no intercâmbio global.

As redes de inovação-produção-comercialização encontram-se dispersas em empresas e países. A ampliação das cadeias produtivas globais e o crescente intercâmbio de partes e componentes está mudando a forma de tratar as trocas tradicionais de bens e serviços. A industrialização e a produção de manufaturas dependerá da participação dos países em desenvolvimento nessas cadeias produtivas de maior valor agregado. Ao ficar de fora do circuito das cadeias produtivas globais, a maioria dos países em desenvolvimento, o Brasil incluído, passa a concentrar suas exportações em commodities e suas exportações de manufaturados tornam-se cada vez mais reduzidas.

A incorporação das cadeias de produção global nos mega-acordos de livre-comércio, como o eventual acordo EUA- União Européia, representa um desafio adicional, pois traz de volta preocupações geopolíticas para o comércio internacional. Considerações de política externa levam as duas regiões a tentar superar diferenças comerciais em função de interesses comuns para a prevalência de normas internacionais e valores e para a contenção da China.

O mundo está se multipolarizando rapidamente e a produção e as cadeias produtivas estão se multilateralizando. A crescente aceitação desse novo modelo de desenvolvimento pelos países asiáticos e alguns latino-americanos representa um grande desafio para os países emergentes como a China, a índia, o Brasil e a Rússia, que relutam em aceitar a lógica dos atuais fluxos de investimento e do comércio.

A Organização Mundial do Comércio (OMC) procura regular e facilitar o intercâmbio tradicional – que diz respeito a bens produzidos num determinado país e vendidos em outro – com regras que dificultem ou eliminem as barreiras na fronteira (tarifas) e visem a penalizar a competição desleal (subsídios e dumping) com medidas compensatórias. As novas regras do comércio das cadeias produtivas começam a ser definidas de forma ad hoc nos acordos de comércio regional (como os dos EUA com países da Ásia e com a Europa), tratados bilaterais de comércio e de investimento (como os dos EUA e da Europa com a Coréia do Sul e com o países da América Latina) e por meio de reformas unilaterais dos países em desenvolvimento.

Os acordos regionais de livre- comércio (10 acordos dos EUA, 11 do Japão e 58 da União Européia, segundo a OMC) registram 52 regras, das quais 38 não estão incorporadas à OMC; 14 tocam em disciplinas cobertas pelas regras da OMC, mas vão além delas (OMC plus); 12 das 52 regras estão presentes em 80% dos acordos firmados pelos EUA. A maioria das disposições legalmente obrigatórias são uma ampliação das regras existentes na OMC sobre propriedade intelectual (Trips), garantia de investimento (Trim), serviços, movimentos de capital e cooperação aduaneira.

A nova governança global, portanto, está sendo formada à margem das discussões multilaterais da OMC, com profundas conseqüências para os países em desenvolvimento.

O Brasil, sem estratégia de negociação comercial e com dificuldades para criar um mercado regional para seus produtos, integrados numa cadeia produtiva regional com os demais países, a exemplo do que ocorre na Ásia e na Europa, está cada vez mais isolado e dificilmente poderá beneficiar-se dessas novas tendências do comércio internacional. Os países que integram a Aliança do Pacífico – México, Chile, Colômbia e Peru – firmaram acordos com os EUA, com a Europa e com a China e estão inseridos no contexto dinâmico dos acordos regionais de livre-comércio. A fragmentação da produção e a exclusão das negociações externas começam a afetar o comércio externo brasileiro de manufaturas pela perda de sua competitividade e pela concorrência da China.

Se a política do governo Dilma Rousseff visando ao fortalecimento da indústria nacional der certo, sem o Brasil estar integrado ao dinâmico intercâmbio da cadeia produtiva global, o máximo que o País pode almejar no longo prazo é manter a produção industrial para o mercado interno com medidas protecionistas, para compensar a maior competitividade dos produtos importados.

O mundo não vai esperar o Brasil. Ou o Brasil recupera o tempo perdido e reformula a sua estratégia de negociação comercial externa, ou vai tornar- se cada vez mais isolado no mundo real do comércio global e de investimentos.

O sapo e o escorpião


Luiz Carlos Mendonça de Barros 
Folha de São Paulo

Mais uma vez uso uma conhecida fábula popular para trazer aos leitores da Folha minhas reflexões sobre a economia --e a política-- brasileira nos dias de hoje.

Recentemente, ao preparar uma palestra sobre a gestão da economia no governo Dilma, recordei-me da fábula do sapo e do escorpião.

Os leitores conhecem a imagem de um escorpião que pediu ao sapo para atravessá-lo de uma margem à outra de um lago. O sapo negou-se a fazê-lo, dizendo que o escorpião acabaria por picá-lo. A essa colocação o escorpião respondeu dizendo que, se fizesse isso, ele também morreria. Mas o sapo, encerrando a conversa, disse: eu sei disso, mas a sua natureza vai forçá-lo a fazê-lo.

No caso do governo Dilma, o sapo é representado pela economia de mercado, e que, ao longo de seu primeiro mandato, poderá levá-la à reeleição em 2014. Na sociedade brasileira de hoje, com a classe média representando mais de 50% dos eleitores, o voto depende essencialmente da situação da economia no período eleitoral. Ideologia e imaginário representam muito pouco.

A presidente sabe disso, pois seu criador --o presidente Lula-- ensinou-a nos anos de sucesso que compartilharam nas eleições de 2016 e 2010.

Mas --como o escorpião da fábula-- o governo, parece que por sua natureza, não perde uma oportunidade para aferroar seu aliado na travessia do primeiro mandato. Nesta semana mais uma ferroada foi aplicada nas empresas privadas, permitindo que o governo interfira em contratos --assinados-- de concessão licitados anteriormente.

Isso aconteceu no caso da medida provisória que regulou as condições em que serão realizados os contratos de concessão para exploração de portos e terminais de carga por empresas privadas. Repete-se o mesmo procedimento utilizado no caso recente do setor elétrico.

O que mais chama a atenção do analista é a total falta de importância das novas regras em investimentos já realizados, principalmente nos anos FHC. Somente uma mesquinharia política --ou ideológica-- pode explicar esse procedimento.

Sabemos que a concessão de serviços públicos ao setor privado é elemento fundamental para aumentar a oferta de serviços em vários setores da economia que esgotaram, ao longo dos últimos anos, sua capacidade operacional.

Mas, para que isso aconteça, é necessário que as regras fixadas nos leilões respeitem as condições mínimas para que a atividade privada possa ser realizada com retorno compatível com as taxas de mercado e com os riscos incorridos e, ainda, com segurança jurídica. Até agora isso não vem ocorrendo.

Nos dois primeiros anos de seu mandato, o governo Dilma tem procurado impor condições inaceitáveis ao capital privado, seja via taxas de retorno inviáveis ou por pouca clareza nas condições legais dos contratos firmados.

A origem de tudo isso parece vir da contradição --como no caso do escorpião-- entre a necessidade de trazer o setor privado para realizar os investimentos necessários para acelerar o crescimento e a natureza estatista --em alguns momentos até soviética-- de boa parte da equipe da presidente.

Esse dilema não existiu no período Lula, que conseguiu equilibrar de forma eficiente a dinâmica do setor privado para realizar seus investimentos e gerar crescimento e a de um governo que cuidava de interferir na forma como os frutos gerados seriam distribuídos.

Essa receita, que deu certo e modificou a sociedade brasileira, representou o escorpião vencendo sua natureza e deixando o sapo carregá-lo com liberdade de uma margem à outra do lago.

Infelizmente, em seus primeiros dois anos de governo, a presidente Dilma mudou a forma de interagir com a economia privada. Suas intervenções na economia acabaram por desestabilizar o pacto construído ao longo dos anos Lula.

O resultado foi uma desaceleração do crescimento econômico --principalmente pela queda da confiança dos empresários nas regras do jogo-- de tal ordem que está criando condições políticas eleitorais totalmente diferentes das que prevaleceram nos anos Lula.

Lentamente o veneno do escorpião está minando a resistência e o dinamismo do sapo, ou melhor, do setor privado.

A caça aos investidores


O Estado de S.Paulo

Com um programa de investimentos de US$ 235 bilhões em infraestrutura, o governo brasileiro decidiu buscar no exterior empresários interessados em participar de grandes projetos nas áreas de transporte e energia. A ideia de investir num país com o tamanho e o potencial do Brasil pode ser muito sedutora, mas é preciso muito mais que um belo cardápio de oportunidades para atrair interessados e criar parcerias. Não se aplicam somas enormes em rodovias, ferrovias, portos, aeroportos, sistemas de geração e transmissão de eletricidade e esquemas de exploração de petróleo e gás sem muita confiança no país hospedeiro e sem perspectivas bem definidas de retorno. Essas condições deveriam ser evidentes para o ministro da Fazenda, Guido Mantega, e seus companheiros na primeira rodada de exposições para possíveis investidores, em Nova York. De toda forma, teriam ficado claras pelas perguntas apresentadas durante os contatos. Participaram dos encontros, na terça e na quarta-feira, cerca de 350 representantes de bancos, fundos e empresas operadoras de serviços de utilidade pública. Novas exposições e conversas estão previstas para esta sexta-feira, em Londres.

O ministro da Fazenda apresentou o Brasil como um país de "segurança e rentabilidade". Precisou tocar nesses pontos por dois motivos. Houve perguntas sobre possíveis quebras de contratos na recente renovação de concessões no setor elétrico. Além disso, o governo tem tratado com inabilidade a questão do retorno sobre o investimento em infraestrutura. Tentando eliminar desconfianças, o ministro mencionou, vagamente, uma taxa real em torno de 10% ao ano.

Pode-se discutir se esse número é razoável ou mesmo se tem sentido fixar um número. De toda forma, palavras e atos de autoridades têm justificado uma dúvida: o governo está interessado, afinal, em garantir serviços de padrão internacional com um custo razoável ou em limitar o lucro das operadoras? Bons serviços a preços compatíveis com os de outros países são essenciais para a produção brasileira, em todos os setores, se tornar mais competitiva. Tem sentido cobrar a transferência de uma parte dos ganhos de produtividade aos consumidores. Mas a mera restrição ao ganho dos investidores em infraestrutura é só uma tolice ideológica. E tolices desse tipo têm sido frequentes e notórias.

O ministro teve de enfrentar várias questões a respeito da qualidade do governo, de suas prioridades e das perspectivas de estabilidade da economia brasileira. Perguntas detalhadas sobre os programas setoriais seriam, naturalmente, dirigidas a outros membros da missão, especialistas nas áreas de transportes, eletricidade e petróleo e gás. Mas a conversa do ministro Mantega com os investidores poderia ter sido mais simples, com certeza, se houvesse menos dúvidas sobre a gestão macroeconômica e sobre a própria concepção oficial do desenvolvimento.

Dúvidas sobre a política educacional, por exemplo, envolvem um ponto de enorme importância para quem se disponha a investir no Brasil. O ministro mencionou, como resposta, o tamanho da verba destinada ao Ministério da Educação. Mas quem formula esse tipo de pergunta deve ter, muito provavelmente, alguma informação sobre a qualidade do ensino e sobre as dificuldades de recrutamento de mão de obra treinada ou treinável.

Também houve perguntas sobre inflação. O ministro da Fazenda procurou tranquilizar o auditório, atribuindo a aceleração dos aumentos de preços, em meses recentes, às condições do mercado internacional de commodities. Essa resposta pode ter convencido os menos informados, mas a própria tolerância do governo a taxas de inflação bem acima de 4,5% tende a reacender todas dúvidas sobre o assunto.

Perguntas sobre esse e outros aspectos da gestão pública indicam muito mais que a preocupação com detalhes da vida econômica. Grandes investimentos envolvem parcerias de prazo muito longo, especialmente quando se trata de explorar serviços de infraestrutura. Atrair capitais, em casos como esses, envolve um delicado teste de imagem do governo e do País. A presidente Dilma Rousseff e seus ministros deveriam pensar mais seriamente sobre isso.

O custo de erros sobre o BNDES


Editorial
O Globo

Queda no lucro do banco coloca em xeque a estratégia de criação de ‘campeões nacionais’, executada com bilhões em dívidas contraídas em nome do contribuinte

A conjuntura internacional é sempre desculpa conveniente para governantes às voltas com turbulências na esfera econômica. O truque é antigo, mas nem sempre funciona. Não funcionaria no caso da queda do lucro do BNDES, em 2012, em que o resultado de R$ 8,2 bilhões significou uma perda de 9,55% em relação ao ano anterior.

Nada que abale a maior instituição de fomento do país, dentro dos conformes em relação ao parâmetros usuais de medição da saúde financeira bancária: índice de Brasileia, taxa de inadimplência etc. O resultado ruim do BNDES tem importância para realçar erros de estratégia cometidos pelo próprio banco e equívocos praticados pelo Planalto, ao permitir o aparelhamento político-sindical da Petrobras e intervir com mão pesada no setor elétrico, provocando grande desvalorização patrimonial na Eletrobras, fatos com reflexos negativos diretos no banco, grande acionista histórico das duas estatais. O valor da carteira de ações do banco, administrada pelo BNDESPar, subsidiária de participações da instituição, caiu de R$ 89,6 bilhões para R$ 78,2 bilhões, e também foi menor o recolhimento de dividendos.

O banco também fez más apostas na sua política de induzir o surgimento de “campeões nacionais” — oligopólios empresariais, ao estilo do que foi tentado, também sem êxito, no governo militar de Ernesto Geisel, e, à época, já por meio do BNDES. O banco tem esta memória nos arquivos. O BNDESPar, por exemplo, foi obrigado a fazer uma baixa contábil de R$ 3,3 bilhões para se precaver diante de possíveis prejuízos. Deste total, R$ 865 milhões devem-se a investimentos na LBR-Lácteo, mais uma tentativa de gerar um grande grupo “campeão nacional”, este no mercado de leite. O projeto terminou em concordata. O grupo, formado por fusões de empresas financiadas pelo banco, está em recuperação judicial. Pode sobreviver ou não.

Há outros casos semelhantes. Enquanto isso, dezenas de bilhões em dinheiro público, oriundos de endividamento feito em nome do contribuinte, têm sido injetados no banco. Entre 2009 e o ano passado, foram R$ 285 bilhões, contabilizados como empréstimos do Tesouro ao BNDES, e que, por isso, não aparecem na dívida líquida pública — indicador de solvência fiscal mais usado no Brasil.

Diante do mau desempenho em 2012, noticiou o jornal “O Estado de S.Paulo” que já se pensa em Brasília na injeção de algo entre R$ 5 bilhões e R$ 8 bilhões no banco, não como empréstimo, mas diretamente no seu patrimônio líquido.

É cada vez mais necessário haver transparência nessas operações Tesouro-BNDES. Bem como discutir-se a estratégia de atuação do banco, que poderia abrir o leque de clientes, para apoiar mais o empreendedorismo no âmbito dos pequenos e médios negócios.

O fato de o BNDES ser a única grande fonte de financiamentos de longo prazo no país não serve de desculpa para uma atuação tão seletiva e concentrada — e mesmo assim de elevado risco.

Um partido fascista


Sebastião Nery
Tribuna da Imprensa

SÃO PAULO – Perto do Natal de 1980, toca o telefone: – Onde vai passar as férias? Surgiu uma ótima oportunidade.

Era o Igor, adido de imprensa da Embaixada Soviética no Brasil e da agencia de noticias “Tass”. Em 1977 eu passara um mês viajando pela Ucrânia, Moldávia, Georgia, Armênia  até o Mar Negro. Escrevi uma serie de textos sobre aquele mítico, misterioso Ocidente soviético. Igor insistiu:

- Agora você precisa conhecer nosso Oriente, a Sibéria  a partir dos Urais. Numa oportunidade lhe telefono. Você já está convidado.

O problema deles era arranjar um interprete em línguas faladas pelo convidado e com tempo disponível. Estava em Moscou, de férias, um da agencia “Novosti”, que falava espanhol e francês  Eu podia viajar logo, janeiro e fevereiro. Mas desta vez sozinho, porque Sibéria é viagem longa.

AEROFLOT
Topei. Aeroflot não tinha voo saindo do Brasil. Pegava-se em Lima, no Peru. O DC-10 da Varig, superlotado, me deixou às duas da madrugada em Lima, nas vésperas do Réveillon de 1980. E logo uma voz conhecida:

- Nery, o que é que você está fazendo aqui?

Era Heckman, diretor da Varig no Peru, que há dois meses eu encontrara no aeroporto de Frankfurt, na Alemanha. Na Aeroflot, passagem reservada, tudo marcado e um funcionário soviético me pondo na primeira classe de um enorme Iliushin-62. O avião todo cheio lá atrás, e só eu, o único, na primeira, como um sheik arabe do petróleo.

Trazem-me um conhaque da Geórgia, daqueles que vi sendo fabricados lá. A comissária dá um aviso em russo. Palmas lá atrás e gente falando espanhol. Era meia dúzia de jornalistas do Peru, Colômbia, Bolívia, Equador, indo para um congresso de imprensa em Helsinque, na Finlândia. E o aviso era de um hospital de Lima, comunicando que acabava de nascer o primeiro filho do jornalista peruano Luís Casas, ali a bordo, viajando.

Fui lá, dei-lhe um abraço, pedi copos, convidei-os para a um vinho na primeira classe. E farreamos cinco horas seguidas, graças à conhecida gentileza dos russos, sempre exemplares. Vinho, jantar para todos os jornalistas, conhaque. Ninguém perguntou quem eu era e porque transferira um pedaço da segunda classe para a primeira. Até descermos em Cuba.

CUBA
Duas horas no chão, em Cuba, e de novo no céu com a Aeroflot. Mas antes de o avião levantar voo em Havana, novamente eu só na primeira classe, chega um senhor moreno, alto e apressado, conferindo a passagem e falando espanhol. Era um cubano da Aeroflot em Cuba, vendo meu bilhete:

- Há um erro. Sua passagem é na segunda classe e está na primeira.

- O chefe da Aeroflot em Lima é quem me pôs para viajar aqui.

- Mas não pode.

- Sinto muito, mas não é problema meu.

- É, sim. O senhor não vai poder continuar viajando aqui.

- Desculpe, mas não vou sair. Só com ordem do comandante do avião ou do chefe da Aeroflot de Lima, que me convidou.

O homem enorme levou um susto com minha resposta. Parou, olhou para mim com ódio e foi lá dentro da cabine. Voltou, desceu as escadas pisando forte e eu continuei no meu canto. Mais 9 horas até Dublin, na Irlanda, e os sul-americanos farreando socialistamente no céu dos russos, eu na primeira, eles na segunda, e os vinhos e conhaques entre as duas.

MOSCOU
Na Irlanda, mais duas horas no chão, o frio roendo os ossos. De Dublin, para Helsinque, na Finlândia, onde desceram os jornalistas. E eu em direção ao Polo Norte, até Murmansk, península de Kola. De Murmansk, Moscou. Eu já não sabia por onde andava meu confuso-horário. Um sol forte, sobre as nuvens, iluminava o horizonte visivelmente curvo, lá em cima, e, de repente, a visão clara, real, inacreditável, da noite caminhando apressada sobre nuvens. O avião indo para um lado e a noite para o outro.

E daí a pouco o meio-dia anoiteceu com lua e nuvens rosas, como nas histórias bonitas da infância. Engolido em fusos horários a cada instante renovados, o tempo enlouqueceu. Já era Moscou e já era meia-noite de novo. O aeroporto Cheremetievo, novo em folha, preparado para as Olimpíadas, dormindo sob a neve e, lá fora, 10 graus abaixo. E o hotel Russia, na Praça Vermelha, em um jardim de papoulas, onde tantas tardes andei com a rosa púrpura do Cáucaso, a luminosa caucaseana Ludmila.

YOANI
Em 60 anos de viagens aprendi que o mundo gosta dos jornalistas. O PT precisa ler no clássico “Le Mie Prigioni”, do jornalista italiano Silvio Pellico, como Mussolini levou o Partido Socialista para o fascismo. E é uma pena.

O PT, que nasceu embalado em tantas esperanças, é cada dia mais um partido fascista. E isso precisa ser implacavelmente denunciado. O que o PT está fazendo com a brava jornalista cubana Yoani Sanchez é asqueroso. Mulher valente que há dez anos desafia uma ditadura.

Não se preocupe, embaixador


Demétrio Magnoli (*)
O Estado de SPaulo

A Carlos Zamora Rodríguez, embaixador de Cuba no Brasil: 

Circulam rumores de que a passagem da blogueira Yoani Sánchez pelo Brasil terá efeitos desastrosos para sua carreira diplomática. Escrevo para acalmá-lo. À luz dos critérios políticos normais, qualquer um dos quatro motivos mencionados como causas possíveis de sua queda seria suficiente para fulminar um diplomata. Contudo os governos de Cuba e do Brasil não se movem por critérios normais.

Comenta-se, em primeiro lugar, que o Planalto solicitaria sua remoção em reação à interferência ilegal da embaixada nos assuntos internos do País. De fato, é ultrajante reunir militantes do PT e do PCdoB na representação diplomática cubana para distribuir um CD contendo calúnias contra uma cidadã em visita ao Brasil. Mas não se preocupe. Sob Lula, quando prendeu e deportou os pugilistas cubanos que tentavam emigrar, o governo brasileiro violou a Carta Interamericana de Direitos Humanos para atender a um desejo de Havana. Dilma Rousseff só precisa ignorar a violação de leis nacionais para encerrar o "caso Yoani".

Em segundo lugar, corre o rumor de que Havana pretende substituí-lo por razões de incompetência funcional. A causa seria o vazamento para Veja das informações sobre a reunião na embaixada, que contou com a presença de Ricardo Poppi Martins, auxiliar do ministro Gilberto Carvalho - uma notícia depois confirmada pela própria Secretaria-Geral da Presidência. Certamente as agências de inteligência de seu país não apreciaram a condução desastrada da operação, mas duvido que o governo de Raúl Castro desconsidere os fatores atenuantes: a inconveniência representada pela liberdade de imprensa e os "dilemas morais pequeno-burgueses" de militantes de esquerda não submetidos ao centralismo do Partido Comunista Cubano. 

Um terceiro motivo para seu afastamento residiria nas implicações lógicas das acusações difundidas pela embaixada contra a blogueira. O CD qualifica Yoani como "mercenária financiada pelo governo dos EUA" para "trabalhar contra o povo cubano". Afirmar isso, porém, significa dizer que, mesmo dispondo das provas da atuação de uma agente inimiga em seu território, o governo de Cuba optou por não prendê-la e processá-la, pondo em risco a segurança do país. O raciocínio, impecável, destruiria um diplomata de um país democrático, mas não arranhará sua reputação perante o regime dos Castros: o discurso totalitário não almeja a persuasão racional, não se deixa limitar pela regra da consistência interna e não admite o escrutínio da crítica. 

Afigura-se mais grave a quarta razão que apontam como ameaça à sua carreira. Ao estimular a perseguição movida por hordas de militantes organizados contra Yoani, a embaixada amplificou a voz e o alcance da mensagem da blogueira, produzindo um efeito contrário ao desejado por Havana. Construído no terreno de um cínico pragmatismo político, o argumento parece irretocável, mas não creio que deva alarmá-lo. Na perspectiva do regime cubano, as repercussões da visita sobre a opinião pública são o preço a pagar pela afirmação de um princípio inegociável do totalitarismo: os dissidentes nunca estão a salvo da violência real ou simbólica do "ato de repúdio".

O "ato de repúdio" é o equivalente político do estupro de gangue. Na China da Revolução Cultural, onde alcançou o apogeu, a prática chamava-se "assembleia de denúncia". Segundo o relato de Jung Chang, uma jovem chinesa que testemunhou aqueles tempos, a Universidade de Pequim realizou sua pioneira "assembleia de denúncia" em 18 de junho de 1966, quando o reitor e dezenas de professores sofreram espancamentos e foram obrigados a permanecer ajoelhados durante horas em meio à multidão histérica. "Enfiaram à força em suas cabeças chapéus cônicos de burro, com slogans humilhantes" e "derramaram tinta em seus rostos para deixá-los negros, a cor do mal" (Cisnes Selvagens: Três Filhas da China). A matriz chinesa, nós dois sabemos, inspirou a ditadura cubana, cujos "atos de repúdio" excluem a tortura, mas não a violência física moderada, a intimidação direta e uma torrente de insultos.

Yoani relata no seu blog o primeiro "ato de repúdio" a que assistiu, quando tinha 5 anos ("as pessoas gritavam e levantavam os punhos ao redor da porta de uma vizinha"), e um outro, do qual foi vítima juntamente com as Damas de Branco ("as hordas da intolerância cuspiram em nós, empurraram e puxaram o cabelo"). No "ato de repúdio", o "inimigo do povo" deve ser despido de sua condição humana e convertido em joguete da violência coletiva. A agressão física é um corolário último desejável, mas não é um componente necessário do ritual - e, dependendo das circunstâncias políticas, deve ser prudentemente evitada. Estou convicto de que sua embaixada levou isso em conta quando indicou o caminho dos atos contra Yoani.

Seu conhecido Breno Altman, um quadro político do PT, defendeu os "atos de repúdio" contra a blogueira em debate televisivo, alegando que "ninguém saiu ferido". De fato, apenas em Feira de Santana chegaram a empurrar Yoani e a puxar-lhe o cabelo. Na mesma cidade e em São Paulo, gangues de vândalos insultaram-na em público, cassaram-lhe o direito à palavra, ameaçaram pessoas que queriam escutá-la, provocaram o cancelamento de eventos literários e cinematográficos. Tudo isso caracteriza constrangimento ilegal, um crime contra as liberdades públicas e individuais. 

No Brasil, a palavra de Yoani desmoralizou a ditadura cubana. Mas, nessa particular guerra de princípios, sua embaixada venceu: a polícia não interferiu, os "intelectuais de esquerda" silenciaram, a editora que publica Yoani eximiu-se da obrigação de protestar e uma imprensa confusa sobre a linguagem dos valores democráticos qualificou os vândalos como "manifestantes". Por sua iniciativa, o "ato de repúdio" fincou raízes no meu país. Creio que lhe devem uma medalha.

(*)  Demétrio Magnoli é sociólogo e doutor em Geografia Humana pela USP. 

Para evitar atrasos de portos no Brasil, China compra soja dos EUA


Folha de São Paulo 
Com Agência Reuters

O atraso nos embarques de soja nos portos brasileiros obrigou os importadores chineses a negociar a compra de nove navios de soja dos EUA. O carregamento deve começar no próximo mês.

Ao menos dois desses graneleiros, cada um preparado para receber entre 50 mil e 60 mil toneladas de soja, foram redirecionados para carregamento no golfo dos EUA como alternativa devido ao fato de os prazos de operações nos portos no Brasil superarem 40 dias.

Os demais carregamentos, comprados com antecipação pelo maior importador de soja do mundo, serão carregados na Costa-Oeste dos EUA, onde os portos estão localizados numa rota mais direta para a Ásia.

GREVE
Infraestrutura deficiente para escoamento, maior safra da história e protestos de trabalhadores contra mudanças na legislação têm afetado a operação dos portos brasileiros neste ano.

A greve dos portuários, principalmente em Santos (SP) e em Paranaguá (PR), em protesto contra o novo marco regulatório do setor, pode ter atrapalhado o fluxo de soja para a China.

Nove categoria de portuários, a maior parte formada por trabalhadores avulsos (que, por lei, devem ser contratados pelos terminais), realizaram na sexta-feira uma greve de seis horas, que paralisou o porto de Santos, o maior do país.

Após uma reunião com o governo, os sindicalistas suspenderam a greve de 24 horas marcada para terça-feira (26).

Os sindicalistas anunciaram uma trégua até 15 de março, mas pressionam o governo a mudar a medida provisória e alterar o artigo que desobriga os terminais privados a usar mão de obra avulsa.

Na prática, o governo paralisou até março o pacote de investimentos de R$ 54 bilhões previstos no Programa de Investimento em Logística de Portos.

Os trabalhadores querem que o governo obrigue portos privados a contratar mão de obra dos portos públicos, os chamados Ogmos (Órgãos Gestor de Mão de Obra), e que equalize a concorrência entre portos públicos e privados. Eles argumentam que os portos privados foram beneficiados pela MP vão roubar carga dos portos públicos, deixando-os sem trabalho.

Brasil sem bloco: falta empenho nos acordos comerciais


Marcos Troyjo
Brasil Econômico

O Brasil tem dedicado pouco empenho a acordos comerciais bilaterais

No momento em que dezenas de chefes de Estado da União Europeia e da CELAC (Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos) se reuniam em Santiago em janeiro último, também voltavam os olhos para a capital chilena os estrategistas de Washington. Dali a poucas semanas o Presidente Barack Obama revelaria, em seu discurso ‘State of the Union’, que os EUA e a Europa estão em conversações para constituírem uma área de livre comércio até 2015.

Para os EUA, interessa a consolidação da UE como bloco. Washington atribui grande importância à manutenção da configuração comunitária – incluindo o Reino Unido. Um eventual desmantelamento precipitado pela crise de dívidas soberanas nos países na franja mediterrânea como Grécia e Portugal atrapalha seus objetivos geoestratégicos, sobretudo neste instante em que sua economia parece recuperar-se e a área de livre comércio em que estão inseridos, a NAFTA, é dos poucos arranjos regionais que opera sem problemas. Os EUA acompanham de perto a movimentação da América Latina como “Comunidade”, já que seus membros encontram-se em diferentes velocidades – Colômbia, Peru, Chile e México decolam e se reorganizam em nova área de livre comércio entre si, com diálogo aberto com os EUA. Argentina, Brasil e Venezuela se isolam e patinam.

O Brasil tem dedicado pouco empenho a acordos comerciais bilaterais, e na geometria bloco-a-bloco, é igualmente difícil ressuscitar o diálogo concreto UE-Mercosul. De um lado, temos a União Europeia ainda atolada em sua própria areia movediça fiscal e o crescimento estagnado. De outro, hoje o Mercosul está mais mais para um “clube de empatias ideológicas” do que um bloco que se movimenta de acordo com objetivos pragmáticos de comércio e investimento. É claro também que no comércio agrícola, onde os europeus continuam campeões mundiais de protecionismo, mais acesso a mercados seria bem-vindo. No entanto, com a voracidade da demanda chinesa por exportações latino-americanas de commodities agrícolas e minerais, este tema não tem a mesma premência de 10 anos atrás. Hoje, num nível mais amplo há uma “deseuropeização” dos focos prioritários da América Latina. A boa saúde recente dos fundamentos econômicos latino-americanos e o magnetismo exercido pela China têm contribuído a essa fase mais deseuropeizada.

Da ótica específica do Brasil, temos a maior economia da região, mas isso não se deve por sermos um paradigma de competitividade. Praticamos elevadas barreiras tarifárias a importações, fortalecimento das megacorporações de economia mista que atuam em commodities agrícolas e minerais, política industrial defensiva. Temos recebido fluxos volumosos de IEDs sobretudo porque o mercado brasileiro, bastante protegido, acena a empresas globais com margens de retorno muito superiores à média dos mercados da OCDE.

Se o Brasil flexibilizasse suas exigências de conteúdo local, sobretudo em áreas relacionadas a infraestrutura, transportes e logística, inauguraria uma fase “qualitativamente nova” como destino de investimentos europeus – e esta poderia ser a plataforma para um novo diálogo comercial com Europa e também EUA.

Burocracia afugenta empresas do ‘Minha Casa’


Karla Mendes, especial para O Estado

Para empresário espanhol, demora para aprovar projetos inviabiliza investimentos 

MADRI e BELO HORIZONTE - As dificuldades de operar no programa Minha Casa, Minha Vida já fizeram várias empresas praticamente desistirem de participar das obras. O Grupo Braval, fundado no Brasil por três espanhóis, por exemplo, paralisou os investimentos no MCMV diante da demora da aprovação de projetos.

"Há empreendimentos que não são viáveis em função do tempo que demoram para ser aprovados. O banco leva 14 meses para abrir uma conta e aprovar o crédito para uma empresa solvente", reclama Alejandro Parisi, um dos sócios da empresa.

A burocracia, segundo ele, faz com que as obras sejam lentas e engessa a capacidade de desenvolvimento de projetos da empresa, já que a companhia se vê obrigada a investir capital próprio para tocar as obras. "Com isso, temos de vender a primeira torre para iniciar a construção da segunda, um grave erro do governo que está fazendo com que muitos investidores desistam do Brasil", alerta.

A empresa tem quatro projetos de construção de 500 apartamentos na Região Metropolitana de Natal, direcionados ao público de renda mensal de três a seis salários mínimos, que já consumiram investimentos de R$ 9 milhões. No auge do entusiasmo com o MCMV, no ano passado, a companhia chegou a publicar anúncios em jornais de grande circulação na Espanha para atrair outros investidores espanhóis para o Brasil, com rentabilidade mínima de 30%. Hoje, contudo, Parisi afirma que é difícil alcançar essa margem por causa da acelerada elevação dos custos de construção, que nos últimos dois anos subiram cerca de 50%.

A lentidão para ter o aval do governo para tocar os projetos também fez com que a filial da espanhola Via Célere tirasse o pé do acelerador nos projetos do MCMV. Outro fator que pesa contra o empreendimento, segundo Rodrigo Dratovsky, diretor-geral da empresa no Brasil, é a superoferta no mercado de Salvador, onde as 310 unidades, voltadas para a população com renda de três a dez salários mínimos, estão sendo construídas.

O executivo também relata que a venda de imóveis do MCMV é muito mais trabalhosa, pois a empresa tem de acompanhar de perto todos os passos da negociação até a aprovação do crédito do cliente pelo banco, que dura cerca de três meses.

Desilusão.
 A frustração com o programa Minha Casa, Minha Vida não é exclusividade dos estrangeiros. No Brasil, muitas das grandes incorporadoras que enveredaram para esse segmento em 2010 se depararam com as mesmas dificuldades - da burocracia até o relacionamento com o cliente de baixa renda. Estimativas de mercado, apresentadas por empresários do setor em uma das reuniões periódicas com a Caixa Econômica Federal, dão uma ideia de como diminuiu o interesse das grandes incorporadoras de fazer empreendimentos voltados para o programa habitacional. Em 2010, as 14 companhias de capital aberto indicaram em seus relatórios um total de R$ 10,5 bilhões em lançamentos que se enquadravam nas faixas 2 e 3 (renda mensal de R$ 1,6 mil a R$ 5 mil), do MCMV. No ano passado, esse valor foi de R$ 4 bilhões - queda de 62%.

A Rodobens, por exemplo, anunciou recentemente que vai usar as áreas destinadas ao programa para desenvolver shoppings centers ou loteamentos. A Gafisa interrompeu os lançamentos da bandeira Tenda, focada em baixa renda, para se reestruturar.

Entre as incorporadoras abertas, as empresas que seguem firme no programa são aquelas que já tinham experiência nesse segmento antes mesmo do MCMV. A mineira MRV, por exemplo, tem uma equipe de mais de 500 pessoas no País responsável por acompanhar os projetos que estão sob avaliação da Caixa, e a Direcional desenvolveu um processo de construção em série, que reduz o tempo da obra. "Quem não tem processo construtivo e não conhece a cultura da Caixa e do Banco do Brasil está perdido", diz Ricardo Valadares, presidente da Direcional.