terça-feira, janeiro 10, 2012

O ano é novo, mas os problemas...












Café requentado

Adelson Elias Vasconcellos


O noticiário político, de uns tempos para cá,  tornou-se absurdamente aborrecido. Vejam os casos dos ministros demitidos por Dilma: todos, sem exceção foram escolhas dela, nomeados por ela, mesmo que, em alguns casos, a indicação tenha sido feita por Lula.  Demitir cinco por corrupção em menos de um ano, é prova de quê, afinal? De que ela é durona, bota prá quebrar, faz faxina ética? Ora, convenhamos: demonstra o contrário, de que ela foi ineficiente nas escolhas e nomeações que fez. É como todo o treinador que escala mal o time que começa o jogo: no segundo tempo, se obriga a mudar, o time ganha e vai se dizer que o treinador foi o responsável pela vitória. Errado: o time quase perde o jogo por culpa do técnico que escalou mal. 

Hoje, na base do deixa que eu chuto, anunciou-se uma tal força tarefa para administrar as crises causadas pelas tragédias naturais. Mas pergunto: há quantos anos o cenário de drama vive o centro-sul do país por conta das tempestades? Quantas vezes o leitor leu aqui e em outras páginas e sites, a tal da tragédia anunciada! Mais: de tudo o que foi prometido após a tragédia da região serrana fluminense em 2011, o que de prático foi de fato realizado? Por que pessoas continuam empoleiradas em áreas de risco mesmo depois de tudo o que aconteceu e que provocou uma enxurrada de promessas que, passado um ano, até diria dois, praticamente nada foi realizado?  E o que foi feito com a dinheirama distribuída em 2011 para o governo do estado do Rio de Janeiro e prefeituras das cidades atingidas? Obras, pelo que se vê um ano depois, praticamente inexistem. E as causas para que novas tragédias se repitam continuam de pé. 

Agora, diante do repeteco das calamidades, novas promessas, novos anúncios de liberação de verbas, novos projetos mirabolantes para daqui um ano, em 2013, a gente ter que lamentar as mesmas fatalidades! É claro que não há projeto para acabar com a chuva.  Mas deveria haver um para reduzir os danos que as chuvas provocam. E isto depende apenas da competência, seriedade e honestidade dos governantes. E, neste perfil, pelo que se vê neste início de 2012, certamente não se encaixa  nem o ministro Fernando Bezerra tampouco a presidente Dilma. Quando muito, boas intenções, mas isto não salva vidas, não impede os morros de despencarem carregando ladeira abaixo casas e soterrando vidas. 

O mesmo se pode dizer dos tais ministros demitidos: as explicações deles, diante das denúncias, sempre foram as mesmas. Os discursos de dona Dilma no dia das demissões foram irritantemente os mesmos, e os demitidos saíram porque eram honestos e eficientes “demais”. Então, demitiu por quê?

Minas Gerais estava mergulhada num aguaceiro de dar dó desde antes do Natal. E onde estava a presidente? Em férias. Interrompeu-as? Não. Viajou à região alagada? Também não. Então que diabo de autoridades são essas que, diante da calamidade, se escondem da opinião pública? O Rio do Grande Sul amarga um prejuízo de mais de 2 bilhões por conta da estiagem que assola o estado há pelo menos dois meses. E onde foi parar o governador Tarso Genro? Em Cuba, com toda a família e alguns penduricalhos mais, por conta dos cofres públicos. Vai ver foi fazer um estágio para se tornar, um dia, um democrata autêntico. Antecipou a volta para se solidarizar com seu povo?  Nada. O povo que se dane, porque Tarso já foi eleito. 


 Disse ontem e repito: nenhuma explicação que o ministro Fernando Bezerra dê sobre os privilégios ao seu curral eleitoral na distribuição de verbas de seu ministério, pode ser minimamente aceitável. Copiou a mesma palhaçada anteriormente cometida por Geddel Vieira ocupando o mesmo Ministério. Se a verba era curta, que então fosse distribuída de maneira equânime com os demais estados atingidos pela calamidade das enchentes.  

Contudo, o que vemos desde 2003, é uma formidável degradação da gestão pública brasileira. Cada vez mais, o dinheiro público é privatizado em nome da conservação do poder e em favor de um grupelho político que se entende dono do cofre. Enquanto isso, a população, a quem os benefícios deveriam ser estendidos, vai ficando na espera, enquanto se lhe atiram como esmola míseras bolsas famílias e cestas básicas, uma forma podre de abuso do poder econômico em troca de votos. 

É claro que aqueles que perderam e perdem o pouco que tem pelos desastres que se repetem anualmente, acabam perdendo, também, o  seu amor próprio e se deixam levar pela embriagues da esmola estendida. Enquanto isto, os serviços públicos básicos vão definhando com maior velocidade, ao contrário da arrecadação que cresce em ritmo veloz e acima do próprio crescimento econômico do país.Contudo, esta arrecadação acaba por beneficiar apenas uma elite política, carcomida pelo ranço do atraso e entupida de descaso pela sorte do povo.  

Vejam nesta edição os artigos reproduzidos do site da BBC Brasil, onde se compara o gigantismo do PIB com a falência da condição humana de vida de grande parte da população brasileira. Neste sentido, tanto em relação à distribuição de renda quando ao índice de desenvolvimento humano, o Brasil se equipara aos mais atrasados países africanos. Não há o que comemorar quando um partido transforma o Estado num ajuntamento de assaltantes dos cofres públicos.  E, quando não assaltantes no sentido de se locupletarem de forma ilegal, se apropriam da riqueza da sociedade na forma de privilégios imorais e desonrosos na construção particular de fortunas descabidas.  



Como se não bastasse, a presidenta Dilma Rousseff, segundo informou Cláudio Humberto em seu blog, disse na manhã desta segunda (9), durante seu programa de rádio Café com a presidenta, que o aumento do salário mínimo de R$ 545,00 para R$ 622,00 vai “criar mais demanda para a nossa indústria, o nosso comércio e o setor de serviços, mantendo o dinamismo e a roda da nossa economia”. Segundo Dilma, são quase 40 milhões de brasileiros diretamente beneficiados. “Este aumento vai fazer circular cerca de R$ 47 bilhões na economia por causa do salário mínimo”, disse. Dilma também destacou o reajuste da tabela do Imposto de Renda em 4,5%, que vale a partir deste mês. “São 25 milhões de contribuintes pagando menos imposto. Com o reajuste da tabela, 800 mil pessoas ficaram isentas”. A presidente ainda disse que pretende garantir mais renda e emprego. “Nos orgulha muito sermos a sexta maior economia do mundo, mas o nosso objetivo é garantir aos brasileiros mais renda e mais emprego”, finalizou. E que tal melhor qualidade de vida, presidente?

Isto não só beira o cinismo mais explícito como ainda se revela no mais descarado dos embustes. Primeiro, que o aumento do mínimo apenas repõe a inflação de...2010. A de 2011 só será reposta aos salários em 2013, dois anos depois. Segundo, que, pela fórmula vigente, dona Dilma teve o caradurismo de arredondar o valor do mínimo para baixo. Terceiro, que a tabela do imposto de renda na fonte, conforme artigo aqui publicado no dia 06, vem ,desde 2003, comendo uma fatia cada vez maior dos salários mais baixos, a tal ponto que, a faixa de isenção em 2002, que era de 5 salários mínimos, em 2012, ela não passará  de 2,63 salários. Por quê? Porque enquanto o salário foi reajustado, no período 2003/2012, em 522%, o imposto na fonte foi corrigido em apenas 141,93%! Só em 2011 a inflação foi de 6,5% (oficial ao menos), enquanto o reajuste da tabela do imposto de renda na fonte foi de 4,5%. Ou seja, sequer repôs a inflação. Que balela é esta, então, de aumento real do salário mínimo se, na contramão, a facada de imposto na fonte tem sido cada vez maior? 

Assim, é mentira dizer-se que mais gente pagará menos imposto. Pelo contrário, o número de contribuintes vai é aumentar justamente porque o imposto vai apanhar uma faixa de renda ainda menor em comparação com 2011.   



Para que haja aumento de renda é preciso haver menor tributação e maior desenvolvimento. Para que aumente a geração de empregos é preciso desonerar não apenas as folhas de pagamento das empresas, mas a carga tributária como um todo e para todos, e não apenas para algumas atividades privilegiadas, com o propósito espúrio de garantir em ano eleitoral, maior doação ao partido no poder. Políticas públicas, senhora presidente, devem beneficiar a sociedade como um todo, e não unicamente aos amigos do reino. 

É preciso criar melhores condições para que os investimentos produtivos floresçam e, neste sentido, além do peso dos impostos menor, é preciso melhorar a infraestrutura, a segurança jurídica, a burocracia, melhorar ao máximo o nível educacional, a segurança pública. Só que para isso o tamanho do Estado precisa ser menor de um lado, e mais eficiente de outro. É preciso acabar com a roubalheira desenfreada e os privilégios imorais nos três níveis de poder.  

Sem que isso tudo aconteça, o café da manhã da presidente vai se transformar num atoleiro de promessas vazias e inúteis, ou seja, em um indigesto líquido insosso, amargo e requentado. 

Dilma vive o Dia da Marmota

Por Reinaldo Azevedo

Ou: A chuva não é culpa dos governos, mas a incúria é!

O governo Dilma vive o Dia da Marmota. Volta sempre ao mesmo. Parece que foi ontem, não é? E quase foi! Em janeiro do ano passado, dada a tragédia absurda na Região Serrana do Rio — menos de um ano depois da tragédia também absurda do Morro do Bumba, em Niterói —, o Palácio do Planalto anunciou a tal força-tarefa contra as chuvas. Neste 9 de janeiro de 2012, com Rio, Minas e Espírito Santo a enfrentar o caos das chuvas, eis que o enroladíssimo ministro Fernando Bezerra (Integração) anuncia, absurdamente, a criação de uma… força tarefa! Chamem Ionesco!

Atenção! O céu não desaba por culpa do governo, pouco importa o partido. Seria uma tolice — coisas que petistas fazem quando estão na oposição, e eu não sou petista — atribuir à administração de turno a responsabilidade pelas moradias em áreas de risco. Há um conjunto de fatores que concorre pra isso, inclusive as escolhas das pessoas, sim! É preciso parar com a tolice de achar que casas nascem no sopé dos morros. Foram construídas lá. Sigamos. Os governos, petistas ou de outro partido qualquer, não são culpados por todo o mal que colhe os indivíduos. Mas são, sim, responsáveis pelas promessas que fazem. Mais: têm de responder pelas tarefas que deixam de cumprir.

Nesse sentido, o governo Dilma é uma lástima, eventualmente superada, em escala regional, pela administração de Sérgio Cabral, no Rio. Mas ambos são, inegavelmente, muito bons de marketing. Se chove demais, a culpa é de São Pedro. Se as obras prometidas não são executadas, como se constata na região serrana do Rio, então a culpa é mesmo dos governantes, entenderam?

Como absurdo pouco é bobagem, em Campos (RJ), um trecho da Rodovia 356, que é federal, funciona como um dique de contenção das águas do rio Muriaé. Pois bem: a enchente destruiu uma parte da estrada pelo terceiro ano consecutivo, o que obrigou a retirada de 4 mil pessoas de uma região chamada Três Vendas. Pode-se dizer da estrada qualquer coisa, menos que foi construída de modo adequado. O governo Dilma não pode ser responsabilizado pela enchente, é evidente, mas é culpado de manter uma estrada em condições que estão em desacordo com as exigências da natureza. O que se vai fazer desta vez? Torrar mais alguns milhões para consertar o trecho da estrada, que será destruído de novo em 2013? Rezar para que, no ano que vem, chova menos?

O desastre reiterado da chuva — previsto no calendário da natureza desde tempos imemoriais — expõe de modo dramático a precariedade da administração pública brasileira. Olhem para o Ministério da Integração, conduzido por este incrível Fernando Bezerra. Nada menos de 90% das verbas destinadas à prevenção foram liberadas para seu estado, Pernambuco. A pasta se transformou num feudo do PSB, partido chefiado por Eduardo Campos, governador do Estado, que vai se transformando no Aécio Neves que deu certo da política —  esse “dar certo”, entenda-se, refere-se a esse padrão rebaixado de gestão que caracteriza o país.
Os ministérios são entregues de porteira fechada aos partidos, que os transformam em feudos. Atendidas as exigências dos correligionários, o titular da pasta tem como prioridade seguinte dar atendimento especial à sua base eleitoral. Assim, instâncias do Estado brasileiro vão sendo privatizadas por grupos políticos, que usam o dinheiro público para reforçar seus aparelhos partidários e seus esquemas de poder.

E quem denuncia o desmando? Caberia, por exemplo, à oposição fazê-lo, mas sabem como é… Minas é hoje o estado mais castigado pelas chuvas. O tucano Antonio Anastasia, governador, teria a autoridade que lhe confere o eleitorado para cobrar, por exemplo, mais responsabilidade e equanimidade do governo federal na liberação das verbas. Mas preferiu não fazê-lo. Afinal, o PSB é seu aliado no estado… Qual é a conseqüência prática dessas posturas? O contínuo rebaixamento do padrão de gestão.

Antecipo aqui algumas informações aos nossos governantes. Em 2013, vai chover bastante. Haverá enchentes. Na região serrana do Rio, haverá desabamentos. O rio Muriaé vai forçar o dique (santo Deus!) da Rodovia 356. Casas penduradas em morros vão cair; outras, construídas no sopé, sem que o poder público tenha movido uma palha para impedir, serão soterradas… São Pedro é aborrecido. Ele conta com os homens para fazer a coisa certa.

Não obstante, Dilma continuará a lotear o governo, entregando ministérios de porteira fechada aos aliados, e os ministros continuarão a usar a estrutura do estado para atender ao seu arraial. O Palácio fará saber que a presidente deu uma bronca severa neste ou naquele ministros. E muitos dirão: “Essa presidente é mesmo danada! Demite seis ministros que ela mesma nomeou por suspeita de corrupção e ainda diz aos que ficam: ‘Trabalhem!’ Que mulher operosa!”

Dilma foi eleita por setores da imprensa a ombudsman do governo… Dilma!

O corporativismo do Judiciário

Carlos Alberto Di Franco - O Globo

Tenho grande respeito pelo Poder Judiciário. Ele é, sem dúvida, um dos pilares da democracia. Mas quando integrantes do Judiciário, independentemente de suas motivações subjetivas, começam a trafegar pelos desvios do corporativismo, as instituições entram em perigosa turbulência.

Como lembrou recente editorial do jornal “O Estado de S. Paulo”, tão grave quanto a suspensão do poder do Conselho Nacional de Justiça (CNJ) de investigar juízes acusados de irregularidades, tomada em caráter liminar pelo ministro Marco Aurélio Mello, foi a liminar concedida pelo ministro Lewandowski proibindo a Corregedoria Nacional de Justiça de quebrar o sigilo fiscal e bancário de juízes. Tomadas no mesmo dia, as duas decisões obrigam o órgão responsável pelo controle externo do Judiciário a interromper as investigações sobre movimentações financeiras suspeitas em várias cortes – inclusive a maior, o Tribunal de Justiça de São Paulo (TJSP), onde 17 desembargadores teriam recebido irregularmente R$17 milhões por conta de antigos passivos.

Tais decisões provocam crescente corrosão na imagem do Poder Judiciário. A sociedade assiste, atônita, aos movimentos que caminham na contramão da urgente necessidade de saneamento das instituições públicas.

Recentemente, essa percepção aumentou com surpreendentes declarações do ministro Ricardo Lewandowski à “Folha de S.Paulo”. Em entrevista ao jornal, ele informou que só pretende concluir seu voto no processo do mensalão em 2013. O próprio ministro admite que, com o adiamento, poderá haver prescrição de boa parte dos crimes imputados aos responsáveis pelo maior escândalo da República. Lewandowski, revisor do processo, justificou a possibilidade de adiamento com um argumento que desabou em menos de uma semana: só leria todos os volumes do processo depois de receber um resumo do caso elaborado pelo relator do processo, ministro Joaquim Barbosa.

Acontece que Joaquim Barbosa não só divulgou a íntegra do seu relatório, mas foi ainda mais contundente. Acusou o presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), Cezar Peluso, de ter cometido um “lamentável equívoco” ao cobrar a liberação do conteúdo do processo do mensalão. “Tomo a liberdade de dizer que o mencionado ofício encerra um lamentável equívoco”, reagiu o ministro em resposta à cobrança do presidente da Corte. A explicação de Barbosa foi que as informações já estavam disponíveis a todos os ministros há mais de quatro anos na internet – mais exatamente na Base de Dados do Supremo Tribunal Federal – e que ele não pode ser acusado de retardar o andamento do processo.

Resumo da ópera: os ministros têm todas as informações há mais de quatro anos. Além disso, dispõem agora da íntegra do relatório do ministro Joaquim Barbosa. Como escrevi neste espaço opinativo, julgar o mensalão não é uma questão de prazos processuais. É um dever indeclinável. Se o STF carimbar o mensalão com a prescrição, hipótese gravíssima, concederá, na prática, um passaporte para a institucionalização da impunidade.

A corrupção é um câncer que deve ser enfrentado por todos: jornalistas, magistrados e cidadãos. Chegou a hora do Supremo Tribunal Federal.

Ministério da Verdade

Marco Antonio Villa, Folha de São Paulo

Estamos vivendo um tempo no qual os donos do poder exigem obediência absoluta.

No Congresso, a oposição representa apenas 17,5% das cadeiras. O governo tem uma maioria digna da Arena. Em 1970, no auge do regime militar, o MDB, partido de oposição, chegou a examinar a proposta de autoextinção. Quatro anos depois, o mesmo MDB venceu a eleição para o Senado em 16 dos 22 Estados existentes (no Maranhão, o MDB nem lançou candidato).

Ou seja, a esmagadora maioria de hoje pode não ser a de amanhã. Mas, para que isso aconteça, é necessário fazer algo básico, conhecido desde a antiga Grécia: política.

É nesse terreno que travo o meu combate. Sei que as condições são adversas, mas isso não significa que eu tenha de aceitar o rolo compressor do poder. Não significa também que eu vá, pior ainda, ficar emparedado pelos adversários que agem como verdadeiros policiais do Ministério da Verdade.

Faço essas ressalvas não para responder aos dois comentários agressivos, gratuitos e sem sentido do jornalista Janio de Freitas, publicados nesta Folha nos textos “Nada mais que o Impossível” (1º de janeiro) e “Meia Novidade” (3 de janeiro). Não tenho qualquer divergência ou convergência com o jornalista. Daí a minha estranheza pelos ataques perpetrados sem nenhuma razão (aparente, ao menos).

A minha questão é com a forma como o governo federal montou uma política de poder para asfixiar os opositores. Ela é muito mais eficiente que as suas homólogas na Venezuela, no Equador ou, agora, na Argentina.

Primeiro, o governo organizou um bloco que vai da direita mais conservadora aos apoiadores do MST. Dessa forma, aprova tudo o que quiser, com um custo político baixo. Garantindo uma maioria avassaladora no Congresso, teve as mãos livres para, no campo da economia, distribuir benesses ao grande capital e concessões aos setores corporativos. Calou também os movimentos sociais e sindicatos com generosas dotações orçamentárias, sem qualquer controle público.

Mas tudo isso não basta. É necessário controlar a imprensa, único espaço onde o governo ainda encontra alguma forma de discordância. No primeiro governo Lula, especialmente em 2005, com a crise do mensalão, a imprensa teve um importante papel ao revelar as falcatruas -e foram muitas.

No Brasil, os meios de comunicação têm uma importância muito maior do que em outras democracias ocidentais. Isso porque a nossa sociedade civil é extremamente frágil. A imprensa acaba assumindo um papel de enorme relevância.

Calar essa voz é fechar o único meio que a sociedade encontra para manifestar a sua insatisfação, mesmo que ela seja inorgânica, com os poderosos.

Já em 2006, quando constatou que poderia vencer a eleição, Lula passou a atacar a imprensa. E ganhou aliados rapidamente. Eram desde os jornalistas fracassados até os políticos corruptos -que apoiavam o governo e odiavam a imprensa, que tinha denunciado suas ações “pouco republicanas”.

Esse bloco deseja o poder absoluto. Daí a tentativa de eliminar os adversários, de triturar reputações, de ameaçar os opositores com a máquina estatal.

É um processo com tinturas fascistas, que deixaria ruborizado Benito Mussolini, graças à eficiência repressiva, sem que se necessite de esquadrões para atacar sedes de partidos ou sindicatos. Nem é preciso impor uma ditadura: o sufrágio universal (sem política) deverá permitir a reprodução, por muitos anos, dessa forma de domínio.

Os eventuais conflitos políticos são banais. Por temer o enfrentamento, a oposição no Brasil tenderá a ficar ainda mais reduzida e restrita às questões municipais e, no máximo, estaduais.

Quem se habilita para a sutura institucional?

Jorge Serrão, Alerta Total

O genial cientista britânico Stephen Hawking comemora neste domingo o milagre de completar 70 anos de vida. Apesar de sua gravíssima doença neurodegenerativa, o físico revelou à revista inglesa "New Scientist" qual o grande mistério que ainda não desvendou: entender as mulheres. “Elas são um mistério completo”. Eis a justificativa dele, um cara divorciado duas vezes e pai de três filhos.

Menos misteriosa que as mulheres é a revelação, reservadíssima, de uma ex-ministra do Supremo Tribunal Federal, em recente conversa com amigos de elite. Ellen Gracie Northfleet expôs, sem meias palavras, os motivos por que se aposentou, prematuramente, do STF. Ela não agüentava mais as pressões de trabalho em um Supremo, segundo ela, “dividido”. Por isso, Ellen prefere praticar remo no Flamengo, seu hobby esportivo atual, em vez de remar contra as marés no Supremo. 

O problema é pra lá de tsunâmico. A grave distonia entre os três poderes no Brasil vai redundar em ruptura institucional, mais cedo ou mais tarde. O Executivo e o Legislativo (mal ou bem, com todas as falhas) são republicanos. Por isso torna-se insustentável o constante choque deles com um Judiciário monárquico - com poderes divinos e muitas vezes absolutistas. 

A vítima deste conflito constante é a Democracia. Afinal, Segurança do Direito, no Brasil, parece ficção científica. Nem o genial Stephen Hawking deve ser capaz de projetar uma resposta tão precisa para a questão fundamental: Quem vai segurar a bronca na hora que o “buraco negro” se abrir?. Tomara que os segmentos esclarecidos da sociedade tenham habilidade e possibilidade de agir antes do caos se tornar realidade.

Nossa situação institucional é como um copo que cai (ou seria “um corpo que cai”, parafraseando o filme famoso de Alfred Hitchcock?) As chances de quebrar são quase totais. O mistério é quem vai se habilitar a recolher os cacos e reconstruí-lo. O buraco (nigérrimo) é muito mais embaixo (ou em cima, dependendo de quem se dispõe a enxergá-lo). Nosso corpo institucional, praticamente semi-morto, está fedendo. E pode feder ainda mais...

Já que o risco é mortal, voltemos a falar do professor titular da cadeira de Isaac Newton na Universidade de Cambridge. Stephen Hawking já proclamou que não tem medo da morte. Até porque ele lida com o risco de morrer há 49 anos, desde os 21 anos de idade, quando foi diagnosticada sua esclerose lateral amiotrófica. Doença dos diabos!

Superando todas as previsões pessimistas, hoje movendo apenas suas bochechas, Hawking se comunica e nos fornece uma lição de esperança, fé e (acima de tudo) amor à vida: "Eu tenho vivido com a perspectiva de uma morte prematura há 49 anos. Não tenho medo da morte, mas não tenho pressa de morrer. Ainda há muita coisa para fazer".

Solta a frase, fora do contexto original, parece que Stephen Hawking fala da situação institucional brasileira. Ainda mais porque ele é um dos mais renomados especialistas em “buracos negros”. Aliás, o próprio Hawking tem a dignidade intelectual de admitir sua maior mancada, ao menos na ciência: "Pensava que a informação era destruída nos buracos negros".

Se nem os terríveis buracos negros podem destruir a informação, nós, simples mortais tupiniquins, temos o dever de fazer melhor uso dela. Aqui no Brasil, o pirão já desandou. A pimenta já arde nos olhos de muita gente. Uns, mais resistentes ou teimosos, encastelados no poder ou embriagados pelo comodismo, fingem que nada sentem. O certo é que a situação não pode ficar do jeito que está. A tendência é que não fique.

O “golpe” original já foi dado pelos meliantes. Os militantes do Governo do Crime Organizado podem estar com seus dias contados. Não interessa ao mundo - que precisa de saídas imediatas para a crise - um País totalmente dominado pela perversa associação entre servidores públicos e bandidos que se servem dos três poderes estatais.

Por isso, os controladores globalitários tendem a rever o sistema de exploração ao qual sempre submeteram historicamente o Brasil. Eis a chance – talvez única – que a nação terá para retomar seu rumo e redefinir seus objetivos estratégicos. A mobilização da sociedade ainda parece imperceptível aos menos atentos, mas ocorre a passos largos.

O contragolpe, desta vez, não é nem será militar. O movimento já em marcha (ainda sem coturnos, tanques e armas) usará, ainda mais, a ação psicológica contra o inimigo. Informações surgidas do nada e bem plantadas na mídia vão desmoralizar e inviabilizar, institucionalmente, cada componente criminoso, até jogá-lo, completamente, no “buraco negro”.

No cenário de desestruturação, os militares brasileiros devem ser ainda mais alvos de ataques covardes. O Núcleo do Crime Organizado fará de tudo para reforçar a desmoralização das Forças Armadas como Instituição. Na guerra psicológica pós-85, continuarão martelando, na mídia, a falsa imagem dos militares como “ditadores sempre prontos a dar um golpe, a qualquer momento”. Enquanto isso, prosseguirá o esquema para o desmonte e inoperância da Força, via “contingenciamento” de recursos.

Raciocínio simples, objetivo e direto para o que tende a acontecer. O mundo está em crise. Por sorte, o Brasil é uma das soluções para o problema. Portanto, não pode ser gerido pela autofágica incomPTência reinante. Para o bem e necessidade urgente da humanidade, nosso País não pode ser sacrificado pelo câncer que infesta, em metástase, com suas células criminosas, todos os três poderes em putrefação. 

Nem precisa ser cientista para prever que a doença terá de ser curada por imposição da própria ordem mundial (velha ou nova) que comanda os destinos políticos e econômicos do Planeta. Por isso, aqueles que estão nos podres poderes andam tão tensos, ultimamente. Serão alvos de novos ataques de desmoralização até se tornarem peças inviáveis. Os mais espertos tentam se salvar. Talvez não consigam... O tempo urge e ruge...

A estrela companheira e seus comparsas do crime organizado já são tragados para o buraco negro que a tudo engole. Quando tal processo de fagia e autofagia se completar, e a araruta virar mingau, sobreviverá quem souber comer os inimigos pelas beiradas.

Terá sucesso – e salvação - quem souber ocupar o vácuo institucional em adiantada formação. Eis por que a formulação de um Projeto para o Brasil é urgente. Nunca valeu tanto o lema: “A selva não pertence ao mais forte, mas ao sóbrio, habilidoso e resistente”.

Como diria a safada Isaura, esposa traíra do escroque Agamenon Mendes Pedreira, “o silicone está estourando”...

Em português claro, e sem voltinhas: a ruptura institucional é inevitável. 

A pergunta fundamental é: Quem se habilita para a sutura – com competência, honestidade e coragem?

Sequestro no almoço

Sebastião Nery, Tribuna da Imprensa

No meio do almoço, o telefone tocou. A empregada passou para a dona da casa que, à cabeceira da mesa, atendeu:

- Mãe, eles me sequestraram! E dizem que vão me matar!

Ela ficou pálida, atônica. As lágrimas lhe rolavam rosto abaixo:

- Ai, meus Deus, sequestraram meu filho! Calma, meu filho! Calma que vamos resolver!

O telefonema virou um pingue-pongue. Ela já falava com o sequestrador:

- Não matem meu filho, pelo amor de Deus! Tenham calma, que resolvemos. Não façam nada com ele, que vamos acertar tudo.

- Não podemos esperar. É quinze mil reais e é agora. Digam logo onde vamos receber o dinheiro. Nada de polícia. Se der errado, ele morre.

***

O FILHO
Na mesa enorme da família dos queridíssimos amigos pernambucanos, que me recebiam aqui em Recife naquela tarde de sábado de fim de ano, fiquei em pânico. Perdi qualquer capacidade de raciocinar.

Estávamos ali, políticos, advogados, médicos, professores, jornalistas, uma gente com larga experiência de vida, acostumados a enfrentar lutas e prisões, situações de perigo e risco, mas ninguém tinha uma solução:

- Como avisar a amigos do governo, chamar a polícia? Seria arriscar a vida do rapaz, que havia saído com amigos para um jogo de futebol.

No telefone, o pai e a mãe negociavam o pagamento do resgate, tentando ganhar tempo, esperando o milagre de uma solução. De repente, levanta-se da mesa um garoto, o mais jovem de todos, e corre para dentro do apartamento. Daí a um minuto, volta gritando, com o celular na mão:

- É tudo mentira! É um falso sequestro desses filhos da puta. Ele está aqui no telefone. Está lá no estádio, assistindo ao jogo. Falem com ele.

E a mãe falou com o filho como na maternidade, no primeiro dia.

***

VIOLÊNCIA
Uma estatística do governo informa que Recife é a terceira capital mais violenta do País: São Paulo, Rio, Recife. Não por acaso, as três maiores capitais. Então, a doença não é só de Pernambuco, é do País. O País é que está ficando cada dia mais violento, mais doente.

Quanto mais gente, quanto maior a população, maior a violência: depois, Salvador, Belo Horizonte, Porto Alegre, uma atrás da outra. A história dos povos é sempre a mesma: tira-se a esperança, vem o desespero. André Malraux sabia muito bem disso:

“A esperança do homem é sua razão de viver e de morrer”.

***

NORDESTE
No Nordeste, as periferias das grandes, médias e até pequenas cidades são o inchaço da miséria. Enquanto os números da grande economia engordam, os bancos lucram o que não ganham em nenhum outro país e as grandes empresas mais exportam e mais faturam, a riqueza se concentra e o Brasil da maioria vive da esmola, justa, miraculosa mas indecente, do Bolsa Família.

A Bahia já foi o cacau, o cacau acabou comido pela vassoura de bruxa. Ficaram a Petrobras, a petroquímica e o automóvel, que o povo vê de longe, saindo nos navios imensos, nas jamantas enormes. Pernambuco já foi a cana, a cana está indo para São Paulo atrás do etanol. No Ceará só restou o padre Cícero pendurado em sua estátua de Juazeiro do Norte. Cada estado, o mesmo pesadelo: uma economia cuja riqueza não fica, escoa.

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TURISMO
Por isso o turismo restou como a derradeira esperança do Nordeste e do Norte. Você só vê trabalho, desenvolvimento, emprego, se espalhando e chegando a novas fronteiras e novas camadas da população, onde se implantou um núcleo de turismo: Salvador, Porto Seguro, Recife, Porto de Galinhas, Fortaleza, Maceió, Natal, João Pessoa, São Luís, Belém, Manaus, e as ramificações de cada uma, em praias magníficas que as sustentam.

Em todas, há um dado básico: o turismo só se desenvolve a partir de um empreendimento inicial, central, que provoca, dinamiza e multiplica outros investimentos. Foi assim a partir dos grandes hotéis e resorts das décadas de 70 e 80 em Salvador e Porto Seguro, Morro de São Paulo e Sauípe, Porto de Galinhas em Recife, Canoa Quebrada no Ceará.

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MARAGOGI
O caso de Maragogi, em Alagoas, é exemplar. Em 90 passei lá. Eram quilômetros e quilômetros de uma costa de coqueiros, um mar verde deslumbrante, e uma cidadezinha terrivelmente pobre, miserável, de cinco mil habitantes que viviam ali pescando e bebendo água de coco e cachaça.

Construíram lá um belo e vasto hotel, um resort modelo, o Salinas de Maragogi. Foi um floração. Agora, mais de 20 anos depois, uma centena de outros hotéis e pousadas transformaram a região, dando milhares de empregos, criando uma escola de turismo, ensinando e pagando salários. Tudo a partir de um só núcleo exemplar, o Salinas.

Maragogi é apenas um entre muitos outros exemplos, pelo Brasil a fora. Ali, onde Miguel Arraes tinha sua casa de praia e saía de Recife para descansar, é exemplo para uma rede sem fim de turismo em toda a costa.

A culpa não é das chuvas

O Estado de S.Paulo

A destruição, pela terceira vez em quatro anos, de um trecho da rodovia federal que tem servido como dique para conter as águas do Rio Muriaé, no município fluminense de Campos - forçando a remoção de 4 mil pessoas da localidade de Três Vendas -, é mais uma dramática comprovação da péssima qualidade da gestão pública no País. O fato comprova o mau planejamento das obras públicas, a incapacidade do poder público de adotar medidas preventivas contra os efeitos dos fenômenos naturais e ao descaso das autoridades com a situação da população afetada por esses problemas. A culpa não é do mau tempo, como muitas autoridades vêm afirmando, mas delas próprias, em todos os níveis de governo.

O fato de um trecho da rodovia federal BR-356 (Itaperuna-Campos) ter se rompido pela terceira vez consecutiva por causa das enchentes do Rio Muriaé demonstra que seu traçado é incorreto ou que sua construção não é adequada, ou as duas coisas. "As inundações na região do Rio Muriaé são recorrentes e a estrada deveria ter sido projetada para que não sofra rompimento", disse ao Estado, com lógica cristalina, o engenheiro geotécnico Alberto Sayão, professor da PUC-Rio e ex-presidente da Associação Brasileira de Mecânica dos Solos (ABMS). "A estrada não está preparada para cheias e é possível que vá se romper em outros trechos. Deve ser feita uma avaliação para que seja reconstruída em condições adequadas." Como resumiu o engenheiro, "a culpa não é de São Pedro".

Em janeiro de 2007, uma pessoa morreu ao cair com seu carro na cratera aberta na BR-356 pelo Rio Muriaé. Em dezembro de 2008, o Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (Dnit), responsável pela operação da rodovia, cortou parte dela para facilitar o escoamento da água. Situado na margem da rodovia oposta ao rio, e em nível mais baixo, o distrito de Três Vendas, a 15 quilômetros do centro de Campos, foi inundado também nessas ocasiões.

Por incapacidade técnica do Dnit ou por outro motivo não conhecido, o trecho destruído foi reconstruído e recebeu diversas outras obras. O superintendente substituto do Dnit, Celso Crespo, disse ao jornal O Globo que cerca de R$ 100 milhões já foram aplicados na BR-356.

"Em 2007, fizemos a contenção do aterro da margem esquerda do Rio Muriaé", disse o supervisor do Dnit em Campos, Guilherme Fraga Freitas. "Em 2008, a abertura foi feita por máquinas. Depois, ela foi fechada. Nada do que foi feito nos últimos anos foi danificado."

Agora, o custo estimado para a reconstrução da pista é de R$ 1,5 milhão. Mas, daqui a algum tempo, muito provavelmente, tudo terá de ser refeito, sempre a custos adicionais para os contribuintes e de danos à população, pois nada se disse sobre um projeto de um novo traçado ou de obra resistente às águas do rio para resolver o problema.

A prefeita de Campos, Rosinha Garotinho, foi advertida há três anos sobre a necessidade de remoção dos moradores de Três Vendas para uma área mais alta conhecida como Colina, como informou ao Estado o pesquisador Arthur Soffiati, do Núcleo de Estudos Socioambientais da UFF - mas nada fez.

Na região serrana do Rio de Janeiro, as marcas da tragédia que custou mais de 900 vidas no ano passado ainda são visíveis - o que mostra a omissão do governo. O pior é que a situação em Nova Friburgo sugere o risco de repetição do desastre, sem que as autoridades se mobilizem para evitá-lo.

O governo federal gere mal os poucos recursos destinados à prevenção e combate às enchentes e outros desastres naturais. A destinação privilegiada desses recursos para regiões de interesse político-eleitoral, daqueles que tomam as decisões - como ocorreu na gestão do atual ministro da Integração Nacional, Fernando Bezerra Coelho, de Pernambuco, e ocorrera na de seu antecessor, Geddel Vieira Lima, da Bahia -, é uma das piores características dessa forma de governar. Outra é a incapacidade do governo petista de aplicar com um mínimo de eficiência os recursos disponíveis. No caso de ações de "prevenção e preparação para desastres", entre 2004 e 2011, o governo aplicou apenas um quarto dos recursos autorizados, como mostrou a organização não governamental Contas Abertas.

Apenas uma das 75 obras destruídas pelas chuvas é reconstruída na Serra

Antônio Werneck, Duílo Victor e Natanael Damasceno, O Globo

Desentendimento entre os governos pode ser a causa do atraso na recuperação das pontes

A nova ponte de Bom Jardim, 
aberta ao trânsito em apenas uma pista, na última sexta-feira
MARCOS TRISTÃO / O GLOBO

RIO - Uma queda de braço travada ao longo do ano passado entre o Ministério da Integração Nacional e a Secretaria estadual de Obras do Rio pode estar entre as causas do atraso na reconstrução das pontes arrastadas pelas enxurradas que atingiram os municípios da Região Serrana em janeiro do ano passado. Depois de técnicos do ministério apontarem indícios de irregularidades em parte dos projetos apresentados pelo Rio, o governo de estado decidiu voltar atrás, suspendendo todos os contratos. Um ano depois, nenhuma ponte foi concluída. O mais próximo disso ocorreu na cidade de Bom Jardim, onde, na última sexta-feira, foi inaugurada uma ponte em meia pista, ligando o Centro do município ao restante da Região Serrana.

Semanas após a tragédia das chuvas, o vice-governador Luiz Fernando Pezão, na época secretário estadual de Obras, informou que usaria R$ 80 milhões repassados pelo governo federal para reconstruir um total de 69 pontes. Em fevereiro, de acordo com o Ministério da Integração Nacional, o estado apresentou um projeto para recuperar 200 pontes em sete municípios serranos, entre eles Nova Friburgo, Teresópolis e Petrópolis. Em julho, em nova documentação encaminhada ao ministério, o número de pontes que o estado prometia reconstruir caía para 75 em dez cidades da região.

A falta de uma justificativa plausível para a redução levou o Ministério da Integração Nacional a pedir explicações. No relatório de análise técnica enviado ao governo do Rio (número RJP078/2011), um técnico escreveu: "Constata-se que tal redução estabelece a necessidade de justificativas ou da indicação dos motivos que ocasionaram a alteração dos critérios de escolha dos locais em que estava prevista a execução das obras de acesso viário, que culminaram na significativa diminuição das quantidades de pontes indicadas pelo governo".

Em outro trecho, o mesmo técnico estranha o uso, em todas as estruturas de fundação das pontes a serem reconstruídas, de um determinado material por um custo bem "superior ao de fato necessário para construção da referida estrutura."

Em Bom Jardim, ponte de 66 metros
O vice-governador Luiz Fernando Pezão, que hoje responde como coordenador de Infraestrutura do governo, afirmou que o estado recebeu R$ 79,5 milhões do governo federal para a reconstrução de 73 pontes. O número, segundo ele, seria suficiente para resolver os problemas de acesso a todos os municípios afetados.

— O número de pontes destruídas, divulgado no início do ano, incluía muitos pontilhões. Quanto às obras, elas atrasaram um pouco porque as enxurradas mudaram as margens dos rios e a quantidade de água que passa debaixo das pontes. Nós até tínhamos feito uma série de contratos de emergência, mas o Inea (Instituto Estadual do Ambiente) pediu que paralisássemos tudo. Eles disseram que tinham que opinar — argumentou ele.

O argumento foi o mesmo usado pelo atual secretário de Obras, Hudson Braga, na resposta encaminhada ao Ministério Público Federal. No documento, Hudson afirma que a execução dos projetos foi atrapalhada por dois motivos: "demora na emissão da licença ambiental pelo Inea, que só ocorreu em 11 de novembro de 2011"; e um projeto inconsistente, baseado apenas em vistorias de campo e estudos antigos. No mesmo documento, datado do início de dezembro do ano passado, Braga revela que só conseguiria construir duas das 41 pontes inicialmente previstas: nos municípios de Areal e Bom Jardim. As outras só poderiam ser reconstruídas este ano, após procedimentos licitatórios.

Apenas na semana em que a tragédia na Região Serrana completa um ano moradores do município de Bom Jardim, de 25 mil habitantes, começaram a retomar a rotina de antes da enchente. Desde sexta-feira, foi reaberta no sistema "pare e siga" uma das duas pistas da ponte que teve de ser reconstruída depois da cheia do Rio Grande. A estrutura, com vão central de 66 metros, liga o Centro da cidade ao principal acesso à capital, a Rodovia Presidente João Goulart, a RJ-116.

Foi em Bom Jardim que o Exército precisou instalar uma ponte metálica provisória, de pista única, para tirar o Centro do município do isolamento dias depois da tragédia. Agora, com o antigo acesso recuperado, mesmo que no esquema "pare e siga", o tráfego de caminhões pesados das fábricas de cimento de Cantagalo, Cordeiro e Macuco — responsáveis por 8% da produção nacional — não precisará fazer desvios por estradas vicinais, que atrasavam a viagem em 40 minutos.

— Voltei a ter noites de sono. Os caminhões de cimento tinham que desviar pela rua da minha casa, e o barulho do tráfego ocorria de dia e de madrugada. Sem contar que a rua ficou tão esburacada a ponto de vizinhos com carros de mil cilindradas desistirem de tirar os veículos da garagem — conta o engenheiro hidráulico Sansão Aparecido Pereira, morador do bairro de Campo Belo, que teve o imóvel condenado pela Defesa Civil.

A recuperação gradual da ponte — a segunda pista ainda está em processo de pavimentação — resolve apenas parte dos problemas causados pela tragédia. Ao longo do Rio Grande, é possível ver muitas casas que, embora não tenham sido levadas pelas águas de janeiro do ano passado, estão em área de risco.

— Se forem derrubar tudo que está em área de risco, vai ter que levar a cidade quase toda — exagera o servente de pedreiro José Antônio Braz, que, na época da tragédia, precisou da ajuda de um helicóptero para receber doações de comida. — Moro em Bom Jardim há 40 anos e nunca imaginei que a ponte pudesse ser levada pelo rio. Era um caminho tão comum que a gente nem percebia que passava sobre ela todos os dias. Até a ponte ir embora.

Um ano de tristes lembranças
Um ano após ter sido devastada por uma tempestade, que se tornou o maior desastre climático registrado no país, a Região Serrana ainda luta para apagar as marcas deixadas pela enxurrada, na qual 918 pessoas morreram e 215 desapareceram.

Passados 12 meses da tragédia, O GLOBO mostrou num caderno especial, publicado na edição deste domingo, que muito precisa ser feito para recuperar as cidades da Serra. Contudo, iniciativas de pessoas comuns têm permitido a reconstrução da vida de famílias como a do menino Brayan, que nasceu em meio ao temporal no qual os pais perderam a casa. Hoje, eles vivem num novo imóvel.

Não bastassem as mortes e o gigantesco cenário de destruição na região, moradores ainda foram obrigados a enfrentar problemas relacionados ao desvio de recursos que deveriam ter financiado a recuperação da região. As cifras desviadas chegam a R$ 10 milhões, quantia que deverá ser devolvida aos cofres públicos.
Durante todo o decorrer do ano passado, equipes de reportagem voltaram a Nova Friburgo, Petrópolis, Teresópolis e outras cidades da Região Serrana e constataram que, dos escombros, surgiram iniciativas de gente simples, empresários e pequenos agricultores que estão recuperando a região.

Casa de concordância

Dora Kramer - O Estado de S.Paulo

Assim como as pesquisas de opinião mostram Dilma Rousseff com avaliação positiva inédita no primeiro ano de governo na comparação com seus antecessores desde a redemocratização, balanços de fim de ano constataram que a presidente conta com a maioria mais ampla no Congresso de todo o período.

Tanto na Câmara quanto no Senado o governo conta com cerca de 80% dos parlamentares. Entre os 513 deputados, apenas 91 são de partidos da oposição, que ficou reduzida a 17 senadores depois da eleição de 2010.

Nem Lula conseguiu isso. Ele teve 37% de oposicionistas no primeiro mandato e 30% no segundo. Considerando a redução, à primeira vista pode se chegar à conclusão de que o governo do PT dizima gradativamente a oposição - que, nesse ritmo, caminha para a extinção caso perca as próximas eleições presidenciais.

Examinando mais detidamente o apanhado feito pela Folha de S. Paulo em dezembro, vê-se, no entanto, que o governismo no Congresso não é necessariamente o resultado de um bem-sucedido plano engendrado pelo PT. Seria, por assim dizer, mais um hábito do político brasileiro, uma vocação.

Fernando Henrique Cardoso bateu Lula e chegou perto de Dilma em matéria de adversários no Parlamento: na Câmara teve apenas 24,5% de oposicionistas no primeiro mandato e 26% no segundo.

Fernando Collor de Mello foi o presidente com a maior oposição (49% da Câmara) e Itamar Franco, durante o mandato tampão de dois anos, encontrava resistência em 33% dos deputados, enquanto José Sarney, com toda a impopularidade pós-Plano Cruzado, ficou na marca dos 37%.

Esses números nos contam que o Congresso brasileiro, descontadas as excepcionalidades, é uma instituição essencialmente governista, avessa ao contraditório.

Explicam a razão de Dilma Rousseff contar com mais apoio que Lula: trata-se de uma progressão, a cada governo presidido pelo mesmo grupo político amplia-se a adesão. O contrário aplica-se à oposição que nunca foi tão pequena desde a volta da democracia, mas também nunca foi tão grande a ponto de contrapor o Legislativo ao Executivo.

Uma realidade que expressa a ausência de identificação ideológica da sociedade, distorce a função do Parlamento de representar a diversidade de pensamentos e, sobretudo, anula o debate e a fiscalização que o Congresso deveria exercer sobre o Poder Executivo em nome da delegação recebida nas urnas.

Presidentes não governam sem apoio no Congresso, mas maiorias tão exorbitantes desequilibram os pilares da República e, por serem artificiais, sem sustentação programática, servem ao poder de turno no lugar de servir ao público.

Deixa disso. 
Se dependesse do PMDB não haveria reforma ministerial alguma. Os dirigentes sabem que não ganharão nada, mas não querem correr o risco de perder espaço no tiroteio partidário que em geral toma conta das antessalas desse tipo de rearranjo.

A propósito. Se não há nada de irregular nem é justo falar em favorecimento político no direcionamento de verbas para Pernambuco, por que foi mesmo que a ministra da Casa Civil interrompeu o recesso para tratar do assunto?

 A mesma dúvida aplica-se à volta ao trabalho do ministro Fernando Bezerra e imediata adoção de agenda de visitas a regiões atingidas pelas cheias, preocupação surgida apenas depois da divulgação do fato. Até então, a despeito do período anual de chuvas, Bezerra estava em férias.

Protagonista. 
No artigo de sexta-feira sobre o tratamento ameno que a oposição dá ao ministro Fernando Bezerra, a razão apontada é a expectativa do PSDB de ter o governador Eduardo Campos (PE) como futuro aliado.

Cabe acrescentar: Campos é sonho de consumo eleitoral não só dos tucanos, mas de todos os partidos.

Será figura central das articulações para a eleição de 2014 e, por isso, alvo tanto de assédio quanto de ataques.

Dentaduras eleitorais

Mary Zaidan  - Blog do Noblat

Duas cenas antagônicas – uma de punição e outra de ostensiva cara de pau – inauguraram 2012. De um lado, o TSE negou liminar ao prefeito de Ribeira do Piauí, Jorge de Araújo da Costa (PTB), cassado em outubro sob acusação de compra de votos. De outro, a descarada compra de votos em curso no estado de Pernambuco, sob o patrocínio do ministro da Integração Nacional, Fernando Bezerra (PSB).

A história de Araújo Costa e de seu vice, Justino João da Costa, dá vida à folclórica troca de votos por dentaduras. Além do presente aos desdentados, teriam usado cestas básicas para obter a preferência dos eleitores do município, situado a 380 quilômetros de Teresina. De acordo com o último Censo do IBGE, Ribeira abriga 4.263 habitantes, a maioria na miséria quase absoluta.

O rolo de Fernando Bezerra é mais elaborado. Mereceria punição antecipada.

Além do delito de aplicar 90% dos recursos reservados para a prevenção de danos com enchentes no seu estado natal, onde pretende ser candidato a governador em 2014, Bezerra teve o desplante de dizer que o fazia porque Pernambuco não poderia ser “discriminado” por ser a terra do ministro.

Substituiu privilégio por discriminação e pronto.

Não bastasse a desfaçatez da explicação que nada explica, Bezerra foi pego com a mão na botija de novo: em uma manobra na surdina, tentou transferir recursos da transposição do Rio São Francisco – obra abandonada e que exigirá pelo menos mais R$ 1,6 bi para ser concluída - para a barragem de Serro Azul, também em Pernambuco.

E não parou por aí. O Ministério, por meio da Companhia de Desenvolvimento dos Vales do São Francisco e do Parnaíba (Codevasf), presidida por Clementino de Souza Coelho, irmão do ministro, destinou para Petrolina quase 23 mil das 60 mil cisternas de plástico que comprou para todo o semiárido.

Bezerra foi por três vezes prefeito da cidade, e um de seus filhos, o deputado Fernando Bezerra Coelho, é candidato ao cargo nas eleições de outubro.

Petrolina precisa de cisternas, mas não está no topo da lista, lugar que pertence a cidades da Bahia, do Ceará e de Minas. Pelo menos é o que diz o Plano Brasil sem Miséria, menina dos olhos da presidente Dilma Rousseff. Ainda assim, as baianas Juazeiro e Bom Jesus da Lapa vão receber só 11 mil cisternas, menos da metade das do berço político do ministro.

Pelo que se sabe, Bezerra não chegou a distribuir dentaduras. Mas, assim como o prefeito da paupérrima Ribeira do Piauí, explora a miséria em benefício próprio. Seus dentes mordem nacos de dinheiro público para o seu curral eleitoral. Aos eleitores caberá lhe permitir ou não o sorriso.  

Arma de repetição

Miriam Leitão, O Globo

Imagine um leitor que por algum motivo tenha parado de ler jornais por um tempo e voltado a ler nos últimos dias. A única dúvida que ele terá é por que mudou o nome do ministro. Será informado de que o ministro que privilegiou seu estado na distribuição de verbas contra desastres chama-se Fernando Bezerra e não Geddel Vieira Lima.

A explicação dos ministros para a alta concentração das verbas em seus estados é a mesma. Ambos disseram que seus redutos — a Bahia, no caso de Geddel; Pernambuco, no caso de Bezerra — receberam mais por terem preparado de forma mais eficiente os projetos a serem financiados.

Igual também é a frase: “o meu estado não pode ser discriminado.”

Claro que não pode ser, o que o país discorda é do coincidente privilégio.

Os episódios recentes envolvendo ministros mostram que as fórmulas empregadas por eles se repetem, seja em flagrantes de clientelismo, seja em casos mais graves, de corrupção mesmo. De vez em quando, os ministros caem diante de evidências de um malfeito. Mas mais importante que a troca de ministros é implantar antídotos que impeçam a reconstrução de esquemas semelhantes. Em vez de Bahia, Pernambuco.

Mas a fórmula de destinar verbas ao reduto eleitoral foi a mesma. É o que precisa ser evitado.

O pior é que cidadãos dos dois estados não podem dormir em paz apesar da abundância da verba, porque os estados não estão mais protegidos. O dinheiro não vai para a região obedecendo a alguma ordem de emergência e critérios de eficiência para proteger a população. Vai para catapultar o projeto eleitoral do ocupante do cargo. No caso de Geddel, era para preparar sua campanha ao governo do estado; fracassada, por sinal.

De diferente nos dois casos apenas a atitude do presidente. Lula negou as evidências que os números mostravam. Disse que era tudo leviandade e acusou uma suposta “exploração política”. Os dados mostravam que, de 2004 a 2009, o Rio tinha recebido 0,69% das verbas e a Bahia, 40%. Dilma teria determinado agora que a liberação passe pela Casa Civil.

Políticos ou técnicos apadrinhados têm ocupado ministérios para usá-los como donatarias para suas ambições eleitorais ou como base de financiamento para seus partidos. A destinação preferencial das verbas é um caso de clientelismo, mas houve outros casos em que há mecanismos muito mais lesivos.

Uma fórmula já detectada e que levou à queda de ministros é a da criação de ONGs ligadas ao partido do ministro, para transferir a elas dinheiro público, que, no fim, vai para a legenda.

Em alguns episódios passados descobriu-se que as ONGs tinham como endereço algum local desabitado e como responsável alguém que sequer sabia que seu nome era utilizado.

Normalmente, segue-se um roteiro conhecido: apanhado diante da evidência, o ministro em questão dá declarações que ofendem a inteligência do distinto público. Quando suas respostas e as evidências do malfeito se acumulam, o governante derruba a pessoa do cargo. O caído some nas sombras, deixa de ser cobrado pelos seus atos e espera o esquecimento para voltar; os esquemas montados para surrupiar dinheiro público trocam de donos; e assim, o país aguarda o próximo escândalo.

Seria bom aprender com a repetição. O mau uso do dinheiro público, de tanto se reproduzir, ficou previsível. Há casos e casos, há clientelismo, corrupção, mas as fórmulas em um e outro caso estão ficando repetitivas. O governo que queira defender o bom uso do dinheiro público pode desmontar os esquemas e prevenir, em vez de demitir.

Um governo de coalizão se faz com a distribuição de algumas áreas para os partidos que dividem o poder, mas o exercício dos cargos deve ser para implantar as políticas que aquele partido defende. O cargo é espaço para execução das políticas que defenderam na formação do programa comum de governo. Se forem bem executadas, os partidos ganham musculatura eleitoral. O erro não é a divisão do poder, é o nomeado tomar posse do posto como se fosse propriedade privada.

A política brasileira entendeu errado a lógica da coalizão. O ministério ou o cargo não é propriedade do nomeado, do seu partido, da sua facção no partido, dos seus apadrinhados. Os políticos demonstram que entenderam que o dinheiro que trafega por ali tem que ter como destino preferencial a pavimentação do caminho que os levará à reeleição, em primeiro lugar, ao aumento da bancada do seu partido, em segundo.

Os relatos dos mesmos descaminhos estão cansando o eleitorado. As pessoas contemplam com fadiga os labirintos nos quais o dinheiro do seu bolso acaba desviado para outros fins que não o de melhorar o país e financiar políticas públicas.

Cidadãos e cidadãs estão perigosamente se convencendo de que os políticos são todos iguais, a corrupção é indestrutível, o pagamento de impostos, uma inutilidade.

Esse desalento pode ser o ovo de uma serpente que, em algum momento no futuro, conquiste seguidores para teses que ameaçam a democracia representativa.

Integração vira 'Ministério do Nordeste'

Christiane Samarco, João Domingos - O Estado de S.Paulo 

Pasta criada sob inspiração da ditadura militar teve 11 ministros, sendo 10 nordestinos, que privilegiaram região na condução de projetos

Inspirada no Ministério do Interior, que projetou o ministro Mário Andreazza (1918/1988) para a primeira disputa presidencial após 20 anos de ditadura militar, a pasta da Integração Nacional foi criada na forma de secretaria em 1990, virou ministério dois anos depois e, a partir daí, tornou-se um reduto nordestino na Esplanada. Dos últimos 11 ministros que por lá passaram, 10 eram do Nordeste.

A exceção foi o ex-senador Ramez Tebet (PMDB-MS), que ocupou o cargo por três meses.

O primeiro ministro da Integração Regional foi o ex-governador do Rio Grande do Norte Aluízio Alves, no governo Itamar Franco (1992/1994). Desde então, governadores e parlamentares dos vários Estados nordestinos vêm se engalfinhando não só pela cadeira de ministro, como também pelo comando das estatais vinculadas à pasta, como a Companhia de Desenvolvimento dos Vales do São Francisco e do Parnaíba (Codevasf) e o Departamento Nacional de Obras Contras as Secas (Dnocs).

Para manter a influência sobre o Dnocs no governo de Dilma Rousseff, o líder do PMDB na Câmara, Henrique Eduardo Alves (RN), chegou a ameaçar até o rompimento com o novo governo. Tanto barulho fez que assegurou a permanência de seu afilhado Elias Fernandes no cargo de diretor da estatal. O orçamento do Dnocs para este ano é de cerca de R$ 1 bilhão.

A destinação de recursos do ministério para a construção de barragens, como ocorre agora na administração de Fernando Bezerra Coelho, não é novidade. Se na gestão do ministro Andreazza o Rio Grande do Norte ganhou a barragem Armando Gonçalves, com capacidade para armazenar 2,4 bilhões de litros d'água, não foi diferente nos tempos da dobradinha potiguar, com o governador Garibaldi Alves e o ministro Fernando Bezerra (homônimo do atual, ex-senador e ex-presidente da CNI), no governo Fernando Henrique.

"Esse ministério mudou a região e teve repercussão imensa no Rio Grande do Norte, com obras que mudaram a vida do povo", recorda o agora ministro da Previdência Social, senador Garibaldi Alves (PMDB).

A grita dos nordestinos, que passaram a se mobilizar e a se organizar a partir dos Estados, criando secretarias de recursos hídricos e planos diretores de aproveitamento das águas e bacias, começou de forma mais intensa e organizada em 1982, depois dos cinco anos consecutivos de seca que traumatizaram a região. Alguns políticos lamentam a troca de nome - Desenvolvimento ou Integração Regional para Integração Nacional.

Mas não há nordestino que não defenda o ministério. "É importante que tenhamos um ministério do Nordeste e um ministro da região", defende o líder do PSB no Senado, Antonio Carlos Valadares (SE). Segundo ele, a Integração continua sendo a pasta "do combate às desigualdades regionais".

Até a oposição reconhece a importância do ministério, a despeito dos reparos ao governo. O presidente nacional do PSDB, deputado Sérgio Guerra (PE), diz que as obras mais importantes do ministério são a transposição do São Francisco, que está paralisada, e a Ferrovia Transnordestina, que também não anda, diz ele. "Se as políticas regionais fossem mais fortes, o ministério seria mais forte."

Em baixa. 
Disputas à parte, a Integração nunca figurou na lista dos ministérios mais importantes, exatamente pela vinculação regional ao Nordeste. Só ganhou dimensão nacional em dois momentos: sob a batuta do candidato a presidente Ciro Gomes - precisamente por se tratar de um presidenciável - e com o deputado Geddel Vieira Lima (PMDB-BA), por conta do projeto da transposição e por ser ele o líder do PMDB.

Acusado de favorecer a Bahia em sua administração, Geddel lembra que aplicou recursos em projetos para conter encostas e promover drenagem em Salvador, "que é a terceira maior capital do País e é muito mais pobre que Rio, São Paulo e Belo Horizonte". A seu ver, a Integração está longe de ter a importância de um ministério do Interior, porque seu leque de ações é estreito e os recursos para obras de prevenção estão espalhados por várias pastas. "As verbas para emergências no Sudeste estão principalmente nas Cidades. Na Integração, essa rubrica é troco."

Ministro da Integração é acusado de comprar terreno duas vezes

Folha de São Paulo

O ministro Fernando Bezerra Coelho (Integração Nacional) utilizou recursos públicos para comprar um mesmo terreno duas vezes, quando era prefeito de Petrolina (PE), informa reportagem de Catia Seabra e Felipe Seligman, publicada na Folha desta segunda-feira.

Sérgio Lima - Folhapress
Ministro Fernando Bezerra (Integração Nacional)

A primeira compra ocorreu no final de seu primeiro mandato, em 1996, por R$ 90 mil. Na segunda, já em 2001, durante seu segundo mandato, pagou R$ 110 mil.

Nas duas vezes, o dinheiro beneficiou o mesmo empresário, José Brandão Ramos, sob a mesma justificativa: transformar a área em um aterro sanitário.

OUTRO LADO
O ministro admitiu, por intermédio de sua assessoria, que o terreno foi comprado duas vezes pela Prefeitura de Petrolina (PE), mas afirmou que foi induzido a erro pela gestão do prefeito Guilherme Coelho, seu primo, que o sucedeu em 1997.

Privatização envergonhada: a dos aeroportos

 Carlos Alberto Sardenberg – O Estadão de São Paulo


O que é pior? Não privatizar os aeroportos, e insistir na fracassada gestão estatal, ou fazer uma privatização, digamos, envergonhada? 

Lula ficou com a primeira resposta. A presidente Dilma decidiu pela privatização. Celebrou a licitação do aeroporto de São Gonçalo do Amarante, no Rio Grande do Norte, o primeiro dos grandes a ser inteiramente operado pela iniciativa privada, e mandou tocar a concessão de mais três, Viracopos, Guarulhos e Brasília. Mas nestes casos, saiu um modelo de privatização pela metade. As cláusulas restritivas à ação dos futuros concessionários criam o risco de obras mal feitas e operação cara para companhias aéreas e passageiros. 

Vamos falar francamente: se o governo tivesse dinheiro e capacidade para reformar, construir e operar os aeroportos, não seria preciso privatizá-los. Logo, ao decidir pela desestatização, o governo deveria aplicar um modelo que garantisse amplo espaço de atuação às companhias do mercado, exigindo-se delas, em contrapartida, a alocação de capital novo, competência e competição. Papel do governo: regulador e fiscalizador. 

Mas os concessionários privados de Viracopos, Cumbica e Brasília terão que carregar como sócia a Infraero, que terá entre 45% e 49% do capital das novas operadoras. Ora, a Infraero é justamente a estatal que, se tivesse funcionado direito, teria dispensado a privatização. Por que deveria entrar de carona no novo sistema? 

Para transmitir seu conhecimento e sua experiência – é uma das respostas que dão funcionários do governo envolvidos no negócio. Mas quem disse que os concessionários precisam disso? Há muitas empresas privadas por aí, multinacionais e nacionais, com ampla capacidade de construir e operar aeroportos, com as mais novas técnicas. Várias delas já manifestaram interesse no mercado brasileiro. 

E se as concessionárias julgassem essencial a experiência da Infraero, teriam como adquirir essa expertise, negociando livremente com a estatal. 

Dizem também que a Infraero precisa participar dos lucros das operações privatizadas para aplicar o dinheiro em aeroportos não rentáveis espalhados pelo país. Ora, não precisa entrar de sócia para isso. Basta o governo, o poder concedente, passar à sua companhia o dinheiro que vier a receber dos concessionários privados. 

Além disso, os concessionários vão pagar pelas concessões. E vão pagar caro, pois o Tribunal de Contas da União mandou elevar os preços. E que paulada! Para o aeroporto de Brasília, a outorga da concessão vai custar no mínimo R$ 761 milhões, 907% maior que o valor proposto pelo governo nos estudos técnicos. Para Guarulhos, o TCU elevou o valor mínimo de R$ 2,3 bilhões para R$ 3,8 bilhões, aumento de 66,3%. Para Campinas, o lance mínimo deve ir de R$ 521 milhões para R$ 1,7 bilhão, salto de 234%. 

O ministro da Secretaria de Aviação Civil, Wagner Bittencourt, que comanda todo o processo, disse que está tudo bem, o governo vai acatar os novos valores. Como tudo bem? Como pode ter dado uma diferença tão grande entre estudos técnicos? 

De todo modo, eis como fica a coisa: as concessionárias pagarão caro e ainda terão que carregar na administração uma sócia, a Infraero, que, claro, vem junto com sua estrutura, seu pessoal e seus, digamos, hábitos, de companhia estatal. No fundo é esse o objetivo do modelo: preservar toda essa estrutura estatal, mesmo com a entrada dos operadores privados. 

Difícil dar certo. Não que os leilões fracassem. Sempre aparecem companhias interessadas, mesmo em condições difíceis. Sabe como é, pode-se renegociar o contrato e, no limite, se ficar inviável, a obra vai bem devagar ou para, como acontece, por exemplo, na transposição das águas do São Francisco. 

Difícil dar certo em pelo menos três sentidos. Primeiro, pagando caro pela concessão e ainda carregando uma sócia pesada, o concessionário terá custos bem mais elevados. Isso significa serviços piores e mais caros para os usuários - as companhias aéreas e de carga e os passageiros. 

Segundo, será prejudicada a introdução de novos sistemas e tecnologias. 

Terceiro, não haverá competição entre os aeroportos. Em circunstâncias normais, os concessionários de Viracopos e Guarulhos poderiam perfeitamente competir. As companhias aéreas, por exemplo, poderiam escolher onde instalar suas principais operações, conforme as ofertas que recebessem dos aeroportos. 

Com a Infraero participando de todas as concessões, e com até 49% do capital, portanto, com poder de gestão, como haveria essa competição? 

Tem mais. Há muitas empresas no Brasil, muitas com sócios estrangeiros, preparadas para entrar com capital e tecnologia no negócio de aeroportos. Inclusive para construir e entrar na competição com os atuais. Já há projetos prontos e locais selecionados para cidades tão variadas quanto São Paulo, Porto Alegre, Foz do Iguaçu ou São José dos Campos. 

O governo não precisa fazer nada. Bastaria dizer: pode fazer. Em vez disso, sai esse modelo que mistura gestão privada e pública. Dizem que é para combinar virtudes. Vão acabar somando defeitos. 

A ameaça chinesa

Marcilio R. Machado (*) - O Estado de São Paulo

A previsão de entrada de empresas estrangeiras no mercado brasileiro em razão das expectativas favoráveis da economia do Brasil é motivo de preocupação. 

As mudanças demográficas que têm ocorrido no País com a inserção de milhões de brasileiros no mercado de consumo e a necessidade de efetuar investimentos em obras de infraestrutura para a Copa do Mundo e os Jogos Olímpicos têm atraído a atenção de investidores de todo o mundo. A crise atual, principalmente na Europa, com consequente ajuste fiscal, pode implicar uma recessão naquele continente ou, na melhor das hipóteses, um baixo crescimento econômico que pode durar alguns anos.

O cenário de recessão no Hemisfério Norte pode ocasionar um aumento da concorrência entre os países emergentes e fazer com que haja maior infiltração de produtos chineses, que têm vantagem competitiva baseada em custos baixos. Poderão as empresas brasileiras sobreviver diante da competição chinesa? 

A China é o maior parceiro comercial do Brasil e as empresas chinesas, alavancadas principalmente em vantagem de custos, expandiram a sua participação no País. Os pesquisadores Akhter e Barcelos desenvolveram um estudo com o intuito de analisar a maneira como as empresas brasileiras estão respondendo a esses desafios. 

A pesquisa indica que os executivos brasileiros têm respondido por meio de mudança na estratégia de suas organizações, enfocando uma orientação maior voltada para o cliente. De um modo geral, o desempenho da maioria das empresas foi positivo, enquanto a lucratividade foi reduzida. Isso significa riscos para as empresas, pois o lucro pode exprimir, em muitos casos, o custo de estar no negócio e a garantia de emprego no futuro. 

Houve mudanças de estratégia em diferentes áreas de marketing, tais como segmentação, posicionamento, construção de marcas e relacionamento com os clientes. Também algumas empresas buscaram consolidar a sua posição no mercado, enquanto outras tentam se expandir internacionalmente. Mas isso seria suficiente para sustentar um aumento da intensidade competitiva resultante de uma provável recessão na Europa, que é o destino principal dos produtos chineses? 

Os autores sugerem que os executivos brasileiros terão de investir em inovação de processos e produtos, pois isso lhes permitirá escapar da concorrência de um mercado onde o preço é um fator determinante de sucesso. O foco em inovação permitirá que as empresas possam subir na escala de valor agregado para competir com elementos não baseados em preços. 

Quando se trata de competição com a China, a Alemanha pode servir como um exemplo a ser imitado. Com exceção da China, a Alemanha foi o único país que conseguiu aumentar a participação de suas exportações no mercado internacional. Possuidora de indústrias com mais de cem anos de existência, os alemães investiram em inovações contínuas e modernizaram suas indústrias. Com excelentes universidades técnicas, melhoraram processos e voltaram a ocupar o topo do setor industrial. Os alemães reformaram a sua legislação trabalhista de modo que se transformasse na mais flexível do planeta. O trabalhador alemão, por exemplo, pode trabalhar de zero a 60 horas por semana, o que lhes dá uma grande vantagem. 

Embora tenha perdido a posição de maior exportador mundial para a China, a Alemanha continua apresentando resultados expressivos nas suas exportações de manufaturados. O pesquisador Hermann Simon relata que, diferentemente do que muitos imaginam, as empresas líderes de mercado mundial na Alemanha são de tamanho médio. Segundo sua estimativa existem 2.500 empresas líderes de mercado em todo o mundo, e 1.200 delas se encontram na Alemanha. Essas empresas participam de 25% do total exportado pelo país. A maioria delas é familiar e localizada em comunidades rurais. Elas competem por meio de valor superior, e não custos, e se colocam próximas do mercado para obter feedback para inovação. Simon constatou que, também na China, 68% do total das exportações é proveniente de empresas com menos de 2 mil empregados, e não de grandes corporações. 

O famoso economista Schumpeter foi o primeiro a defender que apenas por meio da inovação e do empreendedorismo pode um negócio, com exceção de um monopólio governamental, sobreviver no longo prazo. Além disso, ele foi bem claro ao enfatizar que a inovação e o empreendedorismo podem ocorrer nas grandes, médias e pequenas empresas, apesar da existência de obstáculos burocráticos. 

O seu legado também indica que quase todos os negócios um dia falham e falham por falta de inovação. São muitas as barreiras às inovações, tais como as resistências e incertezas de fazer algo que não estava sendo feito anteriormente. Entretanto, como reportou Schumpeter, inovação requer desequilíbrio contínuo liderado por empresários obcecados com aquilo que estão fazendo. Inovação seria, então, não uma proeza do intelecto, mas do desejo, da vontade, da força de uma liderança. 

Surpreendentemente, alguns setores empresariais pressionam o governo brasileiro por proteção para que não haja um aumento de sua capacidade ociosa decorrente, principalmente, da entrada de produtos estrangeiros, vindos principalmente da China. Na realidade, as pressões às quais as empresas brasileiras estão sujeitas requerem muito mais do que o retorno do protecionismo exacerbado contra a concorrência internacional. A imposição de barreiras tarifárias e não tarifárias pode ocultar algumas deficiências de algumas empresas e atrasar os investimentos em inovação necessários para que elas possam competir com igualdade de condições quando a crise atual passar. 

Diferentemente de aumentar o protecionismo, recomenda-se reduzir a burocracia brasileira de modo que, como na China e na Alemanha, as pequenas e médias empresas possam ser inseridas no esforço de exportar produtos com maior valor agregado.

(*) Membro do Conselho de Administração da Associação de Comércio Exterior do Brasil (AEB)

Comida para pensar

 Fernando Gabeira - O Estado de S.Paulo

O ano passado foi humilhante para os profetas. Quem esperava tudo aquilo? Em 2012 o estômago vem antes dos sonhos. Uma nova alta de alimentos ameaça a estabilidade de muitos pontos do globo. Os economistas afirmam que haverá uma transferência de renda para os que produzem alimentos. O Brasil está bem na foto. Mas o quadro geral não é nada animador.

Segundo a Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO), o mundo entrou numa fase perigosa. O preço dos alimentos atingiu o nível mais alto desde a crise de 2008: nesse ano era de 213 a média ponderada do preço de alguns produtos (carne, cereais, lácteos, azeites e óleos), no fim de 2011 subiu para 215. Isso no ano em que passamos a ser 7 bilhões no planeta. Cerca de 70 milhões de novas bocas surgem a cada ano. Sem nenhum alarme, é preciso encarar o problema.

Em Moçambique o preço do pão provocou uma revolta em setembro. Em todo mundo o aumento de quase 80% no trigo ao longo dos dois últimos anos foi um elemento, às vezes subavaliado, de instabilidade política.

Se olharmos a produção mundial com a perspectiva dos últimos 50 anos, custa-nos a entender como a crise chegou a esse patamar. Os alimentos foram tratados como qualquer mercadoria. O avanço tecnológico e a competição aumentaram a produtividade num ritmo animador. Os custos de alimentação caíram dramaticamente, a ponto de a produção mundial sobrepassar as necessidades calóricas per capita em 20%.

Paul Roberts, no seu livro O Fim da Comida, insinua que não foi casual o aumento da obesidade na década de 1980, quando o modelo de grandes volumes e baixo preço dos alimentos atingiu sua maturidade. Apesar do progresso, porém, ainda se atribuem à fome cerca de 36 milhões de mortes, sem contar a fadiga permanente, a atrofia física e intelectual causadas pela subnutrição.

Nesta conjuntura de alta de preços e consumo crescente na China e na Índia, é razoável duvidar do crescimento sustentável do modelo de produção de alimentos, que depende basicamente de três fatores: energia barata, estabilidade climática e água abundante. A China volta-se para o mercado de alimentos não apenas porque tem muita gente, mas também pela redução de recursos hídricos em algumas províncias, onde houve superbombeamento para garantir a safra de cereais.

Tais fatores estratégicos ainda passam ao largo porque a conjuntura configurou o que os especialistas chamam "perfeita tormenta": vários fatores combinados puxaram as expectativas para baixo. Na Rússia houve a maior seca dos últimos 50 anos. Nos EUA, Austrália e Canadá registram-se grandes inundações. Alguns alimentos, como o milho, estão sendo usados na produção do etanol. E por último, mas com grande peso, houve o aumento do petróleo, embora menor que em 2008.

Cientistas e técnicos de grandes empresas, como Monsanto e Dow, acreditam poder resolver os grandes problemas da comida via conhecimento e inovação. Ainda que isso ocorra, a ausência de água abundante, energia barata e estabilidade climática transforma o quadro em que se movem. A elevação da temperatura e as mudanças no regime de chuvas tendem, mesmo em estimativas conservadoras, a frear o crescimento da produção mundial de alimentos. Como atenuante, áreas liberadas do gelo perene passam a ser mais produtivas em regiões frias. O aumento do petróleo revela a cada instante como é um dos insumos mais importantes na produção de alimentos, hoje - tratores, transporte da mercadoria, insumos para fertilizantes e pesticidas, o óleo é usado em todas as frentes.

Analistas como Paul Roberts reconhecem que novos eixos de poder alimentar se estruturam no mundo, principalmente o que associa um grande comprador como a China a um grande produtor que é o Brasil. Mas ele questiona a sustentabilidade a longo prazo: os produtores podem, ao longo do processo, esgotar também parte dos seus recursos hídricos.

No momento, o Brasil vive uma importante experiência externa no campo alimentar: depois de mandar seus soldados ao Haiti e contribuir para a pacificação do país, está sendo chamado a ajudá-lo a produzir sua própria comida. Atendendo a apelo da FAO, que pretende deslocar, pós-terremoto, 600 mil haitianos para o interior, o País enviou US$ 2 milhões, alguma toneladas de sementes e técnicos da Embrapa, além de ministrar cursos para os haitianos plantarem com êxito. Desse êxito, o próprio The New York Times reconheceu, depende o futuro próximo do Haiti: na capacidade de produzir parte de seu alimento reside uma das saídas para seu problema econômico e social.

Dia 1.º um brasileiro, José Graziano, assumiu a direção da FAO, prometendo, como não podia deixar de ser, buscar soluções para as dificuldades alimentares globais. Mas a FAO precisa de financiamento e os grandes doadores, como os EUA, estão se retraindo, em parte porque houve muitos casos de mau uso do dinheiro.

O Itamaraty, na preparação da Rio+20, formulou a seguinte pergunta: que novos instrumentos podem ser propostos para que o planeta avance no desenvolvimento sustentável? A renovação de um instrumento já existente, como a FAO, pode ser uma resposta. O Brasil ocupa a direção, é um dos maiores produtores do mundo, sediará uma conferência internacional e tem como objetivo n.º 1 de governo reduzir a miséria. Equacionar a produção de alimentos com a preservação ambiental e erradicação da miséria poderia ser um dos pratos de resistência no debate planetário de 2012.

Inegavelmente, o mercado propiciou um grande salto na produção, mas sozinho não resolve o problema. Quanto mais valor se agrega à comida, mais distante ela fica de mercados como Bangladesh ou Etiópia. Se os ganhos com a alta de alimentos transferem renda para os grandes produtores, eles podem ricochetear nos consumidores internos ou mesmo derrubar governos que não podem mais pagar os subsídios.

Sem arriscar profecias: a alta dos alimentos, tão presente em 2011, é do tipo que não festeja o réveillon, pois se move num tempo mais elástico do que a simples virada do ano.