quarta-feira, outubro 31, 2012

Isso não se faz, Arnesto


Celso Ming 
O Estado de S.Paulo

Em vez de forçar os números para mostrar o cumprimento das metas das contas públicas, o governo Dilma podia ter atendido à sugestão do Samba do Arnesto e "ter ponhado um recado na porta" para dar alguma satisfação à sociedade. "Ansim: sinto muito, não deu pra esperá..." etc., e tal.

Ao longo de todo o ano, prometeu que a meta cheia do superávit primário de 3,1% do PIB seria religiosamente observada e, a cada Ata do Copom, o Banco Central assinou em cruz.

O superávit primário (sobra de arrecadação para pagamento da dívida) é um dos pilares da política econômica e um dos principais fatores cuja observância (relativa) permitiu a queda dos juros básicos (Selic).

Qualquer um compreenderia que, em plena crise global - a mais séria desde os anos 30 -, num ano eleitoral e de baixa atividade econômica (crescimento do PIB de 1,5%) e, portanto, de arrecadação mais baixa, certas metas não tinham mesmo como ser cumpridas à risca. Além disso, para estimular o consumo, o governo elevou as renúncias tributárias, o que também derrubou a arrecadação. Afinal, contados acertos e erros, o governo não está conseguindo entregar o prometido.

No entanto, em vez de assumir, em caráter excepcional, essa quebra de compromisso, o secretário do Tesouro, Arno Augustin, prefere manter as aparências. Opta insistir em que tudo será como combinado, mesmo que tenha de sujeitar as estatísticas a contorcionismos de certa atrocidade.

O governo tem forçado estatais, especialmente o BNDES e a Caixa Econômica Federal, a adiantar a distribuição de dividendos para o Tesouro, compensada, em boa parte, com transferências de títulos públicos. E, como já aconteceu, empenhos de verbas normalmente entendidos como despesa passaram a ser considerados "investimento público".

Outras metas da política econômica do governo Dilma foram várias vezes revistas neste ano. Entre elas, a dos juros básicos, que começou sendo de um dígito (abaixo de 10% ao ano) e acabou aprofundada para 7,25%. O crescimento econômico (avanço do PIB) principiou o ano em 4,5%, mas, depois, foi sucessivamente ajustado para baixo. Deve terminar à altura do minguado 1,5%. Também a convergência da inflação para o centro da meta de 4,5% no ano-calendário foi deixada para trás. O Banco Central passou a ser bem mais tolerante com ela e deixou-a para mais adiante, "de forma não linear". Não dá para entender por que as autoridades da área fiscal continuam teimando com o superávit primário de 3,1% do PIB quando ficaram, digamos, incapacitadas de perfazê-lo.

O resultado é o que foi divulgado ontem pelo Banco Central: até setembro, o governo realizou menos de 60% da meta já revisada, de R$ 97 bilhões.

O maior prejuízo desse comportamento é a perda da capacidade do governo de mobilizar os agentes econômicos nos planos de crescimento. Quando, por exemplo, a presidente Dilma voltar a reunir a nata do empresariado e lhes pedir a liberação do espírito animal e a puxar pelos investimentos, eles vão argumentar que não dá para acentuar a dedicação quando o governo não só deixa de entregar o que promete, como também não reconhece que as coisas não estão saindo como o planejado. Ou seja, "na outra vez nóis num vai mais".

Capitalismo sem doping


O Globo

Acho injusto culpar somente os empresários que mamam nas tetas estatais. A culpa maior é do nosso modelo, com poder demais concentrado no estado

Lance Armstrong foi banido do esporte pela União Ciclística Internacional por acusação de doping. Ele perdeu seus sete títulos da Volta da França, assim como oito patrocínios nos últimos meses. Antes um exemplo para muitos, o atleta agora se vê em desonra. O público não tolera uma competição desleal nos esportes.

Infelizmente, o mesmo não ocorre quando se trata de economia. Muita gente acha natural que o governo crie privilégios e incentivos, beneficiando certos empresários. O governo Dilma parece ter adotado com gosto o manual nacional-desenvolvimentista de seleção dos campeões nacionais, como na era Geisel.

Algumas empresas agraciadas por critérios arbitrários recebem incentivos que destroem a essência do capitalismo, que é a livre concorrência. Barreiras protecionistas, cotas nacionais, empréstimos do BNDES com juros subsidiados, ligações espúrias com as estatais, enfim, há diversas formas de se manipular o mercado, análogas ao uso de doping nos esportes. Mas poucos reclamam.

O bilionário Eike Batista fala abertamente deste "capitalismo de compadres" como se fosse algo positivo. Em entrevista recente, o empresário disse que o governo deveria investir mais em suas empresas. Seu grupo EBX já recebeu mais de R$ 8 bilhões do BNDES em quatro anos. São taxas camaradas, que toda a torcida do Flamengo gostaria de ter acesso.

Em uma espécie de surto megalomaníaco ao estilo Lula, Eike Batista chegou a afirmar: "Alguém vai ter que fazer uma estátua para mim em algum lugar". Não quero ser injusto aqui: Eike tem lá seus méritos. É corajoso em suas empreitadas, não tem vergonha de sua riqueza, algo importante em um país que considera o sucesso uma "ofensa pessoal". Mas sua simbiose com o governo não permite que ele seja visto como um ícone do capitalismo. Ao menos não do modelo liberal.

Eike Batista representa o capitalismo de estado, assim como seu colega da lista de bilionários da Forbes, Carlos Slim. São casos de inegável sucesso, mas com forte turbinada estatal. Típico da América Latina, cuja presença do estado na economia ainda é muito grande, criando incentivos perversos onde o lobby vale mais do que o mérito e o investimento em competitividade.

Outro caso escandaloso é o da JBS, que já recebeu mais de R$ 10 bilhões do BNDES, agora sócio da empresa. Em 2005, ela faturava menos de R$ 4 bilhões por ano. Em 2010, o faturamento já passava dos R$ 55 bilhões. A "Boibras" se tornou um gigante graças ao empurrão do governo. Em contrapartida, ela foi um dos maiores doadores corporativos para a campanha de reeleição de Lula em 2006.

Esses grandes empresários latino-americanos não podem ser comparados a gente como Steve Jobs (Apple), Michael Dell (Dell), Larry Ellison (Oracle), Jeff Bezos (Amazon), Bill Gates (Microsoft), Larry Page (Google) e Mark Zuckerberg (Facebook). Estes empreendedores não contaram com o doping estatal. Não por acaso, são todos do setor de tecnologia, onde há menos intervencionismo. Seu sucesso foi decorrente apenas de trocas voluntárias com seus clientes.

Claro que o sistema faz toda diferença do mundo. Em um país como o Brasil, onde uma canetada da presidente pode selar o destino de um setor inteiro, qualquer empresário grande precisa manter boas relações com o governo. Além disso, se existe o BNDES, claro que todos vão fazer de tudo para entrar na lista de beneficiados. Faz parte do jogo. O que está errado são as regras do jogo por aqui.

Por isso acho injusto culpar somente os empresários que mamam nas tetas estatais. A culpa maior é do nosso modelo, com poder demais concentrado no estado. Se, por um lado, é preocupante ver Eike Batista transformado em ícone do capitalismo, também é exagerado demonizá-lo (ainda que ele mereça duras críticas). Não é fácil ser um grande empreendedor no Brasil sem as muletas estatais. Eles existem, e são verdadeiros heróis. Mas trata-se de algo raro.

O que precisamos, portanto, é alterar as regras do jogo. Precisamos de bem menos governo, e bem mais mercado livre. Acima de tudo, como defende Luigi Zingales em seu excelente livro "A Capitalism for the People", nós precisamos criar um ambiente de pressão social contra privilégios estatais. É preciso recuperar os valores éticos que rejeitam a ideia de que o importante é vencer, custe o que custar.

Um atleta pego com doping cai em desgraça. Um empresário que depende das vantagens do estado deve ser visto como um concorrente desleal, não um exemplo a ser seguido. Precisamos de regras iguais para todos. Precisamos de um capitalismo sem doping.

Dilma no meio do caminho


Rolf Kuntz  
O Estado de S.Paulo

A presidente Dilma Rousseff completará dois anos de mandato com a economia em marcha lenta, inflação acima da meta, contas públicas em pior estado, exportações fracas, investimentos federais emperrados e infraestrutura em deterioração. Nenhuma explicação oficial basta para disfarçar a frequência dos apagões nem o fracasso na execução de investimentos no setor elétrico (no primeiro semestre, a Eletrobrás só aplicou 20,8% do total previsto para o ano). A gestão federal continua ineficiente, mesmo depois da faxina em vários ministérios, porque o loteamento foi mantido. A presidente exacerbou o voluntarismo, pressionando a política de juros, e manteve o uso das estatais para a execução de políticas estranhas a objetivos empresariais. Um reajuste de 15% para os preços dos combustíveis era um dos pressupostos do plano de negócios da Petrobrás apresentado em junho, lembrou o diretor financeiro da companhia, Almir Barbassa. Os reajustes foram menores, apesar da necessidade de caixa. Prevaleceu a ideia de frear a inflação por meio da contenção de alguns preços. Mas o governo insistiu na redução dos juros básicos e aceitou a manutenção, por mais alguns anos, da meta de inflação de 4,5%, muito alta pelos padrões internacionais. Talvez nem esse nível seja alcançado nos próximos dois anos. Ao mesmo tempo, a administração agrava a promiscuidade entre as políticas fiscal e de crédito, endividando o Tesouro para reforçar a caixa dos bancos federais. Cada lance desse tipo confunde objetivos, agrava problemas fundamentais, dificulta as ações corretivas e reduz o espaço da política econômica.

Na falta de resultados concretos, sobra a retórica. É esse o recurso do pessoal da Fazenda, por exemplo, para tornar menos feia a apresentação das contas públicas. Segundo o secretário do Tesouro, Arno Augustín, o governo resolveu dar prioridade ao crescimento. A arrecadação decepcionante é explicável em parte pelo baixo dinamismo econômico - especialmente da produção industrial - e em parte pelos estímulos concedidos a alguns setores e prorrogados até o fim do ano. A justificativa pode parecer boa, à primeira vista, mas a impressão favorável dura pouco.

A expansão da economia será um fiasco pelo segundo ano consecutivo. As projeções, incluída a do Banco Central, estão na vizinhança de 1,6%, resultado miserável, depois dos 2,7% de 2011. Não dá para explicar esse quadro só como consequência da crise global. Outras economias emergentes, incluídas algumas da América Latina, como a colombiana, a peruana e a chilena, estão bem mais vigorosas que a brasileira.

Mas vale a pena discutir a própria política de estímulos. Há algo errado nas manobras do governo para impulsionar a atividade econômica. O Executivo tem apresentado três linhas de ação na área fiscal - expansão dos investimentos do setor público, incentivos ao setor privado e aumento de recursos para os bancos federais.

A política de incentivos tem sido prejudicada por um engano evidente na escolha do alvo. Desde o ano passado o governo tem estimulado o consumo, por meio de corte de impostos e de aumento do crédito, mas a resposta da maior parte da indústria de transformação tem sido decepcionante. Projeções indicam uma contração do produto industrial neste ano e uma recuperação moderada em 2013, embora os consumidores tenham continuado a ir às compras. Parte do estímulo, como já foi mostrado com números do próprio governo, resultou apenas em mais importações. Há um inegável erro de enfoque, porque só alguns segmentos da indústria foram alcançados pelos estímulos.

A política de investimentos é quase sempre um poderoso estimulante, em épocas de crise, mas, o governo precisaria de muito mais competência para usar esse recurso de forma produtiva. De janeiro a setembro, segundo os dados oficiais, o Tesouro investiu R$ 45,2 bilhões, 23,3% mais que nos meses correspondentes de 2011. Esse total inclui os R$ 24,3 bilhões investidos no Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), valor 35,1% maior que o de um ano antes.

Mas boa parte desses desembolsos, como sempre, foi de restos a pagar. A administração federal continua incapaz de aplicar as verbas orçamentárias do ano. O governo tem sido, na administração direta e na indireta, um investidor inepto. Até outubro, 310 ações do PAC estavam paralisadas, segundo levantamento da organização Contas Abertas. A União e as estatais deveriam tocar neste ano 651 ações, no valor de R$ 116 bilhões. Desembolsos do Executivo, do Legislativo e do Judiciário até setembro e das estatais até agosto somaram, no entanto, apenas R$ 63,3 bilhões. Sobra voluntarismo, falta competência e os erros da atual gestão acrescentam-se aos do governo anterior. Os apertos da Petrobrás, forçada a se livrar de ativos no valor de US$ 14,8 bilhões, simbolizam claramente esse acúmulo de erros.

Seja trouxa, brigue por seus ídolos


Carlos Brickmann
Brickmann & Associados Comunicação

O ministro Ricardo Lewandowski, do Supremo Tribunal Federal, foi insultado ao se apresentar para votar. Quem o ofendeu não deve ter gostado de seus votos no caso do Mensalão. E em que se baseava o ofensor para ter tanto ódio dele? Não leu o processo, se lesse nada entenderia - mas queria os réus na prisão.

Um advogado, membro da Comissão de Ética do PT paulista e integrante de um grupo de 40 militantes nervosos que acompanhavam o voto de José Genoíno, um dos condenados do Mensalão, agrediu um repórter da Rede Bandeirantes. E, recordemos, faz parte da Comissão de Ética do partido. Talvez estivesse irritado com a atenção despertada por Genoíno; mas há excelentes calmantes na praça, que um bom psiquiatra pode receitar conforme o caso, e com a vantagem de amainar o ódio pela derrota de seu colega de partido na Justiça.

Em Vitória, um grupo que agia como tropa de choque do candidato Neucimar Fraga (PR - derrotado) agrediu um cinegrafista da Rede Gazeta, depois de insultá-lo e a outros profissionais de imprensa que acompanhavam a votação. O jornalista, agredido pela turba ensandecida até que desmaiasse, teve de ser internado, permanece em observação hospitalar e sob proteção. As ameaças à sua vida continuam, e a Rede Gazeta de Televisão mantém seu nome em sigilo.

Que bando de otários! Políticos se fingem de bravos mas se entendem. Se Lewandowski não fosse tolerante, quem o ofendeu estaria preso. A turma da agressão só está solta porque a lei não é cumprida. Mas cadeia é o lugar deles.

Recordando
Quem acha que vale a pena brigar por divergências políticas deveria saber que Marta Suplicy chamou Maluf de nefando. Maluf se recusou a sentar-se em frente a Marta, numa recepção a um dignitário estrangeiro, referindo-se pesadamente a ela. Depois, apoiou-a. José Genoíno, na Praça Marechal Deodoro, SP, gritava "uh, uh, uh, Maluf no Carandiru" e hoje está ao lado dele. Não no Carandiru, o famoso presídio que nem existe demais. Mas na mesma aliança. 

Só há uma diferença: Maluf corre risco de prisão se sair do Brasil, Genoíno se ficar.

A frase
A evolução do PT, segundo Twitter do jornalista Marcelo Tas:"Abaixo a ditadura! / Diretas já! / Lula lá! / Não existe mensalão / É só caixa 2! / Tucano também rouba! / Abaixo o STF!"

O crime organizado... 
É fantástico: tanto o governador paulista Geraldo Alckmin, do PSDB, quanto seu secretário da Segurança, Antônio Ferreira Pinto, dizem que a curva da violência está caindo. Negam ambos, também, o poder do crime organizado. Qual dos dois explicará à família dos policiais assassinados que a curva da violência está caindo? O que caem são corpos varados de balas, sr. governador, sr. secretário. E, se o crime organizado não existe, quem ordena o assassínio de policiais?

Para quem só anda com escolta, realmente a violência é coisa distante.

...e a Polícia organizadíssima
Nesta semana, na madrugada do dia 30, a delegacia de Polícia de Monteiro Lobato, no Vale do Paraíba, SP, a 30 km de São José dos Campos, sede da Embraer, foi assaltada. Não sobrou nada lá dentro. Nem as armas ali guardadas, nem os documentos de registro de veículos: tudo foi levado. Como dizem as autoridades tucanas, a Polícia é organizadíssima: a delegacia do município de Monteiro Lobato funciona rigorosamente em horário comercial e fica vazia, desguarnecida, em outros horários (não há nem testemunha do roubo). 

Já o crime é desorganizadíssimo: onde já se viu criminoso ter de trabalhar fora do horário comercial?

Gasta que é nosso
Não é preciso circular pelos suntuosos edifícios do Congresso, pisar em seus excelentes carpetes, conversar com os milhares de assessores que por ali pululam, indignar-se com tamanha variedade de vantagens e mordomias: agora, basta conferir o estudo da organização Transparência Brasil que mostra que os parlamentares brasileiros são os mais caros do mundo. Um parlamentar italiano custa anualmente R$ 3,9 milhões; um francês, R$ 2,8 milhões.

Já o brasileiro custa aos nossos bolsos R$ 10,2 milhões por ano. E são 594, entre deputados e senadores.

Esvazie os bolsos
A sangria não para por aí. Cada deputado distrital brasiliense custa, por ano, R$ 10 milhões. As Assembleias estaduais são caras? As Câmaras de Vereadores também: no Rio e em São Paulo, cada vereador custa R$ 5 milhões por ano.

Reality forte
Prepare seu coração: Nádia Lapa lança nesta segunda, dia 5, seu livro Cem homens em um ano. Nádia se propôs (e atingiu seus objetivos) "transar com cem homens em um ano para contar, em seguida, como haviam sido os encontros". O material foi publicado primeiro, em capítulos, no blog http://cemhomens.com/,que assinava com o pseudônimo Letícia Fernandez. 

Local e data: Livraria da Vila, al. Lorena, 1731 - 5 de novembro, às 19h30. Depois dos autógrafos, haverá debate sobre liberdade sexual com a autora, a escritora Clara Averbuck e a produtora de filmes Mayara Medeiros, da Xplastic. 

carlos@brickmann.com.br 
www.brickmann.com.br

A inflação artificialmente contida voltará em 2013


O Estado de S.Paulo

O governo brasileiro, inspirando-se no da Argentina, está para reduzir os dados sobre a inflação recorrendo a medidas condenáveis. Porém de uma maneira mais hábil: ou deixa de reajustar os preços administrados ou recorre à redução de impostos de alguns setores que tenham peso importante no cálculo dos índices.

O mais pernicioso é certamente o caso da gasolina, que, com a alta dos preços do petróleo no exterior, sofreu elevação considerável de custo, que o governo se recusa a transferir para os consumidores, obrigando a Petrobrás a assumir a perda. A consequência é a redução dos investimentos de uma empresa que ocupa, na economia brasileira, importância estratégica considerável. O País, diante das reservas descobertas, deveria cobrir as suas necessidades e tornar-se um grande exportador, contribuindo, assim, para a redução do déficit das transações correntes do balanço de pagamentos. Com a pressão feita pela presidente da estatal, não há dúvida de que o reajuste do preço da gasolina terá de vir. Mas, ao atrasá-lo, o que o governo procura é evitar que a taxa de inflação do ano supere a meta.

Na última prorrogação da redução do Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI), agora até o fim do ano, não se deu muito destaque à explicação do ministro da Fazenda. Ao apresentar uma medida essencialmente destinada a estimular alguns setores, ele disse que ela visava mesmo a conter as pressões inflacionárias no final do ano, dando a impressão de que a política tributária estaria se tornando um instrumento de controle da inflação.

Os dois fatos não devem criar uma ilusão. São expedientes que não poderão se manter por muito tempo e que não enganam o público. A gasolina terá de ter seu preço reajustado e o alívio tributário terá de ser revisto. Neste último caso, para um efeito real sobre a inflação, seria necessário que o alívio fosse aplicado a todos os setores.

O governo tem de saber que esse tipo de alívio produz efeito momentâneo sobre os índices de preços, mas exerce uma influência que leva em conta que, mais cedo ou mais tarde, os preços terão de sofrer uma alta. Ou seja, os agentes econômicos começam a se preparar e a fazer provisões para uma alta futura.

O Banco Central já reconheceu que a inflação em 2013 será maior do que neste ano. Existe um carry over que afetará todo o sistema. Em suma, o controle artificial de hoje prepara a inflação de amanhã. Seria muito melhor praticar os preços verdadeiros hoje do que deixar o reajuste para o ano que vem.

De volta às trevas orçamentárias


Mailson Ferreira Da Nóbrega

Os governos do PT passaram a suprir o BNDES de recursos via medidas provisórias que ampliam a dívida pública, como no passado

Os governos do PT ressuscitaram danosas práticas orçamentárias que haviam sido sepultadas na segunda metade dos anos 1980. Por elas, o ministro da Fazenda tinha o poder de aprovar despesas públicas sem prévia autorização legislativa, à moda medieval. Isso acontecia através de um orçamento monetário pelo qual eram transferidos recursos do Tesouro ao Banco do Brasil e ao Banco Central. Tais recursos provinham da venda de títulos públicos federais a taxas de juros de mercado. Nada se cobrava das duas instituições, que por isso podiam conceder empréstimos a taxas inferiores às do mercado e ainda assim auferir lucros. Qual a mágica?

Na verdade, esse esquisito arranjo institucional gerava uma despesa pública oculta, a qual, grosso modo, decorria da diferença entre as duas taxas de juros, a dos títulos federais e a dos empréstimos. O gasto implícito nessas operações era coberto por novas emissões de títulos do Tesouro, numa espécie de rosca sem fim. Tratava-se, pois, de um orçamento paralelo, que permitia a expansão indefinida da despesa e da dívida, sem o conhecimento do Congresso e da sociedade. Acontece que esse processo subterrâneo manifestava seus efeitos na elevação do endividamento federal, na má alocação dos recursos e nas pressões inflacionárias.

Sob distintas formas, esse arranjo funcionou desde os tempos do Brasil colônia. Suas origens remontam ao absolutísmo português, que sobreviveu por muito tempo à onda de reformas iniciadas na Europa no século XVII, as quais puseram fim ao arbítrio em questões orçamentárias. O poder de dispor sobre a despesa pública foi transferido ao Parlamento, um passo fundamental na longa caminhada rumo à moderna democracia. O rei não podia mais gastar a seu talante nem declarar guerra — que exige o aumento de gastos — sem prévia autorização legislativa. Mais tarde, o orçamento viria a ser o mecanismo básico de planejamento das ações do estado e da promoção do desenvolvimento econômico e social.

Por força talvez das tradições herdadas da metrópole, o valor econômico, social e político do orçamento não se enraizou na sociedade brasileira. É amplamente aceita a ideia equivocada de que o orçamento é autorizativo. Salvo as despesas obrigatórias, admite-se que o Executivo pode não cumprir partes da lei orçamentária. Neste momento de crise, a Europa é exemplo a ser observado: os cortes de despesas associados a programas de austeridade fiscal foram previamente aprovados pelos parlamentos, inclusive o de Portugal.

A partir de 1986, o Brasil começou a adotar saudáveis princípios orçamentários. Extinguiu-se o orçamento monetário, o que pôs fim ao suprimento automático de recursos do Tesouro ao Banco do Brasil e ao Banco Central. Criou-se a Secretaria do Tesouro Nacional, que assumiu a gestão da dívida e do orçamento federais. A Lei de Responsabilidade Fiscal (2000) fixou regras para o controle da despesa e do endividamento da União. Subsídios e subvenções, explícitos ou implícitos, deveriam constar do orçamento aprovado pelo Congresso. Esse ciclo modernizante ainda precisa ser complementado com a reforma do antiquado processo de elaboração e controle do orçamento (Lei n° 4320, de 1964), o que está em discussão no Senado.

Os governos do PT deram marcha a ré nessa trajetória. Passaram a suprir o BNDES de recursos via medidas provisórias que ampliam a dívida pública, como no passado. Têm contado, para tanto, com a omissão do Congresso, que renuncia às prerrogativas no processo orçamentário e chancela essa conduta. Como nos tempos antigos, o Tesouro transfere os recursos a taxas de juros inferiores às que paga aos detentores dos respectivos títulos. Recentemente, a manobra foi estendida ao Banco do Brasil e à Caixa Econômica Federal. Tal qual nas trevas do passado, o processo ressuscitado gera duas disfunções: (1) burocratas realizam gastos sem autorização legislativa; e (2) os subsídios implícitos nessas transações não constam do orçamento. Sem o registro dos respectivos gastos e sem transparência, dribla-se a fiscalização do Tribunal de Contas da União (TCU). Essa involução institucional precisa ser contida. Com a palavra, o Congresso e o TCU.

Jornalismo, âncora da democracia


Carlos Alberto Di Franco
O Estado de São Paulo

As virtudes e as fraquezas dos jornais não são recatadas. Registram-nas fielmente os sensíveis radares dos leitores. Precisamos, por isso, derrubar inúmeros desvios que conspiram contra a qualidade dos jornais.

Um deles, talvez o mais resistente, é o dogma da objetividade absoluta. Transmite, num pomposo tom de verdade, a falsa certeza da neutralidade jornalística. Só que essa separação radical entre fatos e interpretações simplesmente não existe. É uma bobagem.

Jornalismo não é ciência exata e jornalistas não são autômatos. Além disso, não se faz bom jornalismo sem emoção. A frieza não é humana e, portanto, é antijornalística. A neutralidade é uma mentira, mas a isenção é uma meta a ser perseguida. Todos os dias. A imprensa honesta e desengajada tem um compromisso com a verdade. E é isso que conta.

Mas a busca da isenção enfrenta a sabotagem da manipulação deliberada, a falta de rigor e o excesso de declarações entre aspas.

O jornalista engajado é sempre um mau repórter. Militância e jornalismo não combinam. Trata-se de uma mescla talvez compreensível e legítima nos anos sombrios da ditadura, mas que, agora, tem a marca do atraso e o vestígio do sectarismo.

O militante não sabe que o importante é saber escutar. Esquece, ofuscado pela arrogância ideológica ou pela névoa do partidarismo, que as respostas são sempre mais importantes que as perguntas. A grande surpresa no jornalismo é descobrir que quase nunca uma história corresponde àquilo que imaginávamos.

O bom repórter é um curioso essencial, um profissional que é pago para se surpreender. Pode haver algo mais fascinante? O jornalista ético esquadrinha a realidade, o profissional preconceituoso constrói a história.

Todos os manuais de redação consagram a necessidade de ouvir os dois lados de um mesmo assunto. Trata-se de um esforço de isenção mínimo e incontornável. Mas alguns desvios transformam um princípio irretocável num jogo de cena.

Matérias previamente decididas em guetos engajados buscam a cumplicidade da imparcialidade aparente. A decisão de ouvir o outro lado não é sincera, não se fundamenta na busca da verdade. É uma estratégia. O assalto à verdade culmina com uma tática exemplar: a repercussão seletiva. O pluralismo de fachada convoca, então, pretensos especialistas para declararem o que o repórter quer ouvir. Personalidades entrevistadas avalizam a "seriedade" da reportagem. Mata-se o jornalismo. Cria-se a ideologia.

É necessário cobrir os fatos com uma perspectiva mais profunda. Convém fugir das armadilhas do politicamente correto e do contrabando opinativo semeado pelos profetas das ideologias.

A precipitação e a falta de rigor são outros vírus que ameaçam a qualidade da informação. A manchete de impacto, oposta ao fato ou fora do contexto da matéria, transmite ao leitor a sensação de uma fraude.

Mesmo assim, os jornais têm prestado um magnífico serviço no combate à corrupção e na construção da democracia. Alguém imagina que o saldo extraordinário do julgamento do mensalão teria sido possível sem uma imprensa independente? Os réus do mensalão podem fazer absurdas declarações de inocência, desmentidas por um conjunto sólido de provas. Podem até mesmo manifestar desprezo pelas instituições da República. Para o ex-presidente Lula, por exemplo, o povo não está interessado no mensalão, mas no desempenho do Palmeiras. A declaração, lamentável, pode até corresponder ao atual estágio da consciência política de grandes parcelas da sociedade. Mas o julgamento do mensalão, ao contrário do que pensa Lula, vai mudar muita coisa. Vai, sobretudo, dar um basta ao pragmatismo aético que tanto mal tem feito ao Brasil.

O mensalão, que Lula pateticamente insiste em dizer que não existiu, não foi uma invenção da imprensa. Foi o resultado acabado de uma trama criminosa articulada no seu governo. A imprensa apenas cumpriu o seu papel de denúncia e de cobrança. É sempre assim. Foi assim com Fernando Collor. E será assim no futuro. Jornais de credibilidade oxigenam a democracia. As tentativas de controle da mídia, abertas ou disfarçadas, são sempre uma tentativa de asfixiar a liberdade.

A democracia reclama um jornalismo vigoroso e rigoroso. Recentemente, Arthur Sulzberger Jr., chairman e publisher do jornal The New York Times, em entrevista a O Estado de S. Paulo, sublinhou a importância de uma marca de credibilidade, independentemente da plataforma informativa: "A tradição é a maior qualidade do nosso jornalismo. É a maneira como as coisas são vistas, é a precisão de investigar, são os core values com que trabalhamos. Queremos continuar fazendo algo em que se pode confiar. Mudar para o mundo digital significa apenas contar com novas ferramentas para fazer exatamente o mesmo. A experiência diária do jornalismo não muda, é essencialmente única".

É isso aí. Num momento de crise no modelo de negócio, evidente e desafiante, o que não podemos é perder o norte. E o foco é claro: produzir conteúdo de alta qualidade técnica e ética. Só isso atrairá consumidores, no papel, no tablet, no celular, em qualquer plataforma. E só isso garantirá a permanência da democracia. Por isso governos autoritários, apoiados em currais eleitorais comprados ao preço da cruel perenização da ignorância e, consequentemente, da falta de senso crítico, investem contra a imprensa de qualidade e contra os formadores de opinião que não admitem barganha com a verdade.

O jornalismo tropeça em armadilhas. Nossa profissão enfrenta desafios, dificuldades e riscos sem fim. E é aí que mora o desafio.

O novo-velho


Merval Pereira
O Globo

A figura que melhor representa o atual estágio de nossa política partidária, até porque, mesmo responsável direto pela maior derrota de seu aliado PSDB, pode se considerar “vitorioso” nesta eleição, é o prefeito Gilberto Kassab.

As características mais enraizadas, a esperteza mais óbvia, todas as ambiguidades de nossa política que afugentam o eleitor das urnas em nível nunca antes registrado estão reunidas em Kassab e em seu novo-velho PSD, partido que não é “nem de centro nem de direita nem de esquerda”.

Para se ter uma ideia de como o prefeito paulistano é capaz de uma política pragmática, basta ver que ele é um dos principais articuladores no Congresso da aprovação de uma lei que impede novos partidos que venham a ser criados de ter tempo de TV e fundo partidário.

A ideia é desestimular a criação de novos partidos, e Kassab está realmente preocupado com a possibilidade de novas legendas pipocarem no cenário político.

Mas ele não foi o criador de um dos mais recentes partidos? Claro, mas agora, após ter ameaçado disputar até no STF o direito a tempo de propaganda eleitoral e dinheiro, ele quer fechar a torneira. E tem razão.

Ao todo são 30 partidos legalmente reconhecidos pelo Tribunal Superior Eleitoral. Depois do PSD, foram criados mais dois: Partido Pátria Livre (que já tem até um senador) e Partido Ecológico Nacional. Na fila do TSE há vários outros: Partido dos Servidores Públicos e dos Trabalhadores da Iniciativa Privada do Brasil (PSPTP); Aliança Renovadora Nacional (Arena); Partido Nacionalista Democrático (PND); União Democrática Nacional (UDN); Partido Pirata do Brasil (Piratas); e Partido Federalista.

Com taxa de rejeição altíssima, mesmo assim Kassab foi assediado por petistas e tucanos, na suposição de que a máquina municipal teria serventia em uma disputa que se mostrava difícil.

Lula farejou com precisão em São Paulo para onde o vento soprava e obteve sua grande vitória pessoal, coisa que não ocorreu no resto do país, onde sofreu derrotas pessoais importantes em Recife, Fortaleza, Salvador, Porto Alegre, Manaus, Campinas, Belo Horizonte.

Em São Paulo, porém, Lula acertou a mão na escolha de um candidato que vestiu o PT com roupagem nova, longe do mensalão, embora tenha arriscado muito com o apoio de Maluf e pudesse ter levado para seu candidato toda a rejeição do prefeito caso o PSDB não tivesse convencido Serra a se candidatar.

A “lealdade” a quem o levou ao poder fez Kassab abandonar o namoro com o PT. Mas a “lealdade” era apenas local, e o PSD passou a fazer acordos políticos com os petistas e o Planalto em diversas disputas municipais, como em Belo Horizonte, a pedido da presidente Dilma, ou no interior paulista.

Na eleição para prefeito de São Carlos, o PSD de Kassab apoiou Osvaldo Barba, do PT, que não conseguiu a reeleição. Mas o PT registrou a boa-vontade. Em Ribeirão Preto, foi a vez de o PT apoiar a reeleição de Dárcy Vera, do PSD.

Na capital mineira, teve que fazer uma intervenção no diretório local do PSD, que pendia para um acordo com o prefeito Marcio Lacerda, do PSB.

A situação ambígua desse apoio de Kassab a Serra a nível local e ao Planalto a nível nacional provocou situações estranhas, como estar no palanque do derrotado e já aparecer como uma das forças de apoio a Haddad mesmo antes que as urnas decretassem a derrota de seu “padrinho”.

Foi o alvo preferencial das críticas da campanha petista e passa a ser aliado importante na grande aliança governista.

Com a força que sua legenda ganhou — além de ser hoje a quarta maior bancada no Congresso, o PSD emplacou 494 prefeitos —, Kassab tornou-se figura importante no jogo político de Brasília, para onde se muda ao fim de seu mandato para articular seu papel na disputa presidencial de 2014. Um ministério aguarda o PSD.

Nesse caso terá outro problema de “lealdade” para gerir caso o governador Eduardo Campos resolva mesmo sair do campo governista para ser candidato à sucessão de Dilma. Como se sabe, o PSD de Kassab foi uma construção conjunta com o PSB de Campos, e os dois partidos chegaram a pensar em uma fusão logo no início.

Mas esse é doce problema que será resolvido a seu tempo, mesmo porque nada indica que Campos, também dentro do espírito pragmático que norteia nossa política, vá decidir logo que rumo tomará. Até 2014 há muito tempo para negociar.

A dança do tripé


José Paulo Kupfer 
O Estado de S.Paulo

O "talk of the town" do momento, na economia brasileira, é o abandono ou não do tripé da política econômica - metas de inflação, câmbio flutuante e responsabilidade fiscal. Dia sim, outro também, economistas se dispõem a criticar o governo - e, sobretudo, o Banco Central (BC), responsável direto por duas das três pernas - pelo relaxamento em relação aos "três pilares".

Implantado em 1999, com a mudança do regime cambial, o tripé, em sua jovem existência, provou-se, como a democracia em relação aos regimes políticos, o modelo de sustentação econômica ideal, na falta de outro melhor. Mesmo quando aplicado, nos primeiros anos, de modo supostamente mais "puro", não foi capaz de evitar o colapso externo de 2002 - nem garantir números macroeconômicos isentos de fragilidades.

Ao longo de uma experiência de quase 14 anos, só a perna fiscal ficou mais perto do centro dos objetivos para ela traçados. Os outros dois pilares operaram em intervalos mais flexíveis. O centro da meta de inflação, por exemplo, só foi alcançado em três oportunidades - 2000, 2006 e 2009. E a flutuação cambial nunca deixou de ser mais ou menos suja, o que é comprovado pela acelerada acumulação de reservas no período. Num sistema puro de câmbio flutuante, por definição, não há necessidade de acumular reservas internacionais.

Com esse quadro em mente, fica parecendo que a reivindicação dos que reclamam do abandono do tripé é uma espécie de nostalgia daquilo que nunca foi. O tripé jamais dançou o samba de uma nota só que agora muitos estão pedindo. Além disso, as críticas parecem se chocar com as recomendações mais respeitáveis à atuação de bancos centrais, nesses tempos atuais de profunda e transformadora crise global.

Produzido pelo Comitê para Política Econômica Internacional e Reforma, um documento intitulado Rethinking Central Banking (Repensando a ação dos bancos centrais, em tradução livre), publicado em setembro de 2011, é um ótimo resumo do novo ambiente econômico global. O documento desmonta verdades estabelecidas e propõe aos bancos centrais adotar um rol de ações antes geralmente repelidas.
O comitê reúne experts de alto nível, por iniciativa da Brookings Institution, secular e poderoso "think tank" americano. São ex-presidentes de bancos centrais, ex-funcionários de organismos multilaterais, acadêmicos de prestígio e destacados especialistas de mercado. Para dar uma ideia do seu alto nível, basta mencionar que do grupo fazem parte o brasileiro Arminio Fraga, os professores Kenneth Rogoff, Barry Eichengreen, Dani Rodrik e Raghuram Rajan, além de Mohamed El-Erian, da gigante global de investimentos Pimco.

À luz do que a crise vem ensinando, o comitê recomenda revisar o modo convencional de pensar as políticas econômicas. Faz menção especial às interações entre o sistema de metas de inflação e câmbio flutuante, observando que esse conhecimento se estabeleceu como definitivo sem considerar que sua disseminação se deu numa quadra excepcionalmente benigna na economia mundial - de meados dos anos 90 a meados de 2000.

O documento também sugere "não ser mais viável" manter ativa a ideia, aceita por muito tempo, de que cada instrumento de política econômica só pode atender a um único objetivo. Nesse sentido, os especialistas do comitê entendem que as funções dos bancos centrais são agora mais amplas, com especial atenção para o objetivo da estabilidade financeira. Em seu nome, inclusive, se for o caso e por um tempo, desvios em relação às metas de inflação são inconvenientes que devem ser aceitos.

Outra diferença relevante em relação às teorias estabelecidas, diversas vezes anotada no documento, é a de que os impactos de políticas locais sobre outras economias são reais e importantes, a ponto de poder levar os bancos centrais, especialmente nos países emergentes, a reagir a eles. Qualquer semelhança com ações defensivas em relação aos afrouxamentos monetários nos EUA e na Europa não é mera coincidência.

É possível verificar que o nosso BC, bem longe de tirar "inovações" da cartola, está, de fato, adotando várias das novas linhas de ação recomendadas. Mas pode-se verificar também que, de acordo com essas novas orientações, o BC brasileiro tem falhado, sobretudo em relação à comunicação. Se o mundo mudou e as ações também mudaram, o desafio da comunicação é explicar, com a máxima transparência, o que mudou e por que mudou.

Os dois Demóstenes


Sebastião Nery
Tribuna da Imprensa

RIO – Demóstenes tinha uma rede de alto falantes no bairro da Liberdade, em Salvador, o mais populoso da cidade. Toda manhã, toda tarde, com o vozeirão poderoso, Demóstenes fazia propaganda de seus morins, seus sabonetes, seus perfumes.

Até que a guerra acabou, vieram a anistia, a redemocratização, as eleições de 1945. Demóstenes foi para seus alto falantes e comunicou ao povo que era candidato a senador. Inscreveu-se no POT (Partido Operário Trabalhista) e começou a campanha. Passava manhãs e tardes falando.

A campanha não pegou. Ninguém levou a sério. Demóstenes recuou. Anunciou que seria candidato a deputado federal. E entrava noite a dentro falando, falando.Ninguém acreditava que Demóstenes, apesar da força do nome, da beleza da voz e do poder da sigla, conseguisse se eleger.

A FAIXA…
Demóstenes recuou de novo. Disse que ia sair para deputado estadual. E continuou falando, falando, de manhã, de tarde, de noite, de madrugada.Nem assim a campanha pegou. Um dia, desesperado, resolveu ser humilde e começar do começo. Ia ser vereador. Aí todo mundo acreditou. E o povo começou a chamar Demóstenes de vereador.

Mas o Tribunal Regional Eleitoral da Bahia, nas vésperas das eleições, negou registro ao diretório do POT. Demóstenes ficou sem legenda. No dia seguinte, a praça Municipal, em Salvador, amanheceu com uma faixa enorme bem em frente ao elevador Lacerda:

- “Demóstenes avisa a seus amigos e eleitores que não vai mais ser candidato a merda nenhuma”.

E escreveu o palavrão em vermelho.

PELEGRINO

Pelegrino é o Demóstenes de Salvador…

Três vezes o deputado Nelson Pelegrino, do PT da Bahia já foi candidato a prefeito de Salvador. O PT tem vários nomes mais viáveis do que o dele. Mas ele bate o pé, briga, exige e acaba sendo o candidato. Fala, promete, enrola, engana e sempre o povo lhe diz não. Não acredita nele.

Quem perde às vezes se torna um pote até aqui de mágoas. Mas ele devia fazer como o Demóstenes. Pendurava uma faixa enorme bem em frente ao Elevador Lacerda, garantindo humildemente aos baianos 

- “Pelegrino avisa a seus amigos e eleitores que não vai mais ser candidato a prefeito de Salvador, nem a merda nenhuma”.

LULA
Lula impôs, o PT aceitou (também não havia outro melhor) e Fernando Haddad se elegeu brilhantemente prefeito de São Paulo. Foi tão nítida a vitoria de Haddad que o PT não precisava expor ao ridículo, na “Globo News”, duas de suas visíveis escribas, que passaram a noite tentando esconder dos ouvintes os resultados no resto do pais.

Toda vez que o Sidney, o Camarotti ou o Merval anunciavam mais um eleito que não era do PT, as duas interrompiam a palavra deles:

- Mas Lula ganhou em São Paulo. São Paulo vale o resto.

Como “vale o resto”? Com raras exceções, o PT perdeu no Nordeste, no Norte e no Centro Oeste, como já havia perdido no Sul. Da Bahia a Manaus, são doze Estados. Onde o PT ganhou? João Pessoa, Rio Branco…

E o pior é que o PT está arrependido. Agora percebeu que devia ter proibido Lula e Dilma de irem a Belo Horizonte, Manaus, Fortaleza, Recife, Salvador, Feira de Santana, Terezina… Os dois desembarcaram lá como se fossem Padre Cicero e a Beata de sangue na boca. E xingavam, atacavam, agrediam, faziam baixarias. Lula, compreende-se. Sempre foi um grosso. Mas, Dilma, que sempre aparentou certa elegância?…

ZEZECO
Zezeco, o fenômeno político de Alagoas, que, com uma ONG e ações sociais beneméritas na cidade, se elegeu prefeito de Barra de São Miguel com 72,01% dos votos e noticiei aqui, manda-me simpático e-mail:

– Não é neto do ex-juiz Nicolau, o “Lalau”, de São Paulo, como jornais de Maceió publicaram e repeti aqui. É apenas uma coincidência. O ex-juiz é Nicolau dos Santos Neto, tem 84 anos. Zezeco é José Medeiros Nicolau, vai fazer 24 . E Lalau era do mal, Zezeco é do bem.

Estado de graça


Dora Kramer 
O Estado de S.Paulo

Dizem que a vitória cura todas as feridas. Mesmo não sendo uma verdade absoluta, certo é que ameniza os espíritos.

Na noite de domingo, logo após a confirmação do resultado em São Paulo, o PT estava em estado de graça. Dos petistas habitualmente belicosos, como o assessor internacional da Presidência da República, Marco Aurélio Garcia, aos mais apaziguadores, como o deputado Arlindo Chinaglia e o prefeito de Osasco, Emídio de Souza, todos pregavam bom senso e moderação.

Falando aberta e francamente nos erros crassos que levaram a derrotas do partido, reconhecendo a "aspiração legítima" do governador de Pernambuco, Eduardo Campos, à disputa presidencial de 2014 e defendendo "respeito" às decisões do Supremo Tribunal Federal no julgamento do mensalão.

Aparentemente essa prudência se deve ao "relax" decorrente da eleição de Fernando Haddad. Mas é possível também que tenha a ver com o balanço objetivo de perdas e ganhos, no qual o PT não fica tão bem quanto apregoa.

O equilíbrio partidário observado no primeiro turno foi confirmado com o seguinte resultado final: o comando nas 26 capitais onde há prefeitura (o Distrito Federal não tem prefeito) está distribuído entre 11 partidos.

Isso quer dizer que há 11 legendas fortes e representativas? Não, significa que nesse sistema partidário fragmentado e frágil as condições locais - empatia do candidato, alianças, rumo da campanha etc. - prevalecem sobre a identificação do eleitor com esse ou aquele partido.

Outro dado a ser considerado: o ex-presidente Lula concentrou esforços em 17 cidades País afora, ganhando em oito delas e perdendo em nove. São Paulo, evidentemente, desequilibra, mas o cômputo geral desidrata a mistificação sobre o poder de Lula na condução da vontade do eleitor.

Ganha onde pode e faz as coisas certas. Onde quem acerta é o adversário, Lula e PT enfrentam as mesmas adversidades que qualquer outro partido ou político quando o eleitorado resolve dar o próprio jeito.

Os petistas contam com muitas vantagens - objetivos claros, boa dose de unidade e comando -, mas nelas não se inclui uma ligação direta, automática, permanente e, sobretudo, segura entre a presença do ex-presidente, a força do governo federal e o voto na urna.

De onde provavelmente a preocupação das lideranças de não se deixar inebriar excessivamente pelo êxito paulistano.

Arlindo Chinaglia, por exemplo, diz com todas as letras que insucessos fragorosos como os registrados em Recife e Porto Alegre devem-se exclusivamente a erros de cálculo do partido.

Essa "pegada" pós-eleitoral mais leve não pode ser vista como desistência do PT de se manifestar contra as condenações.

Já no decorrer desta semana, o partido apresentará publicamente a própria "leitura" de que houve uma grande injustiça e, quando for concluído o processo, ficará ao lado dos réus que decidam recorrer ao simbolismo de apelos a organismos internacionais.

Mas, se prevalecer o estado de espírito da noite da conquista da joia da coroa, nada de mobilizações de caráter institucionalmente desabonador em relação à Corte suprema.

"O eleitor separou o julgamento da eleição. O partido deve saber também fazer essa separação, compreendendo que vitória eleitoral não é salvo-conduto", analisava o prefeito de Osasco.

Marco Aurélio Garcia cobrava o mesmo rigor na apreciação do processo do "mensalão mineiro", cujo protagonista é o tucano Eduardo Azeredo, e reclamava do "clima de viva emoção" agora em torno do STF.

É de se notar, porém, o tom de passo adiante quando fala em "nova linhagem do PT" e defende uma reforma política "que nos previna desse tipo de acontecimento".

Emerge da eleição um discurso ameno, pragmático, para se contrapor ao ânimo radical que até "fala" ao coração de militância, mas não conquista a cabeça da maioria do público.

Aproximação de ACM Neto com Michel Temer irrita a presidente


Paulo Celso Pereira
O Globo

Prefeito eleito de Salvador nega possível fusão dos partidos

O GLOBO / AILTON DE FREITAS
Festa. Em comemoração pela vitória, ACM Neto entrega o 
primeiro pedaço de bolo ao senador José Agripino Maia

BRASÍLIA – As declarações do prefeito eleito de Salvador, ACM Neto, de que o vice-presidente Michel Temer seria seu principal interlocutor junto ao governo federal, irritaram a presidente Dilma Rousseff. Deputado do DEM, Neto derrotou justamente a tese pregada por seu adversário, Nelson Pelegrino (PT), de que era necessário Salvador ter um prefeito alinhado ao governo federal. Para tentar eleger o candidato petista, Dilma e Lula foram à capital baiana e fizeram duros discursos contra Neto.

A avaliação no Planalto é que ao eleger Temer como interlocutor prioritário, Neto vai contra a premissa institucional básica de que o prefeito deve debater políticas públicas com a presidente. Segundo um interlocutor de Dilma, Temer jamais conversou com ela a respeito de Salvador.

Aliados de Temer avaliam, porém, que o vice pouco poderá fazer se a presidente ficar contra o auxílio a Salvador — o que Dilma tem dito que não fará em relação a nenhum prefeito ou governador.

Neto voltou nesta terça-feira à Câmara dos Deputados, onde é líder do DEM, e foi recebido com festa e muita comemoração dos funcionários e companheiros de partido. Para minimizar o problema e não criar problemas com o Palácio do Planalto, antes de assumir a prefeitura, minimizou a crise:

— Vou procurá-la (Dilma), quero fazer a interlocução diretamente com ela — afirmou ao chegar ao Congresso.

Temer tem um álibi para se aproximar de Neto que, como líder do DEM, fazia oposição intensa ao governo. Segundo aliados, o objetivo de Temer é se aproximar de Neto para reerguer o debate sobre a fusão do PMDB com o DEM.

Apesar de os peemedebistas considerarem que seriam um porto seguro para os integrantes do DEM, as dificuldades para a tese da fusão prosperar são imensas. As principais lideranças do DEM, que detêm o controle da legenda, são de estados onde o PMDB também têm quadros fortes, como Rio Grande do Norte, Bahia, Goiás e Rio de Janeiro.

O ponto mais difícil é decidir quem comandaria o partido em cada um dos estados. Segundo parlamentares, ninguém aceitaria perder a primazia do comando partidário em sua região. O próprio Neto descartou essa possibilidade:

— Pelo amor de Deus, discutir fusão? Você é louco. Só se for confusão.

****** COMENTANDO A NOTICIA:
Considerando os termos em que a presidente se referiu a ACM Neto durante a campanha eleitoral em Salvador, dona Dilma não tem que ficar irritada coisíssima nenhuma. Ou, por acaso, deixará de atender ao pleitos legítimos que lhe forem encaminhados pelo prefeito eleito apenas por que este não pertence a sua base de apoio legislativo? 

Além disto, deve partir da própria Dilma a iniciativa de desculpar-se pelas ofensas públicas feitas publicamente à ACM Neto. Além disto, Michel Temer não é uma vaquinha de presépio a obedecer cegamente apenas aquilo que a soberana lhe determinar. Ele é um cidadão livre e pode manter os contatos que quiser e com quem assim desejar, até porque trata-se do vice presidente do Brasil, e não apenas dos militantes partidários que apoiam o governo no Congresso Nacional. Que lei o impede de manter contatos políticos com gente de outros partidos? A lei da estupidez Dilma Rousseff? 

Por sinal, tal aproximação se deve debitar na conta das muitas ações grosseiras e vulgares como a soberana se dirige a quem lhe contraria. Educação, respeito ao próximo, bons modos fazem parte, também, da instituição chamada “presidência da república”, e usá-las de vez em quando é até aconselhável. É bom lembrar à dona Dilma que  parte do dinheiro que sustenta sua corte presidencial advém dos impostos pagos também pelos brasileiros residentes em Salvador, cujo prefeito eleito merece respeito e consideração também. Ou não? Aliás, o excelente Sebastião Nery, ver post mais acima, resumiu o comportamento da dupla Lula e Dilma ao longo da campanha eleitoral. Ele até vê, ÀS VEZES, vejam só, certa “elegância” em Dilma...

Como se explica a derrota que ACM Neto impôs ao time de Lula, Dilma e Wagner


Raul Monteiro 
Tribuna da Bahia

Deve-se dar o desconto à mágoa que leva o deputado federal Nelson Pelegrino (PT) a maldizer a fatia do eleitorado que deu a cadeira de prefeito a seu adversário ACM Neto (DEM) em Salvador. A voz embargada e a fisionomia de desamparo exibidas pelo petista na segunda-feira eram o retrato fiel da dor que a derrota lhe provocou e merece sincero respeito. Mas Pelegrino é vítima de si próprio ou da sua incapacidade de montar um discurso substancial e articulado para a cidade nesta campanha.

Achar que a tese do alinhamento (aos governos estadual e federal) seria suficiente para guindá-lo à chefia do Thomé de Souza só demonstrou a ingenuidade ou o despreparo do candidato e de todo um partido e seus mentores. Primeiro, porque trata-se de uma concepção obsoleta e datada, construída habilmente num dado período histórico com objetivos eleitorais pelo maior adversário de todos os tempos das esquerdas baianas.

Foi ACM, o avô, que a lançou com a inteligência, a competência política e o senso de oportunismo que a história não lhe negam. Na época, era a melhor isca para dar ao seu grupo, pela primeira vez em tempos democráticos, a capital baiana, que havia passado por duas administrações catastróficas em sequência, a de Fernando José (PMDB) e a de Lídice da Mata (PSB). Funcionou e garantiu a vitória, no grupo carlista, a Antonio Imbassahy, que se reelegeria, exibindo seus resultados, quatro anos depois.

PECADO MORTAL
O alinhamento é vazio porque comete o pecado mortal de desconsiderar o espírito libertário e autonomista do soteropolitano que a eleição de Lídice, por exemplo, e a do próprio João Henrique (PP), na sucessão de Imbassahy, ainda sob a égide de ACM, provariam mais uma vez e que, lamentavelmente, foi de forma solene desconsiderado por dois estrangeiros – o ex-presidente Lula e a presidente Dilma Rousseff.

No afã de ajudarem a qualquer custo o correligionário Pelegrino, superestimando seu próprio poder e carisma, Lula e seu ex-poste, que hoje parece estar querendo piscar com luz própria, se dividiram em espetáculos de grosseira, chantagem e intimidação ao eleitorado da capital que não precisavam constar em suas biografias.

Mas o alinhamento se mostrou mais do que ineficaz, um verdadeiro tiro no pé, também pelo que impôs de reflexão imediata sobre a colaboração entre as instâncias de poder municipal, estadual e federal. Ora, a tese acabou desnudando os resultados de uma administração estadual petista de seis anos de capacidade de execução frágil e que não se faz sentir em Salvador nem na Bahia, quando o assunto é mobilizar o governo federal em defesa dos baianos.

PERGUNTA-SE
Cabe perguntar: Em oito anos de governo, que presente deu o então presidente Lula a Salvador e à Bahia que permanece na memória de soteropolitanos e baianos? Há algum ministro aí na equipe de Dilma que seja da Bahia, indicado pelo governo estadual? Trocando em miúdos: Alinhar é bom quando se percebem resultados práticos e públicos, coletivos. Não o das intimidades, comentadas nas colunas sociais, em que se propala o prestígio pessoal dos mandatários com quem chefia a nação. Elementar, companheiros petistas!

Por que alinhar se o alinhamento parcial (ou pessoal) já existente (entre os governos estadual e federal) não acrescenta ou agrega nada ao patrimônio simbólico e material do baiano? Mas houve um outro equívoco que Pelegrino passou a fazer com aspecto descontrolado na campanha do segundo turno. Esqueceram de avisar a ele que o carlismo morreu com ACM num processo iniciado com a eleição de Jaques Wagner, que, confirmando o féretro, ainda tratou de absorver vários ex-carlistas em seu governo.

Querer dar vida a um fenômeno histórico que desvaneceu com seu criador não é atributo de quem se considera um deus. Mas de quem, antecipadamente, revela todo o seu desespero numa batalha. Para assombro de um eleitorado que merecia ver respeitada a sua inteligência, assim como a sua vocação histórica para a afirmação de sua independência. Que precisava ser surpreendido não com o medo, mas com a esperança. Aliás, não foi quem usou o bordão petista que venceu a eleição?

Terminadas as eleições, PT prepara ataques ao Supremo


Veja online

Partido só esperava a definição nos pleitos municipais para lançar manifesto em que defende mensaleiros condenados e acusa ministros de politizar julgamento

Pedro Ladeira/AFP 
Ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) durante 
sessão do julgamento do mensalão, em 25/10/2012  

Terminada a campanha do segundo turno das eleições municipais, o PT organiza um manifesto com ataques ao Supremo Tribunal Federal. Nesta quinta-feira, o partido vai divulgar um documento em que endurece sua artilharia verbal contra os ministros da corte - e os acusa de abandonarem a cultura do direito penal, que garante as liberdades individuais. O motivo, é claro, são as condenações de petistas estrelados pelo Supremo, por envolvimento no maior escândalo de corrupção da República, o mensalão. Para o PT, o julgamento que condenou 25 réus no processo foi politizado pela corte. Como de praxe no partido, sobraram acusações para a imprensa: o manifesto afirma, ainda, que os ministros do STF julgaram os mensaleiros "sob pressão da mídia".

Vale lembrar que foram justamente os petistas, liderados por Lula, que tentaram controlar os rumos do julgamento no Supremo. A estratégia incluiu, até mesmo, uma clara chantagem ao ministro Gilmar Mendes, que denunciou a ação de Lula. A mais alta corte do país, contudo, resistiu às pressões, numa clara demonstração de que instituições republicanas não se curvam às vontades imperiais de políticos recordistas de popularidade. 

O PT só esperava o fim das eleições para sair em defesa dos réus do partido. O STF condenou o ex-ministro da Casa Civil José Dirceu, o ex-presidente do PT José Genoino e o ex-tesoureiro Delúbio Soares por corrupção ativa e formação de quadrilha, mas ainda não fixou as penas. Além deles, o deputado João Paulo Cunha (PT-SP), ex-presidente da Câmara, foi condenado por corrupção passiva, peculato e lavagem de dinheiro e teve de desistir da candidatura a prefeito de Osasco.

"A minha expectativa é que eles não sejam condenados a penas privativas de liberdade", afirmou nesta segunda-feira o deputado Rui Falcão, presidente do PT. "Todos eles têm serviços prestados ao país." Falcão negou que a nota a ser divulgada pelo PT contenha a defesa da regulação da mídia. "Não vamos tomar esse debate como revanche", afirmou ele. "Isso seria tolice". Não é, contudo, o que afirmam outros petistas. Em entrevista ao jornal O Estado de S. Paulo há duas semanas, o secretário de Comunicação do Partido, deputado André Vargas, afirmou que o debate sobre a regulação do setor de comunicação no país – termo utilizado pelos petistas para mascarar uma intenção bastante clara: controlar o que é veiculado pela imprensa brasileira – seria retomado após o segundo turno dos pleitos municipais.

Embora o estatuto do partido determine a expulsão de filiados condenados pela Justiça, o PT vai descumprir sua própria regra interna e não aplicará a norma no caso dos réus do mensalão. Dirigentes do partido alegam que Dirceu, Genoino, Delúbio e João Paulo são "prisioneiros políticos" de um "tribunal de exceção".

(Com Estadão Conteúdo)

Jovens garnizés no galinheiro


Carlos Chagas
Tribuna da Imprensa

Quem ganhou e quem perdeu, com o encerramento das eleições municipais? Há vencedores óbvios, como o Lula. Queiram ou não, ele outra vez mostrou-se capaz de eleger um poste. O Partido Socialista cresceu, desde o primeiro turno. Aliás, outros partidos intermediários também, com o PDT à frente. PT e PMDB ficaram onde estavam, ou seja, o primeiro vitorioso em número de votos, no país inteiro, o outro com mais prefeitos e vereadores que os demais. Reforçou-se a base partidária do governo, mesmo sem muita segurança de que certos partidos manterão a fidelidade, ao menos se não receberem compensações.

Derrota sofreu o PSDB, pelo malogro de um de seus ícones, José Serra, em São Paulo, ainda que passando a governar Manaus e Belém, como participando da vitória em Belo Horizonte, antes, e agora em Salvador.

O principal fator a registrar, porém, está na renovação de lideranças. Em muitas capitais, como em grandes cidades, os vencedores são desconhecidos no plano nacional. A maioria dos novos prefeitos é composta nomes de que ninguém ouviu falar. Claro que agora elevados a patamar superior, estarão prontos para assumir posições em seus estados, mas ainda necessitados de esticar o pescoço para além de suas regiões. Pode estar acontecendo fenômeno faz algum tempo desaparecido de nossas equações políticas, a inesperada substituição de velhos por novos personagens. Ficou evidente o anseio por mudanças, de parte do eleitorado. As eleições nacionais de 2014 confirmarão ou não essa tendência, no Congresso e nos governos estaduais.

Em suma, se não trouxeram reviravoltas inusitadas, as eleições municipais revelaram sangue novo. Quem sabe jovens garnizés no galinheiro.

ERROS E ACERTOS
Como se comportaram as pesquisas, nas 16 capitais estaduais onde se realizou o segundo turno? Mal, apesar de os institutos, como sempre, apregoarem sucesso.

Porque idênticas previsões e resultados aconteceram, é claro, mas só em Macapá, Manaus, Campo Grande, Curitiba e São Luís. Nessas cidades, os números anunciados no fim de semana e na boca de urna foram confirmados pelas urnas, com oscilações no máximo restritas a um ponto percentual. Mesmo depois de escorregadelas anteriores, não há dúvida de que as pesquisas refletiram a vontade do eleitorado.

Agora, dizer que acertaram diante do embuste de considerar corretas as previsões com três pontos para cima ou para baixo, só chamando o Pinóquio. Em Rio Branco, Teresina, Belém, João Pessoa, Natal e Florianópolis, foi de dois ou três pontos a diferença entre as pesquisas e os votos recebidos por vencedores e derrotados.

Mas tem mais. Erros daqueles impossíveis de ocultar, verificaram-se em São Paulo, quando há semanas Fernando Haddad nem aparecia no segundo turno e depois, para compensar, chegou a ser apontado com 17 pontos de vantagem sobre José Serra. Aproximando-se a decisão final, só nos últimos cinco dias o companheiro obteve 60%, 59%, 58% e 57% dos votos, para chegar aos 56%, domingo. O tucano passou de 41%, 42%, 43% até na boca da urna e recebeu 44%. Isso é acertar? Em especial diante da “explicação” de que foi o povo que mudou, que é volúvel. Será que os índices afinal revelados já não estavam decididos faz muito pelo eleitorado? Mudar, quase todo mundo muda, mas tanto assim, cheira a erros e a ajustamentos.

Em Porto Velho, as pesquisas apontavam 58% para um e 42% para outro, chegando a 64% contra 36%. Na verdade, houve empate em torno dos 50%, decidido no olho mecânico.

Em Cuiabá foi o oposto. Os números anunciados davam 50% para cada um dos candidatos. No fim, 54,6% para este, 45,3% para aquele.

Em João Pessoa divulgaram o resultado de 72% a 28% quando na verdade deu 68% a 41%.

Em Salvador, anunciaram 55% e até 56% para o primeiro colocado, e 44% para o segundo, mas o que se viu foram 53,5% para um e 46,4% para o outro.

Em Fortaleza, 51% para o primeiro e 49% para o segundo, ou até 50% para cada um. Digitados os resultados, 53% a 47%…

De qualquer forma, não se duvidará da boa vontade e muito menos da honestidade dos institutos. Apenas, contesta-se sua capacidade.

O gargalo do saneamento básico


O Estado de S.Paulo

No papel, todos os brasileiros deverão ter saneamento básico em menos de dez anos. Na prática, porém, a julgar pelo atraso dos investimentos do governo federal, uma parte considerável do País - quase 50% em 2011 -, que é a sétima economia do mundo, ainda vai demorar muito para ter acesso a redes de esgoto sanitário, algo que a Organização das Nações Unidas considera ser um direito humano fundamental.

Nos cálculos da Confederação Nacional da Indústria (CNI), citados pelo jornal Valor (16/10), o governo deveria investir R$ 17 bilhões anuais para atingir a meta de universalização desses serviços, cujo prazo fixado vence em 2020. Na prática, porém, apenas R$ 8 bilhões anuais têm sido aplicados. Essa lentidão agrava os problemas sociais e, por extensão, gera grandes prejuízos econômicos.

Seguindo o padrão da administração petista em infraestrutura, a parte do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) voltada ao saneamento apresenta intolerável atraso. Um estudo do Instituto Trata Brasil, especializado na área, mostra que apenas 7% das obras para água e esgoto previstas para cidades com mais de 500 mil habitantes haviam sido concluídas até dezembro de 2011, e 60% estão paradas ou não saíram do papel.

Os problemas não se resumem ao governo federal. Muitas prefeituras demonstram despreparo para elaborar os projetos necessários para a liberação de verbas e tampouco se interessaram em buscar auxílio para resolver o problema.

Os municípios têm até dezembro de 2013 para apresentar seus planos, mas é improvável que a incapacidade técnica de muitos deles seja superada nesse prazo. Há ainda problemas nas licitações e lentidão na concessão de licenças ambientais, além do desinteresse da iniciativa privada para apostar no setor. Os empresários, como salientou a Confederação Nacional da Indústria, esperam que haja desoneração de investimentos para participar da empreitada - hoje, as empresas privadas na área de saneamento atendem somente 10% dos brasileiros.

A universalização do saneamento básico teria forte impacto positivo na economia nacional, segundo estudo do Trata Brasil feito em parceria com a Fundação Getúlio Vargas (FGV). Esse estudo mostra, por exemplo, que a produtividade dos trabalhadores de áreas com serviços de água e esgoto chega a ser 13,3% superior à verificada em regiões em que o saneamento é precário ou inexistente.

Por essa razão, algumas indústrias têm investido por conta própria nessas benfeitorias nas comunidades de seu entorno. Um exemplo é a Veracel Celulose, que instalou, em parceria com os governos municipais e do Estado, redes de esgoto e sistemas de tratamento de água em cidades baianas onde estão suas instalações.

A empresa afirma que essas melhorias mudaram o perfil dos habitantes e, por conseguinte, de seus funcionários, que passaram a ter menos doenças. Segundo a FGV, as empresas perdem R$ 547 milhões anuais graças ao pagamento de salário integral a empregados que faltam por doenças causadas pelas más condições de saneamento.

Todo ano, cerca de 217 mil trabalhadores faltam por esse motivo, e tais afastamentos custam, cada um, 17 horas de trabalho. As contas do Trata Brasil mostram ainda que a probabilidade de um empregado com acesso à rede de esgoto faltar ao trabalho é quase 20% menor que a de um funcionário sem esse acesso.

Motivos, portanto, não faltam para que os administradores se empenhem um pouco mais em cumprir as metas de universalização do saneamento no Brasil. Os avanços são tímidos: entre 2000 e 2011, o total de domicílios brasileiros atendidos por redes de esgoto passou de 33,5% para 45,7%. Isso significa que mais da metade da população ainda vive como nos tempos de Jeca Tatu - chegam a 13 milhões os brasileiros que não têm acesso sequer a um banheiro, e apenas um terço do esgoto coletado recebe algum tipo de tratamento antes de ser despejado em solos e rios.

Os especialistas calculam que, se for mantido o atual ritmo de investimentos, que dependem basicamente do Estado, o Brasil deixará essa vergonhosa condição somente no longínquo ano de 2122.

Fragmentação partidária e fadiga de material


Editorial
O Globo

Elevado índice de abstenção deveria levar as lideranças a renovar quadros e a mudar a própria maneira de se fazer política no país

No inevitável balanço de ganhos e perdas eleitorais, há boas e más notícias para quase todas as legendas. Avanços em algumas regiões foram compensados por recuos em outras e vice-versa. Mas é indiscutível que, ao voltar a ganhar na cidade de São Paulo, o PT e seu principal estrategista, Lula, saem das urnas com um cobiçado troféu, essencial para o partido tentar alcançar o Palácio Bandeirantes, cidadela jamais conquistada pelos petistas.

A vitória paulistana consegue ofuscar derrotas do PT em campanhas nas quais Lula e a própria presidente Dilma se envolveram diretamente. Caso de Manaus, onde o tucano Artur Virgílio desta vez resistiu a Lula, considerado responsável em 2010 pela tentativa frustrada de Virgílio se manter no Senado. Agora, a ajuda do PT à candidata do PCdoB Vanessa Grazziotin, senadora que desbancara Artur Virgílio em 2010, não surtiu efeito. Salvador, outra derrota do PT de Lula e Dilma, viu renascer o “carlismo” e, em certa medida, o DEM, com ACM Neto. No primeiro turno, a dupla Lula-Dilma já havia perdido em Belo Horizonte.

Mais uma frustração petista ocorreu em Campinas, onde o “poste” erguido por Lula, Márcio Pochmann, não reluziu como Haddad na capital: perdeu para Jonas Donizetti, do PSB, do governador pernambucano Eduardo Campos. Outro candidato do partido de Campos, Roberto Cláudio, venceu o PT em Fortaleza (Elmano), feito creditado mais aos irmãos Gomes (o governador Cid e ex-ministro Ciro) que ao governador pernambucano.

O PSB, com 442 prefeituras, 27 das quais em municípios com mais de 100 mil habitantes, cacifa o nome de Eduardo Campos como peça do jogo político nacional. O recém-criado PSD, de Gilberto Kassab, amealhou 498 prefeituras, 20 de porte razoável. Os tucanos, por sua vez, vivenciam o desgosto da derrota para seu grande adversário em São Paulo. Não compensa, mas o partido, com 698 prefeitos — só perde para os 1.023 do PMDB —, cresceu em direção ao Norte e Nordeste.

Houve uma grande fragmentação partidária nestas eleições municipais: 11 legendas se dividem no controle das 26 capitais. Fica evidente a excessiva pulverização de partidos, mazela derivada da leniente legislação político-eleitoral brasileira. Caberá à presidente Dilma encontrar espaço no governo para tantos aliados, sem degradar ainda mais a qualidade administrativa, que já não é das melhores.

Destaca-se, ainda, o alto índice de abstenções no segundo turno (19% contra 16,4% no primeiro turno). Em São Paulo, incluindo votos nulos e brancos, 31% não escolheram qualquer candidato. O dado é grave. Tem-se, nestes números, a medida do desalento com o quadro político-partidário. Há uma espécie de fadiga de material na representação política. Esta realidade deveria levar as lideranças a trabalhar na renovação de quadros e da própria maneira de se fazer política no Brasil, onde se debatem pouco ideias e projetos, em benefício do compadrio e clientelismo.

Superávit primário: o dilema arriscado de Dilma


Ana Clara Costa e Naiara Infante Bertão
Veja online

Presidente aproxima-se do final de seu 2º ano de mandato com PIB e arrecadação em baixa – e ainda terá de escolher entre o não cumprimento da meta fiscal ou a chamada 'contabilidade criativa'

(Andre Sousa Borges/Fotoarena) 
Dilma Rousseff: 'Cumprir ou não cumprir? Eis a questão' 

A presidente da República, Dilma Rousseff, e sua equipe econômica aproximam-se de um momento crucial. O governo terá de escolher entre o não cumprimento em 2012 da meta de superávit primário – a economia para pagamento da dívida pública, sem considerar os gastos com os juros – ou cumpri-la de forma apenas contábil, por meio de subterfúgios. Reportagem publicada pelo jornal O Estado de S. Paulo na última quarta-feira afirmou que a presidente já admitiu a interlocutores que lançará mão de alternativas para atingir a meta fiscal fixada para este ano, que é representada pelo coeficiente de 3,1% do Produto Interno Bruto (PIB).

Trata-se de um novo momento do governo Dilma. Depois de ter sido implacável com os importados com o objetivo de fortalecer a indústria nacional; ter forçado a queda dos juros e do spread bancário; e ter anunciado a desoneração de mais de 25 segmentos industriais, a presidente se defronta com um desafio maior e que pode colocar em xeque uma parcela da credibilidade do governo ante o mercado. Ela terá de escolher entre assumir o ônus político de um ano decepcionante e conformar-se com a impossibilidade de cumprir a meta fiscal, ou utilizar mecanismos semelhantes aos de seu antecessor, o ex-presidente Lula, para fazer com que a meta "pareça" cumprida. Segundo o último relatório Focus, analistas esperam que o PIB brasileiro cresça míseros 1,6% em 2012. Já a arrecadação só perde vigor. Segundo a última previsão da Receita Federal, o crescimento será de 1,5% a 2%, ante expectativa anterior de 3% de alta. Com isso, o mercado prevê que o governo consiga cumprir uma meta fiscal de, no máximo, 2,5% do PIB.

Na avaliação de economistas ouvidos pelo site de VEJA, assumir o não cumprimento da meta seria uma opção condizente com a atuação da presidente, levando em consideração as medidas que tomou ao longo dos últimos dois anos, como segurar as torneiras do gasto público em 2011 e abri-las com certa parcimônia no ano seguinte. Em 2012, a relação dívida/PIB do Brasil está em 35,1% do PIB, ante 38% em janeiro de 2011 – essa trajetória de queda representa quase a metade da meta de redução do endividamento prometida pela presidente durante a campanha de 2010, e que seria atingida somente ao final de seu quarto ano de mandato. A intenção de Dilma é atingir 30% do PIB até dezembro de 2014. "É mais compreensível não cumprir a meta, explicando que estamos vivendo uma situação atípica causada pela crise externa", afirma Raul Velloso, economista especializado em contas públicas. "É preciso saber se ela vai ter coragem de assumir esse não-cumprimento", pondera Velloso, ao se referir ao custo político e econômico de uma decisão como essa.

Decepção – 
Contudo, levando-se em consideração que a equipe econômica atual é praticamente a mesma que inaugurou a "contabilidade criativa" das contas públicas em 2010, a maior parte dos especialistas ouvidos pelo site de VEJA acredita que a presidente optará pelos subterfúgios. "O governo não vai assumir que descumpriu a meta e deve usar duas frentes pra isso: o abatimento dos investimentos do PAC e o adiantamento de receitas com dividendos do BNDES, Banco do Brasil e Caixa", afirma o economista Felipe Salto, da Tendências Consultoria. Até o final de setembro, o governo já havia ordenado o adiantamento dos dividendos do BNDES e da Caixa para reforçar o caixa do Tesouro.

Segundo Salto, os investimentos do PAC representam 0,8% do PIB. Ao abater esse porcentual dos 3,1% de meta de superávit, restaria ao governo economizar apenas 2,3% do PIB – meta considerada fajuta por especialistas. O que o governo pretende fazer, repetindo o que ocorreu em 2010, é valer-se da legislação que permite descontar os gastos com o PAC do conjunto de despesas realizadas no ano – transformando-as em investimento. Essa manobra permite que o esforço fiscal seja menor. "O que é aceitável é que o governo não cumpra a meta aumentando investimentos, e não elevando o gasto corrente. E não houve, até o momento, o aumento de investimentos", afirma o economista da Pontifícia Universidade Católica (PUC) do Rio de Janeiro, José Márcio Camargo.

Atualmente, o governo gasta cerca de 4,5% do PIB com pessoal, enquanto os investimentos estão na casa de 1,5% do PIB. “Precisaríamos de uma regra de longo prazo que limitasse as despesas com pessoal”, disse o acadêmico. A Formação Bruta de Capital Fixo (FBCF) – que mede o nível de investimento do setor público – vem caindo por quatro trimestres consecutivos. Já os investimentos do PAC não avançam no ritmo previsto porque sobrou ao governo Dilma a conta polpuda de restos a pagar do governo anterior. Esse valor está, atualmente, em 140 bilhões de reais – sendo que 128 bilhões de reais correspondem à gestão de Lula.

Meta menor – 
Por outro lado, os economistas não veem com maus olhos a possibilidade de o governo reduzir a meta de superávit primário para um número inferior a 3% do PIB. Para Raul Velloso, este é quase um consenso de mercado. "Mas aí, já se trata de um futuro mais distante. E o governo não gosta de anunciar nada que será feito no longo prazo. Ele trabalha só com o curto ou, no máximo, o médio prazo", explica.

Segundo Velloso, já houve discussões com o Fundo Monetário Internacional (FMI) em anos anteriores sobre a possibilidade de se escolher projetos especiais de investimento e retirá-los da conta de superávit. "São projetos que aumentariam a capacidade do setor público de gerar mais receita. Mas esse não é o caso do PAC, que é um bicho disforme", afirma o economista.