segunda-feira, abril 04, 2011

Lula, o mensalão, a PF e o STF.

Adelson Elias Vasconcellos

O ministro Joaquim Barbosa, do STF, pediu que a Polícia Federal investigasse o mensalão, basicamente para encontrar as seguintes respostas:

1. O mensalão foi financiado com dinheiro público?

2. Houve mais beneficiários do valerioduto?

3. Qual era o limite da influência de Marcos Valério no governo petista?

Pois bem, para o ministro Joaquim Barbosa não se tratava de comprovar se o mensalão existiu ou não. Sobre esta questão, se vê, o ministro acredita que os autos do processo encaminhado pela Procuradoria Geral da República já tem base suficiente para comprovar a sua existência.

Faltava aprofundar as investigações, conhecer de onde surgiu o dinheiro que abasteceu as arcas do valerioduto, se havia mais personagens envolvidos no esquema.

O relatório produzido pela Polícia Federal, contendo mais de 300 páginas, e cujos detalhes veio a público em excelente reportagem da Revista Época (vide reprodução nesta edição), não deixou pedra sobre pedra. Ele foi muito além até do que talvez o próprio ministro Barbosa tenha imaginado, e traz uma constatação inequívoca: a de que o governo do senhor Lula produziu o maior escândalo de corrupção explícita de que o Brasil teve notícia em toda a sua história. A tal versão de que não sabia nada vai para o lugar que merece: a lata do lixo. Impossível que tantas pessoas atuassem de forma tão intensa e para beneficiar unicamente o senhor Lula, sem que este tivesse conhecimento e autorizasse a ação criminosa. No mínimo, seu pecado foi a conivência, o que caracterizaria crime de responsabilidade, passível, portanto, de impedimento..

Lula apenas cumpriu aquele mandato e mais o segundo por uma única razão: apesar de todas as provas materiais existentes, a oposição se mostrou incompetente e covarde para levar avante um processo de impedimento. Fosse outro o governo, e contra o qual o PT fosse oposição, e nem se precisaria ter cometido dez por cento de tudo o que  Lula aprontou para que este governo fosse derrubado. Collor, é bom lembrar, com seu PC Farias, era sacristão perto do que a turma de Lula, Dirceu & Companhia patrocinaram nos porões do poder.

Claro que os personagens apontados no relatório da Polícia Federal sairão a campo para declarar-se inocentes. Contudo, o relatório é inquestionável tanto sobre a origem do público, quanto dos personagens envolvidos. Vejam lá: foram cinco longos anos de investigações minuciosas. Claro que se houvesse real interesse do governo Lula em apurar tudo, este tempo teria sido bem menor. Claro que este relatório até poderia ter sido produzido antes das eleições de 2010. Aliás, no essencial, o relatório apenas vem confirmar muito do que já se sabia. Talvez, se tivesse recebido irrestrito apoio do governo do senhor Lula, ele poderia até ter revelado novos dados. Porém, o que se tem já é o bastante para condenar uma penca de gente. Resta saber se o julgamento final dos réus já denunciados se dará em tempo de ainda serem condenados e punidos, portanto, antes que os diversos crimes que o escândalo envolve comecem a prescrever.

Mas de uma coisa podemos ficar absolutamente tranquilos: o desespero de Lula em deixar em seu lugar, no poder, alguém de seu clubinho, sempre disse que não se baseava apenas na manutenção dos milhares de cargos com que o PT aparelhou o Estado. Muito se deve para que certos fatos, certas maldades, certos crimes pudessem manter-se ocultos do conhecimento da sociedade, única maneira dele preservar o mito criado em torno de si.

Toda aquela ação de tentar constranger o próprio STF quanto a existência do mensalão, trazendo para dentro do governo alguns daqueles réus, ou para a direção do partido outros tantos mensaleiros, ou ainda a lamúria de alguns petistas quanto a reabilitação de Delúbio Soares, cai inapelável. Dentre as atividades que Lula pretendia exercer após sair do governo, era, e ele próprio afirmou isto, provar que o mensalão não existiu, como se a nossa memória fosse tão miserável que não lembrasse da entrevista que Lula concedeu em território frances, ocasião em que se declarou traído, sem nunca, contudo, nominar traído por quem.

O relatório deixa claro algumas verdades sobre as quais Lula tentou esconder, lançando sobre elas algumas brumas::

1º) O mensalão, de fato, existiu. O relatório da PF conclui que o valerioduto foi resultado de uma complexa engenharia financeira armada com o objetivo de facilitar atividades ilegais

2º) O dinheiro era público, sim. A investigação mostrou que o Fundo Visanet, do Banco do Brasil,, foi a principal origem dos recursos do valerioduto. É neste ponto que entendo que a investigação poderia ter avançado um pouco mais. O dinheiro também veio de estatais e fundos de pensão. Talvez a complexidade do esquema fosse tamanha que preferiu comprovar ao menos uma fonte para que a investigação não demorasse ainda mais.

3º) Lula, o beneficiado. O valerioduto pagou a segurança pessoal de Lula na campanha presidencial de 2002, segundo disse Freud Godoy à Polícia Federal. Também aqui a coisa se enrosca um pouco. Na CPI dos Correios, o publicitário Duda Mendonça foi claro quando afirmou que a campanha de Lula também fora paga com dinheiro desviado, e que foi instruído a abrir conta no exterior para receber parte do pagamento. Esta declaração, vale lembrar, está registrada, foi gravada e transmitida em cadeia nacional.

4º) Os contratos suspeitos. A Brasil Telecom, (que posteriormente foi beneficiada já no segundo mandato de Lula, quando se criou uma lei para beneficiar uma operação fraudulenta com a OI), na época comandada por Daniel Dantas, celebrou contratos de publicidade de R$ 50 milhões com as agências de Marcos Valério, com o objetivo de “conferir a fachada de legalidade necessária” para encobrir o esquema.

Assim, já não era sem tempo que as patifarias cometidas por Lula e sua gangue viessem à tona, pelo menos em relação ao mensalão. Pode ser que, doravante, o país desperte um pouco desta letargia imbecil e se dê conta sobre o que foi verdadeiro e o que foi falso no período de governo do senhor Luiz Inácio.

A verdade, meus amigos, é que nem raio de sol:  penetra o mais denso nevoeiro, leve o tempo que levar. Cedo ou tarde as máscaras da mistificação acabam caindo. O que o leitor deve ter em mente é o seguinte: isto é apenas uma pequena amostra do muito de podridão que precisa ainda ser conhecido e divulgado. O relatório da PF que agora vem à luz, é pelo menos um alento para que um dia a história verdadeira do Brasil seja contada na sua íntegra.  

A anatomia do valerioduto

Diego Escosteguy, Com Mariana Sanches, Murilo Ramos, Humberto Maia Junior, Danilo Thomaz, Marcelo Rocha, Andrei Meireles E Leonel Rocha – Revista Época

ÉPOCA obteve o relatório final da Polícia Federal sobre o caso do mensalão. Ele revela que o dinheiro usado por Marcos Valério veio dos cofres públicos e traz novas provas e acusações contra dezenas de políticos

O relatório final da PF foi entregue ao Supremo Tribunal Federal no final de fevereiro


O OPERADOR
Marcos Valério, o artífice do mensalão, em 2007.
Mais de cinco anos depois, a polícia concluiu
a investigação sobre o maior escândalo de corrupção
do governo Lula




Era uma vez, numa terra não tão distante, um governo que resolveu botar o Congresso no bolso. Para levar a cabo a operação, recorreu à varinha de condão de um lobista muito especial, que detinha os contatos, os meios e o capital inicial para fazer o serviço. Em contrapartida, o lobista ganharia contratos nesse mesmo governo, de modo a cobrir as despesas necessárias à compra. Ganharia também acesso irrestrito aos poderosos gabinetes de seu cliente, de maneira a abrir novas perspectivas de negócios. Fechou-se o acordo – e assim se fez: o lobista distribuiu ao menos R$ 55 milhões a dezenas de parlamentares da base aliada do governo. O governo reinou feliz para sempre.

Mas somente por dois anos. Há seis anos, em junho de 2005, pela voz do vilão e ex-deputado Roberto Jefferson, a fantástica história do maior escândalo de corrupção já descoberto no país, conhecido como mensalão, veio a público. O governo quase ruiu. Seu líder, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, disse que “devia desculpas” ao país. Os dirigentes do PT, o partido responsável pelo negócio com o lobista, caíram um após o outro, abalroados pelas evidências de que, não, aquela não era uma história de ficção: era tudo verdade.

Sobrevieram as investigações de uma CPI (a última que chegou a funcionar efetivamente no país) e a enfática denúncia do procurador-geral da República, que qualificou o grupo como uma “organização criminosa”, liderada pelo primeiro-ministro informal desse governo, o petista José Dirceu. A realidade dos fatos abateu-se sobre as lideranças do partido. Tarso Genro, um deles, falou em refundar o partido. Lula pediu desculpas mais uma vez. O então deputado José Eduardo Cardozo reconheceu que houve mensalão, e que era preciso admitir os fatos.

Parecia que haveria um saudável processo de depuração ética em Brasília. Parecia. Os anos passaram, e a memória dos fatos esvaiu-se lentamente, carregada pelo esforço dos mesmos líderes petistas de reconfigurar o que acontecera através das lentes da má ficção. Dirceu começou a declarar que não houve compra de votos. Petistas disseram que o esquema não fazia sentido, uma vez que, como eram governistas, não precisariam receber dinheiro para votar com o governo – esquecendo que o valerioduto também contemplava o pagamento de campanhas políticas com dinheiro sujo. Delúbio Soares, o tesoureiro que coordenou os pagamentos, disse que tudo se tornaria piada de salão. Agora, obteve apoio para voltar ao partido, de onde fora expulso quando era conveniente a seus colegas. Por fim, quando estava prestes a terminar seu mandato, Lula avisou aos petistas: “O mensalão foi uma farsa. Vamos provar isso”.


São as voltas que o planeta político dá. Em Brasília, como se percebe, ele gira com especial rapidez. José Eduardo Cardozo agora é ministro da Justiça. Foi sob o comando dele que a Polícia Federal produziu sigilosamente um documento devastador, cujas 332 páginas resultam demolidoras para muitos dos próceres da República. Trata-se do relatório final da Polícia Federal sobre o caso do mensalão, que encerra oficialmente os seis anos de extensas investigações conduzidas por delegados, agentes e peritos especializados no combate ao crime organizado. A peça já está sobre a mesa do procurador-geral da República, Roberto Gurgel, e deverá seguir em breve para o gabinete do ministro Joaquim Barbosa, o relator do caso do mensalão no Supremo Tribunal Federal.

Liderada pelo policial Luís Flávio Zampronha, delegado que coordena o caso desde o início e integra a divisão de Repressão a Crimes Financeiros, a PF vasculhou centenas de contas bancárias, esmiuçou dezenas de documentos internos das empresas envolvidas no esquema e ouviu cerca de 100 testemunhas. Produziu-se esse minucioso trabalho por determinação do ministro Joaquim Barbosa. O objetivo era produzir provas acerca dos pontos que não haviam sido contemplados nas investigações da CPI dos Correios e da Procuradoria-Geral da República. As dúvidas dividiam-se em três perguntas elementares:

1. O mensalão foi financiado com dinheiro público?

2. Houve mais beneficiários do valerioduto?

3. Qual era o limite da influência de Marcos Valério no governo petista?

A investigação da PF dissolve essas incertezas – e faz isso com muitas, muitas provas. A resposta às duas primeiras perguntas é sim, sem dúvida. A resposta à terceira? Nenhum. Não há mais argumentos falaciosos, teses descabidas ou teorias conspiratórias que permitam ignorar os fatos colhidos pela PF. Derrubam-se, assim, os mitos que setores do PT, sobretudo sob a liderança moral e simbólica do presidente Lula, tentaram impor à opinião pública. O mensalão não foi uma farsa. Não foi uma ficção. Não foi “algo feito sistematicamente no Brasil”, como chegou a dizer o ex-presidente. O mensalão, como já demonstravam as investigações da CPI dos Correios e do Ministério Público e agora se confirma cabalmente com o relatório da PF, consiste no mais amplo (cinco partidos, dezenas de parlamentares), mais complexo (centenas de contas bancárias, uso de doleiros, laranjas) e mais grave (compra maciça de apoio político no Congresso) esquema de corrupção já descoberto no país. O significado político e, sobretudo, simbólico do fim desse debate é enorme – e pode alterar os rumos do processo do mensalão no STF, que até o momento tendia para uma vagarosa morte jurídica.

Ao responder ao que lhe foi pedido, a PF avança ainda mais. Eis as principais descobertas expostas no relatório:

 Chegou-se, finalmente, ao elo mais grave do esquema do valerioduto: a conexão com o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. O segurança Freud Godoy, que trabalha com o petista desde a campanha de 1989 e desfruta a intimidade da família de Lula, confessou à PF que recebeu R$ 98 mil de Marcos Valério. Disse que se tratava de pagamento dos serviços de segurança prestados a Lula na campanha de 2002 e durante a transição para a Presidência;

 Os peritos da PF rastrearam o envolvimento de mais grão-políticos no esquema. Direta ou indiretamente, seja por meio de assessores ou de familiares, em campanhas políticas ou no exercício do mandato, receberam dinheiro do valerioduto políticos poderosos, como o minis-tro do Desenvolvimento, Fernando Pimentel, do PT, e o eterno líder do governo no Congresso, senador Romero Jucá, do PMDB. Descobriu-se também, ou se conseguiu confirmar, a participação de mais sete deputados federais, dois ex-senadores e um ex-ministro (leia a nova lista do esquema abaixo);




 O banqueiro Daniel Dantas, que participava de uma das mais renhidas e bilionárias disputas societárias do Brasil – e que, para resolver seus problemas, precisava desesperadamente de aliados no Palácio do Planalto –, tentou mesmo garantir o apoio do governo petista por intermédio de dinheiro enviado às empresas de Marcos Valério. Depois de se reunir com Dirceu, então ministro da Casa Civil, Dantas recebeu de Delúbio um pedido especial de ajuda financeira: US$ 50 milhões. Segundo a PF, a propina foi aceita. Pouco antes de o mensalão vir a público, uma das empresas controladas pelo banqueiro fechou contratos fajutos com Valério – apenas para que houvesse um modo legal de depositar o dinheiro. Houve tempo suficiente para que R$ 3,6 milhões fossem repassados ao publicitário. Encaminhou-se esse total a doleiros, mas a PF ainda não descobriu os reais beneficiários do dinheiro;

 São comprovadamente fajutos os empréstimos que, segundo a defesa de Marcos Valério, explicariam a origem do dinheiro do mensalão. Esses papéis serviram somente para dar cobertura jurídica a uma intrincada operação de lavagem de dinheiro. Apurou-se que houve duas fontes de recursos para bancar o mensalão e as demais atividades criminosas de Marcos Valério. Uma, a principal, qualificada pela PF de “fonte primária”, consistia em dinheiro público, proveniente dos contratos do publicitário com ministérios e estatais. O principal canal de desvio estava no Banco do Brasil, num fundo de publicidade chamado Visanet, destinado a ações de marketing do cartão da bandeira Visa. As agências de Marcos Valério produziam algumas ações publicitárias, mas a vasta maioria dos valores repassados pelo governo servira tão somente para abastecer o mensalão. A segunda fonte de financiamento, chamada de “secundária”, estipulava que Marcos Valério seria ressarcido pelos pagamentos aos políticos por meio de contratos de lobby com empresas dispostas a se aproximar da Presidência da República. Foi o caso do Banco Rural, que tentava obter favores do Banco Central e do banqueiro Daniel Dantas, que precisava do apoio dos fundos de pensão das estatais.

Das dezenas de novos beneficiários identificados, o mais representativo é Freud Godoy. O segurança pessoal de Lula ficou conhecido na campanha de 2006, quando recebeu de Lula a alcunha de Aloprado, em razão de seu envolvimento com a turma que foi presa num hotel de São Paulo, tentando comprar um dossiê contra o tucano José Serra. (Às vésperas daquelas eleições, a PF divulgou uma foto exibindo seis vistosos pacotes de dinheiro em cima de uma mesa. Nunca se descobriu a origem do dinheiro.) Freud não é apenas segurança de Lula. É amigo do ex-presidente, relação que nasceu nos anos 80 e sobrevive até hoje. Até o episódio dos aloprados, onde quer que Lula estivesse, lá estava Freud. Não era uma sombra barata. Em 1998, Freud profissionalizou seus serviços e criou uma empresa. No escândalo dos aloprados, descobriu-se que essa empresa, a Caso Comércio, recebeu R$ 98 mil da SMP&B, uma das agências de Marcos Valério. O pagamento dera-se em 21 de janeiro de 2003. Diante dos milhares de operações bancárias nas contas do publicitário, poderia haver uma explicação plausível e legal para a transação. Algum serviço poderia ter sido prestado normalmente. Quando essa informação veio a público, porém, Freud e Marcos Valério silenciaram sobre o motivo do pagamento. Restou a suspeita de que haveria alguma ilegalidade.

Os delegados da PF foram atrás de Freud – e ele narrou, em depoimento, que o dinheiro serviu para cobrir parte dos R$ 115 mil que lhe eram devidos pelo PT, em razão dos serviços prestados durante a campanha presidencial de 2002. Segundo Freud, tratava-se de despesas de “segurança, alimentação, transporte e hospedagem de equipes de apoio”. O segurança contou que, após a campanha, foi ao comitê eleitoral do PT cobrar a dívida. Os responsáveis pelo comitê, cujos nomes Freud não revela, deram-lhe o número de telefone de uma empresa que resolveria a pendência. Ele ligou e descobriu que se tratava da SMP&B. “Jamais mantive contato com Marcos Valério”, disse Freud à PF. Os funcionários de Marcos Valério pediram que ele lhes fornecesse uma nota fiscal. Ato contínuo, Freud recebeu o cheque de R$ 98 mil pelos Correios. O segurança afirmou que não havia contrato entre sua empresa e o PT, nem qualquer registro contábil das despesas. Em suma: um amigo de Lula, que sempre prestou serviços a ele, recebeu dinheiro ilegal para pagar suas despesas trabalhando para o ex-presidente. É a primeira vez em que se descobre uma ligação direta entre o esquema de Marcos Valério e alguém da intimidade de Lula.

LADO A LADO
O ex-presidente Lula caminha na Granja do Torto
na companhia de seu segurança Freud Godoy,
em dezembro de 2002, na transição de governo.
Freud era, na ocasião, remunerado por Marcos Valério

Marcos Valério detinha uma capacidade espantosa de unir amigos e dinheiro. Sabia como conquistar os poderosos – ou conquistar amigos dos poderosos. Deu dinheiro ao amigo de Lula, o ex-presidente, e também a um grande amigo da atual presidente, Dilma Rousseff. Fernando Pimentel conhece Dilma desde os tempos de luta armada contra o regime militar. Mineiros, ambos militaram juntos, dividindo aparelhos e ideais. A presidente confia a tal ponto em Pimentel que delegou a ele parte da coordenação política de sua campanha presidencial. Não se arrependeu. Hoje, como ministro do Desenvolvimento e confidente de Dilma, Pimentel ocupa espaço no primeiro time da Esplanada. Quando eclodiu o mensalão, surgiram suspeitas de que Rodrigo Barroso Fernandes, tesoureiro de sua campanha vitoriosa à prefeitura de Belo Horizonte, em 2004, recebera dinheiro do valerioduto. Naquele momento, quando as denúncias se sucediam em turbilhão, a suspeita diluiu-se em meio a tantas outras.

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A metamorfose ambulante

Ao longo de seu governo, o ex-presidente Lula mudou sua retórica sobre o escândalo. Passou da indignação à negação

"Não interessa se foi A, B ou C, todo o episódio foi como uma facada nas minhas costas" - Lula, em dezembro de 2005, sobre o episódio do escândalo do mensalão

"Mensalão é uma farsa" - Lula, em conversa com José Dirceu durante o café da manhã no Palácio da Alvorada em 18 de novembro de 2010. Na ocasião, o ex-presidente avisou que quando deixasse o governo iria trabalhar para desmontar o mensalão

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A PF, contudo, perseguiu a pista. Rastreando as contas do valerioduto, os investigadores comprovaram que o assessor de Pimentel recebeu um cheque de R$ 247 mil de uma das contas da SMP&B no Banco Rural. Quando? Em 12 de agosto de 2004, período em que a campanha de Pimentel começava a engrenar. Ouvido pelos delegados, Rodrigo Barroso se recusou a dar explicações. Preferiu o silêncio. Diante disso, a PF recomendou ao procurador-geral da República que processe o assessor, ao menos, por lavagem de dinheiro. Segundo a PF, as evidências sugerem fortemente que a campanha do ministro Pimentel tenha sido financiada com dinheiro do valerioduto. Pimentel afirmou que não comentaria o caso sem antes ler o relatório.

Dinheiro para pagar campanha era artigo abundante no valerioduto. Nas eleições de 2004, além de Pimentel, Marcos Valério, naturalmente por ordens do comando do PT, repassou recursos a duas outras candidaturas do partido em São Paulo: a de Emídio de Souza à prefeitura de Osasco (R$ 189 mil) e a do hoje deputado Vicente Paulo da Silva, o Vicentinho, à prefeitura de São Bernardo do Campo (R$ 17 mil). Entre os novos beneficiários do PT, a PF descobriu uma militante que trabalhou para Ivan Guimarães, então presidente do Banco Popular, que pertence ao Banco do Brasil. A funcionária, Renata Maciel, sacou R$ 150 mil na agência do Rural, em plena Avenida Paulista. A operação aconteceu em novembro de 2004, logo após o período eleitoral. Em seguida, ela passou a trabalhar numa joalheria que pertencia a Ivan Guimarães. Há muito mais operações de caixa dois em eleições, como no PT de Alagoas. Mais incomuns são casos como os do ex-ministro Pimenta da Veiga e do deputado José Mentor, que receberam uma dinheirama do valerioduto, disseram que prestaram serviços a ele como advogados – mas não convenceram a PF (leia os quadros anteriores).

O segredo para os investigadores desvendarem as engrenagens de lavagem de dinheiro armadas pela quadrilha de Marcos Valério está nas contas do publicitário que recebiam recursos do fundo Visanet, em tese destinado ao marketing de cartões da bandeira Visa. Somente no governo Lula, o fundo repassou R$ 68 milhões às agências de Marcos Valério. Ao analisar os milhares de transações bancárias do esquema, os peritos perceberam que a saída de dinheiro para os políticos coincidia com a entrada de recursos desse fundo, liberados pelo Banco do Brasil. A partir dessa descoberta, foi possível rastrear o caminho do dinheiro: ele saía de duas contas de Marcos Valério no Banco do Brasil, transitava pelo Banco Rural e, em seguida, era repassado aos beneficiários reais (leia o quadro "Os novos beneficiários"). Essa mesma linha de investigação possibilitou a descoberta de recursos desviados a parentes de políticos, como o irmão do senador Romero Jucá e o genro do ex-senador Marco Maciel, do DEM.

O JUIZ DO CASO
O ministro Joaquim Barbosa, em seu gabinete no Supremo.
Ele recebeu o resultado das investigações da PF
e é o relator do processo do mensalão

O relatório da PF demonstra que, dos cerca de R$ 350 milhões recebidos pelas empresas de Valério do governo Lula, os recursos que mais se destinaram aos pagamentos políticos tinham como origem o fundo Visanet. Pela falta absoluta de controles internos no banco, esse fundo permitia desvios com mais facilidade. Para completar, o banco costumava adiantar os recursos antes que quaisquer serviços fossem prestados. Diz o relatório: “O adiantamento de recursos vinculados ao Visanet configurava, assim, uma das principais fontes de recursos do esquema montado por Marcos Valério para o financiamento político e consequente montagem de redes de influência, vez que o desvio desta verba era facilitada pela total inexistência de qualquer contrato formal para sua execução, bem como pela ausência de formalização de instrumento, ajuste ou equivalente para disciplinar as destinações dadas aos adiantamentos oferecidos às agências de publicidade”.

A pedido do ministro Joaquim Barbosa, a PF desvendou um dos mistérios mais estranhos do governo Lula: a relação do banqueiro Daniel Dantas com o PT. Antes de chegar ao poder, os líderes do partido sempre combateram a gestão de Dantas à frente do grupo que coordenava os investimentos dos principais fundos de pensão do país. Quando Lula assumiu, Dantas estava envolvido numa briga aberta para manter o controle desses investimentos, sobretudo da Brasil Telecom, um gigante do mercado de telefonia. O PT passou, então, a emitir sinais conflitantes sobre que lado assumiria nessa disputa. Alguns integrantes do governo articulavam para derrubá-lo, enquanto outros hesitavam em tomar lado. Em depoimento à PF, Dantas disse que, em meio a esse cenário ambíguo, foi convocado pelo então ministro da Casa Civil, José Dirceu, para uma reunião no Palácio do Planalto.

Segundo Dantas, o encontro deu-se no dia 4 de maio de 2003. Na reunião, Dirceu teria dado sinal de uma oportunidade de conciliação com Dantas e encarregado o então presidente do Banco do Brasil, Cássio Casseb, de manter diálogo com o banqueiro. Onze dias depois, Carlos Rodemburg, sócio de Dantas, encontrou-se com Marcos Valério e Delúbio Soares no hotel Blue Tree, em Brasília, na suíte do tesoureiro do PT. De acordo com o depoimento do sócio de Dantas, Delúbio disse que o partido estava com um “deficit” de US$ 50 milhões – e pediu dinheiro. Não foi dito abertamente, mas o subtexto era evidente: se Dantas pagasse, teria ajuda do governo para se manter à frente de seus negócios.

À PF, Dantas disse que se negou a pagar. Procurado por ÉPOCA, Dantas confirmou, por meio de sua assessoria, o que afirmara em seu depoimento – inclusive o pedido de “ajuda” de Delúbio. E deu suas razões para não ter aceitado a oferta: “O Opportunity (banco comandado por Dantas) era gestor do fundo de investimentos que abrigava recursos do Citigroup. O banco americano foi consultado. A decisão do Citigroup foi informar que não tinha como ajudar”. Também afirmou que, depois de Rodemburg informar Delúbio da negativa, passou a ser perseguido pelo governo.

Dois anos depois, não se sabe por que, a Brasil Telecom, empresa ainda controlada por uma subordinada de Dantas, celebrou dois contratos com a agência DNA, de Marcos Valério, cada um deles no valor de R$ 25 milhões. Os depoimentos dos funcionários da Brasil Telecom à PF revelam que os contratos foram fechados em poucos dias, sem que ninguém da área de marketing soubesse dos motivos das pressa, nem sequer que serviços seriam prestados. Semanas depois, sobreveio o escândalo do mensalão. Apenas R$ 3,6 milhões foram efetivamente repassados às contas de Marcos Valério. Ao rastrear o dinheiro, a PF verificou que os recursos chegaram a doleiros paulistas – e ainda não descobriu a identidade dos beneficiários finais. Para os investigadores, os destinatários foram indicados pela turma do PT e do publicitário Marcos Valério. Na resposta que enviou por meio de sua assessoria, Dantas omitiu a existência desses contratos. Afirma o relatório: “Os contratos (...) foram celebrados apenas com o objetivo de conferir a fachada de legalidade necessária para a distribuição de recursos, na forma de doações clandestinas ou mesmo suborno, negociados ao longo de dois anos entre os representantes dos grupo Opportunity e do Partido dos Trabalhadores, sempre com a indelével intermediação do empresário Marcos Valério Fernandes de Souza”.

As provas reunidas pela PF constituem a última esperança do ministro Joaquim Barbosa e da Procuradoria-Geral para que o Supremo condene os réus do mensalão. Nos últimos anos, as opiniões dos ministros do STF sobre o processo modularam-se ao ambiente político – que, sob a liderança simbólica e moral do ex-presidente Lula, fizeram o caso entrar num período de hibernação. Alguns ministros, que em 2007 votaram por acatar a denúncia do Ministério Público, agora comentam reservadamente que as condenações dependem de “mais provas”. Hoje, portanto, o Supremo se dividiu. Não se sabe o desfecho do processo. Sabe-se apenas que, quanto mais tempo transcorrer, maior a chance de absolvição dos mensaleiros. Se isso acontecer, a previsão feita por Delúbio Soares, num passado não tão remoto, num país não tão distante, vai se materializar: o mensalão virará piada de salão. Será o retorno da ficção: era uma vez um país sério.

Relatório da PF confirma mensalão no governo Lula

Agência Estado

Documento divulgado pela revista 'Época' mostra que fundo com participação do BB foi um dos principais financiadores do esquema de Marcos Valério

BRASÍLIA - Relatório final da Polícia Federal confirma a existência do mensalão no governo de Luiz Inácio Lula da Silva. Depois de seis anos de investigação, a PF concluiu que o Fundo Visanet, com participação do Banco do Brasil, foi uma das principais fontes de financiamento do esquema montado pelo publicitário Marcos Valério. Com 332 páginas, o documento da PF, divulgado pela revista "Época", joga por terra a pretensão do ex-presidente Lula de provar que o mensalão nunca existiu e que seria uma farsa montada pela oposição.

Dida Sampaio/AE
Marcos Valério
chega ao Conselho de Ética da Câmara para depor, em 2005

O relatório da PF demonstra que, dos cerca de R$ 350 milhões recebidos do governo Lula pelas empresas de Valério, os recursos que mais se destinaram aos pagamentos políticos tinham como origem o fundo Visanet. As investigações da PF confirmaram que o segurança Freud Godoy, que trabalhou com Lula nas campanhas presidenciais de 1998 e 2002, recebeu R$ 98,5 mil do esquema do valerioduto, conforme revelou o Estado, em setembro de 2006. A novidade é que Freud contou à PF que se tratava de pagamento dos serviços de segurança prestados a Lula na campanha de 2002 e durante a transição para a Presidência - estabelecendo uma ligação próxima de Lula com o mensalão. No depoimento, Freud narrou que o dinheiro serviu para cobrir parte dos R$ 115 mil que lhe eram devidos pelo PT.

O relatório da PF apontou o envolvimento no esquema do mensalão, direta ou indiretamente, de políticos como o hoje ministro do Desenvolvimento, Fernando Pimentel, do PT. Rastreando as contas do valerioduto, os investigadores comprovaram que Rodrigo Barroso Fernandes, tesoureiro da campanha de Pimentel à prefeitura de Belo Horizonte, em 2004, recebeu um cheque de R$ 247 mil de uma das contas da SMP&B no Banco Rural. As investigações confirmaram também a participação de mais sete deputados federais, entre eles Jaqueline Roriz (PMN-DF), Lincoln Portela (PR- MG) e Benedita da Silva (PT-RJ), dois ex-senadores e o ex-ministro tucano Pimenta da Veiga.

Segundo a revista "Época", a PF também confirmou que o banqueiro Daniel Dantas tentou mesmo garantir o apoio do governo petista por intermédio de dinheiro enviado às empresas de Marcos Valério. Dantas teria recebido um pedido de ajuda financeira no valor de US$ 50 milhões depois de se reunir com o então ministro da Casa Civil José Dirceu. Pouco antes de o mensalão vir a público, uma das empresas controladas por Dantas fechou contratos com Valério, apenas para que houvesse um modo legal de depositar o dinheiro. De acordo com o relatório da PF, houve tempo suficiente para que R$ 3,6 milhões fossem repassados ao publicitário.

As investigações comprovaram ainda que foram fajutos os empréstimos que, segundo a defesa de Marcos Valério, explicariam a origem do dinheiro do mensalão. Esses papéis serviram somente para dar cobertura jurídica a uma intrincada operação de lavagem de dinheiro. De acordo com o relatório da PF, houve duas fontes de recursos para bancar o mensalão e as demais atividades criminosas de Marcos Valério. A principal, qualificada de "fonte primária", consistia em dinheiro público, proveniente dos contratos do publicitário com ministérios e estatais. O principal canal de desvio estava no Banco do Brasil, num fundo de publicidade chamado Visanet, destinado a ações de marketing do cartão da bandeira Visa. As agências de Marcos Valério produziam algumas ações publicitárias, mas a vasta maioria dos valores repassados pelo governo servira tão somente para abastecer o mensalão.

A segunda fonte de financiamento, chamada de "secundária", estipulava que Marcos Valério seria ressarcido pelos pagamentos aos políticos por meio de contratos de lobby com empresas dispostas a se aproximar da Presidência da República. Foi o caso do Banco Rural, que tentava obter favores do Banco Central e do banqueiro Daniel Dantas, que precisava do apoio dos fundos de pensão das estatais.

Qual será a taxa de sucesso que o Bradesco receberá?

Adelson Elias Vasconcellos

Os tempos no Brasil são, sem dúvida alguma, de baixarias de todo o lado. Isto demonstra que a educação, apesar dos bilhões que nelas são jogados anualmente pelos diferentes governos, não consegue sair do buraco em que se encontra. Claro que existe a publicidade oficial e facciosa do governo federal sobre as conquistas maravilhosas do MEC ao longo do governo do PT. Mas a gente sabe, por outro lado, o quanto a propaganda oficial é mentirosa e cretina em muitos aspectos.

Com educação ruim, com maciça e falsa publicidade sobre feitos irreais, de puro delírio, ao melhor estilo soviético, o governo petista tem conseguido reter a indignação popular no seu nível mais baixo, quase irrelevante. Mais adiante há reportagens do Estão e da Revista Época contando detalhes e minúcias de um relatório da Polícia Federal confirmando que o mensalão, apesar da palhaçada de Lula, Dirceu & Gangue Corporativa Petista afirmarem ao contrário, lá está demonstrado a sua existência, naquele que talvez sido o maior escândalo de corrupção entre poderes que já aconteceu na história do país. Sequer haverá movimentos de rua em protesto aos protagonistas da vigarice, como ainda corremos o sério risco de não ver ninguém punido por desviar dinheiro público ou para benefício próprio ou para a compra da consciência de um Poder pelo outro.

Dentre tanta safadeza que o governo petista, Lula e Dilma, tem cometido, o caso da Vale e interferência ilegal, indecorosa e indevida no comando da companhia é um destes casos sem paralelo no mundo civilizado, capitalista e democrático.

O governo Dilma, desconhecendo que a Vale é uma empresa privada, com ações em cinco bolsas de valores espalhadas pelo mundo, com seu capital pulverizado entre mais de 4,0 milhões de acionistas, guardando um ressentimento descomunal pela privatização da companhia que retirou do PT a possibilidade de ali alojar, de forma absolutamente desqualificada, alguns milhares de sindicalistas e militantes incompetentes e vagabundos, resolveu acionar suas baterias de atraso para torpedear o sucesso do processo que tornou a Vale uma empresa privada.

Claro que a mudança na presidências das companhia privadas é algo que acontece todo o dia, sem traumas, sem consequências ruins para os negócios, mas sempre feito dentro das regras de civilidade, com transparência e sem este bacanal que Dilma armou contra a Vale. Por justiça, esta desgraça começou com Lula. Dilma apenas dá o acabamento de um crime.

Pois bem, a Revista Exame em sua última edição apontou os feitos de Roger Agnelli à frente da Vale, desde que assumiu sua presidência. Em uma década, Roger Agnelli elevou a receita bruta anual da Vale de 4,1 bilhões para 46,5 bilhões de dólares. O lucro líquido neste período saltou de 1,3 bilhões para estupendos 17,3 bilhões de dólares. O investimento se multiplicou de 1,5 bi para 19,4 bi de dólares. Em valor de mercado, o crescimento foi espetacular: saiu de 10 bi para 173 bi de dólares, tornando-se a segundo maior mineradora do mundo, a maior empresa privada e maior exportadora do país. Em 2010, a Vale pagou 12,5 bilhões de reais em impostos, 3 bilhões de dólares em dividendos a acionistas, e nestes dez anos, investiu cerca de 85 bilhões de dólares em aquisições de outras empresas. Como resultado, enquanto no período o IBOVESPA valorizou cerca de 365%, as ações da Vale se valorizaram em 1700%. São números estupendos, a comprovar tanto exito do processo de privatização de uma estatal que vivia à deriva, como os acertos de um administrador que apenas fez crescer a companhia que comandou por uma década.

Não poderia o governo alegar razões técnicas para a mudança de comando na Vale, seria ridículo diante dos resultados obtidos por Agnelli. No fundo, e isto é o suprassumo do absurdo, o governo quer ditar a política estratégica que deve ser seguida por uma empresa privada, logo ele, o governo federal petista, que sequer consegue cumprir minimamente suas principais funções na área de serviços públicos.

Não apenas isso: foi justamente por seguir e perseguir a política que entendeu ser a melhor para o atual momento da companhia, com aproveitamento das excelentes oportunidades da economia mundial, que a Vale cresceu e se tornou um gigante mundial.

Restam as razões políticas que, em sendo a Vale uma empresa privada, demonstra bem os propósitos rombudos e grotescos que se escondem por detrás desta “fritura”. Mas não são apenas razões políticas, há razões pessoais, caso de amor mal acabado entre Agnelli e a presidência da República, atual e anterior. E isto, senhores, coloca em risco a credibilidade do país junto aos investidores estrangeiros. Diante de tamanha falta de seriedade – e isto é dizer pouco do significado desta intromissão – não há segurança para se sustentar que o Brasil é um país amadurecido para recepcionar investimentos estrangeiros, dos quais precisamos mais do que nunca para atingir o ambicionado crescimento sustentável. Quando um governo pensa apenas em si mesmo, misturando sua mesquinharia politiqueira com assuntos privados, está dando seu recado ao melhor estilo Hugo Chavez: a de que ainda não somos nem um país sério tampouco confiável. Não estamos amadurecidos o suficiente para nos tornarmos um país civilizado, decente, onde os negócios privados são negócios privados. Agnelli deu à Vale um impulso que nem o governo Lula foi capaz de dar às suas estatais. Poderia alegar a Petrobrás. Bem, esta caixa preta da maior estatal brasileira, apesar das urdiduras matreiras praticadas pelo petismo, não consegue esconder a verdadeira história do “decantado” crescimento da Petrobrás de 2003 para cá. É que as bases que assentaram “esta mina de ouro”, estão lá atrás, e o PT, a rigor, entrou no jogo apenas para atrapalhar.  

O que impressiona não é o governo petista, seja de Lula ou de Dilma, agirem de forma tão imbecil. Isto é bem característico das esquerdas, adoradores da idade da pedra. O que não se entende, pelo menos à luz do que se sabe, é o Bradesco, também uma instituição privada, ter cedido à pressão governamental para trocar Agnelli por alguém mais afeito às pressões políticas. Como até agora o Bradesco sequer se pronunciou de forma transparente, indicando razões de bom senso para aceitar ser “pau mandado” do governo petista para a interferência inescrupulosa no comando e negócios internos da maior empresa privada do país, ficam abertas todas as alternativas, boas e más, para a submissão do Bradesco à vontade real ou imperial do Planalto.

Portanto, a questão colocada lá alto, é pertinente sim: qual foi a taxa de sucesso que o Bradesco recebeu do governo federal para ceder à política canalha de intromissão na Vale? Quais vantagens lhe serão concedidas, de forma privilegiada e exclusiva, que não serão ofertadas às demais empresas do país, para se curvar de forma tão vergonhosa?

Pode até não ser nada disso. Mas até que a direção do Bradesco venha à publico se explicar, e com clareza, sem subterfúgios, a questão permanecerá uma enorme interrogação para, principalmente, os acionistas da Vale. Afinal, por conta desta putaria federal, as ações da companhia já caíram de 46 dólares para 32 dólares. Um perda significativa que, logicamente, o governo de dona Dilma Rousseff não terá coragem de indenizar os prejudicados por sua leviandade.

Delação premiada à cubana

Nelson Motta - O Estado de São Paulo

Cuba está inovando na repressão política com um novo formato intimidatório: na série de televisão As razões de Cuba, agentes secretos saem das sombras e, de cara limpa e apresentados como heróis, contam como se infiltraram em grupos de dissidentes, de blogueiros de oposição, e até das Damas de Branco. Arrá! Sabemos quem vocês são, inimigos da Revolução a soldo do Império, é o recado dos espiões de crachá. Mas ninguém se intimidou, muito pelo contrário.

"Ele se mostrou tão solidário e curioso, que logo desconfiamos que poderia ser um espião. Temos grande know how na matéria", contou em vídeo uma blogueira cubana, às gargalhadas, ao identificar um "amigo" no programa. "Ninguém ligava para ele, não havia nada a esconder, afinal, nós não queremos o poder, mas apenas viver dignamente do nosso trabalho, expressar nossas opiniões em liberdade, viajar, ter acesso a novas tecnologias. Quem não quer ?"

O programa Ciberguerra foi sensacional - para os blogueiros de oposição. Nem se tivessem encomendado o serviço a um marqueteiro seria melhor: um "comercial" de uma hora em horário nobre, contando quem são e o que fazem esses inimigos do povo - os combatentes da liberdade que estão rompendo a cortina de chumbo da informação em Cuba. Deram os nomes, fotos e links dos contrarrevolucionários para a execração pública e - como no episódio em que Collor pediu verde e amarelo e a população saiu de preto - a delação premiou os delatados: no dia seguinte, os blogs explodiram com mensagens de apoio.

O telefone de Yoani Sanchez, estrela da nova mídia independente, não parou, e ela quase não pôde andar na rua, de tantos cumprimentos. Novos tempos. Antes, ela seria cercada por um "comitê de repúdio", as brigadas de militantes ferozes que gritam, xingam e agridem quem tem opinião diferente da oficial.

Mas velhos slogans e palavras de ordem patrióticas já não conseguem conter a ofensiva da realidade: o comunismo tropical faliu. Quando chegar o cabo de fibra ótica da Venezuela e os cubanos tiverem amplo acesso à internet, como prometeu o governo, a ditadura estará com os megabytes contados.

São iguais, mas diferentes

Carlos Brickmann, Brickmann & Associados Comunicação

Todos são iguais perante a lei, diz nossa Constituição.

Mais ou menos: e não é apenas por causa do deputado federal Jair Bolsonaro, do PP fluminense, com suas tristes declarações contra gays e negros. Não é apenas, também, pelo deputado federal Marcos Feliciano, do PSC paulista, que disse que os negros descendem de ancestrais amaldiçoados - Can, um dos filhos de Noé - e cita a Bíblia como fonte (embora religioso, nem de Bíblia ele entende).

Há no país um racismo difuso e uma homofobia mais explícita. Quando a candidata Marta Suplicy lançou suas célebres perguntas ao adversário Gilberto Kassab, "ele é casado? Tem filhos?", revelou um lado nela desconhecido - e que, exatamente por ser dela, com um ativo passado de luta contra a homofobia, foi surpreendente. Perdeu a eleição; e, sempre que empunha sua antiga bandeira, tem de se explicar. A ministra da Igualdade Racial (sim, existe! Acredite! Seu nome é Luiza Bairros) critica a frase racista de Bolsonaro com um argumento igualmente racista: "Isso demonstra como ser branco na sociedade brasileira implica determinados privilégios em detrimento dos direitos dos negros em geral".

Ou seja, todo branco - seja Dilma, seja Lula, seja o ministro Palocci, seja o ex-ministro José Dirceu - tem privilégios em detrimento dos direitos dos negros. Sua Excelência ataca os brancos como Bolsonaro atacou negros e gays. Racismo é, pois: pode até ser o outro lado da moeda, mas a moeda é a mesma.

Não se combate meio preconceito. É preciso combater o preconceito inteiro.

Os árabes
Esse negócio de descendente de árabe jogar bola com o próprio nome, como Adib, Adinã, Habib, é coisa nova no Brasil. Não faz muito tempo, usavam apelido, que dependia do tamanho do atleta: era Turquinho ou Turcão. E o presidente Ernesto Geisel não costumava se referir ao senador Pedro Simon, do PMDB, pelo nome: era "aquele turco que vai ser governador do Rio Grande do Sul".

Os judeus
Para citar o mesmo presidente Geisel, ele se referia a um dos críticos de sua política, o ex-ministro Eugênio Gudin, como "aquele judeu ordinário". Gudin nem era judeu. E "ordinário" não era exatamente a palavra com que se referia a seu crítico, mas há termos que devem ser usados apenas nos estádios, para referir-se a juízes que erraram contra nosso time.

Um adversário ideológico de Geisel, o dominicano Frei Betto, num histórico artigo para a revista Imprensa, responsabilizou os comerciantes judeus e árabes pela comemoração do Natal com Papai Noel, presentes e festas, que parece desagradá-lo.

As brincadeiras
Os fatos narrados acima são francamente discriminatórios. Mas não podem ser confundidos com brincadeiras inocentes, como se tenta agora em correntes de Internet, que acusam Lula de homofobia por ter dito ao prefeito de Pelotas que a cidade era um polo exportador de veados. O ex-governador Orestes Quércia, que iniciou a carreira política em Campinas, certa vez atendeu a uma ligação do prefeito de Pelotas já propondo a construção da Transveadônica, que ligaria as duas cidades. Deu-se mal com a brincadeira: o prefeito pelotense odiava essas piadas.

O sorriso que sumiu
Os mortos saem do cotidiano, mas o exemplo que deixam é para sempre. O ex-vice-presidente José de Alencar certamente cometeu muitos erros, tomou atitudes que não deveria tomar, estava longe de ser um santo. Ainda bem: era um ser humano, com defeitos e virtudes. Um bom sujeito.

Não era isento de pecado, mas não atirava a primeira pedra. E deu aos brasileiros o exemplo de quem enfrentava a maior das adversidades, a luta contra o câncer que o corroía há tantos anos, com um permanente sorriso. Sabia que não era imortal; mas encarava cada dia de vida como um dia a mais, como uma vitória a ser comemorada com alegria. O Brasil ficou mais triste e o Céu mais feliz.

Fique com Deus, Zé.

Dúvida pertinente
Um assíduo leitor desta coluna quer saber por que ele ajuda a sustentar uma polícia que envia centenas ou milhares de agentes a um estádio para cuidar de torcedores mal-educados, enquanto em tantos lugares habitados por pessoas ordeiras e decentes, que pagam seus impostos em dia, jamais aparece um PM.

Boa pergunta: se os clubes são entidades privadas, se vendem ingressos, se buscam o lucro, por que não arcam com serviços de vigilância particulares? Cabe à Polícia manter a ordem nas ruas - mas por que dentro dos estádios?

O mundo muda
Grupos de mulheres, no Primeiro Mundo, estão se organizando para combater o assédio sexual nas ruas - que pode ir de assobios e cantadas insistentes a tentativas de contato físico forçado. O primeiro grupo foi criado em Londres por Vicky Simister, que tinha sido perseguida nas ruas da cidade por um grupo de homens que anunciava seus objetivos de contato sexual. Chama-se Anti-Street Harassment UK, e se espalha rapidamente. Nos Estados Unidos, já existem novos grupos, e um site, o www.stopstreetharassment.com, está funcionando.

A OAB deve defender a lei, não o linchamento

Adelson Elias Vasconcellos

De todas as associações de classe no Brasil aquela que não desculpas para ignorar a lei é a OAB. O arcabouço jurídico brasileiro é sua ferramenta de trabalho. Assim, quando alguém da OAB, no caso, o seu presidente, Ophir Cavalcanti, se pronuncia deveria ter em mente que ele não pode simplesmente chegar nos microfones de algum repórter apenas com a sua opinião. Ele representa toda uma categoria que tem por obrigação de ofício conhecer nas minúcias, ao menos, o texto constitucional. Que um ministro ou ministra comete um deslize neste particular até é compreensível, pois, na maioria das vezes, sua nomeação se dá por razões de natureza política. Neste sentido, sua qualificação técnica para o cargo que ocupa nem sempre se coincide com as exigências do cargo. O ideal seria que o ministro tivesse um pingo de conhecimento sobre as questões que dizem respeito às questões inerentes ao cargo que ocupa, mas isto, e no Brasil do PT, principalmente, tem sido irrelevante. O que importa é agradar a turma que vota, conseguir o máximo de apoio para votar aquelas coisas e causas tão do agrado das esquerdas e que, costumeiramente, ferem o bom senso e até a vontade popular.

Num texto abaixo critiquei a ministra da Secretaria da Igualdade Racial que leva avante a bandeira da Desigualdade Legal, pelo seu posicionamento Bolsonaro. o obscurantista acerca das declarações imbecis do deputado. Afirmei lá, e reintero aqui, que não há lei no mundo que justifique que se obrigue alguém a gostar de de outro alguém. Isto é estupidez. As leis servem para que pessoas que alimentam preconceitos não os utilize contra indivíduos de quem não gostam. Explico: que o senhor Bolsonaro não goste da comunidade gay, isto é lá problema dele que a ninguém procede condenar. Sua opinião a respeito desta minoria em nada contraria a lei. O que não pode é assumir este sentimento em forma de atitudes que visem prejudicar a minoria gay. Enquanto, entretanto, ele se mantiver apenas no seu direito de se expressar a ninguém compete processá-lo. Da mesma forma, em relação aos negros. Muito embora todos pertençamos à RAÇA HUMANA, um debate de baixo nível, ninguém pode obrigar o deputado ou qualquer outra pessoa a gostar e morrer de amores por negros, gays, lésbicos, índios, ou qualquer outra categoria de seres humanos.

Ora, a declaração da ministra está completamente equivocada. Que ela critique a crítica do senhor Bolsonaro, está no seu direito. Não pode é atribuir ao parlamentar um crime de racismo porque crime não houve, houve o exercício de um direito de expressão. Se, e enquanto ele se mantiver neste direito, sem incitar violência de qualquer tom contra gays e negros, o máximo que se pode fazer é devolver-lhe a crítica. O deputado está errado em se expressar daquele jeito boçal? Sem dúvida, mas o erro dele, porque não infringiu nenhum dispositivo legal, e sequer cometeu crime de calúnia, é um erro de opinião. E só.

Contudo, o mesmo já não se poder dizer em relação ao posicionamento do presidente da OAB. E até vou mais longe: quando os negros se referem aos brancos com a denominação de branquelo, ou quando criam clubes onde se admitem apenas a presença de negros, branco não entra, isto é racismo? Ou será que racismo é exclusividade apenas de brancos para com negros?

Afirmou a ministra Luíza Bairros, “Isso [ocupação de espaço pelos negros] provoca reação. Para muitas pessoas, parece perda de espaço. Isso demonstra como ser branco, na sociedade brasileira, implica em determinados privilégios em detrimento dos direitos dos negros em geral”.

A menos que todos tenhamos ficado imbecilizados por um instante, o texto da ministra é muito mais racista do que as declarações cretinas de Bolsonaro. Primeiro, porque seu conceito foi generalizado, não teve exceções, nele não se encontra “há alguns”, quando afirma que “ser branco, na sociedade brasileira, implica em determinados privilégios em detrimentos dos direitos dos negros em geral”.

Claramente, são várias as questões que se colocam: primeiro, por que haveriam os negros de ter direitos diferentes dos brancos? Quais privilégios têm os brancos que não são pertencentes aos negros também? Por que os negros deveriam ter direitos exclusivos apenas por sua cor de pele diferente?

Esta discussão é estúpida na essência, é ridícula na forma, é escandalosa fora de propósito numa sociedade como a brasileira. Mostre-me o senhor Ophir Cavalcanti em que virgula da lei, a mera opinião do senhor Bolsonaro em relação aos gays, se demonstra como crime? Em que artigo ou parágrafo ou alínea da Constituição está configurado o crime que se tenta atribuir a Jair Bolsonaro?

O presidente da OAB está na função de presidente da entidade para defender sua classe sim, mas esta não pode nem deve fugir do espírito de um estado de direito democrático.

É a lei pela lei, nada acima da lei. O senhor Ophir não é presidente da OAB para defender a visão legal que melhor agrade à torcida. Está ali, acima de tudo, para defender que, na democracia, sempre prevaleça o império da lei. Se quer agradar a torcida, se quer joga o direito no meio da rua para que ele seja “amaciado” pelos tiranos de plantão, tudo bem, mas que trata de mudar de profissão e campo de atuação. Ou, então, que diga de forma transparente não ser um democrata de carteirinha.

Atacar Bolsonaro é fácil pelas idiotias que este diz, difícil, mesmo, é defender o direito que a constituição lhe confere de dizê-las. Na democracia não há lugar para “concordâncias”. Pelo contrário, democracia existe como tal pela convivência pacífica e tolerável das diferenças, coisa que, bem sabemos, inexiste nas ditaduras. Nelas, você só tem de direito de concordar com o governo. Que o digam os milhões de chineses, russos, norte-coreano, africanos de todas as plumagens e alguns milhares de cubanos que morreram em seus países pelo simples motivo de discordarem do regime. Apesar de que ainda estamos apenas na fase do linchamento moral, ainda assim, na lei, ainda somos uma democracia, onde se tem o direito de discordar até de todo mundo, mas jamais tal direito deve ser contestado, por mais tolices que possamos dizer.

Que a senhora ministra incite a violência racial, mesmo não se justificando tal parvonice, vá lá: faz parte do teatro das esquerdas e suas causas retrógradas, contudo, pega mal um presidente de uma entidade que congrega profissionais do direito desconhecer o mais elementar dos direitos, além da existência: o de livre expressão.

A única reforma possível

J.R. Guzzo, Revista Exame

Mais uma vez a reforma fiscal voltou aos holofotes – agora a novidade é que ela será “fatiada” - .Só não vale esquecer o principal: só faz sentido mudar o sistema tributário se for para cortar impostos.

É quase certo que não existe no Brasil de hoje nenhuma pessoa adulta, mentalmente sadia e no exercício de alguma responsabilidade que não concorde com a necessidade urgente de uma reforma fiscal. Todos concordam que o sistema de impostos vigente no país transformou-se numa aberração – mais do que injusto, excessivo ou simplesmente estúpido, é um conjunto de regras dementes que acabaram se transformando, possivelmente, no principal obstáculo atual para o crescimento da economia brasileira. Trata-se de um desastre para quem paga. É um desastre ainda maior para os milhões de brasileiros que, neste momento, precisam desesperadamente de prosperidade econômica mais rápida e mais intensa para terem alguma de chegar ao fim da vida numa situação melhor que a de hoje – algo mais que o precário bem-estar de “classe C” apresentado pela propaganda oficial como uma conquista sem paralelo na face da Terra. É um desastre, enfim, para o próprio poder público. O governo arrecada cada vez mais imposto, mas não consegue levar avante nenhum projeto sério de transformação da economia brasileira; o esforço extraído do sistema produtivo para atender às exigências do Fisco torna o país cada vez mais cansado, mais caro e mais desqualificado para competir.

Apesar de tudo isso, entretanto, não se mexe em nada – ou melhor, só se mexe para piorar. Por quê? Basicamente porque um desempenho fatal a respeito do que seja de fato, uma reforma fiscal. No mundo das realidades, reforma fiscal só pode significar uma coisa: redução de impostos. É claro que o sistema todo precisa ser mais lógico, mais eficaz, mais simples, etc. etc. Mas tudo isso virá automaticamente, como consequência inevitável da diminuição da carga fiscal, tanto em número de tributos quanto em valores cobrados. No mundo do governo, porém, que é onde se decidem esses assuntos, o entendimento da questão é inteiramente diferente: na verdade, acaba sendo o contrário. Reforma fiscal, na cabeça das autoridades, é um conjunto de providências destinado a tornar a arrecadação de impostos mais “racional”, ou mais “enxuta”, ou mais “eficiente”, ou mais isso e aquilo – qualquer coisa, em suma, desde que não resulte em nenhuma redução de impostos em vigor. Admite-se trocar o nome dos tributos. Admite-se que eles sejam distribuídos de outra forma entre União, Estados e Municípios, - ou que tenham prazos diferentes de recolhimento, novos modelos de guia ou mais recursos tecnológicos para ser pagos. Mas eliminar, de verdade, algum imposto? Reduzir alguma alíquota? Suprimir o pagamento em cascata? Aí já é querer demais – ou “uma visão ingênua do processo”, como nos diriam dez entre dez tributaristas oficiais.

Não é nenhuma surpresa, portanto, que o tempo vá passando e o sistema de impostos do Brasil vai se firmando como um dos piores do mundo; quanto mais se fala em “reforma”, menos reforma se faz. É claro. Além da exigência de manter a arrecadação intacta, toda a discussão sobre mudança nos impostos, em todos os governos, só se faz entre os que arrecadam impostos; jamais se solicita a opinião de quem paga. Não há, no momento, razões concretas para esperar alguma mudança séria nessa situação. Na primeira reunião do “Conselho Político” do governo, realizada dias atrás em Brasília entre a presidente Dilma Rousseff, seus principais colaboradores e o espantoso número de 17 partidos da “base aliada”, tratou-se, de novo, da necessidade “imperiosa” da reforma fiscal. Por duas vezes, no governo de seu antecessor, foram anunciadas providências na área – e com todos os 80% de popularidade da qual ele se gabava, mais o apoio dos mesmos 17 partidos, ou sabe-se lá quantos, o resultado conseguido pelo governo foi zero. Desta vez, Dilma e seus ministros falam em propor uma reforma fiscal “fatiada”; estaria aí, segundo acabam de descobrir, o caminho das pedras. Se a coisa não sai no bloco, vamos tentar aos pedaços. Quem sabe?

À meia-noite cortarei suas unhas

Alexandre Schwartsman*, Folha de São Paulo

Em qualquer caso teríamos resultados superiores aos observados, tanto em termos de redução de dívida como do desempenho dos investimentos em infraestrutura

"Despesa corrente é vida: ou você proíbe o povo de nascer, de morrer, de comer, ou de adoecer, ou vai ter despesas correntes"(O Estado de S. Paulo, 9/11/2005). Com estas palavras a então ministra da Casa Civil fulminou o projeto de ajuste fiscal de longo prazo patrocinado pelos ministros da Fazenda e do Planejamento, gestado por técnicos do IPEA, de saudosa memória.

A proposta não era particularmente agressiva (muito menos "rudimentar"). Sugeria tão-somente limitar o crescimento dos gastos públicos correntes pouco abaixo da expansão do PIB nominal. Como este saiu de R$ 2,37 trilhões em 2006 para R$ 3,67 trilhões em 2010 (ao redor de 11,5% ao ano em média), o programa propunha que os gastos correntes crescessem a uma velocidade menor, de modo a fazer com que seu valor caísse ao ritmo de 0,3% do PIB a cada ano.

Não foi o que observamos. Entre 2006 e 2010 o gasto corrente federal cresceu a um ritmo pouco superior a 12% ao ano, levando a um aumento da sua razão relativamente ao produto, de 16,2% para 16,5% do PIB. Isto pode não parecer muito à primeira vista, mas, como tenho argumentado frequentemente neste espaço, uma política econômica não pode ser analisada pelo que produziu, mas sim face ao que teria ocorrido caso políticas alternativas tivessem sido adotadas.

Imagine, portanto, o que teria ocorrido se o ajuste fiscal de longo prazo tivesse sido posto em prática, contra a opinião da ministra. Neste caso, o gasto corrente teria caído 0,3% do PIB a cada ano, atingindo 15% do PIB no ano passado. Isto é, ao invés dos gastos correntes terem chegado a R$ 608 bilhões em 2010, teriam ficado em R$ 551 bilhões, uma diferença de R$ 56 bilhões apenas no ano passado (R$ 116 bilhões entre 2007 e 2010, medidos a preços de 2010). Ainda assim, corrigido pelo IPCA, o gasto corrente teria se expandido em torno de 4,5% ao ano, mais do que a população, sem impedir, portanto, a expansão da oferta de serviços públicos.

Caso este valor tivesse sido integralmente poupado, levando em consideração o custo observado da dívida doméstica, implicaria uma redução da dívida pública da ordem de R$ 125 bilhões (3,5% do PIB) em comparação aos valores efetivamente observados. E, é bom notar, trata-se, na verdade, de uma estimativa conservadora do ganho, pois supõe que a taxa de juros teria permanecido inalterada, mesmo em face de um ajuste fiscal de magnitude razoável. Provavelmente a taxa de juros teria sido menor, adicionando-se ao efeito de um superávit primário mais alto no sentido de reduzir a dívida.

Alternativamente, os R$ 116 bilhões poupados poderiam ter se transformado em investimento adicional. O investimento federal realizado entre 2007 e 2010, medido a preços do ano passado, acumulou R$ 140 bilhões. Assim, o investimento público poderia ter sido, em média, cerca de 80% maior que o observado, atingindo nos últimos 4 anos 1,9% do PIB contra um valor observado de somente 1% do PIB. Apenas em 2010 o investimento poderia ter atingido 1,5% do PIB acima do que o observado, o que elevaria, conservadoramente, o crescimento potencial da economia ao redor de 0,4% ao ano.

Obviamente, qualquer combinação das alternativas acima também poderia ter ocorrido, já descartando, por absoluto ceticismo, a possibilidade dos recursos poupados serem devolvidos ao setor privado sob a forma de impostos mais baixos. Em qualquer caso teríamos resultados superiores aos observados, tanto em termos de redução de dívida como do desempenho dos investimentos em infraestrutura.

Isto dito, se o controle de gastos correntes "(...) é como cortar as unhas, pois se você não olhar para alguns gastos eles explodem, (...) tem que cortar as unhas sempre" (Valor Econômico, 17/3/2011), é triste que se anuncie a intenção de fazê-lo apenas quando as unhas do governo federal já fazem inveja ao próprio Zé do Caixão.

• Alexandre Schwartsman, ex-diretor de Assuntos Internacionais do Banco Central, é doutor em economia pela Universidade da Califórnia (Berkeley).

No tempo do onça

Dora Kramer - O Estado de São Paulo

Quase ninguém percebeu, inclusive porque o assunto não mereceu grande destaque nem suscitou debates: por conta de uma lei (12.034) aprovada pelo Congresso em 2009, a partir da eleição presidencial de 2014 os votos dos eleitores serão impressos assim que teclados nas urnas eletrônicas.

Com isso, a Justiça Eleitoral será obrigada a instalar impressoras em todas as cerca de 500 mil urnas que, calcula-se, serão utilizadas naquela eleição.

A iniciativa foi do PDT, que conseguiu aprovar a proposta por meio de um acordo suprapartidário feito quando da aprovação de uma "minirreforma" eleitoral que liberou o uso da internet para campanhas políticas, permitiu propaganda paga e doações de pessoas físicas na rede.

O argumento principal foi o de que a impressão do voto confere mais segurança e impede fraudes, pois permite a conferência do ato eleitoral no papel.

De certo a inspiração do PDT, partido fundado por Leonel Brizola, ainda é resquício do trauma do caso Proconsult. Aconteceu em 1982, quando da eleição de Brizola para o governo do Rio. Uma tentativa de fraude que consistia na transferência dos votos nulos e brancos para o principal adversário de Brizola, Moreira Franco, executada no sistema informatizado de apuração montado pela empresa Proconsult.

O ardil foi descoberto e denunciado pela rádio Jornal do Brasil, que fazia apuração paralela e percebeu a discrepância nos resultados.

Uma situação em nada comparável ao sistema de urnas eletrônicas, cuja eficácia - apuração de 92,5% dos votos em 1h04 na eleição do ano passado - e confiabilidade despertam interesse no mundo todo e nunca foram contestadas por partidos ou candidatos desde sua adoção.

No entendimento da Justiça Eleitoral, trata-se de um retrocesso e na percepção da Procuradoria-Geral da República, de uma ilegalidade.

Em janeiro deste ano a procuradoria entrou no Supremo Tribunal Federal com uma ação direta de inconstitucionalidade, argumentando que a impressão viola o artigo 14 da Constituição que assegura a inviolabilidade do voto, porque permitiria a identificação do eleitor por meio da associação do conteúdo do voto com a assinatura digital na urna.

"A garantia da inviolabilidade do eleitor pressupõe a impossibilidade de existir, no exercício do voto, qualquer forma de identificação pessoal, a fim de impedir qualquer tipo de coação", sustenta a ação.

A procuradoria argumenta também que há perigo de quebra do sigilo em caso de falha na impressão ou travamento da urna eletrônica porque desse modo os votos ficariam expostos à pessoa responsável por solucionar o problema do equipamento.

Essas questões serão examinadas pelo Supremo, que ainda não tem previsão para votar a Adin. Mas, a julgar pela posição dos ministros em relação ao avanço que representaram as urnas eletrônicas e o transtorno provocado pela produção de toneladas de papéis inúteis, é provável que o STF reveja mais uma decisão do Congresso tomada por razões alheias à lógica dos fatos.

Ordem unida.
Não houve intermediários nem meias palavras: a presidente Dilma Rousseff determinou ao governador Omar Aziz, do Amazonas, que aderisse ao PSD a ser criado pelo prefeito de São Paulo. Aproveitou o ensejo para mandar um recado ao senador Sérgio Petecão, do Acre, orientado a fazer o mesmo.

Ambos são filiados ao PMN, da base do governo.

Mercado futuro.
Kassab já disse a mais de um interlocutor que sua ideia não é concorrer ao governo de São Paulo em 2014.

Ele quer disputar sim uma eleição majoritária, mas o alvo é o Senado.

O gato comeu.
Inflação subindo, custo de vida disparando, risco de uma explosão de preços, e os tucanos, em cujo governo se derrubou a inflação e se estabilizou a moeda, calados.

Depois não sabem por que lhes roubam a bandeira da estabilidade.

Não concordo com nada do que Bolsonaro disse, mas defendo o direito de dizê-las.

Adelson Elias Vasconcellos

Infelizmente, a falta de educação do país, vai causando estragos cada dia mais visíveis. Tem gente que ainda não percebeu o que caracteriza um país democrata. A opinião expressa pelo deputado Jair Bolsonaro, sobre negros e gays, é um estupidez explícita? É sim. Contudo, mais estúpidos são os que em nome de uma causa, não conseguem separar o que seja uma opinião pessoal, direito que o deputado exerce de acordo com a Constituição, do que seja uma manifestação de racismo ou preconceito.

Ninguém é obrigado a gostar de ninguém. Esta ditadura de “aceitação” está longe de se impor sobre todos e qualquer indivíduo está livre para se manifestar sobre se gosta ou não, se simpatiza com A ou B, ou não. Nem precisa o alvo desta opinião pertencer a estas minorias que adoram impor-se de forma ditatorial. Pode até ser o vizinho do lado de casa.

Estas manifestações que estamos assistindo, a partir de uma opinião em que um parlamentar se manifestou contra grupos, nada tem a ver com racismo ou preconceito.

Para que o racismo se caracterize é preciso que se vá um pouquinho adiante de uma simples opinião contra quem quer que seja. É preciso haver algum tipo de atitude hostil. O racismo, quando caracterizado, é um crime previsto e tipificado em lei. Onde se estampa em uma simples opinião esta transgressão?

Esta palhaçada que se tenta emplacar na sociedade brasileira, com a criação de leis contra a homofobia é de uma imbecilidade dolorosa. Ninguém, repito, ninguém, está obrigado a aceitar fulano ou beltrano, ou lhe reverenciar juras sentimentais. Que o senhor Bolsonaro é estúpido, ignorante e até se pode dizer uma pessoa odiosa, pelas opiniões e manifestação que faz, é um fato. Porém, em momento algum ele feriu qualquer lei antiracista.

Você pode não gostar ou concordar com as opiniões do deputado, porém, também é fato que ninguém lhe pode negar o direito de expressá-las. Ou será que o direito de expressão é válido apenas para com as opiniões que a maioria admite?

Este é o ponto: em momento algum Bolsonaro incentivou ações contra quem quer que seja. Deu sua opinião sobre grupos que defendem causas, causas estas que, na sua concepção idiota, são imbecis. Contudo, aos que não concordam com sua opinião se percebe, claramente o preconceito contra quem pensa diferente da maioria dos “pensadores” politicamente corretos. Que Bolsonaro seja preconceituoso é uma coisa, como preconceituosos também o são os que hoje se levantam contra a sua voz para atacá-lo.

Que Bolsonaro seja julgado pelas pretensas ofensas que suas declarações destrambelhadas possam ter atingido alguém em particular. Contudo, que não se ataque a liberdade de expressão por ele pensar diferente de certos grupos. É um direito, ponto. Incrível é ver uma ministra da tal Igualdade Racial, que sequer conhece a natureza da sociedade brasileira, falar em racismo. Sem dúvida, o debate político no Brasil cada dia mais se reveste de pura ignorância. Ser diferente, pensar diferente, agir diferente só é válido para um lado, jamais para as duas avenidas do pensamento.

Quando Bolsonaro se expressou em relação a profissionais formados a partir de cotas raciais, nada mais fez do que levantar uma questão importante: bons profissionais são fruto de boa formação e muito esforço individual. Sua graduação se deveu ao fato de terem merecido o diploma, ao contrário dos cotistas que se formarão profissionais, com ou sem mérito algum. Cor de pele é algum juízo de valor sobre a capacidade de alguém ser bom ou mau profissional? Assim como ele não concorda com a política de cotas, grande parte da sociedade brasileira, e que não é racista, diga-se de passagem, também não concorda. É um privilégio indevido e não meritório. E dentre estes que discordam, há contingentes de brancos, negros, pardos. Ou será que discordar das cotas, pelo fato de ser branco é prenúncio de racismo, mas se for negro ou pardo, seria apenas fruto de4 desinformação? Convenhamos, um pouco de juízo e bom senso não faria mal algum a ninguém!!!

É bom que o país retome o bom senso do debate com urgência: a cada dia se percebe uma cisão social, derivada de um racialismo que se está incrustando no sentimento das pessoas, movidos por grupos que, em nome da igualdade, criam ações separatistas. Vão moldando na sociedade, grupos antagônicos, classes privilegiadas de gêneros e pele que representam muito mais um total obscurantismo.

Uma sociedade como brasileira não tem um perfil único de pessoas: é a soma de diferentes indivíduos, cada um dotado de características próprias, com diferentes graus de cultura. A sociedade não feita apenas de brancos, ou negros ou índios. Nossa etnia é fruto da soma destas três origens. A soma de todas resultou num povo moldado em diferentes da raça humana. A própria ciência já comprovou que os negros brasileiros tem seu DNA muito mais europeu do que africano, razão pela qual é uma estupidez se tentar triunfar uma origem afro-brasileira ou afrodescendente. Neste caso, fica claro que os grupos de negros que se organizam em torno de uma causa de igualdade racial, no fundo, sentem é vergonha de sua origem europeia, uma vez que entende que o traço africano lhes oportuniza mais concessões diante de todo o país. Se consideram mais brasileiros do que os brancos, se acham donos de privilégios em razão do passado escravocrata do que apelam para benefícios sociais além do próprio mérito do esforço pessoal. De repente, homossexuais, masculinos ou femininos, também querem para si a criação de guetos especiais, com direitos especiais, com privilégios especiais a sua condição ou opção sexual. Ou seja, estes guetos de apaniguados, resolveram criar um país a parte, com leis e amparo do Estado especiais, apenas fruto de sua condições de cor ou de opção sexual. Tentam criar códigos morais apenas para si, esquecendo-se de que todos são iguais perante a lei.

Ou seja, querendo defender suas causas de igualdade, querem se apartar do grupo social e serem reconhecidos como grupo a parte. Infelizmente, sua causa tende a gerar aquilo contra o qual levantam sua voz: o próprio racismo, mas não mais apenas derivado da cor da pele, o que já seria uma aberração, mas também por conta de sua orientação, sexual, religiosa, política e assim por diante. É a ignorância suprema tentando tomar conta do bom senso. A isso chegamos, infelizmente.

Um detalhe final: Bolsonaro é deputado porque um grande número de eleitores o elegeu. Ele hoje é o que sempre foi: estúpido, grosseiro, mal educado. Assim, ele não caiu no Congresso de graça, não. Agora reparem: quem escolhe Bolsonaro, também escolhe Maluf, Jader Barbalho, Renan Calheiros, dentre outros. E depois ainda querem que o STF faça pelo povo aquilo que o próprio povo foi incompetente de fazer, isto é, de escolher direito seus representantes, ou ao menos aqueles que sabidamente são pessoas honestas, cultas e bem formadas? Ora, tenham a paciência! Não há lei Ficha Limpa capaz de fazer o eleitor ser melhor do que é em suas escolhas. Para isto, o único caminho é pela educação. Neste caso, porém, onde está a preocupação da própria sociedade com o nível de ensino dos jovens e crianças?

Olha, é bom que a sociedade eleve um pouco o nível sobre a discussão de certos temas: a continuar neste embalo, chegaremos ao tempo em que ser branco, heterossexual, democrata, liberal e defensor das leis, ainda serão tornados crimes hediondos.

Bolsonaro deveria levar uns cascudos e ser criticado pelo conteúdo do que disse, mas jamais por conta disso ter seu direito de expressar o que pensa. A democracia nos cobra um preço por vezes muito alto para ser mantida e desenvolvida na sua plenitude, e uma delas, é a convivência que deve ser harmoniosa e pacífica com aqueles que pensam e se expressam de forma diferente da maioria.

Bolsonaro e o fuzilamento da direita

Guilherme Fiuza, Revista Época

No Brasil de hoje, como se sabe, ninguém é de direita. Ou melhor: a direita existe, mas é uma espécie de sujeito oculto, que só aparece para justificar os heróicos discursos da esquerda - eterna vítima dela. Lula governou oito anos, promoveu seus companheiros aos mais altos cargos e salários estatais, fez sua sucessora, e a esquerda continua oprimida pela elite burguesa. É de dar pena. Nessa doce ditadura dos coitados, é preciso cuidado com o que se fala. Os coitados são muito suscetíveis. Foi assim que o deputado federal Jair Bolsonaro foi parar no paredão.

Bolsonaro é filiado ao Partido Progressista, mas é uma espécie de reacionário assumido. Defende abertamente as bandeiras da direita - que, como dito acima, não existem mais. Portanto, Bolsonaro não existe. Mas fala - e esse é seu grande crime. Depois da polêmica entrevista do deputado ao CQC, da TV Bandeirantes, o líder do programa, Marcelo Tas, recebeu e-mails de telespectadores revoltados. Parte deles protestava contra o próprio Tas, por ter dado voz a Jair Bolsonaro. Na Constituição dos politicamente corretos - assim como nas militares -, liberdade de expressão tem limite.

A grande barbaridade dita por Bolsonaro no CQC, em resposta à cantora Preta Gil, foi que um filho seu não se casaria com uma negra, por não ser promíscuo. Uma declaração tão absurda que o próprio Marcelo Tas cogitou, em seguida, que o deputado não tivesse entendido a pergunta. Foi exatamente o que Bolsonaro afirmou no dia seguinte. Estava falando sobre homossexualismo e não percebeu que a questão era sobre racismo: “A resposta não bate com a pergunta”, disse o deputado.

Se Jair Bolsonaro é ou não é racista, não é essa polêmica que vai esclarecer. No CQC, pelo menos, ele não disparou deliberadamente contra os negros. Estava falando de promiscuidade, porque seu alvo era o homossexualismo. O conceito do deputado sobre os gays é, como a maioria de seus conceitos, reacionário. A pergunta é: por que ele não tem o direito de expressá-lo?

Bolsonaro nem sequer pregou a intolerância aos gays. Disse inclusive que eles são respeitados nas Forças Armadas. O que fez foi relacionar o homossexualismo aos “maus costumes”, dizendo que filhos com “boa educação” não se tornam gays. É um ponto de vista preconceituoso, além de tacanho, mas é o que ele pensa. Seria saudável que os gays, com seu humor crítico e habitualmente ferino, fossem proibidos de fustigar a truculência dos militares? A entrevista também passou pelo tema das cotas raciais. Jair Bolsonaro declarou o seguinte: “Eu não entraria num avião pilotado por um cotista. Nem aceitaria ser operado por um médico cotista”.

É a resposta de um reacionário, um dinossauro da direita, prescrito pelas modernas ideologias progressistas e abominado por sua lealdade ao regime militar. Mas é uma boa resposta. E agora? Agora o Brasil bonzinho vai fazer o de sempre: passar ao largo do debate e choramingar contra a direita. Eis um caminho de risco zero. Processar Bolsonaro, o vilão de plantão, é vida fácil para os burocratas do humanismo. No reinado do filho do Brasil, até o nosso Delúbio, com a boca na botija do mensalão, gritou que aquilo era uma conspiração da direita contra o governo popular. O filão é inesgotável.

Cutucar o conservadorismo destrambelhado de Bolsonaro é atração garantida. Mas censurá-lo em seguida não fica bem. Parece até coisa dos antepassados políticos dele. A metralhadora giratória do capitão dispara absurdos, mas não está calibrada para fazer média com as minorias - e isso é raro hoje em dia. De mais a mais, se manifestantes negros podem tentar barrar um bloco carnavalesco que homenageia Monteiro Lobato, por que um deputado de direita não pode ser contra o orgulho gay e as cotas raciais? Vai ver o preconceito também virou monopólio da esquerda.