quarta-feira, outubro 31, 2012

Fragmentação partidária e fadiga de material


Editorial
O Globo

Elevado índice de abstenção deveria levar as lideranças a renovar quadros e a mudar a própria maneira de se fazer política no país

No inevitável balanço de ganhos e perdas eleitorais, há boas e más notícias para quase todas as legendas. Avanços em algumas regiões foram compensados por recuos em outras e vice-versa. Mas é indiscutível que, ao voltar a ganhar na cidade de São Paulo, o PT e seu principal estrategista, Lula, saem das urnas com um cobiçado troféu, essencial para o partido tentar alcançar o Palácio Bandeirantes, cidadela jamais conquistada pelos petistas.

A vitória paulistana consegue ofuscar derrotas do PT em campanhas nas quais Lula e a própria presidente Dilma se envolveram diretamente. Caso de Manaus, onde o tucano Artur Virgílio desta vez resistiu a Lula, considerado responsável em 2010 pela tentativa frustrada de Virgílio se manter no Senado. Agora, a ajuda do PT à candidata do PCdoB Vanessa Grazziotin, senadora que desbancara Artur Virgílio em 2010, não surtiu efeito. Salvador, outra derrota do PT de Lula e Dilma, viu renascer o “carlismo” e, em certa medida, o DEM, com ACM Neto. No primeiro turno, a dupla Lula-Dilma já havia perdido em Belo Horizonte.

Mais uma frustração petista ocorreu em Campinas, onde o “poste” erguido por Lula, Márcio Pochmann, não reluziu como Haddad na capital: perdeu para Jonas Donizetti, do PSB, do governador pernambucano Eduardo Campos. Outro candidato do partido de Campos, Roberto Cláudio, venceu o PT em Fortaleza (Elmano), feito creditado mais aos irmãos Gomes (o governador Cid e ex-ministro Ciro) que ao governador pernambucano.

O PSB, com 442 prefeituras, 27 das quais em municípios com mais de 100 mil habitantes, cacifa o nome de Eduardo Campos como peça do jogo político nacional. O recém-criado PSD, de Gilberto Kassab, amealhou 498 prefeituras, 20 de porte razoável. Os tucanos, por sua vez, vivenciam o desgosto da derrota para seu grande adversário em São Paulo. Não compensa, mas o partido, com 698 prefeitos — só perde para os 1.023 do PMDB —, cresceu em direção ao Norte e Nordeste.

Houve uma grande fragmentação partidária nestas eleições municipais: 11 legendas se dividem no controle das 26 capitais. Fica evidente a excessiva pulverização de partidos, mazela derivada da leniente legislação político-eleitoral brasileira. Caberá à presidente Dilma encontrar espaço no governo para tantos aliados, sem degradar ainda mais a qualidade administrativa, que já não é das melhores.

Destaca-se, ainda, o alto índice de abstenções no segundo turno (19% contra 16,4% no primeiro turno). Em São Paulo, incluindo votos nulos e brancos, 31% não escolheram qualquer candidato. O dado é grave. Tem-se, nestes números, a medida do desalento com o quadro político-partidário. Há uma espécie de fadiga de material na representação política. Esta realidade deveria levar as lideranças a trabalhar na renovação de quadros e da própria maneira de se fazer política no Brasil, onde se debatem pouco ideias e projetos, em benefício do compadrio e clientelismo.